quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

VIAGEM DE SONHO

Realizada num 15 de Setembro, já leva século, quase. Não existia ainda a EN120 ou, para ser mais preciso, sobre o largo e caudaloso Kwanza, o novo atalho, desenhado entre o Alto Dondo e o Fortim da Kibala, não possuía ainda travessia. Pretendia-se encurtar a distância entre a crescente capital e a florescente Nova Lisboa de então. Ao pôr-do-Sol emergia a capital do novo distrito, Benguela Velha.

Saudoso do meu Libolo, fiz-me à estrada, na minha Power Glic "olhos de águia". Luanda-Alto Dongo-São-Pedro foi um mimo, dançando ao som roncaresco da bichona.
Chegado ao Kwanza, enorme e apressado de uma viagem que o leva do Citembo a sul de Luanda, deparei-me com a ponte Filomeno da Câmara. Comprida e majestosa. Alta sobre um rio rápido e pedregoso. Quão engenhosos terão sido os seus obreiros!
- Ei-la! - Gritei para mim mesmo, fazendo-se eco, rio abaixo. E a ponte era longa!
Transpu-la. Era Kalulu o destino e Kabuta, do café negro, forte e quente, o próximo marco sem paragem nem narrativa. À passagem, far-se-ia noite, num atalho curvilíneo, sem alcatrão. E assim foi.
Ao raiar do sol, Kalulu à espreita. Quem não te vê?!
Como tu, apenas a capitalíssima do Distrito de Kwanza-Norte, Golungo Alto, que o elevar do comboio a longínquas terras de Njinga pretende levar ao ostracismo. Maldito comboio de 1917!
- Que não nos venham a nós dias nefastos. Soliloquiei.
- A nós basta a Filomeno da Câmara que nos leva ao Huambo e terras inimagináveis dest'Angol'amada! - Cogitei premonitório.
Cheguei a Kalulu, pois claro! Passei a Kapopa e visitei a Missão e o Musafu inteiro. Espreitei a Mbanze dos Dambos. Retornei, pela Pedra Santa, sempre. Alonguei-me no alcatrão, quase sem a cor inicial que fumegava aos olhos negros de pretos cansados de contratado. Passei pela Fortaleza e o Palácio que se esconde em sua axila abaixo. O posto administrativo do Concelho é à direita, contígua à Fazenda onde exploradores de negros depositam moedas lacrimejantes.
Reparei com minúcia as casas da vila, erguidas por brancos da metrópole ou filhos nascidos cá. Albergam hoje mestiços que se dizem donos disto e d'aquilo, da terra também, mas que se negam, na vergonha mesquinha, negros ou brancos. Preferem um termo intermédio!

Mais adiante é o Cassequel, corruptela de areal, extraído do materno Kimbundu. A Mbanze é mais adiante.

Sem mesmo pousar as malas ou limpar a poeira agarrada à Chevy como parasita faminto em hóspede corpulento, pus-me a conversas exploratórias, de bar em bar e de esquina em esquina.
- Olá, nosso patrício! Aceita café?
- É da Kabuta ou do Lwati? Eu aceito, nem que seja da Kisala!
- Tem o Kisongo ainda a Divisão de Agricultura e Florestas? Tem a Munenga o dendém e o girassol? - Café-palavra-café. Fui intercalando.
E nas conversas, a vila que é pequena, rua e meia, no dizer de nossos asoko¹ kibalenses, parecia grande. Os falares depreciativos denunciavam a existência de quatro blocos: o do Hagâcê, o do Cêcê, o dos nativos autóctones da Mbanza e o dos mulatos herdeiros. E parecia que todos os prosélitos se digladiavam, mesmo sem mando ou complacência dos patronos, tirando os mulahatu² e os descendentes de negroides que regaram cafezais com lágrimas e suor.
- Somos os mais fortes, os donos, os mais poderosos, os que mais fizeram, os que mais fazem, os que sempre aproveitaram a terra, os que dão de comer, os que mijam grosso, os que...
- E tu, forasteiro, em que ala te enquadras? - Provocou-me uma cobiçada rapariga de cor cremosa que sugava para si todos os olhos. Era assim onde passasse, embora tida como sem ala.
- Sou de cá. Dos que defendem o todo como união das partes. Sou dos que pedem alcatrão para São Pedro-Kabuta-Kalulu-Kibala. Dos que se indignam com o porvir que há-de-ser com a nova travessia no Kyamafulu! - Respondi amável. Porém, quando me preparava para acolher o abraço dela, despertei da viagem. Era sonho?!
=
¹- Plural de Kis(s)oko, homólogo.
²- Relativo a mestiços ou mulatos.
Obs: texto sujeito à revisão.

