quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

O COMÍCIO DO MBUKAYO

Mwata Cikambi sacudiu o único casaco que tinha e sem aviso prévio decidiu rumar à sede administrativa da circunscrição que tinha recebido um novo chefe. Com jeito vestiu a camisa branca, quase a perder a cor de tantas lavagens e nódoas involuntárias de sumo de caju. A parte traseira estava mesmo rota. O velho, um antigo guerrilheiro da luta de libertação, meteu-se a caminho para uma conversa aberta com o novel dimixi .

- Menina boa tarde. O camarada administrador está?
-Sim paizinho. Mas … o senhor veio da parte de quem?
- Da minha parte mesmo. Vim sozinho. Sou o Mwata Cikambi. Menina num me conhece?

A jovem, esbelta de se pôr inveja, dezanove anos mais ou menos, cintura fina e ombros de cabide, levou tempo a responder e logo o velho notou que ou não o conhecia ou a secretária estava a fingir.

- Essas meninas de agora são sempre assim. O chefe pode estar lá dentro, mas dizem sempre que não está ou está reunido. Mas hoje não sairei daqui sem que ele me receba. - Falou para si mesmo.

A secretária, sabendo que o chefe demoraria a atender o soba, optou por levá-lo à sala de espera.

- Mwata, espera só um bocado que vou já avisar o chefe que está reunido com umas pessoas que também vieram de longe e chegaram primeiro.
- Está bem filha, - respondeu, embora recticente.

Na sala, Satula recebia um a um outros senhores, os notáveis de Mbukayo. O administrador tinha apenas dias, mas a lista de pedidos de audiências já era enorme. Eram fazendeiros que pediam alfaias e acesso ao crédito agropecuário, sobas que exigiam regalias, antigos guerrilheiros que pediam pensões, viúvas que procuravam por maridos desaparecidos na guerra, enfim… um mar de preocupações com que Satula nunca contaria logo na primeira semana. Mas o destino estava traçado. “Não adianta fugir dos problemas porque eles antecipam-se à nossa marcha”. - Desabafava com os poucos amigos que tinha na vila.

- Pai, toma um café? - Questionou Lawa, a secretária.
- Sim menina.

O tempo passava, a vez de entrar na sala do administrador tardava em chegar e o café esfriava. Nem sequer o tinha adocicado com o mel delicadamente servido numa tigelinha. Duas horas depois, com o administrador já pronto para o cara-a-cara, Lawa voltou à sala de espera e reparou que o café, já sem calor, mantinha-se intocado. 

...

- Oh Citonji, essa tua mania do está ultrapassado eu não gosto. Como é que você vê as pessoas a sofrerem e na hora já de falar te ultrapassei. Por acaso você viu alguém na estrada a andar de vagar?
- Cala a boca seu terrorista. A tua sorte e que a guerra já acabou se não eu mesmo é que ia te apagar desta vez. – Rechaçou Citonji, Manuel Nyanga de seu nome, mas assim apelidado devido a contracção de uma deficiência física na guerra da independência.

A rivalidade entre Mwata Citonji e Kajivunda era de há muito tempo e escapava ao conhecimento do administrador que os recebeu em simultâneo para exporem em conjunto as dificuldades por que passam os antigos guerrilheiros da pátria em Mbukayo.

Residiam, enquanto crianças, em paredes-meias e foi o único tempo de amizade e cumplicidades. Um no primeiro andar do pequeno edifício da vila que chamavam kaprédio e outro no rés-do-chão. A rivalidade começou na juventude quando tiveram de aderir aos movimentos. Citonji era e é um fervoroso apoiante dos Vermelhinhos e como eles alinhou para as matas do Leste onde viria a ser lesionado no ombro esquerdo. Kajivunda sempre se reviu nos Verdinhos do Jacinto e cedo se tornou no encarregado da logística do mais novo movimento que depois passou à oposição armado ao regime dos vermelhinos. Separados no ano de setenta e um, voltaram a reencontrar-se já nos anos noventa e sem a pujança doutrora.

