ATURA-LITER-ATURA
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domingo, 8 de fevereiro de 2026
A NINFA QUE AJUDAVA AS PLANTAS
sexta-feira, 16 de janeiro de 2026
"CONTOS PARA LÚCIA" NA LENTE DE ANTÓNIO KUTEMA
Da alegoria à lição de moral nos Contos para Lúcia, de Soberano Kanyanga
Por: António Kutema
De "Desejo de Kaúia" a "Contos
para Lúcia", Soberano Kanyanga pinta o universo com excelente mancha preta para ficcionar
vivências e, nas suas obras, é possível identificar o imaginário angolano e
delas extrair o encanto das belas artes.
Propusemo-nos em escrever
sobre “Contos para Lúcia” para reorientar o leitor sobre o livro de fábulas,
onde Videira e Eucalipto, Cágado e Caracol, Minhoca Lila e Ninfa são
personagens. Entretanto, constituem corpo e alma do livro “Contos para Lúcia” a
construção da narrativa em que os animais representam aspectos da sociedade
humana e frases curtas que encerram a história.
Por se tratar de fábula, tal
como nos sugere Oswaldo Portela, Contos para Lúcia apresenta duas partes
inseparáveis: (i) uma narrativa alegórica e (ii) uma lição de moral. Assim
sendo, a partir do livro Contos para Lúcia explora-se valores sociais,
culturais, ideias, sentimentos, ao mesmo tempo em que estimula o pensamento
cognitivo e a imaginação.
A maioria do enredo decorre no
quintal do senhor Luciano, pai da menina Lúcia, tirando o conto “Mamã pequena
da escola”, o que pressupõe a centralização do espaço familiar como parte
basilar da educação das crianças – Lúcia e suas sobrinhas. Ou seja, para além
da perspectiva lúdica que o texto oferece, há, sim, valores sociais e culturais
a serem preservados:
À
porta, transformada em ponto de partida, o pai e os três filhos alinhavam-se. A
mãe, com voz firme e olhar distante, fazia perguntas sobre a infância. Cada
resposta afirmativa exigia um passo à frente (Kanyanga, 2026).
A cultura de estar em casa com a família e aproveitar os momentos para conversar, sobretudo, acerca do passado e o presente não tem sido comum em muitas famílias angolanas, porque muitos pais justificam as ausências com trabalho para a melhoria das condições de vida da família. Contudo, o conto “No tempo da Lúcia” remete-nos ao diálogo entre o tempo da meninice do pai e o tempo da Lúcia – desde as dificuldades alimentares, privilégios ao vestuário, condições de vida enfim –, o que não apaga a empatia da Lúcia em se compadecer com os momentos difíceis que o pai viveu.
Convoca-se, então, Pierre
Bourdieu para compreender as estratégias utilizadas por Cágado e Caracol, que
estando no quintal da Lúcia, encasulados trocavam mimos, passando pelo meio
algumas frutas cajá-manga que ambos disputavam.
O Cágado queria
lamber o melaço de cajá-manga, por cima do Caracol e, se lhe fosse possível,
comer o Caracol. (...)Esse, já avisado das intenções do vizinho (viviam no
mesmo quintal e brincavam no mesmo jardim relvado), procurou esconder-se no
mais recôndito espaço, onde a largura e inflexibilidade corporal do Cágado não
permitia atingi-lo [sic]. (Kanyanga, 2026)
Pelo que se constata ao longo
da disputa, cada agente do campo do poder serviu-se das suas artimanhas para
atacar ou defender-se. Entretanto, ressalta-se duas características: astúcia e
sabedoria. Cágado identifica-se como astuto e Caracol como um ser sábio, tal
como o narrador nos apresenta:
Hábil a confundir
seus predadores, o caracol fingiu-se morto e encolheu-se o máximo que pôde na
sua carapaça. O cágado bem tentou colocá-lo entre as mandíbulas e procurar
engoli-lo, mas jamais o volume da carapaça do caracol passaria pela sua
garganta. Cansando, o cágado teve de desistir, deixando o caracol ferido, mas
vivo! (Kanyanga, 2026)
Aprende-se em Contos para
Lúcia, não importando o tamanho da pessoa ou do ser, que todos são importantes
para o engrandecimento da sociedade, basta olhar para simplicidade e sabedoria
dos caracóis, das minhocas, das ninfas e dos pássaros.
