sábado, 20 de agosto de 2016

À VOLTA DA VELA APAGADA


 
Nessas visitas de reconhecimento ou de "ajuda e controlo", como as chamávamos noutro tempo,  fui ver a minha prima Rosária Albano, no Morro da Luz. A velha Rosária, como a tratamos carinhosamente, é uma pessoa de paz permanente, sem os fingimentos natalícios, e está sempre a rir e a fazer sorrir os que a cercam contando cenas, umas verdadeiras e outras que inventa para entreter os sobrinhos e netinhos. No oeste de África, ela estaria próxima de uma griot.

Ainda não sei por que razão, sempre que estamos juntos, ela não se esquece de perguntar a minha idade e eu, sabendo da sátira que vem sempre da boca dela, vezes há em que aumento mais uns meses ou mesmo uns anitos, só para adoçar a conversa.

Desta vez, começou a falar sobre a idade que eu e suas filhas tínhamos quando se deu a trafulha. E dizia a velha Rosária para a Remisa, a segunda das suas filhas, que "quando chegou a trafulha ela, agora já senhora, contava com apenas dois anos, sendo que a Geny, que vem a seguir à Remisa, estava no sexto mês de gestação". E foi tudo a propósito de quem era o mais velho entre eu e as suas duas filhas em presença.

A minha atenção redobrada para a leitura correcta do seu discurso levou-me a descodificar o que chamou ela de trafulha (confusão dos movimentos, antes e depois da independência de Angola).

- Mana, eu, a trafulha já me encontrou. - Expliquei para aclarar a questão das idades.

- Você, assim, tem já quantos anos? - Questionou ela, para depois acrescentar que "só sabia da data certa do nascimento dos seus dois primeiros filhos", pois era ainda moça, e recitou as datas com dia, hora e tudo.

- A Angelina nasceu no dia 15 de Setembro de 1965. Ela e o Segunda foi quase escadinha. Criei a Angelina só um ano. No ano seguinte, 01 de Agosto de 1967, nasceu o Segunda. O Toy e o Roque (filhos de uma irmã e uma prima respectivamente) nasceram em 1968. - Acrescentou a septuagenária.

Todos seguíamos atentos, inclusive os netos dela e o meu primogênito, Mociano que se acha mais dado às contas do que às estórias, dado o seu curso de Arquitectura.

- E por que a mana se lembra da data de nascimento dos primeiros filhos e não dos outros? - Voltei a indagar, antes ainda que lhe respondesse sobre a minha idade.

- Bem, essa aqui, apontava para a Remisa, enquanto buscava outra data memorável, é a que estava nas costas quando fui ao óbito do soba Kitinu (meu avô materno e homónimo). Encontrei a Kilombu tinha parido naquele mesmo dia. Por isso, você Luciano não pode ser mais velho da Geny. - Explicou ela meio equivocada.

- Então, se a mana foi com a Remisa ao colo ao óbito do nosso avô e encontrou a mãe deu-me à luz naquele mesmo dia, sendo que a trafulha ainda não tinha começado e a Geny ainda não estava na barriga da mana, como é que ela se torna minha mais velha? Quando eu nasci, a Remisa era a nené do colo. Quando chegou a trafulha ela tinha dois ou três anos e eu um ano. A Geny que no ano da trafulha estava na barriga da mana terá nascido em 1976. Portanto, eu tenho 41 anos. A Remisa tem 43 e a Geny tem 39. - Esclareci.

A idosa que seguia atenta a minha explanação, abanando a cabeça de cima para baixo, em jeito de aprovação, ficou alguns segundos com a bola de funje a meio caminho entre o prato e a boca. A kisaka estava já fria e mesmo a pasta de bombô estava também com pouco calor.

- Quarenta e um anos tem o mano? É muito. E eu que te encontrei "te nasceram" naquele mesmo dia em que a  tua mãe foi chorar o pai dela, avô Kitinu, tenho quantos anos? Só pode ser 250 anos. - Concluiu sem aguardar por uma resposta.

A assistência, sobretudo os netos e o sobrinho, o meu filho, fizeram gosto à boca e riram-se um pouco da desconversa da idosa.

