<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-3768017225494223045</id><updated>2012-02-03T16:42:13.519Z</updated><title type='text'>ATURA-LITER-ATURA</title><subtitle type='html'>No meu espaço de INICIAÇÃO LITERÁRIA a sua crítica é muito BEM VINDA.
= ® Reservados todos os direitos ao autor deste Blog=</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://atura-liter-atura.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3768017225494223045/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://atura-liter-atura.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>"Soberano" Canhanga</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08139246140510431159</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_RGH73KYb7oc/SLKRmnddrjI/AAAAAAAAApA/4e-mjmOAaaY/S220/LCIMG_8216.JPG'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>27</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3768017225494223045.post-3244439308462876290</id><published>2012-02-02T07:15:00.007Z</published><updated>2012-02-03T16:42:13.526Z</updated><title type='text'>O CAÇADOR DE PIRILAMPOS I</title><content type='html'>NOTA: O caçador de pirilampos é uma série de pequenos contos anedóticos, um desafio a que me proponho para 2012. Espero que siga atento e ajude a nelhorar. Todo este exercício, embora grantificante para a alma, é feito pensando em si.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;1- KAFURINGA&lt;/strong&gt; E O IRMAO DA IGREJA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Numa manhã de segunda-feira Kafuringa aparece diante do chefe com os olhos todos avermelhados e aos soluços.&lt;br /&gt;- Chefe Katimba, bom dia.&lt;br /&gt;- Bom dia Kafu. Que se passa?&lt;br /&gt;- Chefe é o meu irmão. Morreu mesmo esta manhã!&lt;br /&gt;- Ai que pena. De que padecia?&lt;br /&gt;- Não chefe, não padecia. Morreu só mesmo.&lt;br /&gt;- Ok. Ok. Os meus pêsames… (olhando para o liderado) e já trazes o documento dele?! Deixa-me ver.&lt;br /&gt;- Sim chefe. Trouxe já para ver se o chefe me ajuda com uns produtos e a dispensa para o óbito…&lt;br /&gt;- Ok, meu caro Kafu. (olhando para os dados) Mas os vossos apelidos não coincidem… Eram irmãos de pai ou de mãe?&lt;br /&gt;- Não chefe, ele não é meu irmão de mãe nem de pai.&lt;br /&gt;- Humm! como assim Kafu? Então era teu primo?&lt;br /&gt;- Não chefe. É meu irmão da igreja!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3768017225494223045-3244439308462876290?l=atura-liter-atura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://atura-liter-atura.blogspot.com/feeds/3244439308462876290/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://atura-liter-atura.blogspot.com/2012/02/o-cacador-de-pirilampos-i.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3768017225494223045/posts/default/3244439308462876290'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3768017225494223045/posts/default/3244439308462876290'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://atura-liter-atura.blogspot.com/2012/02/o-cacador-de-pirilampos-i.html' title='O CAÇADOR DE PIRILAMPOS I'/><author><name>"Soberano" Canhanga</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08139246140510431159</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_RGH73KYb7oc/SLKRmnddrjI/AAAAAAAAApA/4e-mjmOAaaY/S220/LCIMG_8216.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3768017225494223045.post-2052269451383984387</id><published>2012-01-02T14:07:00.002Z</published><updated>2012-01-02T14:07:00.178Z</updated><title type='text'>O PEIXE COR-DE-ROSA</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Era uma vez, num lugar bem fundo, no mar do Amboim …&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Vivia um peixe muito belo e inteligente peixe de nome Rosa. A Rosa, que tinha as barbatanas cor-de-rosas, era tão esbelta que provocava a inveja a todos os demais elementos do seu cardume, principalmente as fêmeas. Entre elas, as fêmeas, ouvia-se sempre um murmúrio mas que nunca se pronunciava de forma aberta e directa.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Quem ela pensa que é? Uma espécie rara? - Diziam as invejosas.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Rosa, com a sua beleza ímpar, e sempre perfumada com as melhores fragrâncias que retirava das algas marinhas, desfilava pelas águas profundas do mar de Amboim. A sua inteligência permitia dar sempre conta da inveja das companheiras e das “rasteiras” que preparavam para a prejudicar, bem como das iscas e das redes lançadas pelos homens para a pescar. É que a sua fama chegava até água acima, aos homens que procuravam por peixes raros e de cores diversificadas.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Pôças, essa gata é uma brasa! – Diziam os peixes machos, todos eles galanteadores, deixando as companheiras de Rosa totalmente possuídas de ciúmes.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Com tantos elogios, inteligência e galanteios, Rosa ganhou uma inimiga declarada e determinada em eliminá-la do cardume. Era a Cinzenta. Tão feia e tão desarranjada que não havia ser vivente no mar que se parecesse a ela. A Feiosa, como era conhecida no grupo, chegava a inventar mentiras contra a Rosa.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Certo dia, havia sol aberto na terra e os pescadores resolveram ir à pesca. Era um dia perfeito para muita faina. Os homens, munidos de canoas, redes e anzóis, remaram para o mais distante possível da costa, a fim de encontrar os cardumes que no fundo do mar festejavam a clareza da água. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Num sítio em que a ausência de ondas denunciava a presença de muitos peixes, os homens lançaram as suas redes ao mar, sem se darem conta de um buraco na rede principal, aquela que tinha um tamanho menor do que o corpo de Rosa e única que a podia capturar.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Mais uma vez, a Cinzenta vendo que os machos estavam todos à volta de Rosa ficou coberta de inveja e retirou-se do sítio em que estavam, para mais fofoquinhas com as suas amigas que combinavam junto a um monte de pedras e conchas mais uma armadilha para prejudicar a Rosa. Foi no mesmo instante que os pescadores lançaram a rede ao mar apanhando-a de surpresa.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Socorro, socoooorrrrooooooooooooo! - Gritava a Cinzenta aflita, sem poder se libertar da linha que lhe apertava as guelras.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Oh, que azar! - Exclamaram os peixes ao lado, sem nada poderem fazer.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Quem a vai ajudar? - Perguntavam-se uns aos outros, sem que alguém desse o primeiro passo.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Foi aí que Rosa, mesmo sabendo que corria o risco de também ficar presa entre a rede dos pescadores, desfez-se dos companheiros e lançou-se à empreitada de salvação da Cinzenta que apenas mexia a cauda, já sem forças para se libertar nem para gritar.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Rosa, a inteligente, reparou que a rede tinha dois buracos. Entrou com jeito por um deles e pediu a Cinzenta que deixasse de respirar e puxasse o corpo para traz. Feito isso, pediu à invejosa Cinzenta que a seguisse sem se desviar da rota e ambas conseguiram sair pelo outro buraco que havia na rede.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Salva e muito feliz, Cinzenta deu um beijo à Rosa como forma de agradecimento.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- És muito melhor do que eu pensava. – Disse Cinzenta. – Desculpa-me por tudo que te fiz de mau. Aceitas?&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Desculpas aceites, amiga. - Respondeu Rosa sorridente.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Posto isso, as duas partiram abraçadas para um passeio bem mais seguro, entre rochas onde nunca seriam apanhadas por uma rede lançada por pescadores.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;strong&gt;Texto de Judith Pinto Carlos com adaptações de Soberano Canahnaga&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3768017225494223045-2052269451383984387?l=atura-liter-atura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://atura-liter-atura.blogspot.com/feeds/2052269451383984387/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://atura-liter-atura.blogspot.com/2012/01/o-peixe-cor-de-rosa.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3768017225494223045/posts/default/2052269451383984387'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3768017225494223045/posts/default/2052269451383984387'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://atura-liter-atura.blogspot.com/2012/01/o-peixe-cor-de-rosa.html' title='O PEIXE COR-DE-ROSA'/><author><name>"Soberano" Canhanga</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08139246140510431159</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_RGH73KYb7oc/SLKRmnddrjI/AAAAAAAAApA/4e-mjmOAaaY/S220/LCIMG_8216.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3768017225494223045.post-7220315250696637887</id><published>2011-12-04T14:03:00.001Z</published><updated>2011-12-04T14:03:01.358Z</updated><title type='text'>O MORCEGO DE MAYOMBE</title><content type='html'>(X conto)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Na floresta de Mayombe, Tati era um morcego feliz. Vivia com sua família e tinha tudo. Frutas abundantes, insectos com muitos nutrientes e uma família que cooperava na segurança e conforto. O ninho em que viviam era de plumas recolhidas junto a um aviário. Tati vivia em festa permanente, pois nunca lhe faltava nada.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O andar do tempo e a destruição do seu habitat trouxe, entretanto, alterações na sua vida.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Primeiro apareceram os madeireiros e derrubaram a árvore em que estava o seu ninho. Foi um dia muito triste, pois chovia muito em Mayombe e a família de Tati teve que dormir ao relento.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Quando a chuva terminou, ainda tentaram construir um outro abrigo, mas as plumas que aqueciam os abrigos ninhos tempo de chuvas ácidas estavam cada vez mais difíceis.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Depois surgiram as pestes, devido à poluição que se fazia sentir na região. As fábricas mandavam muito fumo para a atmosfera, as britadeiras faziam muita poeira e os esgotos das residências estavam todos apontados para os rios. Todos começaram a sofrer: os homens, os animais e até as plantas. Ninguém tinha um ar puro nem água potável.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Tati, o morcego de Mayombe que já era órfão de pai, perdeu a mãe e, depois, os seus cinco irmãos.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O sofrimento instalou-se e Tati começou a passar fome e falta de companhia.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Primeiro, juntou-se a um grupo de ratos que procuravam por comida debaixo duma árvore. Tati apresentou-se e contou toda a sua história: da perda da família, da destruição do ecossistema que grassava pelo Mayombe e da solidão da sua vida. Um dos ratos, Madyeco, que era por sinal o mais pequeno e muito instruído, ainda chegou a dar um abraço a Tati, mas os mais velhos, vendados pela ignorância, retiraram-se e negaram toda a aproximação com Tati.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Oh Madyeco, estás burro ou quê? Já alguma vez viste um rato com asas? Isso é obra de Satanás. Anda dali, pá! - Ordenou o mais velho do grupo de nome Ntengo.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Madyeco teve de seguir o grupo e Tati continuou sozinho. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Veio a noite e depois a manhã. Um bando de passarinhos festejava na copa da árvore a chegada do rei sol. Tati acordou e depois da higiene matinal decidiu juntar-se a eles. Os morcegos geralmente são noctívagos e não se apresentam durante o dia, mas Tati fez coragem e lá foi ter com os passarinhos. Mal se apresentou, já dois deles zombavam da sua presença.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Hi-hi-hi… - ria perdidamente Kadyembe, um passarinho conhecido na floresta pela sua loucura. - Vocês já viram, alguma vez, um parente nosso com pelos? - Perguntou outro, retirando-se posteriormente em voo rasante sobre as árvores mais baixas.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Tati sentiu-se tão mal com o comportamento daqueles jovens ignorantes que nada entendiam de convivência pacífica entre as espécies. Abordou o passarinho que parecia ser o mais velho do grupo para explicar que apenas queria conversar, já que estava sem os seus parentes, mas Ntyete, o chefe daquele bando, também o desprezou.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Sai daqui seu dentuço. Não há, por esta floresta, pássaro nenhum que tenha dentes. - Alertou ao seu grupo que se retirou de imediato.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Com a segunda desfeita, Tati não teve outra saída que não fosse o seu recolhimento ao ninho. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Com o desgosto da desfeita, Tati deixou de comer em condições e a vida para ele parecia não ter mais sentido.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Um belo dia, quando tudo parecia perdido, apareceram perto da árvore que suportava o seu pequeno ninho uns homens com roupas que se pareciam a folhas de árvores. Os homens de verde inventariavam os estragos que a desflorestação tinha causado à flora e à fauna do Mayombe. Notaram que muitas árvores tinham sido cortadas e os animais, sobretudo os morcegos que à noite embelezavam a floresta com seus voos, tinham desaparecido. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Vamos preservar a nossa herança colectiva. - Disse um deles.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Sim. Vamos recolher tudo o que for exemplar único para que possa viver e reproduzir-se. Temos de fazer com que os nossos filhos vejam árvores, pássaros e outros animais como nós víamos quando éramos pequenos. – Responderam os demais integrantes do grupo que carregavam uma enorme gaiola onde colocavam todos os passarinhos que encontravam solitários .&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Tati apercebeu-se então que podia ser salvo da morte anunciada. Fez a última força que lhe permitia o seu corpo e saiu do ninho.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Os homens recolhiam também para um zoológico os animais e as plantas que estavam em vias de extinção para os preservar. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Os ambientalistas levaram-no ao jardim zoológico de Simulambuco onde Tati vive até hoje muito feliz, com outros animais e aves de várias espécies recolhidos do Mayombe.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3768017225494223045-7220315250696637887?l=atura-liter-atura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://atura-liter-atura.blogspot.com/feeds/7220315250696637887/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://atura-liter-atura.blogspot.com/2011/12/o-morcego-de-mayombe.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3768017225494223045/posts/default/7220315250696637887'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3768017225494223045/posts/default/7220315250696637887'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://atura-liter-atura.blogspot.com/2011/12/o-morcego-de-mayombe.html' title='O MORCEGO DE MAYOMBE'/><author><name>"Soberano" Canhanga</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08139246140510431159</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_RGH73KYb7oc/SLKRmnddrjI/AAAAAAAAApA/4e-mjmOAaaY/S220/LCIMG_8216.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3768017225494223045.post-6675462214636820954</id><published>2011-11-07T03:24:00.000Z</published><updated>2011-11-07T03:24:00.648Z</updated><title type='text'>O CÃO RAFEIRO DA RUA DA LIBERDADE</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;Na cidade de Ondjiva, Twayovoka era o cão mais rafeiro da rua da Liberdade. Lutava por tudo e nada e tinha as orelhas todas estraçalhadas devido às arranhaduras e mordeduras que já sofreu. De longe, as marcas das feridas e os buracos nas orelhas pareciam argolas.&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Twendi ko Vaso, o seu amo, até já quis se desfazer dele mas a dona Nsingi, uma senhora do Zaire que gostava de cães, impediu que Twayovoka fosse morto e prometeu ficar com ele caso Twendi ko Vaso insistisse em matá-lo.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O surgimento de uma cadela em período de cio era motivo para Twayovoka se envolver em brigas com outros canídeos que se fizessem à rua. As suas lutas demoravam horas ou mesmo o dia todo e Twayovoka, o cão mais rafeiro, como também era conhecido, só deixada de brigar quando chegasse o seu amo ou a dona Nsingi. E não era fácil separá-lo dos outros cães da cidade. Era preciso dar-lhe um pedaço de frango ou um osso qualquer. A briga só terminava ao fugir dos outros, para que não cobiçassem o seu lanche.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Certa vez, numa das suas brigas, Twayovoka enfrentou um cão polícia que não lhe deu tréguas. A sua fama de melhor lutador tinha terminado, pois o cão polícia, que era enorme, enrolou Twayovoka como se fosse uma bola e o arrastou por muitos metros. Até as cadelas que preferiam o aguerrido Twayovoka tinham deixado de gostar dele. Não se sabe ainda se foi por causas das suas frequentes brigas ou se foi por causa daquela surra que apanhou do cão polícia.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Mas a grande cena do Twayovoka foi mesmo quando a vizinha Nsingi lhe ofereceu um grande osso de vaca.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Twendi ko Vaso, o seu amo, estava ausente em gozo de férias na Lunda Norte e Twayovoka, que era odiado pela vizinhança, passava fome.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Zelosa, como sempre, a dona Nsingi, que também era assistente de veterinário , decidiu dar-lhe uma segunda oportunidade. Deu-lhe um osso, ainda com alguma carne, e o cão, com o osso na boca, meteu-se em correrias para o outro lado do rio Kunene.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Foi então que ao atravessar a ponte, viu a sua imagem reflectida na água. Ambicioso como era, Twayovoka pensou que fosse um outro cão que o perseguia para lhe receber o osso.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Para afastar aquele que pensava ser o seu inimigo, o cão guloso ladrou e o osso escapou-lhe da boca, caindo na água.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Faminto e aflito, o cão jogou-se rio abaixo, mas a corrente era tão grande que Twayovoka foi arrastado até a uma grande queda onde havia jacarés.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Sem como escapar daqueles famintos répteis, Twayovoka serviu de almoço dos jacarés que tiveram um dia de muita festa.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Com a morte de Twayovoka, as lutas entre cães vadios diminuíram na cidade de Ondjiva e os meninos que frequentavam a escola deixaram de ser atacados por cães raivosos que eram muitos no tempo de Twayovoka.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3768017225494223045-6675462214636820954?l=atura-liter-atura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://atura-liter-atura.blogspot.com/feeds/6675462214636820954/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://atura-liter-atura.blogspot.com/2011/11/o-cao-rafeiro-da-rua-da-liberdade.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3768017225494223045/posts/default/6675462214636820954'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3768017225494223045/posts/default/6675462214636820954'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://atura-liter-atura.blogspot.com/2011/11/o-cao-rafeiro-da-rua-da-liberdade.html' title='O CÃO RAFEIRO DA RUA DA LIBERDADE'/><author><name>"Soberano" Canhanga</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08139246140510431159</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_RGH73KYb7oc/SLKRmnddrjI/AAAAAAAAApA/4e-mjmOAaaY/S220/LCIMG_8216.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3768017225494223045.post-4490837973551492489</id><published>2011-10-19T20:57:00.003Z</published><updated>2011-10-26T13:59:25.814Z</updated><title type='text'>A GALINHA SOLTEIRA E O GALO QUE NUNCA SE VIU AO ESPELHO</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Kaxinda era uma galinha solitária. Kolombolo, o galo que sempre lhe foi fiel companheiro, foi abatido para alimentar uma festa de fim do curso do Sr. Kalipande, o dono da casa em que Kaxinda vivia. Os seus lindos filhos, Kimone, Sanuka e Ngwami Maka, também foram abatidos em outras festas que se passaram na mansão do tio Kalipande e sua mulher, dona Nzala ya Ifo.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Um dia, ao ver que o portão da casa estava aberto, Kaxinda decidiu espreitar a vida fora do quintal e verificou que havia muitos galos, galinhas, frangos e pintainhos que se deleitavam com a vida fora daquele muro alto e gradeado. Kimone bateu as asas, deu um pulo e saiu.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Na rua, foi recebida com cantos e cacarejos, embora criasse ciúmes a certos galos que se gladiavam por causa da sua beleza ímpar.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Wafwa Meso, foi o príncipe encantado que Kimone escolheu. Ele era tão grande e tão calvo que tinha a cabeça em forma de meia-lua e a crista cheia de crostas e cicatrizes . Wafwa Meso vencia todas as lutas e tinha, por isso a simpatia de todas as galinhas daquela rua.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Depois de muito esgravatar a terra e conviver com os seus semelhantes, Kimone decidiu voltar à casa. Eram já treze horas, altura em que os meninos da primária voltavam da escola e o portão se voltava a abrir. Wafwa Meso, o namorado encantado, foi acompanhá-la e também entrou na mansão, sendo bem recebido pelo cão Mukwateno que cabriolava na relva e pelo pequeno Mwana Mwata, o kaçula da casa.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Enquanto Kaxinda passeava pelo quintal, como quem mostra a casa ao visitante, Wafwa Meso, que também enxergava mal, não se cansava de olhar para os vidros das portas e das janelas que reflectiam a sua imagem. Dentro de si terá pensado que havia à sua frente um outro galo e que cobiçava a sua nova namorada.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Wafwa Meso ensaiou posições de ataque e atirou-se várias vezes contra a porta fechada.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Aflita com a pequenice daquele galo grande, Kaxinda cacarejava cada vez mais forte, em jeito de correcção. Mas Wafwa Meso estava cego de tudo e não conseguia entender a razão do chamamento. Continuou a lutar contra a sua própria imagem reflectida no espelho. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O galo tanto lutou que acabou desmaiado na relva onde o aguardava o cachorro Mukwateno que o atacou pela garganta até não poder respirar. O rapaz Mwana Mwata ainda tentou acudi-lo, mas já era tarde. O galo morreu asfixiado e foi entregue aos seus donos que confeccionaram uma apetitosa cabidela.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Kaxinda continuou solteira e nunca mais decidiu levar à casa um galo que não tivesse vidros reflectores em sua casa, para não voltar a passar tamanha vergonha.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3768017225494223045-4490837973551492489?l=atura-liter-atura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://atura-liter-atura.blogspot.com/feeds/4490837973551492489/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://atura-liter-atura.blogspot.com/2011/10/kimbamba-kya-neme-tula.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3768017225494223045/posts/default/4490837973551492489'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3768017225494223045/posts/default/4490837973551492489'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://atura-liter-atura.blogspot.com/2011/10/kimbamba-kya-neme-tula.html' title='A GALINHA SOLTEIRA E O GALO QUE NUNCA SE VIU AO ESPELHO'/><author><name>"Soberano" Canhanga</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08139246140510431159</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_RGH73KYb7oc/SLKRmnddrjI/AAAAAAAAApA/4e-mjmOAaaY/S220/LCIMG_8216.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3768017225494223045.post-5081137592109086680</id><published>2011-09-03T11:58:00.005Z</published><updated>2011-10-27T08:54:15.801Z</updated><title type='text'>Lwole e Mukwa Wevu</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;(História e estórias do nosso povo)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Musumba era a antiga capital do reino da Lunda, uma grande cidade que ficava nas margens do rio Kasay. O rei Nkonde Mateta, já muito velhinho, tinha dois filhos, Kinguri e Cinhama e uma filha, Lueji.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como os filhos eram muito desordeiros, o rei decidiu, antes da sua morte, deixar a coroa real à guarda de Lueji. Tanto por ser a mais nova e mais ainda por ser mulher, aquela escolha criou um grande descontentamento dos irmãos e daqueles aldeões mais conservadores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Kinguri juntou os seus apoiantes e, com a mulher e os filhos, retirou-se para oeste. Cinhama também juntou a sua família e os seus amigos e partiram para o sul.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lueji e todos aqueles que a aceitaram como nova rainha ficaram na Musumba. Mais tarde casou com Ilunga, um caçador estrangeiro, de origem Luba.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na Musumba do rei Mateta o povo vivia da caça, da pesca e dos frutos que a terra dava. A retirada dos dois príncipes, veio alterar esses hábitos antigos. Kinguri e o seu povo optaram pela guerra, pelo comércio e pela agricultura. Cinhama, continuaram a caçar e a pescar nas chanas [1] do Moxico, mas tornaram-se grandes viajantes, chegando a conhecer vários povos com os quais se casaram e formaram alianças.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Essas viagens dos descendentes de Cinhama deixaram histórias que foram passando de geração em geração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perto de Kameya viviam dois homens, netos de Cinhama. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lwole era cego e vivia com a sua esposa e sete filhos na aldeia de Hwima, encostada a uma pequena montanha. Cultivava masambala [2] ao redor da sua pequena aldeia familiar. Possuía muitos cães de caça e outros animais domésticos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mukwa Wevu tinha herdado do avô uma espingarda de caça e passava a vida junto às nascentes dos rios e nos prados [3] onde apareciam muitos animais selvagens. Certo dia, vendo que estava sem cartuchos, deixou a sua aldeia, nas margens do rio Luxico e foi ter com o irmão Lwole.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Meu irmão, estou sem cartuchos para caçar. Preciso que me emprestes os teus cães de caça e tudo quanto conseguir será dividido ao meio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lowle, que era o mais velho entre os netos de Cinhama, concordou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Está bem meu irmão. Peço-te apenas que tenhas cuidado com os animais ferozes e voltem todos completos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mukwa Wevu, satisfeito, partiu no dia seguinte com os sobrinhos e os valentes cães de raça. Levavam ração para os dias de retiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durante sete dias, Mukwa Wevu conseguiu apanhar, com a ajuda dos cães, dez gazelas, vinte cabras do mato e algumas lebres. A carga foi repartida entre os seus ajudantes que seguiram de imediato à aldeia de Citende onde viviam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao chegar à aldeia, Mukwa Wevu foi recebido pela mulher e pelos filhos com uma grande festa. Cimwanga, a esposa de Wevu, apercebeu-se de que a caça tinha sido boa e por isso convidou todos os parentes e os povos das aldeias mais próximas para um grande banquete. Tão grande foi a festa que boa parte da carga foi consumida, restando pouca carne para o irmão mais velho que aguardava pelas peças que lhe foram prometidas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Três dias mais tarde, quando Lwole lamentava já a ausência do irmão e dos seus cães, lá apareceu o caçador com uma gazela pendurada ao ombro e duas lebres como recompensa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Mano, aqui estão os cães e a metade da carne que apanhámos. - Disse Mukwa Wevu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Será que os meus cães só apanharam esta carne? - Interrogou Lwole, desconfiado. E prosseguiu, acusador: - Até soube da grande festa que houve na tua aldeia e que se espalhou por todo este Cifuci [4]. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então, Mukwa Wevu, que já tinha bebido uma cabaça [5] de hidromel, começou a maldizer o irmão mais velho, chamando-o de cego e inválido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Da contenda entre eles resultou que os dois manos se amaldiçoaram um ao outro o que fez com que uma grande praga se instalasse sobre a região: De repente, o céu escureceu. Veio um vento muito forte. Tão violento que as árvores foram todas arrancadas do solo e ninguém sobreviveu. A aldeia de Hwima ficou transformada em gigantescas pedras que hoje só acolhem cobras e canta-pedras [6]. Por sua vez, a aldeia de Citende, onde vivia o ambicioso Mukwa Wevu, transformou-se num enorme lago onde ainda hoje abundam bagres e cacusos [7].&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isto aconteceu a muito, muito tempo! Mas quem vai ao Moxico, ainda hoje ouve os mais velhos contarem o que se passou com Lwole e Mukwa Wevu e da lição que ficou para lembrar a ambição de um dos netos de Cinhama, o fundador das terras do Moxico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;[1] - Terrenos alagados. Muito abundantes no Leste de Angola.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;[2] - O mesmo que sorgo ou milho-miúdo.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;[3] - Terrenos planos próprios para a pastagem de animais.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;[4] - Território, País (na língua Cokwe).&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;[5] - Reservatório usado para a fermentação do mel e outras bebidas.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;[6] - Pequenos animais roedores que se abrigam em cavernas.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;[7] - O mesmo que Tilápia: peixe bastante apreciado pelos povos de Angola.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3768017225494223045-5081137592109086680?l=atura-liter-atura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://atura-liter-atura.blogspot.com/feeds/5081137592109086680/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://atura-liter-atura.blogspot.com/2011/09/huima-e-citende.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3768017225494223045/posts/default/5081137592109086680'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3768017225494223045/posts/default/5081137592109086680'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://atura-liter-atura.blogspot.com/2011/09/huima-e-citende.html' title='Lwole e Mukwa Wevu'/><author><name>"Soberano" Canhanga</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08139246140510431159</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_RGH73KYb7oc/SLKRmnddrjI/AAAAAAAAApA/4e-mjmOAaaY/S220/LCIMG_8216.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3768017225494223045.post-5947913926255286118</id><published>2011-08-13T10:51:00.000Z</published><updated>2011-08-13T10:51:33.128Z</updated><title type='text'>DIÁLOGO</title><content type='html'>===&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Hoje em dia, há, em todo o lado, pessoas que falam mais dos feitos do passado do que do futuro, que falam mais da oposição do que da governação, que olham mais para si do que para a país, que andam aí a gabar-se de coisas que nunca fizeram nem pensaram um dia fazer… pessoas que andam na roda sem saber como se toca a música. E, vamos indo de rasto em rasto, de promessas em mentiras, de pobrezas em misérias até&amp;nbsp;à morte final. Faltam coisas novas, ideias… a até novas mentiras. O diálogo entre Katende&amp;nbsp;e Kaphonde, dois nativos com vivências comuns e incomuns é exemplo.&amp;nbsp;&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Oh Mano Katende, dizem que desde que vieste a capital cresceu muito. É verdade?&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Hum! Quem foi que te mentiu assim, oh Kaphonde? O Musseque nem um passo deu em direcção ao asfalto e a luz eléctrica desapareceu. Em Maio de 1984, quando do meu primeiro cara-a-cara com Luanda, a cidade começava na Sat’Ana. Era ali que começavam duas ruas larga com os carros orientados em apenas um sentido. Havia iluminárias altas que diferenciavam Luanda de outras cidades do interior, onde também havia carros ruidosos e luz eléctrica. Hoje, 27 anos depois, o cenário é o mesmo, apesar de alguns trabalhos que uns desatentos dizem tratar-se de crescimento. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Como assim se antes tudo isso aqui era capim?&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Quem sai de Viana a Luanda, rapidamente se apercebe que a capital tem algumas ruas iluminadas apenas ao chegar ao cemitério da Santa’Ana. O mesmo trecho que vi em 1984 e que vai até ao Jumbo. Todo o resto a montante é “paisagem” escura e propiciadora de muitos acidentes de viação, à noite, dado o encandeamento de uns sobre os outros que circulam em vias opostas. Os desníveis no asfalto, entre um trecho reparado e outro a aguardar pelo novo tapete, tem sido outra causa de despistes, rebentamentos de pneus e a destruição de jantes, sobretudo os de liga leve. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- E quem se responsabiliza pelos danos? Há? &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Ninguém! Você pensa que aqui te ligam? No cú do perú!&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Mas então a cidade cresceu ou não?&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Aumentaram apenas as casas. A vila da Mata, o Golfe, o Palanca, o Tunga-Ngó, o Curtume, o Kikolo e arredores, o Mulenvos, Viana Sanzala, Vila Nova, Kambamba, Benfica e outros bairros que na altura eram lavras são agora autênticos guetos… O Musseque Braga Junta-se ao Musseque Baia. Nada mais do que isso! Quanto à evolução da cidade é tudo pioria!&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Pioria como?&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Sim pioria. Male-male. Pior ainda é a nova banga na recolha nocturna do lixo e sua pesagem para pagamento. O peso é que define o valor a pagar à operadora. E nesta correria pelo dinheiro que é público muitas operadoras preferem mesmo escavar e levar terra em vez de lixo. Consequências, deixam os bairros esburacados e cada vez mais sujos! Outros na ânsia de chegar primeiro, os motoristas, vão espalhando rastos de lixo por onde passam, chegando mesmo a provocar acidentes de veículos que volta e meia dão de cara com um estranho monte de lixo na estrada caído dum camião ou tractor sem cobertura. Acha que alguém da parte do “quem de direito” vê isso? &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;– Ninguém vê. Na hora todos tornam-se cegos, excepto aqueles que vivem os problemas sem onde se queixar. Passa ainda pela estrada dos Mulenvos, que dá à lixeira provincial. É um exemplo de todos os dias. Os condutores de ligeiros estão sob risco permanente de serem abalroados por um camião de lixo descontrolado ou embater contra uma montanha de lixo “descarregado” na via.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- E os hospitais como estão? É que estou a pensar operar a minha dituba...&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Ah! Esses só a descer. Um paciente que acompanhei por duas vezes consecutivas foi internado numa cadeira do Banco de Urgência dum hospital de referência. E note-se que não é dos que ficam na periferia. É mesmo entre o largo Primeiro de Maio e o largo da Sagrada Família. Depois de ter passado a receber soro numa cadeira foi-lhe dada alta médica, alegadamente por falta de espaço. E não é que teve de voltar à noite ao Hospital pois a saúde degradou? Solução: outra noite, no mesmo hospital, outro soro na cadeira e outra alta na manhã seguinte…Nesse jogo de rato e gato tivemos de optar pelo Hospital do Prenda onde, mesmo sem camas e espaço no B.U., os médicos e enfermeiros se mostraram autênticos profissionais, distribuindo os pacientes em macas: um mal menor para quem passou duas noites seguidas internado numa cadeira.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- E a água já jorra nas torneiras como no tempo do caputo?&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- No hospital do Prenda sim. Até deu para lavar o doente. Mas na torneira de casa são as baratas e as minhocas que moram no PVC.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;-&amp;nbsp;E a educação, mano, como vai? Disseram-me que o a-e-i-o-u já não se ensina na pré…&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Antigamente cantávamos a ma me mi mo um ou depois de aprender o abcd. Agora tudo mudou. É só passar de ano e professor único para todas as classes, da kabunga à sexta, já se viu? E nem tudo isso é ainda o cúmulo…&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Ah! Não é?&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Sim. Imagina no vizinho que de lua em lua põe música alta e a polícia que tem esquadra bem ao lado ainda aproveita ir pedir cerveja sem mandar fechar a aparelhagem.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Mas como assim se não há luz todos os dias?&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Oh mano, você está a ficar burro ou quê? São os fofando! Você num sabe que já substituíram a luz da EDELI? Arra xiça pá! Vamos só descansar, antes que pensem que somos do contra! &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3768017225494223045-5947913926255286118?l=atura-liter-atura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://atura-liter-atura.blogspot.com/feeds/5947913926255286118/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://atura-liter-atura.blogspot.com/2011/08/dialogo.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3768017225494223045/posts/default/5947913926255286118'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3768017225494223045/posts/default/5947913926255286118'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://atura-liter-atura.blogspot.com/2011/08/dialogo.html' title='DIÁLOGO'/><author><name>"Soberano" Canhanga</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08139246140510431159</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_RGH73KYb7oc/SLKRmnddrjI/AAAAAAAAApA/4e-mjmOAaaY/S220/LCIMG_8216.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3768017225494223045.post-5407977822891683548</id><published>2011-05-02T06:57:00.001Z</published><updated>2011-10-21T13:32:10.270Z</updated><title type='text'>O HOMEM ZELOSO E O KIFUMBE</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Era uma vez…&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: x-large;"&gt;N&lt;/span&gt;a Angolândia, uma país que vivia dias d epaz e muitos sorrisos nos rostos das crianças, havia um homem muito humilde, amigo dos filhos da esposa e de seus familiares. Todos o respeitavam por isso e sentia-se ele um homem feliz . Tinha a família ao seu lado.