quarta-feira, 1 de junho de 2022

O KISONGO DAQUELE TEMPO

O Kisongo daquele tempo era um conglomerado de aldeias e aldeolas familiares que, juntas, chegavam a 50 mil pessoas.

No dizer dos mais velhos de hoje, que viveram com o colono, ainda anandenge ou já mizangala, nunca, jamais nesse século XXI o Kisongo de hoje, com mais ou menos 5 mil indivíduos que se remedeiam na agricultura e nas poucas fazendas que chegam tímidas, chega à áurea dos anos sessenta (sec. XX).
No vilarejo perdido na selva libolense, a caminho do Kwanza distante, a que chamavam Posto Administrativo, Mulalo, metro e noventa e cinco de altura, corpo de três homens médios, mão grossa e força de ngufu, era cipaio ao serviço da administração. Kambambi, amigo do pai, dos cipaios do acampamento e dos tios que choravam lágrimas e suor sugados pelo sol e palmatória, era o filho derradeiro de Mulalo.
O Phalanga e o Lumbu, irmão dele que lhe puxa, já tinham força para trabalhar, na lavra ou no kalyenge, e frequentavam também o "mbe e â? - Mba!" Por tudo isso, sendo os ajudantes permanentes da mamã, estavam isentados de levar comida ao papá que punha ordem no Posto e nas aldeias aos devassos e fugitivos ao imposto indígena.
Certo dia, tarde de futebol para os adolescentes, sol ardente lá fora e chuva a prometer açoitar os telhados de colmo. Phalanga e Lumbu estavam na bola. Em casa, Nzumba olha para os céus a profecia: Vai cair nvula de encher rios e marido vai dormir no trabalho.
- Kambambi!
- Mamã!
- Vem. Prepara os quedes. Num demora. Vai levar comida no papá. Vi, chegaram do Mbang'wanga pessoas na carrinha do sô 'diministrador. Deve ter trabalho grande. Chuva vai chegar sem escurecer.
Previsão de quem vive o comportamento do tempo é palmatória na mão de Mulalu ou tiro de caçador temperado. Não falha.
Nzumba arrumou a comida para o marido. numa marmita o funji e noutra o conduto: carne de paca apanhada da armadilha do Lumbu. O Phalanga era mais dado à pesca e tinha conseguido uns peixinhos que Nzumba preparou também para o marido. Estavam, com a Kizaka noutra marmita, a terceira e mais pequena de todas.
Era já hábito. Mulher e os filhos sabiam e disso não reclamavam. Quando o trabalho apertasse ou fosse noite de chuva, Mulalu não voltava à casa, preferindo dormitar no acampamento que distava cinco quilómetros da aldeia.
Kambambi meteu-se a caminho, cantarolando como rola ao nascer do sol. Transpôs um riacho e mais dois quando começou a gotejar. Chuva ainda miúda, criança como ele, caindo sobre as folhas das grandes árvores que se faziam paralelas à picada. Acelerou o passo para evitar chegar ensopado. A comida não. Estava segura, com as marmitas embrulhada em um saco de plástico.

Chegou molhado, numa mistura de gotejos pluviais e suor, mas alegre. Entregue a encomenda, passeou os olhos pela sala que se achava enorme, com uma mesa grande e duas cadeiras lado a lado. Era nela que o pai recebia os interrogados, antes de os sovar com a Maria da dores. No canto esquerdo estava um armário adornado com diversas palmatórias, todas elas nomeadas.
- É isso que faz os tios chorar como crianças?! - Interrogou-se sem o verbalizar, ante a presença de um "urso polar", cujo corpaço a todos intimidava e fazia descobrir o que houvesse de mais oculto.

Irrequieto, como são os kasule, Kambambi, num salto de corsa, desfez-se da sala e foi instalar-se à copa de um cafeeiro que exalava um cheiro ímpar, saído de flores virgens cor de neve. Trabalhavam nele alguns presos, sob o olhar de Xiku Adá, que empunhava uma caçadeira "22 longos". Uns faziam a poda atrasada e outros a adubagem, esperando incrementar a colheita do ano.
- Boa tarde, ti Manel, boa tarde tio Ngana Zando!- Cumprimentou, um a um aqueles que conhecia. Alguns eram de bairros próximos. Outros foi conhecendo à medida que ia levando comida e buscando os pratos vazios, mas eram todos do Kisongu.

Chegou a noite com todo o seu silêncio, interrompido, às vezes, pelo rosnar de um cão medrica ou de uma raposa no cio. O sol cedeu lugar às estrelas ofuscadas pela nuvens cinzentas, que viajam e se revezam sem parar, deixando tudo que é luz à mercê dos pirilampos e dos candeeiros do Posto administrativo.
- Kambambi!
- Papá!
- Vem dormir. - Chamou Mulalu ao filho.
- Papá, já tenho lugar no ti Januário!
- Qual Januário? Aquele terrorista?
- Não papá. Ele não é tractorista. Trabalha mesmo com catana na poda do café!
- Vem cá, pá e não te metas com esses trafulheiros que só sabem transgredir. - Voltou a chamar com uma voz mais enérgica.