segunda-feira, 1 de novembro de 2021

NÂMBWA: A GUERRILHA, A REGIÃO E AS ESTRADAS

Tá maluka, avô chegou, kaleluia são designativos da mota de três rodas (coexistem também as de seis rodas adaptadas para cisternas de transporte de água). A esses nomes, oriundos da rica invencionice angolana, junta-se outro, por ironia coincidente com a designação de uma municipalidade aonde os carros chegam a custo. Nâmbwa. Isso mesmo. Diminutivo de Nâmbuangongo que fica na província do Bengo.

Não sei por que "carga d'água", as kaleluia no Bié, Huambo e Benguela ou tá maluka no corredor leste/tucokwe foram rebaptizadas de Nâmbwa, depois de conhecidas, entre os povos ambundu das cidades, por "avô chegou", alusão à capacidade de transporte de imbamba que só mesmo as avós (avô de mulher) têm paciência e amor para tal.
As primeiras vezes que ouvi falar sobre Nambuangongo ou Nâmbwa e sua árvore ande se confeccionavam luandos (muxi-a-lwandu) era sobre a tenacidade e coragem dos guerrilheiros do MPLA que ali montaram, sem nunca fraquejar, a Primeira Região Político-Militar.
Soube, contado pelos livros e pela oralidade dos adyakime, que "não foi fácil manter o povo organizado e combativo nas matas da região, arreigado na luta contra o colono kaputu e, outras vezes, nos reencontros com os irmãos da UPA".
Os rapazes que cantam "deixa de falar na minha amiga é yabará, kiwaya ou kilapi" também trouxeram o Nâmbwa ao live da televisão que diz "somos todos nós" e mostraram a riqueza cultural da região ao país e ao mundo. Mas sobre o Nâmbwa do futuro, que devia ser já presente, pouco relataram nas canções.
Já na Angola recente, com as estradas a chegarem mais distante, ecoam gritos sobre o estado "lastimável" das picadas. Vozes bem audíveis reclamam "porquê que estando Muxaluando (a sede do Nâmbwa) bem perto de Luanda, a poucos quilômetros de Kaxito, não tem estrada asfaltada".
Vieram promessas, até mesmo adjudicação de obras para que os carros de todas as cilindradas, tamanhos, bolsos e gostos chegassem por lá.
Em conversa, um amigo natural de Muxi-a-luandu (como ele gosta de diferenciar na pronúncia do topônimo) que foi pioneiro na guerrilha, conferiu, a brincar, que "muitos que por lá fizeram a tropa de guerrilha e da salvaguarda da independência subiram na vida e também têm seus carros que gostariam de mostrar os tios e avós que ficaram na banda".
- Como é possível que a minha mãe, para ver o meu carro, tem de vir a Luanda por cima de um Nâmbwa e eu não posso ir mostrar os frutos da participação na guerrilha, formação e trabalho árduo? - Questionava-se o sexagenário., acrescentando "é por isso que temos de gritar até sermos ouvidos".
Via noticiários soube que o Nambuangongo terá já estrada asfaltada e o meu amigo poderá ir, sem enfrentar buracos no período de cacimbo ou lama no tempo chuvoso. Os Nâmbwas vão deixar de fazer viagens longas e cingir-se ao transporte de banana e mandioca da lavra à vila. Afinal, o Nambuangongo é berço da nossa luta, parte da nossa pátria e da nossa História e merece o melhor que outros já têm.

sexta-feira, 1 de outubro de 2021

O RÁDIO E OS "FANTOCHES" DA MINHA VIDA

Em 1977, o meu pai mandou comprar o seu segundo rádio em Luanda. Vivíamos ainda em Kitumbulu (fazenda de meu avô paterno). Era um Philips cinzento, de 4 pilhas grandes, made in Singapura, lembro.