Contudo, no conto “A videira e
o Eucalipto” identifica-se a dimensão educativa sobre a importância de não
invejar o próximo, porquanto tudo tem o seu tempo debaixo dos céus. Ou seja,
cada um tem o seu tempo para brilhar e o brilho do outro não pode ofuscar o
teu.
— Ao pé de mim
ninguém cresce - dizia o Eucalipto ameaçador. (...) Com o tempo, a Videira
alcançou o arame farpado que encimava o muro e, sem pressa, foi-se esticando
até alcançar o Eucalipto por um braço encostado ao muro do quintal.
— Cá estou eu.
Duvide mais que não chagaria a ti - disse a Videira entregando-se alegre ao
sol. (Kanyanga, 2026)
Entretanto, a valorização e
respeito pelos mais velhos encerra o livro. Isto é, se respeitarmos os mais
velhos teremos mais tempo de vida, por um lado, o que não se verifica nos actos
do mosquito Kito pela teimosia de não ouvir os mais velhos; por outro lado,
quando se valoriza a mamã pequena ou a tia que tem a mesma idade do que a da
sobrinha, há menos conflito na família e na sociedade.
quinta-feira, 1 de janeiro de 2026
OS PASSARINHOS AZUIS E OS RECADOS PARA A LÚCIA
terça-feira, 2 de dezembro de 2025
BRUNEIROS: MITOS E MEMÓRIAS
[Um conto de feitiçaria e lembranças]
Na vila de Kalulu, onde o capim seco dançava ao sabor do vento e os tambores ecoavam nas noites de lua cheia, havia um nome que se murmurava com respeito e temor em todo o Lubolu: Kakwete. Os mais velhos falavam dele em voz baixa, como quem teme acordar forças poderosas e adormecidas. Os mais novos, curiosos e atrevidos, tentavam espreitar-lhe a casa de pau-a-pique e coberta de capim e segredos.
Kakwete não era apenas um homem. Era o temido e respeitado bruneiro. O feiticeiro de todos os tempos e com quem não se "torrava farinha". Não havia ninguém de sua igualha. Era o mestre das artes ocultas. Diziam que quem quisesse subir na vida, fosse por trabalho e mérito ou por sorte, acabava por bater à sua porta. E quem não o fizesse, ficava para trás, como folha seca levada pelo tempo.
Os jovens tímidos, incapazes de conquistar uma donzela, recorriam ao "migosta", uma mistura de ervas e encantamentos que prometia abrir corações e fechar resistências. Só Kakwete sabia preparar tal feitiço com eficácia. Era como se o amor, a fortuna e o destino estivessem guardados nas suas mãos rugosas e nos seus olhos que pareciam ver além da carne.
Em Ndombe Grande — ou Ndombe Inene, como os mais velhos ovimbundu e os conservadores preferem — vivia o mais velho Ciwiyawiya. Diziam que ele não era apenas um bruneiro, mas o bruneiro dos bruneiros. O maioral. O mestre dos mestres. E os seus feitos, soprados pelos ventos da memória, ainda hoje se escutam nas fogueiras e folguedos das noites longas.
Durante as décadas de 70, 80 e 90, quando as rusgas militares varriam as aldeias em busca de jovens para o serviço obrigatório, Ciwiyawiya fazia o impossível: transformava rapazes na flor da idade em velhos alquebrados, cabelos algodoados, costas curvadas e passos lentos. Os soldados passavam, olhavam, e seguiam adiante. Só levavam os que não haviam sido tocados pelo velho.
O director municipal da cultura de Dombe Grande, homem de saber e memória, não hesita:
“Muitos jovens daquela época, hoje já idosos, juram que é verdade. Quando os militares vinham, só escapava quem fora tratado pelo mais velho.”
Era como se Ciwiyawiya tivesse um pacto com o tempo. Como se pudesse dobrá-lo, moldá-lo, e usá-lo como escudo contra a guerra. E assim, muitos escaparam, não pela força, mas pela astúcia de um homem que dominava os mistérios do invisível.
E surge, então, como em todo bom conto, a pergunta que atravessa gerações: terá existido alguém capaz de “torrar farinha” com Ciwiyawiya? Em Benguela, pelo menos, dizem que não. O velho era imbatível. Um nome envolto em lenda, mas também em testemunhos vivos — daqueles que juram ter visto, sentido ou vivido os efeitos da sua bruxaria.
Entre o real e o imaginário, entre o medo e o fascínio, os bruneiros como Kakwete e Ciwiyawiya continuam a habitar o imaginário colectivo. São sombras que caminham ao lado dos vivos, moldando histórias, crenças e destinos. E enquanto houver quem conte, haverá quem creia. Menos eu!
