quarta-feira, 1 de junho de 2022

O KISONGO DAQUELE TEMPO

O Kisongo daquele tempo era um conglomerado de aldeias e aldeolas familiares que, juntas, chegavam a 50 mil pessoas.

No dizer dos mais velhos de hoje, que viveram com o colono, ainda anandenge ou já mizangala, nunca, jamais nesse século XXI o Kisongo de hoje, com mais ou menos 5 mil indivíduos que se remedeiam na agricultura e nas poucas fazendas que chegam tímidas, chega à áurea dos anos sessenta (sec. XX).
No vilarejo perdido na selva libolense, a caminho do Kwanza distante, a que chamavam Posto Administrativo, Mulalo, metro e noventa e cinco de altura, corpo de três homens médios, mão grossa e força de ngufu, era cipaio ao serviço da administração. Kambambi, amigo do pai, dos cipaios do acampamento e dos tios que choravam lágrimas e suor sugados pelo sol e palmatória, era o filho derradeiro de Mulalo.
O Phalanga e o Lumbu, irmão dele que lhe puxa, já tinham força para trabalhar, na lavra ou no kalyenge, e frequentavam também o "mbe e â? - Mba!" Por tudo isso, sendo os ajudantes permanentes da mamã, estavam isentados de levar comida ao papá que punha ordem no Posto e nas aldeias aos devassos e fugitivos ao imposto indígena.
Certo dia, tarde de futebol para os adolescentes, sol ardente lá fora e chuva a prometer açoitar os telhados de colmo. Phalanga e Lumbu estavam na bola. Em casa, Nzumba olha para os céus a profecia: Vai cair nvula de encher rios e marido vai dormir no trabalho.
- Kambambi!
- Mamã!
- Vem. Prepara os quedes. Num demora. Vai levar comida no papá. Vi, chegaram do Mbang'wanga pessoas na carrinha do sô 'diministrador. Deve ter trabalho grande. Chuva vai chegar sem escurecer.
Previsão de quem vive o comportamento do tempo é palmatória na mão de Mulalu ou tiro de caçador temperado. Não falha.
Nzumba arrumou a comida para o marido. numa marmita o funji e noutra o conduto: carne de paca apanhada da armadilha do Lumbu. O Phalanga era mais dado à pesca e tinha conseguido uns peixinhos que Nzumba preparou também para o marido. Estavam, com a Kizaka noutra marmita, a terceira e mais pequena de todas.
Era já hábito. Mulher e os filhos sabiam e disso não reclamavam. Quando o trabalho apertasse ou fosse noite de chuva, Mulalu não voltava à casa, preferindo dormitar no acampamento que distava cinco quilómetros da aldeia.
Kambambi meteu-se a caminho, cantarolando como rola ao nascer do sol. Transpôs um riacho e mais dois quando começou a gotejar. Chuva ainda miúda, criança como ele, caindo sobre as folhas das grandes árvores que se faziam paralelas à picada. Acelerou o passo para evitar chegar ensopado. A comida não. Estava segura, com as marmitas embrulhada em um saco de plástico.

Chegou molhado, numa mistura de gotejos pluviais e suor, mas alegre. Entregue a encomenda, passeou os olhos pela sala que se achava enorme, com uma mesa grande e duas cadeiras lado a lado. Era nela que o pai recebia os interrogados, antes de os sovar com a Maria da dores. No canto esquerdo estava um armário adornado com diversas palmatórias, todas elas nomeadas.
- É isso que faz os tios chorar como crianças?! - Interrogou-se sem o verbalizar, ante a presença de um "urso polar", cujo corpaço a todos intimidava e fazia descobrir o que houvesse de mais oculto.

Irrequieto, como são os kasule, Kambambi, num salto de corsa, desfez-se da sala e foi instalar-se à copa de um cafeeiro que exalava um cheiro ímpar, saído de flores virgens cor de neve. Trabalhavam nele alguns presos, sob o olhar de Xiku Adá, que empunhava uma caçadeira "22 longos". Uns faziam a poda atrasada e outros a adubagem, esperando incrementar a colheita do ano.
- Boa tarde, ti Manel, boa tarde tio Ngana Zando!- Cumprimentou, um a um aqueles que conhecia. Alguns eram de bairros próximos. Outros foi conhecendo à medida que ia levando comida e buscando os pratos vazios, mas eram todos do Kisongu.

Chegou a noite com todo o seu silêncio, interrompido, às vezes, pelo rosnar de um cão medrica ou de uma raposa no cio. O sol cedeu lugar às estrelas ofuscadas pela nuvens cinzentas, que viajam e se revezam sem parar, deixando tudo que é luz à mercê dos pirilampos e dos candeeiros do Posto administrativo.
- Kambambi!
- Papá!
- Vem dormir. - Chamou Mulalu ao filho.
- Papá, já tenho lugar no ti Januário!
- Qual Januário? Aquele terrorista?
- Não papá. Ele não é tractorista. Trabalha mesmo com catana na poda do café!
- Vem cá, pá e não te metas com esses trafulheiros que só sabem transgredir. - Voltou a chamar com uma voz mais enérgica.

Kambambi num canto. Um olho mirado para dentro, a contar as palmatórias e outro olho a contar as estrelas que se afundavam nas nuvens passageiras. Vieram-lhe à mente as lágrimas de mais velhos acossados pelas pancadas dos cipaios. Surgiram-lhe também memórias sobre a ternura daqueles tios e a doçura de suas estórias, contadas enquanto trabalham e ele brincando, ao pôr do sol, com os bagos do café que se desprendem das árvores.
- Papá, deixa-me só hoje dormir com eles. O meu papá é tão forte e invencível que eles nunca me fariam mal para não serem palmatoados.
Na cela e num lwandu, com os detidos, Kambambi passou uma noite inapagável. Soube que aqueles tios eram boas pessoas que não mereciam apanhar palmatórias que tiravam lágrimas, ranho e suor. No seu caderninho de memória rígida registou: tio Januário destilou kapuka que todos gostam de beber. Tio Kabari não pagou imposto porque a lavra dele pegou fogo. Tio Jwá Kindundango discutiu com o branco que lhe aumentou dias na renda. Tio Kindala deu cabeçada no mulato que dormiu com a mulher dele. Tio Nguxi lhe apanharam a ouvir rádio proibida. Tio Wayxi lhe apanharam com arma de matar branco. Tio Kambwiji meteu kalembe no rio para apanhar peixe. Tio Nyanga mulher bebeu kandingolo e lhe deu bofa. Ele lhe meteu dente na testa da tia Hebo. Tio Mbumba-a-Lunga não aceitou vender milho dele no sô Kahungu. Tio Kituji lhe apanharam com carta que disseram é panfleto. Tio Phande-a-Umba e Ngana Zando falaram no sô 'diministrador Kisongo é nosso...
Obs: fição pura baseada em relatos sobre a infância de Eduardo Cussendala)

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