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Um certo dia resolveu visitar os parentes da esposa. Ela chamava-se Ngueve e ele Njamba. Pelo caminho, num cruzamento, encontrou um homem sem pés nem braços. Fazia tudo com a boca. Era desconhecido naquelas paragens, mas Njamba muito atencioso decidiu-se em dar-lhe ouvidos e atender as suas preocupações.&lt;br /&gt;- Para aonde vão? - Perguntou o estranho.&lt;br /&gt;- Visitar os meus sogros. – Respondeu Njamba.&lt;br /&gt;- Também vou. – Afirmou o estranho.&lt;br /&gt;- Tudo bem. – Respondeu Njamba sem questionar como ele iria e a que velocidade.&lt;br /&gt;N a sua peculiar calma e paciência, Njamba arranjou uma maca e transportou o homem estranho que não se calava durante o caminho. Era tão impertinente que chegava a dar ordens a quem o transportava de graça.&lt;br /&gt;- Pára aqui para beber água - Ordenou a certo momento.&lt;br /&gt;- Pára ali que quero comer um figo. Vira acolá que quero descansar numa sobra de mufumeira .&lt;br /&gt;Paciente, Jamba foi aturando até chegarem à aldeia dos sogros que distava uns treze quilómetros.&lt;br /&gt;Mbuanga e Katambi, os sogros, receberam-nos como muito prazer e emoção. Até mesmo o estranho foi tratado como se de família se tratasse sentando-se também ele à mesa para o banquete .&lt;br /&gt;- Eu só como carne e muita carne. – Disse o estranho Kifumbe.&lt;br /&gt;- Ok. Sem problemas. Far-te-emos as honras da casa. Aguentamo-nos com as ervas que também nos fazem bem. - Disse Katambi, o sogro de Njamba, que teve a concordância da mulher, da filha e do genro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já de regresso à casa, os pais de Ngueve, que eram muito velhinhos, ofereceram ao genro muito gado, aves e cereais que colocaram numa carroça puxada por bois. Levaram de volta o estranho "empata" que não queria ficar naquela aldeia onde dizia ter parentes…&lt;br /&gt;Ao chegarem ao mesmo cruzamento em que o encontraram pela primeira vez, o kifumbe disse para o casal: - Temos que repartir tudo o que vos ofertaram porque eu também fui visita na casa deles.&lt;br /&gt;Mais uma vez Njamba concordou, embora tivesse a discordância da mulher, mas manso como era aceitou. Njamba não gostava de confusões. Deu-lhe dois cabritos, um boi, cinco galinhas e um saco de milho.&lt;br /&gt;- Mas não é tudo. Não vês que falta uma coisa? – Perguntou o kifumbe.&lt;br /&gt;- Uma coisa? Como assim? Não te dei parte do que me ofereceu o meu sogro? - Respondeu-lhe Njamba já meio aborrecido.&lt;br /&gt;- Falta dividirmos a tua mulher - Disse-lhe o atrevido sorridente.&lt;br /&gt;Chateado, perante aquela petulância e falta de gratidão, Njamba meteu-se aos choros e a clamar por socorro. Apercebeu-se de que estava perante um fantasma. Um assassino.&lt;br /&gt;Primeiro apareceu um pássaro e depois um cão que perguntaram a Njamba por que estava ele a chorar de tanta raiva. Njamba explicou o que se tinha passado e o pássaro perguntou ao kifumbe:&lt;br /&gt;- Como se pode repartir um ser humano ao meio?&lt;br /&gt;O kifumbe sem resposta tentou atirar-se ao pássaro, mas este chamou pelo cão que correu com ele. Assim, a mulher ficou salva e a felicidade voltou a fazer parte daquele casal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Moral da estória:&lt;/strong&gt; Não se deve confiar em demasia nos estranhos.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3768017225494223045-5407977822891683548?l=atura-liter-atura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://atura-liter-atura.blogspot.com/feeds/5407977822891683548/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://atura-liter-atura.blogspot.com/2011/05/o-manso-e-o-kifumbe.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3768017225494223045/posts/default/5407977822891683548'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3768017225494223045/posts/default/5407977822891683548'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://atura-liter-atura.blogspot.com/2011/05/o-manso-e-o-kifumbe.html' title='O HOMEM ZELOSO E O KIFUMBE'/><author><name>"Soberano" Canhanga</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08139246140510431159</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_RGH73KYb7oc/SLKRmnddrjI/AAAAAAAAApA/4e-mjmOAaaY/S220/LCIMG_8216.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3768017225494223045.post-9062858926628390803</id><published>2011-04-02T00:44:00.000Z</published><updated>2011-04-02T00:44:00.462Z</updated><title type='text'>A MADRASTA TETÉ</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;ERA UMA VEZ…&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: x-large;"&gt;K&lt;/span&gt;ibocolo é uma pequena vila do Uige. Uige é uma província do norte de Angola onde se planta muito café e muita mandioca também.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Na vila de Kibocolo vivia uma senhora cujo nome era Teté. A senhora era viúva tal como o senhor Jota-Jota que era pai da Joaninha.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Joaninha era uma menina de sete anos cuja mãe tinha falecido num acidente que até hoje ainda ninguém dos habitantes da vila sabe explicar. Como a menina precisava de cuidados de uma mãe, o seu pai decidiu-se casar novamente e dar a sua filhinha aos cuidados de dona Teté, a sua nova esposa.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Apesar de muito meiga e cumpridora dos seus deveres, Joaninha era muito maltratada pela madrasta e até privada de ir à escola. Sempre que chegasse o tempo de apanhar salalé era a ela que recaía esta missão difícil no meio do capim alto e muitos mosquitos que lhe podiam transmitir o paludismo e outras doenças da pele. Mas a menina mesmo sabendo que aquilo lhe podia fazer mal não incumpria.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Como o salalé era muito apreciado, a madrasta comia todo, contentando-se a menina com os restos. Tudo era feito na ausência de Jota-Jota que por ser pastor de gado ausentava-se frequentemente de casa para alimentar os seus rebanhos.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Um dia, Jota-Jota decidiu abandonar Kibocolo e mudar-se para Sanza Pombo que tinha prados com muito capim fresco para alimentar os cabritos e os carneiros. Como no quintal da nova casa havia uma figueira a madrasta incumbiu à Joaninha controlar a árvore de modo que ninguém roubasse os apetitosos figos.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Quando começaram as aulas Joaninha deixava a figueira desprotegida e os pássaros aproveitavam fazer a sua festa. Certo dia apareceram tantas aves famintas que acabaram com os figos todos. Foi um dia triste.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ao chegar da escola, Joaninha apercebeu-se que a figueira estava sem frutas e muitas estavam espalhadas pelo chão. Começou a temer pelas represálias da madrasta que era muito má.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Dona Teté nem sequer deu ouvidos à menina e começou a bater nela até desmaiar. Temendo ser surpreendida pelo marido, a madrasta pegou o corpo da menina e o enterrou com vida longe da aldeia, num sítio de passagem do gado para a pastagem.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Chegado à casa, Jota-Jota notou a ausência da sua filhota e perguntou:&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;- Onde está a Joaninha?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Foi ao rio acarretar água. – Respondeu ela a fingir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passado algum tempo Jota-Jota voltou a perguntar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Teté, onde foi que mandaste a criança?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Já te disse Jota, foi ao rio. Sabes como é irresponsável a tua filha. Deve estar na brincadeira com as amigas. – Voltou a responder a senhora.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Preocupado, Jota-Jota meteu-se a caminho do rio e não encontrou a filha. Chegado à casa voltou a perguntar e a e mulher respondeu:&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Se não está no rio, também não sei aonde foi. Deve ter desaparecido.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Passados meses, no lugar onde a menina fora enterrada cresceu muita relva e sempre que os pastores por lá passassem acompanhando o gado ouviam uma estranha canção saída da mata.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Oh pastor do meu papá&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Não cortes o meu cabelo&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Minha mãe me criou&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Minha madrasta me matou&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Só por causa da figueira&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Cujos figos não tirei.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Os pastores abandonaram o gado e correram à casa para contar o sucedido ao patrão Jota-Jota que decidira ir às compras na cidade de Carmona .&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Suspeitando que estivesse quase a ser descoberta Teté mandou de imediato os pastores voltarem ao pasto, mas estes recusaram-se, e decidiram aguardar pelo patrão.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Vocês sabem que o gado não pode ficar na aldeia, por que razão está aqui? – Perguntou ela ameaçando-os.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Os homens mantiveram-se calados e nada responderam. Teté ainda tentou inventar que os pastores tinham voltado à casa com o gado incompleto o que fez Jota-Jota dirigir-se mal aos seus trabalhadores. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O mais velho dos pastores chamou o patrão a um canto isolado e contou-lhe da música estranha que ouviram a caminho do pasto. Jota-Jota ainda tentou duvidar mas o pastor mais novo repetiu a canção;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Oh pastor do meu papá&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Não cortes o meu cabelo&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Minha mãe me criou&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Minha madrasta me matou&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Só por causa da figueira&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Cujos figos não tirei.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Jota-Jota juntou os retalhos da história e concluiu que algo de mal se tinha acontecido com a sua filhinha. Rumou com os pastore ao local e mal o gado começou a comer a relva ouviu-se de novo a canção entoada por uma voz parecida à da Joaninha.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Concluiu então que dona Teté tinha morto a sua única filha querida.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Chegado à casa perguntou-lhe:&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Por que me disseste que a minha filha tinha desaparecido quando na verdade a mataste por causa dos figos?&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Dona Teté, sem desculpas, começou a chorar implorando por perdão. Jota-Jota ordenou aos seus empregados que a amarrassem para não fugir e foi chamar a polícia que aprendeu, sendo condenada por muitos anos de cadeia.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3768017225494223045-9062858926628390803?l=atura-liter-atura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://atura-liter-atura.blogspot.com/feeds/9062858926628390803/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://atura-liter-atura.blogspot.com/2011/04/madrasta-tete.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3768017225494223045/posts/default/9062858926628390803'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3768017225494223045/posts/default/9062858926628390803'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://atura-liter-atura.blogspot.com/2011/04/madrasta-tete.html' title='A MADRASTA TETÉ'/><author><name>"Soberano" Canhanga</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08139246140510431159</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_RGH73KYb7oc/SLKRmnddrjI/AAAAAAAAApA/4e-mjmOAaaY/S220/LCIMG_8216.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3768017225494223045.post-3609479590225029034</id><published>2011-03-02T01:48:00.002Z</published><updated>2011-04-02T09:54:49.221Z</updated><title type='text'>A CEGA E O CÃO</title><content type='html'>&lt;strong&gt;ERA UMA VEZ…&lt;/strong&gt; &lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: x-large;"&gt;N&lt;/span&gt;a aldeia de Kanjala, na costa de Angola, entre o Sumbe e o Lobito, vivia uma mulher com deficiencia visual em um dos olhos. O nome dela era Milika e estava casada tradicionalmente com um homem chamado Ngufu.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ngufu era extractor de maruvo de palmeira e de bordão e praticava também a caça. Tinha por isso um cão chamado Kelula .&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Um dia, ao trepara à palmeira para cortar um cacho de dendém e retirar uma cabaça de maruvu, Ngufu esqueceu-se de levar consigo o kanjaviti e olhando para baixo dá de olhos com o cão que farejava no trilho dos pukus . O homem, preguiçoso diz para si mesmo: &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;- Se esse cão fosse pessoa dar-me-ia o machadinho e eu evitaria de descer completamente.&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O cão que ouvira a expressào desdenhosa do seu amo, fez aquilo que faria um ser humano adulto e deu-lhe o kanjaviti.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Cortado o cacho de dendém, chegou a vez de retirar o maruvo. Encheu o primeiro que tinha à cintura e a como a vasilha pendurada à palmeira ainda tinha líquido precisou de uma segunda. Nisso olha novamnete para baixo e lá estava novamente o Kelula nas suas brincadeiras, atrás de borboletas. O homem, desta vez em voz muito baixa, volta a exclamar: &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;- Se esse cão fosse um menino me teria dado a kabaça que está ao pé dele.&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Espantosamente, Kelula o cão, deu-lha.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ngufu apenas riu em gesto de agradecimento. Estava agradecido e preocupado também, porque nunca um cão tinha entendido a linguagem humana. Nisso o cão que apesar de cumprir as ordens não tinha emitido sequer um som disse-lhe:&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;- Meu amo, por teres menosprezado a importância dum cão, de hoje em diante passas a entender a linguagem de todos os animais, sem que o possas contar a alguém sob pena de morreres.&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ngufu concordou. Ao chegar à casa encontrou a mulher a moer bombó num almofariz e uma peneira rudimentar. Milika, a mulher, estava cercada por galinhas que aproveitavam os bocados de bombó que caíam ao chão.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Enquanto ela enxotava as galinhas, o galo que estava algo distanciado disse às galinhas:&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;- Oh! suas burras, passem do lado do olho cego.&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Nisto, Ngufu percebeu a linguagem dos animais e meteu-se a rir em locas gargalhadas o que enfureceu a mulher que queria uma explicação sobre a razào de tamanha rizada.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;- Por que estás a rir? Tens de me explicar porque se não vou enforcar-me por estares a zombar da minha deficiência. – Disse ela.&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Mais o homem tentou convencê-la de que era um segredo que não podia desvendar, mas a mulher não o compreendeu.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Por fim, perante a insitência da mulher, Ngufu ordenou que ela chamasse os mais velhos e o soba da aldeia.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;- Eu, quando sai hoje com o meu cão, vivi algo inédito nesta aldeia. Aflito em cima da palmeira, o meu cão ajudou-me a entregar o kanjaviti e a kabaça e falou como se de um ser humano se tratasse. Só que me pediu que guardasse um segredo: Não podia contar a ninguém o sucediodo. Mas como a minha mulher está desconfiante duma rizada que dei quando as galinhas falaram, estou a contar-vos que eu entendo a linguagem dos animais. E por desvendar o segredo também ponho fim à minha vida.&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Posto isso, o homem sucumbiu.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Os mais velhos e o soba da aldeia realizaram o funeral e no fim expulsaram Milika daquela comunidade por não ter confiado no que o marido lhe dissera.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3768017225494223045-3609479590225029034?l=atura-liter-atura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://atura-liter-atura.blogspot.com/feeds/3609479590225029034/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://atura-liter-atura.blogspot.com/2011/03/era-uma-vez-ii.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3768017225494223045/posts/default/3609479590225029034'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3768017225494223045/posts/default/3609479590225029034'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://atura-liter-atura.blogspot.com/2011/03/era-uma-vez-ii.html' title='A CEGA E O CÃO'/><author><name>"Soberano" Canhanga</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08139246140510431159</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_RGH73KYb7oc/SLKRmnddrjI/AAAAAAAAApA/4e-mjmOAaaY/S220/LCIMG_8216.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3768017225494223045.post-2844245984077801366</id><published>2011-02-17T22:22:00.002Z</published><updated>2011-03-26T13:56:11.161Z</updated><title type='text'>O RECADO DO COELHO</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Mensagem enviada por e-mail ao meu "grande kota" José Soares Caetano (Tazuari Nkeita) e que m'a fez chegar.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;...&amp;nbsp; &lt;em&gt;Ontem à noite, fazia eu um "zapping" pelos canais da televisão, quando deparei com um programa que não conhecia, Arco-Íris que, pelo que vi, presumo ser um magazine cultural.&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;E lá estava ele, o nosso jovem amigo Soberano (Luciano?) Kanhanga, feliz e emocionado apresentando o seu "filho", "O Sonho de Kaúia".&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;Tal como ele também eu fiquei feliz e emocionado, porque sei exactamente o que se sente quando se "dá à luz" uma primeira obra.&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;E também te vislumbrei, de relance, depois do Kanhanga ter agradecido publicamente o teu decisivo incentivo.&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;Mas, já no fim, senti alguma amargura: alguns dos convidados a falar sobre o livro eram escritores, que não conhecia, jovens na maior parte, de quem, possivelmente, não terei a possibilidade de ler as suas obras, porque não chegam a Portugal, tal como o meu livro talvez nunca chegue a Angola...&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;E aqui faço a mesma pergunta/desafio que um dia fizeste: para quando a criação de uma Casa da Cultura Luso-Angolana, ou vice-versa, que possibilite um canal aberto à divulgação do que se vai fazendo no campo das artes, nomeadamente na Literatura?&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;Um forte abraço para ti e, por favor, estende-o ao jovem Kanhanga, cronista de mérito que aprendi a gostar através do sítio do nosso amigo Manecas Ruivo!&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Tomás Lima Coelho&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3768017225494223045-2844245984077801366?l=atura-liter-atura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://atura-liter-atura.blogspot.com/feeds/2844245984077801366/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://atura-liter-atura.blogspot.com/2011/02/o-recado-do-coelho.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3768017225494223045/posts/default/2844245984077801366'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3768017225494223045/posts/default/2844245984077801366'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://atura-liter-atura.blogspot.com/2011/02/o-recado-do-coelho.html' title='O RECADO DO COELHO'/><author><name>"Soberano" Canhanga</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08139246140510431159</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_RGH73KYb7oc/SLKRmnddrjI/AAAAAAAAApA/4e-mjmOAaaY/S220/LCIMG_8216.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3768017225494223045.post-5572696380677551735</id><published>2011-02-03T08:33:00.013Z</published><updated>2011-11-26T09:32:59.772Z</updated><title type='text'>O COMÍCIO DO MBUKAYO</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;M&lt;/strong&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;wata Cikambi sacudiu o único casaco que tinha e sem aviso prévio decidiu rumar à sede administrativa da circunscrição que tinha recebido um novo chefe. Com jeito vestiu a camisa branca, quase a perder a cor de tantas lavagens e nódoas involuntárias de sumo de cajú. A parte traseira estava mesmo rota. O velho, um antigo guerrilheiro da luta de libertação, meteu-se a caminho para uma conversa aberta com o nóvel dimixi .&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;- Menina boa tarde. O camarada administrador está?&lt;br /&gt;-Sim paizinho. Mas … o senhor veio da parte de quem?&lt;br /&gt;- Da minha parte mesmo. Vim sozinho. Sou o Mwata Cikambi. Menina num me conhece?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A jovem, esbelta de se pôr inveja, dezanove anos mais ou menos, cintura fina e ombros de cabide, levou tempo a responder e logo o velho notou que ou não o conhecia ou a secretária estava a fingir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Essas meninas de agora são sempre assim. O chefe pode estar lá dentro mas dizem sempre que não está ou está reunido. Mas hoje não sairei daqui sem que ele me receba. - Falou para si mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A secretária, sabendo que o chefe demoraria a atender o soba, optou por levá-lo à sala de espera.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mwata, espera só um bocado que vou já avisar o chefe que está reunido com umas pessoas que também vieram de longe e chegaram primeiro.&lt;br /&gt;- Está bem filha, - respondeu, embora recticente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na sala, Satula recebia um a um outros senhores, os notáveis de Mbukaio. O administrador tinha apenas dias mas a lista de pedidos de audiências já era enorme. Eram fazendeiros que pediam alfaias e acesso ao credédito agropecuário, sobas que exigiam regalias, antigos guerrilheiros que pediam pensões, viúvas que procuravam por maridos desaparecidos na guerra, enfim… um mar de preocupações com que Satula nunca contaria logo na primeira semana. Mas o destino estava traçado. “Não adianta fugir dos problemas porque eles antecipam-se à nossa marcha”. - Desabafava com os poucos amigos que tinha na vila.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Pai, toma um café? - Questionou Lawa, a secretária.&lt;br /&gt;- Sim menina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O tempo passava, a vez de entrar na sala do administrador tardava em chegar e o café esfriava. Nem sequer o tinha adocicado com o mel delicadamente servido numa tigelinha. Duas horas depois, com o administrador já pronto para o cara-a-cara, Lawa voltou à sala de espera e reparou que o café, já sem calor, mantinha-se intocado.&amp;nbsp; &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;...&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;- Oh Citonji, essa tua mania do está ultrapassado eu não gosto. Como é que você vê as pessoas a sofrerem e na hora já de falar te ultrapassei. Por acaso você viu alguém na estrada a andar de vagar?&lt;br /&gt;- Cala a boca seu terrorrista. A tua sorte e que a guerra já acabou se não eu mesmo é que ia te apagar desta vez. – Rechaçou Citonji, Manuel Nhanga de seu nome, mas assim apelidado devido a contracção de uma deficiência física na guerra da independência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A rivalidade entre Mwata Citonji e Kajivunda era de há muito tempo e escapava ao conhecimento do administrador que os recebeu em simultâneo para exporem em conjunto as dificuldades por que passam os antigos guerrilheiros da pátria em Mbukaio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Residiam, enquanto crianças,&amp;nbsp;em paredes-meias e foi o único tempo de amizade e cumplicidades. Um no primeiro andar do pequeno edifício da vila que chamavam kaprédio e outro no rés-do-chão. A rivalidade começou na juventude quando tiveram de aderir aos movimentos. Chitonji era e é um farvoroso apoiante dos Vermelhinhos e como eles alinhou para as matas do Leste onde viria a ser lesionado no ombro esquerdo. Kajivunda sempre se reviu nos Verdinhos do Jacinto e cedo se tornou no encarregado da logística do mais novo movimento que depois passou à oposição armado ao regime dos vermelhinos. Separados no ano de setenta e um, voltaram a reencontrar-se já nos anos noventa e sem a pujança doutrora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vocês do Vermelho são sempre assim. Lambem a bota até furar o cabedal… O administrador é novo e precisa de saber as coisas, pá!&lt;br /&gt;- E vocês que partiram o Mbukaio pelo meio são quê. É? Me fala seu reaça.&lt;br /&gt;- Reaça é você, seu cobarde. Onde te está a dar a comichão é onde você se coça. Porquê que andas roto se o vosso Vermelhinho te dá tudo e tu não precisas de nada mais?&lt;br /&gt;- Cala a boca, pá! Olha que se não fosse o meu ombro punha-te agora mesmo a apanhar castanhas, seu inergumeno duma figa…&lt;br /&gt;- Inergumeno, eu? Inergumeno é a tua senhora que não te dá bons conselhos está bem? E olha que hoje andaste com sorte porque se fosse nos tempos do meu marechal isso ia ficar feio… e ia ficar mesmo… &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A subida de tom das vozes dos dois idosos puxava para o quintal da administração muitos dos transeuntes que sem saberem as causas e os fundamentos daquela briga ora procuravam apaziguar evocando a paz do Jacinto ora pcolocando mais lenha na fogueir. Foi naquele instante que Lawa foi alertada pelo guarda que assistia à discussão entre os dois veteranos de guerra saídos da sala do adminsitrador e foi ver o que se passava para informar ao chefe se fosse caso para tal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas paizinhos o quê então que se passa convosco, pai? – Perguntou no meio de tantos disse-que-disse da assitência.&lt;br /&gt;- Filha, já viu esse Kajivunda a me ameaçar eu, um antigo combatente da pátria?&lt;br /&gt;- Citonji explica só o que se passa. Talvez é o administrador que mandou a menina.&lt;br /&gt;- Não, pá, seu filho da pu... Você hoje vai me ouvir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas assim não vos oiço. - Interrompeu a moça&amp;nbsp; no meio do disse que disse. - E se a discussão é de algo que saiu de lá dentro com o chefe é que vou informar?&lt;br /&gt;- Pois bem. O Citonji explicou os probelam dele. Falou que lhe falta comida, casa e adubos. O chefe lhe escutou e eu não lhe cortei. Mas o gajo na minha vez de explicar veio com a mania dele de dizer que este assunto está ultrapassado, mas ele pensa já que também é chefe? Eu me coço ali onde está a me dar comichão… &lt;br /&gt;….&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Então o paizinho não tomou o café?&lt;br /&gt;- Não filha estava a espera do pão!&lt;br /&gt;Sem se poder controlar, a secretária pôs-se a rir em bandeja larga o que deixou enfurecido o velho regedor que entrou derrompante na sala do administrador a quem expôs a falta de respeito por parte da secretária e os poblemas que o afligiam. Satula só teve um caminho para apaziguar os ânimos exaltados do soba mais importante da região.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mwata, os jovens de hoje não sabem como estar perante um mais velho. Peço já as minhas desculpas e vamos tomar medida para que isso não volte a acontecer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Satula largou um berro enraivecido ao gosto do velho que pretendia a tomada de medidas repreensivas contra a menina “mal-educada”. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Lawa! arruma já as tuas coisas e estás suspensa!&lt;br /&gt;- Não chefe, me desculpa só… - A jovem entrou humilde, ajoelhou-se aos prantos ao pé do velho que olhando para o administrador ordenou: &lt;br /&gt;- Pronto já filha. Mostraste que apesar do erro conheces os costumes. Chefe, pode lhe perdoar. Emprego está dificil e escola para educar os flhos num há aqui desde que o colono foi embora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para contentar o velho, Satula propôs-lhe a realização do primeiro comício público na sua redoria, ao que de imediato concordou. Para mwa-Cikambi acolher o primeiro acto público do administrador era sinal de gtrande reconhecimento e de vantagem sobre os outros regedores e sobas da região. Rápido afogou a dor causada pela rizada da menina-moça e retirou-se satisfeito, mesmo sem ter levado nada de material. O dia para Mwa-Cikambi estava ganho. “O resto virá com o tempo”- disse ele ao chegar à sua aldeia que distava dez quilómetros da sede municipal.&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;…&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Pim, pim, pimmmm…. Uion uion uion… Polícias e ambulância médica abriam o caminho entre a multidão revoltada para facilitar a retirada forçada do administrador. O comício tinha ficado pelo meio e o povo furioso, mais uma vez, conseguiu correr com um administrador.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Terminada a guerra, Satula abandonou o Maquis com a patente de Major e graças a argúcia que possuia e alguns compadrios na super-estrutura partidária foi nomeado administrador do Mbukaio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Chipalavela!&lt;br /&gt;- Chefe.&lt;br /&gt;- Sabes falar Umbundu?&lt;br /&gt;- Sim chefe. Nasci mesmo aqui- respondeu o guarda-costas.&lt;br /&gt;- Amanhã vamos fazer o primeirto comício no Mwa Cikambi e como aquele povo é mafioso vais fazer a tradução. &lt;br /&gt;- Está bem, chefe. Pode confiar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Satula, um mukwakuyza, levava como recomendação dos seus supriores: pôr ordem naquele município que durante muito tempo foi administrado pela guerrilha. Já dois seus antecessores civis tinham fracassado e a ele, um militar, a missão seria a de impôr a ordem admisnitrstiva, custasse o que custasse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Viva o povo!&lt;br /&gt;- Viva!&lt;br /&gt;- Viva a paz!&lt;br /&gt;- Viva!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A multidão, embora rotulada de resistente, começava a flexibilizar-se e a cantar a “música” do administrador, tirando uma bolsa que se mantinha sentada debaixo da mulemba .&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- A luta?&lt;br /&gt;- Acabou! – Responderam.&lt;br /&gt;- A vitória?&lt;br /&gt;- Foi à lavra!&lt;br /&gt;- Isto já me cheira à provocação, pá! - Recamou em voz baixa, mas se conteve. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O sol tornava-se cada vez mais intenso e a chuva anunciava presença. O povo cada vez mais incómodo de sentia, pior ainda com as palavras caducas do administrador. Este por sua vez, vacinado contra a resistência do povo, de imediato franziu o rosto e ordenou ao intérprete.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Para ouvirem bem traduz tudo para a língua daqui. Não esquece nem uma vírgula está bem? E diz-lhes que vou falar em português.&lt;br /&gt;- Sim chefe. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o intérprete começou:&lt;br /&gt;- A Wiñi wo Mbukayo kalungi !&lt;br /&gt;- Kuku! - Respondeu a multidão que aguardava pelas novidades do novo administrador.&lt;br /&gt;- Omo akuti Soma kapopi elimi lietu, otuvanguila mwenle voputu, noke ame ndipitilisa ondaka vumbundu. – Preveniu Chipalavela, o guarda-costas promovido a tradutor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Como a administrador não fala a nossa língua, vai falar a língua dos portugueses e eu vou traduzí-lo para umbundu).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E começou: &lt;br /&gt;- Camaradas do Mbukaio, já sei que vocês correram com dois comissários porque negaram cumprir as ordens que trouxeram da província. Eu vim com muito respeito do povo e quero também muito respeito para comigo. Se não, vamos ver quem é que manda, se é o administrador enviado para governar ou se é o povo que não quer obedecer as leis do Estado...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A população se conteve às palavras ameaçadoras do administrador e até mesmo os conhecidos sabotadores dos comícios se mantiveram silenciosos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Os camaradas que por cá passaram já me disseram que vocês gostam de foder os outros, só porque andaram nas matas, numa vida errante de cada um por si. Mas comigo a coisa vai ser diferente. Trago orientações superiores que são muito precisas. Quem tentar me foder engana-se. Eu é que o fodo primeiro, ouviram?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O administrador fez uma pausa para limpar o suor que lhe inundava o rosto enquanto o tradutor convertia o discurso letra a letra para a língua do dia-a-dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De imediato o povo reagiu com gritos de reprovação e alguns tomates que tinham sido recolhidos para servirem de oferta ao administrador foram lançados ao alpendre que produzia a sombra. Uns retiravam-se aos muxoxos e outros ensaiavam posições ameaçadoras à integridade física do dirigente. O clima estava empolvorado. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Satula olhou para o também aflito Chipalavela e questionou: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Que se passa, pa?&lt;br /&gt;- Parece que não gostaram do que o chefe disse que lhes vai foder primeiro.&lt;br /&gt;- Mas tu falaste mesmo assim do que os adultos fazem à noite?&lt;br /&gt;- Sim chefe. O chefe mandou falar tudo. Palavra com virgula…&lt;br /&gt;- Porra, pá! Agora tu é que me fodeste, pá!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No local, terreiro da casa do soba Mwa Cikambi, o povo largou uns “kuende, katuyongola usonguwi wu ndeti ”, mas apenas uma mancha de poeira se via no trilho. O céu continuou ameaçador de chuva, mas nada os demovia. Nem mesmo o sol que se revezava com a sombra das nuvens viajantes. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Livre da rebelião mas nunca da punição, Satula esperaria pela sua sorte, talvez a cadeia, tão logo a notícia chegasse à província. E não tardou. Dois dias depois foi chamado à sede da província pelo Comissário-Chefe. Seguiu no sei NIVA amarelo acompanhado de dois emissários armados que não o deixaram sequer despedir-se da mulher. Até o volante foi-lhe retirado e entregue a um dos emissários do Comissário-Chefe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pelo caminho, tentou saber a razão da chamada e daquele canino acompanhamento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O Maior disse-nos apenas para não o deixar respirar, Sr. major Satula. - A voz firme era dum jovem de uns vinte e tal anos. Pedro Gama, cabeça rapada, barba aparada nem parecia um bófia. Ao volante seguia um senhor de idade, quarenta e tal cacimbo vividos ao volante ora de IFA ora de DAIMER, ora de ZIL e outras tantas marcas que só ele sabia. O homem de pouca palavra, respondia apenas pelo cognome de Dono da Estrada. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Estamos apenas para cumprir ordens, nós também não sabemos o motivo que nos trouxe. -Respondeu ele à pergunta de Satula que a todo o custo pretendia saber para onde iam e com quem falaria uma vez chegados à cidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Satula foi conduzido à penitenciária provincial e despachado semana depois para Luanda onde cumpriu seis meses de sem julgamento.&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;…&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Na cadeia, o homem sófrego sente ainda as cordas a lhe morderem a carne. Havia já dois dias que fora ali depositado como cão sem dono. Aquela dor, como dentes que se encravam horas sem fim na carne moída, era uma enorme tortura. Satula não se conteve de tanta raiva - raiva mesmo era o que sentia – e largou as últimas lágrimas que guardara para a mãe já cansada de velhice. A solidão e o sofrimento apossaram-se dele e viria a largar um pequeno sorriso apenas, diga-se involuntário, à resposta de um dos companheiros de cárcere à música tocada no rádio a pilhas pendurado na parede alta do recinto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Francisco Cikolasonhi, natural do Mwa-Cimbundo, estava ali detido por ter aderido a um movimento secessionista e posto na Kinhonga às ordens de quem desconhecia. Fora agarrado numa noite de festa. Propositadamente embriagado por um indivíduo que conheceu no mesmo dia, foi levado já sem sentido e acordou na cela. A mínima noção de culpa que tem foi-lhe transmitida por um outro desconhecido que passou pela cela no último domingo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você é o Cikolasonhi?&lt;br /&gt;- Sim chefe.&lt;br /&gt;- Sabes o que significa?&lt;br /&gt;- Sim chefe. É provoca vergonha, chefe!&lt;br /&gt;- E te sentes bem aqui numa cadeia, um pai de filhos com mulher e família?&lt;br /&gt;- Não chefe.&lt;br /&gt;- Então, se um dia saires daqui, pensa bem antes de te juntares àqueles divisionistas sem cérebro, está bem?&lt;br /&gt;- Sim chefe! - Respondeu sem saber de onde vinha e que missão tinha aquele homem de baixa estatura mas cheio de ares de grandeza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cikolasonhi ignorava o poder das ondas hertezianas e a telegrafia sem fios era, para ele, um conto de fadas. O homem acreditava piamente no feitiço e noutras forças ocultas que podiam colocar homens de grande estatura dentro de um garrafão de vinho ou numa caixa de fósforos, mantendo a sua vida e executando as acções dos humanos no seu ambiente natural: falar, por exemplo, ou mesmo cantar como se canta nos coros juvenis da igreja protestante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era a primeira vez que ligava um rádio a mando do chefe da cela, o famigerado Tira Sangue. Tão logo girou para a direita o botão power, sairam da pequena caixa preta, com barra de vidro na parte superior, vozes que ele entendeu como se uma pessoa cativa dentro do aparelho o tivesse perguntado: “Cika, Cika nunca mais te vi”…, ao que ele de imediato respondeu na mesma bitola cantada:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- “Num estovo aqui, andovo no Mwa-Cimbundo”…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ninguém se conteve, nem mesmo o carcereiro que andava à solta a procura de zaragateiros, que existiam aos montes, para meter em acção o seu predilecto porreto de borracha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Santula pôde, finalmente e por alguns instantes, interromper aquele rosário de pesares e, por uns curtos segundos, desfrutar do que muito gostava de fazer em horas vagas: Troçar e rir de bandeja farta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cikolasonhi que nunca “engoliu” nenhuma ciência trazida pelos brancos também nunca lhe passou pela cabeça que aquele objecto transmitia apenas a música de alguém que podia estar em local muito distante e incerto, sendo a caixa apenas um reprodutor de “recados”. Para ele, só podia ser uma pessoa escondida dentro do aparelho e que ao vê-lo aproximar-se para o tocar, de imediato o questionou da sua prolongada ausência, como diria no seu habitual Cokwe: ca kumwene!