Kambambi num canto. Um olho mirado para dentro, a contar as palmatórias e outro olho a contar as estrelas que se afundavam nas nuvens passageiras. Vieram-lhe à mente as lágrimas de mais velhos acossados pelas pancadas dos cipaios. Surgiram-lhe também memórias sobre a ternura daqueles tios e a doçura de suas estórias, contadas enquanto trabalham e ele brincando, ao pôr do sol, com os bagos do café que se desprendem das árvores.
- Papá, deixa-me só hoje dormir com eles. O meu papá é tão forte e invencível que eles nunca me fariam mal para não serem palmatoados.
Na cela e num lwandu, com os detidos, Kambambi passou uma noite inapagável. Soube que aqueles tios eram boas pessoas que não mereciam apanhar palmatórias que tiravam lágrimas, ranho e suor. No seu caderninho de memória rígida registou: tio Januário destilou kapuka que todos gostam de beber. Tio Kabari não pagou imposto porque a lavra dele pegou fogo. Tio Jwá Kindundango discutiu com o branco que lhe aumentou dias na renda. Tio Kindala deu cabeçada no mulato que dormiu com a mulher dele. Tio Nguxi lhe apanharam a ouvir rádio proibida. Tio Wayxi lhe apanharam com arma de matar branco. Tio Kambwiji meteu kalembe no rio para apanhar peixe. Tio Nyanga mulher bebeu kandingolo e lhe deu bofa. Ele lhe meteu dente na testa da tia Hebo. Tio Mbumba-a-Lunga não aceitou vender milho dele no sô Kahungu. Tio Kituji lhe apanharam com carta que disseram é panfleto. Tio Phande-a-Umba e Ngana Zando falaram no sô 'diministrador Kisongo é nosso...
Obs: fição pura baseada em relatos sobre a infância de Eduardo Cussendala)

quinta-feira, 5 de maio de 2022

UM "CARAPAU" NA CONSOLA

Era um dia de distribuição de peixe "fresco" que, na verdade, era congelado e raro em Kalulu. O ano, que quase se perde na memória, era 1988. Para quem fosse em visita, a vila estava cheia e agitada. Para nós era apenas "dia do peixe fresco" que faria diferença no almoço e na janta durante a semana. A kizaka, a kabwenya e outros condutos vezeiros estariam, por dias, em gozo de férias, dando lugar ao peixe "cozinhado", grelhado e assado, até acabar, pois poucos tinham meios de conservação.

Calhava vez sim, meses nunca, a chegada da câmara frigoríficas com peixe congelado que era distribuído pelas delegações municipais, empresas públicas, empresas privadas reconhecidas pelo governo e destes para as secções e destas aos trabalhadores.​
O autor desta prosa vivia com um primo professor primário na escola nº 3, na Banza de Kalulu. Por isso, estando ele a ministrar aulas, orientou o "irmão", que já era conhecido dos colegas, para ir à fila e receber as unidades que lhe eram "de direito". Vivia-se ainda o tempo da igualdade entre os iguais, embora havendo já diferença entre os que se mostravam diferentes do "povo em geral".​
Quem vai hoje a Kalululo, encontra, depois da Pensão da Tia Ká uma entrada. Era um largo quintal onde estacionava o camião frigorífico em que eram retiradas as caixas de carapau congelado, distribuído às delegações municipais, administrações comunais e outros organismos públicos e privados. Recebidas as malas, encontravam-se outros espaços para o retalho equitativo pelos
trabalhadores, salvaguardo o estômago largo dos delegados, comissários, chefes de secções e outros que recebiam mais do que a maioria.
Como em todos os tempos, Kalulu já tinha os pequenos "gregos" que andavam com uns artefactos de madeira com um um pico de metal com que "pescavam" nos locais de distribuição.​ Fazia sol e um pouco de poeira. Um dos grupos que procedia a abertura das malas de peixe congelado e distribuição unitária abrigava-se no passeio, debaixo da consola do edifício que comportava a EDIL (foto), hoje Pensão e restaurante. À frente estava o PCU (Posto Comando Unificado), cujas instalações acolhem o comando municipal da polícia.​

Um rapaz desconhecido controlou a desatenção dos distribuidores e receptores de carapau e, sem ser visto, pescou com o seu artefacto um peixe, colocando-se em fuga no meio da multidão.
Um kota, daqueles reguilas que não gostava de perder nenhuma contenda, pôs-se ao encalce do rapaz, desferindo-lhe um veloz pontapé que falhou no menino e acertou no vazio. O sapato, único do dikota, que era funcionário público, voou e encontrou descanso no cimo da laje consola.​ As horas que se seguiram foram para o mwadyakime encontrar uma escada que lhe permitisse reaver o pé direito do sapato castanho.
A rapaziada "pescadora" ficou dividida entre o olho no peixe e a estiga ao kota que perdera o sapato camossim​ por causa de um carapau.​ De lá em diante, os "sapatos de recreio com duas flores", que vinham da Jugoslávia, passaram a ser chamados "carapau".

