Da alegoria à lição de moral nos Contos para Lúcia, de Soberano Kanyanga
Por: António Kutema
De Desejo de Kaúia a Contos
para Lúcia, Soberano Kanyanga pinta o universo com excelente mancha preta para ficcionar
vivências e, nas suas obras, é possível identificar o imaginário angolano e
delas extrair o encanto das belas artes.
Propusemo-nos em escrever
sobre “Contos para Lúcia” para reorientar o leitor sobre o livro de fábulas,
onde Videira e Eucalipto, Cágado e Caracol, Minhoca Lila e Ninfa são
personagens. Entretanto, constituem corpo e alma do livro “Contos para Lúcia” a
construção da narrativa em que os animais representam aspectos da sociedade
humana e frases curtas que encerram a história.
Por se tratar de fábula, tal
como nos sugere Oswaldo Portela, Contos para Lúcia apresenta duas partes
inseparáveis: (i) uma narrativa alegórica e (ii) uma lição de moral. Assim
sendo, a partir do livro Contos para Lúcia explora-se valores sociais,
culturais, ideias, sentimentos, ao mesmo tempo em que estimula o pensamento
cognitivo e a imaginação.
A maioria do enredo decorre no
quintal do senhor Luciano, pai da menina Lúcia, tirando o conto “Mamã pequena
da escola”, o que pressupõe a centralização do espaço familiar como parte
basilar da educação das crianças – Lúcia e suas sobrinhas. Ou seja, para além
da perspectiva lúdica que o texto oferece, há, sim, valores sociais e culturais
a serem preservados:
À
porta, transformada em ponto de partida, o pai e os três filhos alinhavam-se. A
mãe, com voz firme e olhar distante, fazia perguntas sobre a infância. Cada
resposta afirmativa exigia um passo à frente (Kanyanga, 2026).
A cultura de estar em casa com a família e aproveitar os momentos para conversar, sobretudo, acerca do passado e o presente não tem sido comum em muitas famílias angolanas, porque muitos pais justificam as ausências com trabalho para a melhoria das condições de vida da família. Contudo, o conto “No tempo da Lúcia” remete-nos ao diálogo entre o tempo da meninice do pai e o tempo da Lúcia – desde as dificuldades alimentares, privilégios ao vestuário, condições de vida enfim –, o que não apaga a empatia da Lúcia em se compadecer com os momentos difíceis que o pai viveu.
Convoca-se, então, Pierre
Bourdieu para compreender as estratégias utilizadas por Cágado e Caracol, que
estando no quintal da Lúcia, encasulados trocavam mimos, passando pelo meio
algumas frutas cajá-manga que ambos disputavam.
O Cágado queria
lamber o melaço de cajá-manga, por cima do Caracol e, se lhe fosse possível,
comer o Caracol. (...)Esse, já avisado das intenções do vizinho (viviam no
mesmo quintal e brincavam no mesmo jardim relvado), procurou esconder-se no
mais recôndito espaço, onde a largura e inflexibilidade corporal do Cágado não
permitia atingi-lo [sic]. (Kanyanga, 2026)
Pelo que se constata ao longo
da disputa, cada agente do campo do poder serviu-se das suas artimanhas para
atacar ou defender-se. Entretanto, ressalta-se duas características: astúcia e
sabedoria. Cágado identifica-se como astuto e Caracol como um ser sábio, tal
como o narrador nos apresenta:
Hábil a confundir
seus predadores, o caracol fingiu-se morto e encolheu-se o máximo que pôde na
sua carapaça. O cágado bem tentou colocá-lo entre as mandíbulas e procurar
engoli-lo, mas jamais o volume da carapaça do caracol passaria pela sua
garganta. Cansando, o cágado teve de desistir, deixando o caracol ferido, mas
vivo! (Kanyanga, 2026)
Aprende-se em Contos para
Lúcia, não importando o tamanho da pessoa ou do ser, que todos são importantes
para o engrandecimento da sociedade, basta olhar para simplicidade e sabedoria
dos caracóis, das minhocas, das ninfas e dos pássaros.
Contudo, no conto “A videira e
o Eucalipto” identifica-se a dimensão educativa sobre a importância de não
invejar o próximo, porquanto tudo tem o seu tempo debaixo dos céus. Ou seja,
cada um tem o seu tempo para brilhar e o brilho do outro não pode ofuscar o
teu.
— Ao pé de mim
ninguém cresce - dizia o Eucalipto ameaçador. (...) Com o tempo, a Videira
alcançou o arame farpado que encimava o muro e, sem pressa, foi-se esticando
até alcançar o Eucalipto por um braço encostado ao muro do quintal.
— Cá estou eu.
Duvide mais que não chagaria a ti - disse a Videira entregando-se alegre ao
sol. (Kanyanga, 2026)
Entretanto, a valorização e
respeito pelos mais velhos encerra o livro. Isto é, se respeitarmos os mais
velhos teremos mais tempo de vida, por um lado, o que não se verifica nos actos
do mosquito Kito pela teimosia de não ouvir os mais velhos; por outro lado,
quando se valoriza a mamã pequena ou a tia que tem a mesma idade do que a da
sobrinha, há menos conflito na família e na sociedade.

Li a obra na integra e gostei ainda mais a visão apresentada pelo meu professor Kutema
ResponderEliminarPara nós como futuros escritores é uma honra poder ter contacto com este material
Se continuar assim...rumo a excelência literária
Parabéns professor Antônio Kutema