terça-feira, 16 de junho de 2026

AS TRANÇAS DA ARGEMARA

De repente, ouviu-se um resmungo. A outra sobrinha da Lúcia, Argemara, estava sentada, visivelmente agitada, puxando as suas próprias tranças com força.

— Oh, oh, Argemara! Porque estás a maltratar as tuas tranças tão lindas? — disse Lúcia, aproximando-se.

A bebé olhou para ela com olhos lacrimosos, embaraçada com os próprios cabelos.

—Deixa a tia ajudar. As tranças são como cordas de embalar, não se puxam, acarinham-se — falou Lúcia em voz suave, enquanto desembaraçava com cuidado os fios de cabelo de Argemara.

—Pronto. Agora estão perfeitas. Ficas tão bonita com as tuas tranças a brilhar ao sol. 

Argemara parou de chorar e tocou na cabeça, sentindo o penteado arrumado, e soltou uma gargalhada.

 

 

 

quarta-feira, 10 de junho de 2026

JOÃO LOURENÇO, O ESTRATEGA: APRESENTAÇÃO DE LIVRO

Excelências,

Dirigentes e responsáveis do nosso belo país (Angola)

Caros irmãos,

Camaradas,

Distintos convidados,

Minhas senhoras e meus senhores,

Considerem todo o protocolo observado.

Agradeço imensamente a honra de ter sido escolhido para fazer a apresentação deste livro “João Lourenço, o Estratega” - de autoria de Isaías Camuanda — perante tão selecta e respeitada plateia. O livro em vossas mãos trata-se de um exercício reflexivo que se inscreve na tradição das análises político-institucionais contemporâneas em Angola.

Como nos esclarece o próprio autor, estamos diante de um exercício que “transcende a crónica política ou a biografia convencional” (pág. 10). Estamos, portanto, perante uma obra de reflexão estratégica, que procura compreender um tempo político específico através da acção de um actor central: o Presidente João Manuel Gonçalves Lourenço.

1.    A Figura do Estratega

Ao longo da obra, o autor propõe-nos uma chave de leitura particularmente relevante: João Lourenço é apresentado como como um estratega da transição e NÃO um líder de improviso.

Não se trata de ruptura súbita, mas de um processo estruturado, onde a mudança se faz por dentro. Como se conclui na obra, estamos diante de uma liderança que procura transformar o Estado “não através de rupturas abruptas, mas por via de uma reconfiguração progressiva, estrutural e persistente” (pág. 85).

Esta perspectiva permite-nos compreender a sua liderança como menos centrada na retórica e mais orientada para a engenharia institucional do poder.

2.    Liderança e Cultura de Governação

Um dos contributos mais relevantes do livro reside na análise da cultura de governação. O autor recorda-nos que governar é uma tarefa muito mais complexa do que gerir recursos.

Como afirma logo no início da obra, “governar um Estado não é apenas exercer poder político. É dirigir uma organização complexa” (pág. 9).

Esta visão traduz uma mudança de paradigma: governar passa a significar reorganizar o próprio funcionamento do Estado — reforçando instituições, redefinindo prioridades e alinhando práticas com padrões mais exigentes de transparência.

3.    Transformação Institucional como eixo central

A obra sustenta que a governação em análise deve ser entendida como um processo de transformação progressiva. Não estamos perante actos isolados, mas perante uma lógica de acção estruturada.

Como refere o autor, a governação assenta em “padrões consistentes que revelam método, disciplina e intencionalidade” (pág. 85).

Nesse sentido, destacam-se três dimensões essenciais: o combate à corrupção, enquanto mecanismo de recomposição do sistema; a reorganização económica, visando a diversificação e a eficiência; e o reforço institucional, com a valorização da disciplina e da legalidade.

 4.    Limites, tensões e desafios

Importa sublinhar que esta não é uma obra de exaltação acrítica. O autor reconhece, com lucidez, os obstáculos inerentes a qualquer processo de reforma. Entre os principais desafios, destaca-se o peso estrutural da administração pública, que permanece marcada por “rigidez e lentidão” (pág. 71).

Isto conduz-nos a uma leitura equilibrada: há estratégia, mas a sua eficácia depende da capacidade de consolidar processos num contexto de resistências internas e expectativas sociais elevadas.