Texto publicado pelo Jornal de Angola a 14.04.2022

segunda-feira, 18 de abril de 2022

MARROCOS, O SAHARA E A UNIÃO

 

Usei o sábado, 19.03, para participar da minha primeira Assembleia Geral da União dos Escritores Angolanos (admitido a 5.03.22). Enquanto se aguardava pelo quórum, aproveitei, no espaço da União, fazer a dose vacinal de reforço, tendo me sido injectada a AstraZeneca que se comportou bem até ao meu regresso à casa, depois da Assembleia.

Momentos depois, estacionada a viatura, comecei a sentir o corpo todo a entrar em falência. Os membros apresentavam carências e dívidas na relação entre o pensamento fértil e a acção condicionada.


Tal como senti o meu corpo, apercebi-me que assim é o estado da (agora) nossa União: dívidas relativas a salários de colaboradores que chegam a dezenas de milhões de Kwanzas; dívidas com o pagamento de obrigações à segurança social; dívida com uma unidade sanitária, que leva quase década; entre carências e falências várias.
Dos "a receber", anotei: meros kilapis de escritores que levaram livros para vender e que não devolveram a parte institucional por falta de contrato e regulamento. Mais a receber não há no relatório 2019-2021, aprovado, sem voto contra, pela Assembleia.
Olhando do Largo das Escolas para dentro: uma "floresta" e uma estufa que ofuscam a designação, o brio e o brilho da mais antiga instituição associativa intelectual. Quem vê, ao passar, a marca da UEA? E aquela "lavra" de plantas ornamentais, logo à frente de tudo, sombreada por frondosas árvores que desconhecem a têmpera de um machado, catana ou serra eléctrica?!
Adentremos: bambus. Lindos bambus, demandando poda também. Nas dependências do edifício central, velhas mesas, cadeiras e armários que guardam lindas estórias, conhecimentos e reflexões sempre novas. Mas é trôpego o imobiliário, reclamando substituição.
E você que me lê, se calhar se pergunte: o que andou essa malta a fazer durante esse tempo todo? Que fez a equipa do último Secretário Geral?
Pois é. É sobre o último marido da senhora que todos têm os olhos mirados!
1- A UEA é instituição de utilidade pública, merecendo receber dotação orçamental para despesas funcionais, não destinada a pagamento de salários. Entre 2019 e 2021, não pingou na conta da União sequer um vintém de Kwanza.
2- A principal empresa angolana, que era patrocinadora de longa data e com bom caudal, deixou de apoiar, por alegadas dificuldades financeiras.
3- As medidas de prevenção e combate à covid-19 provocaram o fecho de muitas actividades e o  enxutamento das empresas, levando os arrendatários dos imóveis anexos a devolverem-nos. Hoje, demandam obras de reparação para que, com a reabertura dos negócios, se tornem atractivos a novos inquilinos.
3- Pela mesma razão acima evocada (Covid-19), a proibição das actividades sociais, culturais e lúdicas levou à paralisação do café, do njangu e outras dependências da União abertas ao arrendamento pontual.
Em suma, em menos de três anos, "perto de dez fontes de financiamento se fecharam".
Que fazer? Como salvar a União?
A mim, parece que não basta uma voz gritante. São necessárias muitas gargantas estridentes e, acima de tudo, uma combinação de cérebros pensantes que convirjam na solução do mar de dificuldades e manutenção da liberdade e coabitação dos criadores da arte literária e do pensamento evolucionista. É preciso apelar às instituições públicas, privadas e filantrópicas (fundações) a ajudarem a resgatar e preservar o legado histórico-cultural e social da União dos Escritores Angolanos. Todos (membros e sociedade) somos poucos para a empreita.
Se tal não acontecer, mais passa o tempo, mais surgirão "ideias marroquinas com o fito de abocanhar o Sahara Ocidental".
Aí será o fim!
(Membro da UEA)

Obs: Texto publicado pelo Jornal Cultura a 30.03.2022

sábado, 5 de março de 2022

MEU 1° DISCURSO NA UEA

Ilustres Confrades,

Todo o protocolo observado.

Quis o destino que recebesse o meu cartão de membro da União dos Escritores Angolanos das mãos do confrade F. Tchikondo que, na qualidade de Ministro Francisco Queiroz, me "retirou" da Lunda Sul onde trabalhava, havia dez anos.
Obrigado, Dr. Queiroz!

