ATURA-LITER-ATURA
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sábado, 1 de agosto de 2026
FINAL DO DIA AO-PÔR-DO-SOL
quinta-feira, 16 de julho de 2026
OS CONSELHOS PARA A PEQUENA FÉ
Enquanto falavam, a bebé Fé engatinhava alegremente e pegava numa folha seca do chão, levando-a rápido à boca.
—Ei, ei, minha pequena Fé! — disse Lúcia,
ajoelhando-se ao seu lado com calma.
— A boca é para saborear coisas boas e
limpas, não para folhas da terra.
Lúcia segurou a mãozinha da Fé com
carinho.
— Olha, temos uma pitanga aqui, já
lavadinha. É gostosa e doce. Queres experimentar? É muito melhor que folha.
Fé largou a folha e agarrou a pitanga,
levando-o à boca com um sorriso babado.
—Isso mesmo! — Riu Lúcia. — A Fé é muito
esperta.
quarta-feira, 1 de julho de 2026
A AVENTURA DO MOSQUITO KITO
Certa vez, quando a Lúcia, o pai e os seus sobrinhos — Joshua, África, Fé e Argemara — iam ao Zango visitar a avó Maria, perceberam que havia dois mosquitos dentro do carro. Um era gordinho e pesado, parecia ter acabado de sugar sangue. O outro era pequeno, leve e voava de um lado para o outro, muito atrevido.
Aproveitando o momento, a Lúcia explicou:
— Sabem o que é um mosquito? — perguntou ela.
— É aquele bichinho que pica e dói — respondeu a pequena África, muito segura, embora tenha apenas três anos.
— Isso mesmo — disse a Lúcia. — Mas alguns mosquitos, como o Anopheles, podem transmitir doenças perigosas, como a malária. Por isso devemos usar mosquiteiro, repelente e manter a casa limpa.
Enquanto os sobrinhos ouviam atentos, o mosquito pequeno continuava a fazer acrobacias no ar.
Dentro do carro, o mosquito pequeno, chamado Kito, voou até à mãe, que estava escondida debaixo do assento.
— Mamã, mamã! — disse ele, ofegante. — Cada vez que passo à frente deles, eles batem palmas. Acho que estão a aplaudir‑me. Devem pensar que sou um príncipe!
A mãe suspirou, cansada da ingenuidade do filho.
— Kito, meu filho, isso não são palmas de alegria. Eles estão a tentar acertar‑te. Fica aqui quieto comigo, debaixo do assento. É mais seguro.
Mas Kito era teimoso.
— Ah, mamã, deixa‑me só mais um voo. Eles gostam de mim, eu sinto!
E lá foi ele outra vez, ziguezagueando pelo carro.
De repente, num gesto rápido, a África deu uma palmada certeira:
— Apanhei!
O mosquito Kito ficou esmagado entre as suas mãozinhas.
A tia Lúcia pegou numa toalhinha húmida e limpou as mãos da sobrinha.
— Muito bem, África. Agora já podemos seguir viagem descansados — disse ela, sorrindo.
E assim, a família continuou o caminho até ao Zango, tranquila e sem a chatice do mosquito Kito.
terça-feira, 16 de junho de 2026
AS TRANÇAS DA ARGEMARA
— Oh, oh, Argemara! Porque estás a
maltratar as tuas tranças tão lindas? — disse Lúcia, aproximando-se.
A bebé olhou para ela com olhos lacrimosos, embaraçada com os próprios cabelos.
—Deixa a tia ajudar. As tranças são como
cordas de embalar, não se puxam, acarinham-se — falou Lúcia em voz suave,
enquanto desembaraçava com cuidado os fios de cabelo de Argemara.
—Pronto. Agora estão perfeitas. Ficas tão bonita com as tuas tranças a brilhar ao sol.
Argemara parou de chorar e tocou na cabeça, sentindo o penteado arrumado, e soltou uma gargalhada.
quarta-feira, 10 de junho de 2026
JOÃO LOURENÇO, O ESTRATEGA: APRESENTAÇÃO DE LIVRO
Excelências,
Dirigentes e responsáveis do nosso belo país (Angola)
Caros irmãos,
Camaradas,
Distintos convidados,
Minhas senhoras e meus senhores,
Considerem todo o protocolo observado.
Agradeço imensamente a honra de ter sido escolhido para fazer a apresentação deste livro “João Lourenço, o Estratega” - de autoria de Isaías Camuanda — perante tão selecta e respeitada plateia. O livro em vossas mãos trata-se de um exercício reflexivo que se inscreve na tradição das análises político-institucionais contemporâneas em Angola.
Como nos esclarece o próprio autor, estamos diante de um
exercício que “transcende a crónica política ou a biografia convencional” (pág.
10). Estamos, portanto, perante uma obra de reflexão estratégica, que procura
compreender um tempo político específico através da acção de um actor central:
o Presidente João Manuel Gonçalves Lourenço.
1. A Figura do Estratega
Ao longo da obra, o autor propõe-nos uma chave de leitura
particularmente relevante: João Lourenço é apresentado como como um
estratega da transição e NÃO um
líder de improviso.
Não se trata de ruptura súbita, mas de um processo
estruturado, onde a mudança se faz por dentro. Como se conclui na obra, estamos
diante de uma liderança que procura transformar o Estado “não através de
rupturas abruptas, mas por via de uma reconfiguração progressiva, estrutural e
persistente” (pág. 85).
Esta perspectiva permite-nos compreender a sua liderança como menos centrada na retórica e mais orientada para a engenharia institucional do poder.