 5.    Dimensão externa da governação

Outro mérito da obra é a atenção dedicada à inserção internacional de Angola. O autor demonstra que o reposicionamento externo não é um elemento secundário, mas é parte integrante da estratégia de transformação. Nesse quadro, destaca-se o esforço de reforçar a credibilidade internacional, que tem permitido melhorar a percepção externa sobre o compromisso do país com as reformas estruturais (pág. 70).

Permitam-me sintetizar o núcleo desta obra numa ideia fundamental:

O Presidente João Lourenço é apresentado como um líder de transição, cuja estratégia consiste em reformar o sistema a partir do seu interior — de forma gradual, disciplinada e estruturada.

 Minhas senhoras e meus senhores,

Este livro convida-nos a olhar para além da superfície dos acontecimentos políticos. Ele revela-nos que a transformação do Estado não se faz apenas por grandes rupturas, mas por aquilo que o autor descreve como um “movimento silencioso, disciplinado e gradual” (pág. 89).

É precisamente nesse movimento que reside o valor estratégico da liderança analisada: a capacidade de orientar o Estado para um futuro menos dependente das contingências e mais ancorado na inteligência institucional.

O autor propõe-nos, assim, uma reflexão profunda sobre quatro elementos essenciais: liderança, poder, reforma e futuro.

Independentemente das posições que cada um possa assumir, há um mérito que se impõe reconhecer: esta obra contribui para o debate sério e necessário sobre o Estado angolano e os caminhos da sua transformação.

Termino felicitando o autor, Isaías Camuanda, pela coragem intelectual, pela lucidez analítica e pela pertinência deste contributo.

Muito obrigado.

 

 Soberano Kanyanga (Escritor e jornalista)

Memorial AAN, Luanda, 10.06.2026

segunda-feira, 1 de junho de 2026

MAMÃ PEQUENA DA ESCOLA

 

In "Contos para a Lúcia"

Lúcia e Joshua tinham ambos sete anos, mas Lúcia nasceu primeiro, em Windhoek. Quatro meses depois, Joshua veio ao mundo, em casa dos avós, em Viana. Apesar de terem a mesma idade, Lúcia fazia questão de lembrar sempre o seu estatuto:

— Joshua, não esqueças: eu sou tua tia. Mamã pequena! — dizia com ar sério.

Entraram juntos na creche, depois na pré-escola, na iniciação, e agora preparavam-se para a terceira classe. Eram inseparáveis.

Certa manhã, na aula de Inglês, a professora Mirs. Lulu, uma senhora simpática e muito paciente, fez um anúncio:

— Crianças, avisem os vossos encarregados de educação que teremos uma reunião amanhã.

Joshua franziu a testa, curioso. Levantou-se e perguntou:

— Professora, o que é encarregado de educação?

A professora sorriu:

— Menino Joshua, encarregado de educação pode ser a mamã, a avó, o papá ou a tia mais velha.

Joshua olhou para Lúcia, que estava sentada ao seu lado, e respondeu com entusiasmo:

— Professora, eu já tenho aqui a minha encarregada de educação!

A turma começou a cochichar. A professora perguntou:

— Como assim, menino Joshua? Quem é a tua encarregada de educação aqui na escola?

Joshua apontou para Lúcia:

— É a minha comadre e mamã pequena Lúcia. Ela é irmã da minha mãe e nasceu antes de mim, não é, Lúcia?

Lúcia endireitou-se na cadeira e confirmou com orgulho:

— Sim, professora. Ele é meu compadre e também meu sobrinho. Sou mamã pequena dele.

Os colegas caíram na risada. Alguns comentavam:

— Como é que podem ser tia e sobrinho se têm a mesma idade?

A professora, que era zambiana, percebeu a lógica e explicou calmamente:

— Tens razão, menino Joshua. Mas para a reunião eu preciso de um encarregado de educação que tenha mais de 18 anos.

Joshua suspirou, desapontado:

— Então a minha mamã pequena não serve?

— Para esta reunião, não — respondeu a professora, sorrindo. — Mas continua a cuidar bem do teu compadre, está bem?

Lúcia ergueu o queixo e disse com firmeza:

— Eu cuido dele todos os dias, professora!

A turma voltou a rir, mas desta vez com carinho. Joshua e Lúcia sorriram um para o outro. Afinal, ser tia e sobrinho da mesma idade era uma história que só eles podiam contar.