Mesmo sem ladrões por perto, António Fernando Dambi havia inscrito o seu nome na parte superior. Tal receptor, na altura em ondas curtas e médias, durou até 1983, um ano após o seu passamento, desconhecendo-se se o meu finado irmão Fernando o levou como herança única ou se e deixamos perdido nas fugas constantes dos homens da UNITA.
Essa história do rádio vem para trazer à memória o tempo em que me começou a chegar ao ouvido, via rádio, o  termo fantoche.
Certa vez, perguntei ao meu pai o que era fantoche, ao que me terá respondido que "eram bandidos da Unita".
- A Unita é o quê? Eles têm fantoches?
- A Unita mesma é que é fantoche? - Respondera o homem que era de poucas falas e confesso militante do MPLA.
No meu tempo de filho, filho era filho e tinha os seus irmãos, primos e amigos para brincar e ir detalhar. O pai era pai e tinha também os seus irmãos, tios, primos e amigos com quem privar. Pai era pai e não era "amigo do filho". Por isso, contentei-me que "fantoche era Unita e a Unita era fantoche". Era o que aquele aparelho inteligente dizia todos os dias às 13, às 19 no Angola Combatente, e às 20horas.

Para "poupar pilhas", o meu pai ligava o rádio nessas horas e não havia noticiário em que não se falasse de fantoches e bandidos que "eram a mesma coisa!"
Em Setembro de 1979, fui matriculado na "pré-kabunga". Parecia que os fantoches tinham crescido como eu. Na escola, o professor e os manos da quarta classe falavam quase todos os dias sobre os fantoches. Ora abatidos, ora violaram mulheres grávidas e mataram velhos, ora minaram e explodiram pontes e cidades. E nós, os manos mais novos, apenas "seguíamos bala" de conversas codificadas para nossos parcos conhecimentos lexicais: abaixo fantoche! Viva a revolução e o internacionalismo proletário!
Tais conversas deixaram-me mais confuso ainda, ao ponto de voltar a perguntar:
- Pai, proletário é o quê e internacionalismo é o quê?! - Eu era uma máquina de perguntar e ele gabava-se de ter um filho ávido em saber e que crescia com sabedoria. Por isso sempre profetizou que eu seria professor.
- Luciano, ouve bem! - Chamou-me à atenção. - Proletário sou eu que trabalho na fazenda. Todos os trabalhadores são proletários. - Explicou, curto e sem mais detalhes.
- Está bem, papá proletário! E internacionalismo é o quê, pai? - Voltei a indagar, insatisfeito.
António Fernando Dambi agachou-se, como sempre fazia, para que eu subisse ao seu ombro e fôssemos andando. Ele caminhando e eu na "digweza".
- Já viste os camaradas cubanos, nê? - Fez-me recordar.
- Sim, camarada pai proletário! Andam a passar com as colunas (carros militares).
- Pois é. Internacionalistas são os cubanos que saíram da terra deles para vir nos ajudar a lutar contra os fantoches. - Explicou.
- Mas, os camaradas fantoches também são muitos? Têm muita força que nós não "lhes" aguentamos?
O jovem, 39 anos, parecia desinteressado ou eu o estava a perguntar coisas que no seu entender "ainda não eram para a minha idade".
- Olha aí os pássaros. São bonitos nê?! - Tentou distrair-me e ver se eu mudasse de conversa. Porém, lembro-me, que voltei a insistir.
- O papá ainda não me disse se os fantoches são muitos e têm muita força...
- Luciano, os camaradas internacionalistas vieram nos ajudar para não demorarmos a aniquilar os fantoches.
Mal terminou a explicação, sacou da sacola uma banana e deu-ma. Sabia que eu gostava de bananas. Talvez voltasse a pedir mais uma e com banana na boca não perguntaria sobre fantoches e internacionalistas.
Em 1989, quando passei para a sexta classe, ganhei o direito de comprar, na papelaria da escola Kwame Nkrimah, um dicionário, o primeiro da minha vida que era meu. A viver no internato da missão católica de Kalulu e com tempo de sobra para leitura, comecei a "mastigar" o livro.
