sábado, 1 de maio de 2021

FUBADA COM CODORNA AO FERIADO

 Mangodinho, na vida dele de homem com careca no lugar de cabelo branco, lugar de peixe é no rio, assim como o do javali é na mata. Na adolescência tentou criar um macaco na jaula e perdiz na capoeira. O tiro saiu-lhe pela culatra. O macaco fugiu na primeira oportunidade em que viu floresta e sem cinto à cintura. Até a perdiz que já aprendia a cacarejar com as galinhas, meteu-se no mato e jamais voltou ao convívio doméstico.

Sempre que pode, viaja pelas malambas e traz aos seus ouvintes os lugares, os bichos e as pedaladas da vida.
- Kandenges, isso é assim. Dias você avança outros se atrasa ou recua. Mas, cada cabelo branco na cabeça, cada cicatriz no corpo, cada

ruga na testa é uma viagem no tempo. - Costuma dizer.
Em mais uma viagem a Ngimbi, Mangodinho foi visitar o amigo Kito Kahala. A amizade deles só faltou mesmo cruzar sangue para se chamarem cunhados ou tio e sobrinho. Se vivessem os dois no interior, fosse Wambu Kalunga ou Mbangu-de-Kuteka, se teriam mesmo oferecido sobrinha ou prima.
Ao puxar a corda que mandara ao poço das lembranças, Mangodinho repescou uma ocorrência antiga dum tempo, que se lembra, era ainda kitutu. Os rapazes à sua volta falavam sobre pássaros. E o kota "contador de cenas" como lhe chamam, lemnbrou-se de um tempo que já voou quando apresentou à mãe a primeira codorniz.
- Mãe, apanhei rola.
- Rola? Parabéns! Mostra ainda. Caçaste com fisga ou caiu na armadilha?
- Lhe apanhei mesmo na corda. Está a ver aquele caminho que deixamos de usar por causa do capim que cresceu muito, nê. Elas ficam aí, tipo estão a banhar com areia e fazem uns kaburacos tipo é para meter lá ovos.
- Mas como é que fizeste então para apanhar rola que vive nos paus?
- Essa vive mesmo no capim. Sempre que vamos brincar elas não voam. Andam bem rápido e se escondem nos funduros, ali onde o capim é alto e com picos ou fogem para os espinhos.
Peguei a avezita, ainda por depenar, e levei à mãe que acondicionava mais lenhas nas maswikas que abraçavam a panela de kizaka.
- Oh, esse é dikombe não é rola. Dikombe vive na mata e faz ninho no chão. Rola é aquela que fica parece pomba, que faz ninho no pau e só desce para comer. Voa rápido e cabeça dele é tipo pessoa com ngimbu.
Mangodinho, conta, abanou a cabeça, em sinal de aprovação da aula de biologia, pousou as armadilhas e foi depenar a avezita, enquanto a mãe fabricava planos sobre o que levaria à mesa. O peixe seco, meia cura, quase a amarelar, seria postergado para próxima funjada.
Pegou alho, jindungu e sal. Fez uma pasta no pequeno almofariz. Pegou tomate maduro e ferveu um bocado. No mesmo almofariz em que pisara o ndungu com alho e sal, triturou o tomate semi-cozido.
O vento nocturno que varria a aldeia informava de casa em casa quem jantaria o quê. Para Mangodinho e os seus, a fubada da janta foi puxada pela codorniz que, aos seus olhos, parecia enorme para a fome de carne que tinha.
- Parabéns meu filho. - Disse-lhe a mãe. - Vê se amanhã consegues mais uma. Anda com os mais velhos para te ensinarem a armadilhar. Homem tem de saber caçar e pescar. A enxada é para as mulheres. - Recomendou antes de ir amamentar a kasule e chamar pelo sono.