Feito este à parte, permitam-me agora considerar que não é fácil discursar num evento colectivo, quando se é dos últimos a tomar a palavra.
Subscrevo os confrades que me antecederam, quanto ao cumprimento dos deveres de membro desta casa.

Há muito ando ligado à União dos Escritores Angolanos, sem a ela me ter associado. O primeiro livro que li na minha vida, tirando o Manual de Leituras, foi "Mestre Tamoda e Outros Contos", de Uanhenga Xito. Tinha na capa a inscrição 2K, que me lembram ter sido uma edição da ou para a UEA. Foi em 1981. Aí começou a minha aventura pela leitura, além dos livros escolares.
A estudar em Kalulo, comprava e lia Spunik, Jeune Afrique, JDM (mesmo com meses ou anos de atraso) e outros jornais distribuídos pela EDIL.
Depois, já em Luanda, nos anos da frequência do Curso Médio de Jornalismo, passei a ir (vir) à União. No princípio, vinha trazido pela professora Gaby que fazia, na aula seguinte, perguntas sobre as makas da Maka da semana.
Quando aquilo me entrou no sangue, passei a vir sozinho, sem pressão e nem coação, mas vinha só para ouvir os mais velhos falarem sem tabus e trocarem ideias. Algumas destas ideias eu partilhava/discutia também no bairro com os amigos. Outras ficavam guardadas para a peleja de argumentos com os colegas no instituto e, mais tarde, no trabalho.

Não era para ser escritor, muito menos ser membro da UEA. Portanto, vim trazido pela curiosidade de ver, ouvir e escrevinhar sobre o ontem, o hoje e o que pode ser o amanhã parido pela imaginação.
Se me recebeis, como digno de estar no vosso seio, agradeço a honra. Não pretendo ser o mesmo. No âmbito daquilo que é a vocação da União, "independência do pensamento, investigação permanente, reflexão e apologia do debate", procurarei aprender com os mais velhos e ser melhor.
Muito obrigado!

Soberano Kanyanga, UEA, 5.3.2022

terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

NUM "MATONGÊ DAS ARÁBIAS

Que o indiano é comerciante e emigrante por excelência, você, eventualmente, já sabia. Que os "zazás" não se lhes ficam atrás na kandonga e na exportação da sua cultura alimentar para aonde quer que estejam, também é líquido. A novidade deve ser o "casamento" entre o comerciante indiano e a tia congolaise que confecciona e vende fufu, sakamadeso e makayabu.

O ponto geográfico aponta para Deira, uma zona comercial do tipo São Paulo de Luanda ou Hoji-ya-Henda dos anos 90/2000. Aqui, os indianos, paquistaneses e outros "eses" ficam quase num "chega-chega" à minha lojeca, com produtos sem preço que vendem ao critério da pressa ou desatenção do putativo cliente, sobretudo na hora da pausa para o almoço e ou reza muçulmana em que quase tudo fecha.
Uns até chegam a fechar os clientes na loja para melhor os convencer a comprar e ou desistirem de perguntar/procurar por preços mais convidativos.
Mas deixe-me narrar o "matongê".
A fome daquele dia e hora era intensa e não havia mais tempo a perder. Quando o vendedor de periféricos electrónicos nos abordou, apontámos-lhe apenas a boca e a barriga, o que o levaria a perceber a nossa angústia e desistir, temporariamente, do seu "come in, i'l give you a very good price".
- We want eat. - Falei-lhe.
O homem olhou para nossa tez amelaninada e terá também medido o "volume" da nossa fome.
- Came on. I will show you where you can find what you need", disse, num inglês de tom arranhado e de fácil compreensão para um beginner.
Atravessámos um prédio na diagonal, adentrámos outro, subimos num elevador e no terceiro piso, que se parecia a uma vivenda, adentramos um restaurante(?) sem o cuidado que os asiáticos e europeus conferem a lugares para servir comida. Parecia algures no Palanca e tinha de tudo quanto a foto mostra e muito mais: cabritê, sakamadeso, mfúmbwa, fufu, mKaybu, peit'alto, carne seca e, se calhar, até carne de "primo" e makoso!
Por mais caricato que possa parecer, enquanto levávamos ao estômago as "bolas" de fufu, embrulhadas em folhas de maniôc, o comerciante espreitava de cinco em cinco minutos, apelando que não deixássemos de passar pela sua lojeca de bujingangas e outras modernices de curta duração e serventia.
É como se pretendesse deixar clarificado: mostro-vos a comida de vossa terra mas tendes de deixar moedas no meu mealheiro!

quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

VIAGEM DE SONHO

Realizada num 15 de Setembro, já leva século, quase. Não existia ainda a EN120 ou, para ser mais preciso, sobre o largo e caudaloso Kwanza, o novo atalho, desenhado entre o Alto Dondo e o Fortim da Kibala, não possuía ainda travessia. Pretendia-se encurtar a distância entre a crescente capital e a florescente Nova Lisboa de então. Ao pôr-do-Sol emergia a capital do novo distrito, Benguela Velha.