Descobri que fantoche era um boneco animado por uma mão humana ou por cordéis.
- Porra! - Exteriorizei. - Mas então os unitas são bonecos?
Levei tempo para compreender que era uma alusão metafórica. Uma comparação entre os revoltosos alimentados por agentes externos, tal como os bonecos-fantoches dançam, e a perseguir uma agenda que era de terceiros, o imperialismo de que, dizia o rádio, eram agentes.
O dicionário e o tempo levaram-me a descobrir a expressão, caudilhos, que os fantoches usavam, quando abriram a sua rádio ou usavam a rádio do Peter Bota.
Não é que caudilho é uma "ofensa" boa?! Descobri que a figura do caudilho é fisicamente vigorosa e disciplinada, demonstrando experiência militar e conhecimentos que inspiram as massas a segui-lo e respeitá-lo (aproximando-os do populismo). Dizia-me o Dicionário Prático Ilustrado, de que não sobra folha, que o caudilhismo está relacionado à personificação carismática de um líder.
Senti saudade de ter o meu pai de volta e perguntar-lhe por que é que a guerra entre fantoches e caudilhos estava tão demorada, mesmo com os apoio dos camaradas internacionalistas cubanos. Mas ele já tinha partido para a sua viagem sem regresso. Compreendi que só mesmo os livros e o ouvido atento às conversas dos manos que tinham estudado muito me dariam as respostas.
Antes de ingressar no ensino médio, por via de um teste de aptidão, em 1993, tomei contacto, numa leitura que estava a fazer de uma revista Spunik, o termo guerra fria.
Eu já tinha sobrevivido a dois ataques da UNITA (1984 na Munenga e 1989 em Kalulu). Tinha visto e ouvido falar em valentes sovas dadas aos fantoches pelas gloriosas Fapla, pelos camaradas internacionalistas cubanos e camarada amigos da SWAPO. Sabia que nessas guerras morriam pessoas e as balas eram quentes. É por isso que fugíamos da aproximação dos fantoches ou dos seus ataques. Como é que, afinal, havia guerra fria?
Fui ao dicionário para perceber que era aquela guerra que os comunistas, nossos amigos, e os imperialistas, amigos de nossos "inimigos", faziam no nosso solo pátrio.
- Afinal, com a tal de guerra fria, todos fomos fantoches?!
O camarada proletário António Dambi devia estar vivo para discutirmos essas coisas.
Melhor, foi quando entrei para a universidade, em 2000. Eu com o pico ainda encravado na garganta, por conta daquela resposta de que "proletário sou eu que trabalho na fazenda", descobri que o meu pai estava entre a certeza e incerteza.
Sete filhos gerados em 42 anos era, na verdade um proletário, um feitor de prole. Porém, havia trabalhadores sem filhos e proletários que não trabalhavam. É outra metáfora dos sindicalistas comunistas que aproxima o trabalhador mal remunerado aos meros "fabricantes" de filhos que serviam como soldados em guerras imperiais.
Comprei um Dicionário Enciclopédico e escrevi na segunda folha interior:
- Oferta póstuma a António Fernando Dambi.
É pena que nunca o lerá e, mesmo que voltasse, os netos cuidaram, seguindo meu exemplo de pesquisa, de folhear e desfolhar o mestre mudo da minha consolidação.
Ou ele sabia que o recrudescimento do conflito militar entre fantoches faria deles meros reprodutores para alimentarem a guerra fria?
- Pode ser que ele tivesse razão!

quarta-feira, 1 de setembro de 2021

A MULHER QUE PERCEBIA AS FORMIGAS

Caminhava exausta pela savana. Era tempo chuvoso e capim alto a mostrar apenas as cabeças de pessoas altas. O sol, bom para alegrar a vida e as sementes a querer ser vida, brilhava no alto dos céus de meio-dia, fazendo-a caloriar[1] como se tivesse atravessado um dos imensos rios a nado.