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não fosse a rudeza do Tira Sangue, um pilha-galhinas dos musseques calús , um dia destes tiraria a dúvida. Estava decidido em desmontar o rádio e ver quem se alojava dentro dequelas pequeníssimas paredes de madeira, vidro e plástico. Queria ver o tal branquelo com aquela voz de gente fina e farta de benesses, bem disposto, dando ordens e sango ou cantando sem soluçar. Foi uma pena!&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3768017225494223045-5572696380677551735?l=atura-liter-atura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://atura-liter-atura.blogspot.com/feeds/5572696380677551735/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://atura-liter-atura.blogspot.com/2011/02/o-comicio-do-mbukaio.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3768017225494223045/posts/default/5572696380677551735'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3768017225494223045/posts/default/5572696380677551735'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://atura-liter-atura.blogspot.com/2011/02/o-comicio-do-mbukaio.html' title='O COMÍCIO DO MBUKAYO'/><author><name>"Soberano" Canhanga</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08139246140510431159</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_RGH73KYb7oc/SLKRmnddrjI/AAAAAAAAApA/4e-mjmOAaaY/S220/LCIMG_8216.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3768017225494223045.post-4614495258162532713</id><published>2011-02-01T01:41:00.002Z</published><updated>2011-02-01T10:18:56.908Z</updated><title type='text'>DO PUNHO DOS OUTROS (I)</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_RGH73KYb7oc/TR24BzzESAI/AAAAAAAABqw/kCOrzyXyS1o/s1600/Book+do+meu+Kot'Armando.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; cssfloat: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="133" n4="true" src="http://4.bp.blogspot.com/_RGH73KYb7oc/TR24BzzESAI/AAAAAAAABqw/kCOrzyXyS1o/s200/Book+do+meu+Kot%2527Armando.jpg" width="200" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="color: red;"&gt;&lt;strong&gt;PONTO PRÉVIO: &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;&lt;strong&gt;1- Não sou crítico literário, muito menos um escritor consagrado. Sou apenas um amante da literatura e com apenas um rebento trazido à luz. Tudo o que faço é por gosto e convicto de que é exercitando que se "dá forma&amp;nbsp;à pedra".&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;&lt;strong&gt;2- Começo essa aventura (DO PUNHO DOS OUTROS) trazendo escritos de outros confrades, para que: tal; como eles me dão a conhece nas suas páginas, por este blog se conheçam também os feitos/escritos dos meus confrades e amigos de peito.&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Espreitando a &lt;strong&gt;"prosa poética e melancólica"&lt;/strong&gt; de Armando Graça, um luso-angolano, emigrado para a metrópole nos tempos da Revolução dos Cravos, encontro na sua proposta de leitura esta "preciosidade" que resumida pelo editor, levo ao conhecimento do meu leitor.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;"&gt;&lt;em&gt;"Memórias de Gente Vulgar" levam-nos a fazer uma viagem das origens do autor aos dias de hoje (1945-2010).&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;"&gt;&lt;em&gt;Como o título deixa antever, não há aqui berços de ouro nem se trata de desfilar de sucessos, bem pelo contrário. Revelam-se aqui como enfrentaram as dificuldades muitos dos portugueses nascidos logo após a II Guerra Mundial. E dá-se conta como a procura de vidas melhores dá lugar a infâncias conturbadas.&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;"&gt;&lt;em&gt;Entra-se em África, pela Baía de Luanda, retendo cheiros, cores e sabores de um novo mundo.&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;"&gt;&lt;em&gt;Relatam-se aventuras escolares e desventuras de prematuros empregos. E sentem-se...&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;"&gt;&lt;em&gt;Sentem-se servidões, colonislismos e racismos oficialmente desmentidos.&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;"&gt;&lt;em&gt;Sentem-se alguns dos terrorres que deram lugar a nova fuga, então apelidade de "retorno"...&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;"&gt;&lt;em&gt;Sentem-se as aventuras de quem volta ao seus país e se acha no estrangeiro, seja porque é mesmo assim, seja porque a Revolução dos Cravos agitou alguma coisa...&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;"&gt;&lt;em&gt;Sentem-se, ao longo de várias décadas, governos que desgovernam, empresas geridas para afundar e pessoas que não se comportam como tal...&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;"&gt;&lt;em&gt;Mas sente-se, acima de tudo e apesar de tudo, um constante fazer pela vida...&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;"&gt;&lt;em&gt;(...)".&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;É esta prosa que nos oferece Armando Graça, também meu revisor, a par de&amp;nbsp;José Soares Caetano (autor de "O Último Segredo" - UEA/Edições Novembro, 2010), no seu "Memórias de Gente Vulgar" cujo lançamento em Portugal está agendado para os primeiros dias deste mês de &amp;nbsp;Fevreiro/2011 em Portugal.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Espero que o livro chegue às mãos dos angolanos sedentos de "leitura limpa"&amp;nbsp; ou no mínimo esteja à disposição dos cibernautas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Voce pode ler um pouco aqui:&lt;/strong&gt; &lt;a href="http://www.sitiodolivro.pt/fotos/livros/excerto-memorias-de-gente-vulgar_1290100247.pdf"&gt;http://www.sitiodolivro.pt/fotos/livros/excerto-memorias-de-gente-vulgar_1290100247.pdf&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3768017225494223045-4614495258162532713?l=atura-liter-atura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://atura-liter-atura.blogspot.com/feeds/4614495258162532713/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://atura-liter-atura.blogspot.com/2011/02/do-punho-dos-outros-i.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3768017225494223045/posts/default/4614495258162532713'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3768017225494223045/posts/default/4614495258162532713'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://atura-liter-atura.blogspot.com/2011/02/do-punho-dos-outros-i.html' title='DO PUNHO DOS OUTROS (I)'/><author><name>"Soberano" Canhanga</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08139246140510431159</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_RGH73KYb7oc/SLKRmnddrjI/AAAAAAAAApA/4e-mjmOAaaY/S220/LCIMG_8216.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_RGH73KYb7oc/TR24BzzESAI/AAAAAAAABqw/kCOrzyXyS1o/s72-c/Book+do+meu+Kot%2527Armando.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3768017225494223045.post-9040161576817991201</id><published>2011-01-06T08:03:00.005Z</published><updated>2011-04-02T10:01:05.249Z</updated><title type='text'>O CIÚME E O FEITIÇO</title><content type='html'>&lt;strong&gt;Era uma vez… &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: x-large;"&gt;H&lt;/span&gt;avia na aldeia do Kuteca uma mulher muito ciumenta, cujo marido, já velho, saia todas as noites sem nunca dizer para aonde ia. &lt;/strong&gt;A mulher sempre que lhe perguntasse sobre as suas saídas ele respondia:&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;- É melhor não saberes onde vou. Olha que isso é para o teu próprio bem.&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Mas a senhora, Milika de seu nome, já desconfiada&amp;nbsp;de algo que não sabia e nem entendia, fez um plano e falou consigo mesma: &lt;br /&gt;&lt;em&gt;- Hoje, quando ele pretender sair, vou seguiu-lo para saber aonde tem ido e o que tem feito.&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;De noite, quando Kavindi chegou, deu-lhe o jantar: funje com bagre fumado e lombi . Depois do repasto, o homem decidiu-se em sair como de costume.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;De pianinho, sem fazer-se perceber, Milika começou a segui-lo. O homem atravessou a aldeia e entrou no sertão. Chegado ao muzungu, o chefe dos feiticeirtos disse-lhe:&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;- Homem, estás a ser seguido!&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;- Eu? Não. Vim sozinho e com muito cuidado como sempre. - Respondeu ele.&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Perante a insistência dos colegas, Kavindi ordenou que se revistasse o matagal e a mulher foi descoberta, escondeida atrás de uma bananeira.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;- Por teres desfeito o nosso segredo também te tornas feiticeira. &lt;/em&gt;- Disseram-lhe.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;- Não, por favor. Eu não posso ser feiticeira. Sou religiosa e toda a minha família requenta a igreja.&lt;/em&gt; – Suplicou ela.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- &lt;em&gt;Então terás de morrer&lt;/em&gt;.- Sancionaram em coro.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- &lt;em&gt;Por favior, tenho filhos pequenos.&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Perante as súplicas da senhora, os homens deixaram-na partir, mas com o decorrer do tempo Milika começou a adoecer. Frequentava os melhores hospitais da região mas nunca mehorava, definhando cada vez mais, até que contou a verdade ao soba da aldeia sobre o que tinha feito e o que tinha descoberto na mata cerrada.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Milika pediu antes que todos os aldeões se reunissem no jango, à volta de uma enorme fogueira, e contou:&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;- Sei que vou morrer. A minha morte será por ter sido ciumenta e curiosa, chegando a descobrir um segredo que era apenas do meu marido, mesmo tendo ele me pedido que não o fizesse. Como não aceitei morrer no local nem tornar-me feiticeira, tenho esta penitência: a morte lenta.&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;E ela morreu.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Por sua vez, uma vez descobertos pela comunidade, os feiticeiros foram jogados à fogueira pela população reunida em torno do soba Mbembwa-yo-Cily .&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3768017225494223045-9040161576817991201?l=atura-liter-atura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://atura-liter-atura.blogspot.com/feeds/9040161576817991201/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://atura-liter-atura.blogspot.com/2011/01/era-uma-vez-i.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3768017225494223045/posts/default/9040161576817991201'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3768017225494223045/posts/default/9040161576817991201'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://atura-liter-atura.blogspot.com/2011/01/era-uma-vez-i.html' title='O CIÚME E O FEITIÇO'/><author><name>"Soberano" Canhanga</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08139246140510431159</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_RGH73KYb7oc/SLKRmnddrjI/AAAAAAAAApA/4e-mjmOAaaY/S220/LCIMG_8216.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3768017225494223045.post-7379136779472023766</id><published>2010-12-31T07:27:00.005Z</published><updated>2011-01-06T08:06:16.738Z</updated><title type='text'>A CRÍTICA LITERÁRIA E O SONHO DE UM SOBERANO*</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_RGH73KYb7oc/TRw6Us0O65I/AAAAAAAABqo/f_c78RNwb6U/s1600/O+Sonho+de+KaÃºia.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; cssfloat: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="320" n4="true" src="http://1.bp.blogspot.com/_RGH73KYb7oc/TRw6Us0O65I/AAAAAAAABqo/f_c78RNwb6U/s320/O+Sonho+de+Ka%25C3%25BAia.jpg" width="301" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="border-bottom: medium none; border-left: medium none; border-right: medium none; border-top: medium none; text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;Começo com um ponto prévio, numa correcção importante. Não sou um crítico literário, nem um escritor. Gosto de escrever crónicas e ando (a) procura de um compromisso com a literatura. A leitura é uma das minhas maiores paixões e quando o texto ou discurso literário são ricos e agradáveis custa-me interrompê-los, não importa quantas páginas tenham.&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Há tempos, o Luciano Canhanga, jovem jornalista, 34 anos, deu-me a ler o esboço do seu primeiro rebento literário. Era um trabalho tão interessante que coloquei de lado o que estava a fazer numa das horas de lazer.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ele tinha dado ao seu rascunho um título diferente do que tem hoje, mas que transmitua a ideia de uma “marcha entre chamas”, um país a arder sob o fogo das armas e de uma grave crise económica e social; a vida infernal numa aldeia; a fuga desespererada para a cidade das mil uma oportunidades e um conjunto de dramas de quem vive na agonia, sem saber como vai terminar o sofrimento. Compreendi, sem nada perguntar, que era a história dele e da sua família. A história de muitos angolanos. Em 1997, já tinha ouvido uma história idêntica de uma jovem, também jornalista, que fugiu a pé do cenário da guerra e me motivou a escrever “os jornalistas e a saúde”, para o Jornal de Angola.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Eu e o Luciano tornamo-nos amigos via internet. Ele reagiu a uma crónica que escrevi neste jornal e criou-se uma simpatia mútua. Depois, descobrimos amigos comuns dentro e fora de Angola e fui portador de encomendas para ele. O Luciano é do Kuanza-Sul, terra onde eu passei parte da infância. Discutindo via e-mail, ficamos amigos. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Mais tarde, aceitei o desafio que ele me colocou para rever e prefaciar o seu primeiro livro, publicado há uma semana com o título de “O Sonho de Kaúia”. Fiz várias observações ao texto, a mais importante das quais foi a necessidade de definoir fronteiras entre a ficção literária e um diário com referências a actores políticos do tempo que ele retrata. Disse-lhe que deveria criar personagens e dar-lhes suficiente liberdade em cada capítulo ou episódio, sem medo. “Dá mais autonomia aos teus personagens e quanto menos te intrometeres será melhor, para o leitor. Tu és o criador, eles são os protagonistas”, insistia sempre. Em Julho de 2010, o sonho de Soberano estava realizado. O lançamento ocorreu na sexta-feira, dia 17 de Dezembro, nas instalações do Cefojor, aqui em Luanda, num ambiente bastante agradável, testemunhado por jornalistas, escritores, líderes religiosos e amigos da literatura.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O Sonho de Kaúia pode não ser uma obra perfeita, mas é seguramente uma história interessante e perspicaz. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O Manuel Muanza, jornalista, professor e crítico literário fez reparos semânticos antes de dizer que a obra é “um instruimento de denúncia social e de crítica a uma prática que se tornou instituição na nossa sociedade”. Ele “corrigiu” várias vezes o autor, sugerindo que se escrevesse Kanhanga e não Canhanga; Kawya em vez de Kaúia; Kyanda e não Kianda. “São convênios”, explicou ele. Eu confesso que também não sabia.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Sobre o conteúdo do livro, disse substancialmente: “na Europa ocidental, o realismo de Balzac e Flaubert aconteceu no momento das grandes transformações económicas e culturais. (…) Nas sociedades em construção como a nossa, os problemas sociais, económicos e culturais não vão deixar de envenenar o texto literário, como é agora o caso”.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Sejam quais forem as “PaLaVras…” sobre esta primeira obra, estamos perante um livro digno de ser livro. E é um conselho aos jovens que pouco recebem dos adultos: leiam mais, como alternativa às sextas-feiras do homem e aos “clipes e outdoors” que vos induzem a beber desenfreadamente, com trágicas consequências aos fins de semana!&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Depos da crítica de Manuel Muanza e de Arlindo Isabel, cujo discurso também exortou os jovens a seguir as “regras de bem escrever”, o Luciano coinfessou que tinha vontade de fugir da sala e deixou em branco a magnífica oportunidade de repetir o olhar crítico da sua obra. Foi pena!&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Gostaria que ele contasse aos presentes como surgiu como surgiu e como desenvolveu a ideia deste livro. Mas, logo compreendi que sendo o primeiro “sonho”, ele imaginou-se um peixinho acabado de nascer no meio de “tubarões” e protegeu o seu investimento, autografando-o em silêncio! Mais tarde, recebi um sms dele, no meu telemóvel, explicando o que tinha sentido: “… Kota, partilho consigo as críticas e os elogios!”.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;“Uma boa aposta. Este rapaz tem futuro”, termino como ele próprio terminou o diálogo entre os personagens do “seu” grande “Sonho de Kaúia” (pág. 111). Luciano, segue o teu caminho!&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="border-bottom: medium none; border-left: medium none; border-right: medium none; border-top: medium none;"&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;&lt;strong&gt;*&amp;nbsp;Tazuary Nkeita (José Soares Caetano) in: Semanário Angolense, edic. 398, de 25 Dez. 2010, pág. 26.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;Autor de &amp;gt;&amp;gt;&amp;gt;&amp;gt;&amp;gt;&amp;gt;&amp;gt;&amp;gt;&amp;gt;&amp;gt;&amp;gt;&amp;gt;&amp;gt;&amp;gt;&amp;gt;&amp;gt;&amp;gt;&amp;gt;&amp;gt;&amp;gt;&amp;gt;&amp;gt;&amp;gt;&amp;gt;&amp;gt;&amp;gt;&amp;gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_RGH73KYb7oc/TRw5nMxddaI/AAAAAAAABqk/NqFGhYBknxQ/s1600/Ãšltimo+segredo.JPG" imageanchor="1" style="clear: right; cssfloat: right; float: right; margin-bottom: 1em; margin-left: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="200" n4="true" src="http://3.bp.blogspot.com/_RGH73KYb7oc/TRw5nMxddaI/AAAAAAAABqk/NqFGhYBknxQ/s200/%25C3%259Altimo+segredo.JPG" width="130" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3768017225494223045-7379136779472023766?l=atura-liter-atura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://atura-liter-atura.blogspot.com/feeds/7379136779472023766/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://atura-liter-atura.blogspot.com/2010/12/critica-literaria-e-o-sonho-de-um.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3768017225494223045/posts/default/7379136779472023766'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3768017225494223045/posts/default/7379136779472023766'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://atura-liter-atura.blogspot.com/2010/12/critica-literaria-e-o-sonho-de-um.html' title='A CRÍTICA LITERÁRIA E O SONHO DE UM SOBERANO*'/><author><name>"Soberano" Canhanga</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08139246140510431159</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_RGH73KYb7oc/SLKRmnddrjI/AAAAAAAAApA/4e-mjmOAaaY/S220/LCIMG_8216.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_RGH73KYb7oc/TRw6Us0O65I/AAAAAAAABqo/f_c78RNwb6U/s72-c/O+Sonho+de+Ka%25C3%25BAia.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3768017225494223045.post-3752644339716520301</id><published>2010-12-09T18:47:00.000Z</published><updated>2010-12-09T14:08:36.532Z</updated><title type='text'>O RELÓGIO DO VELHO TRINTA</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O calendário apontava o mês de Janeiro dum ano já apagado da memória. No Rimbe, o que se dizia ser a aldeia não passava de pequenas ilhas distanciadas. Casas e lavras de famílias que tinham abandonado o Kuteca e Katoto em busca de terras ainda virgens e maior tranquilidade. Era, no fundo, a prosperidade e a independência que alí os levara.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Velho Trinta e os seus filhos: Neto, Nando, Raúl e Kimone; seus netos; noras e genro constituiam o maior agregado comunitário. Umas dez casas sem soba , recaindo a autoridade em Neto Trinta, o filho primogênito, e no conselho sempre pronto e sábio do ancião.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Noutro pequeno povoado estava Xica Yango, esposa e seus filhos: Jorge Kakonda, Ngunza Kabolo e a caçula Eva. Os filhos varões já estavam casados e tinham-no presenteado com uns cinco netos. A família estava ainda no começo do seu alargamento.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Xika Yango tinha sido soba no Kuteka e, embora tivesse reunciado voluntariamente, conservava ainda o título, pois assim o tratavam todos os que o conhecimam e que por ele procuravam. Até mesmo os do Kuteka, já administrados por um novo soba que fora coadjutor de Xika Yango, mantinham a mesma admiração e respeito.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;António, primo de Xica e Katumbo, também prima de Nzumba Tembo, a esposa de Xica, viviam também numa outra ilha continental. Porém, a morte de prematura de António levou Katumbo, a prole de cinco menores e suas crias; três bodes e algumas galinhas a juntar-se aos primos.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;No Rimbe vivia ainda o Domingos Kastruque, também ele oriundo do distante Kuteca que dista trinta e cinco quilómetros percorridos sempre a pé ou de tractor até à estrada naciona 120. Kastruque tinha finalmente se afiliado aos Trinta para cujo aglomerado se tranferiu posteriormente.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Embora ilhado, o Rimbe crescia e era tido por todos como uma aldeia dependente da regedoria de Tumba Grande. A vida comunitária, a partilha do mel e fel da vida entre os chefes das famílias e seus dependentes fazia deles uma unidade coesa até que chegou a guerra.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Velho Trinta, setenta ou mais anos às costas, ninguém sabia ao certo quando tinha nascido. Apesar da aparente robustez, mostrava-se já sem forças para subir e descer montanhas, fugindo dos guerrilheiros opositores ao governo instalado no dia da independência.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;-&lt;em&gt; Sei que se me encontram nada me faze, e se me matam apenas me oferecem uma viagem pro descanso.&lt;/em&gt; – Atirou certa vez aos netos, em jeito de brincadeira. O seu único temor era a possibilidade de ficar sem a companhia dos netos, já jovens e adolescentes, que para as hostes da UNITA valiam como ouro.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- &lt;em&gt;Avô, se voce fica aqui sei que nada lhe fazem, mas quem vai acarretar água e cozinhar para si?&lt;/em&gt; - Questionou a pequena Katembo respondendo ao avô.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;- Hum, vou só mesmo me enrascar.&lt;/em&gt; – Respondeu cauteloso, ciente da dificuldade que seria acarretar lenha e água e colher e confeccionar alimentos.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A fome era na verdade um inimigo que matava lentamente, por isso seguia tropego a comitiva de fugitivos que cortavam um atalho sertanejo de vinte e tal quilómetros.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Velho Trinta algodão à cabeça, metro e oitenta de altura a curva-lhe a coluna e voz ainda férrea, anda cantando suas malambas .&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;- Oh relógio que bates tic-tac,&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;Avaria sem conserto&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;Para de uma vez por todas&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;Deixar de leslizar este ponteiro&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;Oh relógio que estás no peito&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;Meu prazo está caducado …&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;…&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Os netos, alguns ainda inocentes, perguntavam por que razão teria ele guardado o relógio no peito, enquanto Mariana, a esposa de Neto Trinta, procurava distrair o sogro com cenas do bom tempo, quando o velho ainda jovem o contactou para esposa do filho que andava na guerra contra os Tugas no Quitexe e Kamabatela.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;- Papá lembras-te quando foste ter com os meus pais para me juntar com o Neto?&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;- Sim Mariana. Como é me ia esquecer de algo que me deu tantos netos e alegrias?&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;- Também havia guerra do Kuata-Kuata …&lt;/em&gt;- Lembrou a nora.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Pois claro, minha filha. Mas se o Neto estava nas frentes de combate nós estávamos aqui a cavar a nossa mandioca e ninguém tinha que dormir nas matas. Só mesmos já no ano da revolução quando se começaram a escaramuçar é que a coisa mudou um pouco…&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Mal o Velho terminou a explanação, rebentamentos de bazucas, disparadas à distância, assustavam a coluna de fugitivos. A longa fila de homens, mulheres e crianças lembrava o tempo de contratados. Todos, uns e outros, temendo apenas pela vida. Velho Trinta correu ainda vezes incontaveis, durante uns cinco anos, entre Rimbe e Katoto, sua aldeia natal, sempre implorando ao seu relógio para parar o tic-tac.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;- Oh relógio que bates tic-tac,&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;Avaria sem conserto&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;Para de uma vez por todas&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;Deixar de leslizar este ponteiro…&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Inesperadamente despediu-se numa noite em que o único barulho que se ouvia na noite escura era o farfalhar da chuva ao corpo hirto das chapas de zinco.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Mariana tinha madrugado, como sempre, à porta do sogro que ficava a uns dez metros da sua.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;- Sessa ngana! &lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Era um exercício diário e vezeiro. Todas as manhàs, todos os anos em que Neto trinta os fez membros de uma mesma família. À saudação segui-se um silêncio nunca antes observado.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;- Uaué cocolo diamié?&lt;/em&gt; - Gritou desesperada. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ao choro da mulher juntaram-se outras vozes e outros choros de mulheres vindas de outras aldeias, algumas longínquas, trazidas pelo som do tantã das más novas. Havia também mulheres que aproveitavam o passamento do velho Trinta para recordar outros mortos ainda frescos na memória.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;-&lt;em&gt; Ai meu homem, como você me faz falta…&lt;/em&gt; - Lamentava Katumbo lembrando seu marido.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;Velho Trinta leva saudações para meus pais e minha filha&lt;/em&gt;… - Chorava Eva Kambundu.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Os homens com ideias e valores traçavam planos para a feitura da campa e as exéquias fúnebres, enquanto outros descapitalizados ofereciam o seu choro e as suas preces, juntando-se ao exército feminino que se vestia de mulalas entre as pernas.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- &lt;em&gt;Mas esse mano então que está a chorar assim é quem é do falecido?&lt;/em&gt;- Questionou Eva Kambundu.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;- Hum filha, lhe deixa só. – &lt;/em&gt;Respondeu Katumbo interrompendo o choro &lt;em&gt;- Se você está ver já um homem meteu mulala tipo é mulher, lhe controla. É porque não tem dinheiro para contribuir nas despezas do óbito e se mistura ’mbora connosco.&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Mal terminou a explicação, Katumbo desatou outra vez aos gritos, evocando a memória do seu António partido recentemente para o nunca mais.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Outras mulheres faziam-se ao caminho do riacho em busca de água, levando sangas e latas de vinte litros à cabeça. Os mizangala dirigiam-se ao mato em busca de lenhas enquanto os dikotas procuravam pelo Sô Miguel da cerâmica para os tijolos da campa.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;- Sabalo!&lt;/em&gt; - Chamou Neto ao filho.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;- Papá!&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;- Não te esqueças de avisar o papá Nagana Ngunji, amigo do teu avô, para lavar o defunto e manterem a última conversa a sós.&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;- Mas papá, morto fala?&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;- Vai, seu burro. A tradição nunca se muda. Anda!&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Velho Trinta e Ngana Ngunji eram do kissoco e companheiros em muitas caminhadas. A ele, Ngana Ngunji, cabia, após um monólogo com o finado, desvendar à família os segredos do amigo ainda ocultos.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ngana Ngunji, também na casa dos setenta ou oitenta, chegou à noite com a mulher e uns parentes, trazidos numa “avó chegou” . Depois do habitual mahezo entre os que chegam e os anfitriões, o velho ficou alguns intantes a sós com cadáver a quem relembrou as alianças firmadas, os caminhos trilhados, a necessidade que tem agora de procurar por um outro confidente e, sobretudo, a pertinência de abrir aos filhos e netos o seu livro de vida, guardado a sete chaves até aquele dia.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;- Mano, o que nos une só tu e eu sabemos. O que fizemos também só tu e eu sabemos. O que nos separa ainda é desconhecido, mas hoje, o mano me perdoa, vou violar os segredos para que não morram comigo.&lt;/em&gt; - Monologou.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;No dia seguinte, seria também ele a aparar a barba do amigo, dar-lhe banho e vesti-lo. Era o compromisso a que tinha chegado com o amigo ainda vivo. Depois viriam os netos varões para depositar o cadáver na urna.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;…&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Homens à frente, revezando-se no transporte da tipoia que carregava o caixão acastanhado com os restos do velho Trinta; mulheres choronas no meio da comitiva e crianças curiosas a trás, seguiam todos em coluna. Um por um, lembrando filas indianas. O cortejo seguia ao lngo de dois quilómetros acompanhado pelo Kimbanda contratado para descobrir e anunciar nos dois dias seguintes as razões da morte.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;- Velho Trinta, vingue-se dos seus inimigos. Não se esqueça de contactar os nossos antepassados para que estes me revelem se é causa de Deus ou dum nganga qualquer.&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Entre passo e pausas no monólogo o kimbanda volta a suplicar: &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;- Mais velho, ajude-me a “escarlecer” quem foi que lhe “cumeu”. Se é alguém com dívida por receber ou se é só mesmo inveja do mundo…&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A frase do adivinho foi usada para debate dos miúdos, à rectaguarda da fila, que já frequentavam a escola e com algum raciocínio de lógica científica.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;- Mas oh João, ouviste bem o kimbanda?&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;- Sim ouvi e estou também a buscar o meu entendimento. “Comué” que o avô está no caixão e esse velho bacoco está ai a entrujar que foi comido por alguém?-&lt;/em&gt; Questionou-se.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- &lt;em&gt;Ya, eu também estou buamado e vou mesmo recorrer ao professor para nos tirar essa dúvida.&lt;/em&gt; – Respondeu o Júlio, um dos primos de João Trinta.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;Quem não perdeu tempo foi mesmo Phande que, aproveitando-se do facto de ser primo do professor Jorge Kakonda, marcou uns passos à frente e o interceptou no momento em que a urna descia à cova.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;- Camá pressor, mi disculpa só ainda!&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;- Diz lá, mas fala baixinho.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;- Pessoa si come?&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;- Como assim?&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;- Sim mano&lt;/em&gt; - Phande esqueceu-se, por instantes, da regra imposta pelo professor de que mano era apenas na informalidade da casa &lt;em&gt;- ouvi o kimbanda a falar que o avô Trinta foi “cumido”num feiticeiro…&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;- Oh pioneiro, tens de entender que esses velhos traduzem tudo ao pé da letra.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;O rapaz ficou mais confuso ainda com a expressào inusitada do professor Kakonda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;- Prossor letra tem pé? Não é só pontos nos is e traços nos tés?&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;- Phande, os mais velhos traduzem para o português o que se comunica em Kimbundu. Como é que se tem dito quando alguém morre ou quando alguém gasta dinheiro alheio?&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;- É “cumeu”, camá pressor!&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;…&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Feito o funeral, as pessoas desoladas voltaram cada uma no seu caminho. Velho Nagana Ngunji, apesar da idade que lhe proporcionava experiência e coragem em situações análogas, parecia sem forças e pronto a despedir-se também.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;- Avô tens de fazer coragem. Teu amigo foi p’ro decanso. &lt;/em&gt;– Aconselhou Joaquim Neto, o neto mais velho do Velho Trinta.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;- Sim meu neto. Avisaainda os pais, os tios e os teus irmãos. Todos os netos que já se amigaram para abrirmos o segredo do vosso avô falecido. &lt;/em&gt;- Ordenou o ancião.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Em poucos minutos o jango tornou-se pequeno. Todos contados chegavam aos cem. O Velho Trinta tinha tido boa safra e o número de netos e bisnetos crescia todos os meses. E começou:&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;- Filhos, o falecido partiu. Choremo-lo, mas festejemos também. Ele cuidou-se bem e fez essa riqueza – apontava o dedo indicador para a assistência - fez também coisas que só hoje vão saber, o que é próprio de um homem com a desenvoltura do mano Trinta.&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A assistência fez a vénia em jeito de aprovação do discurso e o velho continuou.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;- Chamem o Domingos para estar também aqui.&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;- Avô, qual Domingos mais que falta se já estamos todos os filhos e netos aqui?&lt;/em&gt; – Perguntou Sabalo.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;- Aquele do Kuteca que vocês chamam de Kastruque…&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Gerou-se um pequeno pânico e interrogações. Procurava-se entender por que razão teria Kastruque acesso àquela reunião restrita, não sendo ele parente directo do finado. Domingos, o homem dos truques, era apenas um amigo da família.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;- Chamem só. Eu sei porquê. &lt;/em&gt;- Ordenou algo impaciente.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;…&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;Esse &lt;/em&gt;- apontava para o recém-entrado &lt;em&gt;- também é vosso irmão. Neto, você que é o mais velho dá-lhe ainda um abraço…&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Silêncio total. Ali não era para mugir nem tugir. Uns ficaram até boquiabertos perante a revelação. Nunca lhes passara pela cabeça o que acabavam de ouvir.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;- O meu amigo tem ainda uma filha no Ebo onde esteve como contratado no tempo do caputo . Neto, manda para lá um emissário, de preferência um dos netos do mano Trinta, que vai ao encontro da tia. A foto dela está aqui - &lt;/em&gt;exibiu-a à multidão&lt;em&gt; -, os dados todos estão escritos atrá. O mais velho deixou também quinze bois no Roussel e uma dívida de dois cabritos com o Xika Yango que está alí fora. Quando sairem podem contactá-lo para saber se ele quer a dívida dele ou se não… &lt;/em&gt;- Orientou.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Com a assistêncioa sempre atenta, em silêncio, fazendo apenas o gesto de aprovação com a cabeça ligeiramente bailonçada para frente e para trás, o ancião prosseguiu:&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;- Têm também uma conta a receber na fazenda Sector Sete. Os docuemntos estão aqui. &lt;/em&gt;- Entregou-os ao filho mais velho, Neto Trinta.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Feito o relatório, velho Ngana Ngunji soltou as lágrimas, as últimas que ainda guardava, e evocou aos soluços a memória do amigo a quem esteve ligado por mais de meia centena de anos.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;- Mano, vai com Deus, mas revela-nos nos sonhos. Se foi mesmo a hora que chegou, descansa em paz, mas se foi um nganga que te comeu atormenta-o a ele e sua casa. Não lhe poupa nem o curral, nem a capoeira.&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Filhos e netos do Velho Trinta que a pouco acompanhavam Ngana Ngunji no choro abanavam de novo as cabeças em jeito de aprovação do discurso.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;- Avô aparece no meu sonho e revela-me se “kalunga ka ngana ó kalunga ka kifumbe”&lt;/em&gt;. - Recomendou Katembo, interrompendo o silêncio.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A noite descrevia a sua última curva e os galos já anunciavam o nascer do outro dia. Lá fora aquecia a dança à volta da ngoma e da kissaca , tocadas por gente experiente convidada de outras aldeias, e fazia-se festa. Festa rija que nunca mais houvera naqueles tempos de guerra. Velho Nganga Ngunji foi dormir e no dia seguinte não mais acordou. Seguiu o caminho do amigo.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3768017225494223045-3752644339716520301?l=atura-liter-atura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://atura-liter-atura.blogspot.com/feeds/3752644339716520301/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://atura-liter-atura.blogspot.com/2010/12/o-relogio-do-velho-trinta.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3768017225494223045/posts/default/3752644339716520301'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3768017225494223045/posts/default/3752644339716520301'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://atura-liter-atura.blogspot.com/2010/12/o-relogio-do-velho-trinta.html' title='O RELÓGIO DO VELHO TRINTA'/><author><name>"Soberano" Canhanga</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08139246140510431159</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_RGH73KYb7oc/SLKRmnddrjI/AAAAAAAAApA/4e-mjmOAaaY/S220/LCIMG_8216.