De recordação em recordação, Mangodinho contou também que, durante os dias que se seguiram, o seu anelo era encontrar ovos de codorniz. Narrou que a carne tinha sido tão gostosa que queria encontrar os pintainhos, levá-los à gaiola e cria-los na aldeia. Era mera ideia de quem estava cansado de bater orvalho ou capim seco enrolado nos atalhos.
Já na Ngimbi, em casa do seu amigo Kito Kahala, encontrou uma chocadeira de codornizes, num nono andar da cidade do Kilamba.
- Ó Mangodinho, ainda vem.- Chamou Kito Kahala. - Estamos a "galinhar" aqui. - Continuou o anfitrião, puxando pela mão do convidado, enquanto aguardavam pela fubada codornizada.
O convite levava 72 horas e, ao trazer à memória a primeira funjada codornizada, surgiu na cabeça de Mangodinho outra ideia: não comer em casa e guardar espaço vazio no estômago.
No compartimento arejado e bastante higienizado estavam o "berçário" de aves recém-chocadas e três chocadeiras: codornizes, galinhas e patos.
- Aqui saem 500 pintos ao mês. - Contou, Kito, enumerando as técnicas e as quantidades.
- Para chocar codornizes são15 dias. A galinha vinte e poucos dias. Os patinhos saem ao vigésimo nono, quase um mês. A chocadeira demanda temperatura idêntica à do animal e humidade para para que não se queimem os ovos, nem se asfixiarem os pintos na hora de partirem os ovos e saírem para fora.
- Ó mano Kito, isso aqui é obra! E eu a pensar que ainda me faltava comer capim para encontrar ovos de codornizes e fazer gaiola, afinal estão mbora aqui mesmo na cidade? Que maravilha! - Exclamou Mangodinho.
- É mano. Também aprendi com outros criadores, aqui mesmo na cidade.
- E como é que consegues juntar os ovos? Quanto tempo demoram para ovar? - As perguntas do visitante pasmado pareciam chuva de Abril em terra árida.
- Bom, mano, é assim: a codorniz não cuida do ovo. A base da gaiola deve ter inclinação para que elas não os pisem e não os partam. Depois de recolhidos, são bem procurados nas lojas. Os passarinhos também são comprados a bom preço por serem um pitéu gostado pelos homens de garfo e pomada.
Antevendo receber boas novas da cozinha, Kito Kahala tinha já um pé na maternidade e outro no corredor da sala, enquanto dava as últimas explicações.
- Mas, ó mano, não vai ainda. Assim, esses kaovitos são para fritura ou para juntar à carne seca e fazer companhia à pevide?
- Ó Mangodinho, nunca te falaram do resultado do ovo de codorna? É melhor do que comprimido azul. Assim mesmo, se o mano quer que te gostem, leva já duas dúzias e passa a comer três por dia. O resultado não demora!
Mangodinho ficou a pensar nas expressões "garfo e pomada" e num "resultado melhor do comprimido azul". Kito Kahala abriu a porta de saída do compartimento, coincidindo com o chamamento da filha de que a mesa já estava pronta.
- Há vezes em que você encontra o doméstico na selva e o animal selvagem na cidade. A vida tem dessas. O conhecimento demanda andar! - Desabafou Mangodinho enquanto tragava, com as mãos, um apetitoso pedaço de codorniz regado com Don Luciano e Laureano Paulo.

sexta-feira, 2 de abril de 2021

PATRÍCIA E UM PATRÍCIO

Ela era loira, quase albina, e ele negro "etíope" de cabelo grisalho, barba aparada e porte atlético. Parecia atirador num filme de pistoleiros.