Saudoso do meu Libolo, fiz-me à estrada, na minha Power Glic "olhos de águia". Luanda-Alto Dongo-São-Pedro foi um mimo, dançando ao som roncaresco da bichona.
Chegado ao Kwanza, enorme e apressado de uma viagem que o leva do Citembo a sul de Luanda, deparei-me com a ponte Filomeno da Câmara. Comprida e majestosa. Alta sobre um rio rápido e pedregoso. Quão engenhosos terão sido os seus obreiros!
- Ei-la! - Gritei para mim mesmo, fazendo-se eco, rio abaixo. E a ponte era longa!
Transpu-la. Era Kalulu o destino e Kabuta, do café negro, forte e quente, o próximo marco sem paragem nem narrativa. À passagem, far-se-ia noite, num atalho curvilíneo, sem alcatrão. E assim foi.
Ao raiar do sol, Kalulu à espreita. Quem não te vê?!
Como tu, apenas a capitalíssima do Distrito de Kwanza-Norte, Golungo Alto, que o elevar do comboio a longínquas terras de Njinga pretende levar ao ostracismo. Maldito comboio de 1917!
- Que não nos venham a nós dias nefastos. Soliloquiei.
- A nós basta a Filomeno da Câmara que nos leva ao Huambo e terras inimagináveis dest'Angol'amada! - Cogitei premonitório.
Cheguei a Kalulu, pois claro! Passei a Kapopa e visitei a Missão e o Musafu inteiro. Espreitei a Mbanze dos Dambos. Retornei, pela Pedra Santa, sempre. Alonguei-me no alcatrão, quase sem a cor inicial que fumegava aos olhos negros de pretos cansados de contratado. Passei pela Fortaleza e o Palácio que se esconde em sua axila abaixo. O posto administrativo do Concelho é à direita, contígua à Fazenda onde exploradores de negros depositam moedas lacrimejantes.
Reparei com minúcia as casas da vila, erguidas por brancos da metrópole ou filhos nascidos cá. Albergam hoje mestiços que se dizem donos disto e d'aquilo, da terra também, mas que se negam, na vergonha mesquinha, negros ou brancos. Preferem um termo intermédio!

Mais adiante é o Cassequel, corruptela de areal, extraído do materno Kimbundu. A Mbanze é mais adiante.

Sem mesmo pousar as malas ou limpar a poeira agarrada à Chevy como parasita faminto em hóspede corpulento, pus-me a conversas exploratórias, de bar em bar e de esquina em esquina.
- Olá, nosso patrício! Aceita café?
- É da Kabuta ou do Lwati? Eu aceito, nem que seja da Kisala!
- Tem o Kisongo ainda a Divisão de Agricultura e Florestas? Tem a Munenga o dendém e o girassol? - Café-palavra-café. Fui intercalando.
E nas conversas, a vila que é pequena, rua e meia, no dizer de nossos asoko¹ kibalenses, parecia grande. Os falares depreciativos denunciavam a existência de quatro blocos: o do Hagâcê, o do Cêcê, o dos nativos autóctones da Mbanza e o dos mulatos herdeiros. E parecia que todos os prosélitos se digladiavam, mesmo sem mando ou complacência dos patronos, tirando os mulahatu² e os descendentes de negroides que regaram cafezais com lágrimas e suor.
- Somos os mais fortes, os donos, os mais poderosos, os que mais fizeram, os que mais fazem, os que sempre aproveitaram a terra, os que dão de comer, os que mijam grosso, os que...
- E tu, forasteiro, em que ala te enquadras? - Provocou-me uma cobiçada rapariga de cor cremosa que sugava para si todos os olhos. Era assim onde passasse, embora tida como sem ala.
- Sou de cá. Dos que defendem o todo como união das partes. Sou dos que pedem alcatrão para São Pedro-Kabuta-Kalulu-Kibala. Dos que se indignam com o porvir que há-de-ser com a nova travessia no Kyamafulu! - Respondi amável. Porém, quando me preparava para acolher o abraço dela, despertei da viagem. Era sonho?!
=
¹- Plural de Kis(s)oko, homólogo.
²- Relativo a mestiços ou mulatos.
Obs: texto sujeito à revisão.

segunda-feira, 1 de novembro de 2021

NÂMBWA: A GUERRILHA, A REGIÃO E AS ESTRADAS

Tá maluka, avô chegou, kaleluia são designativos da mota de três rodas (coexistem também as de seis rodas adaptadas para cisternas de transporte de água). A esses nomes, oriundos da rica invencionice angolana, junta-se outro, por ironia coincidente com a designação de uma municipalidade aonde os carros chegam a custo. Nâmbwa. Isso mesmo. Diminutivo de Nâmbuangongo que fica na província do Bengo.

