quarta-feira, 1 de setembro de 2021

A MULHER QUE PERCEBIA AS FORMIGAS

Caminhava exausta pela savana. Era tempo chuvoso e capim alto a mostrar apenas as cabeças de pessoas altas. O sol, bom para alegrar a vida e as sementes a querer ser vida, brilhava no alto dos céus de meio-dia, fazendo-a caloriar[1] como se tivesse atravessado um dos imensos rios a nado.

Perto de uma pequena floresta onde pacaças e alguns elefantes buscavam sombra encontrou um animal inanimado, mas ainda com sinais vitais. Aproximou-se corajosa, sem espingarda, nem catana, e verificou que a pacaça tinha sido atacada por um crocodilo.

- Há carne para conduto, há "mahaki"[2], há pele para alparcata, há chifres para soprar e levar mensagem distante. Haverá festa nas aldeias todas. - Disse a formiga sortuda.

Com auxílio de um pau e uma pedra, desmontou um dos chifres do animal e fez uma corneta. Ganhou mais força ainda. O cansaço que trazia tinha sido literalmente anulado pelo achado. Era só a festa que lhe corria no sangue.

Subiu ao topo de uma kamunda[3] que se achava no centro de cinco aldeias e gritou com toda a força que permitia o seu diafragma:

- Vocês aí, nessa aldeia onde se põe o sol, tragam baldes, facas e homens fortes. Temos pacaça.

Virou-se à nascente:

- Mwa mama, lyatata. Tokano. Ambatano l'ombya phala masaki ly langinga. Utana ly laphoko mwaxyale![4]

Ao norte e sul fez mesmos apelos e, num correr de pouco tempo, a floresta encheu-se de homens e mulheres corajosos, cheios de vigor e vontade de uma rica funjada de miudezas regada com maluvu[5].

As mulheres acondicionaram o sangue, o fígado, o coração, os rins, pâncreas e pulmões em panelas. Com a água trazida nas cabaças as jovens raparigas lavaram as tripas e os intestinos para a confecção de jinginga[6].

Os jovens, rápido acenderam uma fogueira para os assados de primeira hora, enquanto os makota[7] planificavam e repartição do animal pelas cinco aldeias. Depois seria a gestão de cada soba, dividindo a parte a receber por cada lar da sua comunidade.

Essa cena já leva milênios. Porém, até hoje, quando a mulher se senta de baixo da árvore do seu terreiro, a catar os piolhos na cabeça da neta, vem-lhe à memória o grito, daquela formiga que achou no meio do capim uma mosca e chamou todos os seus semelhantes das aldeias à volta para carregarem e repartirem a carne do grande animal que era a mosca.

 



[1] Transpirar.

[2] Sangue para sarrabulho ou para colorir a jinginga (Kimbundu).

[3] Monte, elevação ou pequena montanha (Umbundu).

[4] Mulheres e homens, venham. Tragam panelas para o sangue e as miudezas. Não esqueçam de trazer catanas e facas Kimbundu).

[5] Vinho de palma ou seiva de palmeira (Kimbundu).

[6] Miudezas: tecidos do tubo digestivo, fígado e outros órgãos internos (Kimbundu).

[7] Os mais velhos (Kimbundu).

quarta-feira, 4 de agosto de 2021

VATATE WANDA KO KACIPEMBE

Corriam os anos sessenta do século XX. A chuva tinha caído bastante naquele ano distante. Os rios ainda escoavam em abundância. As florestas alegres de verde, embora o capim começasse a vergar as flores para baixo, dando lugar à festa das codornas entre o areal esparso dos caminhos afunilados. Anunciava-se o kasimbu, reortografado pelos lusos por cacimbo. Às mães estava confiada com a colheita do último milho e a preparação de novas terras para a época vindoura. Era tempo de olhar para o cipembe¹ que reentra na lavoura.


Para os pais, eram tempos difíceis. Estavam divididos entre a participação na luta armada pela independência, que deles ordenava entrega afóbica, e o recrutamento coercivo para as milícias africanas do regime colonial. Muitos corações estavam divididos, assim com os lares e as famílias que podiam ter um tropa tuga e um irmão kambuta². Porém, aos infantes a vida corria bem, divididos entre a escola, as férias, a pesca miúda, as caçadas, as armadilhas aos pássaros e as brincadeiras. Fora da escola, com professores rígidos no ensino do â-mbê-cê-ndê, as férias grandes era o melhor que as crianças viviam de suas vidas inocentes e imaculadas.