2.
Liderança e Cultura de Governação
Um dos contributos mais relevantes do livro reside na análise
da cultura de governação. O autor recorda-nos que governar é uma tarefa muito
mais complexa do que gerir recursos.
Como afirma logo no início da obra, “governar um Estado não é
apenas exercer poder político. É dirigir uma organização complexa” (pág. 9).
Esta visão traduz uma mudança de paradigma: governar passa a
significar reorganizar o próprio funcionamento do Estado — reforçando
instituições, redefinindo prioridades e alinhando práticas com padrões mais
exigentes de transparência.
3. Transformação Institucional como eixo central
A obra sustenta que a governação em análise deve ser
entendida como um processo de transformação progressiva. Não estamos perante
actos isolados, mas perante uma lógica de acção estruturada.
Como refere o autor, a governação assenta em “padrões
consistentes que revelam método, disciplina e intencionalidade” (pág. 85).
Nesse sentido, destacam-se três dimensões essenciais: o
combate à corrupção, enquanto mecanismo de recomposição do sistema; a
reorganização económica, visando a diversificação e a eficiência; e o reforço
institucional, com a valorização da disciplina e da legalidade.
4. Limites, tensões e desafios
Importa sublinhar que esta não é uma obra de exaltação
acrítica. O autor reconhece, com lucidez, os obstáculos inerentes a qualquer
processo de reforma. Entre os principais desafios, destaca-se o peso estrutural
da administração pública, que permanece marcada por “rigidez e lentidão” (pág.
71).
Isto conduz-nos a uma leitura equilibrada: há estratégia, mas a sua eficácia depende da capacidade de consolidar processos num contexto de resistências internas e expectativas sociais elevadas.
5. Dimensão externa da governação
Outro mérito da obra é a atenção dedicada à inserção
internacional de Angola. O autor demonstra que o reposicionamento externo não é
um elemento secundário, mas é parte integrante da estratégia de transformação.
Nesse quadro, destaca-se o esforço de reforçar a credibilidade internacional,
que tem permitido melhorar a percepção externa sobre o compromisso do país com as
reformas estruturais (pág. 70).
Permitam-me sintetizar o núcleo desta obra numa ideia
fundamental:
O Presidente João Lourenço é apresentado como um líder de
transição, cuja estratégia consiste em reformar o sistema a partir do seu
interior — de forma gradual, disciplinada e estruturada.
Minhas senhoras e meus senhores,
Este livro convida-nos a olhar para além da superfície dos
acontecimentos políticos. Ele revela-nos que a transformação do Estado não se
faz apenas por grandes rupturas, mas por aquilo que o autor descreve como um
“movimento silencioso, disciplinado e gradual” (pág. 89).
É precisamente nesse movimento que reside o valor estratégico
da liderança analisada: a capacidade de orientar o Estado para um futuro menos
dependente das contingências e mais ancorado na inteligência institucional.
O autor propõe-nos, assim, uma reflexão profunda sobre quatro
elementos essenciais: liderança, poder, reforma e futuro.
Independentemente das posições que cada um possa assumir, há
um mérito que se impõe reconhecer: esta obra contribui para o debate sério e
necessário sobre o Estado angolano e os caminhos da sua transformação.
Termino felicitando o autor, Isaías Camuanda, pela coragem intelectual, pela lucidez analítica e pela pertinência deste contributo.
Muito obrigado.
Soberano Kanyanga (Escritor e jornalista)
Memorial AAN, Luanda, 10.06.2026
segunda-feira, 1 de junho de 2026
MAMÃ PEQUENA DA ESCOLA
In "Contos para a Lúcia"
Lúcia e Joshua tinham ambos sete anos, mas Lúcia nasceu primeiro, em Windhoek. Quatro meses depois, Joshua veio ao mundo, em casa dos avós, em Viana. Apesar de terem a mesma idade, Lúcia fazia questão de lembrar sempre o seu estatuto:
— Joshua, não esqueças: eu sou tua tia. Mamã pequena! — dizia com ar sério.
Entraram juntos na creche, depois na pré-escola, na iniciação, e agora preparavam-se para a terceira classe. Eram inseparáveis.
— Crianças, avisem os vossos encarregados de educação que teremos uma reunião amanhã.
Joshua franziu a testa, curioso. Levantou-se e perguntou:
— Professora, o que é encarregado de educação?
A professora sorriu:
— Menino Joshua, encarregado de educação pode ser a mamã, a avó, o papá ou a tia mais velha.
Joshua olhou para Lúcia, que estava sentada ao seu lado, e respondeu com entusiasmo:
— Professora, eu já tenho aqui a minha encarregada de educação!
A turma começou a cochichar. A professora perguntou:
— Como assim, menino Joshua? Quem é a tua encarregada de educação aqui na escola?
Joshua apontou para Lúcia:
— É a minha comadre e mamã pequena Lúcia. Ela é irmã da minha mãe e nasceu antes de mim, não é, Lúcia?
Lúcia endireitou-se na cadeira e confirmou com orgulho:
— Sim, professora. Ele é meu compadre e também meu sobrinho. Sou mamã pequena dele.
Os colegas caíram na risada. Alguns comentavam:
— Como é que podem ser tia e sobrinho se têm a mesma idade?
A professora, que era zambiana, percebeu a lógica e explicou calmamente:
— Tens razão, menino Joshua. Mas para a reunião eu preciso de um encarregado de educação que tenha mais de 18 anos.
Joshua suspirou, desapontado:
— Então a minha mamã pequena não serve?