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3768017225494223045.post-5188100543630901078</id><published>2010-11-01T01:13:00.008Z</published><updated>2010-11-02T10:20:17.517Z</updated><title type='text'>OLH'O MALUCO</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Era no mês de Outubro. As aulas na primária tinham começado a um mês. Alunos e professores procuravam ganhar tempo naqueles dias de relativa acalmia. Já que há três meses que não se ouviam disparos, nem boatos sobre kitotas . Até mesmo o Kissongo, terra predilecta da guerrilha, parecia pacificado.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;-Clovis!&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Camá pressor!&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Que pretendes ser quando fores grande?&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O menino meneia a cabeça. A pergunta foi-lhe colocada em contra-mão e não tem a resposta formada. Nunca, nos seus oito anos, tinha pensado no que seria quando fosse grande.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Qual é a profissão que queres seguir quando fores mais velho?- Endireitou o professor Lotário.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Quero ser pai, camá pressor!&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Pai?&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Sim, camá pressor!&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Mas porquê?&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Porque os pai “comeum” bué!&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A resposta despreconceituosa do aluno deixou a turma e o professor em alta pressão. Risadas e risos controlados nos quatro cantos da sala. Lotário teve mesmo de sair para buscar concentração e inspirar ar puro. A aula de ciências integradas, da terceira classe, tinha chegado ao fim, cinco minutos depois da motivação. Clovis, agora jovem, nunca se esquece do episódio que lhe custou a alcunha de “Os pai comeum bué”. Era por este nome que todos os meninos da escola número três de Calulo o tratavam sempre que o objectivo fosse zombaria . Assim foi até chegar à quinta classe e mudar de escola.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A frequentar a preparatória no Instituto Kwame Nkrumah e a trabalhar de tipógrafo numa cerâmica, Clovis está agora decidido em ter um nome e uma profissão que dignifiquem a família e a sua vila amada. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;“O pão, ainda que mal amassado, exige sacrifícios”! Era esta a lição que Clovis carregava e distribuía por onde quer que fosse, por isso, fazia-se manhã cedo à estrada acompanhando a música dos militares.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;“Ngongoé, ngongoé&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;yá, yá, yá&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ngongo ya mon’âdiala !&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ya, yá yá”!&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O jovem aprendera com os pais, já finados, a fazer armadilhas para animais de pequeno e médio porte e a cultivar numa pequena horta que visitava ao raiar do sol, já que tinha de voltar à vila para o trabalho administrativo na cerâmica do Sô Miguel.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Na estrada, negra e encurvada como serpente, que faz deslizar os carros para Luanda, uma fila de noventa jovens mancebos corre ainda despreocupada com o devir. Muitos tinham sido retirados à força do colo de suas mães e outros, poucos, eram vuluntários cansados das rusgas e maus-tratos familiares. Qualquer um podia ainda ir para à casa pernoitar junto da família e apresentar-se à unidade no dia seguinte, pois só no fim da recruta é que seriam distribuídos pelas frentes que o LCB tinha nas comunas. Aí sim. Seria a vida dura dum militar.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O sol apresentava-se ainda como uma bolinha amarela e envergonhada, sem força para aquecer. Embora transcorresse o mês de Outubro, era mesmo o frio que ainda dominava. Homens, uns já nas ruas com samarras soviéticas, acordados pela companhia de instruendos das FAPLA’s, e outros ainda debaixo das mantas, sugando o último calor de suas amadas.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Clovis estava entre os madrugadores, buscando inspiração nos homens de sucesso que conhecia, no chilrear dos passarinhos e até no zunir dos ventos. O jovem queria ser escritor de fama e por isso usava de tudo para escrever, mesmo quando lhe faltasse o papel.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Clovis! Estás sempre a levar lapiseira no bolso mas nunca levas papel para escrever. - Disse-lhe certa vez Peregrina, a irmã.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Sim. Se não tiver papel há sempre um trazido pelo vento ou sirvo-me de uma folha de árvore. Há muitas por aí.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- E por que escreves tanta coisa que não é da escola, nem é do serviço e nem é carta?&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Um dia saberás, minha maninha.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Hum… Um dia… Ainda te chamam de maluco…- Resmungou insatisfeita. A útima frase foi, porém, pronunciada já em surdina.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Peregrina não estava enganada. Devido ao seu hábito de parar em qualquer esquina para apanhar papéis, quando lhe soprasse a inspiração, muitos já o tinham como demente.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Olh’o maluco!- Gritavam os miúdos da rua sempre que o vissem passar.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Maluco é… Cuidado miúdo... Um dia parto-te as fuças! &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ele sabia do que fazia, como também sabia do que dele se dizia. Mas dava tempo ao tempo para mostrar quem mais estava próximo da demência. Se ele ou os que assim o tratavam.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Às sete, hora de regresso à vila, Clovis cruzou novamente com a mizangala da tropa. Os mancebos cantavam, já sem a mesma forças das cinco da manhã, a predilecta canção:&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;“Oh fantoche,&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;oh fantoche tunda kó ! &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;oh fantoche, &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;oh fantoche tunda ko, ko Kissongo”!&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Na fila estava também uma moça de poucos anos e seios ainda duros como laranjas. A jovem recruta era muito mais do que linda. Também era desejável tê-la onde quer que fosse. Era um poço de carne tenra que se expunha num vai-e-vem seguindo em passos preguiçosos.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Sucuama! – Suspirou Clovis ao ver a “máquina” a passar, enfiada num camuflado que mal cobria as nádegas.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Mas quê que essa moça, tão boa, está aí a fazer no meio destes marmanjos todos? - Questionou um dos traunseuntes.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Deve ser para “desencravar” as armas dos chefes! - Respondeu outro. Era Salviano Margoso, um agricultor biscateiro .&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A estrada estava dividida em duas filas: Uma era dos mancebos que corriam a passos curtos. Curtinhos mesmo. Pareciam andar em vez de correr. A outra era dos civis, que também eram muitos, que se dirigiam às lavras, aos kadiengues , aos empregos e mesmo às aldeias distantes. Todos aproveitavam o sol ainda manso e preguiçoso para ganhar terreno. Clovis seguia-os a todos ao pormenor, embora tivesse os olhos fixos no corpo daquela musa metida naquela farda verde-oliverira.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Xê mano, não olha assim para a mulher do outro. – Ironizou Salviano, também ele atento ao passar do primeiro pelotão. O homem tinha na boca um cigarro de kangonha que acabara de enrolar.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- E quem te disse que é do outro? – Interrogou Clovis. - Mulher com dono não anda nessa vida, nem fica a puxar as calças para cima e para baixo de metro em metro. Já pensou no que seria essa mana se estivesse na vida civi?&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Mano, elas estão a levar a moda também à vida militar. É já assim mesmo. O mano não anda a ver as meninas na rua? É só já olhar e fechar a boca.- Respondeu-lhe o lavrador.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O primeiro pelotão estava já a subir a montanha da Pedra Santa e o terceiro fazia-se à baixa do rio Kambuco. A moça perdia terreno para os segundos e parecia estar no mesmo lugar em que Clovis e Salviano ensaiavam a prosa matinal.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Moda tem limites. Quem se expõe é porque quer ser vista e o belo é para ser contemplado - Disse Clovis.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- E desejado também, né mano?- Emendou o lavrador.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A moça que ainda pôde ouvir a sentença do lavrador, largou uma estrondosa gargalhada que assustou os colegas menos atentos.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- kiá-kiá-kia-kia…&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Quê isso Marinete?&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- É esse moço aí.- Apontava ela para Clovis já meio distante.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Que te fez o homem?- Perguntou um dos instrutores.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Chefe, o moço é bué! Só o que me falou?&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Que foi que te disse o refractário- Interrogou o tenente em tom ameaçador.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Te conto na hora do descanso, chefe.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Luis Garrincha, o instrutor, era dos que mais guarida dava a Marinete, procurando tirar alguns loros duarante aquele período de aprendizagem. Aliás, Marinete era benquista de todos. Era a única mulher da companhia de instruendos e todos a tinham como mascote.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;…&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Um dia, daqueles em que toda a população era chamada a enclinar-se ao som tosco do Toshiba para ouvir as notícias do país, Clovis tinha sido informado sobre a constituição obrigatória de Brigadas Populares de Literatura e tinha gostado da ideia. Procurou pelo patrão, Miguel Serafim, que o insentivou a escrever e a ler. O branco de Trás-os-Montes, que na revolução ficou do lado dos patrícios, tinha colocado à disposição do jovem empregado um “José Maria Relvas” &lt;strong&gt;e vários outros livros de autores tugas do século dezanove.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Olha, seu patrício, podes ler este ”libro” mas nunca o levas daqui, está bem?&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;-Está bem Sô Miguel, obrigado.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- E quando amadureceres, vê lá se não te esqueces de me consultar, porque não é com decretos e nem com duas cantigas que se fazem escritores, está bem? - Voltou a recomendar o branco.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Sim Sô Miguel. Mas assim, Sô Miguel, vou começar mesmo por onde então?&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Olha! Tens de “escreber” muito e rasgar sempre – orientou - até conseguires a forma.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Mas isso não demora muito?&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Pois é, seu Clovis. Ser escritor é paciência. Tens de “escrebinhar” em quase tudo e sobre quase tudo. Também tens de engolir este “libro” aí. Ensaia a Olivetti e depois a forma e a fama vêm a seguir.- Recomendou.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O homem deu volta e meia e meteu-se pelo fundo do quintal onde os mecânicos consertavam uma empilhadeira avariada a um par de anos. Havia encomendas atrasadas por falta de máquina e de força braçal para o carregamento de tijolos.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;No pequeno escritório, onde repousava o livro de ponto e as facturas, a máquina de escrever, cansada de tanto uso e pouca atenção, parecia uma velhota vergastada pelo tempo. O tic-tac do movimento das teclas já era audível a mais de trezentos metros de distância, mesmo com o barulho das máquinas da cerâmica. Foi nela que Clovis aprendeu a dactilografar os rabiscos que trazia de casa em folhas arrancadas de cadernos escolares, outras apanhadas na rua e outras ainda arrancadas de árvores, quando papel lhe faltasse.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Já de longe, o patrão ainda voltou a adverti-lo: -Oh Clovis!&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Sô Miguel!&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Vê se não me partes as teclas que eu te parto a ti também, ouviste?&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Sim patrão!&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Patrão não, Sô Miguel, ok?- Corrigiu o transmontano.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;-Sim Sô Miguel.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Vê lá! Ainda me confundem com os contra-revolucionários e pequeno-burgueses que andam por aí a pôr pânico no “goberno”… Eu, por cá, não quero encrencas, está bem?&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Não Sô Miguel,me desculpa já.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Ok. Vê lá então se não partes a Olivetti. - Voltou a recomendar.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Não Sô Miguel, os ossos da “Oliveira” é que já estão sem ”sangue”. – Ironizou o aprendiz.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;…&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;No quartel, a tarde estava reservada à educação patriótica e revolucionária, a aula do tenente Garrincha. Marinete estava, como sempre, no centro das atenções.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Camaradas! - Gritou ele à companhia em parada.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Prontos comandante!&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Olhem para a moça! – ordenou. – Têm dois minutos para descrevê-la em função do nosso tema.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Escrever, comandante? Eu só cheguei até à primeira classe. – Disse Claudomiro.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Cala a boca seu ignorante. Dá dois passos à frente e vinte cambalhotas já. – Ordenou o instrutor.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O Jovem, dezoito anos por fazer, desconhecia a gramática e escrever ou descrever para ele eram a mesma coisa.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- O chefe está a me castigar só à toa. - Resmungou, mas sem deixar de cumprir.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Mateus! – Voltou a gritar, olhando para o meio da companhia. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Pronto comandante!&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Então, que dizes da Marinete, pá?&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Sim comandante. Ela é um pedaço que não serve na minha boca, chefe!&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- De joelhos já! - Sentenciou transtornado pela resposta que acabara de ouvir. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- E tu Gregório?&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Bem, “prontos”, comandante, como disse o camarada Clo, eu também “num” lhe conheço bem.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Outro ignorante. Cambada de mentecaptos. Vinte cangurús – Ordenou.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Satula!&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Pronto, maior!&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Salva-me a tarde, meu guerrilheiro.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Satula estava a ser sondado para o curso de sargentos na Gomes Spencer, no Huambo, tão logo terminasse a recruta. O jovem, estaura acima da média, deu dois passos à frente e, pés ligeiramente afastados, postura frontal e vertical, expôs: &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Permita-me maior. Ela é uma heroina viva nos dias de hoje em que as mulheres apenas servem o exército como voluntárias ou assalariadas civis.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A turma nem esperou pela aprovação do instrutor e rápidamente gritou vivas ao colega pela brilhante descrição. O homem tinha visto qualidades onde os outros apenas viam sexo. Garrincha bateu palmas e os instruendos seguiram-lhe o exemplo.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- E tu Marinete que dizes dos camaradas aqui em parada?&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;-Chefe, tirando uns, são todos uns buezezas . Apenas me comem com os olhos e nunca me dizem nada!&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A resposta da jovem criou um espanto total, até ao instrutor que passava a vida a planificar a melhor altura para lhe cantar o fado. Garrincha deu meia volta, ergueu a boina, e marchou uns poucos metros para buscar postura e mudar de tema. A companhia de instruendos falaria sobre os feitos de Che, Deolinda, Henda e do Guia Imortal.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;…&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: blue;"&gt;Na Olaria Moderna de Miguel &amp;amp; Filhos, o jovem dactilógrafo vivia em regime voluntário de enclausuramento. As saídas estavam restingidas à escola e ao cuidado da horta que muito prezava. Alcunhava-se como “o feitor da natureza”. Os convivios sociais tinham sido embargados para o pós livro.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: blue;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: blue;"&gt;- Então, jovem Clovis, já não te vejo nas farras, que se passa contigo?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: blue;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: blue;"&gt;- Estou em processo de fecundação intelectual. - Respondeu ele ao professor Lotário que o procurara para ver umas facturas de compra de tijolos.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: blue;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: blue;"&gt;- Olha, dizem que vêm ai os kassav e o Mamborrô. – Insistiu.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: blue;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: blue;"&gt;Clovis começava a ganhar a fama de novo intelectual, dada a sua nova forma refinada de se expressar em público e a limitação das suas saídas, algo que Lotário queria confirmar.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: blue;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: blue;"&gt;- Camarada professor, adiei tudo parta o futuro. O meu presente é o cumprimento do meu sonho. Não foi o senhor que me tinha questionado sobre o que seria no futuro? Pois que é chegado o futuro.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: blue;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: blue;"&gt;Lotário, apesar dos vinte cacimbos que tinha a cima do Clovis não escondia a admiração que criava e a amizade que pretendia construir. O menino que queria ser pai era na verdade uma outra criatura.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: blue;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: blue;"&gt;- Sim rapaz, mas quê isso de fecundação intelectual?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: blue;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: blue;"&gt;-É um processo de elevação espiritual e de criação estético-literária. Estou a escrever uma obra-prima que vai elevar a nossa municipalidade aos areópagos da intelectualidade artístico-literária.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: blue;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: blue;"&gt;O profesor, que até fazia parte da nata intelectual da vila, ficou buambo . Tinha ouvido tudo ao pormenor, mas pouco tinha entendido. Tão fortes eram o português que o ex-pupilo losava .&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: blue;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: blue;"&gt;- Puthu ya diuabela, mas kimbundu kota .- Atirou, rendendo-se à preparação verbal de Clovis.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: blue;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: blue;"&gt;- Mas onde é que eparendeste tudo isso em tão pouco tempo?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: blue;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: blue;"&gt;- Professor, é tão somente a elvação que me proporciona a auto-superação possível através do “ndunda” do Zé Maria Relvas que o Sô Miguel me emprestou. Ele tem sido também o meu guia nesta travessia irrecusável e necessária.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: blue;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: blue;"&gt;- Uaué, mon’âmié? Então te estás a cultivar na língua de Camões…&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: blue;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: blue;"&gt;- Sim Professor Lotário. Foi o senhor que certo dia me perguntou o que seria quando fosse grande. Eis agora o meu futuro. Quero ser escritor.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: blue;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: blue;"&gt;- Ok. Bravo, meu rapaz. E quando é que te leio de verdade?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: blue;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: blue;"&gt;- Dentro em breve, senhor professor, dentro em breve. O Sô Miguel e os filhos dele, lá na metrópole, estão a ver quem vai editar o livro. É só uma questão de escolha e de tempo porque valor já disseram que tem.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: blue;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: blue;"&gt;- E o livro vai chegar até aqui?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: blue;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: blue;"&gt;- De facto, senhor professor. Depois do Sô Miguel, o senhor professor vai receber o primeiro autógrafo por ter sido a pessoa que me ensinou a pensar no futuro…&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;…&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Terminada a recruta, Marinete foi enviada à escola Fadário Muteka para cursar comunicações. O comandante queria voltar a tê-la sempre ao seu lado e como pessoa de confiança. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Jovem mulher!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Pronta chefe! – respondeu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vais fazer três meses no Fadário e quando voltares vais pegar as máquinas do Manda-Boca que vai subir .- Ordenou o comandante em parada. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seria a primeira vez que sairia da sua terra natal e que ficaria sem a protecção do seu amante, mas Marinete tinha consciência de que na tropa não se podia negar uma ordem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sim chefe. Aceito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Então prepara a mochila poque o eleicóptero chega mesmo já amanhã. Hoje à noite falo com o camarada Garrincha que, pelo que sei, anda contigo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Marinete apenas sorriu e dirigiu-se à caserna do Garrincha que já dominava o assunto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No Huambo, Marinete e Vutuka eram as únicas meninas que eram militares de verdade, sendo complementadas em número por umas seis senhoras já de idade que trabalhavam como cozinheiras e lavadeiras da unidade-escola. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Txakumuena Vutuka era procedente de Muatxibundo, no nordeste, e orfã de pai e mãe. Melhor, como ela mesma dizia, era orfã de tudo. Era sobrevivente única de uma família que fora dizimada pela guerrilha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mana, nem imaginas o que me aconteceu para cá estar no meio dos homens… - Abriu-se ela certa vez à companheira quando falavam do seu percurso para a vida militar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Conta-me mana. Que foi que te trouxe à tropa. Estás cansada dos abusos dos homens na tua aldeias?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Yame ká !&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Como assim?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Quem me dera. Fui ao município representar a OPA num concurso de Cianda e os meus pais foram todos “matados” pelos fantches do imperialismo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Aié? Qiue pena. Temos mesmo de fazer força para ver se lhes damos o troco que merecem… - Respondeu comovida a colega, evitando outros comentários que a podessem transtornar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vutuka, apesar de mulher coragiosa e libertária, tinha um lado bastante sencível. A colega queria evitar ressuscitar as dores que ainda inundavam a sua alma e limitou-se na conversa, buscando outros motivos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- xtás a ver aquele gajo do Sakaiossa? O gajo é um gentio…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É teu tio?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não, gentio. Pessoa sem consideração. Um matumbo de primeira. Como é que lhe dou um geito e fica aí a me espalhar?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Se fizeram?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não. Eu com ele? Só se fosse o único à superfície da terra. Encontrou-me em baixa e trocamos apenas um beijo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E que te fez mais?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Nada mais. Não é que o gajo anda aí a tratar-me por Vareta do comandante só porque lhe neguei o “bife”?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aié? E tu já apresentaste queixa ao comandante da escola? – Questionou Vutuka que se apresentava mais experiente no campo dos amores sem rodeios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Marinete tinha tido algumas experiências durante a recruta com o agora aspirante a sargento Satula e com o instrutor Garrincha. Mas foram todas entregas afectivas e nada de fazer por fazer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sabes, aqui não tenho protecção e esses gajos são sempre mal intencionados. Ainda me suja só e já sabes que o boato anda mais depressa do que as pessoas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Nada de medo, somos todos tropas. Se lhe deixas te sujar ele te come até as espinhas. Ou então lhe aceitas já ou queixas “no” comandante.- Aconselhou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;…&lt;br /&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 10pt; text-align: justify; text-justify: inter-ideograph;"&gt;&lt;b style="mso-bidi-font-weight: normal;"&gt;&lt;span style="color: #1f497d; mso-themecolor: text2;"&gt;&lt;span style="font-family: Calibri;"&gt;No Fádário Muteka, Satula levava já mês e meio carregando sêmen. As idas às aldeias próximas do acampamento militar tinham sido proibidas devido ao “mi gosta” que fazia os homens até fugir da unidade militar para se juntarem às moças das aldeias vizinhas.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;span style="font-family: Calibri;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Oh, Chipalavela!- Chamou o comandante da escola, o capitão Cara Podre, ao ajudante de campo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sim comandante, ordene!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Avisa a tropa. Todos. Homens e mulheres que vestem farda. Estão proibidos de hoje em dia a irem na buala . Há muito abuso na formatura por causa do “mi gosta”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sim chefe. Mas, se comandante me autoriza…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Podes falar. Quê que queres contestar já?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sim chefe. O comandante sabe da principal carência daqui na unidade. Água e comida temos em “ambundâncha”, mas que não há mesmo é só “curtição” e chefe sabe que o “mi gosta” vem mesmo do tempo do kaprandanda e a tropa sempre combateu contra o Kaputu .&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cara Podre, assim apelidado por gostar de franzir o rosto, endireitou a boina e olho-no-olho colocou-se à frente da tropa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Se vocês me disserem que aceitam castigo severo de quem falhar na formatura eu retiro o que disse. Mas fica compromisso militar mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A tropa, em coro, emitiu um barulhento “Viva comandante!” em sinal de aprovação. Satula, na primeira fila, era dos que mais satisfeitos se mostravam ante a pequena abertura do camandante. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(continua)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;hr align="left" size="1" width="33%" /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="mso-element: footnote-list;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;div id="ftn1" style="mso-element: footnote;"&gt;&lt;div class="MsoFootnoteText" style="margin: 0cm 0cm 0pt 9pt; text-indent: -9pt;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3768017225494223045-5188100543630901078?l=atura-liter-atura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://atura-liter-atura.blogspot.com/feeds/5188100543630901078/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://atura-liter-atura.blogspot.com/2010/11/o-olho-maluco.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3768017225494223045/posts/default/5188100543630901078'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3768017225494223045/posts/default/5188100543630901078'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://atura-liter-atura.blogspot.com/2010/11/o-olho-maluco.html' title='OLH&apos;O MALUCO'/><author><name>"Soberano" Canhanga</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08139246140510431159</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_RGH73KYb7oc/SLKRmnddrjI/AAAAAAAAApA/4e-mjmOAaaY/S220/LCIMG_8216.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3768017225494223045.post-4800190174418624600</id><published>2010-10-02T05:40:00.008Z</published><updated>2010-10-17T14:12:05.414Z</updated><title type='text'>O SEGREDO DA MUXIMA</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O dia nasceu envergonhado. Lá em cima a lua, cinzenta ainda com preguiça do longo descanso, e o sol também vaidoso e todo ele alaranjado, pareciam gêmeos. A cidade, porém, está já com a agitação do meio-dia doutros tempos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"- … Me desculpa só ué! Eu sou a outra. Também mereço ser feliz…"&lt;/em&gt; O rádio dentro dum Toyota Hiace tinha o volume excessivamente alto. E os passageiros precisavam gritar para comunicar o local da paragem ou aproveitar a viagem para uma prosa com a pessoa ao lado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A viatura de nove lugares parecia “empanturrada” de gente. Eram dezasseis no total. Por onde passava soltava ritmos que convidavam à dança e à reflexão de senhoras puritanas e libertárias flagelando-se com farpas que estendiam ao autor material da música em voga.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Mas esse moço foi criado aonde, para trazer aqui essas suas modas de segunda? – Interrogou Domingas António, devota católica e frequentadora assídua do santuário da Muxima .&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Mana Domingas, deixa só. – Aconselhou Madalena José, sua comadre e companheira de rezas e viagens, também ela procedente do santuário além Kwanza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Manda-diá- Zuze ou Madó, para as colegas da paróquia, é crente e devota, muito dada à caridade e trabalhos sociais na comunidade. A sua elegância contrasta porém com a vida pacata que leva. Mãe de dois filhos, “sem pai”, confiados à benevolência do Padre Abreu, que os tem como afiliados, buscava a forma mágica de manter um segredo apenas seu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto as devotas vão tentando se acalmar do sururú causado por aquela música ou no mínimo procurar fôlego para engolir aquele “também mereço” do Damásio, uma jovem põe “lenha na fogueira” e desbota:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;– Hoje em dia o homem já não é “empresa privada”. Se você estiver ’mbora a dormir ou a engordar à toa com as regalias, são as outras que ficam com ele de verdade.&lt;/em&gt; - Chiquita mal tinha terminado a exposição, quando ganhou o complemento de Manuela que estava na cabine, junto ao motorista, dirigindo-se de forma provocadora às devotas:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;– Mamãs! Os tempos mudaram e os gostos também. Os tios agora gostam coisas que vocês nunca imaginaram fazer…&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;- O quê?&lt;/em&gt; – Questionaram as senhoras indignadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Madó tentou engolir a provocação em seco, mas foi-lhe dificil. Interropmeu, por instantes, a sua viagem à memória e a conversa com os botões e atirou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;– Mas agora é assim? Suas cabronas de merda! Já não se respeita mai sas mais velhas e até marido das vossas mães também estão a receber? E ainda vos acodem na música deste malandro que as p… também merecem… Deus, Nossa Senhora!-&lt;/em&gt; Desabafou transtornada pelo que acabara de ouvir das jovens.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os nervos afloravam à pele e a senhora teve mesmo de se controlar para não soltar palavras que nunca se esperavam sair da boca de uma senhora de idade. Madó tinha-se lembrado do ditado popular .&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;- Mana ambula ngó. Madiuanu !&lt;/em&gt; - Acalmou Domingas António.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No clima de “conversa puxa conversa”, uma autêntica confusão se instalou no Hiace para a gratidão do cobrador que, devido ao calor e falta de acépsia, ia distribuindo odores fedorentos aos mais próximos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;– Pôças, esses jovens nem higiene laboral têm! Mal o mecânico termina os trabalhos eu juro: Nunca mais essa merda!&lt;/em&gt; – Desabafou desgostoso um homem de idade, Matias Fuccic de seu nome de registo civil. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A viagem prossegue. Com ela, a “música do momento” que passa, repassa e torna a passar como se outra não houvesse. Entre prós e contras se fomentam conversas várias e aumentam-se os volumes bocais. O que sai para fora da viatura é já um turbilhão de vaias, elogios e palavras desencontradas. Os sons emitidos pelos altifalantes, os gemidos de um carro já cansado e sufocado pelo excesso de peso e as vozes dos que se xingam. Jovens atrevidos assobiam ao desgosto da mulheres ortodoxas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;- Hoje é hoje… &lt;/em&gt;- Desafiou Serafim, um conhecido gatuno de telemóveis e carteiras que costumava viajar nos candongueiros para avisar os amigos que se encontravam em prontidão nas diversas paragens.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;- Parece que as "mamoites" vão perder a batalha (das palavras)!&lt;/em&gt; - Emendou outro jovem, dos cinco que se faziam transportar no veículo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;- Calem masé as bocas, seus pirralhos! &lt;/em&gt;– Repreendeu com veemência Domingas António, já cansada de tanto disse-que-disse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;- Hum, Mana Minga Deixa só. Esses assim querem já confiança, mas estão enganados. &lt;/em&gt;- Acalmou a compenheira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na primeira paragem, Domingas António decide abandonar o carro e aliviar-se do sufoco. Serafim que se apercebera da intenção da senhora tinha avisado por sms os amigos que a aguardavam em prontidão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A horda de larápios tinha ensaiado a rota para a fuga e como descontrolar a vítima sem recurso à arma branca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mal a senhora, com sacola a tiracolo, poisou o primeiro pé no chão, um atrevido espetou-lhe uma kibiona para a desconcentrar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;-Mamoite passa o mambo! &lt;/em&gt;- Advertiu o larápio com o dedo indicador entre o canal rectal da senhora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aflita, entre resguardar a sanidade moral e a sacola, preferiu a primeira opção. Aliás nem tempo teve para pensar. A sacola, com os haveres, caiu em mãos do mal-feitor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;- Socorro, é ngombiri ! Socorro Sô polícia! Me levaram a pasta.&lt;/em&gt; - Gritava aflita ao que se seguiu um &lt;em&gt;“agarra gatuno!, “prendam o ladrão”&lt;/em&gt; e outras gritarias apenas para entreter. Quem gritavam eram os proprios amigos de quem tinha furtado a sacola.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com o episódio, instalou-se uma outra confusão no interior do táxi, juntando-se a que se passava na rua Revolução de Outubro, onde nem polícias, nem fiscais se aprontaram para o solicitado SOS. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;- Os tempos estão mesmo mudados - &lt;/em&gt;Atirou Domingas António aos seus botões. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A sociedade impiedosa assistia impávida ao filme. O ladrão caminhava impune. E os carros revezavam-se na paragem para apanhar ou deixar passageiros. A vida continuava apressada como sempre. Aos soluços ficou Domingas António, seguindo o rasto da música que rumava ao São Paulo, destino daqueles Hiaces, sempre com a “queta” do momento, num vai e vem sem fim. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;… Me desculpa só ué. Eu sou a outra. Também mereço ser feliz…&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na segunda-feira, dia seguinte, o tema, &lt;em&gt;&lt;strong&gt;"Valerá ceder ou vamos continuar a rezar para reter os nossos maridos?"&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt; foi levado ao padre Abreu, na Capela da Dona Maria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As mulheres queriam, aí mesmo, debitar ideias. Mas foi uma agitação tão grande e um falar alto que não permitia o entendimento. Havia três correntes formadas em função das faixas etárias. As liberais, as revolucionárias e as ortodoxas, cada grupo puxando a brasa para a sua sardinha. O padre teve de solicitar que o mesmo fosse motivo de reflexão caseira para um debate posterior, na reunião da “sociedade de mulheres de idade”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;- As irmãs vão primeiro reflectir cada uma no seu canto e depois, na próxima quinta-feira, vão concluir aqui na capela. A irmã Madalena José será a moderadora.&lt;/em&gt; – Recomendou padre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As mulheres ainda tentaram convence-lo para que fosse ele a dissertar, mas o religioso passou a bola à uma delas. Tinha ele outros planos para a semana e faltar-lhe-ia tempo para preparar o tema.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia combinado para o reencontro das devotas, Madalena José surpreendeu-as com uma súbita ausência. Ninguém sabia por que motivo, ela que nunca faltava à reunião da quinta, estava ausente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;- Deve estar com problema ou adoentada. – &lt;/em&gt;Conjecturavam as colegas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;- Mana Maria Simão, mana Isabel Francês, mana Luarica Gomes e eu vamos à casa da Manda-dia-Zuze. &lt;/em&gt;– Era a voz comandante de Domingas António.