Perto de uma pequena floresta onde pacaças e alguns elefantes buscavam sombra encontrou um animal inanimado, mas ainda com sinais vitais. Aproximou-se corajosa, sem espingarda, nem catana, e verificou que a pacaça tinha sido atacada por um crocodilo.

- Há carne para conduto, há "mahaki"[2], há pele para alparcata, há chifres para soprar e levar mensagem distante. Haverá festa nas aldeias todas. - Disse a formiga sortuda.

Com auxílio de um pau e uma pedra, desmontou um dos chifres do animal e fez uma corneta. Ganhou mais força ainda. O cansaço que trazia tinha sido literalmente anulado pelo achado. Era só a festa que lhe corria no sangue.

Subiu ao topo de uma kamunda[3] que se achava no centro de cinco aldeias e gritou com toda a força que permitia o seu diafragma:

- Vocês aí, nessa aldeia onde se põe o sol, tragam baldes, facas e homens fortes. Temos pacaça.

Virou-se à nascente:

- Mwa mama, lyatata. Tokano. Ambatano l'ombya phala masaki ly langinga. Utana ly laphoko mwaxyale![4]

Ao norte e sul fez mesmos apelos e, num correr de pouco tempo, a floresta encheu-se de homens e mulheres corajosos, cheios de vigor e vontade de uma rica funjada de miudezas regada com maluvu[5].

As mulheres acondicionaram o sangue, o fígado, o coração, os rins, pâncreas e pulmões em panelas. Com a água trazida nas cabaças as jovens raparigas lavaram as tripas e os intestinos para a confecção de jinginga[6].

Os jovens, rápido acenderam uma fogueira para os assados de primeira hora, enquanto os makota[7] planificavam e repartição do animal pelas cinco aldeias. Depois seria a gestão de cada soba, dividindo a parte a receber por cada lar da sua comunidade.

Essa cena já leva milênios. Porém, até hoje, quando a mulher se senta de baixo da árvore do seu terreiro, a catar os piolhos na cabeça da neta, vem-lhe à memória o grito, daquela formiga que achou no meio do capim uma mosca e chamou todos os seus semelhantes das aldeias à volta para carregarem e repartirem a carne do grande animal que era a mosca.

 



[1] Transpirar.

[2] Sangue para sarrabulho ou para colorir a jinginga (Kimbundu).

[3] Monte, elevação ou pequena montanha (Umbundu).

[4] Mulheres e homens, venham. Tragam panelas para o sangue e as miudezas. Não esqueçam de trazer catanas e facas Kimbundu).

[5] Vinho de palma ou seiva de palmeira (Kimbundu).

[6] Miudezas: tecidos do tubo digestivo, fígado e outros órgãos internos (Kimbundu).

[7] Os mais velhos (Kimbundu).

quarta-feira, 4 de agosto de 2021

VATATE WANDA KO KACIPEMBE

Corriam os anos sessenta do século XX. A chuva tinha caído bastante naquele ano distante. Os rios ainda escoavam em abundância. As florestas alegres de verde, embora o capim começasse a vergar as flores para baixo, dando lugar à festa das codornas entre o areal esparso dos caminhos afunilados. Anunciava-se o kasimbu, reortografado pelos lusos por cacimbo. Às mães estava confiada com a colheita do último milho e a preparação de novas terras para a época vindoura. Era tempo de olhar para o cipembe¹ que reentra na lavoura.