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Publicado pelo J.A. aos 14.09.2025.
sábado, 8 de novembro de 2025
TAXI COLECTIVO, MEMÓRIA, LUTA E ASCENSÃO SOCIAL
Mesmo assim, posto na Vila, os aplicativos não funcionaram e, não querendo ser indelicado para com o motorista da oficina que fora orientado apenas a deixar-me na vila, pedi-lhe que me deixasse na praça de taxis colectivos. Assim, meti-me num dos que fazem o trajecto Vila de Cacuaco–Desvio do Zango.
Éramos quinze passageiros. Uns foram ficando pelo caminho, outros entraram e preencheram as vagas deixadas. Aos quinze, juntavam-se o chauffeur e o cobrador. Fazia tempo que não me aventurava em deslocações como esta. Não sabia quanto se pagava pela corrida — curta ou longa — como a que estava a fazer. A viagem decorreu ao som de músicas de Socorro e Baló Januário, em volume aceitável para a minha idade — pós-cinquenta.
Os meus co-passageiros eram jovens: homens e mulheres. Uns, via-se, faziam negócios precários, mas lutam pela vida sem pôr mão em coisa alheia. Um é pintor. Tinha os cotovelos e o telefone pintados de branco. Outros, poucos, eram adventistas do sétimo dia, a caminho das confissões religiosas ou de regresso a casa. Eu era o mais velho e com trajes que, mesmo sendo calças de ganga, ténis e camisa normais, pareciam denunciar-me como “intruso” desabituado àquela vida.
A minha paragem foi na ponte do Km 25, ao preço de Kz 500.
Já no viaduto do Km 25 — que a criatividade popular baptizou por “Ponte do 25” — um dos aplicativos funcionou. Aleluia! Levei, porém, mais de vinte minutos para que o mui pretendido taxi particular chegasse. Primeiro, uma demora de oito minutos levou ao cancelamento. Quando voltei a solicitar, eis que o mais próximo era o anterior, obrigando-me a aguardar nada menos do que um terço de hora sob o sol escaldante que se aproximava do meio-dia.
Esta viagem serviu-me, maisnuma vez, de medida. Uma medida da distância dada na vida. De onde saí e onde estou socialmente. E tudo isso foi obra da formação académica, da formação profissional, do trabalho honesto e da lealdade. Haveria como sentir estranheza num taxi colectivo se, acaso, não me tivesse formado? Se, embora trabalhando por conta de outrem, não auferisse um salário que dá para comer trinta dias e fazer pequenas poupanças que levam a ter carro?
A resposta é redondamente não.
Daí o apelo renovado àqueles que ainda vegetam na ociosidade, na torpência e na falácia de que “não há crescimento possível no país”. Lutem. Não adormeçam debaixo da sombra plantada por outrem. A ascensão é possível. Mas exige acção, coragem e persistência.
Aos que governam, pede-se que tirem duas horas por mês ou trimestre e andem pelos subúrbios. Experimentem um taxi particular e depois um taxi colectivo. Sintam, em poucos instantes, o “dias sempre” dos governados. Se calhar isso crie maior empatia, pois cada um dos que o povo colocou em cima tem sempre um exército — directo ou indirecto — de plebeus que vivem a vida árdua e verdadeira dos governados.
quarta-feira, 1 de outubro de 2025
NO TEMPO DA LÚCIA

In "Contos para a Lúcia"
A peça tinha terminado há pouco. Lúcia ainda estava com os olhos marejados — não pela encenação em si, mas pelo jogo que encerrava o espetáculo. Um jogo simples, mas brutal. À porta, transformada em ponto de partida, o pai e os três filhos alinhavam-se. A mãe, com voz firme e olhar distante, fazia perguntas sobre a infância. Cada resposta afirmativa exigia um passo à frente.
sexta-feira, 12 de setembro de 2025
A CAÇADEIRA DE KAPAYO
O dia estava agitado, como o vento frio que soprava impiedoso, parido e empurrado pela corrente gélida de Benguela. No vasto espaço ao redor do Estádio de Ombaka, agora metamorfoseado em ruelas e vielas por construções temporárias de stands, homens e mulheres se acotovelavam para passar, levantar ou pousar imbambas de toda sorte. O recinto fervilhava com a azáfama de feirantes vindos de todos os cantos de Angola: lá estavam 21 províncias e 326 municípios que representavam o povo, suas identidades culturais e as idiossincrasias de mais de 378 comunas.
terça-feira, 5 de agosto de 2025
Entre chaladices e filosofias: A tessitura da trama em Chico, Bernardo e Mangodinho
A literatura de Soberano Kanyanga é marcada por uma oralidade vibrante, personagens profundamente humanos e uma crítica social que se entrelaça com humor, dor e sabedoria popular. Neste artigo, analisamos comparativamente três figuras centrais de suas crónicas: Chico "Pé de Muleta", Bernardo "Bebê" e Mangodinho, explorando a tessitura da trama em que cada um se inscreve.
