Os alunos que Toneco largava na alfabetização, porque já sabiam soletrar e escrever qualquer coisa, passavam, à noite, ao professor Borracha.
Mangodinho, já eleito secretário da aldeia e Toneco o soba, passou também a ter aulas nocturnas do ensino de adultos, frequentando o IV semestre. Era o equivalente à quarta classe do ensino normal, mas com material didáctico diferente. Já falavam de fracções, números mistos, etc. Em Ciências aprofundavam a Geografia, a Biologia e até parte de matéria que se confundia com Sociologia. Pessoa com quarta classe de adultos, ainda mais do tempo de Agostinho Neto, era mesmo gente e não um qualquer.
Mangodinho terminou essa classe e chegou mesmo a receber o seu certificado de habilitações literárias, assinado pelo Director da Educação, no Sumbe. Ainda em festa, voltou a Luanda, hospedando-se de novo em casa do tio, que não encontrou, pois tinha viajado para a Ásia.
Mangodinho já não estranhava a piscina nem o barulho da electrobomba em carga. Sentado confortavelmente no sofá da sala de estar, tipo “kilamba também”, viajava no pensamento e recordava tempos em que quem ia para fora do país tinha de trazer malas e maletas de lembranças: maçãs, chocolates, rebuçados, garrafões de vinho, roupas exteriores e interiores, sapatos, etc.
— Eu também já exigi lembranças e, quando chegou a vez de fazer a minha primeira deslocação à capital, sofri da obrigação de levar lembranças para os amigos e familiares que ficaram na banda. Eles, os que recebem, sentem-se reconhecidos, valorizados e muito mais. Quem leva vê-se entretanto forçado a ter excesso de bagagem, visitar praças em que se vendam quinquilharias e outras peças de menor preço — matutou.
Mangodinho lembrou-se ainda de uma cena que ouviu contar, sem saber se era verdade ou mentira, mas que recontava também a amigos do interior. Já não usa a expressão “mato” quando se refere à região de que era procedente. E dizia o seguinte: “muitos ministros e directores, quando iam à terra dos Kaputu, também frequentavam feiras, vestidos de meninos, e vasculhavam fardos, regateando valores com os feirantes ciganos”. Mas, felizmente, os tempos mudaram. Agora qualquer um vai ao Dubai, à Namíbia, a Ponta Negra, ao Rio e São Paulo, à China, etc.
Reparando para o mapa com quem trocava olhares, verificou que Singapura, aonde o tio fora, era distante.
— Epá! — gritou para si mesmo. Estava sozinho em casa. — Não é tão peculiar os angolanos viajarem para Singapura, por isso vou fazer uma cartinha que o meu pai (e você) vai ler com saudade de tempos que já lá se foram.
E redigiu assim:
“Ah, Kota! Você vai a Singapura e não despede mais teu aluno da 1ª classe?
Olha, Kota! Até da sala ainda me lembro. Era a nº 1 e eu era o delegado, depois dos colegas todos terem destituído o Kito, que não sabia fazer lista dos colegas barulhentos. Eu, modéstia à parte, e você sabe, era o mais esperto da sala e até me nomearam chefe de Brigada da OPA. Naquele tempo de partido único, onde era proibido o jogo de influências, você ainda disse que eu era teu filho e não podia ser chefe da sala. Mas os colegas todos disseram: não pode ser. O Zequeno é o mais esperto da sala e tem de ser ele o delegado. O Kota já não se lembra?
Lembro-me também da porrada que o Kota me dava por causa do pão. O pão era vendido no depósito. Eram necessárias bichas madrugadoras e já havia caenches que eram os donos do depósito. Tínhamos que ser bons putos para que nos facilitassem a vida. O Kota Ténnis era um deles e, às vezes, tinha que lavar a loiça dele para me ajudar na luta para a compra dos pães.
Havia o Man-Domingo e o irmão dele, cujo nome se apagou da minha memória. Estes eram mesmo já um kabocado bandidos daquele tempo. Ameaçavam e batiam mesmo. Uns chegavam a se mbelar — ferir com facas ou pedaços de garrafas. Faz parte do calão antigo. E eram temidos até pelos pais. Quem não se punha em pé quando o Man-Domingo ou o irmão dele falassem? Essas cenas o Kota não sabe porque ficava a preparar as matérias e a dar aulas. Eu é que ia lá me enfrentar na bicha do pão.
Felizmente os tempos mudaram e os nossos filhos também já não têm necessidade de passar por isso. Vivem em casas boas e não naquelas de pau-apique. Deitam mais comida do que aquela que realmente comem. Têm muitos livros em casa e não lêem nenhum. Gastam mais em um dia do que nós gastávamos em um mês. Têm internet e telefones quando eu era o vosso recadista. Lembra-se o Kota das vezes em que me mandavam transmitir recados ou levar bilhetinhos às vossas amadas? Nem só me davam Kz 5 para o autocarro da ETP.
A minha hora de entrada na escola era às 10 horas e tinha que sair de casa às 9h30, com ou sem pães. Havia dias em que comprava pães e chegava tarde à escola. Ganhava porrada por chegar atrasado às aulas. Outras vezes não chegava a comprar pães porque o carro, um IFA Robur, chegava tarde ao depósito, depois de passar por outros caminhos. Nesses dias, em que ia para casa sem pães, normalmente não me atrasava na escola, mas a surra esperava-me em casa. O Kota, que era o meu camá pressor, gostava de pão!
Os tempos eram de guerra e a violência fazia morada até nos lares. A educação/instrução era à base da força/porrada. E todos aprendíamos e nos forjávamos de acordo com a psicologia da força que imperava. E ninguém reclamava daquilo. As mães, sobretudo a minha, gostavam quando me impunha a lei do porrinho. Quem não gostava era mesmo a mãe grande, a chará da Alcínia, que sempre me acudia na hora da porrada.
Mas, Kota! Ia me esquecendo do motivo desta carta: aqueles sapatos que me deste, quando vieste da Checoslováquia, já se estragaram. Traz-me lá outros.
Olha, Kota! Lembro-me também dum karádio de marca Philips que havia lá em casa, no Rimbe. O Kota deve estar lembrado também. Tinha a inscrição, na parte de trás, “Made in Singapore”. Este pequeno país da Ásia, que o Kota visita, lembra-me o rádio Philips e o Toshiba que o avô Soares Kazenza desmontou para ver o branco que estava a falar dentro dele.
Sei que Singapura é um país muito pequeno mas muito organizado. Estou a ler o atlas e a ver o mapa-múndi. Organização e industrialização deles mete inveja! Por isso mesmo, se o Kota vier só de mãos a abanar, sem lembrança, vamos se cortar, mô inimigo.
Pronto, pai Sabalo-a-Soba, faz boas viagens e traz lembrança, mesmo que sejam contos sobre a vida em Singapura.”
Como lhe foi instruído pelos professores Toneco e Joaquim Borracha, Mangodinho releu três vezes para corrigir os erros e colocar os pontos e os acentos. Quando a tia chegou, com o filho Kasule no braço, não perdeu tempo:
— Ó rapaz, você sabe “face buki”? Manda ainda essa carta no pai e diz que é carta do primo Godinho.
















