quarta-feira, 10 de junho de 2026

JOÃO LOURENÇO, O ESTRATEGA: APRESENTAÇÃO DE LIVRO

Excelências,

Dirigentes e responsáveis do nosso belo país (Angola)

Caros irmãos,

Camaradas,

Distintos convidados,

Minhas senhoras e meus senhores,

Considerem todo o protocolo observado.

Agradeço imensamente a honra de ter sido escolhido para fazer a apresentação deste livro “João Lourenço, o Estratega” - de autoria de Isaías Camuanda — perante tão selecta e respeitada plateia. O livro em vossas mãos trata-se de um exercício reflexivo que se inscreve na tradição das análises político-institucionais contemporâneas em Angola.

Como nos esclarece o próprio autor, estamos diante de um exercício que “transcende a crónica política ou a biografia convencional” (pág. 10). Estamos, portanto, perante uma obra de reflexão estratégica, que procura compreender um tempo político específico através da acção de um actor central: o Presidente João Manuel Gonçalves Lourenço.

1.    A Figura do Estratega

Ao longo da obra, o autor propõe-nos uma chave de leitura particularmente relevante: João Lourenço é apresentado como como um estratega da transição e NÃO um líder de improviso.

Não se trata de ruptura súbita, mas de um processo estruturado, onde a mudança se faz por dentro. Como se conclui na obra, estamos diante de uma liderança que procura transformar o Estado “não através de rupturas abruptas, mas por via de uma reconfiguração progressiva, estrutural e persistente” (pág. 85).

Esta perspectiva permite-nos compreender a sua liderança como menos centrada na retórica e mais orientada para a engenharia institucional do poder.

2.    Liderança e Cultura de Governação

Um dos contributos mais relevantes do livro reside na análise da cultura de governação. O autor recorda-nos que governar é uma tarefa muito mais complexa do que gerir recursos.

Como afirma logo no início da obra, “governar um Estado não é apenas exercer poder político. É dirigir uma organização complexa” (pág. 9).

Esta visão traduz uma mudança de paradigma: governar passa a significar reorganizar o próprio funcionamento do Estado — reforçando instituições, redefinindo prioridades e alinhando práticas com padrões mais exigentes de transparência.

3.    Transformação Institucional como eixo central

A obra sustenta que a governação em análise deve ser entendida como um processo de transformação progressiva. Não estamos perante actos isolados, mas perante uma lógica de acção estruturada.

Como refere o autor, a governação assenta em “padrões consistentes que revelam método, disciplina e intencionalidade” (pág. 85).

Nesse sentido, destacam-se três dimensões essenciais: o combate à corrupção, enquanto mecanismo de recomposição do sistema; a reorganização económica, visando a diversificação e a eficiência; e o reforço institucional, com a valorização da disciplina e da legalidade.

 4.    Limites, tensões e desafios

Importa sublinhar que esta não é uma obra de exaltação acrítica. O autor reconhece, com lucidez, os obstáculos inerentes a qualquer processo de reforma. Entre os principais desafios, destaca-se o peso estrutural da administração pública, que permanece marcada por “rigidez e lentidão” (pág. 71).

Isto conduz-nos a uma leitura equilibrada: há estratégia, mas a sua eficácia depende da capacidade de consolidar processos num contexto de resistências internas e expectativas sociais elevadas.

 5.    Dimensão externa da governação

Outro mérito da obra é a atenção dedicada à inserção internacional de Angola. O autor demonstra que o reposicionamento externo não é um elemento secundário, mas é parte integrante da estratégia de transformação. Nesse quadro, destaca-se o esforço de reforçar a credibilidade internacional, que tem permitido melhorar a percepção externa sobre o compromisso do país com as reformas estruturais (pág. 70).

Permitam-me sintetizar o núcleo desta obra numa ideia fundamental:

O Presidente João Lourenço é apresentado como um líder de transição, cuja estratégia consiste em reformar o sistema a partir do seu interior — de forma gradual, disciplinada e estruturada.

 Minhas senhoras e meus senhores,

Este livro convida-nos a olhar para além da superfície dos acontecimentos políticos. Ele revela-nos que a transformação do Estado não se faz apenas por grandes rupturas, mas por aquilo que o autor descreve como um “movimento silencioso, disciplinado e gradual” (pág. 89).

É precisamente nesse movimento que reside o valor estratégico da liderança analisada: a capacidade de orientar o Estado para um futuro menos dependente das contingências e mais ancorado na inteligência institucional.

O autor propõe-nos, assim, uma reflexão profunda sobre quatro elementos essenciais: liderança, poder, reforma e futuro.

Independentemente das posições que cada um possa assumir, há um mérito que se impõe reconhecer: esta obra contribui para o debate sério e necessário sobre o Estado angolano e os caminhos da sua transformação.

Termino felicitando o autor, Isaías Camuanda, pela coragem intelectual, pela lucidez analítica e pela pertinência deste contributo.

Muito obrigado.

 

 Soberano Kanyanga (Escritor e jornalista)

Memorial AAN, Luanda, 10.06.2026

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