Patrícia tinha ares de cow girl: botas altas e negras. Negras da cor do patrício e alta como aquele patrício. Aos dois, quando se pensa num western, só faltavam os equinos. Ela era meiga. Meiga como junco.
Cruzaram à entrada do restaurante Zé dos Cornos, nas Honduras.
Fazia sol e as ondas atlânticas projectavam os ventos às montanhas. Trazido de África, o vento esvoaçavam as roupas leves daqueles dias quentes, mostrando o que o pudor procurava, sem sucesso, guardar em Patrícia. E as tiras avermelhadas, o deserto sem relva, entre os montes aquém gola e a faixa de gaja, ficavam ao léu.
Sentaram-se, por casualidade, à mesma mesa. Castanha como takula. Patrícia enfiou um tubo entre a boca e o copo, sorvendo o fluído de coco. Ao patrício foi servido um destilado de cana-d'açucar e aromatizado.
Planejavam calados, enquanto os pés incontinentes procuravam abraços. Eram únicos nas Honduras.
E quando os pratos começaram a chegar, Patrícia não se conteve e partiu ao ataque:
- Please, can you speak Portuguese or English? I'm from Portugal. I'm on hollidays (por favor, podes falar Português ou Inglês, sou Portuguesa e estou de férias).
- Muito gosto. Sou angolano. I'm here for work (Estou em trabalho).
Apresentados, magicamente encostaram os assentos em direcção ao outro. O suor começava a baixar. Eram reacções físico-químicas num laboratório de tédio. Patrícia estava determinada em atacar. Afinal, tinha um motor solitário 3.9 em busca ardente de estrada plana e longa. O seu íntimo reclamava velocidade há muito postergada.
- Diz lá, tu não comes sopa como entrada?
- Nós não. A nossa entrada é mandioca fervida e jinguba ou mbomba e banana que, regra geral, tomamos em família, minutos antes da refeição principal.
Entre olhares discretos do patrício e incursões territoriais velados de Patrícia, correu mais alguma surdina. Foi pouco tempo que levou o jovem a pedir mais um trago.
Patrícia fizera da palhinha uma palha recortada a dentes. Era tanta a sede por um patrício.
- E tu comes galinha com puré em vez de arroz?
- Sim. Nós comemos funji. Com o arroz alimentamos as galinhas. A galinha e os ovos é que se tornam alimentos para um patrício como eu.
- E os ossos? Vejo que os comes todos!
- É isso mesmo. Os ossos lembram-me o esforço em alimentá-la até chegar à fase da cabidela. Filosoficamente, nós procuramos comer grande parte da galinha, desperdiçando apenas os dejectos, as unhas, o bico, o papo e as penas.
- Mas é uma pena que não deixes ossos para o gatinho!..
- O gatinho? Os felinos são caçadores. Felizmente, nós amamos a natureza e protegemos todos os bichos domésticos e selvagens. Não damos veneno aos ratos, porque pode afectar as galinhas e os cães. Deixamos os ratos para o repasto dos gatos.
- E o cachorro?
- Ah, pois é! O cachorro. Os nossos cães adoram umas bolas de pirão embebidas em molho e ossos triturados. Isso quando não são dias de caça.
- E o que acontece em dias de caça, ó, ó patrício?
- Bem, Patrícia. Sei que é assim que te chamas.
- Sim. Chamo-me Patrícia.
- Pois é. Trataste-me por patrício e revejo-me em Lumumba.
- E quem é esse Lumumba?
- É o Patrice Lumumba cujo exemplo de luta pela liberdade e apoio aos povos subjugados nos valeu o epíteto colectivo de patrício. Mas voltemos ao cão.
- Pois é. Dizias que os vossos cães só comem ossos quando não há caçada...
- Sim Patrícia. Já imaginaste uma rede rota apanhar peixe? Então, pensa no cão que vai repleto de carne temperada à caçada. Dorme na primeira sombra!
- É por isso que vejo os patrícios a comer os ossitos da galinha e a desprezarem a sopa?
- Nim! Às vezes damos a sopa ao cachorro, quando não é de feijão. Mas os ratos são mesmo para o gato!
Selaram o kisoko na madrugada, dando voltas à terra redonda. As viagens, os odores e os prazeres tornaram-se um só.

