segunda-feira, 25 de maio de 2026

"O COLECIONADOR DE PIRILAMPOS" NA VISÃO DE BETO BAIÃO

O COLECIONADOR DE PIRILAMPOS

de
SOBERANO KANYANGA
Por: Beto Baião, Poeta, Filósofo, Investigador
albertobaiao21@gmail.com
Uma viagem em forma de literatura contempla-se na obra supracitada. O autor descreve, em 60 páginas do seu livro, o quotidiano da cultura angolana e concebe um vir-a-ser da realidade humana, num estilo etnográfico e anedótico.
Num universo da linguagem Cokwe, Umbundu, Kimbundu e Kwanhama, o autor narra vários aspetos que quotidianamente acontecem nos locais de trabalho e nas relações interpessoais, como se pode ler nas páginas: 13 (Makoji), 23 (O Irmão da Igreja), 29 (A Mãe do Meu Amigo) e 37 (O Pagador de Juros), onde Soberano Kanyanga, numa nota de ideias profícuas e um estilo crisálido, amigo e cativante, leva o leitor à atualidade do real, num campo do meramente actual, como algo já de si.
O autor, no seu método dialógico e anedótico, apresenta uma tricotomia entre a Antropologia Cultural, questões sociológicas e psicológicas. Procura criticar a razão do ente enquanto ser. Procura também abordar questões ligadas à axiologia e à busca do fim último da existência humana. Mas a parte suma da obra está versada numa investigação riquíssima em etnografia e etnologia. O autor expõe questões muito próximas da realidade atual angolana, que, bem interpretadas, podem ser vivenciadas na vida particular de cada leitor.
A sua passagem pela região Leste de Angola, em particular pela cidade de Saurimo, fez com que o autor desenhasse, em palavras vivas, culturais, antropológicas, sociológicas e históricas, a modernidade da cultura Lunda-Cokwe. O Colecionador de Pirilampos, de Soberano Kanyanga, não é apenas uma obra de contos, mas sim uma reflexão profunda sobre a educação do homem novo e o resgate de valores éticos, morais, culturais e sociais.
Como se pode constatar em A Mãe do Meu Amigo (p. 29), o autor retrata a realidade nua e crua do comportamento humano no ambiente laboral, onde alguns, mesmo conhecendo a máxima latina “Dura lex sed lex” — a lei é dura, mas é lei — preferem enganar a entidade patronal para desfrutarem, a seu belo prazer, da ociosidade, vivendo sempre à custa de quem perde, como se discursa na linguagem angolana.
É nesta perspetiva que o autor apresenta um diálogo que reflete extorsão, entre Mutambulenu e Mukwatenu:
“— Bom dia, chefe Kaprakata, bom… bom dia. — Saudaram aos soluços Mukwatenu e Mutambulenu.
— Bom dia, colegas… que se passa?
— É a nossa mãe, chefe […] — que se passa com a vossa mãe?
— Está doente, chefe. Hoje mesmo ninguém conseguiu dormir. — Mukwatenu sacou de um lenço de papel para enxugar as lágrimas que corriam como rio… ontem, assim mesmo que estamos a falar, a velha já estava no kimbanda, mas o dinheiro que pediu não temos.
— Ok. Então querem um adiantamento…
— Sim, chefe.”
Atitudes como estas são vivenciadas em vários postos de trabalho: pessoas que vivem mentindo para ganharem uma solidariedade esforçada dos colegas ou mesmo dos seus superiores. Como se pode ainda ler na página 30, sobre o mesmo diálogo doentio:
“Hoje, não vou bumbar — ligou Mutambulenu ao irmão Mukwatenu.”
Que tamanha irresponsabilidade e falta de amor ao trabalho! Atitudes como estas, de Mutambulenu e Mukwatenu, refletem algumas vezes a realidade hodierna. Para a literatura Cokwe, Mutambulenu significa “lhe recebam”. Em questões morais, todo aquele que não trabalha com afinco deve ceder o seu emprego àquele que melhor presta serviço. Já o nome Mukwatenu, para a mesma literatura, virá significar “lhe segurem” ou “lhe peguem”. E, de tanto mentir à entidade patronal, foi pego na sua suma falsidade.
Em O Colecionador de Pirilampos, o autor procurou aprofundar vários aspetos da antropologia e etnografia Cokwe, tal como se pode testemunhar em Manongo Nongo da Maura (p. 19). Para os povos do Leste de Angola, este termo traduz uma grande festa ou alegria na família quando se recebe um novo membro. Geralmente, comemora-se este evento com banquete, como algo sagrado na cultura Cokwe.
