segunda-feira, 16 de janeiro de 2023

A VIDEIRA E O EUCALIPTO

 In "Contos para a Lúcia"

Desafiavam-se dias, tardes e noites durante cinco anos.

— Ao pé de mim ninguém cresce! — dizia o eucalipto, com voz ameaçadora.
— Com o tempo, irei aonde eu quiser! — respondia a videira, cheia de coragem.

Plantados no mesmo quintal e no mesmo ano pelo tio Mukalakadi, o eucalipto cresceu rápido e assumiu o papel de Árvore Maior. Era quem mais se destacava, abafando as ervas e outras plantas que tentavam firmar-se ao seu lado. Cresceu tanto que, aos cinco anitos, já podia ser visto a dez quilómetros, tamanha era a sua altura.

A videira, lenta e rasteira, seguiu o seu caminho horizontal, deixando pelo percurso saborosas uvas que alimentavam os meninos do quintal, os pássaros e os cágados — os animais de estimação do tio Mukalakadi.

Com o tempo, a videira alcançou o arame farpado que encimava o muro e, sem pressa, foi-se esticando até tocar o eucalipto com um dos seus braços, encostado ao muro do quintal.

— Cá estou eu! Duvidaste que eu chegaria até ti? — disse a videira, entregando-se alegre ao sol.
— Deixa de me sufocar com essas garras! — reclamava o eucalipto, sacudindo-se todos os dias para ver se se livrava da videira.

O tio Mukalakadi já percebeu que os dois se tornaram um verdadeiro chamariz para os pássaros, que agora constroem ninhos nos ramos do eucalipto — algo antes impensável.

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