“Vocês são burros. Vê lá se ainda não conhecem a cidade.”
A tessitura da trama é trágico-reflexiva, com forte ligação ao espaço comunitário e à memória colectiva. Chico é respeitado e temido, e sua voz carrega a autoridade da experiência vivida.
"Esses buracos estão a ser tratados como frangos: primeiro limpam, depois temperam com brita e só depois é que metem o óleo quente".
Ou quando ironiza a política local:
“Aqui, até os buracos têm plano de desenvolvimento. Só falta mesmo o orçamento” são exemplos de como o humor é usado para desmascarar o absurdo social. Bernardo representa a irreverência popular, e sua presença é marcada por leveza, mas também por crítica mordaz. A tessitura da trama é cômico-satírica, com ritmo oral e linguagem popular, aproximando o leitor da realidade angolana com riso e reflexão.
“Mangodinho é aquele que desafia a dor e ama a arte.”
A tessitura da trama em que Mangodinho se inscreve é densa, simbólica e introspectiva, com linguagem mais literária e menos episódica. Ele transcende o espaço físico e torna-se símbolo de transcendência.
Enquanto Chico actua em espaços comunitários rurais e Bernardo em ambientes urbanos populares, Mangodinho transcende o espaço físico, habitando uma dimensão simbólica. A linguagem de Chico e Bernardo é oral, rica em expressões locais, enquanto Mangodinho é tratado com linguagem mais introspectiva e literária.
Todos os três personagens partilham uma profunda humanidade e ligação visceral à realidade angolana, compondo uma tapeçaria literária rica, crítica e afectiva.
quarta-feira, 2 de julho de 2025
"HÁ DIAS ASSIM..."
A frase que dá título a esta postagem é do Armindo Laureano.
Quem me leva a recitá-la é a jovem escritora Unkulu D'Papel (Numélia Baptista Tchiteculo,
ou Tchite Unculo), natural do Huambo e contando apenas 20 anos.
Conheci a Numélia num das redes sociais. A princípio desconfiei:
_ Por que quer uma adolescente tornar-se minha amiga?
Explicou que lera o meu livro e o inspirou, dai ter procurado pelo autor de "O coleccionador de pirilampos". Passei a ler os escritos dela e a dar-lhe feedback. Apercebi-me pela comunicação social e redes sociais que já tinha feito a sua estreia como autora de um livro de ficção.
Em uma mensagem que me remeteu, Unkulu D'Papel disse que "me tinha como inspirador" e remeteu o seu livro com a dedicatória a mim dirigida.
Quatro Abraços-Os passos encantados que o vento soprou pelas palavras
Muito brigado, Numélia!
domingo, 1 de junho de 2025
Jornal Angola Económico | ESCRITOR SOBERANO KANYANGA
• O que o levou a escolher a temática da motivação no ambiente de trabalho, especificamente no contexto do então Ministério da Geologia e Minas?
que podiam advir da implementação de certas medidas como o transporte para os funcionários, o seguro de saúde, o maior controlo da pontualidade, a responsabilização, a clarificação das tarefas a atribuir ao colaborador, assim como estabelecer deadlines para a conclusão de tarefas, a melhoria da remuneração e da qualidade de vida no trabalho, a formação, entre outos aspectos.
• Quais foram as principais descobertas do seu estudo de caso em relação ao impacto da falta de motivação nos colaboradores?
= A gestão deve ser proactiva e transparente; a comunicação deve ser melhorada na verticalidade e horizontalidade; a política retribuitiva (remuneração) deve ser adequada e justa; os colaboradores devem conhecer os seus direitos e deveres e os materializarem; a capacitação deve ser contínua; deve haver mobilidade interna para que o colaborador execute as tarefas que saiba e goste; a organização deve responsabilizar os incumpridores; o ambiente laboral deve ser sadio e adequado; deve haver ferramentas e equipamentos de trabalho, etc. É preciso ler o livro.