— Para esta reunião, não — respondeu a professora, sorrindo. — Mas continua a cuidar bem do teu compadre, está bem?
Lúcia ergueu o queixo e disse com firmeza:
— Eu cuido dele todos os dias, professora!
A turma voltou a rir, mas desta vez com carinho. Joshua e Lúcia sorriram um para o outro. Afinal, ser tia e sobrinho da mesma idade era uma história que só eles podiam contar.
segunda-feira, 25 de maio de 2026
"O COLECIONADOR DE PIRILAMPOS" NA VISÃO DE BETO BAIÃO
O COLECIONADOR DE PIRILAMPOS
“— Bom dia, chefe Kaprakata, bom… bom dia. — Saudaram aos soluços Mukwatenu e Mutambulenu.— Bom dia, colegas… que se passa?— É a nossa mãe, chefe […] — que se passa com a vossa mãe?— Está doente, chefe. Hoje mesmo ninguém conseguiu dormir. — Mukwatenu sacou de um lenço de papel para enxugar as lágrimas que corriam como rio… ontem, assim mesmo que estamos a falar, a velha já estava no kimbanda, mas o dinheiro que pediu não temos.— Ok. Então querem um adiantamento…— Sim, chefe.”
“Hoje, não vou bumbar — ligou Mutambulenu ao irmão Mukwatenu.”
“Kafuringa, o homem está decidido em cruzar com o chefe no corredor principal. Conhece a hora dele: oito e um quarto. Foi exactamente neste momento que Kafuringa apareceu diante do chefe com os olhos todos avermelhados.— Chefe Katimba, bom dia. — Disse Kafuringa aos soluços.O homem tinha planeado tudo ao pormenor: um pouco de cebola para provocar as lágrimas, um dente de alho para abafar o hálito do kimbombo da noite anterior e intrujices mal pensadas.”
“Faça uma serpente de bronze e coloque-a no alto de um poste; quem for mordido e olhar para ela viverá.”
“— Taté! Outra cobra? — Exclamou, metendo-se a correr num passo e velocidade que nem o vento dum fechado cacimbo lhe pôde parar.”
quarta-feira, 20 de maio de 2026
P’RA QUE SÓ MANGODINHO? ESSA TUA MORTE É ILEGAL
[Réquiem a Mangodinho]
Não podias, Mangodinho. Você não presta, morrer até podes — a carne é tua — mas, assim também, não.
Era Man Barras excessivamente inconsolável. Ele soube da notícia sobre a morte de Mangodinho no telejornal, pela voz penetrante do jornalista Ernesto Bartolomeu, filho do Sambla, o mesmo lugar de nascimento de Gelson Caio, o kudurista Nagrelha.
Em segundos, a notícia se replicou por todos os canais de comunicação pública e privada, assim como nas redes sociais, onde o falecido tinha uma presença de devoção.
“Mangodinho deu o cardete.”
Mangodinho era uma personalidade que contrastava entre a humildade do campo e a matreirice da cidade. Aquele corpo baixinho e cheio de energia era deveras electrizante. “Sem sintomas notoriamente preocupantes, vens bater as botas assim do nada!”
Lamentava Man Barras, sentado no cadeirão, enquanto mudava de canais sem se perceber do que realmente procurava. Via-se que estava com alguma carga de nervosismo, possuído de tensões hipertensivas próximas da explosão.
“Epa, isso até custa a acreditar. Numa altura em que estou a me candidatar para um cargo superior do partido no próximo congresso e, como prometido, contava com a tua incondicional ajuda… Você, meu camarada, morres assim do nada?! Já viram? Sinceramente, não foi isso que combinamos.”
No seu município, tanto o administrador e os seus adjuntos, o pessoal da secreta, os sobas, os padres e pastores religiosos, até os de gado, todos sabiam da sua ligação a figuras importantes de Angola. Falava com os próprios manda-chuva, gajos de xixi grosso.
No leque das amizades influentes de Mangodinho incluía-se o primeiro presidente do país e os seus colaboradores diretos. Isso, segundo ele.
Conseguiu manter próxima a relação com os coadjuvantes do atual chefe de Estado e circulava bem diante de algumas celebridades, principalmente as do sexo feminino. Diz-se que era o fornecedor da wanga para estas subirem na vida ou, em determinados casos, assegurarem a impossibilidade da perda dos maridos na relação.
Conta-se que ajudou na formação de muita gente: mandava os filhos dos irmãos, dos primos e até de vizinhos para bolsas de estudo em Cuba, na Jugoslávia ou na URSS. Ele era uma espécie de INAB num único corpo.
Como podemos ver, diante de tão célebre figura, com níveis de relações humanas ao mais alto padrão social, um pedido deste filho de Caculo era praticamente inegável. Conforme tinha sido acertado, era com essa influência toda de Mangodinho que o seu amigo Man Barras contava para atingir os altos escalões na cúpula do seu partido na próxima campanha eleitoral.
Eles conheceram-se na tropa, estiveram no mesmo centro de instrução e fizeram juntos a especialidade em artilharia terrestre. Desde então começou uma grande amizade, onde se incluía a partilha de coisas em comum.
Longe das suas terras de origem, quando Mangodinho “meteu barriga” numa menina que fazia parte da população que a tropa teve de trazer para as proximidades do posto de comando, com o propósito de protegê-las das ações do inimigo, foi Man Barras quem se apresentou como tio da parte de pai.
Mesmo sendo de províncias diferentes, o contexto político evocava a união entre os cidadãos da mesma pátria. Aliás, essa era uma palavra de ordem.