Soberano Kanyanga, nesta epístola, aborda em forma de contos e outros elementos aspetos ligados à Filosofia Moral para as novas gerações, ao sentimento de pertença e à responsabilidade social. Tal como critica o comportamento de Kafuringa, em Irmão da Igreja (p. 23), Kanyanga, que também é antonomásia — soberano —, oferece-nos uma cintilante cogitação sobre o comportamento negativo de vários funcionários que procuram emprego para a satisfação dos seus caprichos.
Olhemos para esta condenação:
“Kafuringa, o homem está decidido em cruzar com o chefe no corredor principal. Conhece a hora dele: oito e um quarto. Foi exactamente neste momento que Kafuringa apareceu diante do chefe com os olhos todos avermelhados.
— Chefe Katimba, bom dia. — Disse Kafuringa aos soluços.
O homem tinha planeado tudo ao pormenor: um pouco de cebola para provocar as lágrimas, um dente de alho para abafar o hálito do kimbombo da noite anterior e intrujices mal pensadas.”
De lembrar que este diálogo aconteceu numa manhã de segunda-feira, dia propício para uma fecunda prestação laboral e digna avaliação aos colaboradores. Na sua mais alta astúcia, Kafuringa apresenta-se como um enlutado para escapar-se do dia laboral, mas, na ausência de um verdadeiro argumento sobre a suposta transição ao Vaticano do Além do seu suposto irmão falecido, depois de um sincero interrogatório do seu superior, revela que não era seu irmão sanguíneo, mas sim da Igreja.
Já em A Cobra do Hospital (p. 25), Soberano Kanyanga conduz-nos à reminiscência profética e teológica, ou então histórica, revelada em Números 21,8-10:
“Faça uma serpente de bronze e coloque-a no alto de um poste; quem for mordido e olhar para ela viverá.”
Neste diapasão, no modo anedótico, o autor narra a estória do ancião Xisa Wanga, sábio da aldeia de Wanga Kalunga, que fora mordido pela cobra na mata. Mas, por ter sido pessoa de capital importância para os aldeões, é transportado para um hospital da vila de Tala Boxi. Para o maior espanto de todos, o Velho Grande, antes mesmo de dar entrada ao lugar onde seria socorrido, anuncia a sua cura ao ver estampada na parede do hospital mais uma cobra — aquela que, segundo a mitologia grega e simbologia da medicina, é chamada bastão de Asclépio ou bastão de Esculápio, colocada em hospitais, farmácias, centros médicos ou consultórios.
Na mitologia grega, Asclépio, ou Esculápio, representava o deus da medicina e da cura. Tinha como patriarca Apolo, o deus do Sol, e da mortal Corónis. É nesta via que o ancião exclama e discursa:
“— Taté! Outra cobra? — Exclamou, metendo-se a correr num passo e velocidade que nem o vento dum fechado cacimbo lhe pôde parar.”
Xisa Wanga ficou curado sem uma injeção ou comprimido lhe tivesse sido ministrado pelo médico. Milagre ou trama? Só os deuses saberão responder esta questão!
A maior riqueza de O Colecionador de Pirilampos, de Soberano Kanyanga, reside no valor antropológico, etnográfico, histórico, sociológico e cultural que o autor concebe nesta cintilante obra, mormente a valorização dos nomes angolanos e/ou africanos que nela aparecem, como podemos ler em O Pagador de Juros (p. 37): Júlio Katerça, Joana Dimoxi, Kamoxi, Kayadi, Tako Dimoxi e tantos outros, bem como em O Reencontro (p. 53): Civela Sambalanga e Wandalika.
Soberano Kanyanga apresenta, em A Fuga de Nehone (p. 41), o conflito cultural entre a tradição angolana-africana e a propagação da moral cristã ensinada pelas Madres à Nehone, menina da ombala de Kambyote, na fase da sua puberdade, que temia participar da efundula, a conhecida iniciação feminina dos Kwanhamas.
A obra de Soberano Kanyanga oferece recursos favoráveis para o estudo da literatura africana, antropologia cultural, filosofia bantu e tantas outras áreas. Portanto, a obra em destaque comporta 63 páginas concebidas para o contributo da literatura angolana, cuja maternidade fora atribuída ao Projeto Ler Angola, no então GRECIMA.
E como a leitura é o paracetamol da alma, convidamos a uma caminhada nas páginas deste Colecionador de Pirilampos, que pisca para a luminosidade da literatura angolana e/ou africana.
Boa leitura!

quarta-feira, 20 de maio de 2026

P’RA QUE SÓ MANGODINHO? ESSA TUA MORTE É ILEGAL

[Réquiem a Mangodinho]

Não podias, Mangodinho. Você não presta, morrer até podes — a carne é tua — mas, assim também, não.  