segunda-feira, 1 de março de 2021

GALINHA COM DUAS MOELAS

No tempo ainda da trafulha, um jovem tecnocrata foi chamado ao governo (jovem naquela época em que a média etária era de sessenta e cinco. Ele tinha cinquenta e seis). 
Constrangido por ter sido levado àquele grupo de má-fama, mas sem como dizer não, lá o jovem adulto decidiu entrar, para não ser expurgado ou mesmo expatriado e assumir o grande desafio de liderar o Organismo mais importante do seu governo. Era o coordenador das principais empresas de commodities e, por isso, responsável pela entrada de moeda externa e demais compromissos externos do Estado. Em linguagem terra-a-terra, diríamos que tudo passaria por ele, embora o chefe máximo não fosse ele. Longe desse poder, os seus dependentes reclamavam, dia sim, semanas também: - Chefe, os outros andam de Mercedes e nós sempre de kupapata. Pode fazer algo-algum junto daqueles exportadores sob dependência de Voss'Excelência? 
- Cuidado. - Dizia ele, a olhar para o seu anelar que conservava uma modesta aliança de ouro monocromático com meros dois milímetros de largura e um de espessura.
- Há indivíduos ávidos de um pequeno pedido para descontarem um grande buraco.
Olhou para o anelar e mediu com palavras.
- Você pede a falangeta e eles cortam o dedo todo para justificar com o seu pedido. Cuidado!
Os dias foram passando. Ele na sua filosofia ética do exercício pleno da probidade. Os seus miúdos, sedentos de extravagâncias induzidas por vozes bairrentas, a reclamar a fome da barriga cheia, sempre ao ataque.
- Chefe, chefe! Olha a meta, chefe. Datamos quase a terminar o mandato. Os outros fizeram pé-de-meia. Pelo menos, faça-nos sentir o roncar de um motor com cilindrada. - Apelou, quase se ajoelhando, um neófito na equipa.
Era dia de feriado e o chefe decidira gastar o dia com os liderados, num exercício de coesão. Kambudi Neto era, na verdadeira acepção da palavra, um Líder que ensinava com exemplos de hombridade, firmeza, bom ser e bem fazer. Era acérrimo seguidor de Machel, para quem os governantes deviam "ser primeiros nos sacrifícios e últimos nos benefícios",
- Jovem, imagine que tem uma capoeira e um cozinheiro. Já viu galinha com duas moelas?
- Não chefe.
- Então, quando a ordem for para matar uma galinha e lhe aparecerem duas moelas no prato, desconfie. A capoeira pode fechar!
- Mas chefe, que tem a ver a capoeira e a empresa?
- Note bem. A capoeira é a empresa. Os activos são as galinhas. Se você manda o cozinheiro (gestor da empresa) matar uma galinha e te apresentar duas moelas no prato, é porque uma galinha levou para casa. Tenha cuidado em fazer pedidos de cabidela a um cozinheiro que gosta de galinha! - Rematou Kambudi.
O repasto prosseguiu, apimentado com isso e aquilo, lições de vida e frases para fazer o tempo voar. Os mais atentos retiveram a lição. Outros agiram como a flecha fleumática: entra de um lado e sai pelo outro.