- Vocês do Vermelho são sempre assim. Lambem a bota até furar o cabedal… O administrador é novo e precisa de saber as coisas, pá!
- E vocês que partiram o Mbukayo pelo meio são quê. É? Me fala seu reaça.
- Reaça é você, seu cobarde. Onde te está a dar a comichão é onde você se coça. Porquê que andas roto se o vosso Vermelhinho te dá tudo e tu não precisas de nada mais?
- Cala a boca, pá! Olha que se não fosse o meu ombro punha-te agora mesmo a apanhar castanhas, seu inergúmeno duma figa…
- Inergúmeno, eu? Inergúmeno é a tua senhora que não te dá bons conselhos está bem? E olha que hoje andaste com sorte porque se fosse nos tempos do meu marechal isso ia ficar feio… e ia ficar mesmo…

A subida de tom das vozes dos dois idosos puxava para o quintal da administração muitos dos transeuntes que sem saberem as causas e os fundamentos daquela briga ora procuravam apaziguar evocando a paz do Jacinto ora colocando mais lenha na fogueira. Foi naquele instante que Lawa foi alertada pelo guarda que assistia à discussão entre os dois veteranos de guerra saídos da sala do administrador e foi ver o que se passava para informar ao chefe se fosse caso para tal.

- Mas paizinhos o quê então que se passa convosco, pai? – Perguntou no meio de tantos disse-que-disse da assistência.
- Filha, já viu esse Kajivunda a me ameaçar eu, um antigo combatente da pátria?
- Citonji explica só o que se passa. Talvez é o administrador que mandou a menina.
- Não, pá, seu filho da pu... você hoje vai me ouvir.

- Mas assim não vos oiço. - Interrompeu a moça no meio do disse que disse. - E se a discussão é de algo que saiu de lá dentro com o chefe é que vou informar?
- Pois bem. O Citonji explicou os problemas dele. Falou que lhe falta comida, casa e adubos. O chefe lhe escutou e eu não lhe cortei. Mas o gajo na minha vez de explicar veio com a mania dele de dizer que este assunto está ultrapassado, mas ele pensa já que também é chefe? Eu me coço ali onde está a me dar comichão…
….

- Então o paizinho não tomou o café?
- Não filha estava à espera do pão!
Sem se poder controlar, a secretária pôs-se a rir em bandeja larga o que deixou enfurecido o velho regedor que entrou de rompante na sala do administrador a quem expôs a falta de respeito por parte da secretária e os problemas que o afligiam. Satula só teve um caminho para apaziguar os ânimos exaltados do soba mais importante da região.

- Mwata, os jovens de hoje não sabem como estar perante um mais velho. Peço já as minhas desculpas e vamos tomar medida para que isso não volte a acontecer.

Satula largou um berro enraivecido ao gosto do velho que pretendia a tomada de medidas repreensivas contra a menina “mal-educada”.

- Lawa! arruma já as tuas coisas e estás suspensa!
- Não chefe, me desculpa só… - A jovem entrou humilde, ajoelhou-se aos prantos ao pé do velho que olhando para o administrador ordenou:
- Pronto já filha. Mostraste que apesar do erro conheces os costumes. Chefe, pode lhe perdoar. Emprego está difícil e escola para educar os filhos num há aqui desde que o colono foi embora.

Para contentar o velho, Satula propôs-lhe a realização do primeiro comício público na sua redoria, ao que de imediato concordou. Para mwa-Cikambi acolher o primeiro acto público do administrador era sinal de grande reconhecimento e de vantagem sobre os outros regedores e sobas da região. Rápido afogou a dor causada pela rizada da menina-moça e retirou-se satisfeito, mesmo sem ter levado nada de material. O dia para Mwa-Cikambi estava ganho. “O resto virá com o tempo” - disse ele ao chegar à sua aldeia que distava dez quilómetros da sede municipal.