Nos parcos momentos de inactividade militar, os pais de Kambweyo dividiam-se entre a lavra, a pastorícia e a nembele³. Uns abraçavam-se às vihamba⁴ e outros à arte de kukendja⁵.

Os jovens, cuidadores da aldeia e os intelectuais saídos para o trabalho nas vilas e cidade, aproveitavam o sábado para exorcizar a dureza do trabalho o contragosto que era combater ao lado do combatido e pôr a politica em dia. Era dia da Voz de Angola⁶.

 

No momento em que a aldeia de Kambweyo se mostrava vazia, Borges, um DGS, barba aparada, óculos escuros em tarde cinzenta, fez-se à Aldeia, interceptando Arlindo e Agostinho, meninos a contar 3 e 6 anos que brincavam à corrida de jante.

- Então, estão bem?

- Sim, chefe.

- Aonde foi vosso pai.

- Papai wanda ko kacipembe7.


Borges, um DGS/PIDE com já muitos anos de Angola, conhecia os códigos, as expressões mais frequentes e os lugares.

Era um tempo em que a metrópole concorria para o lugar cimeiro de maior produtor vinícola da Europa. Os destilados locais que haviam sido remetidos à preciosidade da clandestinidade estavam "terminantemente proibidos" e caçados os seus fabricantes e utilizadores.


Nas aldeias do Vye, os jovens de então os haviam rebaptizado de kacipembe. Nome que soava cipembe8 aos ouvidos de caçadores de desgraça alheia.


Borges, confuso, sacou dois rebuçados da sua sacola e voltou a aproximar-se dos dois primos que empunhavam cada um deles uma jante de bicicleta com que ensaiavam corridas de uma ponta a outra de Kambweyo.

- Ó meninos, venham cá. Tenho rebuçados para vocês.

Enfiou a mão ao porta-luvas e de lá retirou a sacola na qual guardava as guloseimas. Escolheu duas unidades e emendou:

- Se quiserem amêndoas também é só dizerem. - Adoçou.



Agostinho, o mais velho, dois anos à frente e Arlindo com cinco anos, aproximaram-se desconfiados. Filhos de irmãos assimilados, falavam português, mas estavam treinados: com branco, mesmo amigo dos papás, resposta é só em Umbundu.

- Então, digam lá outra vez. Vocês são irmãos de mesmo pai e mesma mãe.

- Hum-hum. - Abanaram as cabeças em jeito de negação.

- Então aonde foram vossos papás e os amigos de vossos papás. - Indagou o agente Borges, conhecido na aldeia, por causa da sua Land Rover branca com carroça coberta de lona que já levara para castigos na cidade jovens e adultos daquela aldeia.

- Vatete vanda ko kacipembe9. - Voltaram a responder os petizes.


Confundindo kacipembe e cipembe, Borges meteu-se, sem caça, a caminho da cidade. Os meninos e os jovens de Kambweyo tinham ganho o dia, enquanto o agende da PIDE/DGS registava mais um fracasso nas suas tentativas de prender e molestar os utilizadores de destilados locais.


=

¹- Terreno agrícola em sistema de repouso (Umbundu).

²-Guerrilheiro do MPLA

³- Igreja (Umbundu).

⁴-Adereços mágicos, mixórdias (Umbundu).

⁵- Destilar (Umbundu)

⁶- Programa radiofônico do MPLA emitido a partir de Dolisie, República Popular do Congo.

⁷- Bebida destilada à base de milho, cana e outros produtos).

8- Terreno agrícola em sistema de repouso (Umbundu).

9- Os papás foram beber kaporroto/kacipembe.

=

Adaptado de uma estória contada por Agostinho Lopes.

domingo, 4 de julho de 2021

NÂMBUA, AVÓ TETÉ E O IFA VERDE

Havia nebulosidade no ar. Aliás, dois tipos de nevoeiro: a tentativa de condensação do de partículas de água suspensas no ar e a nuvem preta levantada pelos ngulu[1] que grunhiam nas matas e nas aldeias, a poeira levantada pelas pessoas andrajosas e irreconhecíveis à chegada e a poeira levantada pelos Nâmbua[2] e IFA's que se atreviam naquele troço que nos conduz ou nos traz de Muxi-a-lwandu[3].