- Avó, no mundo não há pessoa viva com essa idade. – Retorquiram os adolescentes.

- Mas eu tenho 250 anos. Me levem no governo para me apresentar na televisão. Se o Luciano tem 41 anos, eu só posso ter mesmo 250. -  Reforçou a velha Rosaria, preparando-se para contar outras malambas seguidas, sempre de forma atenciosa, pela moçada que se diverte e aprende com a velha da família.

É que no meio de tanta brincadeira da anciã há sempre lições que ficam retidas sobre a forma digna de viver em comunidade e alguns relatos históricos que complementam a narração científica.

Já depois da minha retirada, contaram-me que a preleção prosseguiu com os netos que pretendiam mais detalhes sobre o que ela chama de trafulha.

E constou-me que ela contou tim tim por tim tim o quão dura foi a Luta pela Independência de Angola e qual dos três Movimentos “ficou com o povo, dando vacinas, cobertores, sal e roupas de fardo, quando os outros regressaram às matas de onde voltavam de forma relâmpago apenas para queimar tractores e pilhar galinhas”.

- Nós estávamos mbora com o Movimento do Neto que não fazia mal às pessoas. É por isso que chamo aqueles dias que antecederam e se seguiram à independência do tunda mindele como momentos de trafulha. - Concluiu a velha Rosária.

A vela, sobre a qual se formara uma roda, já tinha vivido a vida que lhe fora dada pelo fabricante. Sem energia eléctrica e sem outra vela substituta, os netos foram escapando um a um, chamados pelo sono. Ela continuava empolgada, ora recontando estórias ora intercalando adivinhas expressas no seu materno Kimbundu.

Porém, à medida que a roda ia ficando vazia, foi percebendo do passo apressado do relógio para o dia seguinte e, no final, a velha seguiu-os também.