Pim, pim, pimmmm…. Uion uion uion… Polícias e ambulância médica abriam o caminho entre a multidão revoltada para facilitar a retirada forçada do administrador. O comício tinha ficado pelo meio e o povo furioso, mais uma vez, conseguiu correr com um administrador.

Terminada a guerra, Satula abandonou o Maquis com a patente de Major e graças a argúcia que possuía e alguns compadrios na superestrutura partidária foi nomeado administrador do Mbukayo.

- Cipalavela!
- Chefe.
- Sabes falar Umbundu?
- Sim chefe. Nasci mesmo aqui- respondeu o guarda-costas.
- Amanhã vamos fazer o primeiro comício no Mwa Cikambi e como aquele povo é mafioso vais fazer a tradução.
- Está bem, chefe. Pode confiar.

Satula, um mukwakuyza, levava como recomendação dos seus superiores: pôr ordem naquele município que durante muito tempo foi administrado pela guerrilha. Já dois seus antecessores civis tinham fracassado e a ele, um militar, a missão seria a de impor a ordem administrativa, custasse o que custasse.

- Viva o povo!
- Viva!
- Viva a paz!
- Viva!

A multidão, embora rotulada de resistente, começava a flexibilizar-se e a cantar a “música” do administrador, tirando uma bolsa que se mantinha sentada debaixo da mulemba.

- A luta?
- Acabou! – Responderam.
- A vitória?
- Foi à lavra!
- Isto já me cheira à provocação, pá! - Recamou em voz baixa, mas se conteve.

O sol tornava-se cada vez mais intenso e a chuva anunciava presença. O povo cada vez mais incómodo de sentia, pior ainda com as palavras caducas do administrador. Este por sua vez, vacinado contra a resistência do povo, de imediato franziu o rosto e ordenou ao intérprete.

- Para ouvirem bem traduz tudo para a língua daqui. Não esquece nem uma vírgula está bem? E diz-lhes que vou falar em português.
- Sim chefe.

E o intérprete começou:
- A Wiñi wo Mbukayo kalungi!
- Kuku! - Respondeu a multidão que aguardava pelas novidades do novo administrador.
- Omo akuti Soma kapopi elimi lietu, otuvanguila mwenle voputu, noke ame ndipitilisa ondaka vumbundu. – Preveniu Cipalavela, o guarda-costas promovido a tradutor.

(Como a administrador não fala a nossa língua, vai falar a língua dos portugueses e eu vou traduzi-lo para Umbundu).

E começou:
- Camaradas do Mbukayo, já sei que vocês correram com dois comissários porque negaram cumprir as ordens que trouxeram da província. Eu vim com muito respeito do povo e quero também muito respeito para comigo. Se não, vamos ver quem é que manda, se é o administrador enviado para governar ou se é o povo que não quer obedecer as leis do Estado...

A população se conteve às palavras ameaçadoras do administrador e até mesmo os conhecidos sabotadores dos comícios se mantiveram silenciosos.

- Os camaradas que por cá passaram já me disseram que vocês gostam de foder os outros, só porque andaram nas matas, numa vida errante de cada um por si. Mas comigo a coisa vai ser diferente. Trago orientações superiores que são muito precisas. Quem tentar me foder engana-se. Eu é que o fodo primeiro, ouviram?

O administrador fez uma pausa para limpar o suor que lhe inundava o rosto enquanto o tradutor convertia o discurso letra a letra para a língua do dia-a-dia.

De imediato o povo reagiu com gritos de reprovação e alguns tomates que tinham sido recolhidos para servirem de oferta ao administrador foram lançados ao alpendre que produzia a sombra. Uns retiravam-se aos muxoxos e outros ensaiavam posições ameaçadoras à integridade física do dirigente. O clima estava empolvorado.

Satula olhou para o também aflito Cipalavela e questionou:

- Que se passa, pá?
- Parece que não gostaram do que o chefe disse que lhes vai foder primeiro.
- Mas tu falaste mesmo assim do que os adultos fazem à noite?
- Sim chefe. O chefe mandou falar tudo. Palavra com virgula…
- Porra, pá! Agora tu é que me fodeste, pá!