Avó Treza, oitenta e tal anos nas costas, embora contorcendo-se com dores da idade, estava determinada em ir a Caxito, sede provincial, fazer o seu "estou viva"[4] junto do banco das enchentes e dos antigos combatentes. Tinha sido pioneira em Kaji Mazumbu[5], onde se alistou adolescente e ficou até ao tunda mindele[6].

O dia, como dizia, era friorento e tristonho, mas avó Teté, como também é chamada, meteu-se mesmo assim a caminho. Meteu-se num Nâmbwa, da sua aldeia de Kingimbi até à vila de Muxya[7], 50 quilômetros mais ou menos, para apanhar a guia da delegação municipal dos antigos guerrilheiros. Do Muxya a Caxito, outros cento e tal quilômetros, encimando a carroça do IFA carregado de sacos de macroeira[8] e longos cachos de banana.

Era verde, a perder cor, as pessoas às vezes não sabiam ao certo se diziam cor branca esfregada em capim verde dos atalhos ou verde acastanhado da poeira do asfalto ausente. O IFA 50, nos tempos da guerra tratado amável e diferencialmente por IFA industrial, tirando algumas “madres” já cansadas, carros abatidos pela polícia e forças armadas, raros aventureiros que entregavam à destruição suas máquinas novinhas saídas de cidades distantes e os famosos Nambwa, era único, dia sim, semana também, naquela estrada recortada entre um asfalto esburacado e uma picada a reclamar de garganta seca por um pouquinho de asfaltite, qual rico a Lázaro. Para avó Teté o IFA que a levou era verde-cremoso.


Por causa dos saltos e da velocidade de camaleão, a idosa chegou aborrecida, embora nunca tenha escondido a sua simpatia, os caninos e incisivos que ainda desfilavam na boca e o seu verbo refinado quando fosse para comunicar as suas ideias, suas experiências e seu sofrimento nas matas do Kaji Mazumbu.

Caxito, a capital do Bengo, é, aos olhos dela, "vila pequena com rua e meia, sendo a vertical longa para pedestres, esticando-se da açucareira ao açude, e uma transversal que uma criança de cinco anos corre em minuto e meio". Avó Teté passou pela delegação dos antigos guerrilheiros onde renovou a foto. Era já conhecida. Alguns "meninos" que lá trabalhavam eram filhos ou netos de antigos companheiros de avó Teté, por isso não encontrava demora e nem era exposta à fila.

No banco da rede azul, avó Teté chegou aprumada. Trocou o pano sobre o ombro, endireitou o lenço, ajeitou e limpou as sandálias de cabedal e fez-se à fila dos mais velhos.

- Bom dia camaradas. Espero que estejais bem. - Saudou sorridente.

Os presentes retribuíram a vênia com alguns comentários dóceis. Um dos que se encontravam na fila, reconheceu-a pela doçura e expressividade da voz, quase locutora se fosse ao Voz de Angola, no Congo de Ngouabi.

- Camarada Teresa, bom dia. Quando saiu de Nambuangongo? Eu sou o sargente Cardoso do Mazumbu, o segundo logístico da primeira leva. Lembra-se?

- Que belo reencontro, meu camarada. Tenho muito gosto em vê-lo vivo e saudável.

Aproximaram-se e beijaram-se. Dois beijos com as distâncias bem medidas.

- Como vai a sua família? Mulher, filhos, netos e bisnetos, quantos? - Provocou a camarada Teté.

- Pois é, camarada guerrilheira, os filhos estão aí, a caminho também da velhice. Os netos na busca do emprego que não há. Os bisnetos a crescer. Acho que, juntando-os todos, já dava para um destacamento.

Sorriram durante alguns instantes. Se não fosse a educação e o pudor, teriam mesmo mostrado os mabwim[9].

- Tornei-me viúva. Os filhos andam entre o Nâmbwa e Luanda. Os netos idem. A tua estória, as tuas lutas, a esperança que tivemos nas matas bombardeadas com napalm, as frutas que disputávamos aos símios, a contribuição à edificação da nação, as incompreensões pós-independência, o descaso a que se votou as aldeias revolucionárias do Nâmbwa e a desilusão é tudo. É tudo similar, camarada Cardoso.

