[Ensaio sobre Dor, Cura e Enraizamento]
A vida humana é feita de realidades e invencionices. Algumas invenções não chegam ao sol. Permanecem como devaneios íntimos, sem forma nem função. Outras, porém, petrificam-se: tornam-se caminhos por onde passam gerações, crenças que se enraízam no tempo. Este ensaio nasce de uma dessas crenças, a de que as árvores que plantamos podem absorver as nossas dores, prolongar as nossas existências e, em certos casos, salvar-nos da extinção interior.
Plantar uma árvore é mais do que um gesto ecológico ou estético. É, para mim, um acto ontológico. Cada árvore que cresce ao nosso redor carrega uma parte invisível de nós: as nossas lutas, os nossos sofreres, as nossas conquistas. Elas são extensões do corpo e do espírito, testemunhas silenciosas da nossa travessia pelo mundo.
A minha experiência pessoal, que aqui se transforma em teoria, revela uma relação profunda entre o estado físico do corpo e o estado vital das árvores que me cercam. Certa vez, adoeci. Uma árvore jovem, que começava a florir pela primeira vez, secou repentinamente. E eu curei-me. Noutra ocasião, a dor foi mais intensa. Outra árvore murchava enquanto o meu corpo se debilitava. No fim, sobrevivi, e a árvore secou. A troca era clara: a árvore absorveu o que o meu corpo não suportava.
Essa relação não é metafórica. É visceral. Quando adoeci novamente, com mal-estar generalizado, falta de ar ao caminhar e encefalalgia constante, olhei para uma árvore de quinze anos, com cerca de dez metros de altura e um caule de cinquenta centímetros de diâmetro. A sua imponência representava perigo: se caísse, traria prejuízos à casa, ao carro, à cerca eléctrica. Débil, mas ainda lúcido, mandei cortá-la, de cima a baixo, aos pedaços. Quando o tronco remanescente ficou reduzido a setenta e cinco centímetros, senti o meu corpo ser reenergizado. Como se a árvore tivesse cumprido a sua missão: absorver a dor e devolver-me à vida.
Essa vivência dá origem à minha teoria: as árvores são a continuidade do ser. Elas não apenas respiram por nós, mas também sofrem por nós. São receptáculos de energia, dor e memória. No dia em que não houver árvores ao pé de mim, toda maleita será apocalíptica. Porque sem elas, não há onde depositar o excesso de sofrimento que o corpo não consegue metabolizar.
Esta crença não exige validação científica. Ela é filosófica, espiritual e existencial. As árvores são mais do que organismos vegetais: são companheiras de jornada, espelhos orgânicos, pactos silenciosos com a terra. Plantar uma árvore é plantar uma parte de si. E vê-la crescer é testemunhar a própria expansão. Vê-la morrer é, por vezes, sobreviver.
A minha teoria encontra eco em diversas correntes filosóficas:
- Maurice Merleau-Ponty, filósofo da fenomenologia, defende que o corpo não é apenas um objecto no mundo, mas o próprio meio pelo qual o mundo se revela. A minha relação com as árvores é uma extensão dessa corporeidade: elas são parte do meu corpo expandido, absorvendo o que me atravessa.
- Martin Heidegger, ao falar do “ser-no-mundo”, sugere que o ser humano está sempre em relação com o ambiente que o cerca. As árvores, nesse contexto, não são apenas paisagem — são coabitantes do meu ser, partilhando comigo o tempo, o espaço e a dor.
- Tierno Bokar, sábio maliano, dizia que “a árvore é a oração da terra”. Essa visão espiritual da natureza como mediadora entre o humano e o divino reforça a ideia de que as árvores podem ser canais de cura, oferendas silenciosas que recebem o peso da nossa existência.
- Amílcar Cabral, ao falar da luta pela libertação, dizia que “a cultura é a base da resistência”. Plantar árvores, para mim, é um acto cultural e de resistência — contra a dor, contra o esquecimento, contra a morte.
- Ngũgĩ wa Thiong’o, pensador queniano, defende que a natureza é parte da linguagem africana do mundo. As árvores que planto são narrativas vivas, que contam a minha história sem palavras, mas com folhas, troncos e raízes.
Este ensaio é uma tentativa de teorizar uma crença que nasceu da experiência, mas que se sustenta na filosofia, na espiritualidade e na ancestralidade. As árvores são a minha continuidade. E enquanto houver uma árvore ao pé de mim, haverá também a possibilidade de cura.



