Para os pais, eram tempos difíceis. Estavam divididos entre a participação na luta armada pela independência, que deles ordenava entrega afóbica, e o recrutamento coercivo para as milícias africanas do regime colonial. Muitos corações estavam divididos, assim com os lares e as famílias que podiam ter um tropa tuga e um irmão kambuta². Porém, aos infantes a vida corria bem, divididos entre a escola, as férias, a pesca miúda, as caçadas, as armadilhas aos pássaros e as brincadeiras. Fora da escola, com professores rígidos no ensino do â-mbê-cê-ndê, as férias grandes era o melhor que as crianças viviam de suas vidas inocentes e imaculadas.


Nos parcos momentos de inactividade militar, os pais de Kambweyo dividiam-se entre a lavra, a pastorícia e a nembele³. Uns abraçavam-se às vihamba⁴ e outros à arte de kukendja⁵.

Os jovens, cuidadores da aldeia e os intelectuais saídos para o trabalho nas vilas e cidade, aproveitavam o sábado para exorcizar a dureza do trabalho o contragosto que era combater ao lado do combatido e pôr a politica em dia. Era dia da Voz de Angola⁶.

 

No momento em que a aldeia de Kambweyo se mostrava vazia, Borges, um DGS, barba aparada, óculos escuros em tarde cinzenta, fez-se à Aldeia, interceptando Arlindo e Agostinho, meninos a contar 3 e 6 anos que brincavam à corrida de jante.

- Então, estão bem?

- Sim, chefe.

- Aonde foi vosso pai.

- Papai wanda ko kacipembe7.


Borges, um DGS/PIDE com já muitos anos de Angola, conhecia os códigos, as expressões mais frequentes e os lugares.

Era um tempo em que a metrópole concorria para o lugar cimeiro de maior produtor vinícola da Europa. Os destilados locais que haviam sido remetidos à preciosidade da clandestinidade estavam "terminantemente proibidos" e caçados os seus fabricantes e utilizadores.


Nas aldeias do Vye, os jovens de então os haviam rebaptizado de kacipembe. Nome que soava cipembe8 aos ouvidos de caçadores de desgraça alheia.


Borges, confuso, sacou dois rebuçados da sua sacola e voltou a aproximar-se dos dois primos que empunhavam cada um deles uma jante de bicicleta com que ensaiavam corridas de uma ponta a outra de Kambweyo.

- Ó meninos, venham cá. Tenho rebuçados para vocês.

Enfiou a mão ao porta-luvas e de lá retirou a sacola na qual guardava as guloseimas. Escolheu duas unidades e emendou:

- Se quiserem amêndoas também é só dizerem. - Adoçou.



Agostinho, o mais velho, dois anos à frente e Arlindo com cinco anos, aproximaram-se desconfiados. Filhos de irmãos assimilados, falavam português, mas estavam treinados: com branco, mesmo amigo dos papás, resposta é só em Umbundu.

- Então, digam lá outra vez. Vocês são irmãos de mesmo pai e mesma mãe.

- Hum-hum. - Abanaram as cabeças em jeito de negação.

- Então aonde foram vossos papás e os amigos de vossos papás. - Indagou o agente Borges, conhecido na aldeia, por causa da sua Land Rover branca com carroça coberta de lona que já levara para castigos na cidade jovens e adultos daquela aldeia.

- Vatete vanda ko kacipembe9. - Voltaram a responder os petizes.


Confundindo kacipembe e cipembe, Borges meteu-se, sem caça, a caminho da cidade. Os meninos e os jovens de Kambweyo tinham ganho o dia, enquanto o agende da PIDE/DGS registava mais um fracasso nas suas tentativas de prender e molestar os utilizadores de destilados locais.


=

¹- Terreno agrícola em sistema de repouso (Umbundu).

²-Guerrilheiro do MPLA

³- Igreja (Umbundu).

⁴-Adereços mágicos, mixórdias (Umbundu).

⁵- Destilar (Umbundu)

⁶- Programa radiofônico do MPLA emitido a partir de Dolisie, República Popular do Congo.

⁷- Bebida destilada à base de milho, cana e outros produtos).

8- Terreno agrícola em sistema de repouso (Umbundu).

9- Os papás foram beber kaporroto/kacipembe.