- É sim, camarada Teté. Aprendemos que a luta era para o benefício futuro. Um país sem exploradores, igualitário, com escolas, hospitais e oportunidades ... - Recordou Cardoso.

- Sim camarada! A nossa luta é até ao fim. Até à ultima gota é esperança.

E foram conversando, recordando, com passagens pitorescas pelo meio, assim como o cronista repleta o estômago da sua prosa. Chegou a vez da avó Teté que se encontrava na fila feminina das "pessoas de idade" como os jovens tratavam os idosos daqueles tempos da terceira República. A agência estava cheia, porém alegre. A avó Teté com o seu refinado linguajar era, efectivamente, uma rosa naquela floresta humana.

- Seu nome, avó? - Perguntou a funcionaria bancária.

- Chamo-me Teresa.

- Sua idade, avó?

- Conforme o Bilhete de Identidade. - Respondeu a octogenária, num "bom português', ao mesmo tempo que esticava a mão que continha o documento.

A jovem conferiu, o nome, a filiação, o local e data de nascimento e a altura. Porém, esqueceu-se de ver a assinatura.

No fim do preenchimento da ficha, sacou da almofada com tinta e procurou explicar que dedo a idosa mergulharia no tinteiro.

- Avó esse dedo, aqui, o indicador, é que vai meter assim, e estampar assim?

- O quê? - Questionou meio revoltada a idosa.

- Sim, avó é para assinar.

- Não, não minha netinha. Estudei e ensinei alunos no tempo da ardósia. Dá-me cá uma caneta que eu assino.

Um idoso que se achava ao lado, já com sua conta actualizada, rápido se prestou em esticar a caneta que a avó Teté segurou com toda a delicadeza, como se fosse desenhar uma flor novembrina e, com sua caligrafia de pôr inveja a doutoras de seis pancadas, assinou legivelmente o seu nome.

Teresa Miranda Lopes.

Estupefacta, a rapariga, vinte e tal anos, quase se ajoelhou em súplicas e pedidos de perdão.

- Ngiloloke kuku. Ngakudyondo[10].

Velha Treza, crente metodista confessa e convicta, pôs-lhe a mão sobre a cabeça e desatou:

- Fica com a minha bênção netinha. Não fizeste nada de mau.

 



[1] Porco (do Kimbundu).

[2] Triciclo motorizado com carroça para transporte de bens. Em algumas regiões de Angola transporta pessoas e bens,

[3] Do original muxi=árvore; lwandu=esteira: árvore onde se confeccionam esteiras.

[4] Prova de vida. Acto anual para que idosos continuem a beneficiar da pensão.

[5] “Primeira” base de guerrilheiros do Movimento Popular de Libertação de Angola na região de Nambuangongo. Alguns idosos da região atestam ter sido criado entre 1962 a 63.

[6] Alusão à saída dos colonos brancos; independência.

[7] Corruptela de Muxaluando, sede municipal de Nambuangongo, município do Bengo.

[8] Mandioca demolhada e posteriormente seca. Serve para a feitura de fuba ou farinha de bombô.

[9] Espaço sem dente. Desdentado.

[10] Perdoe-me avó. Peço-lhe perdão (do Kimbundu).

quinta-feira, 24 de junho de 2021

IMBWA YAKAMBE NGANA[1]

Já fiz óbito e enterro digno de um cão. Eu era criança ainda no final dos anos setenta do século passado.

Dias sim, semanas sempre, Dona Maria, amável mulher do sô António, vinha pôr conversa, durante toda a vida do Atenção, tentando estorvar que o canídeo tivesse vida humana.

- Mas ó minino, num faz isso. Comer com o cão ou lhe dar cuspo para te gostar não é coisa de gente, não. É coisa de bicho que se iguala ao cão. - Atirava ao ver-nos amistosamente envolvidos com o Atenção ou mais tarde com o Tigre, cão que o nosso pai dizia "é cão saído da Baia com o mesmo nome que fica no deserto do Namibe".