No local, terreiro da casa do soba Mwa Cikambi, o povo largou uns “kwende, katuyongola usonguwi wu ndeti ”, mas apenas uma mancha de poeira se via no trilho. O céu continuou ameaçador de chuva, mas nada os demovia. Nem mesmo o sol que se revezava com a sombra das nuvens viajantes.

Livre da rebelião, mas nunca da punição, Satula esperaria pela sua sorte, talvez a cadeia, tão logo a notícia chegasse à província. E não tardou. Dois dias depois foi chamado à sede da província pelo Comissário-Chefe. Seguiu no sei NIVA amarelo acompanhado de dois emissários armados que não o deixaram sequer despedir-se da mulher. Até o volante foi-lhe retirado e entregue a um dos emissários do Comissário-Chefe.

Pelo caminho, tentou saber a razão da chamada e daquele canino acompanhamento.

- O Maior disse-nos apenas para não o deixar respirar, Sr. major Satula. - A voz firme era dum jovem de uns vinte e tal anos. Pedro Gama, cabeça rapada, barba aparada nem parecia um bófia. Ao volante seguia um senhor de idade, quarenta e tal cacimbo vividos ao volante ora de IFA ora de DAIMER, ora de ZIL e outras tantas marcas que só ele sabia. O homem de pouca palavra, respondia apenas pelo cognome de Dono da Estrada.

- Estamos apenas para cumprir ordens, nós também não sabemos o motivo que nos trouxe. -Respondeu ele à pergunta de Satula que a todo o custo pretendia saber para onde iam e com quem falaria uma vez chegados à cidade.

Satula foi conduzido à penitenciária provincial e despachado semana depois para Luanda onde cumpriu seis meses de sem julgamento.

Na cadeia, o homem sôfrego sente ainda as cordas a lhe morderem a carne. Havia já dois dias que fora ali depositado como cão sem dono. Aquela dor, como dentes que se encravam horas sem fim na carne moída, era uma enorme tortura. Satula não se conteve de tanta raiva - raiva mesmo era o que sentia – e largou as últimas lágrimas que guardara para a mãe já cansada de velhice. A solidão e o sofrimento apossaram-se dele e viria a largar um pequeno sorriso apenas, diga-se involuntário, à resposta de um dos companheiros de cárcere à música tocada no rádio a pilhas pendurado na parede alta do recinto.

Francisco Cikolasonyi, natural do Mwa Cimbundu, estava ali detido por ter aderido a um movimento secessionista e posto na Kinyonga às ordens de quem desconhecia. Fora agarrado numa noite de festa. Propositadamente embriagado por um indivíduo que conheceu no mesmo dia, foi levado já sem sentido e acordou na cela. A mínima noção de culpa que tem foi-lhe transmitida por um outro desconhecido que passou pela cela no último domingo.

- Você é o Cikolasonyi?
- Sim chefe.
- Sabes o que significa?
- Sim chefe. É provoca vergonha, chefe!
- E te sentes bem aqui numa cadeia, um pai de filhos com mulher e família?
- Não chefe.
- Então, se um dia saíres daqui, pensa bem antes de te juntares àqueles divisionistas sem cérebro, está bem?
- Sim chefe! - Respondeu sem saber de onde vinha e que missão tinha aquele homem de baixa estatura, mas cheio de ares de grandeza.

Cikolasonyi ignorava o poder das ondas hertezianas e a telegrafia sem fios era, para ele, um conto de fadas. O homem acreditava piamente no feitiço e noutras forças ocultas que podiam colocar homens de grande estatura dentro de um garrafão de vinho ou numa caixa de fósforos, mantendo a sua vida e executando as acções dos humanos no seu ambiente natural: falar, por exemplo, ou mesmo cantar como se canta nos coros juvenis da igreja protestante.