No entanto, passada esta fase, com o país já em paz, depois de desmobilizados das forças armadas, Mangodinho voltou para o seu Kalulu, enquanto Man Barras preferiu Luanda, por ter percebido que na capital as suas pretensões políticas teriam sucesso próximo dos órgãos de decisão.
Isso ajudou, de certa forma, a manter a ligação com o seu amigo, visto que sempre que o primeiro viesse à cidade, tinha como local de hospedagem a residência do seu amigo de tropa — casa de onde partia ou era apanhado para tratar de negócios, visitas, tratamentos e outros.
Ter ouvido que Mangodinho morreu foi o maior golpe que podia receber. E agora?!
Como ficam agora as influências para a minha promoção?
Como fica a minha nomeação a deputado ou a governador provincial?
Os carros de luxo e a secretária executiva de salto alto?
Como ficam os guarda-costas e o motorista protocolar e da residência?
Como fica o futuro cargo de embaixador, quando entrar para a reforma?
Como fica a possibilidade de ter um quarto privativo no melhor hotel do país?
As viagens em executiva e o passaporte diplomático, com acesso à sala VIP, é como?
“Oh meu Deus… me leva também, Mangodinho.” Chorava desamparado durante todo o velório, tendo mesmo desmaiado na altura da descida da urna à última morada.
Texto de Lauriano Tchoia (de feliz memória)
sexta-feira, 1 de maio de 2026
O SEGREDO DOS CARACÓIS
In "Contos para a Lúcia"
Certa vez, o pai da Lúcia recebeu de oferta alguns morangueiros vindos do Bié, terra da mãe da menina. Eram plantas jovens, de folhas verdes e brilhantes, que traziam consigo o perfume fresco das chuvas do planalto. Para os plantar, o pai da Lúcia encheu um vaso alto com terra escura e fofa, recolhida da horta.O que ele não sabia era que, misturados àquela terra fértil, vinham também pequenos ovos de caracol — tão minúsculos que pareciam pérolas de vidro escondidas entre os torrões.
Com o passar dos dias, enquanto os morangueiros se adaptavam ao novo lar, começaram a surgir pequenos caracóis. Primeiro eram quase invisíveis, do tamanho de uma unha. Depois foram crescendo, sempre tímidos, sempre silenciosos, até encontrarem abrigo perfeito debaixo das folhas largas e perfumadas dos morangueiros.
Ali, naquele pequeno mundo verde, os caracóis descobriram sombra fresca, gotas de orvalho, pedacinhos de folhas velhas e um sossego que parecia feito à medida deles.
O pai da Lúcia, intrigado, perguntava-se como aqueles seres simpáticos e medrosos tinham ido parar ali. Até que, certa manhã, enquanto regava as plantas, decidiu conversar com eles.
Abaixou-se devagar, para não os assustar, e disse:
— Bom dia, pequenos viajantes. Quem são vocês e como vieram parar ao meu vaso?
Um dos caracóis, o mais corajoso, ergueu as antenas devagarinho e respondeu com voz fina, quase sussurrada:
— Nós viemos escondidos na terra da horta. Os nossos ovos dormiam lá, muito quietos. Quando chegámos ao vaso, acordámos com o calor do sol.
O pai da Lúcia sorriu, curioso.
— E o que fazem durante o dia?
Outro caracol, mais pequenino e muito educado, explicou:
— De manhã, bebemos as gotinhas de água que ficam nas folhas dos morangueiros. Depois passeamos devagarinho, porque caracol não tem pressa. À tarde, descansamos à sombra. À noite, ouvimos o vento a passar pelas folhas. Ele conta histórias bonitas.
O pai da Lúcia achou graça.
— E não estragam as plantas?
O primeiro caracol abanou o corpo, sentindo-se ofendido, mas gentil:
— Nós só comemos folhas velhas ou pedacinhos que já caíram. Gostamos de viver em paz. As plantas dão-nos casa e nós ajudamos a limpar o chão delas.
O pai da Lúcia ficou surpreendido com aquela resposta tão sensata.
— Então vocês também são jardineiros...
O caracol mais velho, que até então estava calado, decidiu falar:
— Somos, sim. E gostamos muito deste lugar. Os morangueiros são bons vizinhos. Eles cheiram bem, dão sombra e nunca reclamam da nossa presença.
O pai da Lúcia levantou-se devagar, olhou para os morangueiros e para os pequenos caracóis, e percebeu que aquele vaso era mais do que um simples vaso: era um pequeno mundo em equilíbrio.
Desde aquele dia em diante, passou a regar com mais cuidado, para não molhar demasiado os caracóis, e ensinou a Lúcia e a sua sobrinha África a observarem aqueles habitantes discretos do jardim.
As meninas adoraram. Davam-lhes nomes, contavam-lhes histórias e até lhes diziam:
— Vocês são os guardiões dos morangueiros.
E os caracóis, orgulhosos, continuavam a sua vida tranquila, limpando o chão, bebendo gotas de orvalho e vivendo em paz debaixo das folhas perfumadas.
E assim, naquele vaso alto, com plantas oferecidas pelo tio Sabino Catumbela, nasceu uma pequena comunidade onde plantas, caracóis e pessoas aprenderam a viver juntas, devagar e felizes.
domingo, 19 de abril de 2026
HISTORIOGRAFIA DE LUBOLU NAS CRÓNICAS DE SOBERANO KANYANGA
[Khilson Khalunga]
“Lubolu e Arredores”, obra de Soberano Kanyanga, é constituída por 8 cadernos, todos interligados, do ponto de vista temático e estrutural, com narrativas curtas que se enquadram no género de crónica, apresentando uma linguagem simples e clara. Nota-se, pelas 65 crónicas que constituem o livro, uma obra de historiografia social, cultural e económica do Kwanza-Sul, especificamente o município do Lubolu e outras zonas circunvizinhas.
