[Khilson Khalunga]
“Lubolu e Arredores”, obra de Soberano Kanyanga, é constituída por 8 cadernos, todos interligados, do ponto de vista temático e estrutural, com narrativas curtas que se enquadram no género de crónica, apresentando uma linguagem simples e clara. Nota-se, pelas 65 crónicas que constituem o livro, uma obra de historiografia social, cultural e económica do Kwanza-Sul, especificamente o município do Lubolu e outras zonas circunvizinhas.
A obra “Lubolu e Arredores” apresenta-se como um arquivo simbólico que preserva histórias, tradições e experiências de diferentes comunidades da parte Norte do Kwanza-Sul. As crónicas que constituem o livro não apenas registam eventos históricos, mas também reinterpretam o passado à luz do presente, facilitando a sociedade a construir narrativas que legitimam identidades colectivas e reforçam laços culturais, bem como vivências de determinadas sociedades num determinado tempo, como ilustra o trecho da crónica “primeiro ensaio”, sobre os sacrifícios vivenciados pelos meninos naquela altura dos anos 80 e 90 para terem acesso à escola, devido à distância que os separava entre o local de ensino, as residências e o trabalho no campo.
“Era norma e prazeroso irmos ensardinhados numa carroça de tractor agrícola, o mesmo tractor em cuja carroça nos “magoelávamos” ao sair das aulas para chegar cedo à lavra. Transcorridos os 30 quilómetros (de Israel a Tabango), chegámos molhados pelo suor, sede e calor e foi-nos imposto o ensaio da música que nunca tínhamos cantado”. (KANYANGA, 2026, p.21)
“Keka Ngó sabe lutar (bis)
Olha que a UNITA já estava no Kisongo
A UNITA já kê nos acabar
Só nê possível com o nosso comissário” (KANYANGA, 2026, p.30).
Soberano Kanyanga apresenta-nos um narrador preocupado com os espaços históricos das localidades do Kwanza-Sul, apelando à reconstrução destes espaços que foram destruídos pela guerra civil em Angola. Como se conferir no trecho abaixo:
“(...) a Fortaleza de Kalulu cai aos bocados, como facilmente observará quem para lá se desloca. (...) aproveito lançar um SNF (Salvem a Nossa Fortaleza), procurando que seja lido e alguma alma com poder e apego à memória colectiva se lembre de exercitar a magistratura de influência positiva junto dos poderes político e económico ou mesmo leve mão ao bolso para que se preserve a Fortaleza de Kalulu”. (KANYANGA, 2026, p.36).
Portanto, a nosso ver, construídos estes espaços, serviriam de incentivos para o crescimento do turismo em Angola. Neste sentido, olhamos para a presente obra como exemplificação de que a literatura pode ser usada para questionar estruturas de poder e afirmar identidades marginalizadas. Esse papel da literatura como espaço de contestação é particularmente relevante em contextos pós-coloniais, onde narrativas literárias frequentemente se tornam arenas de luta simbólica por reconhecimento e representação, como afirma Edward Said (1994).
De acordo com a obra, a aquisição da maioridade na cultura Ambundu do Kwanza-Sul é adquirida, para o caso masculino, após o acto de circuncisão, considerado um momento especial não apenas para o rapaz e a sua família, mas para a comunidade no geral, razão pela qual o fim deste acto, que se insere num conjunto de processo, é celebrado em festividades. Para esta cultura, os rapazes, já na fase pré-adolescente, são levados à “casa de água”, local onde é feita a circuncisão, que era feito pelo "mesene" (mestre, na língua deste povo) a sangue-frio. Portanto, enquanto estiver a decorrer o processo todo, não se pode ter presença de mulheres gestantes ou indivíduos estranhos, tendo uma alimentação regrada e bem cuidada e que não pode ser feita por pessoas que tenham mantido relações sexuais durante o processo todo. De regresso à comunidade, os rapazes ganham um novo estatuto, considerados homens maduros. Como se pode conferir nas páginas 125 a 128 desta obra.
“Aos órgãos locais afins, ao simplificado Ministério da Cultura e Turismo pede-se pouco: um miradouro e espaço para estacionamento seguro de veículos, para se poder fazer uma boa foto, ao Sol poente, e manjar o farnel. (...) A recomendação é válida para os locais em que se acham as pinturas rupestres de Ndalambiri ou mesmo junto ao monumento que homenageia o lendário comandante cubano Arguelles Garcia (ambos a caminho do Hebo)”. (KANYANGA, 2026, p. 55 e 56).
Ou como se pode conferir no diálogo entre personagens, destacando a real importância de tornar estes espaços em lugares convidativos para o turismo e não em lugares abandonados, o que pode matar a memória que o espaço carrega.
“– Aqui onde é que vamos comer? Isso nem lugar para dormir tem – disse um dos meus companheiros de viagem.
– É melhor recuarmos para Konda (29 km) ou avançarmos para o Sumbe (a placa apontava 75 Km) – sugeriu o outro”. (KANYANGA, 2026, p. 58).
“– Camarada chefe, aqui não há luz. Dinheiro também não há. O divertimento dos miúdos e dos jovens é só mesmo jogar a bola e beber makyakya.
– Estamos a esperar que reparem a picada e a energia chegue também aqui.
– Eles atrasaram o Kisongo. A nossa vila está em pedaços. Prosseguiu o mais velho para rematar: – Sabemos que vamos ganhar as eleições até aqui no Kisongo, mas temos de ter coragem e pensar no país que nunca acaba”. (KANYANGA, 2026, p. 97).Portanto, Soberano Kanyanga apresenta ao mercado literário uma obra de leitura importante para a preservação da história e da cultura que se assumem como memória de identidade colectiva. Por outra, a conservação da escrita das línguas nacionais na obra representa a preocupação do autor com a preservação da identidade cultural de Angola, servindo de resposta à actual situação do aportuguesamento em que as línguas nacionais vêm sofrendo.

