=

Adaptado de uma estória contada por Agostinho Lopes.

domingo, 4 de julho de 2021

NÂMBUA, AVÓ TETÉ E O IFA VERDE

Havia nebulosidade no ar. Aliás, dois tipos de nevoeiro: a tentativa de condensação do de partículas de água suspensas no ar e a nuvem preta levantada pelos ngulu[1] que grunhiam nas matas e nas aldeias, a poeira levantada pelas pessoas andrajosas e irreconhecíveis à chegada e a poeira levantada pelos Nâmbua[2] e IFA's que se atreviam naquele troço que nos conduz ou nos traz de Muxi-a-lwandu[3].

Avó Treza, oitenta e tal anos nas costas, embora contorcendo-se com dores da idade, estava determinada em ir a Caxito, sede provincial, fazer o seu "estou viva"[4] junto do banco das enchentes e dos antigos combatentes. Tinha sido pioneira em Kaji Mazumbu[5], onde se alistou adolescente e ficou até ao tunda mindele[6].

O dia, como dizia, era friorento e tristonho, mas avó Teté, como também é chamada, meteu-se mesmo assim a caminho. Meteu-se num Nâmbwa, da sua aldeia de Kingimbi até à vila de Muxya[7], 50 quilômetros mais ou menos, para apanhar a guia da delegação municipal dos antigos guerrilheiros. Do Muxya a Caxito, outros cento e tal quilômetros, encimando a carroça do IFA carregado de sacos de macroeira[8] e longos cachos de banana.

Era verde, a perder cor, as pessoas às vezes não sabiam ao certo se diziam cor branca esfregada em capim verde dos atalhos ou verde acastanhado da poeira do asfalto ausente. O IFA 50, nos tempos da guerra tratado amável e diferencialmente por IFA industrial, tirando algumas “madres” já cansadas, carros abatidos pela polícia e forças armadas, raros aventureiros que entregavam à destruição suas máquinas novinhas saídas de cidades distantes e os famosos Nambwa, era único, dia sim, semana também, naquela estrada recortada entre um asfalto esburacado e uma picada a reclamar de garganta seca por um pouquinho de asfaltite, qual rico a Lázaro. Para avó Teté o IFA que a levou era verde-cremoso.


Por causa dos saltos e da velocidade de camaleão, a idosa chegou aborrecida, embora nunca tenha escondido a sua simpatia, os caninos e incisivos que ainda desfilavam na boca e o seu verbo refinado quando fosse para comunicar as suas ideias, suas experiências e seu sofrimento nas matas do Kaji Mazumbu.

Caxito, a capital do Bengo, é, aos olhos dela, "vila pequena com rua e meia, sendo a vertical longa para pedestres, esticando-se da açucareira ao açude, e uma transversal que uma criança de cinco anos corre em minuto e meio". Avó Teté passou pela delegação dos antigos guerrilheiros onde renovou a foto. Era já conhecida. Alguns "meninos" que lá trabalhavam eram filhos ou netos de antigos companheiros de avó Teté, por isso não encontrava demora e nem era exposta à fila.

No banco da rede azul, avó Teté chegou aprumada. Trocou o pano sobre o ombro, endireitou o lenço, ajeitou e limpou as sandálias de cabedal e fez-se à fila dos mais velhos.

- Bom dia camaradas. Espero que estejais bem. - Saudou sorridente.

Os presentes retribuíram a vênia com alguns comentários dóceis. Um dos que se encontravam na fila, reconheceu-a pela doçura e expressividade da voz, quase locutora se fosse ao Voz de Angola, no Congo de Ngouabi.

- Camarada Teresa, bom dia. Quando saiu de Nambuangongo? Eu sou o sargente Cardoso do Mazumbu, o segundo logístico da primeira leva. Lembra-se?

- Que belo reencontro, meu camarada. Tenho muito gosto em vê-lo vivo e saudável.

Aproximaram-se e beijaram-se. Dois beijos com as distâncias bem medidas.

- Como vai a sua família? Mulher, filhos, netos e bisnetos, quantos? - Provocou a camarada Teté.