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A comissão de visita, munida de frutas e alguns valores em dinheiro, foi de imediato à casa de Madalena tendo-a encontrado vivinha da silva. Apenas um detalhe:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na mesma noite em que se combinou realizar o debate na quinta-feira, o padre avisado da ausência prolongada do marido, foi rever os afiliados e envolver-se na quentura carnal da sua amada. Fazia tempo que não ensaiava os versos líricos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sabes Madó, amo-te muito.&lt;br /&gt;&lt;em&gt;- Hum. Não me parece, sô padre!&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;- Por quê amor meu de Cristo?&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;- Tens estado mais em outros lugares do que aqui. Ou deixaste de ser homem como os outros que adam de Jeans e sapatos de bico fino? &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;- Quê isso mulher?&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;- Sim. Sei que tens superiores que são “deus e homem”, mas tu nem tempo tens para os filhos que ate são teus! Dizes a isso amor?&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;- É sim, irmã Madó. Tem sido difícil concilar o trabalho de servo e de homem terreno. Repartir-me tem sido dificil…&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;- E assim dizes que me amas? Até os teus filhos andam saudosos…&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;- Os meus afilhados estão bem e vejo-os todos os dias nos colégios.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;- E para mim bastam os filhos starem com saúde? E Homem?&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;- Peço perdão a Deus e a ti Madó, mas tens de pôr na cabeça que a curva que estamos a descrever é apertada…&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;- Tenho dúvidas, meu padre.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;- Já te disse. A dois deixo de representar a Cristo.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;- Mas amanhã estarás vestido de batina ao saires daqui. Ou me engano?&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;- Em parte certa e em parte errada. Mas não me trates por padre porque nesta condição não te posso amar como pretendes.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;- Então confirmas que não me amas não é? E até já estás com cara de pressa de sair. Hoje não vais sem molhar a sopa!&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;- Amo-te como um pastor ama as suas ovelhas e um homem de carne a uma mulher carnal.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;- Prova-me isso então. Apalpa-me o meu peito e recebe-me como carne que sou para tua boca faminta.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;- És um sabor agridoce mas recebo-te com prazer…&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E os momentos que se seguiram foram de êxtase até que passada hora e meia da meia noite o galo cantou de aviso, feito vigilante. Tinha chegado o momento da partida do home-padre. Madó acordaria, como sempre, envoltra em lençois. Estava acostumada e já não fazia caso contentando-se com o efémero momento vivido e olhando para a taça de pé alto com o rosé ainda por beber. Abreu, por seu lado, entraria de pianinho na casa paroquial numa hora em que a cidade se preparava para mais um dia de agitação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia seguinte, terça-feira, Abreu tinha outra visita no bairro na Lixeira, casa de Maria Simão, por sinal, uma amiga de longos anos de Madalena José. Há meses que tricavam olhares intencionais e ambos tinham combinado aproveitar a ausência dos filhos de maria que tinham ido visitar o pai na distante Lunda, onde trabalhava. A tarde, solorenta seria momento ideal para pôr a conversa em dia, e quicá…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O sol brilhava furioso ao meio da circunferência azul. Dificil se tornava olhar para ele e caminhar sem água tornava-se sufocante. Madalena, que saia das compras no Roque Santeiro, decidiu então ir à casa da amiga e afinar algumas ideias sobre o debate agendado para quinta-feira. De longe reparou que havia uma viatura junto à casaa e ganhou confiança de que a iria encontrar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao avistar a viatura paroquial estacionada em frente ao portão, Madalena nem imaginou no que estaria a acontecer intra-muros. Como de costume, a porta estava entreaberta e mal a empurrou deparou-se com um inimaginável cenário: Maria e Abreu trocavam intimidades.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;- Xê mana, Kima kiânhi mualô banga ?&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foia a aflição total para Maria que se achava seguracom o padre Abreu naquele hora em sua casa, sem ninguém à volta, e para o &lt;em&gt;"anunciante das boas novas"&lt;/em&gt; que nunca imaginou ser surpreendido nas suas caçadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;…&lt;br /&gt;&lt;em&gt;- Mana que susto! Então combinamos já hoje o debate e a comadre faltou? &lt;/em&gt;- Questionou Domingas.&lt;br /&gt;&lt;em&gt;- Manas obrigada por me terem vindo visitar. Estava sem forças. Viram na igreja o padre Abreu?&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;- Não! - &lt;/em&gt;Responderam em coro admiradas.&lt;br /&gt;&lt;em&gt;- Viram a mana Maria?&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;- Sim. Ela veio connosco.&lt;/em&gt; - Responderam em coro, sem dar conta da ausência da companheira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto se dirigiam à casa de Madalena nem se deram conta da desistência de Maria Simão. Custou à Madalena abrir-se às amigas e contar que tinha surpreendido a sua melhor amiga, Maria Simão, com o Padre Abreu, homem com quem ela fizera os dois meninos. Foi o fim do segredo da Muxima.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3768017225494223045-4800190174418624600?l=atura-liter-atura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://atura-liter-atura.blogspot.com/feeds/4800190174418624600/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://atura-liter-atura.blogspot.com/2010/10/o-segredo-da-muxima.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3768017225494223045/posts/default/4800190174418624600'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3768017225494223045/posts/default/4800190174418624600'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://atura-liter-atura.blogspot.com/2010/10/o-segredo-da-muxima.html' title='O SEGREDO DA MUXIMA'/><author><name>"Soberano" Canhanga</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08139246140510431159</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_RGH73KYb7oc/SLKRmnddrjI/AAAAAAAAApA/4e-mjmOAaaY/S220/LCIMG_8216.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3768017225494223045.post-7429175619489135245</id><published>2010-09-01T08:15:00.004Z</published><updated>2010-12-28T17:11:52.251Z</updated><title type='text'>PAPÁ CHEGOU!</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="background-color: yellow;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="background-color: white;"&gt;...&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="background-color: white;"&gt;Kambuta chegou de viagem. Se tivesse de andar num azul-e-branco até à casa teria de gastar, ao fim do percurso que separa o Aeroporto do Bairro Viana Nova, um total de Kz. 400,00, divididos em 4 trechos de igual valor. Foi a pobreza momentânea que o forçou naquele dia, último da tolerância contra os azuis-e-brancos, a optar pelo transporte colectivo urbano. A passos da paragem ainda pôde trocar prosas sobre a vida na capital.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="background-color: white;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="background-color: white;"&gt;-Epá, - dizia ele para um colega de viagem, - isso agora parece que está mais p’ro inferno do que para a urbanidade!&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="background-color: white;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="background-color: white;"&gt;- Sim, meu camarada! É só ver como andam as pessoas nos carros, todos ensardinhados, e aengolir cada vez mais poeira levantada pelos veículos...&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="background-color: white;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="background-color: white;"&gt;- É. Isso anda maluco! e nós que estamos mais no interior do que na capital sofremos mais ainda.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="background-color: white;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="background-color: white;"&gt;- Pois é. - Replicou Kitomangombe, o seu interlocutor, que vivia ininterruptamente na capital. Porém a semana de ausência, no nordeste, também lhe causava estranhezas.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="background-color: white;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="background-color: white;"&gt;- E como é que vais à casa? - Perguntou ainda Kitomangombe.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="background-color: white;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="background-color: white;"&gt;-Epá, vou me desenrascar... De qualquer meio que aparecer. Kupapata ou mesmo “avó chegou” , tudo serve.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="background-color: white;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="background-color: white;"&gt;Kitomangombe seguiu o caminho do Rocha Pinto e ele, Kambuta, dirigiu-se ao Banco que ladeia a estrada da "Revolução Soviética". Estava decidido em alugar, se possivel, uma viatura particular para chegar cedo à casa, onde os filhos e a amada o aguardavam esperançosos.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="background-color: white;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="background-color: white;"&gt;- Meus senhores, bom dia!&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="background-color: white;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="background-color: white;"&gt;- Bom dia, - respondeu um dos guardas que acabava de endireitar os olhos enramelados na noite mal dormida. O homem parecia "estar apenas por estar" .&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="background-color: white;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="background-color: white;"&gt;- O senhor pode cuidar da minha mala cá fora? é que venho de viagem e estou sem dinheiro para chegar à casa…&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="background-color: white;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="background-color: white;"&gt;- Vem de viagem? Mas o senhor não pode deixar aqui a sua mala.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="background-color: white;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="background-color: white;"&gt;- Então posso levá-la comigo até lá dentro...&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="background-color: white;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="background-color: white;"&gt;- O quê? levar lá dentro e se der maka?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="background-color: white;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="background-color: white;"&gt;- Que maka? O senhor está bem da cabeça ou faz-se?- perguntou já sem paciência.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="background-color: white;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="background-color: white;"&gt;O jogo de perguntas e respostas atraía mais gente à porta do banco. uns dando razões ao Kambuta e outros alegando que devido aos aconteciemntos dos últimos tempos em que muitos guardas foram driblados, o segurança estava certo. Kambuta operdia a paciência, perante um rasteiro vigilante que estava longe de um polimento urbano. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="background-color: white;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="background-color: white;"&gt;Sem dinheiro no bolso teria mesmo de enfrentar os autocarros, coisa que não fazia há mais de dois anos, desde que propositadamente fez o percurso Rangel/Viana para registar os cânticos anónimos. Mas de lá para cá muita coisa mudou. Pelo menos, dizia-se nos jornais, Rádio e televisão que muita coisa havia evoluído. Apregoaram-se autocarros limpos e cómodos, equipados com AC e silenciosos, com mais jornais em leitura do que falas dispersas&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="background-color: white;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;… Diálogo…&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="background-color: white;"&gt;O primeiro machimbombo que por ele passou tinha a designação de Segura a Gola d’Outro e estava apinhado de gente. Tudo quanto ouvira levaram-no e pensar que se tratasse de um funeral e não desistiu da espera. O segundo, da companhia Tira o Colete e Ultima a Luta, também rebentava pelas chaparias. Desesperado tentou enfiar-se por um espaço que restava entre pernas mal colocadas na pequena escada do pesado, mas sem sucesso. Desistiu.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="background-color: white;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="background-color: white;"&gt;- Taxi, taxi. - Chamou ele deseperado.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="background-color: white;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="background-color: white;"&gt;- É 'scongolense, papoite. - Advertiu o cobrador.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="background-color: white;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="background-color: white;"&gt;- Quanto é a passagem?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="background-color: white;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="background-color: white;"&gt;- Preço da igreja meu papoite!&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="background-color: white;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="background-color: white;"&gt;Pagou os primeiros Akz.100,00 para um percurso aproximado de 2km. Encontrou uma agência bancária com multicaixa e tentou a longa fila. Os Kwanzas acabaram e a reposição tardava com a mesma persistência com que o sol atingia o epicentro.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="background-color: white;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="background-color: white;"&gt;À saída da agência, colocou a mala sobre o lancil, à sobra duma velha acácia húmida de mijo. Riu de forma aberta, espantou os nervos e caminhou mais um trecho. Agora sem dinheiro e sem força nas pernas, Kambuta limpa a mala, esconde os óculos que o identificam com facilidade e mistura-se num aglomerado que aguarda pelos autocarros. Estava perante o último recurso.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="background-color: white;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="background-color: white;"&gt;- Não há escolha. – Introspectou.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="background-color: white;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="background-color: white;"&gt;Ao chegar à paragem o primeiro autocarro da companhia Tira Ultima Risada e Anda, Kambuta não titubeou e nem mesmo os passageiros à boca da porta o fizeram desistir. Estava já há duas horas na capital, tempo superior ao da viagem aérea em que transpôs mil quilómetros.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="background-color: white;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="background-color: white;"&gt;- Tomara que seja mesmo climatizado. -Falou aos botões.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="background-color: white;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="background-color: white;"&gt;Já dentro, os empurrões e os cheiros desencontrados davam-lhe as boas vindas.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="background-color: white;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="background-color: white;"&gt;Gelados de múcua , kikuanga , makayabo , kapuka madrugador, vómitos mal lavados e outras náuseas imundas fazia o cocktail fedorento.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="background-color: white;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="background-color: white;"&gt;- Moço,”mi disculpa” só paizinho! Toca mais à frente! - Ordenou a cobradora.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="background-color: white;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="background-color: white;"&gt;Próximo da porta frontal, que servia de entrada, uma jovem nos seus 15 aninhos reclamou:&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="background-color: white;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="background-color: white;"&gt;- Pôça! Até cheiro de liamba? Para quê que não vão à pé? Alguém tem de ver isso. – Desabafou desesperada.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="background-color: white;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="background-color: white;"&gt;- Xê kanuca! ‘Stás a falar assim a quem? - A voz rouca e pouco higienzizada era dum jovem que aparentava 29 ou 30 anos. Estava ébrio. Diria mesmo encharcado. Grandes teriam sido as dozes que engolira na véspera e que faziam dele um evaporadouro de álcool etílico.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="background-color: white;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="background-color: white;"&gt;- Hum, falei pra ti? Olha então a cara dele… - Resmungou a jovem.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="background-color: white;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="background-color: white;"&gt;Entre reencontros provocados pelas travagens repentinas e contorções da viatura que soluçava ao encontro dos enormes buracos deixados pela chuva recente na estrada repavimentada, os passageiros iam tomando contactos mais íntimos. Corpo a corpo e suor no suor, qual molhados de fogo da paixão. Mais se parava, mais se falava e mais se ia trocando salivas das falas dispersas, deixando fervilhar no ar um perfume de aromas desconhecidos. E tudo mudava.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="background-color: white;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="background-color: white;"&gt;Os penteados desfeitos pareciam noites intermináveis de amor da puberdade ao passo que outros cabelos, industriais ou herdados de indianas, jaziam também sapato abaixo, naquele chão, evocando aos fios o sofrimento que é uma viagem num machimbombo de Luanda.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="background-color: white;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="background-color: white;"&gt;Foi nesse clima que Kambuta reencontrou a capital, a horas da declaração da Tolerância Zero aos desmandos dos automobilistas. Os cintos de segurança, os porta-bebés, os macacos, os coletes reflectores, as chaves de rodas e outros apetrechos passam a ser obrigatórios e as penalizações vão até ao tecto de 2 anos de salário mínimo.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="background-color: white;"&gt;Nas ruas as más-línguas apregoam que no dia primeiro de Maio haveria no largo da Cimangola um palratório de todos os candongueiros para reclamarem das vindouras multas policiais.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="background-color: white;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="background-color: white;"&gt;As boas línguas, porém, reforçam na media que ninguém mais abortará a aplicação da Mudança. Apregoa-se também, nos altifalantes públicos e privados de vocação pública, a inundação da cidade de novos autocarros. Políticos, empresários e pseudo empresários se revezam nas promessas e a “Revolução Viária” se torna palavra de ordem. A mesma ordem que ainda se confunde com a “gasosa” das multas adiadas em conversas de cavalheiros.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="background-color: white;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="background-color: white;"&gt;Já em casa, Kambuta, maltratado pela viagem, é recebido apenas por uma das filhas que o reconhece pelas rugas no rosto.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="background-color: white;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="background-color: white;"&gt;- Como foi a viagem papá?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="background-color: white;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="background-color: white;"&gt;- Terrível filha, terrível! Os autocarros são baratos mas bastante infernais. -Respondeu aborrecido.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="background-color: white;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3768017225494223045-7429175619489135245?l=atura-liter-atura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://atura-liter-atura.blogspot.com/feeds/7429175619489135245/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://atura-liter-atura.blogspot.com/2010/09/viagem.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3768017225494223045/posts/default/7429175619489135245'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3768017225494223045/posts/default/7429175619489135245'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://atura-liter-atura.blogspot.com/2010/09/viagem.html' title='PAPÁ CHEGOU!'/><author><name>"Soberano" Canhanga</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08139246140510431159</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_RGH73KYb7oc/SLKRmnddrjI/AAAAAAAAApA/4e-mjmOAaaY/S220/LCIMG_8216.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3768017225494223045.post-1770448232069035786</id><published>2010-08-09T17:03:00.003Z</published><updated>2010-12-01T20:10:58.631Z</updated><title type='text'>UM PEQUENO PROBLEMA</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O homem entrou fulo no avião da "Palanca Negra". Tinham-no acordado de manhã, muito cedo, para a viagem das seis e meia.&lt;br /&gt;- Meu senhor, algo o inquieta?&lt;br /&gt;- Sim, minha querida. Esse banco perece que não recua e viajar assim não é nada cómodo.&lt;br /&gt;- Por favor, deixe-me ver. - Disse ela tentando confirmar a reclamação.&lt;br /&gt;- Mas...&lt;br /&gt;Nem terminou a desenhar o que tinha para disparar, a hospedeira rapidamente o convidou.&lt;br /&gt;- Há lugares vagos lá atrás. O senhor quer vir comigo?&lt;br /&gt;Meneou a cabeça e ficou a reflectir, emitindo um sinal parecido a um NIM . Mudar de lugar ou encostar-se à quentura da colega Bia sentada à sua esquerda?&lt;br /&gt;As senhoras, colega e hospedeira, mantiveram-se caladas enquanto ele falava com os botões.&lt;br /&gt;- Joãozinho, podes ir. Aqui vais sofrer.&lt;br /&gt;- Mas esses senhores têm de reparar isso. Essas sucatas em pleno século vinte e um são uma aberração. Assim não pode ser. - Resmungou.&lt;br /&gt;- Vou ficar aqui sofrendo ao teu lado que até me dá um grande prazer. - Ironizou para acalmar a Bia.&lt;br /&gt;Bia apenas sorriu enquanto a hospedeira atendia a um "’tá-me doer" duma criança, algures no avião.&lt;br /&gt;- Joãozinho, tenho um bom livro da professora Repolho. Acho que vais gostar. - Tentou Bia descontrair o clima.&lt;br /&gt;- É sobre psiquiatria ou Geografia?&lt;br /&gt;- Estás a ver aquele trabalho que te mostrei da outra vez? É relacionado.&lt;br /&gt;- Ok. Quando o avião levantar voo.&lt;br /&gt;Joãozinho tenta, com custo, compensar a noite não dormida e transferir os seus desejos mal terminados com a esposa para a mulher que lhe faz companhia.&lt;br /&gt;- Felizardo de quem pega nesse pedaço! – Pensou sem o dizer de viva voz.&lt;br /&gt;Joãozinho tinha ficado cinco dias em Luanda para trabalho e apenas por duas vezes pôde se entregar à quentura da "sua dona". O cansaço provocado pelo trabalho sem tréguas e outras preocupações familiares tinham diluído todo o seu tempo e motivação para o pagamento do "dízimo". Aliás, a segunda vez nem ao meio chegou, pois foi interrompida pelo grito enraivecido do telhado de zinco ao ser agredido por uma pedra madrugadora.&lt;br /&gt;- Deve ser o motorista que chegou.&lt;br /&gt;- Ai é? Dá-me o relógio...&lt;br /&gt;Eram três da madrugada, hora improvável para a recolha ao aeroporto. Mesmo assim levantou-se e foi ver o que se passava fora do quintal murado.&lt;br /&gt;- Passa a bula meu...&lt;br /&gt;- Calma, mô ui, calma.&lt;br /&gt;Eram dois jovens que buscavam inspiração num charuto de kangonha . Voltou ao quarto, aonde a amada o esperava, já sem prazer nem sono.&lt;br /&gt;- Amor vem.&lt;br /&gt;- Sabes que tenho de lavar a boca para não ficar a deitar salivas...&lt;br /&gt;No fundo queria cuidar da assepsia matinal e buscar a última inspiração para retomar o que os liambeiros tinham interrompido.&lt;br /&gt;- Ai amor, como me dói a hora da despedida.&lt;br /&gt;- É. É tudo duro mas tenho mesmo de partir.&lt;br /&gt;Não tardou o telefone tocou. Desta vez é da companhia que presta serviço de transporte à sua empresa.&lt;br /&gt;- Alô, já está à porta?&lt;br /&gt;- Não, senhor Joãozinho. É que queríamos pedir desculpas porque o motorista que conhece a casa do engenheiro faltou e ...&lt;br /&gt;- Engenheiro não, Joãozinho. Se quer pode falar doutor.&lt;br /&gt;- Sim sô doutor! Estamos com um pequeno problema.&lt;br /&gt;- Está a me dizer que não me apanham...&lt;br /&gt;A mulher que acompanhava de longe a conversa telefónica e ao subir do tom do marido decidiu intervir.&lt;br /&gt;- Amor faz como das vezes passadas. Pegas o carro e vais à estrada principal, depois voltam juntos para deixar o carro no quintal.&lt;br /&gt;Joãozinho, puxou pelo relógio para confirmar a hora que caminhava veloz.&lt;br /&gt;- Pôças Joãozinho! Esses teus colegas são uns desmancha-prazeres.&lt;br /&gt;Olhou-a nos olhos, deu-a um beijo na testa e procurou pela roupa. Tudo o que estava por fazer estava perdido e teria de esperar pela próxima folga.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na sua cadeira, no avião, o homem navegava de sonho em sonho. Transpirava por dentro vendo retoques de beleza escondida num fato azul-marinho da colega, mesmo com os cacimbos visíveis já ultrapassados.&lt;br /&gt;- Joãozinho, estás distraído? - Perguntou Bia.&lt;br /&gt;- Não querida. Estava a pensar numa crónica de viagem.&lt;br /&gt;- E qual será o tema?&lt;br /&gt;Joãozinho ficou a pensar por momentos que o tema devia ser "como te vou pegar, meu pedaço?"&lt;br /&gt;Mas ouviu-se a dizer, com o ar mais pacífico deste mundo:&lt;br /&gt;- Hoje vou escrever sobre um pequeno problema. Sobre essa cadeira que não recua... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3768017225494223045-1770448232069035786?l=atura-liter-atura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://atura-liter-atura.blogspot.com/feeds/1770448232069035786/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://atura-liter-atura.blogspot.com/2010/08/um-pequeno-problema.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3768017225494223045/posts/default/1770448232069035786'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3768017225494223045/posts/default/1770448232069035786'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://atura-liter-atura.blogspot.com/2010/08/um-pequeno-problema.html' title='UM PEQUENO PROBLEMA'/><author><name>"Soberano" Canhanga</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08139246140510431159</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_RGH73KYb7oc/SLKRmnddrjI/AAAAAAAAApA/4e-mjmOAaaY/S220/LCIMG_8216.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3768017225494223045.post-7775897214062805849</id><published>2010-07-06T09:27:00.011Z</published><updated>2010-09-15T08:34:53.655Z</updated><title type='text'>TRABALHO E FESTA</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Havia tempo que o homem não tinha sonos completos. Mal dormia. À sombra da crescente mulemba trazida do Muriege, pensava no que dava e no que recebia. A balança pesava-lhe negativamente. Sempre que pousasse a cabeça sobre o travesseiro da cama vinham-lhe ideias sobre os gastos da mulher em lojas de conveniência, os brinquedos e presentes para os filhos que mais chumbavam do que passavam, e dos enormes encargos com terceiros. De recompensa, tirando o amor e felicidade familiar, tinha nada de material. O carro era velho e caía aos pedaços, sem como o substituir. A casa era alheia, pois a própria tardava, adiada, vezes sem conta, pela parca poupança que o orçamento mensal lhe proporcionava. Até a roupa que usava, grande parte era conseguida no areió-arreió¹.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Durante trezentos e sessenta e seis dias daquele ano bissexto, Ndvumba wa Iena trabalhou de forma árdua. Tinha pela frente o sustento da família os encargos com a nova residência, o sustento dos parentes directos e amigos de peito e outras despesas. Tinha, porém, um hábito velho de que não se desfazia que era o de oferecer presentes aos vários sobrinhos no dia de Natal. Reunia-os todos em sua casa e, um a um, chamando-os pelo nome e anunciando os méritos e deméritos da premiação, atribuía o que a cada um cabia. Anos atrás de anos assim procedeu, sem em troca receber semelhantes elogios e estímulos, até que um dia pensou em homenagear-se a si mesmo.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;No princípio do mês décimo segundo,&amp;nbsp;Ndvumba procurou por uma loja da cidade e pediu que lhe arranjassem algo para presentear um amigo muito laborioso, bom pai de família e merecedor de uma distinção não muito cara, mas bastante honrosa. Pediu também que fosse forrado com o melhor papel de embrulho que houvesse e inclusa uma dedicatória àquele “grande senhor” da sua vida. Lamba Lia Musono, a funcionária da loja Kufupha Falanga, fez a preceito e como lhe fora solicitado. Ndvumba fez de tudo para que a surpresa não fosse descoberta, nem por si mesmo, que também não sabia o que continha o embrulho. Com muito custo lutou e venceu a ansiedade e a tentação.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;No dia D, família reunida como de hábito em sua casa. Uma mesa estendida e decorada expunha os muitos embrulhos numerados e nomeados como de costume.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Irmãs, primas, sobrinhos (estes tinham aumentado durante o ano) amigos, parentes e até vizinhos, todos esperavam ansiosos o que cada um deles receberia de elogios e de recompensa material. Era assim que fazia havia já cinco anos.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Tângua lia Zao, o filho primogénito tinha sido promovido naquele dia em mestre de cerimónia, função para a qual fora preparado durante meses e que exerceria doravante naquele e noutros eventos correlacionados. Era a natural passagem de testemunho. Kuji ya Phembe assim fizera com ele, Ndvumba wa Iena, enquanto sobrinho mais velho e herdeiro tradicional do tio. Tângua estava entre a ansiedade e os nervos. Tamanha era para ele a responsabilidade em sair-se bem e ver, se calhar, a sua recompensa duplicada. Um bom presente, apesar de não ser dos alunos mais brilhantes daquele ano académico, e uma posição na família, enquanto porta-voz dos encontros e debates mensais.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O relógio marchava apressado, o sol do meio-dia queimava a calvície dos anciãos convidados, remetendo-os a uma sombra conseguida com o recurso aos lençóis estendidos no quintal. Os embrulhos expostos na mesa de jantar, transladada para o vasto quintal, pareciam também reclamar do sol, suor e da demora, até que Tângua lia Zao aparece no seu fato de Caqui brilhante que o confundia com um cantor da nova vaga. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Tângua saudou pomposamente os tios, primos e demais convivas e passou, de imediato, a palavra ao pai que procederia à chamada, nome a nome, dos premiados do dia.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;E a lista começa com um pequeno discurso:&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;_ Por ter sido exemplar, foi aqui dito, por não ter fugido às suas obrigações paternais, por ter sido aglutinador de uma família que se quer grande e unida...&lt;/em&gt; pausa e indica para o mestre de cerimónia o embrulho mais vistoso e continua...&lt;em&gt; ofereço a Ndumba wa Iena, eu portanto, esta prenda que reconhece o trabalho e esforços despendidos ao longo do ano prestes a terminar.&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A família, entre olhares díspares, bate palmas e soam os vivas. Nos cantos, as velhas beliscam-se pasmadas. Coisa igual nunca se tinha assistido ainda. Mas todos se rejubilam e tomam nota.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;- Ele também merece.&lt;/em&gt; - Atirou a matriarca Kaxina Kaji escondida nos seus panos de origem holandesa. A velha era pouco faladora e tudo o que dizia era carregado de uma grande sabedoria. Por isso, ninguém a reprovou.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Com os poros rebentados e suor a transbordar, recebe beijos da sua amada e chovem abraços dos sobrinhos que por instantes desviaram a atenção que prestavam àquela mesa dos presentes.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Quando se preparava para retomar a lista dos contemplados, estalou o champagne e tempo teve apenas para presentear o porta-voz que lhe faria o trabalho subsequente. &lt;br /&gt;&lt;em&gt;- As vossas lembranças estão aqui. Ser-vos-ão entregues pelo vosso irmão Tângua...&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todos os seus filhos e sobrinhos eram incentivados a tratar-se como&amp;nbsp;irmãos. Ndvumba cultivava o espírito de irmandade que tinha apreendido com seus país e que resultava na família unida que eram.&amp;nbsp;Seria então Tângua e distribuir os panos para a avó, os carros e bonecas para os primos e convidar os tios para o repasto. Ndvumba tinha proferido, por obras, um “Viva eu”!&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&amp;nbsp; &lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Soberano Canhanga&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3768017225494223045-7775897214062805849?l=atura-liter-atura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://atura-liter-atura.blogspot.com/feeds/7775897214062805849/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://atura-liter-atura.blogspot.com/2010/07/viva-eu.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3768017225494223045/posts/default/7775897214062805849'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3768017225494223045/posts/default/7775897214062805849'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://atura-liter-atura.blogspot.com/2010/07/viva-eu.html' title='TRABALHO E FESTA'/><author><name>"Soberano" Canhanga</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08139246140510431159</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_RGH73KYb7oc/SLKRmnddrjI/AAAAAAAAApA/4e-mjmOAaaY/S220/LCIMG_8216.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3768017225494223045.post-7890350874809795952</id><published>2010-06-16T10:27:00.002Z</published><updated>2010-10-20T15:31:20.396Z</updated><title type='text'>LIVRO PRONTO PARA GRÁFICA</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_RGH73KYb7oc/TL8JaoPhj7I/AAAAAAAABok/Z8DODnM5fgk/s1600/KAÃšIA.JPG" imageanchor="1" style="clear: left; cssfloat: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" ex="true" height="320" src="http://4.bp.blogspot.com/_RGH73KYb7oc/TL8JaoPhj7I/AAAAAAAABok/Z8DODnM5fgk/s320/KA%C3%9AIA.JPG" width="205" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;Caro frequentador desta página,&lt;br /&gt;Convido-o a percorrer as páginas que foram reescritas e reavaliadas.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;FALTA POUCO.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Boa leitura&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3768017225494223045-7890350874809795952?l=atura-liter-atura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://atura-liter-atura.blogspot.com/feeds/7890350874809795952/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://atura-liter-atura.blogspot.com/2010/06/livro-pronto-para-grafica.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3768017225494223045/posts/default/7890350874809795952'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3768017225494223045/posts/default/7890350874809795952'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://atura-liter-atura.blogspot.com/2010/06/livro-pronto-para-grafica.html' title='LIVRO PRONTO PARA GRÁFICA'/><author><name>"Soberano" Canhanga</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08139246140510431159</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_RGH73KYb7oc/SLKRmnddrjI/AAAAAAAAApA/4e-mjmOAaaY/S220/LCIMG_8216.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_RGH73KYb7oc/TL8JaoPhj7I/AAAAAAAABok/Z8DODnM5fgk/s72-c/KA%C3%9AIA.JPG' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3768017225494223045.post-1251605882135187178</id><published>2010-04-18T12:48:00.004Z</published><updated>2010-07-28T14:23:08.220Z</updated><title type='text'>O SONHO DE KAÚIA</title><content type='html'>&lt;div style="border-bottom: medium none; border-left: medium none; border-right: medium none; border-top: medium none;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_RGH73KYb7oc/S5TbotuUCRI/AAAAAAAABec/34HTXfYjNSI/s1600-h/Mussafo.bmp" imageanchor="1" style="clear: right; cssfloat: right; float: right; margin-bottom: 1em; margin-left: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="400" kt="true" src="http://1.bp.blogspot.com/_RGH73KYb7oc/S5TbotuUCRI/AAAAAAAABec/34HTXfYjNSI/s400/Mussafo.bmp" width="372" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="border-bottom: medium none; border-left: medium none; border-right: medium none; border-top: medium none;"&gt;&lt;strong&gt;CAPA&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="border-bottom: medium none; border-left: medium none; border-right: medium none; border-top: medium none;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SOBERANO CANHANGA&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3768017225494223045-1251605882135187178?l=atura-liter-atura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://atura-liter-atura.blogspot.com/feeds/1251605882135187178/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://atura-liter-atura.blogspot.com/2010/03/chamas-e-marchas.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3768017225494223045/posts/default/1251605882135187178'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3768017225494223045/posts/default/1251605882135187178'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://atura-liter-atura.blogspot.com/2010/03/chamas-e-marchas.html' title='O SONHO DE KAÚIA'/><author><name>"Soberano" Canhanga</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08139246140510431159</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_RGH73KYb7oc/SLKRmnddrjI/AAAAAAAAApA/4e-mjmOAaaY/S220/LCIMG_8216.