- Pode me chamar "sô meu cão-de-merda", mamã. O Atenção é nosso amigo. Coelho que caça, põe saliva dele na ferida e a mamã come também. Então, mamã, já viu nê? – Respondeu Phande-a- Umba argucioso.

- Já viu o quê?

- Cuspo de cão Atenção não é veneno. Veneno é só daqueles cães-vadios que não tomam banho, nem comem no prato como o Atenção que é nosso amigo. - Retorquiu resmungão Phande a Umba, redobrando as carícias ao canídeo.

- Ai ê? continua mesmo respondão, sô mô bicho. Ó Sô António, estás a ouvir o teu filho, nê? Depois não me venham cá com kikonya[2] ou outras complicações. Cão que põe boca na porcaria é que você lhe lambe os beiços, assim mesmo está bom? Fala ainda pra tô pai ouvir. Assim está bom, sô mo cão. - Dona Maria levantava o tom de voz para despertar a atenção do marido que concertava as alparcatas para meter-se no mato para mais uma visita às suas armadilhas. 

A conversa com pícaros desafiadores e argumentos contraditórios levava tempo. Aliás, era conversa de todos os dias da vida daquele cão. Sô António atento ao que se discutia e sendo ele também bastante afetuoso para com o Atenção, preferiu pôr fim à contenda, chamando pelo filho.

- Phande!

-Papá.

- Vem cá. Aprende a ser homem e deixa de discuti com a tua mãe. - Ordenou Sô António ao filho.

- Papá não fiz nada de mau. É mesmo a mamã que stá a se metê comigo e com o Atenção. – Phande procurou defender-se antevendo uma reprimenda.

- Põe corrente no Atenção. Procura salamba[3], calça quedes e vamos. Larga-lhe apenas quando transpusermos a aldeia para não se entreter com as cadelas vadias do sô Jacinto - Recomendou em voz firme.

- Está bem papá.

Foi momento de júbilo para Phande que rápido se equipou, metendo-se a cantarolar. Cesto às costas, catana na mão direita e Atenção puxado pela esquerda, seguiu atento ao que o pai foi explicando, enquanto Atenção começava a farejar os odores deixados, madrugada recente, pelas pacas, coelhos e ngulu ya muxitu[4].

O dia era ainda criança. Sol não havia. Apenas uma bola que podia ser amarela e quente ou ofuscada pelas nuvens que viajavam na boleia do vento. Dona Maria estava dividida também. Metade de atenção à panela que cozia a batata do mata-bicho e outra metade na Júlia que chorava.

- Ainda bem que o Sô António chamou o chato do Phande e o seu Atenção. Ao menos, com o pai, aprende a ser pessoa. – Disse para si mesma.

O ano dessas conversas perdeu-se na memória. Sei que nem eu, nem o Phande andávamos ainda na escola. A contagem das coisas que sabíamos era só mesmo moxi, yadi, tatu, wana[5]. Estávamos ainda em Kitumbulu, fazenda do Sô Fernando, pai do nosso pai.

Atenção era um pastor alemão, exímio caçador. Um alemão agropecuário na região, entre os potentados de Kuteka e Thumba, ofertara o canídeo ao meu progenitor.

Atenção ia sozinho à caça e arrastava o animal até à casa. Quando não pudesse fazê-lo, parava e ladrava até que Sô António fosse ajudá-lo.

Certo dia, Atenção foi à caça e cruzou com uma onça. Atenção lutou valentemente. Voltou muito maltratado e dos ferimentos não resistiu. Fizemos-lhe um thambi[6] "de pessoa". Foi a minha primeira experiência.
Depois o Sô António, comprou o Tigre. Era preto, pelos lisos. Chamávamos-lhe "cão mulato". O Tigre também caçava quando integrando caravana humana. Não era caçador independente como o Atenção, mas era melhor do que outros cães vadios da aldeia que só sabiam comer.

Quando o Tigre morreu, de velhice ou doença já não me lembro, eu contava uns seis anos e participei mais activamente no seu enterro. Não teve urna como o Atenção, mas foi envolto em cobertor e lançado em uma cova com um metro de profundidade. Phande e eu ficamos em grande comoção e nesse dia ninguém comeu.

Essas estórias repudiam o tratamento indigno que se vem assistindo aos que ainda são conhecidos como "melhores amigos do homem", lugar que vão, nas cidades, perdendo para o telemóvel.