Era a primeira vez que ligava um rádio a mando do chefe da cela, o famigerado Tira Sangue. Tão logo girou para a direita o botão power, saíram da pequena caixa preta, com barra de vidro na parte superior, vozes que ele entendeu como se uma pessoa cativa dentro do aparelho o tivesse perguntado: “Cika, Cika nunca mais te vi” …, ao que ele de imediato respondeu na mesma bitola cantada:

- “Num estovo aqui, andovo no Mwa-Cimbundo”…

Ninguém se conteve, nem mesmo o carcereiro que andava à solta a procura de zaragateiros, que existiam aos montes, para meter em acção o seu predilecto porreto de borracha.

Santula pôde, finalmente e por alguns instantes, interromper aquele rosário de pesares e, por uns curtos segundos, desfrutar do que muito gostava de fazer em horas vagas: Troçar e rir de bandeja farta.

Cikolasonyi que nunca “engoliu” nenhuma ciência trazida pelos brancos também nunca lhe passou pela cabeça que aquele objecto transmitia apenas a música de alguém que podia estar em local muito distante e incerto, sendo a caixa apenas um reprodutor de “recados”. Para ele, só podia ser uma pessoa escondida dentro do aparelho e que ao vê-lo aproximar-se para o tocar, de imediato o questionou da sua prolongada ausência, como diria no seu habitual Cokwe: ca kumwene!

Não fosse a rudeza do Tira Sangue, um pilha-galinhas dos musseques calús , um dia destes tiraria a dúvida. Estava decidido em desmontar o rádio e ver quem se alojava dentro daquelas pequeníssimas paredes de madeira, vidro e plástico. Queria ver o tal branquelo com aquela voz de gente fina e farta de benesses, bem-disposto, dando ordens e sango ou cantando sem soluçar. Foi uma pena!

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

DO PUNHO DOS OUTROS (I)

PONTO PRÉVIO:
1- Não sou crítico literário, muito menos um escritor consagrado. Sou apenas um amante da literatura e com apenas um rebento trazido à luz. Tudo o que faço é por gosto e convicto de que é exercitando que se "dá forma à pedra".
2- Começo essa aventura (DO PUNHO DOS OUTROS) trazendo escritos de outros confrades, para que: tal; como eles me dão a conhece nas suas páginas, por este blog se conheçam também os feitos/escritos dos meus confrades e amigos de peito.

Espreitando a "prosa poética e melancólica" de Armando Graça, um luso-angolano, emigrado para a metrópole nos tempos da Revolução dos Cravos, encontro na sua proposta de leitura esta "preciosidade" que resumida pelo editor, levo ao conhecimento do meu leitor.

"Memórias de Gente Vulgar" levam-nos a fazer uma viagem das origens do autor aos dias de hoje (1945-2010).

Como o título deixa antever, não há aqui berços de ouro nem se trata de desfilar de sucessos, bem pelo contrário. Revelam-se aqui como enfrentaram as dificuldades muitos dos portugueses nascidos logo após a II Guerra Mundial. E dá-se conta como a procura de vidas melhores dá lugar a infâncias conturbadas.

Entra-se em África, pela Baía de Luanda, retendo cheiros, cores e sabores de um novo mundo.

Relatam-se aventuras escolares e desventuras de prematuros empregos. E sentem-se...

Sentem-se servidões, colonislismos e racismos oficialmente desmentidos.

Sentem-se alguns dos terrorres que deram lugar a nova fuga, então apelidade de "retorno"...

Sentem-se as aventuras de quem volta ao seus país e se acha no estrangeiro, seja porque é mesmo assim, seja porque a Revolução dos Cravos agitou alguma coisa...

Sentem-se, ao longo de várias décadas, governos que desgovernam, empresas geridas para afundar e pessoas que não se comportam como tal...

Mas sente-se, acima de tudo e apesar de tudo, um constante fazer pela vida...
(...)".