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_RGH73KYb7oc/S5TbotuUCRI/AAAAAAAABec/34HTXfYjNSI/s72-c/Mussafo.bmp' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3768017225494223045.post-4199487617895298566</id><published>2010-03-17T07:00:00.006Z</published><updated>2010-08-03T09:39:53.637Z</updated><title type='text'>Capítulo I: MARIA KATUMBO</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;ARIAEra no tempo da guerra e, na aldeia de Rimbe, no Libolo, Maria tem muitas preocupações sendo a maior delas o marido que está muito doente. O filho mais velho estava na casa-de-água e não pode manter contacto com o mundo exterior que é a sua comunidade. As meninas eram três e a caçula tinha apenas dois anos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Maria vive os problemas mas nada a desarma, nem desiste. Acompanha o marido ao hospital de Calulo e, de lá, consegue que ele seja transferido para o Sumbe. Na capital kuanza-sulina não tem familiares e ela nem dinheiro possui. Como a saúde do marido se degrada a cada hora que passa receia o pior e decide levá-lo a Luanda onde tem um irmão empregado bancário e uma sobrinha no hospital sanatório. Para viajar só vê uma solução: destilar e vender makiakia cuja receita serviria para pagar a passagem num machimbombo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em busca de soluções, outro entrave se atravessa o caminho: um primo do marido, depois de embriagado entorna o tambor da makiakia em destilação, complicando ainda mais os planos da Maria, mas nem assim ela desiste. Obtém um empréstimo e chegam a Luanda, onde o marido viria a falecer uma semana depois do internamento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Feito o funeral às custas do irmão, a viúva regressa desamparada, sem dinheiro, com dívidas por saldar e quatro filhos menores por cuidar. O mais velho, ainda na casa-de-água, tem oito anos e a menina mais nova tem dois. A tradição exige novo funeral, apesar de ser de faz-de-conta. E, passado um ano, o sacrifício de um bode para tirar o luto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mesmo sem armas, Maria não se sente desarmada e nunca desiste. Trabalha nas lavras, trabalha onde pode, tudo fazendo para manter a família e a cabeça erguida de quem pagou o que devia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entretanto chega o ano de 1984. A guerra apertava dias sim semanas sempre. Mais noites eram passadas nas matas, sob intensa chuva, expostos aos mosquitos e outros inimigos do homem, do que no casebre de pau-a-pique coberto de velhas chapas de zinco. Fartos da situação, mãe e filhos começam o “exílio”. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Refugiam-se na sede comunal da Munenga e é nesse mesmo dia, 15 de Fevereiro, que a rebelião armada ataca com toda a força e impiedade. O que restava dos haveres foi levado pelos guerrilheiros e a família refugia-se noutra aldeia, Samba Caringe, onde por um mês vive graças ao trabalho prestado nas lavras de aldeões locais. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com tudo perdido, regressa, com as “mãos na cabeça” à aldeia de origem, a mais de 60Km. Junta, contudo, os trapos e as forças, até o limite extremo, arriscando a viagem para Luanda, com os filhos, onde o irmão mais velho de novo os receberia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Falela Nganga, já na casa dos setenta, era pai de três filhos. O primogénito varão estava perdido na cangonha e bebedice. Vivia da pesca e das aldrabices num lugar qualquer da Ilha de Luanda e só em momentos de apuros visitava o pai. A menina estava casada com um militar da força aérea e tinha já vida feita. O caçula estava em local incerto no extenso Libolo. Para ser sincero nunca o tinha visto, pois a mãe partiu grávida e nunca mais voltou. Sabia apenas de ouvir dizer que tinha um terceiro filho sem nome atribuído nem registo. Casado em quartas núpcias e sem rebentos, via nos sobrinhos recém-chegados a consolação que lhe fugia desde 1978, quando se juntou a Nzamba-a-Lumingo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A esposa, apesar da inquietude que lhe provocava a traquinice e imperícia à vida urbana dos visitantes, preferia fechar os olhos aos desmandos e desabafar à distância, nas conversas com as amigas do chafariz ou nas caminhadas para o cultivo na honga que ficava atrás do quartel da polícia montada do Kapolo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aos olhos do irmão, se não fosse o exíguo espaço daquela libata de madeira, Maria e os filhos teriam aí ficado por muito tempo, sem grandes incómodos, mas Falela decidiu conferir maior comodidade às famílias, a sua e a da irmã, e maior espaço para os sobrinhos que precisavam de estudar e brincar. Ao primeiro anúncio do inquilino dum anexo que possuía na rua do Kalissangue, Falela não vacilou e numa noite de sexta-feira, depois do culto metodista, anunciou à irmã:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Katumbo! – era assim chamava a irmã – o Kitongo vai sair da casa pequena. Vocês vão mudar para lá e eu vos vou ajudar na comida e noutros gastos do miúdo que anda na escola.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi um misto de alegria e tristeza. A distância era mínima mas deixariam os sobrinhos de beijar ao tio na hora da saída para o trabalho e deixariam também de receber, em primeira mão, os figos que trazia dos jardins da casa do governador do banco nacional onde fazia jardinagem. Quem transbordava de alegria, apesar de contida, era mesmo Nzamba-a-Lumingo farta de ver a sua loiça quebrada pelos sobrinhos do marido. Mas no seu íntimo nunca se desfez a amizade e carinho pelos miúdos que também a ajudavam no acarretamento da água e lavagem da loiça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para Maria, sair do ninho obrigar-lhe-ia a aprender a esgravatar e a defender-se com as armas que ainda não possuía na grande cidade. No mato onde vivera até aos quarenta a principal actividade restringia-se à agricultura e ao cuidar dos filhos. Luanda tinha outros desafios. Era o comércio informal que mantinha os fogões acesos e as panelas em actividade diária. Maria começou por acompanhar a cunhada e as novas vizinhas nos negócios até se estabelecer como peixe na água, embora ainda em baixa profundidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Começou com uma venda de pequeno valor. Comprava no Mercado das Corridas quiabos, gindungo, sal e outras iguarias que revendia à porta de casa, no Kalissangue.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com o decorrer dos meses o leque dos produtos foi aumentando e concomitantemente os valores empregues. Comprava milho e massambala para deles obter a farinha que tinha uma grande procura naqueles dias de fome. Os sábados eram reservados à honga, um pequeno retalho de terra cedido pela cunhada, onde brotavam abóboras para a mingueleka , os quiabos e a mandioqueira para a quizaca . Era dessa forma que os hábitos campestres também contribuíam para a melhoria da dieta e o equilíbrio da vida urbana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em seis meses Maria se adaptou na totalidade e já mantinha, sem recurso permanente ao irmão, o sustento dos quatro menores. Ajuda o irmão mais novo, um desertor do exército governamental, então com a designação de FAPLA, e os sobrinhos abrangidos para a vida militar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apesar de mulher carente não pensa no prazer de ter outro homem. Abdica de amores por amor aos filhos e esmera-se nos negócios da fuba de milho, peixe miúdo e outros bens de primeira necessidade, comprados e revendidos na candonga . Com a poupança, melhora as condições do casebre e junta dinheiro para recomeçar a vida destruída no campo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Amenizada a guerra, em 1987, regressa à terra natal e recomeça a vida campestre, dividindo-se entre o campo e a cidade capital onde ficaram os filhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O mais velho afina a caneta e apruma-se nos mais variados ofícios: aprende a costurar e cedo se livra da compra de vestuário; aprende electricidade e resolve os problemas da casa e da vizinhança que agradece; monta uma turma de superação de dúvidas aos filhos dos vizinhos que recompensam. E a vida segue remendada. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Phande-a-Umba tinha bem guardada a lição do Ti-Chico. Era em surdina que a recitava de vez em quando para nunca a esquecer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele era trabalhador agrícola na fazenda Israel. Em tempos livres, aqueles que seriam os do seu repouso, dedicava-se à lavra familiar de onde vinha o sustento diário. Do salário pouco se gastava. Era tão ínfimo que só ele o suportava. Mas tinha algo de bom: atribuía aos filhos o correspondente abono de família. Com os Kz 120,00 que cada um dos filhos cadastrados tinha por direito, comprava o vestuário escolar. Naquele tempo da formação do “homem novo”, os cadernos e os livros eram da responsabilidade da escola. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;António Dambi, filho mais velho de um desafogado cafeicultor e curandeiro tradicional, tinha a mania de não depender do esforço do pai. Detestava a herança e trabalhava com as suas forças aquilo que seria o seu sustento e a herança para a sua prole de sete. Foi assim que em 1978 negou a fazenda do pai, a carrinha Land Rover de caixa curta e dinheiro vivo. Apesar da pouca instrução académica era bastante polido. António Chico, para os seus amigos de infância, tinha uma visão global muito rica para o seu tempo. Formação académica e profissional eram, a seu ver, os caminhos para o sucesso, como não se cansava de afirmar, quando se resolvia a chamar-me:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Phande!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Pai!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ouve! Um homem nascido numa família como a nossa tem dois caminhos para ser homem de verdade: a escola que te dará formação académica ou seguir uma profissão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- ‘stá bem pai! Mas assim vou ser então o quê?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Estuda! Quero que sejas professor para dar aulas também "nos" teus irmãos (nas aldeias todos os miúdos são tratados como irmãos) e se um dia faltar professor p’ra ti ponho-te na profissão! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim foi, vezes sem conta, com Phande-a-Umba, seu quarto filho, primeiro de segundas núpcias, e depois com&amp;nbsp;o afilhado Kaúia, até expirar o último fôlego da vida. Esperava ele que a lição fosse aprendida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ti-Chico queria deixar uma herança espiritual que se reproduzisse de geração em geração e que o recordassem em cada sucesso e insucesso. Não muito feliz ainda, morreu Ti-Chico, numa altura em que a vida estava entre chamas ateadas pela guerra e marchas empreendidas pela população fugitiva. E tudo ficaria para traz; os conselhos, os pertences, a terra herdada e dos sonhos e a vida também.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3768017225494223045-4199487617895298566?l=atura-liter-atura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://atura-liter-atura.blogspot.com/feeds/4199487617895298566/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://atura-liter-atura.blogspot.com/2010/02/dedicatoria.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3768017225494223045/posts/default/4199487617895298566'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3768017225494223045/posts/default/4199487617895298566'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://atura-liter-atura.blogspot.com/2010/02/dedicatoria.html' title='Capítulo I: MARIA KATUMBO'/><author><name>"Soberano" Canhanga</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08139246140510431159</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_RGH73KYb7oc/SLKRmnddrjI/AAAAAAAAApA/4e-mjmOAaaY/S220/LCIMG_8216.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3768017225494223045.post-326289019815219751</id><published>2010-02-20T09:49:00.004Z</published><updated>2010-08-03T09:05:07.787Z</updated><title type='text'>Capítulo II: O CÃO E O PEIXE FRITO</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A aldeia de Cambau, comuna do Kissongo, é a terra natal de Kaúia. O dia de nascimento é incógnito. Ninguém se lembrou de recorrer ao Comité da Aldeia ou ao comerciante para o registar num caderno de datas. O Soba Kambondondo lembra-se de ter sido num dia de caça. O milho estava nos celeiros e a terra recebia os primeiros preparativos para novas sementeiras. O herdeiro mestiço do colono israelita que habitou a região diz que foi num mês de Agosto dum ano que também não sabe precisar. Estava-se no fim da luta entre os irmãos kambuta e os mindele . Deve ter sido em 1974 ou 1975.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao contrário do que era hábito na aldeia de Cambau, onde os rapazes adquiriam o njine na pré-adolescência e a sangue-frio, Kaúia fê-lo junto ao enfermeiro, no mesmo mês em que recebeu a irmã Ximinha. O pai queria que o seu primogénito fosse estudar na União Soviética ou em Cuba. Só não sabia como nem quando. Foi daí que mandou cedo o filho à circuncisão. “Quem vai à terra do mundele não pode ir com kifutu ”, dizia Jorge Kaúia orgulhoso do seu filho que crescia em altura e em conhecimentos, à semelhança dos outros meninos da aldeia que tinham pai e mãe que trabalhavam, com lavra grande e fartura de alimentos e muita fruta. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em casa, na aldeia de Cambau e nas circundantes de Calombe, Cabeba, Cuassola ou mesmo no Calongo, Kaúia e os irmãos recebiam a educação e a instrução comunitária. No Cambau os filhos eram considerados de todos e a sua educação a todos cabia. Aos cinco anos os rapazes entravam para a iniciação escolar onde as meninas ingressavam muito mais tarde ou nunca. Eram muitas as que não iam à escola. Os pais refilavam e opunham-se, mas as mães ganhavam sempre. Tudo porque naqueles tempos que se seguiram à dipanda os nascimentos estavam em alta e os muitos recém-nascidos ficavam à guarda das manas mais velhas, assim negadas à escola. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com os seus aparentes cinco anos, a vida de Kaúia parecia maravilhosa. Brincava com os amigos à cabra-cega ou confeccionavam trotinetas de munzaza . Vezes sem conta escalavam montanhas para espreitar a vida íntima dos canta-pedras, aqueles roedores engraçados e furtivos, ou vasculhavam no bananal a vida dos ngelus . Passarinhos multi-cores, borboletas, cigarras, grilos e gafanhotos também faziam parte do seu dia-a-dia. Era nestas aves e insectos que se ensaiavam na caça aos animais de porte maior. Os veados, corças e javalis entre outros, estavam ainda confiados aos dikotas da sanzala , mas o dia de Kaúia chegaria também, tarde ou cedo. Sonhava também ele um dia presentear a sua mãe com um veado inteiro, tal como fazia o tio Kizoco à sua avó. Era isso que na aldeia valorizava o “filho-de-homem”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A primeira vez que João Kaúia pronunciou uma palavra perceptível devia ter nove ou dez meses. Lembra-se ainda Kabezo, sua mãe, que Ximinha, a sua irmã mais nova, já estava na barriga. E Kaúia falou em Kimbundu, a língua da sua aldeia e dos seus pais e parentes. O português, língua dos mindele, tinha sido, até há bem pouco tempo, a língua usada apenas para responder a notificações no posto de Kissongo ou quando o soba fosse à vila de Calulo. Até o alemão W. Kruzik tinha aprendido a língua dos nativos para poder contratar a mão-de-obra para a tonga e convencer os aldeões a fazer “vale” na sua loja de campo. Chegada a idade escolar, havia a preocupação de saber o A-B-C-D e contar na língua do colono, o que não era nada fácil para quem aprendeu a pensar como sempre pensou o seu povo e desenvolver o conhecimento numa base filosófica sem registo escrito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A idade da pré-kabunga coincide, na aldeia, com a da frequência ao njango . Kaúia tinha deixado de jantar na cozinha com a mãe e com a avó paterna Kikumbo. No Jango havia a educação masculina, a forja para a vida adulta que começava com a narração de lendas antigas sobre pessoas valentes e animais ferozes que era preciso dominar. Para alongar o serão, João Raimundo Kaúia “Xica Yango”, seu homónimo e avô, tocava kambanza e intercalava os contos com as canções do seu tempo. Os jovens e adolescentes recontavam o que tinham ouvido do velho e os meninos o recitavam todos os dias no início da “academia”. Era como a recapitulação da matéria da escola oficial. Depois vinham as anedotas contadas por jovens e homens de meia-idade, também eles responsáveis pelas lenhas que alimentavam a fogueira do njango e pela continuidade do lume que nunca se devia apagar. O njango era a fonte de iluminação para o povo da aldeia e tornava dispensável, para muitos, a compra das caixas de fósforo ou mesmo isqueiros de pedra alimentados a petróleo ou gasolina. No fim do serão, muitas vezes já sem luar, e como que passando a tarefa aos neófitos da turma, abria-se o espaço das adivinhas. Him, him, him, him... cantarolavam antes de formularem as perguntas livres à rapidez de quem tivesse a resposta na ponta da língua. Era o melhor momento!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao entrar para a escola da aldeia, feita de adobes, Kaúia encontrou novos amigos, antes desconhecidos, das aldeias vizinhas de Sengo e Calongo que ficavam a um e dois quilómetros da sua, com os quais partilhava as mesmas dificuldades. Não falavam o português exigido pelo professor Borracha e o kimbundu tornou-se proibido até no recreio. O professor castigava quem falasse a língua da aldeia na escola ou fora dela para forçar que os alunos aprendessem o mais rápido possível a língua deixada pelo colono. O português era para ele, até então, a língua usada nos comícios do comissário, nas reuniões dos instrutores da organização infantil do partido no governo, a OPA, vindos da sede da comuna, a língua que se lia nos livros e na gramática portuguesa do José Maria Relvas que descrevia a forma como falavam e escreviam os seus melhores utilizadores. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em casa, a avó Kikumbo, sua protectora, não falava português e sempre que Kaúia estivesse com colegas não conseguia comunicar com ela, temendo que alguém o denunciasse ao professor Joaquim Borracha, o que aumentava as suas dificuldades. Já não se alimentava em condições porque desconhecia a denominação portuguesa dos mimos com que a avó o brindava e, pior ainda, entrou em rota de colisão com a velha que o chamava calcinhas, nome pejorativo com que os aldeões brindam os cidadãos vindos da cidade e com modos refinados. Desde que entrou para a vida escolar que o neto já não respondia às perguntas da sexagenária e nem solicitava o seu doce regaço. Sempre que tentasse fazê-lo era num português tão atabalhoado quanto envergonhado que a avó não entendia. Era preciso encontrar a paz. E a paz seria selada num sábado, na lavra, onde o rapaz se pôde abrir com a anciã, na sua língua de costume e sem a presença de intrusos. Apenas pássaros e borboletas pulverizavam o ambiente ensolarado daquele dia de nuvens fugitivas, testemunhando a confissão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– A Kuku, ki tuzuela imbundu prossor io mbeta. Muene uandala tuzuela ngó putu! (Avó, sempre que falamos kimbundu o professor bate-nos. Ele quer que falemos apenas português.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Da confissão resultou o entendimento. Neto e avó procurariam doravante por espaços cómodos para a troca de informações, presentes e desabafos sem temor. E a vida foi correndo. Kikumbo mais para a velhice e Kaúia mais para a adolescência, até que três anos mais tarde, já em Calulo e na escola número três, ao Kassequel, Gonçalves da Silva era o professor de Kaúia. Os alunos eram maioritariamente filhos de deslocados, também chamados de recuados, da comuna de Kissongo e das redondezas, com domínio ainda precário da língua que une o país, o português. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gonçalves ensinava as ciências e a língua veicular. Estava-se no ano de 1984. A guerra apertava dia após dia. Os bens de consumo escasseavam e o lanche para os meninos dias havia, semanas não, exceptuando-se nas casas dos “camaradas” comissários e delegados municipais, que se faziam transportar em carros de marca Lada ou Niva. Esses eram os únicos que aos olhos do povo tinham nascido para as benesses do deus Lénine. Eram sempre os primeiros na distribuição dos géneros alimentícios e os únicos que nos comícios populares se abrigavam sempre debaixo do alpendre, ao contrário da massa popular que enfrentava o sol mesmo se acossada de sede. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;João Manuel Kaúia, de seu nome completo, aparentava já dez anos e estava na terceira classe. Tinha um desafio duplo: aprender a língua que pouco sabia e enquadrar-se no seio dos demais colegas nascidos na pequena urbe e que o desdenhavam devido ao seu cantarolar que se parecia ao chilrear dos passarinhos. Parecia mesmo que imitava os pica-flores e os rabos-de-junco que cercavam a escola, naqueles tempos de voos fracassados do salalé. Porém, Kaúia sentia mais do que isso. Tinha saudades do amanhecer, das visitas às armadilhas e ratoeiras deixadas nas bermas das lavras e das pescas aos sábados e domingos, aqueles dias milagrosos em que "não havia escola". Custava-lhe também habituar-se sem a companhia do amigo Kakiezo emigrado para Luanda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na escola, enquanto se aprimorava no uso corrente da língua lusa, passava os recreios a solo ou em companhia de conterrâneos com quem ele "kimbundavam" ao intervalo. Recordavam os idos tempos no Kissongo, ainda sem guerra, nem recuas, com fartura de mandioca, carne de caça e peixe no rio Kixikumuna. Kaúia e amigos aproveitavam o intervalo para grandes viagens até à era dos bons tempos: do café madrugador da avó Kikumbo, do milho assado da tia Kifunde e das brigas de afirmação que deixavam os rapazes com a pele enrijecida e cheia de pequenas cicatrizes. Cada sinal no corpo tinha uma história. E eram essas histórias que cobriam o tempo de recreio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dia, naqueles dias de muita ocupação do professor Gonçalves, em que era preciso passar a "pente fino" os cadernos, Kaúia adiantou-se na apresentação dos deveres ao mestre. Era a forma de ganhar tempo para a repetição dos exercícios errados. Os primeiros a entregar os cadernos eram sempre os primeiros a recebê-los. Era já hora de recreio. Ao regressar à carteira, Kaúia enfiou a mão debaixo da mesa e, debalde, o seu saquinho com um pedaço de bombó e ginguba já lá não estava. Todos os colegas tinham já abandonado a sala e alguém se tinha aboletado do seu farnel! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Kaúia, banhado em lágrimas, queria explicar, mas palavras não tinha. O seu raciocínio era em Kimbundu, língua que traduzia para o "pretuguês" em que ainda mal gatinhava. Pensou explanar na língua que dominava, mas era proibida naquele recinto oficial. A língua da sua gente era apenas para o intervalo com os amigos da buala e na informalidade da aldeia da Banza de Calulo. Aflito, quase a fazer-se em pedaços, Kaúia encostou a poucos metros da secretária do professor que, de óculos inclinados para os cadernos, simplesmente não ligava ao que se passava ao seu redor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Camá prossor! – chamava Kaúia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Diga! – respondia o mestre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Camá prossor…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Diga!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Camá prossor…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Diga!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À medida que o tempo passava, e com a fome a roer-lhe o estómago, Kaúia mais se chateava da desatenção que lhe era brindada pelo mestre. O professor, por sua vez, julgando serem daqueles queixumes próprios dos alunos primários em tempo de intervalo redobrava a atenção à correcção dos exercícios, até que Kaúia, não aguentando mais, atirou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Oh! io uamba hanji digó-digó, mbomba iami anhana! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Oh! estás aí a dizer, diga- diga, o meu bombó foi roubado!) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gonçalves aguentou-se apesar da forte vontade de soltar uma rizada. Esqueceu-se naquele dia de aplicar o castigo habitual ao falante da “língua proibida” em recinto oficial e aproveitou, ele também, o intervalo para apanhar ar fresco e alguns raios de sol, pois era manhã de cacimbo. O caso do furto seria resolvido depois do recreio. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o dia em que abandonou o Kissongo, Kaúia lembra-se bem, como se fosse hoje mesmo. Era ainda pequenino e raras vezes se interessava com os assuntos dos mais velhos da sanzala. Naquele dia, havia disparos madrugadores por todo o lado. Não era hábito acontecer tanta bazucada de manhã. Do cimo da montanha, onde ficava a casa dos seus pais, via-se que o comissariado comunal estava em chamas e rodeado de estranhos que empunhavam armas de fogo. Ouviam-se também batucadas e canções estranhas entoadas numa língua também estranha que só ouvia falar nas roças de sisal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Comissário e a sua tropa tinham “desconseguido” resistir e, ao fugir de baixo de arbustos espinhosos, um galho agarrou-se-lhe ao casaco, junto à gola. Naquele sufoco e sem olhar para trás, o pobre coitado estava convencido de que alguém dos “bandidos” o havia alcançado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Por favor, me larguem só. Já não sou mais comissário. Fui exonerado há duas semanas e estava apenas à espera do meu substituto!... – Suplicou António Gaspar, o comissário Tony.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A cena ficou tão famosa e expandiu-se de tal modo que deu origem a uma canção relatando o facto. Até em Malanje, que fica do outro lado do rio Kuanza, foi feita um versão em Kimbundu que se reporta a um comissário da comuna de Kota, mas que na verdade era o do Kissongo. O cancioneiro reza que o comissário chorou amargamente e suplicou até que um curioso olhou para o lado e viu que o dimixi se ajoelhara perante um deus inexistente naquele lugar. Tão logo o povo soube de tamanha “medriquice” do comissário, fê-lo personagem da canção que ainda hoje faz furor nalguns folguedos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Comissário ya Kota kievu kibulu ualenga! Ualengela uoma muene ua zeka mu iango mamã!..&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(O comissário de Kota tão logo ouviu disparos meteu-se em fuga. Fugiu de medo e dormiu na mata...)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, recordação forte, forte mesmo, que ainda aparece nas noites em que o sono é contra-revolucionário e faz greve, é mesmo a grande caminhada! Já lá vão uns vinte anos, quando, em três dias, foi forçado a percorrer mais de cento e cinquenta quilómetros a pé... Desalojados por um dos beligerantes então historicamente aliado às forças de defesa sul-africanas, pais e filhos, na altura ele menor, tiveram de refugiar-se na montanha da Quibuma e de lá partir para o "exílio". Calulo estava em chamas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem água nem comida, sem roupas nem medicamentos para as feridas abertas por estilhaços dum morteiro sessenta, sem horizonte, apenas andar e afastar-se do ribombar de canhões e daquele cheiro cadavérico que os cercava. Apenas andar, caminhar, correr, sem olhar atrás, nem para o sangue que rompia as veias dos corpos torturados pelo susto e pelo sol do meio-dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;− Será que ainda estou vivo ou é um sonho? Me belisquem!, - ordenou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos seus 15 anos, era já um homem destemido. Em férias em Luanda, travara já muitas lutas com bandidos do Rangel. E mesmo nas missões de militares adultos para o Kissongo e Luaty, estava sempre na primeira linha. Medo não era com ele, mas aquele dia, vigésimo sexto de Dezembro, era um caso ímpar. Cortava a mata cerrada com o mesmo ímpeto que os obuses lançados a partir do Quartel das Mangueirinhas , agora tomado de surpresa pela guerrilha. Andar no mato nunca fora problema para ele, não fosse aquele andar sem rumo, a fugir de quem não se sabia de onde vinha, nem por onde podia estar escondido para de repente montar uma emboscada e atirar à queima-roupa...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No topo da montanha, o que em tempos recuados fora objecto de brincadeiras de criança tornou-se num convívio forçado com os canta-pedras que não abdicavam do seu canto, o que os deixavam incómodos. Das encostas da vila, puseram-se a caminho da Banza do Mussende, num trajecto feito entre palmares e cafezais, revezando a picada com o asfalto serpenteante, evitando desta feita o contacto visual, à distância, com as pessoas de quem fugiam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dos irmãos mais velhos e outros familiares nada se sabia. O Sabino, que era sargento do batalhão de luta contra bandidos, afecto às Fapla, tinha participado do combate perdido e escasseavam ainda dados sobre mortes e feridos. Os bandidos, de cujo aniquilamento se ocupava Sabino, tinham conseguido entrar, pilhar e incendiar a vila o máximo que puderam. Era o registo habitual das suas acções. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O César, que era da Oganização da Defesa Popular, uma milícia do governo, terá tido a chance de fugir ou o azar de ter sido capturado durante o reconhecimento madrugador dos atacantes. Algo dizia, entretanto, que o César tinha fugido, pois nas confrontações ele era sempre o primeiro a escolher o lugar da fuga, entre o mato ou o morro. Tal actitude custou-lhe a alcunha de Mato ou Morro. O André, coitado do kota André, era das Brigadas Populares de Vigilância (BPV), outra milícia governamental, e naquele 26 de Dezembro como estar vigilante? Tinha tomado as suas canecas natalinas e o peso da kimanda até lhe provocava incómodo. O caçula Bernabé havia sido atingido mortalmente e enterrado à pressa, uma hora e meia atrás. Uma bazuca se tinha apoderado da toca que repartia com o tio Kizoco e ambos estavam a ser chorados… apenas nos corações! Porque o vermelho do sangue ainda pintava as mãos e forças não tinham para soltar a voz saudosa dos que partiram de forma inesperada. Apenas a Ximinha se tinha livrado daquele calvário graças ao tio Kimbundu que a pedira para cuidar da sua primogênita em Luanda, havia já ano e meio. Ximinha estava também a aprender a ler no centro de explicações do Sr. António, um diminuído físico que não se cansava de “dar luz aos meninos vindos do interior” e amealhar algum. Era disso que vivia, aí junto ao centro Ngongo-ya-mona-a-Diala, no Caputo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As feridas expeliam o máximo sangue que podiam. Mussende estava à vista, pelo menos a elevação. Já se tinha remetido para trás o Km 5, o Kateculo, Kienha e outras aldeias que acompanham a negrura asfáltica que se desfaz em pequenos cursos de água, rumo à Munenga. Sem paixão, o sol rasgava os lábios. Riachos se tinham tornado em “bocas de fogo”. Entre os leitos rochosos que já alimentaram muitas vidas, apenas lagartos e outros bichos rastejantes. Os insectos voadores carregavam lama para fabricar os seus ninhos e dar vida a seus semelhantes. Aos gritos resmungavam os estómagos vazios. Nem bombó, nem coconote tinham podido apanhar ao longo da caminhada até à Banza do Mussende, o lugar escolhido para parar e calcular o que se deixara na fuga. Era preciso lavar as mãos, chorar os mortos, contar quantos perfaziam a coluna e traçar o rumo seguinte: Se o retorno ou o avanço para uma terra que os recebesse como refúgio permanente. Seria Luanda?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todas as informações recebidas, transmitidas de boca em boca, com acréscimos e decréscimos de palavras e frases inteiras, apontavam para um caos em Calulo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;− Viram o mano Sabino? - perguntou Kaúia a uma coluna que acabara de chegar ao Mussende.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;− Epá! disseram-me que o sargento foi valente. Ainda conseguiu metralhar uns tantos fantoches, mas depois só teve mesmo é tempo de desmontar a agulha do ZG1 e meter-se a monte. Os filho-da-mãe vinham com muita força. - Reclamou Bala Icola, também ele militar. O Kota Bala estava meio fardado, meio à paisana e com a sua arma à tira-colo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Militares e civis, todos fugitivos, caminharam quatro horas até à Banza do Mussende onde montaram um acampamento improvisado. O Comité, o Soba e outros aldeões ofereciam o máximo de compaixão e meios de que dispunham. Ainda reinava a solidariedade, mas a vida pendia para o pior. Até os caroços de dendém escasseavam e as frutas silvestres eram disputadas entre homens e macacos. Era tanta gente e tantas as necessidades. Procurava-se pelo que levar à boca, pelos desaparecidos, pelos sobreviventes e pela cura para os feridos, enquanto o choro dos que tinham partido para a outra vida aguardava ainda por um melhor momento. Aliás, perante tal cenário, os mortos estavam num descanso bem menos pesaroso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi nesse ambiente que Kaúia se alistou noutra coluna de jovens que decidiu chegar ao Dondo, pela marcha, percorrendo mais de cento e cinquenta quilómetros. Essa foi a última caminhada inesquecível de sua vida, pois até Luanda ainda teve tempo de apanhar o último comboio daquela era.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora, mais de vinte anos passados, Kaúia é pedreiro numa “esferoviteira” brasileira. A mini-paz de 1994 devolveu-o à vida civil e já sem a mãe Kioza, refaz na grande cidade o tempo perdido e, é de casa ao serviço que, rememora as grandes andanças dum tempo que a sua memória teima em reter. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sempre que há avaria no carro de transporte do pessoal, o patrão dá-lhe dinheiro para a passagem no táxi, mas a chuva, as estradas por acabar e a nova lei contra a arruaça fazem com que se ande mais a pé do que em carros que nunca chegam a tempo... Kaúia e Kakiezo, seu amigo de infância, são colegas e levam cinco horas de marcha entre a localidade do Zango e a do Benfica, em Luanda. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Num passo médio, contornam charcos e curvas com mestria. As curtas paragens são compensadas com passos corridos. Conhecem o mapa dos musseques melhor do que ninguém e nem mesmo a escuridão os engana. A lua, as estrelas e o sol fazem a vez do relógio. Em mochilas que carregam às costas, levam desodorizantes, sapatos e camisas passadas que vestem a poucos metros da empresa, antes de se juntarem aos outros colegas. Todos eles trocaram os gatilhos por colheres de pedreiro, formões, serrotes e outros objectos de trabalho, ganhando o seu pão a troco de suor e força. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na Obras Primas ninguém pergunta a ninguém como chegou nem a que hora partiu de casa. O trabalho fala mais alto do que as condições postas à disposição para o exercício da profissão que é controlada por um capataz de barriga cheia e calva a desafiar um aeródromo militar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;− Cada um vira-se como pode! − Costuma desabafar o capataz Valdez também apelidado por “Vale Dez”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É durante as pausas, entre um bloco e outro ou uma fiada e outra, que Kaúia vê perfilarem-se no pensamento as incontáveis pessoas que se fazem à estrada em busca do "pão burro" de cada dia. Apenas uma questão não entende e se calhar jamais entenderá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;− Por que há tanto carro na capital e cada vez mais gente a caminhar? − responda quem souber…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em finais de semana, vez por outra, dava-se ao luxo de um passeio, uma ida até à Ilha, olhar palmeiras e o mar e ouvir o chilrear de pássaros. Sonhar é próprio do homem e as planuras marítimas convidam, ou melhor, forçam qualquer um à introspecção e à meditação. Aliás, mais força exerce o mar sobre quem, como o Kaúia, tenha vivido muito tempo no interior. Ah! Como ele lembra ainda dos primeiros tempos em que, chegando junto ao mar, ficou a pensar que nunca tinha visto um rio com uma só margem. E aí, na sua ingenuidade de homem simples, foi perguntar a um grupo de miúdos caluandas onde ficava a outra margem… &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como troco à pergunta recebeu ele insultos. As crianças desataram a rir e a chamar-lhe de boelo. Noção de rudeza das palavras ditas não tinham aqueles mendigos de peixe abandonado na praia. Apenas se espantavam do facto de um mais velho não saber o que para eles era tão trivial. E, às tantas, um dos mais faladores, atirou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;− Ei meu? Vai ver. Tu não sabes que esta água é salgada?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o Kaúia, que ainda não estava convencido quanto à questão da outra margem, não foi de modas e, não acreditando em “piolhos” tão mal educados, foi provar a água…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;− Issunji ! Quantos sacos de sal deitaram aqui, p’ra fazer isso? − questionou, deixando-se ouvir pela rapaziada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi a gargalhada geral e o máximo da gozação. Cansado de zombar com o infeliz Kaúia, o mesmo miúdo que tinha ordenado a prova da água, mudou de tom e, com vaidade e muito atrevimento, começou uma longa explanação, seguida de gestos largos e expressões ainda mais vivas, num linguajar que Kaúia desconhecia:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;− Prontos… Esquece mô kota. Eu já marei!… Meus, fitem a boca que aqui o vosso “dji” vai explicar ao dikota que veio do mato “comu’é qui é”. − Mô mano, esse mambo não é rio. Esse mar todo, vem lá da Tuga, passa nas Guiné e Cabo Verde, passa no São Tomé e, “despois” de passar aqui, ainda sobra mais bué de mar p’ra ir “inté” nos Brasiles, Cubas, às Chinas e muitos outros sítios ainda! Lá na minha ‘scola vi um mapa bué big que tem tudo isso! Tem muito mais mar que terra que a malta pisa, meu!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na sua humildade, Kaúia agradeceu. Fez uma festa na cabeça do “professor” e, pensativo, meteu-se num candongueiro que o levou até à Mutamba. Dali, seguiria no maximbombo 33 até ao Cazenga. Não via nada nem ouvia ninguém. Só aquele miúdo esticando os bracitos finos para lhe dizer o grande que era aquele mar…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No autocarro é um falar alto e agressivo que o arranca da assombração e é também o achar que aquela voz não lhe era estranha de todo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– É pá! Cheira a chulé nesta merda, pá! Poças, com esta gripe estou tramado!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já não tinha dúvidas. A voz era de alguém conhecido. Apenas o busto é que não encontrava enquadramento na memória carregada de tantas memórias. Kaúia levantou a cabeça e, olho no olho, reconheceu uma marca no rosto de Fifas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Meu avilo , meu! Comué? Sou o Kaúia. Como estás? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Eu sou o Fifas, meu. Tás magro meu... Família, mulher e putos, quantos? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Ainda meu. Cheguei há pouco da vida militar! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No fundo do autocarro que soluçava para se desfazer dos buracos, Man-Xaxo, como era por todos conhecido, apesar de se chamar Fernando, ouvia com nostalgia os retalhos de uma vida vivida anos em comum, mas continuou calado por mais um tempo. Fernando fora, na adolescência e na juventude, quem no grupo mais falava, daí a alcunha de Man-Xaxo. Enquanto andou na tropa foi uma peça fundamental na diversão dos companheiros e até estava para receber patente. Pena foi que no combate que “apagou” o temível Ndumba Inene uma bala encravou-se-lhe no tornozelo, fazendo-o voltar a Luanda onde agora é guarda numa empresa criada por um conhecido chefe do Corpo de Polícia Popular.