A obra “Lubolu e Arredores” apresenta-se como um arquivo simbólico que preserva histórias, tradições e experiências de diferentes comunidades da parte Norte do Kwanza-Sul. As crónicas que constituem o livro não apenas registam eventos históricos, mas também reinterpretam o passado à luz do presente, facilitando a sociedade a construir narrativas que legitimam identidades colectivas e reforçam laços culturais, bem como vivências de determinadas sociedades num determinado tempo, como ilustra o trecho da crónica “primeiro ensaio”, sobre os sacrifícios vivenciados pelos meninos naquela altura dos anos 80 e 90 para terem acesso à escola, devido à distância que os separava entre o local de ensino, as residências e o trabalho no campo.
“Era norma e prazeroso irmos ensardinhados numa carroça de tractor agrícola, o mesmo tractor em cuja carroça nos “magoelávamos” ao sair das aulas para chegar cedo à lavra. Transcorridos os 30 quilómetros (de Israel a Tabango), chegámos molhados pelo suor, sede e calor e foi-nos imposto o ensaio da música que nunca tínhamos cantado”. (KANYANGA, 2026, p.21)
“Keka Ngó sabe lutar (bis)
Olha que a UNITA já estava no Kisongo
A UNITA já kê nos acabar
Só nê possível com o nosso comissário” (KANYANGA, 2026, p.30).
Soberano Kanyanga apresenta-nos um narrador preocupado com os espaços históricos das localidades do Kwanza-Sul, apelando à reconstrução destes espaços que foram destruídos pela guerra civil em Angola. Como se conferir no trecho abaixo:
“(...) a Fortaleza de Kalulu cai aos bocados, como facilmente observará quem para lá se desloca. (...) aproveito lançar um SNF (Salvem a Nossa Fortaleza), procurando que seja lido e alguma alma com poder e apego à memória colectiva se lembre de exercitar a magistratura de influência positiva junto dos poderes político e económico ou mesmo leve mão ao bolso para que se preserve a Fortaleza de Kalulu”. (KANYANGA, 2026, p.36).
Portanto, a nosso ver, construídos estes espaços, serviriam de incentivos para o crescimento do turismo em Angola. Neste sentido, olhamos para a presente obra como exemplificação de que a literatura pode ser usada para questionar estruturas de poder e afirmar identidades marginalizadas. Esse papel da literatura como espaço de contestação é particularmente relevante em contextos pós-coloniais, onde narrativas literárias frequentemente se tornam arenas de luta simbólica por reconhecimento e representação, como afirma Edward Said (1994).
De acordo com a obra, a aquisição da maioridade na cultura Ambundu do Kwanza-Sul é adquirida, para o caso masculino, após o acto de circuncisão, considerado um momento especial não apenas para o rapaz e a sua família, mas para a comunidade no geral, razão pela qual o fim deste acto, que se insere num conjunto de processo, é celebrado em festividades. Para esta cultura, os rapazes, já na fase pré-adolescente, são levados à “casa de água”, local onde é feita a circuncisão, que era feito pelo "mesene" (mestre, na língua deste povo) a sangue-frio. Portanto, enquanto estiver a decorrer o processo todo, não se pode ter presença de mulheres gestantes ou indivíduos estranhos, tendo uma alimentação regrada e bem cuidada e que não pode ser feita por pessoas que tenham mantido relações sexuais durante o processo todo. De regresso à comunidade, os rapazes ganham um novo estatuto, considerados homens maduros. Como se pode conferir nas páginas 125 a 128 desta obra.
“Aos órgãos locais afins, ao simplificado Ministério da Cultura e Turismo pede-se pouco: um miradouro e espaço para estacionamento seguro de veículos, para se poder fazer uma boa foto, ao Sol poente, e manjar o farnel. (...) A recomendação é válida para os locais em que se acham as pinturas rupestres de Ndalambiri ou mesmo junto ao monumento que homenageia o lendário comandante cubano Arguelles Garcia (ambos a caminho do Hebo)”. (KANYANGA, 2026, p. 55 e 56).
Ou como se pode conferir no diálogo entre personagens, destacando a real importância de tornar estes espaços em lugares convidativos para o turismo e não em lugares abandonados, o que pode matar a memória que o espaço carrega.
“– Aqui onde é que vamos comer? Isso nem lugar para dormir tem – disse um dos meus companheiros de viagem.
– É melhor recuarmos para Konda (29 km) ou avançarmos para o Sumbe (a placa apontava 75 Km) – sugeriu o outro”. (KANYANGA, 2026, p. 58).
“– Camarada chefe, aqui não há luz. Dinheiro também não há. O divertimento dos miúdos e dos jovens é só mesmo jogar a bola e beber makyakya.
– Estamos a esperar que reparem a picada e a energia chegue também aqui.