- Pois é, camarada guerrilheira, os filhos estão aí, a caminho também da velhice. Os netos na busca do emprego que não há. Os bisnetos a crescer. Acho que, juntando-os todos, já dava para um destacamento.

Sorriram durante alguns instantes. Se não fosse a educação e o pudor, teriam mesmo mostrado os mabwim[9].

- Tornei-me viúva. Os filhos andam entre o Nâmbwa e Luanda. Os netos idem. A tua estória, as tuas lutas, a esperança que tivemos nas matas bombardeadas com napalm, as frutas que disputávamos aos símios, a contribuição à edificação da nação, as incompreensões pós-independência, o descaso a que se votou as aldeias revolucionárias do Nâmbwa e a desilusão é tudo. É tudo similar, camarada Cardoso.

- É sim, camarada Teté. Aprendemos que a luta era para o benefício futuro. Um país sem exploradores, igualitário, com escolas, hospitais e oportunidades ... - Recordou Cardoso.

- Sim camarada! A nossa luta é até ao fim. Até à ultima gota é esperança.

E foram conversando, recordando, com passagens pitorescas pelo meio, assim como o cronista repleta o estômago da sua prosa. Chegou a vez da avó Teté que se encontrava na fila feminina das "pessoas de idade" como os jovens tratavam os idosos daqueles tempos da terceira República. A agência estava cheia, porém alegre. A avó Teté com o seu refinado linguajar era, efectivamente, uma rosa naquela floresta humana.

- Seu nome, avó? - Perguntou a funcionaria bancária.

- Chamo-me Teresa.

- Sua idade, avó?

- Conforme o Bilhete de Identidade. - Respondeu a octogenária, num "bom português', ao mesmo tempo que esticava a mão que continha o documento.

A jovem conferiu, o nome, a filiação, o local e data de nascimento e a altura. Porém, esqueceu-se de ver a assinatura.

No fim do preenchimento da ficha, sacou da almofada com tinta e procurou explicar que dedo a idosa mergulharia no tinteiro.

- Avó esse dedo, aqui, o indicador, é que vai meter assim, e estampar assim?

- O quê? - Questionou meio revoltada a idosa.

- Sim, avó é para assinar.

- Não, não minha netinha. Estudei e ensinei alunos no tempo da ardósia. Dá-me cá uma caneta que eu assino.

Um idoso que se achava ao lado, já com sua conta actualizada, rápido se prestou em esticar a caneta que a avó Teté segurou com toda a delicadeza, como se fosse desenhar uma flor novembrina e, com sua caligrafia de pôr inveja a doutoras de seis pancadas, assinou legivelmente o seu nome.

Teresa Miranda Lopes.

Estupefacta, a rapariga, vinte e tal anos, quase se ajoelhou em súplicas e pedidos de perdão.

- Ngiloloke kuku. Ngakudyondo[10].

Velha Treza, crente metodista confessa e convicta, pôs-lhe a mão sobre a cabeça e desatou:

- Fica com a minha bênção netinha. Não fizeste nada de mau.

 



[1] Porco (do Kimbundu).

[2] Triciclo motorizado com carroça para transporte de bens. Em algumas regiões de Angola transporta pessoas e bens,

[3] Do original muxi=árvore; lwandu=esteira: árvore onde se confeccionam esteiras.

[4] Prova de vida. Acto anual para que idosos continuem a beneficiar da pensão.

[5] “Primeira” base de guerrilheiros do Movimento Popular de Libertação de Angola na região de Nambuangongo. Alguns idosos da região atestam ter sido criado entre 1962 a 63.

[6] Alusão à saída dos colonos brancos; independência.

[7] Corruptela de Muxaluando, sede municipal de Nambuangongo, município do Bengo.

[8] Mandioca demolhada e posteriormente seca. Serve para a feitura de fuba ou farinha de bombô.

[9] Espaço sem dente. Desdentado.

[10] Perdoe-me avó. Peço-lhe perdão (do Kimbundu).