segunda-feira, 27 de julho de 2020

CONVERSAS EM TEREMBEMBE

O Sol já não era criança. Era muzangala. Pareciam dez e tal. O frio já estava a se esconder e os kangonyeros já tinham se sacudido, preparando-se para ir embora. Antes, partiram mais umas folhas frescas do "marley" que, com certeza, vão fumar amanhã ou logo mais, ao pôr-do-sol.
As mamãs que procedem à rega das hortaliças à volta da lagoa começavam a substituí-los no campo agricultado à volta do depósito natural e artificial de água que a chuva e vianenses mandam ao Terembembe.
Desta vez, se calhar, com medo da serpente que viu ontem, Madó estava bem fardada. Botas mata-cobra, calças jeans, camisola "mamã-me-larga" e casaco pesado por cima. Numa mão um balde regador e noutra a catana e o sacho. Ao avistar a amiga de adolescência, Madalena abriu o rosário:
- Mãezinha, lebras aquela nossa vizinha que era muito amiga da Joaninha?
- Sim, lembro. É o quê então, Madó?
- Eh, miga! S'ncontrei com ela. Ewa! Num te falo!
- É o quê? Xuxa dela já caiu?
- É isso mesmo que iu te falá. Vinte anos, xuxa tipo nenê de doze? Acho lhe atiraram uma merda.
- Também acho. Rabugisse é demais. Pessoa mesmo que num lhe conheces, nem de cima, nem de baixo, lhe acusas te roubou dinheiro, só porque namoras com polícia?
- Assim lhe atiraram mesmo uma merda. Só falta já ter barriga de água.
- Madó, mi fala. Barriga d'água mais é o quê?
- Estás a ver quando as tias falam está gravida mas nenê num se mexe, nem nada, né? Na barriga é só água. Acho que bruxaria que atiraram na Leninha pode ir nesse caminho. Por isso nessa vida é preciso ter cuidado, Mãezinha.
- E assim estás a ir aonde?
- Estou a ir na Estalagem comprar máscaras. Aquele filadaputa do tô cunhado se embebedou ontem e na minha máscara atirou lá molho de frango. Cão comeu os ossos com o pano que ficou todo roído. Mas vai me sentir, só se não só eu Madó da Carreira-de Tiro.
- Não lhe faz mais confusão. Pára já, Madó. Homem de uma só mulher está difícil. As vezes nós mesmas é que provocamos homem te sengar ou te arranjar ajudante.
- Num me fala mais assim Mãezinha. Ele me acordou os kalundús na cabeça. Mas pronto já. Com o teu conselho, vou só comprar máscara e lhe aprontar o almoço.
À moda de Malanje, Madó e Mãezinha deram-se um "kwata-kwata" e partiram cada uma para o seu caminho.
Mãezinha fez gosto ao pé, em direcção à estrada que conduz carros apressados e homens e mulheres andrajosos na preguiça trazida pelo cansaço das pernas empoeiradas. Madó enfiou o corpo no milheiral que cresce e enverdece com a força do estrume fecal levado pela água urbana à Lagoa do Terembembe.

sexta-feira, 26 de junho de 2020

ESCAPOU SER NOMEADO


Quando o amigo que trabalha e trafica informações do gabinete do chefe lhe fwefenhou "vi teu nome, vão te nomear", Ngolombole, contente, como nunca se lhe viu antes, foi à vizinha fazer kilapi de cerveja, cinco caixas; gasosas, três caixas - crianças e mulheres bebem pouco; vinho, um barril de cinquenta; porco, leitão de trinta e cinco quilos; frango e costeletas, duas caixas cada.
- Porra, chegou a vez de quem sempre trabalhou e muito esperou. Disse aos amigos convivas, mesmo com a Covid-19 a colocar-lhes entraves e com a polícia a rondar.
- São invejosos. - Proclamou outro, já encopado.
Na segunda-feira imediata, dia em que a vitrine do organismo público em que labuta estaria prenhe de Editais, foi à boutique "Preto-e-fino" e fez "vale" de um fato escuro, como é quase preceito usá-los em cerimónias de empossamento ou outros de equivalente magnitude. A vestimenta estava completa: casaco de dois botões e duas fendas, colete, gravata, abotoadeiras, calças, camisa branca, sapatos pretos, cinto de cabedal, peúgas, lenço de algibeira e graxa.
Ao lado da boutique, o ourives, que era seu conhecido, não ficou atrás e adiantou-lhe a crédito uma grossa mascote e uma forte corrente d'Ouro. Daí para a barbearia foi meio-caminho. Felizmente, esse foi pago a pronto, pois, antes de empunhar a tesoura confirmava sempre o "mbongo na maboko".
No dia do anúncio dos despachos de nomeação, duas semanas depois, viu-se a preto e branco que, afinal, o seu amigo e informante vira mal.
O nomeado foi Manuel Ngolombole Adão Kambundu e não ele, Adão Ngolombole.
Como pagar as despesas à vizinhança que já cobra de 12 em 12 horas?