– Eles atrasaram o Kisongo. A nossa vila está em pedaços. Prosseguiu o mais velho para rematar: – Sabemos que vamos ganhar as eleições até aqui no Kisongo, mas temos de ter coragem e pensar no país que nunca acaba”. (KANYANGA, 2026, p. 97).Portanto, Soberano Kanyanga apresenta ao mercado literário uma obra de leitura importante para a preservação da história e da cultura que se assumem como memória de identidade colectiva. Por outra, a conservação da escrita das línguas nacionais na obra representa a preocupação do autor com a preservação da identidade cultural de Angola, servindo de resposta à actual situação do aportuguesamento em que as línguas nacionais vêm sofrendo.
sexta-feira, 17 de abril de 2026
NOTA DE APREÇO AOS PATROCINADORES
Neste momento em que apresento a Vossas Excelências e ao público em geral as obras Amores de Mel’aço e Lubolu & Arredores, dirijo palavras de profunda gratidão aos Conselhos de Administração da Catoca, da Sodiam, da Fundação Brilhante — enquanto braço social da Endiama — e do Luele, pelo apoio determinante que hoje se materializa em livros.
O gesto destas instituições não se limita ao patrocínio: traduz um compromisso claro com a cultura, com a memória colectiva e com a valorização da literatura angolana. É com inteira franqueza que reconheço que, sem este suporte, estas obras não existiriam. A vossa confiança transforma manuscritos em obras vivas, acessíveis ao leitor e integradas no património simbólico do nosso país.
Ao expressar este agradecimento, deixo igualmente um apelo às demais empresas do sector mineiro: que sigam este exemplo e invistam, de forma consistente e visionária, na literatura de qualidade, nas artes e em todas as expressões que fortalecem a identidade cultural angolana. A mineração extrai riquezas da terra; a cultura devolve sentido, pertença e futuro às comunidades.
Renovo, neste acto, a minha estima e reconhecimento.
Estendo, de igual modo, uma vénia ao jornalista sénior da nossa praça, Raimundo Salvador, que não hesitou em aceitar o desafio de ler e apresentar, de forma crítica, Amores de Mel’aço. Menos tempo de preparação teve o jovem jornalista e ensaísta Khilson Kalunga para percorrer Lubolu & Arredores e trazer-nos as suas notas técnicas sobre a obra.
A todos vós — Dirigentes que me prestigiam com o vosso tempo, patrocinadores, leitores críticos, audiência e editora NHConteúdos — o meu muito obrigado!
Os livros deixaram de ser meus. São vossos agora e espero que os leiam, comentem e discutam comigo as vossas (des)aprovações. Prometo-vos, para breve, "O gajo do pastor".
domingo, 1 de março de 2026
MATEUS 5:25
[In: O gajo do pastor]
Era domingo. Segundo domingo do mês terceiro. O edifício de cultos, também conhecido como templo, pertencente à Igreja Pastor Murras – IPM – estava em reabilitação física. Era tempo de carências sociais. Faltava dinheiro às famílias para atender problemas de saúde, falta de empregos, pagamento ou construção de moradias, etc. Na IPM, onde as pessoas se entregavam a granel e levavam os poucos proventos, esperando pela repetição do milagre multiplicador ensaiado com os peixitos e pãezitos, era tempo propício para boas colheitas em oferendas. A alta hierarquia da IPM, à semelhança dos agentes comerciais, publicitava a sua crença nas rádios, nos jornais, em outdoors, e espalhavam-se fliers pelas artérias das grandes cidades, buscando a adesão máxima de pessoas. Os que estavam à rasca posicionavam-se nas filas dianteiras; os mais ou menos iam titubeantes; e os ricaços só iam se fosse para ajudar a lavar o dinheiro conseguido em negócios torpes.
Naquele domingo de chuva e sol, era no alto do seu púlpito que o eloquente pregador Kabwiza cantava como ninguém o fizera até à data, fazendo lembrar os textos sobre os anjos dos céus que louvavam o seu Criador com as suas arpas melodiosas.
— Cantemos então o “Madibesa kala nvula”. — Ordenou o pastor.
Na verdade, esse cântico “roubado” do livro de hinos de uma outra congregação religiosa já secular no país era a versão em kimbundu (uma língua bantu daquele território africano) do primeiro hino cantado na versão lusófona. Para os crentes da Centenária, a IPM era uma “roubadora de hinos alheios e quase sempre mal cantados ou usados apenas para direcionar o povo ao balaio”.
“Madibesa kala nvula” era um trunfo. Todos o cantavam, até os que não percebiam a letra ou que não o relacionavam ao “Tempos de colheita”, também gatunado à Centenária, que tinha grande parte dos seus crentes ambundu ou descendentes destes. Cantou-se “Twabingi nvula kokwe” e caíram dízimos, vinténs e outras partes emotivas.
No fim da cerimónia, o pregador e o tesoureiro iam pesados numa viatura que os rapazes apelidaram de “agarra esse bebé”, já roçada em todos os cantos por causa da imperícia inicial de quem ganhou o seu primeiro carro sem experiência de estrada. Faziam-se a caminho de casa suorentos, sedentos e apertados. Eram cinco no minúsculo “bebé”.
Na derradeira curva, antes da casa, lembraram-se de comprar água para minorar o calor e a sede que os apoquentava. Os homens da farda, que trabalhavam para manter a segurança e a regularidade do tráfego, tanto pensavam nas tarefas que lhes foram acometidas como também banzelavam nos dois feriados que se avizinhavam e que calhavam nos seus dias de folga. Entretanto, foram as mazelas no “bebezinho”, quase a perder a brancura da tinta inicial, que despertaram a atenção da patrulha.
— Quem vai à loja tem dinheiro. — Disse um dos homens de farda azul.
A quintilha esperou-os num largo de pouco movimento e passagem incontornável a quem trafegava naquela rodovia. E não tardou em mandá-los encostar o Suzuki Alto no espaço desocupado que se achava num antigo largo.