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O destino tinha-os separado fazia tempo. Aportados em Luanda, por força da guerra civil, eles, rapazes na década de oitenta, deram que falar nos becos do México, ao Rangel e Sete e Meio, ao Cazenga. Pululavam sempre juntos pelos musseques e levavam uma vida de irmandade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Fifas, tens visto aquela malta do Sete e Meio? O Ambrosito, o Carlitos de Catete, o Kitembo da Quibala, o Man-Xaxo... – Questionou Kaúia. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era a dica que esperava para entrar em cena! Fernando sabia que haviam de falar dele. Então, dos fundos silenciosos do maximbombo irrompe um vozeirão:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Olhem avilos, estou aqui! Man-Xaxo, presente! – e prosseguiu, numa toada muito especial que era o seu cartão de visita: – “Filho da dona Eva do Golungo Alto... Sete e Meio, número quatro, Zengá”...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Espanto total! Era assim que o Man-Xaxo se apresentava desde a infância. Era ele mesmo! Os três amigos, naquele mesmo lugar, tantos anos depois. Que maravilha! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Esanju! – Retrucou uma velhota do Catchiungo, encostada à cadeira do motorista, como quem diz “que pequeno é esse mundo”, enquanto afivelava um sorriso de nostalgia. Quem sabe quanta gente gostaria ela de reencontrar também, depois daquela saída forçada das terras planálticas do Huambo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os três amigos repartem a alegria que contagia os demais companheiros da viagem do Baleizão ao Zamba 1, num articulado que gemia em cada paragem e arranque, serpenteando nas curvas e contra-curvas como jibóia repleta que foge de caçadores furtivos das Lundas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– “Comué”, onde vivem vocês? – perguntou o Fifas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Eu? ‘stou no Zango, ali mesmo ao lado da cabina de luz queimada. Fiz uns biscates e vou ver a velha que ficou no Cazenga. Estive na tropa e regressei há dois anos. Fui levado à força, em 1992, depois daquela mini-paz. Agora sou segurança privado, tomo conta do cão do ministro, ou ele toma conta de mim, não sei lá muito bem… tipo os dois “se cuidamos” – ironizava Man-Xaxo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– E tu, kamba Fifas?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Fui pescador. Vivia na Boa Vista, agora estou no Kalumbo, onde nos atiraram... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– E lá é fixe? – indagou Man Xaxo, expectante. – Tem energia? Nós, no Zango, a luz está a nduta .&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– No Kalumbo ‘stá-se mal. Dizem que vai melhorar, mas ‘tamos a ver só. Por enquanto são os fofa-ndó que nos acodem, embora o preço da gasolina tenha subido...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Man-Xaxo e Fifas monopolizavam o diálogo, perante uma ávida assistência que os rodeava. Outros assuntos do dia tinham deixado de ter validade. Até mesmo as zungueiras deixaram de contar a novela do dia anterior que era tema central nas viagens de machimbombo. Kaúia, recém-chegado à civilização, aguardava pela palavra que não tinha e abanava a cabeça aprovando o diálogo. Queria intrometer-se e fazer um “triálogo”, como faziam no antigamente, no Sete e Meio. As suas vivências recentes eram, porém, outras. Eram combates travados nas matas, nas chanas , carne humana em pedaços e outros horrores que, se calhar, os amigos nem sequer tinham ouvido falar. O seu disco rígido estava repleto de outros filmes duma vida dura vivida à força e com dispênddio de muita força.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Epá! Dizem que os chineses é que vão colocar a luz no Kalumbo quando terminarem no Golfe, no Zengá e noutras bandas... – Fifas não abrandava e nada conseguia cortar a dualidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Hum… quem disse? É pura mentira! Esses muadiés sabulam . Dizem que já desviaram o kumbú dos chinocas para novas bandas onde estão os militantes do Manda-Chuva. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Mas isso é verdade? – intrometeu-se um espectador na conversa. Era o Joaquim Kahinza, também ele residente no Kalumbo. – E nós que também somos militantes, mas estamos em minoria nos bairros? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Olha, vou levar o assunto ao camarada coordenador do bairro. Isso não pode ser assim! – era o rosto franzido de Fifas, perante a anuência silenciosa de Man-Xaxo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A conversa ganhava novos contornos e novas intromissões, não fosse um candongueiro que, numa manobra perigosa perdeu os travões e foi embater num pilar erguido por uma construtora mesmo na berma da estrada, fazendo um morto e três feridos como resultado. Foi o fim inesperado do tema.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Da confusão de mirones resultou que os amigos acabaram por se dispersando e Kaúia, já perto do destino, seguiu um tanto desconsolado. Tinha tanto para falar e lhe encheram os ouvidos com histórias que não entendia e outras que não queria entender. E mais aquela água toda que não lhe saía da cabeça… &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sábado de sol intenso e muita poeira levantada por carros apressados numa estrada quase despida de asfalto carcomido por chuva abrilena. Os homens respiravam a custo. Na comissão do bairro a reunião começou com minutos de atraso, quase uma hora. O coordenador, Bala Icola, tinha recebido orientações superiores para tarefas de importância capital. Falariam naquele dia sobre eleições, criminalidade e outros temas diversos que inquietavam a população. Era preciso resgatar a motivação do eleitorado e procurar prosélitos para a causa. Afinal de contas o sufrágio estava à vista.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fifas já tinha planificado meter o assunto da energia na hora do debate sobre a bandidagem no bairro. – Não anda ela casada com a escuridão? – questionou-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O coordenador atirou o corpo pesado contra a cadeira mais alta, puxou uma garrafa de água. Engoliu uma porção e começou a pôr ordem na assistência que mostrava impaciência, reclamando do calor e do roncar do estómago vazio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Viva o presidente Baltazar!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Viva!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Viva o nosso glorioso partido Manda-Chuva!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Viva!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Vivam para sempre os ensinamentos do saudoso Dr. Arnaldo Campos!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Viva!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– O mais importante é?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Resolver os problemas do polvo!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bala Icola imprimia força e velocidade ao discurso embora os vivas responsivos e o levantar dos braços denunciassem um aborrecimento, um abandono, como quem está mas na verdade não está…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Muenaxi, um cinquentão, farto de falatórios e com o estómago nada farto, resolveu desafiar o cordenador da célula do partido: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Fala só chefe. Depois temos de ir ao Bita porque ouvimos dizer que já há milho na cooperativa...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi o fim. Nunca uma reunião tinha terminado logo nos preliminares. Às palavras mágicas “há milho” seguiu-se um “bruá-á” de cadeiras arrastando, bancos tombando e aquele ajuntamento a caminho da porta! E o chefe? Bem, o chefe ficou a falar entre dentes e para os papéis. Bala Icola esqueceu-se até mesmo de usar a sua arma privilegiada: “Camaradas! São orientações dimanadas superiormente e que devem ser cumpridas à risca”. Era uma táctica militar que tinha aprendido na tropa onde fora o político do pelotão. Apesar da carga ideológica que tinha engolido, o seu estómago era humano e estava igualmente cheio de promessas nunca cumpridas pela hierarquia governante. A fome graçava pela cidade e nem mesmo os capelões-mor da teoria socialista resistiam aos esquemas daquele época. Qualquer alerta, ainda que falso, sobre a existência de cereais ou outros víveres, era suficiente para juntar multidões como abelhas em campos floridos. Muitos trabalhavam por comida e outros, como o Man-Xaxo, se contentavam com o cheiro de comida saído de cozinhas fartas... Bala Icola foi também. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ministro no seu tempo, a casa do camarada Kambondondo era um posto muito cobiçado por todos os companheiros da nova trincheira de Man-Xaxo que era artista do relacionamento influente. Assim conseguiu a colocação que tinha dezenas, para não dizer centenas de pretendentes, todos eles ex-militares que trocam agora força e sonos na empresa do “Comandante” Bartajú por pratos de comida e alguns trocados para ajudar no negócio ambulante das mulheres. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todos eram unânimes numa inveja muito mal disfarçada, demonstrada por discursos indirectos e retorcidos cujo tema principal era o ter amigos que eram amigos dos amigos que mexiam os cordelinhos. E, geral era também o achar que ele tinha conquistado um estatuto de privilegiado por ter conseguido a colocação em casa dum Ministro e por possuir uma ficha com muitos combates travados no Leste e Sueste do país. Bartajú, o patrão, era conhecido de um amigo de Man-Xaxo e foi por via disso que conseguiu o posto da casa ministerial.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Man-Xaxo era um homem de porte físico de pôr ordem na vizinhança e precisava igualmente de exercícios físicos regulares para a manutenção. Claro que também precisava de uma alimentação em qualidade e quantidade para repor as calorias que gastava com a musculação. Apesar do pouco soldo, primava pelo aprumo e fazia questão de manter a sua farda limpa e passada, botas engraxadinhas e barba bem aparada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A casa de Kambondondo pareceu-lhe, à partida, o ideal posto de trabalho para juntar ao útil o agradável: proporcionar a efectiva sensação de segurança ao Ministro e ter, em contrapartida, comida boa e em quantidade. Kambondondo teve também boa impressão do vigilante quando do primeiro contacto visual. Ambos se olharam olho-no-olho e de lá emanou uma química que oferecia segurança aos dois: guarda e guardado. O Ministro precisava de vigilantes que impusessem respeito, mesmo sem o recurso à kalashnikov , como dizia aos vizinhos e amigos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O andar dos dias mostrou-lhe, porém, que toda aquela primária imaginação tinha redundado em ledo engano. O destrato permanente foi dando a entender que, afinal, paraísos na terra ou não há mesmo, ou estão reservados para quem tem influências maiores que as dele… É que aqui, Man-Xaxo assistia dias sim, dias sempre, aos banquetes com que Kambondondo brindava os amigos, ex-companheiros de brigada, sócios empresariais, afilhados e até namoradas, sempre que a dona Kifunde se ausentasse para compras no Dubai. A quarentona tinha um gosto exagerado pelo esbanjamento e uma mão direita cujos dedos nunca se abriam aos necessitados. Até mesmo as irmãs mais novas passavam a vida a reclamar da mão-de-vaquismo da mana que não se desfazia sequer dos antigos vestidos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O guarda, apenas de longe saboreava os manjares multi-culturais que lhe passavam à barba. O seu prato vezeiro era o do arroz com peixe frito e pão seco que vinham da empresa de segurança Njovoli . &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Junto à entrada principal da residência estava um pitbull carnívoro, animal de estimação de Kambondondo, cujas regalias se equiparavam às que oferecia aos filhos, ultrapassando mesmo, em larga escala, as miseráveis vivências dos directores nacionais. O Xinganheca, nome fino do quadrúpede, tinha médico, dentista, adestrador e muito mais. As suas consultas eram seguidas ao pormenor e usava dos mais caros perfumes. O Xinganheca era, aos olhos de Man-Xaxo, um cão com direitos humanos. Priveligiado, ele? Só rindo para esquecer! Aquele cão é que tinha este mundo e mais o outro. E se quisesse outro ainda era só pedir. E se ele soubesse pedir um mundo bem melhor! Seria só abrir a bocarra e falar alto…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Farto da vida super-humana do cão e da infra-vida de cão que lhe era brindada naquele rancho ministerial, Man-Xaxo começou cauteloso e sorrateiramente por dividir os bifes entre ele e o pitbull sem que os seus segurados dessem por nada. Com o andar do tempo e com a maior naturalidade, foi diminuindo a parte da carne destinada ao cão-humano, mandando a outra pela goela dentro do humano-cão. E todos vivam felizes. Bem, pelo menos, não havia reclamações, até que um dia pensou no que seria o seu golpe de artista: inverter os pratos. O peixe frito para o cão e o bife para si. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mal pensou, pior fez. O engarrafamento daquele dia, que se seguiu à noite de chuva, tinha atrasado a chegada da carrinha de distribuição da comida dos vigilantes em quase todos os postos. Aqueles que tinham bons "bosses" quase dela nunca precisavam. Entretanto, com o Man-Xaxo a conversa era outra. O pitt Xinganheca já tinha tomado o seu leitinho matinal, desprezava os biscoitinhos importados, aguardando a principal refeição do dia. Só que Man-Xaxo engolia ainda vento atrás de vento e bocejava esfomeado. À hora do almoço, o bife tanto fazia verter fluidos das bochechas do canídeo, como criava litros de água na boca do seu companheiro humano. O guarda da casa não pensou nem pestanejou. Tão logo chegou o apetitoso pitéu, tragou-o em dois tempos, ficando de sentinela, paciente à chegada do arroz com peixe frito. Estava já de pança feita e, com o estómago em maior actividade que o habitual, atendendo à quantidade e à velocidade da refeição, Man-Xaxo arrotava temperos que enciumaram o pitt, obrigando-o a abrir-se em raivosos uivos que despertaram a atenção dos proprietários da herdade e da vizinhança. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;António Lunguluka, um vizinho brigadeiro que dispensava guardas, já tinha afinado a kalashnikov para o pronto-a-matar ao primeiro sinal de intrusão na sua casa, a Vil'Armanda. Estava-se num tempo em que nem os gatunos tinham horas para os assaltos, nem os militares paciência para esperar pela polícia ou coisa parecida. Os assuntos de justiça eram resolvidos na hora e com a eficiência dos meios ao alcance de quem os tinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mergulhados em estranheza pelo latir enraivecido do animal, Kambondondo e Kifunde colocaram um ponto e vírgula à saga romântica e transpuseram a porta para o quintal. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Qual o espanto? Repousava no canil intacta uma marmita com arroz e peixe frito. Decisão “Ministerial”, com carácter prioritário: Mandar imediatamente de volta, e sem mais explicações, o pobre “animal” à empresa Njovoli. E, caladinho porque, pelo contrário, veria o pior!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3768017225494223045-326289019815219751?l=atura-liter-atura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://atura-liter-atura.blogspot.com/feeds/326289019815219751/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://atura-liter-atura.blogspot.com/2009/11/ultima-grande-caminhada-de-que-se.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3768017225494223045/posts/default/326289019815219751'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3768017225494223045/posts/default/326289019815219751'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://atura-liter-atura.blogspot.com/2009/11/ultima-grande-caminhada-de-que-se.html' title='Capítulo II: O CÃO E O PEIXE FRITO'/><author><name>"Soberano" Canhanga</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08139246140510431159</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_RGH73KYb7oc/SLKRmnddrjI/AAAAAAAAApA/4e-mjmOAaaY/S220/LCIMG_8216.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3768017225494223045.post-9084428889531126129</id><published>2010-02-01T01:44:00.003Z</published><updated>2010-06-16T09:52:28.464Z</updated><title type='text'>Capítulo III: VIDA CAPITAL</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Nos meses de cacimbo o Kissongo e as suas aldeias se tornam em locais impróprios para visitantes de longe. O fumo das queimadas, o vento frio e seco que sopra lado a lado, o cieiro que rasga e acinzenta a pele e a pobreza trazida pela guerra são coisas que afugentam quem vida melhor almeja. E foi disso e doutras coisas que fugiram Kimbudu, Ximinha, Kaúia, Mbalundu e até Phande-a-Umba, residindo agora em Luanda. Na grande cidade “sem dono” está também Maria Campos, saída da longínqua Missão evangélica de Chissamba e Marieta Fontes, a sonhadora de Vava-a-Yela, que um dia fora recomendada para diaconisa na missão de Chilume, preferindo porém o seu sonho de aeromoça. Todos eles, Fernando e Kakiezo incluídos, têm do passado comum o nascer no interland, emigrar para a terra que ao Ntotela do Kongo pertenceu e o sonhar que tudo se refaz como a onda que cobre e descobre a areia da praia em dia de sol.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E já fazia sol quando o relógio-despertador tocou com toda a sua fúria para o alertar para a medicação das seis e meia, já eram longas as horas de insónia que Fernando carregava. O homem tem dificuldade em digerir aquela reacção da Ia no funeral do Kakiezo quando o padre elogiava o defunto dizendo que em vida fora bom homem, crente e fiel marido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Ia abandonou as lágrimas para pedir ao Kelson, filho mais velho de Kakiezo, para confirmar se era mesmo o pai dele ou outra pessoa que estava no caixão. Até as “patas e patos de óbito” não gostaram da reacção da viúva porque se o homem morreu, morreu já. Não adianta mais dizer às pessoas que era um pecaminoso de primeira classe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fernando só não jogou aquela pobre mulher ao buraco por pena dos filhos, os muitos sobrinhos com que o compadre lhe brindou. Catorze no total, por causa das “embaixadas” que foi abrindo ao longo dos seus cinquenta e cinco anos de mandato. Ia deveria ter tirado satisfações com o marido ainda vivo. Fazer o morto passar por vergonha é coisa que não se faz desde os tempos avoengos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os últimos dias do Kezito eram parecidos aos de quem ganhou na lotaria. “Embaixadas mais embaixadas”, copo mais copo, putos atrás de putos e disbunda ao longo dos sete dias. A depreciação da comadre “holding” era tão acentuada que não fazia nada mais senão rezar. Muxima, Kalumbo, Santo António do Kifangondo e outras igrejas onde se buscava um Deus especial, eram destinos da mulher que procurava a cura divina para as ausências prolongadas do seu homem. Já lá iam dez anos que o marido tinha decidido juntar os trapos com uma viúva de Malanje, cujo esposo tinha encontrado a morte numa boite de Benguela. Dizem que apanhou uma profissional que lhe chupou, chupou como rebuçado, até que se estrebuchou na morte. A morte do irmão Malesso, filho ímpar da Damba, como ele se alcunhava, foi um escândalo internacional. O homem era um cristão da elite e, morrer numa situação vergonhosa daquelas, mereceu muitas páginas no Jornal Boca Livre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desde aquele ano em que nós éramos uns Casa/Trabalho e Escola/Casa que vou assistindo a tudo. Já andámos muito. Primeiro na milícia governamental ODP e depois nas FAPLA, o exército do país. Até na kamanga fomos sempre juntos. Kakiezo e eu éramos irmãos de vida embora a sorte batesse sempre mais forte do lado dele do que do meu. A compra e venda de diamantes deu-lhe um Patrol, várias amantes, que ele chamava por embaixadas ou filiais, e agora essa doença de tossir e emagrecer que o levou para junto do Senhor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quanto a mim, sempre vivi com a minha desgraça. Sempre estudei mais do que ele, mas na ODP fui guarda e ele foi oficial. Nas FAPLA fui um raso e ele um sargento. Na kamanga ele saiu com um carro de rico e eu, graças ao troco dele, só cheguei ao “Gira-bairro”. Só não me aguentava mesmo era no papo. As moças daquele tempo diziam que eu era um poeta daqueles do Brasil. Ninguém me comparava aos portugueses que se enrolam no rasto das palavras só para dizer “te amo”. Os meus papos eram rajadas como chuva acompanhada de nzaji . Todos me pediam cadernos de papos e davam o meu nome ao primeiro filho que nascesse da relação. Hoje arreei. O papo já não resolve. É o saldo, a moda brazuca, a discoteca e sair voado... Vou continuar a gerir as minhas duas herdades. A holding, mãe dos meus filhos, e a sucursal ou filial que me alivia o stress há já bons anos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desde aquela primeira vez em que tentei sair na noite que me está a ser difícil deixar. Reconheço que já não tenho pernas para muitas pedaladas. Um carro velho por cuidar, dois filhos no ensino médio e um na universidade, uma amante xuladora e um enteado comilão é carga pesada. Chegou a vez de racionalizar o esforço e fazer um calendário de atendimentos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Daqui em diante a quinta, sábado e domingo despacho na holding. À sexta-feira, que é sagrada, folga aqui para o boss. À terça passo a despachar na sucursal. Cada uma com a sua vez. Ainda tenho que consolar a comadre Ia todas as segundas e visitar os sobrinhos que o Kakiezo me deixou espalhados pela cidade. Há sempre um em cada bairro desta Luanda e cada um com os seus problemas!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fernando dormiu finalmente, embalado pelo monólogo, sonhando com o que fora o percurso de vida vivida daquele que foi o seu distinto amigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E sonhou que Kimbundu e Mbalundu são amigos de longa data. Viveram vários anos na fazenda Kazukuta, no Waku Kungo, onde seus pais eram trabalhadores agrícolas, tendo partilhado conhecimentos e vivências, desde a escola primária, o isolamento da circuncisão até à recruta na tropa do governo. Aos olhos de quem os vê juntos são mesmo irmãos de sangue.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois dos difíceis combates travados contra os búfalos, sul-africanos e seus amigos, Kimbundu que é de Kissongo voltou a encontrar-se em Luanda com o seu amigo Mbalundu que é de Boas Águas, no Huambo. Na capital, a vida era outra e apesar da decana irmandade e da vontade de sempre estarem juntos, os caminhos nem sempre tinham o mesmo destino. Os encontros tornavam-se raros. Sorte é que meses depois da desmobilização tinham frequentado cursos de artes e ofícios, como também tinham afiado um pouco mais o lápis, daí estarem agora com a vida remendada. Ambos tinham casas e carros próprios, embora vivessem no subúrbio. Casas em condomínios como o New Life não se enquadravam ainda nos seus orçamentos embora lá também quisessem viver.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Kimbundu, agora conhecido por Kim, estava já amigado e da relação resultaram dois rebentos, primos que Ximinha ajudava a cuidar. Mbalundu, por sua vez, levou do Huambo para Luanda a sua Ngueve de Catchiungo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nas aldeias, onde se fizeram homens, a carta era o principal meio de comunicação à distância e o hábito ainda fazia lei entre eles, mesmo estando agora na grande cidade dos ajuntamentos. Apenas o tempo é que não recua e este vai levando coisas velhas trazendo outras novas aos olhos dos homens e mulheres que parecem agora desvendados de crenças ritualistas e bairristas. Mbalundu, ou simplesmente Mbalu, estava cansado de comunicar-se por via de cartas que demoravam muito tempo a chegar aos destinatários. Pior ainda porque a sua mulher gostava de vasculhar as imbambas e ler as missivas. Uma vez teve mesmo de escrever em inglês, que aprendeu com os namibianos da SWAPO, para despistar a curiosidade da Ngueve que decidira nunca desprezar um papel com letras. Quanto ao amigo Kim, a sorte parecia-lhe igualmente madrasta. Kaculo tinha uma amiga que frequentava a escola de inglês e já decifrava os primeiros "I love you" das mukandas . Foi o que os levou à decisão de comprar telefones para facilitar a aproximação, tornando-se também nos maiores clientes de recargas da operadora Afasta Só.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aos fins-de-semana, mal raiava o sol, Kim e Mbalu sacavam dos telefones e conversavam horas sem conta, contando as voltas que o tempo tinha dado e continuaria a dar às suas vidas, preparando as agendas do munhungu seguinte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Alô mô Mbalu!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Epá, Alô!... Como é Kim, ainda estás aonde? A vida está-te a correr-te bem?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Yá, fixe! Como é hoje? Sai ou não sai uma?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Não meu, estou fraco. Equilibras-me a balança de pagamentos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Yá. Sem makas! Vamos... O teu carro está bala?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Está, mas falta gasolina. Vou fazer primeiro umas puxadas do Banco ao Porto e depois ligo-te... Comprei agora este Sonyericson para pôr as conversas em dia e mandar também algumas imagéticas de cada munhungu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Já sabes Mbalu, há gente que noite-e-dia na ilha. Não é que descobri ontem um monte de camisas?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Camisas? De quê?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– De vénus. Ali, bem na Vista Mar. Só desci...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Mas conta então bem...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Yá. Letal, imoral e outras marcas. Umas estavam já secas, outras ainda com a kissângua lá dentro e outras ainda a cheirar prazer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Epá, não será no sitio do teu primo Kezito? Ele disse-me doutra vez que ia também entrar na turma...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Não acho. Ele não usa esses artigos dos brancos. Prefere mesmo é actuar a judo... Mas também ainda não o introduzimos na “vida verdadeira”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O dia de cacimbo levava já algumas horas e o sol intenso começava a morrer. Minguava a força de assar sardinha e a mizangala já saía para o trumunu da tarde. Nos quintais ensombrados por figueiras varriam-se as folhas caídas e quase tudo se aprontava para o fim, menos o diálogo entre Mbalu e Kim, este último pensando ainda na eventualidade daquela asneira do sêmen ter sido protagonizada por Kakiezo. Na verdade, Mbalundu e Kakiezo, nascidos na mesma aldeia eram apenas amigos, mas entre eles havia também algo mais que os tornava parentes. Daí o “primismo” assumido na distante Luanda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Meu, quem cai hoje na rede?...Olha: estou agora com uma kitata que já dá para safar a onça. Em casa, já sabes. .. Subir ao palco é à rasca. Fogo já não acende, compreendes. É vida de caracol. Mal sai entra logo. – Reclamou Mbalundu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Yá meu. Eu também estou nessa. Por isso é que zungo para desvanecer. E hoje onde será o cenário? Parece que no Maualtar já não se vai... – Respondeu o amigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Ai é? Ainda bem que mo disseste. Mas olha, parece que na vilinha também se trabalha. É só chegar à porta do lado da falecida judiciária e expor a questão com duzentos na mão. O parqueamento é fácil e sem chatices. Disseram-me ontem num kamba... alô, alô, Kim! Olha, vou desligar para poupar os impulsos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Ok. Como trabalhas na Mutamba, logo te apanho lá... É só perguntares ao Felito, aí junto ao jornal Boca Livre. Depois decidimos se bumbamos já naquela área ou se subimos para o quintalão da Deolinda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Yá mô irmão, Vou ligar para a bombeira. Se estiver com truques de machado, já sabes...caio no consulado...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto os dois amigos acertavam o logo, no Porto Seco, novo emprego de Kakiezo, o jovem afivelava as ideias. Kakiezo é homem sério, educado na missão de Kamundongo, onde fora aprender teologia, num tempo em que os pais olhavam ainda para o caminho recto dos filhos e a moral pública era mais importante do que a dor do estómago vazio. Fruto dessa educação espartana, complementada com o rigor da tropa que o retirou da missão, Kakiezo mantém na vida uma rotina de casa/trabalho, trabalho/escola/casa. Ironia ou não, até a matrícula atribuída ao seu carro coincide com o que faz: CT-06-22-EC o mesmo que sair às seis de casa ao trabalho e voltar à casa às vinte e duas horas procedente da escola. Era, aos olhos de qualquer pessoa que o visse, um homem exemplar. Kakiezo era também visionário e há muito acompanhava que as rádios e os jornais só falam da grande festa de pontapés que estava por acontecer. Esmeravam-se as ruas, os jardins da cidade e as moças da vida afinavam os decotes e reforçavam o vermelho do batôm. Parecia que o que estava por vir era coisa que mudaria o mundo ou mesmo dar cabo dele. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do outro lado estava o primo Kimbundu que lhe vinha soprando ao ouvido que “na nguimbi toda a sexta-feira é dia do homem”. Homem ele sempre se sentiu, em casa ou na rua, e nunca viu diferença. Porém, a insistência de vizinhos, como o Manelito e a Alice, aguça-lhe ainda mais a curiosidade. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para a primeira tentativa, o artista falou antes com os botões e estes aconselharam-no a inventar à mulher uma prova difícil que o levaria a preparar-se para além da hora habitual de saída da escola. A Ia, inocente, aceitou sem hesitar. Tinha plena confiança nas palavras do seu homem e interiorizara que um futuro melhor dependeria de esforços como aquele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entre as infinitas ideias que Kakiezo tricota opta pela mais bizarra: Ir à Ilha, afamado centro de carnais prazeres ao léu. A noite já levava a sua nona hora. O espírito buscava inspiração sobrevoando filmes há muito vistos em locais restritos. O corpo transpirava e se incomodava com a mesmice da casa. Sem hesitação expôs a ideia à mulher que a aprovou sem pestanejar. De repente, ergueu os ombros de contente, aqueceu o carro e soltou para o seu íntimo: – Alguém tem de "pegar o maço" porque “a cobra vai fumar”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Logo na esquina da Maria da Fonte encontrou fontes de excitação. As moças pareciam estar prontas para as pelejas. Era bem na rua Direita de Luanda, ali mesmo, onde a promiscuidade e o sol se confluem. Belezas ímpares estavam entregue à vadiagem, limpando armas encravadas. Homens de mbunda sem carne, fugida para a barriga da cerveja, e mulheres de belezas fingidas no verniz e cabelos importados de índias miseráveis, também se misturavam à festa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sorte melhor não teria o inexperiente Kakiezo que tão rápido se entregou à sedução de uma loira lobitanga de cor de côco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Que grande sorte! – Delirou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Tio, aviso já. Só com camisa! – ordenou a executante do mais antigo ofício.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Qual camisa qual quê pá? Uma verdinha de cabeça grande sai ou não sai carne fresca?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cem dólares era o valor para uma noitada de muitas “apanha moedas” de cada mil burros . Vacilar seria condenar as panelas à greve e o marido sem copo. Marieta não vacilou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A loira estava em Luanda há alguns anos, fugida da guerra no interior de Benguela. Mas se tinha apresentado como lobitanga devido à sorte de ser filha bastarda dum mulato fazendeiro de Vava-a-Yela, na Nganda. A vida verdadeira duma cidade repleta de feras tinha-a ensinado o princípio da cooperação entre um marido mata-kassumuna e a “mulher trabalhadora”. Mesmo sem a formação que a impedia de alcançar o emprego dos sonhos, que era ser aeromoça, Marieta tinha, afinal de contas, uma grande indústria natural. A vida tinha-lhe ensinado também a barganhar com os seus clientes ocasionais. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O seu cliente, nascido no Libolo, tinha um percurso diferente. Educado no Bié para pastorear almas humanas, acabou na tropa onde a moral da fé e a psicologia militar entravam em colisão, mas nunca se despistando. Kezito está há poucos anos em Luanda e marca os primeiros passos nessas andanças.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Marieta Fontes, verdadeira nascente de prazer, exibia pernas longas e torneadas, seios amabocados pelo soutien do tipo “engana-marido” e um batôn exageradamente avermelhado e convidativo. O seu indicador estava sempre apontado ao lábio. As montanhas traseiras, meio despidas, eram que nem o Moco dando à mbunda o ar de um camião basculante. A moça de meia-idade tinha aprendido também a manobrar homens de bolso roto e a domar aqueles apegados aos dogmas cristãos. Era uma escola de vida mundana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com Yeta trabalhavam outras moças de várias procedências. Umas de idades mais avançadas e outras mais recuadas. Estavam aí expostas, exibindo a tonelagem que de graça haviam recebido e que a preço de banana distribuíam. Embora os moralistas reforçassem os apelos e os polícias prometessem castigos e deportações, os homens da ronda nocturna fechavam os olhos e delas também se abasteciam na carne e nas roulottes. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Kakiezo estava num verdadeiro novo mundo. Num mundo de que dispunha apenas de parcos conhecimentos de ouvir dizer... Era a sua primeira aparição in situ. O homem cultivado de moral cristã na distante Kamundongo, estava num abrir e fechar de olhos em mãos quentes de Marieta que o levou de farfalho em farfalho ao defunto Zoológico onde nem pescadores, nem corvos os rodeariam naquela hora. Apenas odores de orgasmos recentes e outros por conseguir em carros de vidros esfumados ou ao relento duma brisa empurrada por furiosas calemas. Não muito longe ouviam-se outros farfalhos do vento contra as árvores que se inclinavam pedindo paz para as folhas do orvalho matinal. Há muito que Kezito não recebia violenta quentura e delirava a cada sopro que recebia ao ouvido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Canta filha, canta meu bem, que o “microfone” é todo teu! - Delirava atordoado pelo medo de ser descoberto por algum linguarudo conhecido e pela elevada dose de excitação que recebia. Kakiezo não sabia por onde pegar nem em que pensar. Marieta, sua madrinha de vidas novas, era, de facto, uma máquina de grande cilindrada e mestrada na matéria. Conhecia os vultos dos xulos e dos ximbas que delas se abasteciam. Havia-os aos montes e aquela floresta, escolhida mais pelo prazer do que pela mente, estava repleta deles. Não tardou, antes mesmo que “a cobra fumasse e se engasgasse”, apareceu-lhes à frente um homem empunhando um revólver de marca Walter. Um “maka kiá!” saído doutra viatura em semelhante embaraço anunciava o perigo em presença. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Jovem desce, é a minha vez! – ordenou o ximba vestido de caki azul.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Atrapalhado, entre o ligar o carro, puxar as calças ou baixar o vidro, Kakiezo e Yeta cruzaram olhares com alguém aparentemente ligado à ordem pública da orla marítima e que acabava de corrigir a sentença:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– A jovem que está no banco de trás não veste. Tu aí, abres a porta e vamos à esquadra. Tens que explicar o que estavam a fazer. Isso é atentado ao pudor!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– À esquadra? Quê isso? Então um camarada já não pode namorar? – Respondeu-lhe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Kakiezo encheu o peito de coragem e bombardeou o suposto polícia de várias outras perguntas que lhe foram respondidas apenas com o cano da pistola em riste.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No banco traseiro do Starlet, Marieta banhava-se em lágrimas e preces a um Deus que há muito ignorava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Mas, sô agente já não se conversa?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Sô agente não, chefe! – Corrigiu o suposto polícia com rudeza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– É que, sô chefe! Tenho aqui qualquer coisa que dá para um saldo. Quero resolver o assunto localmente...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sendo outro o objectivo perseguido pelo homem de arma, o assunto foi resolvido a contento do adúltero Kezito. Porém, para a eternidade permanece a vergonha e a pergunta que o persegue: – Ai se a Ilha falasse!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No vai e vem dos sonhos, Fernando reviveu outras estórias do confrade. Foi levado a lembrar-se que do susto à segunda tentação transcorreram meses. Estava-se numa manhã de uma quinta-feira, de um mês que o tempo apagou, menos o ano que é dois mil e cinco. Kakiezo acordara, já meio tarde, confuso e falou com os botões... Pensou e repensou no que eram as filiais de que há muito ouvia falar sem nunca entender.