segunda-feira, 4 de maio de 2020

O CÁGADO E O CARACOL

Havia quatro dias que os dois encarapaçados trocavam mimos, passando pelo meio algumas cajá-mangas que ambos disputavam.
O Cágado, aos meus olhos, chegou primeiro e fez cortes à suculenta e doce fruta que caíra sobre a relva.
Chamado pelo cheiro, o caracol desfez-se da toca e foi também sorver algum melaço.
Quando a fruta acabou, o cágado foi ao encontro do sabor que o caracol escondia por cima e dentro da sua carapaça.
Seguiram-se outros dois dias de brincadeiras de mau gosto. Foi assim:
O cágado queria lamber o melaço de cajá-manga, por cima do caracol e, se lhe fosse possível, comer o caracol.
Esse, já avisado das intenções do vizinho (viviam no mesmo quintal e brincavam no mesmo jardim relvado), procurou esconder-se no mais recôndito espaço, onde a largura e inflexibilidade corporal do cágado não permitia atingi-lo. Assim foram dois dias, ate que:
Chegou o sol. O caracol precisava de aquecer o seu corpo. Saiu da toca e largou o corpo para fora da carapaça. Não tinha visto que o cágado já lá estava à espera de fruta ou de si.
Astuto, o cagado deixou-se confundir com uma pedra, outra toca que bem podia servir de refúgio para o caracol, em caso de perigo redobrado.
Aos poucos, o cágado, já senhor da situação, foi se descompondo. Abriu os olhos, ainda na sua fortaleza corporal. Esticou o pescoço e mediu a distância entre o caracol e a extremidade da relva. Soltou uma perna, depois outra. Largou as membros superiores e foi ao ataque.
Bem que o caracol ainda tentou encolher-se na sua cápsula. Mas uma golpada do atacante abriu-lhe uma fenda a que se seguiram outros ataques.
Hábil a confundir seus predadores, o caracol fingiu-se morto e encolheu-se o máximo que pôde na sua carapaça.
O cágado bem tentou colocá-lo ente as mandíbulas e procurar engoli-lo mas jamais o volume da carapaça do caracol passaria pela sua garganta.
Cansando, o cágado teve de desistir, deixando o caracol ferido, mas vivo!
Lda, 03.05.2020

quinta-feira, 9 de abril de 2020

A ÚLTIMA LUTA DE PAULO KAMBANGELA

Em Kitumbulu (fazenda, algures no Libolo) dos anos setenta, Paulo Kambangela era ainda miúdo que seu padrasto (avô paterno de Matouymorro) mandava correr com os macacos que davam cabo do milho.

O nome Kambangela (cigarra) está ainda por descortinar. Se calhar, quando nenê, gritava que nem uma cigarra estendida ao sol ardente do meio-dia. Quem é do campo já ouviu o grito estridente de uma cigarra.
Matoumorro, nascido depois do 25 de Abril (aquele Abril de setenta-e-quatro) conheceu Kambangela já aos 15 anos, embora soubesse da relação entre seu avô Ngana Muryangu com a velha Lulu, mãe de Kambangela.
Esguio, de altura média e com bom jogo de pernas e truques com as mãos que deixavam embasbacado o adversário da peleja, Kambangela ganhou, nos anos noventa (estamos a falar do século vinte) a fama de melhor lutador da aldeia de Kuteka. Que jovem não o reverenciava?
Kambangela, no dizer dos luandenses daquela época, "fazia ponta". Isto é, numa casa, podia surrar do mais novo ao mais idoso. À astúcia na peleja, juntava aspectos sádicos e virulentos.
- Éh, luta do mano Paulo só acaba quando ele ganhar. Se você lhe bate e foge ele te persegue ou te faz uma emboscada até te tirar sangue. É por isso que toda a gente lhe tem medo.- Diziam os púberes de então.