É esta prosa que nos oferece Armando Graça, também meu revisor, a par de José Soares Caetano (autor de "O Último Segredo" - UEA/Edições Novembro, 2010), no seu "Memórias de Gente Vulgar" cujo lançamento em Portugal está agendado para os primeiros dias deste mês de  Fevreiro/2011 em Portugal.

Espero que o livro chegue às mãos dos angolanos sedentos de "leitura limpa"  ou no mínimo esteja à disposição dos cibernautas.

Voce pode ler um pouco aqui: http://www.sitiodolivro.pt/fotos/livros/excerto-memorias-de-gente-vulgar_1290100247.pdf

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

O CIÚME E O FEITIÇO

Era uma vez…
Havia na aldeia do Kuteca uma mulher muito ciumenta, cujo marido, já velho, saia todas as noites sem nunca dizer para aonde ia. A mulher sempre que lhe perguntasse sobre as suas saídas ele respondia:

- É melhor não saberes onde vou. Olha que isso é para o teu próprio bem.

Mas a senhora, Milika de seu nome, já desconfiada de algo que não sabia e nem entendia, fez um plano e falou consigo mesma:
- Hoje, quando ele pretender sair, vou seguiu-lo para saber aonde tem ido e o que tem feito.

De noite, quando Kavindi chegou, deu-lhe o jantar: funje com bagre fumado e lombi . Depois do repasto, o homem decidiu-se em sair como de costume.

De pianinho, sem fazer-se perceber, Milika começou a segui-lo. O homem atravessou a aldeia e entrou no sertão. Chegado ao muzungu, o chefe dos feiticeirtos disse-lhe:

- Homem, estás a ser seguido!

- Eu? Não. Vim sozinho e com muito cuidado como sempre. - Respondeu ele.

Perante a insistência dos colegas, Kavindi ordenou que se revistasse o matagal e a mulher foi descoberta, escondeida atrás de uma bananeira.

- Por teres desfeito o nosso segredo também te tornas feiticeira. - Disseram-lhe.

- Não, por favor. Eu não posso ser feiticeira. Sou religiosa e toda a minha família requenta a igreja. – Suplicou ela.

- Então terás de morrer.- Sancionaram em coro.
- Por favior, tenho filhos pequenos.
Perante as súplicas da senhora, os homens deixaram-na partir, mas com o decorrer do tempo Milika começou a adoecer. Frequentava os melhores hospitais da região mas nunca mehorava, definhando cada vez mais, até que contou a verdade ao soba da aldeia sobre o que tinha feito e o que tinha descoberto na mata cerrada.

Milika pediu antes que todos os aldeões se reunissem no jango, à volta de uma enorme fogueira, e contou:

- Sei que vou morrer. A minha morte será por ter sido ciumenta e curiosa, chegando a descobrir um segredo que era apenas do meu marido, mesmo tendo ele me pedido que não o fizesse. Como não aceitei morrer no local nem tornar-me feiticeira, tenho esta penitência: a morte lenta.

E ela morreu.

Por sua vez, uma vez descobertos pela comunidade, os feiticeiros foram jogados à fogueira pela população reunida em torno do soba Mbembwa-yo-Cily .

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

A CRÍTICA LITERÁRIA E O SONHO DE UM SOBERANO*

Começo com um ponto prévio, numa correcção importante. Não sou um crítico literário, nem um escritor. Gosto de escrever crónicas e ando (a) procura de um compromisso com a literatura. A leitura é uma das minhas maiores paixões e quando o texto ou discurso literário são ricos e agradáveis custa-me interrompê-los, não importa quantas páginas tenham.

Há tempos, o Luciano Canhanga, jovem jornalista, 34 anos, deu-me a ler o esboço do seu primeiro rebento literário. Era um trabalho tão interessante que coloquei de lado o que estava a fazer numa das horas de lazer.