— Bom dia, senhores! — Saudou um dos homens, solicitando de imediato os documentos da viatura e os do condutor, que levou ao bolso sem os consultar.
— Cinco pessoas nesse carro é muita gente. De onde vêm e para aonde vão, mais velhos? — Indagou o fardado ao condutor.
— Vimos da igreja e vamos para casa, chefe. — Respondeu o pastor Kabwiza.
— Alguém é pastor entre os irmãos no carro? — Questionou o homem fardado que se achava mais afastado do carro interceptado e cuidando da viatura em que se faziam transportar os homens fardados.
— Sim, chefe. Eu mesmo sou o pastor. Por isso aproveito já para pedir ao chefe que leia os documentos e nos diga se podemos ir para casa. Há ameaça de chuva, como o chefe está a ver o céu escurecido, e com esse carro não dá jeito andar no bairro. — Informou, quase suplicante, Kabwiza.
— Esse saco aí, — apontava para o embrulho — tem lá o quê? Pode mostrar? — Inquiriu o terceiro agente que se fazia à direita da viatura abordada.
— É de oferta na igreja, irmão. É dinheiro sagrado de Deus. — Respondeu o tesoureiro, que ocupava um assento no banco traseiro.
— Ora bem. Vocês são cinco e nós também somos cinco. — Atirou provocador o agente principal, o que tinha os documentos no bolso, olhando para o pastor Kabwiza. — O irmão pode ajudar-nos a tirar uma dúvida que vem na Bíblia? É somente isso e já lhe devolvo os seus documentos, pois tenho certeza de que fará a mais fiel interpretação do santo livro.
— Está bem, filho. Qual o capítulo? — Buscou Kabwiza, que procurava desfazer-se daquela situação ardilosa.
— É Mateus 5:25, irmão pastor. — Recitou o fardado expectante.
Kabwiza folheou rápido o sacro livro e foi ter com o texto: “Concilia-te depressa com o teu adversário, enquanto estás no caminho com ele; para que não aconteça que o adversário te entregue ao guarda, e sejas lançado na prisão. Em verdade te digo que de maneira nenhuma sairás dali enquanto não pagares o último ceitil.” Confirmou logo as intenções dos homens de farda, que tinham a lição estudada, e não precisou de interpretar-lhes o que lera em voz alta. Desceu do carro para poder enviar as mãos ao bolso e, num gesto inoculável para muitos, trocou os centis que lhe restavam na algibeira pelos documentos que aqueciam a mão despida do homem da farda de caqui. Afinal "cá se rouba e cá se paga!"
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026
A MINHOCA LILA E O SÁBADO DE CHUVA
In "Contos para a Lúcia"
Era sábado do mês de Dezembro e começara a chover em Luanda.
Na horta cresciam ervas daninhas que dificultavam o desenvolvimento das herbáceas, como a hortelã, o gengibre, os morangueiros e as couves.
O senhor Luciano decidiu aproveitar a terra húmida para limpar o canteiro.
Ajoelhou-se, puxou uma erva daninha pela raiz e, para sua surpresa, veio agarrada a ela uma minhoca enrolada, muito atrapalhada.
Assim que tocou o chão, tentou fugir, mas um grupo de formigas aproximou-se rapidamente.
— Ai, ai, ai! Socorro! — gritou a minhoca, contorcendo-se. — Eu não quero virar almoço de ninguém!
As formigas responderam em coro:
— Deixa-nos passar, senhor Luciano! Encontrámos o nosso lanche!
O senhor Luciano colocou a mão no chão, protegendo a minhoca.
— Calma, meninas — disse ele às formigas. — Hoje não há lanche aqui. Procurem noutra parte da horta.
As formigas resmungaram baixinho, mas acabaram por seguir caminho.
A minhoca, ainda a tremer, ergueu a cabeça pequenina e disse:
— Obrigada, senhor! Eu sou a Lila, a minhoca mais trabalhadora deste quintal. Não sabia que arrancar ervas daninhas era tão perigoso para mim.
O senhor Luciano sorriu.
— Desculpa, Lila. Não te vi ali. Mas diz-me: o que fazes tu de tão importante debaixo da terra?
A minhoca encheu-se de orgulho e explicou:
— Eu vivo no subsolo quase toda a minha vida. A minha missão é cavar túneis, misturar a terra, deixá-la fofinha e cheia de ar. Também transformo folhas velhas em alimento para o solo. Assim, as raízes das plantas crescem fortes e conseguem beber água com facilidade.
— Então és tu que ajudas a minha horta a ficar tão bonita? — perguntou o senhor Luciano.
— Eu e as minhas irmãs — respondeu Lila, abanando o corpo como quem faz uma vénia. — Sem minhocas, a terra fica dura e cansada. Com minhocas, ela fica viva e feliz.
O senhor Luciano colocou-a na palma da mão e disse:
— Obrigado pelo teu trabalho, Lila. Vou devolver-te ao teu lugar.
Com cuidado, abriu um pequeno espaço na terra húmida e pousou a minhoca lá dentro. Lila mergulhou no solo e despediu-se:
— Até logo, senhor Luciano! Vou continuar a trabalhar para que as suas plantas cresçam ainda mais bonitas!
O senhor Luciano levantou-se, limpou as mãos e continuou a arrancar as ervas daninhas.
Lila, lá em baixo, retomou os seus túneis.
E assim, cada um seguiu com as suas tarefas diárias, ajudando a horta a crescer com mais vigor.