• Como define a relação entre motivação e desempenho organizacional e que evidências apresentas em seu livro para apoiar essa conexão?
= A motivação é intrinseca. O empregador/gestor cria elementos potenciadores da motivação. Trabalhador que se reveja na organização e lute por ela, que esteja consciente de que as suas rendas provêm do seu trabalho, ou seja, que é reforço e não esforço, é um trabalhador motivado. Trabalhador motivado é produtivo e feliz no local de trabalho. Quem passe mais tempo no local de trabalho do que em casa deve sentir-se feliz e gostar de ir aonde presta labor. Motivação e produtividade estão relacionadas.
• Durante o processo de pesquisa, quais desafios encontrou ao abordar a questão da motivação no sector mineiro?
= Os desafios foram muitos e começam pela excessiva ideia de que "não se pode falar sobre o trabalho ou sobre o que se faz no trabalho" (cultura do secretismo), mesmo se tratando de um estudo sociológico e com fins académicos (serviu para Pós-graduação e Mestrado). Tivemos de iniciar por obter uma autorização do Ministro Francisco Queiroz, que gostou da iniciativa e autorizou de imediato. Todavia, levei mais de seis meses para recolher uma amostra de 70 inquiridos entre uma população total de 140 colaboradores. A falsa ideia do secretismo ou o desfoque total às questões que digam respeito à melhoria de determinadas práticas administrativas são males que ainda ensombram a administração pública. Em contra-senso, aquilo que se procura esconder aos colegas sai às redes sociais, uma prática que deve ser banida. Tivemos desafios, entretanto superados, pois a vontade de terminar o estudo, para compreender cientificamente a organização e propor melhorias, assim como terminar um desiderato académico, falaram alto. Devo ressaltar o empenho dos meus liderados do GRH, em especial a Helena Cuca, que ajudou bastante na mobilização e recolha do inquérito em que participaram todos os extratos da organização. Directores, chefes de departamento, chefes de secção, técnicos superiores de diferentes categorias, técnicos, técnicos médios, administrativos, operários, todos foram inquiridos.
• Como o lema das Jornadas do Mineiro, "Mineração Responsável, Futuro Brilhante", se relaciona com os temas abordados em seu livro?
= A apresentação pública do livro esteve enquadrada nos festejos do Dia do Mineiro que, para 2025, tem o lema "Mineração Responsável, Futuro Brilhante".
• Quais são suas expectativas em relação ao impacto que sua obra pode ter na maneira como as organizações pensam sobre a motivação de seus colaboradores?
= O livro/estudo é um despertador quer para os colaboradores, quanto para os líderes. Foram levantados aspectos que, às vezes, nos passam despercebidos. Foram feitas recomendações também. O livro é por si, um começo e não um fim. As abordagens devem ser continuadas em outros prismas. Sendo resultado de um trabalho científico-académico, também pode servir de consulta a estudantes e gestores de RH.
quinta-feira, 1 de maio de 2025
"A FALTA DE MOTIVAÇÃO E IMPACTO NOS COLABORADORES" AOS OLHOS DE LÍZIA HENRIQUE
DALAI LAMA UMA VEZ DISSE “TODA ACÇÃO HUMANA, QUER SE TORNE POSITIVA OU NEGATIVA, PRECISA DEPENDER DE MOTIVAÇÃO”
Boa tarde a todos,
É com
enorme prazer que vos dou as boas-vindas a esta sessão tão especial de
lançamento do livro A FALTA DE MOTIVAÇÃO E O IMPACTO NOS COLABORADORES-
UM ESTUDO DE CASO NO MINISTÉRIO DE GEOLOGIA E MINAS, uma obra que
promete marcar não só os leitores, mas também o panorama literário nacional.
Hoje, temos a honra de
contar com a presença do seu autor, Luciano Canhanga |Soberano Kanyanga|,
uma figura que se destaca pela sua sensibilidade, dedicação à escrita e pela
forma como consegue transformar palavras em emoções vivas.
Luciano Canyanga
tem vindo a construir um percurso notável, seja através da sua escrita
envolvente, bem como da sua capacidade de observação da realidade.
Este, sempre esteve ligado
ao jornalismo e comunicação institucional, mas foi nas vestes de Director de
Recursos Humanos que se viu digamos, "forçado” a imergir nos desafios que
encontrou no então Ministério de Geologia e Minas, quando convidado a dirigir o
GRH, após colaboração em uma empresa extractiva (a Sociedade Mineira de Catoca)
Eventualmente, você
pergunte: Que desafios encontrou?