Ele tinha dado ao seu rascunho um título diferente do que tem hoje, mas que transmitua a ideia de uma “marcha entre chamas”, um país a arder sob o fogo das armas e de uma grave crise económica e social; a vida infernal numa aldeia; a fuga desespererada para a cidade das mil uma oportunidades e um conjunto de dramas de quem vive na agonia, sem saber como vai terminar o sofrimento. Compreendi, sem nada perguntar, que era a história dele e da sua família. A história de muitos angolanos. Em 1997, já tinha ouvido uma história idêntica de uma jovem, também jornalista, que fugiu a pé do cenário da guerra e me motivou a escrever “os jornalistas e a saúde”, para o Jornal de Angola.

Eu e o Luciano tornamo-nos amigos via internet. Ele reagiu a uma crónica que escrevi neste jornal e criou-se uma simpatia mútua. Depois, descobrimos amigos comuns dentro e fora de Angola e fui portador de encomendas para ele. O Luciano é do Kuanza-Sul, terra onde eu passei parte da infância. Discutindo via e-mail, ficamos amigos.

Mais tarde, aceitei o desafio que ele me colocou para rever e prefaciar o seu primeiro livro, publicado há uma semana com o título de “O Sonho de Kaúia”. Fiz várias observações ao texto, a mais importante das quais foi a necessidade de definoir fronteiras entre a ficção literária e um diário com referências a actores políticos do tempo que ele retrata. Disse-lhe que deveria criar personagens e dar-lhes suficiente liberdade em cada capítulo ou episódio, sem medo. “Dá mais autonomia aos teus personagens e quanto menos te intrometeres será melhor, para o leitor. Tu és o criador, eles são os protagonistas”, insistia sempre. Em Julho de 2010, o sonho de Soberano estava realizado. O lançamento ocorreu na sexta-feira, dia 17 de Dezembro, nas instalações do Cefojor, aqui em Luanda, num ambiente bastante agradável, testemunhado por jornalistas, escritores, líderes religiosos e amigos da literatura.

O Sonho de Kaúia pode não ser uma obra perfeita, mas é seguramente uma história interessante e perspicaz.

O Manuel Muanza, jornalista, professor e crítico literário fez reparos semânticos antes de dizer que a obra é “um instruimento de denúncia social e de crítica a uma prática que se tornou instituição na nossa sociedade”. Ele “corrigiu” várias vezes o autor, sugerindo que se escrevesse Kanhanga e não Canhanga; Kawya em vez de Kaúia; Kyanda e não Kianda. “São convênios”, explicou ele. Eu confesso que também não sabia.

Sobre o conteúdo do livro, disse substancialmente: “na Europa ocidental, o realismo de Balzac e Flaubert aconteceu no momento das grandes transformações económicas e culturais. (…) Nas sociedades em construção como a nossa, os problemas sociais, económicos e culturais não vão deixar de envenenar o texto literário, como é agora o caso”.

Sejam quais forem as “PaLaVras…” sobre esta primeira obra, estamos perante um livro digno de ser livro. E é um conselho aos jovens que pouco recebem dos adultos: leiam mais, como alternativa às sextas-feiras do homem e aos “clipes e outdoors” que vos induzem a beber desenfreadamente, com trágicas consequências aos fins de semana!

Depos da crítica de Manuel Muanza e de Arlindo Isabel, cujo discurso também exortou os jovens a seguir as “regras de bem escrever”, o Luciano coinfessou que tinha vontade de fugir da sala e deixou em branco a magnífica oportunidade de repetir o olhar crítico da sua obra. Foi pena!

Gostaria que ele contasse aos presentes como surgiu como surgiu e como desenvolveu a ideia deste livro. Mas, logo compreendi que sendo o primeiro “sonho”, ele imaginou-se um peixinho acabado de nascer no meio de “tubarões” e protegeu o seu investimento, autografando-o em silêncio! Mais tarde, recebi um sms dele, no meu telemóvel, explicando o que tinha sentido: “… Kota, partilho consigo as críticas e os elogios!”.

“Uma boa aposta. Este rapaz tem futuro”, termino como ele próprio terminou o diálogo entre os personagens do “seu” grande “Sonho de Kaúia” (pág. 111). Luciano, segue o teu caminho!