Não sei por que "carga d'água", as kaleluia no Bié, Huambo e Benguela ou tá maluka no corredor leste/tucokwe foram rebaptizadas de Nâmbwa, depois de conhecidas, entre os povos ambundu das cidades, por "avô chegou", alusão à capacidade de transporte de imbamba que só mesmo as avós (avô de mulher) têm paciência e amor para tal.
As primeiras vezes que ouvi falar sobre Nambuangongo ou Nâmbwa e sua árvore ande se confeccionavam luandos (muxi-a-lwandu) era sobre a tenacidade e coragem dos guerrilheiros do MPLA que ali montaram, sem nunca fraquejar, a Primeira Região Político-Militar.
Soube, contado pelos livros e pela oralidade dos adyakime, que "não foi fácil manter o povo organizado e combativo nas matas da região, arreigado na luta contra o colono kaputu e, outras vezes, nos reencontros com os irmãos da UPA".
Os rapazes que cantam "deixa de falar na minha amiga é yabará, kiwaya ou kilapi" também trouxeram o Nâmbwa ao live da televisão que diz "somos todos nós" e mostraram a riqueza cultural da região ao país e ao mundo. Mas sobre o Nâmbwa do futuro, que devia ser já presente, pouco relataram nas canções.
Já na Angola recente, com as estradas a chegarem mais distante, ecoam gritos sobre o estado "lastimável" das picadas. Vozes bem audíveis reclamam "porquê que estando Muxaluando (a sede do Nâmbwa) bem perto de Luanda, a poucos quilômetros de Kaxito, não tem estrada asfaltada".
Vieram promessas, até mesmo adjudicação de obras para que os carros de todas as cilindradas, tamanhos, bolsos e gostos chegassem por lá.
Em conversa, um amigo natural de Muxi-a-luandu (como ele gosta de diferenciar na pronúncia do topônimo) que foi pioneiro na guerrilha, conferiu, a brincar, que "muitos que por lá fizeram a tropa de guerrilha e da salvaguarda da independência subiram na vida e também têm seus carros que gostariam de mostrar os tios e avós que ficaram na banda".
- Como é possível que a minha mãe, para ver o meu carro, tem de vir a Luanda por cima de um Nâmbwa e eu não posso ir mostrar os frutos da participação na guerrilha, formação e trabalho árduo? - Questionava-se o sexagenário., acrescentando "é por isso que temos de gritar até sermos ouvidos".
Via noticiários soube que o Nambuangongo terá já estrada asfaltada e o meu amigo poderá ir, sem enfrentar buracos no período de cacimbo ou lama no tempo chuvoso. Os Nâmbwas vão deixar de fazer viagens longas e cingir-se ao transporte de banana e mandioca da lavra à vila. Afinal, o Nambuangongo é berço da nossa luta, parte da nossa pátria e da nossa História e merece o melhor que outros já têm.

sexta-feira, 1 de outubro de 2021

O RÁDIO E OS "FANTOCHES" DA MINHA VIDA

Em 1977, o meu pai mandou comprar o seu segundo rádio em Luanda. Vivíamos ainda em Kitumbulu (fazenda de meu avô paterno). Era um Philips cinzento, de 4 pilhas grandes, made in Singapura, lembro.

Mesmo sem ladrões por perto, António Fernando Dambi havia inscrito o seu nome na parte superior. Tal receptor, na altura em ondas curtas e médias, durou até 1983, um ano após o seu passamento, desconhecendo-se se o meu finado irmão Fernando o levou como herança única ou se e deixamos perdido nas fugas constantes dos homens da UNITA.
Essa história do rádio vem para trazer à memória o tempo em que me começou a chegar ao ouvido, via rádio, o  termo fantoche.
Certa vez, perguntei ao meu pai o que era fantoche, ao que me terá respondido que "eram bandidos da Unita".
- A Unita é o quê? Eles têm fantoches?
- A Unita mesma é que é fantoche? - Respondera o homem que era de poucas falas e confesso militante do MPLA.
No meu tempo de filho, filho era filho e tinha os seus irmãos, primos e amigos para brincar e ir detalhar. O pai era pai e tinha também os seus irmãos, tios, primos e amigos com quem privar. Pai era pai e não era "amigo do filho". Por isso, contentei-me que "fantoche era Unita e a Unita era fantoche". Era o que aquele aparelho inteligente dizia todos os dias às 13, às 19 no Angola Combatente, e às 20horas.