Meus senhores e minhas Senhoras estes desafios
encontram-se no livro!
O livro em destaque, aborda um tema crucial para o desempenho organizacional, especialmente no contexto do funcionalismo público angolano.
Este livro representa não
apenas uma contribuição valiosa para o campo de Recursos Humanos, mas também um
testemunho do rigor, da dedicação e da paixão que o autor deposita no seu
trabalho. Ao longo das suas páginas, somos guiados por uma análise profunda,
sustentada em investigação atualizada, metodologias sólidas e um espírito
crítico exemplar.
A pesquisa realizada revela,
que a falta de motivação é um dos principais factores que impactam
negativamente o desempenho dos colaboradores, sendo um desafio significativo
para a gestão de actividades no setor público.
Na referida pesquisa o
autor utilizou métodos quantitativos e qualitativos, incluindo questionários
aplicados a setenta funcionários, a fim de explorar as causas e consequências
da desmotivação no então Ministério de Geologia e Minas.
O estudo, realizado no
Ministério de Geologia e Minas, identifica que a ausência de políticas e acções
voltadas à motivação, como o reconhecimento, a remuneração adequada e
incentivos como o seguro de saúde e a formação, contribui para a desmotivação
dos funcionários, cujos resultados negativos para a organização todos os
gestores conhecem.
Entre as conclusões,
destaca-se o facto de a motivação estar diretamente ligada à recompensa e ao
estilo de liderança, e que as variáveis sociodemográficas influenciam os
resultados. É ainda sugerido, que as lideranças devem repensar as suas práticas
para melhorar o ambiente organizacional e a valorização dos colaboradores.
Para além do rico
conteúdo, que é uma nítida fotografia dos desafios com que se debatem muitas
das instituições públicas, para não dizer todas, o autor procurou, igualmente,
preservar a história de um colectivo de colaboradores que cada um ao seu nível,
procuraram prestar um serviço público digno e humanizado.
Hoje, infelizmente, não podemos dizer à nova
geração que no Largo António Jacinto (conhecido como largo dos Ministérios)
existiu um edifício que atendeu os Serviços de Geologia e Minas e,
posteriormente, o Ministério de Geologia e Minas, pois este edifício (mostrar a
contracapa) já não existe.
Termino com um sincero
agradecimento a Luciano Canhanga, não só pela obra que hoje nos apresenta, mas
também pelo contributo inestimável que tem dado ao desenvolvimento do
conhecimento.
Convido agora o autor a
partilhar connosco um pouco do seu processo criativo, das motivações por detrás
deste livro e, claro, do que podemos esperar ao mergulhar nesta leitura.
Muito obrigado a todos pela
presença.
Lízia Henrique
Em Luanda, aos 24 de Abril
de 2025.
quarta-feira, 2 de abril de 2025
SERÁ QUE A MATOU?!
O sol, tímido, espreitava por entre nuvens pesadas. A tarde arrastava-se como um velho cansado. Veio o frio. Gélido. Correu com as crianças e os idosos aposentados de todas as lutas para dentro de suas casas. Os casais aconchegaram-se em suas mabata, de onde, minutos depois, se ouviam sussurros religiosos soltos aos ventos:
Na festa dos sobrados, a música gritava ao vento aberto. O álcool entorpecente cantava nas veias dos presentes. Vivia-se um comunismo primitivo. Todos eram de todos, até a Feiosa. Dançavam como loucos. Mediam-se olhares e toques. Légua a légua, percorriam distâncias enquanto tarrachavam ao ritmo da música.
Ela estava lá. A mulher de olhos de fogo e passos de felino. Agressiva como uma leoa ferida. Ele também. Calmo, tranquilo, mas desperto como um grilo estridente ao pé da toca. Os olhares cruzaram-se. Não houve palavras. Apenas o silêncio cúmplice dos que sabem o que querem.
Ela pegou-lhe o martelo. Ele, sem hesitar, kibyonou-lhe o eréctil médio que percorreu aceso o córrego húmido e carente. Transbordante de desejos, puxou-o para um canto em meia luz. Prostrada, baixou a cortina e declamou doce e ciosa:
— Acaba de me matar!
Silêncio. O tempo parou. A música continuava lá fora, mas ali, naquele canto, o mundo havia suspendido a respiração. Teria ele obedecido? Teria ela sobrevivido à própria entrega?
A sexta-feira 13 não respondeu. Apenas seguiu, fria e misteriosa, como sempre.