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

A ALEGRIA DOS LUKALENSES


Lucala, aldeia que dista dezanove quilómetros da vila de Kibala, no Kwanza-Sul, é uma comunidade que sorri todos os dias, apesar da poeira e do frio que fazem dos corpos de seus aldeões autênticas telas de arte pictórica.
-Aqui, o cieiro não tem dia e se você põe creme, ainda é mais pior. - Desabafa Rosa José, visitante em situação de óbito de um irmão, mas também ela natural daquelas cercanias.
Apesar do frio que dizem se ter acentuado desde que a Fazenda Mbumba-Alunga construiu um dique de contenção de água que propicia a rega de enormes campos agricolas que fornecem batata do reino e outros agroalimentos ao mercado luandense e a algumas indústrias transformadoras, segundo o morador José António.
- É que o povo anda mais satisfeitos porque já tem trabalho e os empresários portugueses e brasileiros que cuparam as antigas fazendas também meteram cacusso no dique que já vai ajudando o povo. - Afiançou o camponês José António.
Quem se desloca a Lukala não precisa dos dados do censo de 2014 para se aperceber que mais de 70% da populaçao são crianças menores de 16 anos. Os agregados são compostos, em média, por 06 a 08 pessoas, não se contando aqueles que migraram para a vila (sede municipal) e Luanda em busca de estudos e ou melhores empregos para os homens que tentam a sorte nas construtoras ou negócios para o caso das senhoras.
- Aqui, o emprego é só mesmo na fazenda, onde o salário varia entre 10 a 12 mil Kwanzas. - Explica Nhange Manuel, empregado na Fazenda Mbumba-Alunga para acrescentar que, às vezes, uma pessoa com 05 filhos na escola, o dinheiro não chega para comprar os cadernos e os livros. Isso faz com que apesar de a Aldeia possuir uma escola com três salas de aulas que funciona em dois turnos, ministrando aulas a alunos da primeira à sexta classe, haja ainda uns que nao se trajem de batas brancas.
Em Lukala, enquanto uns se ocupam dos trabalhos na fazenda, outros tantos se ocupam da agricultura familiar, de onde provêm excedentes para o comércio. Os "kapuqueiros" também abundam e nao se coibem de o afirmar depois de umas canecadas, esfarrapadamente justificadas pelo excesso de frio julino.
- Nós, aqui, quando a frio aperta, a vida é mesmo essa: você passa num "katrungungo" e o frio bate
recochete. - Exibe-se Nhange, seis horas da manhã, já "katrungungado".
A pesca na albufeira da fazenda e outros biscates como o derrube de árvores para a queima de carvão, estiva de cargas diversas ou fabrico de adobes sao as fontes de rendimento dos lukalenses que optam pela queima da vida no vício alcoólico.
Fruto do surgimento de pequenos empregos agricolas e pequenos "negócios à beira da estrada" ja se vêem alguns sinais de consumismo e modismo. As antenas parabólicas vao substituindo os seroes à batucada e "xirimina" (folguedos com cançoes acompanhadas de guitarras).  Os geradores de electricidade roncam teimosos noite adentro aos fins de semana e os jovens se inspiram nos mesmos herois e vilões das grandes cidades do pais e do mundo. A "lampiagem" também faz morada em Lukala, nao se aonselhando que o visitante se distraia mantendo as portas da viatura abertas ou os pertences expostos aos olhos dos "amigos do alheio".
Quase que a copiar o verde dos talhoes cobertos de  batata do reino, regadas por pivots um campo para os trumunos se apresenta a escassos metros da escola do primeiro ciclo do ensino primário. Os jovens com vivência luandina que para aí se deslocam, chamam-no de "capinzado" em alusão ao capim selecionado para substituir a relva habitual nos campos de futebol. Para as balizas, três paus, sendo dois verticais e um pregado horizontalmente, completam o "imobiliário. Não há demarcação com cal mas os caminhos trilhados para além do "capinzal" fazem as fronteiras entre a área onde a bola é jogável e onde se consodera "bola morta".
Os ngulos, os cabritos e os bovídeos partilham a mesma água da albufeira o que torna vulnerável a saúde dos aldeoes que precisam de percorrer cinco quilómetros até ao Posto médico de Mungango ou os 19 quilómetros que separam Lukala ao Hospital Municial de "Kpala kya Samba".
Mesmo entre o que há e o que ainda falta, o povo sorri, porque afinal de contas há um bem supremo que é um facto.
- A paz que estamos com ela já nos faz viver com tranquilidade e construir nossas casas
sem medo de ser forçado a mudar para outra zona. Agora é só mesmo adobe e chapas que estamos a usar na construção. - Rematou António Katumbila, o soba da aldeia. 


 NOTA- Publicado pelo Semanario Angolense de 11 de Julho de 2015.

segunda-feira, 1 de agosto de 2016


APRESENTAÇAO DO VOL II "RETRATOS DO LIBOLO" INSERTO NO PROJETO LIBOLO

Quando somos dos últimos a falar, ou acertamos, completando o que não foi ainda dito, ou corremos o risco de ser redundante que deve ser a figura em que mais me enquadro. Porém, é também sabido que "o que ambunda não prejudica".

Senhoras e Senhores,

Excelências

É com grande honra que subo a esse palanque para uma missão difícil que é a de tentar apresentar o segundo volume da Obra Retratos do Libolo, inserida no "Projeto Libolo". Na verdade a obra já foi apresentada pelos autores e tudo o que farei será apontar alguns tópicos para aguçar a curiosidade de quem a vai ler.

Mais difícil ainda se torna a minha missão, por secundar uma figura incontornável da nossa literatura e intelectualidade libolense e nacional, o escritor Jaques Arlindo dos Santos.

Relutante, mas honrado, acedi ao convite e ao desafio, pois sou filho dessa terra e por ela também me tenho esforçado em dar-lhe a visibilidade e o conhecimento que merece na esfera nacional e internacional.

Carlos Filipe Guimarães Figueiredo é um amigo que a Ciência e as redes sociais me apresentaram. O Libolo, nossa terra, é apenas o ponto de partida e de chegada.

Imaginem, prezadas Senhoras e Senhores, ele em Macau ou Brasil e eu num distante Catoca, Lunda Sul, onde prestava Serviço.

A abordagem de temas comuns sobre a angolanidade e o nosso Libolo fez-nos próximos e aqui estamos.