Para "poupar pilhas", o meu pai ligava o rádio nessas horas e não havia noticiário em que não se falasse de fantoches e bandidos que "eram a mesma coisa!"
Em Setembro de 1979, fui matriculado na "pré-kabunga". Parecia que os fantoches tinham crescido como eu. Na escola, o professor e os manos da quarta classe falavam quase todos os dias sobre os fantoches. Ora abatidos, ora violaram mulheres grávidas e mataram velhos, ora minaram e explodiram pontes e cidades. E nós, os manos mais novos, apenas "seguíamos bala" de conversas codificadas para nossos parcos conhecimentos lexicais: abaixo fantoche! Viva a revolução e o internacionalismo proletário!
Tais conversas deixaram-me mais confuso ainda, ao ponto de voltar a perguntar:
- Pai, proletário é o quê e internacionalismo é o quê?! - Eu era uma máquina de perguntar e ele gabava-se de ter um filho ávido em saber e que crescia com sabedoria. Por isso sempre profetizou que eu seria professor.
- Luciano, ouve bem! - Chamou-me à atenção. - Proletário sou eu que trabalho na fazenda. Todos os trabalhadores são proletários. - Explicou, curto e sem mais detalhes.
- Está bem, papá proletário! E internacionalismo é o quê, pai? - Voltei a indagar, insatisfeito.
António Fernando Dambi agachou-se, como sempre fazia, para que eu subisse ao seu ombro e fôssemos andando. Ele caminhando e eu na "digweza".
- Já viste os camaradas cubanos, nê? - Fez-me recordar.
- Sim, camarada pai proletário! Andam a passar com as colunas (carros militares).
- Pois é. Internacionalistas são os cubanos que saíram da terra deles para vir nos ajudar a lutar contra os fantoches. - Explicou.
- Mas, os camaradas fantoches também são muitos? Têm muita força que nós não "lhes" aguentamos?
O jovem, 39 anos, parecia desinteressado ou eu o estava a perguntar coisas que no seu entender "ainda não eram para a minha idade".
- Olha aí os pássaros. São bonitos nê?! - Tentou distrair-me e ver se eu mudasse de conversa. Porém, lembro-me, que voltei a insistir.
- O papá ainda não me disse se os fantoches são muitos e têm muita força...
- Luciano, os camaradas internacionalistas vieram nos ajudar para não demorarmos a aniquilar os fantoches.
Mal terminou a explicação, sacou da sacola uma banana e deu-ma. Sabia que eu gostava de bananas. Talvez voltasse a pedir mais uma e com banana na boca não perguntaria sobre fantoches e internacionalistas.
Em 1989, quando passei para a sexta classe, ganhei o direito de comprar, na papelaria da escola Kwame Nkrumah, um dicionário, o primeiro da minha vida que era meu. A viver no internato da missão católica de Kalulu e com tempo de sobra para leitura, comecei a "mastigar" o livro.
Descobri que fantoche era um boneco animado por uma mão humana ou por cordéis.
- Porra! - Exteriorizei. - Mas então os unitas são bonecos?
Levei tempo para compreender que era uma alusão metafórica. Uma comparação entre os revoltosos alimentados por agentes externos, tal como os bonecos-fantoches dançam, e a perseguir uma agenda que era de terceiros, o imperialismo de que, dizia o rádio, eram agentes.
O dicionário e o tempo levaram-me a descobrir a expressão, caudilhos, que os fantoches usavam, quando abriram a sua rádio ou usavam a rádio do Peter Bota.
Não é que caudilho é uma "ofensa" boa?! Descobri que a figura do caudilho é fisicamente vigorosa e disciplinada, demonstrando experiência militar e conhecimentos que inspiram as massas a segui-lo e respeitá-lo (aproximando-os do populismo). Dizia-me o Dicionário Prático Ilustrado, de que não sobra folha, que o caudilhismo está relacionado à personificação carismática de um líder.
Senti saudade de ter o meu pai de volta e perguntar-lhe por que é que a guerra entre fantoches e caudilhos estava tão demorada, mesmo com os apoio dos camaradas internacionalistas cubanos. Mas ele já tinha partido para a sua viagem sem regresso. Compreendi que só mesmo os livros e o ouvido atento às conversas dos manos que tinham estudado muito me dariam as respostas.
Antes de ingressar no ensino médio, por via de um teste de aptidão, em 1993, tomei contacto, numa leitura que estava a fazer de uma revista Spunik, o termo guerra fria.
Eu já tinha sobrevivido a dois ataques da UNITA (1984 na Munenga e 1989 em Kalulu). Tinha visto e ouvido falar em valentes sovas dadas aos fantoches pelas gloriosas Fapla, pelos camaradas internacionalistas cubanos e camarada amigos da SWAPO. Sabia que nessas guerras morriam pessoas e as balas eram quentes. É por isso que fugíamos da aproximação dos fantoches ou dos seus ataques. Como é que, afinal, havia guerra fria?
Fui ao dicionário para perceber que era aquela guerra que os comunistas, nossos amigos, e os imperialistas, amigos de nossos "inimigos", faziam no nosso solo pátrio.
- Afinal, com a tal de guerra fria, todos fomos fantoches?!
O camarada proletário António Dambi devia estar vivo para discutirmos essas coisas.
Melhor, foi quando entrei para a universidade, em 2000. Eu com o pico ainda encravado na garganta, por conta daquela resposta de que "proletário sou eu que trabalho na fazenda", descobri que o meu pai estava entre a certeza e incerteza.
Sete filhos gerados em 42 anos era, na verdade um proletário, um feitor de prole. Porém, havia trabalhadores sem filhos e proletários que não trabalhavam. É outra metáfora dos sindicalistas comunistas que aproxima o trabalhador mal remunerado aos meros "fabricantes" de filhos que serviam como soldados em guerras imperiais.
Comprei um Dicionário Enciclopédico e escrevi na segunda folha interior:
- Oferta póstuma a António Fernando Dambi.
É pena que nunca o lerá e, mesmo que voltasse, os netos cuidaram, seguindo meu exemplo de pesquisa, de folhear e desfolhar o mestre mudo da minha consolidação.
Ou ele sabia que o recrudescimento do conflito militar entre fantoches faria deles meros reprodutores para alimentarem a guerra fria?
- Pode ser que ele tivesse razão!