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domingo, 8 de fevereiro de 2026
A NINFA QUE AJUDAVA AS PLANTAS
sexta-feira, 16 de janeiro de 2026
"CONTOS PARA LÚCIA" NA LENTE DE ANTÓNIO KUTEMA
Da alegoria à lição de moral nos Contos para Lúcia, de Soberano Kanyanga
Por: António Kutema
De "Desejo de Kaúia" a "Contos
para Lúcia", Soberano Kanyanga pinta o universo com excelente mancha preta para ficcionar
vivências e, nas suas obras, é possível identificar o imaginário angolano e
delas extrair o encanto das belas artes.
Propusemo-nos em escrever
sobre “Contos para Lúcia” para reorientar o leitor sobre o livro de fábulas,
onde Videira e Eucalipto, Cágado e Caracol, Minhoca Lila e Ninfa são
personagens. Entretanto, constituem corpo e alma do livro “Contos para Lúcia” a
construção da narrativa em que os animais representam aspectos da sociedade
humana e frases curtas que encerram a história.
Por se tratar de fábula, tal
como nos sugere Oswaldo Portela, Contos para Lúcia apresenta duas partes
inseparáveis: (i) uma narrativa alegórica e (ii) uma lição de moral. Assim
sendo, a partir do livro Contos para Lúcia explora-se valores sociais,
culturais, ideias, sentimentos, ao mesmo tempo em que estimula o pensamento
cognitivo e a imaginação.
A maioria do enredo decorre no
quintal do senhor Luciano, pai da menina Lúcia, tirando o conto “Mamã pequena
da escola”, o que pressupõe a centralização do espaço familiar como parte
basilar da educação das crianças – Lúcia e suas sobrinhas. Ou seja, para além
da perspectiva lúdica que o texto oferece, há, sim, valores sociais e culturais
a serem preservados:
À
porta, transformada em ponto de partida, o pai e os três filhos alinhavam-se. A
mãe, com voz firme e olhar distante, fazia perguntas sobre a infância. Cada
resposta afirmativa exigia um passo à frente (Kanyanga, 2026).
A cultura de estar em casa com a família e aproveitar os momentos para conversar, sobretudo, acerca do passado e o presente não tem sido comum em muitas famílias angolanas, porque muitos pais justificam as ausências com trabalho para a melhoria das condições de vida da família. Contudo, o conto “No tempo da Lúcia” remete-nos ao diálogo entre o tempo da meninice do pai e o tempo da Lúcia – desde as dificuldades alimentares, privilégios ao vestuário, condições de vida enfim –, o que não apaga a empatia da Lúcia em se compadecer com os momentos difíceis que o pai viveu.
Convoca-se, então, Pierre
Bourdieu para compreender as estratégias utilizadas por Cágado e Caracol, que
estando no quintal da Lúcia, encasulados trocavam mimos, passando pelo meio
algumas frutas cajá-manga que ambos disputavam.
O Cágado queria
lamber o melaço de cajá-manga, por cima do Caracol e, se lhe fosse possível,
comer o Caracol. (...)Esse, já avisado das intenções do vizinho (viviam no
mesmo quintal e brincavam no mesmo jardim relvado), procurou esconder-se no
mais recôndito espaço, onde a largura e inflexibilidade corporal do Cágado não
permitia atingi-lo [sic]. (Kanyanga, 2026)
Pelo que se constata ao longo
da disputa, cada agente do campo do poder serviu-se das suas artimanhas para
atacar ou defender-se. Entretanto, ressalta-se duas características: astúcia e
sabedoria. Cágado identifica-se como astuto e Caracol como um ser sábio, tal
como o narrador nos apresenta:
Hábil a confundir
seus predadores, o caracol fingiu-se morto e encolheu-se o máximo que pôde na
sua carapaça. O cágado bem tentou colocá-lo entre as mandíbulas e procurar
engoli-lo, mas jamais o volume da carapaça do caracol passaria pela sua
garganta. Cansando, o cágado teve de desistir, deixando o caracol ferido, mas
vivo! (Kanyanga, 2026)
Aprende-se em Contos para
Lúcia, não importando o tamanho da pessoa ou do ser, que todos são importantes
para o engrandecimento da sociedade, basta olhar para simplicidade e sabedoria
dos caracóis, das minhocas, das ninfas e dos pássaros.
Contudo, no conto “A videira e
o Eucalipto” identifica-se a dimensão educativa sobre a importância de não
invejar o próximo, porquanto tudo tem o seu tempo debaixo dos céus. Ou seja,
cada um tem o seu tempo para brilhar e o brilho do outro não pode ofuscar o
teu.
— Ao pé de mim
ninguém cresce - dizia o Eucalipto ameaçador. (...) Com o tempo, a Videira
alcançou o arame farpado que encimava o muro e, sem pressa, foi-se esticando
até alcançar o Eucalipto por um braço encostado ao muro do quintal.
— Cá estou eu.
Duvide mais que não chagaria a ti - disse a Videira entregando-se alegre ao
sol. (Kanyanga, 2026)
Entretanto, a valorização e
respeito pelos mais velhos encerra o livro. Isto é, se respeitarmos os mais
velhos teremos mais tempo de vida, por um lado, o que não se verifica nos actos
do mosquito Kito pela teimosia de não ouvir os mais velhos; por outro lado,
quando se valoriza a mamã pequena ou a tia que tem a mesma idade do que a da
sobrinha, há menos conflito na família e na sociedade.


















