domingo, 8 de fevereiro de 2026

A NINFA QUE AJUDAVA AS PLANTAS


In "Contos para a Lúcia"
O pai da Lúcia nasceu no Libolo. Desde pequeno aprendeu a plantar e a cuidar de árvores e hortas. Mesmo vivendo na cidade, criou um pomar cheio de vida, com jaqueiras, mangueiras, abacateiros, mamoeiros, goiabeiras, romanzeiras, amoreiras, videiras, oliveiras, cajueiros, bananeiras, limoeiros, laranjeiras, tangerineiras, nespereiras, mandioqueiras, quiabeiros e milheiros.
Havia também uma longaneira, árvore que ele gostava muito de ver crescer.
Um dia, enquanto fazia um sulco para plantar uma ameixeira, encontrou uma pequena criatura branca a mexer-se na terra. Era uma lagarta robusta, que tentou esconder-se, mas o meu pai apanhou-a com cuidado. Assustada, ela falou:
— Senhor, não me faça mal. Eu sou uma ninfa de cigarra. Vivo no subsolo durante dezassete anos, mudando de forma várias vezes, até me transformar numa cigarra adulta. Parecemos animais diferentes em cada fase da vida.
O pai da Lúcia, que em criança caçava cigarras, ficou admirado e perguntou:
— Como é que você vive debaixo da terra, se a cigarra é um insecto voador e canta alto quando chega o sol de Abril?
A ninfa, agora mais calma, explicou:
— Aqui no subsolo, enquanto cresço, o meu trabalho é abrir pequenos túneis na terra. Esses túneis deixam passar o ar e a água, ajudando as raízes das plantas a respirar e a beber. Assim, as árvores crescem fortes e dão frutos para alimentar as pessoas.
O pai da Lúcia ouviu tudo com atenção. Depois, devolveu a ninfa ao solo, cobriu-a com cuidado, regou a terra e plantou a ameixeira.
A árvore cresceu depressa e, em menos de um ano, já dava ameixas doces e brilhantes.

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sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

"CONTOS PARA LÚCIA" NA LENTE DE ANTÓNIO KUTEMA

Da alegoria à lição de moral nos Contos para Lúcia, de Soberano Kanyanga

Por: António Kutema

De "Desejo de Kaúia" a "Contos para Lúcia", Soberano Kanyanga pinta o universo com excelente mancha preta para ficcionar vivências e, nas suas obras, é possível identificar o imaginário angolano e delas extrair o encanto das belas artes.

Propusemo-nos em escrever sobre “Contos para Lúcia” para reorientar o leitor sobre o livro de fábulas, onde Videira e Eucalipto, Cágado e Caracol, Minhoca Lila e Ninfa são personagens. Entretanto, constituem corpo e alma do livro “Contos para Lúcia” a construção da narrativa em que os animais representam aspectos da sociedade humana e frases curtas que encerram a história.

Por se tratar de fábula, tal como nos sugere Oswaldo Portela, Contos para Lúcia apresenta duas partes inseparáveis: (i) uma narrativa alegórica e (ii) uma lição de moral. Assim sendo, a partir do livro Contos para Lúcia explora-se valores sociais, culturais, ideias, sentimentos, ao mesmo tempo em que estimula o pensamento cognitivo e a imaginação.

A maioria do enredo decorre no quintal do senhor Luciano, pai da menina Lúcia, tirando o conto “Mamã pequena da escola”, o que pressupõe a centralização do espaço familiar como parte basilar da educação das crianças – Lúcia e suas sobrinhas. Ou seja, para além da perspectiva lúdica que o texto oferece, há, sim, valores sociais e culturais a serem preservados:

À porta, transformada em ponto de partida, o pai e os três filhos alinhavam-se. A mãe, com voz firme e olhar distante, fazia perguntas sobre a infância. Cada resposta afirmativa exigia um passo à frente (Kanyanga, 2026).

A cultura de estar em casa com a família e aproveitar os momentos para conversar, sobretudo, acerca do passado e o presente não tem sido comum em muitas famílias angolanas, porque muitos pais justificam as ausências com trabalho para a melhoria das condições de vida da família. Contudo, o conto “No tempo da Lúcia” remete-nos ao diálogo entre o tempo da meninice do pai e o tempo da Lúcia – desde as dificuldades alimentares, privilégios ao vestuário, condições de vida enfim –, o que não apaga a empatia da Lúcia em se compadecer com os momentos difíceis que o pai viveu.

