sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

"CONTOS PARA LÚCIA" NA LENTE DE ANTÓNIO KUTEMA

Da alegoria à lição de moral nos Contos para Lúcia, de Soberano Kanyanga

Por: António Kutema

De Desejo de Kaúia a Contos para Lúcia, Soberano Kanyanga pinta o universo com excelente mancha preta para ficcionar vivências e, nas suas obras, é possível identificar o imaginário angolano e delas extrair o encanto das belas artes.

Propusemo-nos em escrever sobre “Contos para Lúcia” para reorientar o leitor sobre o livro de fábulas, onde Videira e Eucalipto, Cágado e Caracol, Minhoca Lila e Ninfa são personagens. Entretanto, constituem corpo e alma do livro “Contos para Lúcia” a construção da narrativa em que os animais representam aspectos da sociedade humana e frases curtas que encerram a história.

Por se tratar de fábula, tal como nos sugere Oswaldo Portela, Contos para Lúcia apresenta duas partes inseparáveis: (i) uma narrativa alegórica e (ii) uma lição de moral. Assim sendo, a partir do livro Contos para Lúcia explora-se valores sociais, culturais, ideias, sentimentos, ao mesmo tempo em que estimula o pensamento cognitivo e a imaginação.

A maioria do enredo decorre no quintal do senhor Luciano, pai da menina Lúcia, tirando o conto “Mamã pequena da escola”, o que pressupõe a centralização do espaço familiar como parte basilar da educação das crianças – Lúcia e suas sobrinhas. Ou seja, para além da perspectiva lúdica que o texto oferece, há, sim, valores sociais e culturais a serem preservados:

À porta, transformada em ponto de partida, o pai e os três filhos alinhavam-se. A mãe, com voz firme e olhar distante, fazia perguntas sobre a infância. Cada resposta afirmativa exigia um passo à frente (Kanyanga, 2026).

A cultura de estar em casa com a família e aproveitar os momentos para conversar, sobretudo, acerca do passado e o presente não tem sido comum em muitas famílias angolanas, porque muitos pais justificam as ausências com trabalho para a melhoria das condições de vida da família. Contudo, o conto “No tempo da Lúcia” remete-nos ao diálogo entre o tempo da meninice do pai e o tempo da Lúcia – desde as dificuldades alimentares, privilégios ao vestuário, condições de vida enfim –, o que não apaga a empatia da Lúcia em se compadecer com os momentos difíceis que o pai viveu.

Convoca-se, então, Pierre Bourdieu para compreender as estratégias utilizadas por Cágado e Caracol, que estando no quintal da Lúcia, encasulados trocavam mimos, passando pelo meio algumas frutas cajá-manga que ambos disputavam.

O Cágado queria lamber o melaço de cajá-manga, por cima do Caracol e, se lhe fosse possível, comer o Caracol. (...)Esse, já avisado das intenções do vizinho (viviam no mesmo quintal e brincavam no mesmo jardim relvado), procurou esconder-se no mais recôndito espaço, onde a largura e inflexibilidade corporal do Cágado não permitia atingi-lo [sic]. (Kanyanga, 2026)

Pelo que se constata ao longo da disputa, cada agente do campo do poder serviu-se das suas artimanhas para atacar ou defender-se. Entretanto, ressalta-se duas características: astúcia e sabedoria. Cágado identifica-se como astuto e Caracol como um ser sábio, tal como o narrador nos apresenta:  

Hábil a confundir seus predadores, o caracol fingiu-se morto e encolheu-se o máximo que pôde na sua carapaça. O cágado bem tentou colocá-lo entre as mandíbulas e procurar engoli-lo, mas jamais o volume da carapaça do caracol passaria pela sua garganta. Cansando, o cágado teve de desistir, deixando o caracol ferido, mas vivo! (Kanyanga, 2026)

Aprende-se em Contos para Lúcia, não importando o tamanho da pessoa ou do ser, que todos são importantes para o engrandecimento da sociedade, basta olhar para simplicidade e sabedoria dos caracóis, das minhocas, das ninfas e dos pássaros.

Contudo, no conto “A videira e o Eucalipto” identifica-se a dimensão educativa sobre a importância de não invejar o próximo, porquanto tudo tem o seu tempo debaixo dos céus. Ou seja, cada um tem o seu tempo para brilhar e o brilho do outro não pode ofuscar o teu.

— Ao pé de mim ninguém cresce - dizia o Eucalipto ameaçador. (...) Com o tempo, a Videira alcançou o arame farpado que encimava o muro e, sem pressa, foi-se esticando até alcançar o Eucalipto por um braço encostado ao muro do quintal.

— Cá estou eu. Duvide mais que não chagaria a ti - disse a Videira entregando-se alegre ao sol. (Kanyanga, 2026)

Entretanto, a valorização e respeito pelos mais velhos encerra o livro. Isto é, se respeitarmos os mais velhos teremos mais tempo de vida, por um lado, o que não se verifica nos actos do mosquito Kito pela teimosia de não ouvir os mais velhos; por outro lado, quando se valoriza a mamã pequena ou a tia que tem a mesma idade do que a da sobrinha, há menos conflito na família e na sociedade.




1 comentário:

  1. Li a obra na integra e gostei ainda mais a visão apresentada pelo meu professor Kutema
    Para nós como futuros escritores é uma honra poder ter contacto com este material
    Se continuar assim...rumo a excelência literária
    Parabéns professor Antônio Kutema

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