Cães abandonados, aparentemente sem dono, alimentando-se no lixo, sofrendo pedradas de "meninos também sem família". Quando enfermos ou mortos por doença ou atropelamento, apodrecem nas estradas até à decomposição total.

Certa vez, uma avó, já tão farta de ver tanto cão morto nas estradas, gritou com toda a força que lhe restava no corpo.

- Quem não consegue cuidar cão que não compre/receba, mesmo que seja de oferta! 

Acho que a vovó tinha razão. Quem decidir ter cão que faça como Sô António e seus dois filhos. Eles não deixavam o Atenção e o Tigre comer alimento cru e quase se faziam à mesa com os donos. 

Dona Maria, hoje já velha, ainda se recorda e conta para os netinhos que “o Tigre e o Atenção foram cães com direitos humanos” porque, não podendo sentar-se à mesa com os donos, comiam à mesma hora que eles!




[1] Cão sem dono

[2] Doença respiratório (do Kimbundu)

[3] Cesto feito de junco ou fibra de palmeira para transporte de animais de pequeno porte ou carne limpa, depois de uma actividade de caça (do Kimbundu).

[4] Porco do mato, javali (do Kimbundu)

[5] Um, dois, três, quatro (do Kimbundu)

[6] Óbito (do Kimbundu)

sábado, 1 de maio de 2021

FUBADA COM CODORNA AO FERIADO

 Mangodinho, na vida dele de homem com careca no lugar de cabelo branco, lugar de peixe é no rio, assim como o do javali é na mata. Na adolescência tentou criar um macaco na jaula e perdiz na capoeira. O tiro saiu-lhe pela culatra. O macaco fugiu na primeira oportunidade em que viu floresta e sem cinto à cintura. Até a perdiz que já aprendia a cacarejar com as galinhas, meteu-se no mato e jamais voltou ao convívio doméstico.

Sempre que pode, viaja pelas malambas e traz aos seus ouvintes os lugares, os bichos e as pedaladas da vida.
- Kandenges, isso é assim. Dias você avança outros se atrasa ou recua. Mas, cada cabelo branco na cabeça, cada cicatriz no corpo, cada