Em Retratos do Libolo, Carlos Figueiredo que de forma destemida e desapaixonada (¿) palmilhou o território que se encontra entre os rios Luinga, Longa e Kwanza bem como a Estrada Nacional 120, apresenta-nos aspectos como a Geografia,  o relevo a Hidrografia e seus recursos, o clima, o solo, a fauna e a flora, o café do Libolo, e até insectos típicos.

No livro, encontramos ainda aspectos sociológicos, e históricos. Foi bom ler, por exemplo, que os nossos ancestrais foram os últimos a ser vencidos (mas não convencidos) pelos colonizadores. E já ia a findar a I Guerra Mundial.

As comunas de Kalulu, Kabuta, Munenga e Kisongu bem como as suas principais aldeias foram todas descritas  e fotografadas constituindo-se esse livro num documento de elevada importância histórica, social, antropológica e cultural.

- Haverá em Angola, nosso país, uma região, um município que tenha merecido tão detalhada radiografia?

Os meus conhecimentos, até agora, dizem que não.

E, ainda bem que somos os primeiros, pois sempre estivemos na fila de frente. Na resistência à ocupação colonial, no desenvolvimento das forças produtivas, na luta pela independência e agora na busca do conhecimento e valorização da Nossa Terra.

- Quem de entre vós conhece a Pedra Escrita de Kasala-Sala, com registo histórico, e outra que fica entre a Munenga e Lususu?

- Quem já visitou Kituma, Kuteka, Kabuta, Kitila, Kambaw, Kakulu-Kabasa, a Missão Católica e seu internato e a nossa Fortaleza da Liberdade?

Kalulenses, Libolenses, Kwanza-Sulinos, Angolanos e porque não os nossos amigos brasileiros que nos ajudam a conhecer o Libolo?!

O Libolo hoje é manchete na media nacional e internacional por causa do Clube Recreativo do Libolo, o que nos orgulha. Porém, há muito mais Libolo para a além do Desporto. Há um carnaval histórico. Há arte e imaginação. Há muluvu no Musende, Wala de Muxiri no Kisongu e carne de paca no Mukongu. Em todo o Libolo há um Kimbundu que flui e ritos de passagem para os rapazes. Há caçadas,  há namoro, o mesmo namoro que encantou Viriato da Cruz na sua carta em papel perfumado... Há casamentos e há divórcios também. Divórcio com o pensamento arcaico e despido de verdade científica.

Excelências,

Tudo o que vos disse não representa sequer um milésimo do que a obra nos proporciona, sendo que o melhor mesmo é adquiri-la e, com ela, imergir no tempo, nas comunidades, no chilrear das aves e farfalhar dos matagais.

Eventualmente alguém me pergunte:

- Será que estamos perante uma Bela sem senão?

Aqui, a minha resposta é peremptória: A minha sensibilidade artística e científica não consegue encontrar espinhos entre a Rosa que me foi dada a ler e a apresentar.

- É um trabalho de todo acabado?

A História, a cultura, as artes e tudo mais que envolvem um povo como o nosso, não se esgotam em dois livros. Os jovens nas suas aventuras e trabalhos académicos, os cientistas sociais do Libolo, no Libolo e na sua diáspora, os intelectuais de outros países como os amigos académicos brasileiro e macaenses que já vêm desvendando o Libolo, devem dar sequência. Devem complementar esses estudos que, repito, são de incomensurável valia e relevância.

Permitam-me fazer uma vênia aos patrocinadores cuja aposta propiciou o arranque deste Projecto. A eles se agradece e se pede coragem e continuidade de apoios para que tenhamos mais e melhores conhecimentos sobre o Libolo. Quem sabe, agora mapear e descrever os locais de interesse turístico e outros locais históricos?
E, despeço-me com uma breve que li recentemente, do meu amigo e também Lubolu-descendente, Drumond Jaime: “Enquanto mais conhecemos a Nossa Terra, maior é o orgulho de a Ela pertencermos”.

Muito obrigado pela vossa atenção.

Soberano Canhanga

Kalulu, Lubolu, 10.07.2016