Convoca-se, então, Pierre Bourdieu para compreender as estratégias utilizadas por Cágado e Caracol, que estando no quintal da Lúcia, encasulados trocavam mimos, passando pelo meio algumas frutas cajá-manga que ambos disputavam.

O Cágado queria lamber o melaço de cajá-manga, por cima do Caracol e, se lhe fosse possível, comer o Caracol. (...)Esse, já avisado das intenções do vizinho (viviam no mesmo quintal e brincavam no mesmo jardim relvado), procurou esconder-se no mais recôndito espaço, onde a largura e inflexibilidade corporal do Cágado não permitia atingi-lo [sic]. (Kanyanga, 2026)

Pelo que se constata ao longo da disputa, cada agente do campo do poder serviu-se das suas artimanhas para atacar ou defender-se. Entretanto, ressalta-se duas características: astúcia e sabedoria. Cágado identifica-se como astuto e Caracol como um ser sábio, tal como o narrador nos apresenta:  

Hábil a confundir seus predadores, o caracol fingiu-se morto e encolheu-se o máximo que pôde na sua carapaça. O cágado bem tentou colocá-lo entre as mandíbulas e procurar engoli-lo, mas jamais o volume da carapaça do caracol passaria pela sua garganta. Cansando, o cágado teve de desistir, deixando o caracol ferido, mas vivo! (Kanyanga, 2026)

Aprende-se em Contos para Lúcia, não importando o tamanho da pessoa ou do ser, que todos são importantes para o engrandecimento da sociedade, basta olhar para simplicidade e sabedoria dos caracóis, das minhocas, das ninfas e dos pássaros.

Contudo, no conto “A videira e o Eucalipto” identifica-se a dimensão educativa sobre a importância de não invejar o próximo, porquanto tudo tem o seu tempo debaixo dos céus. Ou seja, cada um tem o seu tempo para brilhar e o brilho do outro não pode ofuscar o teu.

— Ao pé de mim ninguém cresce - dizia o Eucalipto ameaçador. (...) Com o tempo, a Videira alcançou o arame farpado que encimava o muro e, sem pressa, foi-se esticando até alcançar o Eucalipto por um braço encostado ao muro do quintal.

— Cá estou eu. Duvide mais que não chagaria a ti - disse a Videira entregando-se alegre ao sol. (Kanyanga, 2026)

Entretanto, a valorização e respeito pelos mais velhos encerra o livro. Isto é, se respeitarmos os mais velhos teremos mais tempo de vida, por um lado, o que não se verifica nos actos do mosquito Kito pela teimosia de não ouvir os mais velhos; por outro lado, quando se valoriza a mamã pequena ou a tia que tem a mesma idade do que a da sobrinha, há menos conflito na família e na sociedade.




quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

OS PASSARINHOS AZUIS E OS RECADOS PARA A LÚCIA


Sai dia, entra dia. Seguem‑se semanas e meses. Já vamos no sétimo ano, o mesmo número de anos que a Lúcia tem.

Todas as manhãs, por volta das cinco horas, o chilreio dos passarinhos azuis anuncia o começo do dia. O casal Azulão e Estrelinha vive numa pequena toca na parede da nossa casa, onde construiu um ninho aconchegante.
Atrás do muro do quintal ergue‑se um alto eucalipto. É lá que os dois costumam apanhar sol e brincar em voos curtos, do eucalipto ao ninho e do ninho à videira que se estende sobre o quintal.
— Piô, piô, piô! — canta Azulão, como quem diz:
“Lúcia, chegou a hora de acordar!”
Logo depois, Estrelinha voa até à janela do banheiro e chilreia ainda mais alto:


— Pium, pium, pium!
“Já lavaste a boca? Misturaste a água fria e morna? Tens o champô e o sabão? Vai, apressa‑te! O matabicho está na mesa e o motorista do colégio já vem a caminho.”

Agora, Azulão e Estrelinha têm dois filhotes: Luzinha e Rufino. Estão a aprender a piar e a voar. Luzinha observa tudo com olhos curiosos, enquanto Rufino abre o bico para receber o pequeno insecto que Estrelinha lhe traz.
E assim, todos os dias, o canto dos pássaros azuis acompanha a rotina da menina Lúcia, lembrando‑lhe que a vida começa com alegria, cuidado e amor.
Por: Soberano Kanyanga [in Contos para a Lúcia]