Era Man Barras excessivamente inconsolável. Ele soube da notícia sobre a morte de Mangodinho no telejornal, pela voz penetrante do jornalista Ernesto Bartolomeu, filho do Sambla, o mesmo lugar de nascimento de Gelson Caio, o kudurista Nagrelha.  

Em segundos, a notícia se replicou por todos os canais de comunicação pública e privada, assim como nas redes sociais, onde o falecido tinha uma presença de devoção.  

“Mangodinho deu o cardete.”  

Mangodinho era uma personalidade que contrastava entre a humildade do campo e a matreirice da cidade. Aquele corpo baixinho e cheio de energia era deveras electrizante. “Sem sintomas notoriamente preocupantes, vens bater as botas assim do nada!”  

Lamentava Man Barras, sentado no cadeirão, enquanto mudava de canais sem se perceber do que realmente procurava. Via-se que estava com alguma carga de nervosismo, possuído de tensões hipertensivas próximas da explosão.  

“Epa, isso até custa a acreditar. Numa altura em que estou a me candidatar para um cargo superior do partido no próximo congresso e, como prometido, contava com a tua incondicional ajuda… Você, meu camarada, morres assim do nada?! Já viram? Sinceramente, não foi isso que combinamos.”  

No seu município, tanto o administrador e os seus adjuntos, o pessoal da secreta, os sobas, os padres e pastores religiosos, até os de gado, todos sabiam da sua ligação a figuras importantes de Angola. Falava com os próprios manda-chuva, gajos de xixi grosso.  

No leque das amizades influentes de Mangodinho incluía-se o primeiro presidente do país e os seus colaboradores diretos. Isso, segundo ele.  

Conseguiu manter próxima a relação com os coadjuvantes do atual chefe de Estado e circulava bem diante de algumas celebridades, principalmente as do sexo feminino. Diz-se que era o fornecedor da wanga para estas subirem na vida ou, em determinados casos, assegurarem a impossibilidade da perda dos maridos na relação.  

Conta-se que ajudou na formação de muita gente: mandava os filhos dos irmãos, dos primos e até de vizinhos para bolsas de estudo em Cuba, na Jugoslávia ou na URSS. Ele era uma espécie de INAB num único corpo.  

Como podemos ver, diante de tão célebre figura, com níveis de relações humanas ao mais alto padrão social, um pedido deste filho de Caculo era praticamente inegável. Conforme tinha sido acertado, era com essa influência toda de Mangodinho que o seu amigo Man Barras contava para atingir os altos escalões na cúpula do seu partido na próxima campanha eleitoral.  

Eles conheceram-se na tropa, estiveram no mesmo centro de instrução e fizeram juntos a especialidade em artilharia terrestre. Desde então começou uma grande amizade, onde se incluía a partilha de coisas em comum.  

Longe das suas terras de origem, quando Mangodinho “meteu barriga” numa menina que fazia parte da população que a tropa teve de trazer para as proximidades do posto de comando, com o propósito de protegê-las das ações do inimigo, foi Man Barras quem se apresentou como tio da parte de pai.  

Mesmo sendo de províncias diferentes, o contexto político evocava a união entre os cidadãos da mesma pátria. Aliás, essa era uma palavra de ordem.  

No entanto, passada esta fase, com o país já em paz, depois de desmobilizados das forças armadas, Mangodinho voltou para o seu Kalulu, enquanto Man Barras preferiu Luanda, por ter percebido que na capital as suas pretensões políticas teriam sucesso próximo dos órgãos de decisão.  


Isso ajudou, de certa forma, a manter a ligação com o seu amigo, visto que sempre que o primeiro viesse à cidade, tinha como local de hospedagem a residência do seu amigo de tropa — casa de onde partia ou era apanhado para tratar de negócios, visitas, tratamentos e outros.  

Ter ouvido que Mangodinho morreu foi o maior golpe que podia receber. E agora?!  

Como ficam agora as influências para a minha promoção?  

Como fica a minha nomeação a deputado ou a governador provincial?  

Os carros de luxo e a secretária executiva de salto alto?  