Publicado pelo Jornal Cultura de 5 de Março de 2022 

quarta-feira, 1 de setembro de 2021

A MULHER QUE PERCEBIA AS FORMIGAS

Caminhava exausta pela savana. Era tempo chuvoso e capim alto a mostrar apenas as cabeças de pessoas altas. O sol, bom para alegrar a vida e as sementes a querer ser vida, brilhava no alto dos céus de meio-dia, fazendo-a caloriar[1] como se tivesse atravessado um dos imensos rios a nado.

Perto de uma pequena floresta onde pacaças e alguns elefantes buscavam sombra encontrou um animal inanimado, mas ainda com sinais vitais. Aproximou-se corajosa, sem espingarda, nem catana, e verificou que a pacaça tinha sido atacada por um crocodilo.

- Há carne para conduto, há "mahaki"[2], há pele para alparcata, há chifres para soprar e levar mensagem distante. Haverá festa nas aldeias todas. - Disse a formiga sortuda.

Com auxílio de um pau e uma pedra, desmontou um dos chifres do animal e fez uma corneta. Ganhou mais força ainda. O cansaço que trazia tinha sido literalmente anulado pelo achado. Era só a festa que lhe corria no sangue.

Subiu ao topo de uma kamunda[3] que se achava no centro de cinco aldeias e gritou com toda a força que permitia o seu diafragma:

- Vocês aí, nessa aldeia onde se põe o sol, tragam baldes, facas e homens fortes. Temos pacaça.

Virou-se à nascente:

- Mwa mama, lyatata. Tokano. Ambatano l'ombya phala masaki ly langinga. Utana ly laphoko mwaxyale![4]

Ao norte e sul fez mesmos apelos e, num correr de pouco tempo, a floresta encheu-se de homens e mulheres corajosos, cheios de vigor e vontade de uma rica funjada de miudezas regada com maluvu[5].

As mulheres acondicionaram o sangue, o fígado, o coração, os rins, pâncreas e pulmões em panelas. Com a água trazida nas cabaças as jovens raparigas lavaram as tripas e os intestinos para a confecção de jinginga[6].

Os jovens, rápido acenderam uma fogueira para os assados de primeira hora, enquanto os makota[7] planificavam e repartição do animal pelas cinco aldeias. Depois seria a gestão de cada soba, dividindo a parte a receber por cada lar da sua comunidade.

Essa cena já leva milênios. Porém, até hoje, quando a mulher se senta de baixo da árvore do seu terreiro, a catar os piolhos na cabeça da neta, vem-lhe à memória o grito, daquela formiga que achou no meio do capim uma mosca e chamou todos os seus semelhantes das aldeias à volta para carregarem e repartirem a carne do grande animal que era a mosca.

 



[1] Transpirar.

[2] Sangue para sarrabulho ou para colorir a jinginga (Kimbundu).

[3] Monte, elevação ou pequena montanha (Umbundu).

[4] Mulheres e homens, venham. Tragam panelas para o sangue e as miudezas. Não esqueçam de trazer catanas e facas Kimbundu).

[5] Vinho de palma ou seiva de palmeira (Kimbundu).

[6] Miudezas: tecidos do tubo digestivo, fígado e outros órgãos internos (Kimbundu).

[7] Os mais velhos (Kimbundu).


Texto publicado pelo GAZETA-Lavra e Oficina, UEA, 2021