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Homem de bem, Kakiezo esteve remetido, ao longo de vinte anos, à vida de dorme, ronca e acorda, um sacrifício que às vezes enfrentava com prazer. Mas a recém-chegada revolução feminina parecia atrapalhar-lhe as ideias. Parecia que estavam a chegar, novamente, os tempos babilônicos de que apenas histórias idosas restavam aos neófitos daquela grande aldeia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desde o seu casamento que a holding deixou de fazer maravilhas. Já lá vão anos sem fim e o pior é que na rua a aceitação era escassa por causa da argola que carregava religiosamente no anelar. Mesmo entregue à fé evangélica, Kakiezo vivia no lar o pão-nosso-da-desconfiança como fardo da fidelidade, rompida apenas há meses, nas peripécias da grande floresta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na escola nocturna o homem aprendeu Ciência e outras “ciências” da vida. Era quem mais dava boleias e patrocínios sem retorno. Lá, os convites indecentes surgiam em quantidades “megabáticas”, procedentes de raparigas que “apenas queriam estudar”. Diziam que era a forma de aliviar os pais de encargos com o vestuário e as propinas... Kezito tinha já experimentado as ilhas mais distantes daquela cidade atlântica e os mais recônditos recantos daquela floresta tropical. Faltava-lhe somente entregar-se, de corpo e alma, aos prazeres terrenos. Deus ainda repousava nele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ia, a esposa, fora formosa e fogosa nos tempos áureos da escola feminina da missão de Chissamba onde trocaram os primeiros olhares. Era na época em que se partilhava a estica-estica e os micates da tia Ngonga. Ele franzino e ela mais avantajada, com pernas gordas e traseiro em forma de pirâmide. Difícil era passar por ela e não forçar um olhar discreto para qualquer que fosse a parte da sua intimidade resguardada em seda e algodão orientais trazidos pelo pai de missões de serviço. Costa Campos foi diplomata em tempos idos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Maria Campos, ou simplesmente Ia, tinha deixado volatilizar toda a sua graça com a ninhada de filhos e o desfilar dos anos. A prole masculina já formava uma equipa de basquetebol e a feminina podia manter a assistência à partida. A caseiridade e o desleixo da companheira tinham tornado a vida íntima numa mesmice. As inovações que Kakiezo trazia dos livros de Kama Sutra e dos filmes para homens da sua idade eram interpretados como rescaldos de ultrapassagens à direita. Ia entendia de tudo à volta, menos de renovação, uma apatia que atacava Kakiezo agora entregue a trajes multicolores e sempre incondizentes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De galã, Kakiezo tinha se tornado em sombra de si mesmo e no lar mergulhava em problemas dia após dia, definhando por dentro. O seu andar de passos candentes se tinha tornado num conta-passos. Pesava-lhe o significado das juras trocadas perante o padre e os padrinhos. As desavenças caseiras tinham-no empurrado para o sabor da rua, onde já tinha experimentado álcool e algumas aventuras para afogar as mágoas, mas quase se deu mal com aquele ximba a apontar-lhe a pistola. Era outro o poiso que o seu pássaro precisava. Era preciso chegar à solução que até os filhos, às vezes, palpitavam nas conversas que se seguiam à interpretação da novela Maria Bonita, cujo enredo se parecia ao seu “filme”. A rua já se tinha tornado demasiado quente perante a “Sibéria” daquele lar. A vida intra-muros carecia de descompressão. Faltava o momento exacto para sair sem dar nas vistas. E a oportunidade de pôr a teoria em prática surgiu em vésperas do casamento de Ngaxi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Kezito, amanhã é o casamento da minha prima. Como a comida é feita em casa, vou lá dar um jeito e quero te pedir que me deixes sair agora... Deixo a comida já pronta para ti e para os miúdos. Depois é só pôr no micro-ondas... - disse-lhe a mulher.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Kakiezo esfregou as mãos de contente, mas a dar antes uma de marido desconfiante e enciumado:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– E a que hora é que vens? Com quem vais e quem lá estará? E olha, deixas-me com o teu carro para a minha saída em caso de urgência… &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A masculinidade parecia ressuscitar nele. Os planos pareciam coincidir, mas Kakiezo não era homem de dar nas vistas. Nada melhor do que aproveitar a saída da esposa para a reentré na vida vivida, pensou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lembrou-se que na ponta da rua, uma “ex-criança” acabara de florescer o peito e a pintar os olhos que todos os dias a ele se dirigiam em tons provocantes. “Carne que não é para nossos dentes, que se dê aos cães”, falou para si mesmo e pegou o telefone cuja chamada caiu no sítio certo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Alô, Ximinha, vamos chupar gelados? - perguntou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Kakiezo não sabia que a Ximinha era a tal miúda, irmã do seu amigo de infância Kaúia, que fora mandada a Luanda para cuidar dum primo recém-nascido e aprender a ler... Na sua adolescência Ximinha ignorava também a infância comum do seu irmão com o “boss” da Rua Jinga.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Quê isso Sr. Kezito? O Sr. 'stá a convidar-me a sério?... Sabe que sempre estive à sua disposição…Quer saber mais?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Não! Diz apenas a que hora e onde te posso apanhar. Sabes… Vou andar com um carro que não é meu, o da Ia. Ficas junto à agência, faz uma conta inicial na roulote que eu liquido depois.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– E ficaremos apenas por aqui ou haverá mais? Sabe, Sr. Kezito, preciso…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Oh! Kanuka, também preciso. Só que é de coisa diferente... tá? - Terminou a conversa evitando a curiosidade da miudagem que dele se abeirava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos preparativos do casamento de Engrácia da Silva Campos, a Ia, comadres e primas punham as conversas em dia. É nesses encontros que as mulheres aproveitam falar do lar, dos filhos e, às vezes, dos companheiros. Umas trocando saberes e outras expondo as veleidades e fortalezas do cônjuge. Nas ocasiões em que o batuque e a dança se combinam, o pudor volatiliza-se e os homens são passados a pente fino.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Sabes Manuela, os homens de agora são que nem os aparelhos electrónicos. Ou são CD, ou são DVD, com ou sem R e há ainda os VHS. Se a pessoa fica em casa é só mesmo por causa do juramento sagrado e dos miúdos que têm de ser criados num lar com harmonia, porque quando a porta se fecha é só mesmo esperar o sol abrir outra vez para cada um ir à sua vida diária. O rendimento que conheço é só mesmo o do salário. Quanto ao que Paulo aconselha aos Coríntios, ninguém liga a ninguém.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Pegaste num bom ponto, prima – replicou a Marisa, Isa de seu nome íntimo. - Pensava que fosse apenas comigo. Os anos quarenta são de muito sacrifício para as mulheres. Já ninguém dá o que pedimos… e quando se lembram é para apenas uma gota. Até já não sei se são as gaiteiras que sugam tudo ou se é a força que se perde na barriga. Também como bebem é de esperar qualquer desgraça!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Mas, Tininha, o quê isso de DêVêDês, CêDês, Érres e Vê-Agá-Ésses? - questionou a Ia escondida no seu pudor de mais velha da turma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nela vira-se para o lado esquerdo fitando a irmã Maria que lançou a pergunta. Mas é para a prima Madó que direcciona os olhos. Uma pergunta dessas não era de esperar de uma pessoa com a idade de Ia. Madó ainda é criança, tem vinte e dois anos, pensou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Não foi a Madó quem perguntou, foi a prima Ia. Cristina Campos, a Tininha ou Tina no seio familiar, endireitou a conversa na expectativa de obter as respostas que também lhe interessavam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Olha Tina, marido DVD é aquele que se deita, vira e dorme. Acorda só no dia seguinte quando já não é hora de satisfazer as vontades. Agora o DVD-R é pior ainda. Esse, se alguém de vocês tem, é melhor passar a dormir no quarto das miúdas, porque dorme e vira. Você pensa já que chegou a hora, mas ele dorme mais e ainda por cima ronca. Mas há mais. O CD é aquele que aborrece pouco, assim como o teu cunhado. Ele come e dorme e quando se lembra que estive ao lado dele já estou a caminho do serviço. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Mas falta um. Agá e Vê ou Vê-Agá-Essê, já nem sei. Será que é aquele que tem SIDA?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Hum! Qual lá SIDA? É aquele puramente quentaço. VHS é só “Várias Horas de Sexo” como nos tempos de namoro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*** &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E os sonhos do Fernando continuam velozes de recordação em recordação, como se, ao virar-se na cama, agitado, recebesse imagens de um outro filme, ou se mudasse de dimensão no espaço e no tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às vinte e trinta, Kakiezo e Ximinha já faziam do veículo o seu leito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Sr. Kezito, posso tratá-lo por meu docinho? – pediu ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Sim baby. Diz que os meus ouvidos são somente pra ti!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Onde é que está a tua mulher que te permitiu sair com o carro dela? – perguntou como que mostrando desinteresse pelo convite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Está no Prenda, ali junto à antiga Praça do Banga Sumo. A minha mulher descende de kibalistas e lá é a capital da Kibala em Luanda como é o Rangel para Catete. Não vês a composição demográfica? - Ironizou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao lado da agência bancária, local do encontro, espreitavam-nos as famosas mansões Meia Luva e Reflexo da Terra Louca, casas erguidas propositadamente para o sexo oculto e estadia cobrada à hora. Ximinha, embora apresentasse um rosto angelical, estava baptizada naquelas andanças e bem conhecida dos funcionários públicos e outros frequentadores do recinto. Apenas Kezito não sabia em que mares navegava. O mundo dele era apenas o mundo da friolenta Maria Campos ameaçada agora no seu monopólio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ximinha estava cursada na escola da vida e fazia o seu melhor para que não mais perdesse o boss. O seu rostinho esbelto e o peito imaculado contrastavam com as técnicas que utilizava e que faziam o quarentão Kezito “perder a cabeça”, espremendo-se como viúva no funeral do marido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Tudo o que tenho é, doravante, teu. A casa, o carro, a farmácia do serviço e os medicamentos... Tudo é teu. – Prometia Kezito. Até avião prometeu dar à sua estrela d’alva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Grande piscina para mergulhos! - Pensou mais tarde Kakiezo, sem o dizer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Distraídos nos jogos preliminares do amor, viriam os mosquitos anteciparem-se no quarto encomendado ao telefone. E como a noite ainda era criança, decidiram rever o casamento da noite com a aurora na ponta do Cabo, terra de ninguém àquela hora, onde matilhas e humanos se revezam no cenário da procriação em campo aberto, até que extenuados e desarrumados pela peleja, cruzariam com a Ia, na madrugada do dia seguinte. Tudo aconteceu no mesmo caminho para casa. Preocupado, o homem tentou, em vão, acelerar para chegar primeiro e refazer a maquiagem distorcida. Um alerta secreto tinha tocado Maria João Campos, deixando-a em pólvora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Avistado o colarinho da camisa do marido pintado de batom, a Ia perdeu a visão por alguns instantes. Tentou, atarantada, reconhecer o local em que se encontrava e as pessoas que a cercavam. Apenas vultos lhe apareceram em frente. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sentiu-se como uma cadela à procura do seu amo. De repente tudo o que era nefasto lhe visitava. Odiou o carro, a vizinhança, o Kakiezo e a si mesma. Mandou, inclusive, os filhos da sua própria barriga para o diabo! Recuperada momentos depois, tentou encontrar no seu íntimo a explicação que Kakiezo nunca lhe daria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ E se o carro falasse! Desabafou consigo mesma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi pena. O carro emudeceu. Aliás, continuou mudo como sempre e como os outros. Dos rastos possíveis apenas a fina areia que pintava o carro de branco como fuba de milho. Tudo o que ele permitiu foi uma briga rija como os seios da Ximinha. Até Kezito voltar a descarrilar foram necessários uns três anos de sã convivência. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas Fernando não ficou por aqui na sua viagem sem custos. Lembrou-se que antes a Ia tentou o seu melhor. Tinha procurado, finalmente, os melhores conselhos para o escuro do quarto e Kezito parecia reformado aos olhos da mulher. Porém a verdade verdadeira é que se tornara em homem de muitos lugares desde que conheceu o muro oposto da casa. O seu aparente comodismo era apenas para não ressuscitar a fera ferida em que Ia se tornara. Kezito criara também gostos ímpares no que se referisse a companhias femininas. Dir-se-ia mesmo, um bom coleccionador de preciosidades. Mulatas, morenas, arménias, nepalesas, xindongas , aztecas entre outras que só ele mesmo conhecia as origens. Altura acima da média feminina e busto não muito arredondado caia melhor no seu engodo. Homossexualidade era para ele uma depravação, por isso mesmo coisa desprezível. Para Kezito, as donzelas “quanto mais novas e difíceis, mais apetecíveis se tornavam”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fruto das viagens ao exterior que o novo serviço lhe proporciona, Jacinto Kakiezo ganhou outros gostos e outras projecções. É na primeira classe dos aviões que frequenta, como taxi para os pobres, onde se acomodam as madres, freiras, ministras, parlamentares e outras senhoras da primeira fila da Res Publica. E como bom aluno de Fernando que foi, Kezito aprendeu a arte de cortejar. O ar de bem-estar que respira, a altura e a barriga algo empinada para frente dão-lhe um charme ímpar que desbarata a resistência de qualquer quarentona. No estrangeiro costuma mesmo gabar-se de ser “dono de uma enorme destilaria de petróleo num país africano ao sul do Sahara”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Num Sábado de Novembro, na discoteca Tamankos, Kezito acompanhado de duas musas de Chitembo encontrou o que dizia ser o pior azar da sua vida. O recinto transbordava de gente que até ar para respirar rareava. Apenas o kaxeketela se podia dançar para o anelo da mizangala que desaprendera os toques do antigamente. Rumba e Kizomba já pouco se dançavam nas pistas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De repente, um ser com cara de homem e gestos femininos encostou-se-lhe ao ouvido em tons de cio. Kezito transitava entre o sono e o despertar. Custava-lhe acreditar no que via e ouvia. Foi então que o ousado lhe fez a proposta:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– O senhor importa-se ser meu pitchu ?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aflito, Kezito retirou-se aos gritos, lançando intempéries de toda a sorte, deixando para trás e às expensas de ninguém, as companheiras de ocasião que lhe prestavam serventia na mesa de sempre daquele lugar. Era para elas um serviço habitual em troca de alguns goles de álcool e gorjetas que alimentam outras bocas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era numa daquelas noites em que saíra de casa de pianinho, portanto sem o seu Nissan Patroll. Servira-se da boleia do amigo Fernando que o apanharia apenas às cinco da manhã para o muzongué da Nova Era. Kezito inflamado de ira nem tempo teve para medir a distância, tão menos o destino. Ao primeiro azul-e-branco que se lhe apareceu não hesitou. Estava decidido, desta vez, em regressar à casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Isso só pode ser pemba da Ia. – Vociferou, prometendo explicações!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vidrado na coabitação com o pecado, encontrou na sua viagem para Viana, mais uma oportunidade de pôr a arma em haste, numa demonstração de cana para toda pescaria. Kakiezo trocaria olhares íntimos com uma “noviça” perdida na algazarra da noite. A jovem, nos seus vinte e tal cacimbos, era excepcionalmente linda e o artista não perdeu a oportunidade para desfiar-lhe o rosário. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– A senhorita pode dizer-me como se chama?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Irmã Ema – respondeu ela inquieta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Se não se importa, gostaria de ser seu amigo e poder mostrar-lhe o que há de bom fora dos véus. _ Atirou em jeito de provocação o galanteador-mor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A religiosa, surpresa, recusou o convite e rapidamente, na primeira paragem efectuada pelo condutor da carrinha, se desfez da incómoda companhia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Kakiezo ainda não se tinha dado conta que o “amigo” da Tamankos o seguia a passos e com uma nova indumentária, até que o cobrador sugeriu ao caçador de beldades que tinha a receita de como levar a freira à caçada. Kakiezo encheu-se de curiosidade e não se coibiu em solicitar a benigna prescrição.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Toda a quarta-feira, à noite, ela vai à capela do cemitério rezar. Como você tem barba e cabelo comprido, é só vestir uma túnica e cobrir um pouco o rosto. Ela vai pensar que é Jesus Cristo... e então ordene que ela transe consigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A táctica parecia boa demais para que o “apreciador de carne fresca” a submetesse a exame racional. Tal qual a recebeu assim a digeriu, não lhe sabendo a amargo. Não era ele uma espécie de cana para toda a pescaria?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na quarta-feira seguinte, lá estava o caçador esperando pela presa. Aparentemente viu Ema nas suas vestes de freira. Transpirou, mas rápido se conteve. Deixou que ela se aprumasse para a habitual romaria. A “mulher” escondia-se em trajes que obrigavam a respeitabilidade de qualquer crente apostólico, excepto o sedento Kezito que não tardou em fazer a sua anunciação à vítima.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Mulher, eu sou Jesus! Ouvi as tuas preces e elas serão logo logo atendidas desde que antes levantes o hábito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A freira corta a respiração, mostra-se atónita, mas por fim concorda, virando-se e pedindo num murmúrio que a use apenas desse lado do canal das saídas pódridas, pois pretende manter o seu voto perpétuo de castidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Meu Senhor, a ordem é Vossa! Eis-me aqui Salvador!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Terminado o acto, o falso Cristo retira a túnica e, a gabar-se de ter ludibriado mais uma de suas prezas, solta uma estrondosa gargalhada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Hahahaha...! eu sou o Kezito, o tal do candongueiro, lembras-te minha freira? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nisso, a suposta religiosa descobre o rosto e responde:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Hahahaha...! meu docinho! E eu sou apenas o simples dançarino de boite e cobrador em horas esquivas. Sou aquela formosa que te pediu namoro na Tamankos e negaste com desdém. Viste que conseguiste com jeitinho?!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até à morte, carregou Kezito este peso na alma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Finalmente, com o sol já a caminho do reencontro com as estrelas, acordou Fernando, concluindo que nessa vida de distracção na rua, muitos voltaram para o bairro e encontraram a casa noutro lugar. A mulher já é do vizinho, os filhos são da rua, as filhas já andam com o colega do pai, a quem tratam por tio, e a casa vendida. Manuel Adão acabou assim. Estar nesta idade obriga a uma fidelidade canina de um "Cão" já sem caninos. É preciso abrir o olho porque a emancipação está a vir com força e espírito de vingança.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3768017225494223045-9084428889531126129?l=atura-liter-atura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://atura-liter-atura.blogspot.com/feeds/9084428889531126129/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://atura-liter-atura.blogspot.com/2009/11/o-farnel-do-kauia.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3768017225494223045/posts/default/9084428889531126129'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3768017225494223045/posts/default/9084428889531126129'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://atura-liter-atura.blogspot.com/2009/11/o-farnel-do-kauia.html' title='Capítulo III: VIDA CAPITAL'/><author><name>"Soberano" Canhanga</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08139246140510431159</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_RGH73KYb7oc/SLKRmnddrjI/AAAAAAAAApA/4e-mjmOAaaY/S220/LCIMG_8216.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3768017225494223045.post-2537299171494478926</id><published>2010-01-12T10:01:00.005Z</published><updated>2010-07-28T15:13:57.310Z</updated><title type='text'>Capítulo IV: O CAMINHO DA GÉNESE</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;António Dambi, também conhecido na sua intimidade por Ti-Chico é o padrinho de Kaúia. Diria mesmo que é o pai de Kaúia já que este perdeu o pai biológico na primeira infância. Nascido na Kibala, Ti-Chico teve a sorte de frequentar a escola do posto onde concluiu com aproveitamento a quarta classe do tempo colonial que fazia dele um homem culto, respeitável e diferente aos olhos do povo da sua aldeia natal. Era a ele que se dirigiam os padres e missionários protestantes em busca de novas ovelhas. Era também à casa dele que se dirigiam aqueles que tinham cartas por ler e outras por escrever. Toda essa experiência era vivida e passada a Kaúia. Ti-Chico via no afilhado a realização do seu sonho de juventude que era o de ter na família um professor que empurrasse os outros meninos para o mundo do conhecimento. Costumava mesmo dizer que, “se tempo lhe sobrasse, aprenderia como se fazia para que a voz dum homem entrasse e saísse da caixinha do rádio Toshiba”. Encantava-lhe com a voz forte dum homem imaginariamente grande, sentando num sofá profundo, de barriga farta e bons ares. Sonhava o mesmo com um dos seus. E Kaúia foi interiorizando estas imagens abstratas de homens bem relacionados e bem posicionados, com carros, casas com muitas luzes e uma lagoa no quintal da casa.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Animado pelas conversas do pai-padrinho, Kaúia questionava-se por que demorava o seu crescimento e por que demoravam tanto terminar os anos lectivos que lhe permitiriam chegar à classe que o levasse à materialização do sonho encomendado pelo pai. Levado, porém, pela morte prematura, Ti-Chico não pôde também ver o afilhado a realizar o sonho. A única coisa que arrancou de Kaúia foi mesmo a promessa de o realizar, custasse o que custasse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, foi assim que uma vez posto em definitivo em Luanda, depois da vida militar, daquele baptismo no grande rio sem margens e dos encontros e desencontros com velhos amigos, Kaúia decidiu reafiar o lápis. Enquanto trabalhava como pedreiro entrou para uma escola do ensino de adultos e concluiu o ensino básico que lhe permitia leccionar para a meninada do bairro. Em parte realizado, o jovem realizava o sonho daquele que foi o seu pai, mas no fundo, no fundo, não se sentia ainda no topo da sua ambição. Havia mais caminho por trilhar. Foi então que, numa noite de inspiração, se lembrou das estórias de homens que falavam para muitos homens, sem estarem próximo deles. Lembrou-se do jornalismo e lá se inscreveu. Aplicou-se a fundo nos estudos e ambicionou ser conhecido, falado e comentado como algumas estrelas cintilantes do país. Pelo caminho ainda tropeçou na política que julgava ser a varinha mágica para atingir o altar, mas rápido se aborreceu. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na altura ele não sabia, mas eram os genes irrequietos que herdara da mãe que faziam com que, de um dissabor avançasse para outro, sem nunca desfalecer. O tempo mostrou-lhe que, apesar da avançada idade, a escola de jornalismo era o sítio certo. No trabalho enfrentou dificuldades e uma-a-uma as foi superando. No exercício do seu novo ofício Kaúia vasculha a cidade em busca de informações como um gato que procura por ratos e estes por comida. Todos fazendo pela vida...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na sua primeira redacção para a página de crónicas do Jornal Boca Livre, Kaúia escreveu: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&amp;gt; As modas são fáceis de pegar e os miúdos dos musseques, cumprindo as orientações paternais e da TV, na qual muita confiança depositavam, já se tinham habituado a deixar o lixo à porta para, ao primeiro sinal de presença do carro ou do tractor, correrem como lebres com os baldes ou os sacos pretos à cabeça. Porém, no bairro do Rangel, há muito que já não se ouve a buzina aguda de um camião de recolha de lixo ou as toscas acelerações de um tractor agrícola adaptado às crateras “periurbanas” para o saneamento doméstico. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao contrário da cadência monótona dos dias, os homens do município primavam pela surpresa. Ora passavam pela manhã, ora à tarde, ora à noite, ora nunca. Depois vieram os dias sim, dias não e semanas nunca. Das semanas passou-se aos meses até que o povo desabituou a esperar por eles.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As portas inundadas de lixo põem agora vergonha aos visitantes de longe e os resíduos ganharam pernas arrastando-se mesmo até à rua. Estão agora na berma, junto ao lancil, e disputam espaços nos passeios e no asfalto já carcomido pela água sem esgotos. Os “Hiaces”, sempre apressados, na vida das travessuras dos seus ocupantes, também ajudam a transformar as estradas em imensos lagos de podridão. Homens, ratos e vermes paridos por insectos diversos disputam soberanias, enquanto a solução vive ainda engavetada nos gabinetes. Tarda libertar-se das garras da burocracia, até lhe ser decretada uma “lei prioritária”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os homens que se apresentam na faxina trazem coletes reflectores, fardas multi-cores e cones ensanguentados. Empunham vassouras e mostram-se pouco motivados, carregando por dentro carências várias. Parecem sôfregos, sedentos, mal nutridos e andrajosos até, com calcanhares tostados ao sol. As ruas são poeirentas e a cidade está quase sem nome. Nela poucos encontram as condições duma capital. Abunda a vergonha entre os munícipes e ninguém ousa em pronunciar o nome da urbe. Apenas à noite, se olha para o céu, claro ou escuro, e aí se descobre, na presença ou ausência do astro-príncipe, o nome da cidade. Nome pronunciado com todas as letras apenas tem a empresa a que pertence o tractor MAHINDRA com o atrelado rebentando de lixo e ausência de zelo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O passa-passa dos homens pelas ruas dá continuidade à fétida e sempre pódrida Avenida onde se aglomera aquela brigada de varredores sem missão de higienizar. O avolumar dos sacos pretos se assemelha a entulho de defuntos no fim duma grande revolta da mãe natureza e a circulação que já não era paradisíaca transforma-se num inferno terreno para os pagadores da taxa rodoviária. Entretanto, o tractor passa e repassa hora e hora sem parar, com os homens nele pendurados a fingirem-se de cegos perante os montes fedorentos que já disputam os Alpes em altitude. Pior ainda, vão deixando cair outros restos trazidos de cadiengues caseiros: esferovites, papelões, vários entulhos e restos de betão inutilizado e inutilizável. Das letras que restavam na memória das crianças, apenas se podia descortinar a palavra Solamber que era o nome da empresa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Semana após semana mais sacos, mais papelões e mais restos de carros vergastados pelo tempo são depositados ali e na rua Sardão Mariano, ao bairro do Soares. Espera-se pelos homens das pás e pelos camiões de caixas sanitárias, mas o único roncar que se faz presente é duma Hilux de dupla cabina, climatizada e com dois cipaios de luvas sujas. Estes atiram os possíveis sacos, aqueles bem tratados, para dentro da carrinha e seguem o seu caminho. O resto repousará aí mais uns dias, senão mesmo semanas, até que as larvas "fecundem" ratos e estes venham a "comer" os gatos. O povo contempla agastado, regista e comenta: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– É tudo jóia, desde que não nos comam a nós. – Dizia Francisco Kitembo, dando ares filosofais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Devem ser da fiscalização. – Responde Carlitos de Catete, tentando dar lógica à amostra da ostentação habitual dos funcionários que velam pela ordem urbana. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Mas onde estará o grosso da equipa? - Interrogam-se os demais vizinhos e transeuntes. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Alguém viu a etiqueta dos que passaram por aqui? – Voltou a questionar Kitembo, já meio aborrecido devido ao cheiro nauseabundo daquela lixeira a céu aberto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ninguém o respondeu, pois ninguém prestou atenção. Apenas o Lunetas, um zungueiro benguelense que embora distante da carrinha ainda pôde soletrar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Manos, parece que é Ki-xi-ar-ras-quem. Essa empresa é bué. Viram? Lixo no carro de luxo não é para quem quer é para quem pode – Ironizou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– E o que ficou quem o leva? – Perguntaram-se outra vez, mesmo sabendo que apenas o vento se encarregaria pelas palavras. A sorte estava traçada. Sabiam que a espera pela recolha do descartado seria longa, por isso aguardaram sentados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas Kaúia não pára a sua ronda pelos subúrbios. Entendeu passar pelo mercado ambulante das Perninhas, na rua do escravo Lino e notou que o dia era de disputas renhidas. De um lado homens e mulheres famintos e do outro agentes da ordem. O filme parecia-se a um que assistira na TV entre gatos fartos que fingem correr com os ratos, quando afinal se abastecem destes. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao raiar do sol aparecem primeiro os verdinhos empurrando barrigas insufladas pelo consumo excessivo de cerveja. Estes tentam sensibilizar que o local não é para nguendas , por isso daí seriam todos retirados. De seguida mandam um emissário, o Zé Pequeno, recolher gorjetas que os vendedeiros trocam por uma paz precária, pois precisam de comprar, vender e fazer as suas vidas. Precisam comer e alimentar as suas famílias. Mas surgem depois os polícias, aos pares e cassetetes. O César fazia parelha com a Ximinha e o André com Marieta. As moças tinham conseguido entrar para a corporação graças a um cadiengue com o comandante. Os homens, já na casa dos quarenta e barba rija tinham sido recrutas de Bartajú no distante Calulo, antes ainda dos acontecimentos sangrentos que marcaram aquela urbe interior. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aos pares, gato e gata, montaram postos ou posições. Seguiu-se o agitar dos porretes e o povo correr sem nexo nem destino. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Micates, cuecas de fio dental, peixe frito e quissângua, tudo é deitado abaixo quando as circunstâncias não permitem baixar e guardar alguns abandonados na algibeira do camuflado azul. O filme gira vezeiro com bassulas, roubos, atropelamentos e cobranças indevidas. É assim durante o dia. Paga-se e maltrata-se. Até que cansados, os polícias, também conhecidos por “azulinhos” e os “verdinhos” da administração, se retiram para uma tasca ou taberna escondida para sorvem líquidos relaxantes pagos com os valores extorquidos das zungueiras. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na algazarra, o sargento Samanjata chegou mesmo a agredir a sogra, Joana Xiquita, que vendia quissângua à porta da escola de condução Kudibanguela, custando-lhe uma tremenda reprimenda por parte dos cunhados que não consentiram a ousadia do marido da irmã agredir a mãe, fosse o que fosse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Reposta a energia, o porrete volta a falar a sua língua predileta. Os aflitos obedecem correndo, deixando para trás o que restou dos seus pertences. Muitos estão ainda atrás do jantar para os filhos já desprovidos do mata-bicho, por isso voltam a reunir-se no mesmo local, com as suas imbambas. Novamente à volta dos gatinhos, também eles desinteressados no filme até que de repente, desponta um homem gordo, de casaco preto, se calhar conseguido numa zunga ou numa cobarde rusga, transportado num Prado cor de cinza, conseguido de graça. O homem exibe ares de chefia e pergunta autoritário aos dois subordinados azulados:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Estão a dar rebuçados?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Não chefe Bartajú! – Respondeu o César Kaúia que se achava mais atrevido e menos constrangido à pergunta do chefe trajado à paisana.– E então? – Voltou a questionar o homem, exibindo uma grossa corrente de ouro no pulso direito e dentes amarfinados .&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Chefe, de cada vez que enxotamos, parece que estão a vir mais outras. – Era, desta vez, a resposta da sargento Ximinha, dada entre um sorriso rasgado ao oficial. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fingindo não ouvir a resposta, Bartajú acenou ao chauffeur para seguir a marcha em velocidade lenta e foi vendo a cena coçando a barbicha algodoada por muitas ordens acolhidas pelo vento. Pelo retrovisor, Bartajú assiste à luta entre os seus e o povo, que também já foi seu, carente de espaço para comercializar. O filme é novamente rodado e os actores se revezam. Uns forçados pelo cumprimento dos turnos e outros, os vendedeiros, pela perda ou ganho do dia. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois das corridas do dia-a-dia, o relógio aponta dezanove e cinquenta e nove e é já noite escura, quando na Emissora Nacional toca o ti-rim-rim, rim-rim-rim-rim! Segundos depois é o pioc-pioc-pioc e Carlos Vasculhães vai pegar o comunicado superior e começar com as kuribotas do dia. O povo está atento porque já foi avisado pelo Boca Livre sobre quem entra e quem sai da nguvulação . Desta vez querem “gente que sabe trabalhar”. Gente que vive nos bairros e que sabe como é dormir na mesma cama com o mosquito, com a lama, com o esgoto rebentado, com o rato do lixo não recolhido, com a barata da fossa entupida e a sofrer com a constipação provocada pela poeira da obra suspensa... – Esses sim, merecem a nossa comemoração. – Gritam efusivos os ouvintes, antes mesmo do “boa noite Angola, edita o jornal o Diabo Tramado”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em todo o musseque e na zona chique o povo está atento ao noticiário enquanto outros estão daí desligados por estarem conectados à internet café do português magalhães recuperado de uma escola qualquer do Putu... E a lista começa: _ Sua excelência o presidente Baltazar, comandante em chefe e chefe de Estado, usando da faculdade que lhe é conferida nos termos da Alínea X do artigo Y da lei const... e o locutor perdeu-se na contextualização da jurisprudência perante a impaciência da Tia Zefa e clientela da barraca de comes e bebes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Pôças! Mas sempre a mesma turma do Salvador Correia? Já não há mais quem tenha estudado aqui no Emídio Navarro ou no Karl Marx-Makarenko?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o radialista não liga à crítica, até porque não os ouve e ainda que os ouvisse continuaria com a sua missão. Mantém-se atento à ordem do papel e atira: _ Dr. Nza Kutimbe nomeado para o cargo de administrador do Corta-Mato... No cabrité vizinho batem-se palmas e entornam-se goles de Primus pela sorte do conterrâneo e a possibilidade de mais umas facilidades na aquisição de terrenos. Na barraca da tia Zefa soltam-se muxoxos e dores de cotovelo por estarem goradas as espectativas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Mas esse então onde mora e o quê que faz? Sempre a se puxarem, sacanas de merda! - rabujou a senhora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O rádio vomita outros nomes e o povo reage quase de forma combinada. Estalidos bocais e assombros nuns, palmas e assobios noutros locais. ... _ Engenheiro Francisco Mala Grande para administrador do Camartelo... Para Via-Norte foi nomeado o camarada Kanga Massa... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já tonto de nomes desconhecidos, os convivas acompnaham a dona Josefa num malicioso desabafo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Sempre os mesmos. Cipaios de anteontem, ximbas de ontem e fiscais de hoje. Nada mais sabem fazer do que andar atrás das nossas mamãs nos mercados do Tira Cuecas e Bota Larga, quando os empregos que surgem, mesmo nas obras, são sempre para os filhos e afilhados deles, passando-se o mesmo em relação às bancadas das praças do povo que são distribuídas às amantes dos governantes e outras rabugentas... A idosa teve mesmo de puxar coragem para não soltar a lágrima que lhe cercava o canto esquerdo do olho direito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Tia Zefa, dá-me então a última Soba Catumbela que vou festejar a desgraça do lixo que está sempre a subir! – Desabafou Maria Mulata, uma bêbada assumida com créditos firmados em barracas e maratonas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A festa continuou para mais e muitos dias. Crateras, cabrités e mercados informais brotavam tambémm dias sempre e com eles novos musseques, novas picadas e novos charcos. Cada vez mais convivas se juntavam à festa, vindos de distâncias incontáveis e exibindo cartazes com discursos puritanas que a prática diária dos próprios anunciantes condenava ao fracasso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Kaúia termina a sua composição, não sabendo ainda qual seria o parecer do conselho de redacção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É que o uso do português, segundo a receita encontrada na gramática de José Maria Relvas, está difícil, mesmo para jornalistas com já&amp;nbsp;muita tarimba. E esperou, ansioso no sofá da sala de visitas, até que o vigilante Man-Xaxo que fora transferido pela Njovoli para aquela empresa jornalística o convidou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Sr. Kaúia, o chefe ainda está te chamar. Parece que você vai ficar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_Sério? – Questionou, num misto de alegria e desconfiança.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Sim senhor jornalista. Ouvi lá dentro. Discutiram muito. O director Kitembo a dizer que vale a pena, o Dr. Adão a negar… Mas a Menina que fica alí na frente do director (apontava o lugar da secretária de redação) foi chamada a votar e desempatou…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Kaúia levantou-se, endireitando a gola da camisa para esconder a sujidade provocada pelo suor e apresentou-se ao director Francisco Kitembo que o recebeu com um abraço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Estás entre os nossos. Lemos a tua prosa e o teu esforço nos convenceu. Tens três meses de estágio remunerado, mas já podes assinar. Sentenciou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3768017225494223045-2537299171494478926?l=atura-liter-atura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://atura-liter-atura.blogspot.com/feeds/2537299171494478926/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://atura-liter-atura.blogspot.com/2009/04/reencontro.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3768017225494223045/posts/default/2537299171494478926'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3768017225494223045/posts/default/2537299171494478926'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://atura-liter-atura.blogspot.com/2009/04/reencontro.html' title='Capítulo IV: O CAMINHO DA GÉNESE'/><author><name>"Soberano" Canhanga</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08139246140510431159</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_RGH73KYb7oc/SLKRmnddrjI/AAAAAAAAApA/4e-mjmOAaaY/S220/LCIMG_8216.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry></feed>