Como ficam os guarda-costas e o motorista protocolar e da residência?  

Como fica o futuro cargo de embaixador, quando entrar para a reforma?  

Como fica a possibilidade de ter um quarto privativo no melhor hotel do país?  

As viagens em executiva e o passaporte diplomático, com acesso à sala VIP, é como?  

“Oh meu Deus… me leva também, Mangodinho.” Chorava desamparado durante todo o velório, tendo mesmo desmaiado na altura da descida da urna à última morada.  


Texto de Lauriano Tchoia (de feliz memória)

sexta-feira, 1 de maio de 2026

O SEGREDO DOS CARACÓIS

In "Contos para a Lúcia"

Certa vez, o pai da Lúcia recebeu de oferta alguns morangueiros vindos do Bié, terra da mãe da menina. Eram plantas jovens, de folhas verdes e brilhantes, que traziam consigo o perfume fresco das chuvas do planalto. Para os plantar, o pai da Lúcia encheu um vaso alto com terra escura e fofa, recolhida da horta.

O que ele não sabia era que, misturados àquela terra fértil, vinham também pequenos ovos de caracol — tão minúsculos que pareciam pérolas de vidro escondidas entre os torrões.

Com o passar dos dias, enquanto os morangueiros se adaptavam ao novo lar, começaram a surgir pequenos caracóis. Primeiro eram quase invisíveis, do tamanho de uma unha. Depois foram crescendo, sempre tímidos, sempre silenciosos, até encontrarem abrigo perfeito debaixo das folhas largas e perfumadas dos morangueiros.

Ali, naquele pequeno mundo verde, os caracóis descobriram sombra fresca, gotas de orvalho, pedacinhos de folhas velhas e um sossego que parecia feito à medida deles.

O pai da Lúcia, intrigado, perguntava-se como aqueles seres simpáticos e medrosos tinham ido parar ali. Até que, certa manhã, enquanto regava as plantas, decidiu conversar com eles.

Abaixou-se devagar, para não os assustar, e disse:

— Bom dia, pequenos viajantes. Quem são vocês e como vieram parar ao meu vaso?

Um dos caracóis, o mais corajoso, ergueu as antenas devagarinho e respondeu com voz fina, quase sussurrada:

— Nós viemos escondidos na terra da horta. Os nossos ovos dormiam lá, muito quietos. Quando chegámos ao vaso, acordámos com o calor do sol.

O pai da Lúcia sorriu, curioso.

— E o que fazem durante o dia?

Outro caracol, mais pequenino e muito educado, explicou:

— De manhã, bebemos as gotinhas de água que ficam nas folhas dos morangueiros. Depois passeamos devagarinho, porque caracol não tem pressa. À tarde, descansamos à sombra. À noite, ouvimos o vento a passar pelas folhas. Ele conta histórias bonitas.

O pai da Lúcia achou graça.

— E não estragam as plantas?

O primeiro caracol abanou o corpo, sentindo-se ofendido, mas gentil:

— Nós só comemos folhas velhas ou pedacinhos que já caíram. Gostamos de viver em paz. As plantas dão-nos casa e nós ajudamos a limpar o chão delas.

O pai da Lúcia ficou surpreendido com aquela resposta tão sensata.

— Então vocês também são jardineiros...

O caracol mais velho, que até então estava calado, decidiu falar:

— Somos, sim. E gostamos muito deste lugar. Os morangueiros são bons vizinhos. Eles cheiram bem, dão sombra e nunca reclamam da nossa presença.

O pai da Lúcia levantou-se devagar, olhou para os morangueiros e para os pequenos caracóis, e percebeu que aquele vaso era mais do que um simples vaso: era um pequeno mundo em equilíbrio.

Desde aquele dia em diante, passou a regar com mais cuidado, para não molhar demasiado os caracóis, e ensinou a Lúcia e a sua sobrinha África a observarem aqueles habitantes discretos do jardim.

As meninas adoraram. Davam-lhes nomes, contavam-lhes histórias e até lhes diziam:

— Vocês são os guardiões dos morangueiros.

E os caracóis, orgulhosos, continuavam a sua vida tranquila, limpando o chão, bebendo gotas de orvalho e vivendo em paz debaixo das folhas perfumadas.

E assim, naquele vaso alto, com plantas oferecidas pelo tio Sabino Catumbela, nasceu uma pequena comunidade onde plantas, caracóis e pessoas aprenderam a viver juntas, devagar e felizes.