Excelências,
Dirigentes e responsáveis do nosso belo país (Angola)
Caros irmãos,
Camaradas,
Distintos convidados,
Minhas senhoras e meus senhores,
Considerem todo o protocolo observado.
Agradeço imensamente a honra de ter sido escolhido para fazer a apresentação deste livro “João Lourenço, o Estratega” - de autoria de Isaías Camuanda — perante tão selecta e respeitada plateia. O livro em vossas mãos trata-se de um exercício reflexivo que se inscreve na tradição das análises político-institucionais contemporâneas em Angola.
Como nos esclarece o próprio autor, estamos diante de um
exercício que “transcende a crónica política ou a biografia convencional” (pág.
10). Estamos, portanto, perante uma obra de reflexão estratégica, que procura
compreender um tempo político específico através da acção de um actor central:
o Presidente João Manuel Gonçalves Lourenço.
1. A Figura do Estratega
Ao longo da obra, o autor propõe-nos uma chave de leitura
particularmente relevante: João Lourenço é apresentado como como um
estratega da transição e NÃO um
líder de improviso.
Não se trata de ruptura súbita, mas de um processo
estruturado, onde a mudança se faz por dentro. Como se conclui na obra, estamos
diante de uma liderança que procura transformar o Estado “não através de
rupturas abruptas, mas por via de uma reconfiguração progressiva, estrutural e
persistente” (pág. 85).
Esta perspectiva permite-nos compreender a sua liderança como menos centrada na retórica e mais orientada para a engenharia institucional do poder.
2.
Liderança e Cultura de Governação
Um dos contributos mais relevantes do livro reside na análise
da cultura de governação. O autor recorda-nos que governar é uma tarefa muito
mais complexa do que gerir recursos.
Como afirma logo no início da obra, “governar um Estado não é
apenas exercer poder político. É dirigir uma organização complexa” (pág. 9).
Esta visão traduz uma mudança de paradigma: governar passa a
significar reorganizar o próprio funcionamento do Estado — reforçando
instituições, redefinindo prioridades e alinhando práticas com padrões mais
exigentes de transparência.
3. Transformação Institucional como eixo central
A obra sustenta que a governação em análise deve ser
entendida como um processo de transformação progressiva. Não estamos perante
actos isolados, mas perante uma lógica de acção estruturada.
Como refere o autor, a governação assenta em “padrões
consistentes que revelam método, disciplina e intencionalidade” (pág. 85).
Nesse sentido, destacam-se três dimensões essenciais: o
combate à corrupção, enquanto mecanismo de recomposição do sistema; a
reorganização económica, visando a diversificação e a eficiência; e o reforço
institucional, com a valorização da disciplina e da legalidade.
4. Limites, tensões e desafios
Importa sublinhar que esta não é uma obra de exaltação
acrítica. O autor reconhece, com lucidez, os obstáculos inerentes a qualquer
processo de reforma. Entre os principais desafios, destaca-se o peso estrutural
da administração pública, que permanece marcada por “rigidez e lentidão” (pág.
71).
Isto conduz-nos a uma leitura equilibrada: há estratégia, mas a sua eficácia depende da capacidade de consolidar processos num contexto de resistências internas e expectativas sociais elevadas.
5. Dimensão externa da governação
Outro mérito da obra é a atenção dedicada à inserção
internacional de Angola. O autor demonstra que o reposicionamento externo não é
um elemento secundário, mas é parte integrante da estratégia de transformação.
Nesse quadro, destaca-se o esforço de reforçar a credibilidade internacional,
que tem permitido melhorar a percepção externa sobre o compromisso do país com as
reformas estruturais (pág. 70).
Permitam-me sintetizar o núcleo desta obra numa ideia
fundamental:
O Presidente João Lourenço é apresentado como um líder de
transição, cuja estratégia consiste em reformar o sistema a partir do seu
interior — de forma gradual, disciplinada e estruturada.
Minhas senhoras e meus senhores,
Este livro convida-nos a olhar para além da superfície dos
acontecimentos políticos. Ele revela-nos que a transformação do Estado não se
faz apenas por grandes rupturas, mas por aquilo que o autor descreve como um
“movimento silencioso, disciplinado e gradual” (pág. 89).
É precisamente nesse movimento que reside o valor estratégico
da liderança analisada: a capacidade de orientar o Estado para um futuro menos
dependente das contingências e mais ancorado na inteligência institucional.
O autor propõe-nos, assim, uma reflexão profunda sobre quatro
elementos essenciais: liderança, poder, reforma e futuro.
Independentemente das posições que cada um possa assumir, há
um mérito que se impõe reconhecer: esta obra contribui para o debate sério e
necessário sobre o Estado angolano e os caminhos da sua transformação.
Termino felicitando o autor, Isaías Camuanda, pela coragem intelectual, pela lucidez analítica e pela pertinência deste contributo.
Muito obrigado.
Soberano Kanyanga (Escritor e jornalista)
Memorial AAN, Luanda, 10.06.2026

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