Por razões que nunca explicou, Kambangela nutria nutria um ódio visceral contra o seu antigo padrasto Ngana Muryangu, avô de Matoumorro. Assim foi que ao se terem avistado, em 1990, quando Matoumorro se refugiara na aldeia de Bango-de-Kuteka, fugido do ataque da Unita a Kalulu (25 Dez 1989), o lutador-mor encontrou no neto do antigo padrasto uma oportunidade de vingança.

Matoumorro, nos seus 15 anos, já era costureiro, profissão que aprendera dois anos antes com um primo com quem viveu em Kalulu. Estava, por isso, em casa do Ngunza-a Mbondondo, ajudando-o a colocar bainhas em alguns panos. Quando Kambangela, que era "kiphá" (contemporâneo) de Mbondondo, o viu começou a disparar em jeito de provocação.
- Xê, seu burro de merda, vais estragar a máquina de coser.
- Se o kota não saber, aprendi com o grande mestre Nguza-a-Soba e o kota Nando Mbondondo só me chamou porque sabe que posso ajudá-lo. Defendeu-se Matoumorro.
- Disseste o quê, neto de feiticeiro? Hoje vais me sentir que até o teu avô vai ressuscitar para te acudir.

Matoumorro ainda tentou justificar-se mas os cinco dedos calejados de Kambangela já tinham deixado marcas no seu rosto.

A audiência, conhecedora da malvadez do agressor, se conteve, embora reconhecendo que o rapaz nada fizera de errado para merecer tamanha agressão.
- Não te fiz, nada kota. Se me deres mais vou ter de me defender. - Atirou o rapaz, cujos nervos subiam à epiderme.
Ouvido isso, primeira vez em que Kambangela fora desafiado, o lutador da aldeia queria fazer do rapaz seu batuque.
- Lelo ngumuxika (hoje vou batucá-lo)! - Disse à plateia que aumentava minuto a minuto. Uns tentando acudir mas sem pretender se comprometer e outros com sede de ver sangue e um julgamento posterior na grande árvore do soba Mungongo.

Para o impedir de fugir, Kambangela pressionou Matoumorro pelos ombros, impossibilitando-o de se levantar da cadeira. Jamais tinha imaginado que o seu peso diminuto era vantagem para o adolescente que se pôs em pé com o adversário pendurado às costas.
Kambangela parecia estar lyambadu. Seus olhos eram sangue. Espumava pela boca à medida que rebuscava o mais profundo disparate contra o avô, o pai e a mãe de Matoumorro, por sinal sua parente.
Já fora da sala, levado às costas pelo adolescente, Kambangela tentou usar a sua táctica de sempre. Jogo de pernas, como fazem os pugilistas, e batimentos no peito que terminavam, sempre e certeiramente, com um golpe ao adversário.
Atento e já destemido, Matoumorro agarrou-o pelos ombros e espetou-lhe uma valente cabeçada que atirou o "Golias" ao solo rígido.
- Ewe?! - Gritou a plateia entre júbilo, pela derrota de kambangela, e medo do porvir.
- Corre. Vai. Fecha-te em uma casa. O Kambangela vai te matar. - Aconselharam outros.
A Cena seguinte foi Matoumorro a correr, seguindo os conselhos dos familiares mais directos e Kambangela a correr em direcção à sua casa, como se fosse em busca de algo contundente para se desforrar. Já não foi visto naquela tarde e noite.

No dia seguinte havia uma caçada pelas montanhas de Kitumbulu (junto à fazenda do avô paterno de Motoumorro (ex padrasto de Paulo Kambangela).
Não vai. Quando voltarmos vamos associar carne para ti. O mano Paulo pode te flechar. - Desaconselharam o rapaz a sair de casa.

Sem medo e com o atrevimento da idade, Matoumorro meteu-se a caminho do sertão, mesmo sem zagaia e flechas. Evitaram-se durante a caçada que durou 6 horas. Foi mais Kambangela quem andou distante do infante. De lá para cá nunca mais Paulo Kambangela lutou e ficou desfeito o seu mito de lutador invencível do Kuteka.