ruga na testa é uma viagem no tempo. - Costuma dizer.
Em mais uma viagem a Ngimbi, Mangodinho foi visitar o amigo Kito Kahala. A amizade deles só faltou mesmo cruzar sangue para se chamarem cunhados ou tio e sobrinho. Se vivessem os dois no interior, fosse Wambu Kalunga ou Mbangu-de-Kuteka, se teriam mesmo oferecido sobrinha ou prima.
Ao puxar a corda que mandara ao poço das lembranças, Mangodinho repescou uma ocorrência antiga dum tempo, que se lembra, era ainda kitutu. Os rapazes à sua volta falavam sobre pássaros. E o kota "contador de cenas" como lhe chamam, lemnbrou-se de um tempo que já voou quando apresentou à mãe a primeira codorniz.
- Mãe, apanhei rola.
- Rola? Parabéns! Mostra ainda. Caçaste com fisga ou caiu na armadilha?
- Lhe apanhei mesmo na corda. Está a ver aquele caminho que deixamos de usar por causa do capim que cresceu muito, nê. Elas ficam aí, tipo estão a banhar com areia e fazem uns kaburacos tipo é para meter lá ovos.
- Mas como é que fizeste então para apanhar rola que vive nos paus?
- Essa vive mesmo no capim. Sempre que vamos brincar elas não voam. Andam bem rápido e se escondem nos funduros, ali onde o capim é alto e com picos ou fogem para os espinhos.
Peguei a avezita, ainda por depenar, e levei à mãe que acondicionava mais lenhas nas maswikas que abraçavam a panela de kizaka.
- Oh, esse é dikombe não é rola. Dikombe vive na mata e faz ninho no chão. Rola é aquela que fica parece pomba, que faz ninho no pau e só desce para comer. Voa rápido e cabeça dele é tipo pessoa com ngimbu.
Mangodinho, conta, abanou a cabeça, em sinal de aprovação da aula de biologia, pousou as armadilhas e foi depenar a avezita, enquanto a mãe fabricava planos sobre o que levaria à mesa. O peixe seco, meia cura, quase a amarelar, seria postergado para próxima funjada.
Pegou alho, jindungu e sal. Fez uma pasta no pequeno almofariz. Pegou tomate maduro e ferveu um bocado. No mesmo almofariz em que pisara o ndungu com alho e sal, triturou o tomate semi-cozido.
O vento nocturno que varria a aldeia informava de casa em casa quem jantaria o quê. Para Mangodinho e os seus, a fubada da janta foi puxada pela codorniz que, aos seus olhos, parecia enorme para a fome de carne que tinha.
- Parabéns meu filho. - Disse-lhe a mãe. - Vê se amanhã consegues mais uma. Anda com os mais velhos para te ensinarem a armadilhar. Homem tem de saber caçar e pescar. A enxada é para as mulheres. - Recomendou antes de ir amamentar a kasule e chamar pelo sono.
De recordação em recordação, Mangodinho contou também que, durante os dias que se seguiram, o seu anelo era encontrar ovos de codorniz. Narrou que a carne tinha sido tão gostosa que queria encontrar os pintainhos, levá-los à gaiola e cria-los na aldeia. Era mera ideia de quem estava cansado de bater orvalho ou capim seco enrolado nos atalhos.
Já na Ngimbi, em casa do seu amigo Kito Kahala, encontrou uma chocadeira de codornizes, num nono andar da cidade do Kilamba.
- Ó Mangodinho, ainda vem.- Chamou Kito Kahala. - Estamos a "galinhar" aqui. - Continuou o anfitrião, puxando pela mão do convidado, enquanto aguardavam pela fubada codornizada.
O convite levava 72 horas e, ao trazer à memória a primeira funjada codornizada, surgiu na cabeça de Mangodinho outra ideia: não comer em casa e guardar espaço vazio no estômago.
No compartimento arejado e bastante higienizado estavam o "berçário" de aves recém-chocadas e três chocadeiras: codornizes, galinhas e patos.
- Aqui saem 500 pintos ao mês. - Contou, Kito, enumerando as técnicas e as quantidades.
- Para chocar codornizes são15 dias. A galinha vinte e poucos dias. Os patinhos saem ao vigésimo nono, quase um mês. A chocadeira demanda temperatura idêntica à do animal e humidade para para que não se queimem os ovos, nem se asfixiarem os pintos na hora de partirem os ovos e saírem para fora.
- Ó mano Kito, isso aqui é obra! E eu a pensar que ainda me faltava comer capim para encontrar ovos de codornizes e fazer gaiola, afinal estão mbora aqui mesmo na cidade? Que maravilha! - Exclamou Mangodinho.
- É mano. Também aprendi com outros criadores, aqui mesmo na cidade.
- E como é que consegues juntar os ovos? Quanto tempo demoram para ovar? - As perguntas do visitante pasmado pareciam chuva de Abril em terra árida.
- Bom, mano, é assim: a codorniz não cuida do ovo. A base da gaiola deve ter inclinação para que elas não os pisem e não os partam. Depois de recolhidos, são bem procurados nas lojas. Os passarinhos também são comprados a bom preço por serem um pitéu gostado pelos homens de garfo e pomada.
Antevendo receber boas novas da cozinha, Kito Kahala tinha já um pé na maternidade e outro no corredor da sala, enquanto dava as últimas explicações.
- Mas, ó mano, não vai ainda. Assim, esses kaovitos são para fritura ou para juntar à carne seca e fazer companhia à pevide?
- Ó Mangodinho, nunca te falaram do resultado do ovo de codorna? É melhor do que comprimido azul. Assim mesmo, se o mano quer que te gostem, leva já duas dúzias e passa a comer três por dia. O resultado não demora!
Mangodinho ficou a pensar nas expressões "garfo e pomada" e num "resultado melhor do comprimido azul". Kito Kahala abriu a porta de saída do compartimento, coincidindo com o chamamento da filha de que a mesa já estava pronta.
- Há vezes em que você encontra o doméstico na selva e o animal selvagem na cidade. A vida tem dessas. O conhecimento demanda andar! - Desabafou Mangodinho enquanto tragava, com as mãos, um apetitoso pedaço de codorniz regado com Don Luciano e Laureano Paulo.