* Tazuary Nkeita (José Soares Caetano) in: Semanário Angolense, edic. 398, de 25 Dez. 2010, pág. 26.
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quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

O RELÓGIO DO VELHO TRINTA

O calendário apontava o mês de Janeiro dum ano já apagado da memória. No Rimbe, o que se dizia ser a aldeia não passava de pequenas ilhas distanciadas. Casas e lavras de famílias que tinham abandonado o Kuteca e Katoto em busca de terras ainda virgens e maior tranquilidade. Era, no fundo, a prosperidade e a independência que alí os levara.

Velho Trinta e os seus filhos: Neto, Nando, Raúl e Kimone; seus netos; noras e genro constituiam o maior agregado comunitário. Umas dez casas sem soba , recaindo a autoridade em Neto Trinta, o filho primogênito, e no conselho sempre pronto e sábio do ancião.

Noutro pequeno povoado estava Xica Yango, esposa e seus filhos: Jorge Kakonda, Ngunza Kabolo e a caçula Eva. Os filhos varões já estavam casados e tinham-no presenteado com uns cinco netos. A família estava ainda no começo do seu alargamento.

Xika Yango tinha sido soba no Kuteka e, embora tivesse reunciado voluntariamente, conservava ainda o título, pois assim o tratavam todos os que o conhecimam e que por ele procuravam. Até mesmo os do Kuteka, já administrados por um novo soba que fora coadjutor de Xika Yango, mantinham a mesma admiração e respeito.

António, primo de Xica e Katumbo, também prima de Nzumba Tembo, a esposa de Xica, viviam também numa outra ilha continental. Porém, a morte de prematura de António levou Katumbo, a prole de cinco menores e suas crias; três bodes e algumas galinhas a juntar-se aos primos.

No Rimbe vivia ainda o Domingos Kastruque, também ele oriundo do distante Kuteca que dista trinta e cinco quilómetros percorridos sempre a pé ou de tractor até à estrada naciona 120. Kastruque tinha finalmente se afiliado aos Trinta para cujo aglomerado se tranferiu posteriormente.

Embora ilhado, o Rimbe crescia e era tido por todos como uma aldeia dependente da regedoria de Tumba Grande. A vida comunitária, a partilha do mel e fel da vida entre os chefes das famílias e seus dependentes fazia deles uma unidade coesa até que chegou a guerra.

Velho Trinta, setenta ou mais anos às costas, ninguém sabia ao certo quando tinha nascido. Apesar da aparente robustez, mostrava-se já sem forças para subir e descer montanhas, fugindo dos guerrilheiros opositores ao governo instalado no dia da independência.

- Sei que se me encontram nada me faze, e se me matam apenas me oferecem uma viagem pro descanso. – Atirou certa vez aos netos, em jeito de brincadeira. O seu único temor era a possibilidade de ficar sem a companhia dos netos, já jovens e adolescentes, que para as hostes da UNITA valiam como ouro.

- Avô, se voce fica aqui sei que nada lhe fazem, mas quem vai acarretar água e cozinhar para si? - Questionou a pequena Katembo respondendo ao avô.

- Hum, vou só mesmo me enrascar. – Respondeu cauteloso, ciente da dificuldade que seria acarretar lenha e água e colher e confeccionar alimentos.

A fome era na verdade um inimigo que matava lentamente, por isso seguia tropego a comitiva de fugitivos que cortavam um atalho sertanejo de vinte e tal quilómetros.

Velho Trinta algodão à cabeça, metro e oitenta de altura a curva-lhe a coluna e voz ainda férrea, anda cantando suas malambas .

- Oh relógio que bates tic-tac,

Avaria sem conserto

Para de uma vez por todas

Deixar de leslizar este ponteiro

Oh relógio que estás no peito

Meu prazo está caducado …


Os netos, alguns ainda inocentes, perguntavam por que razão teria ele guardado o relógio no peito, enquanto Mariana, a esposa de Neto Trinta, procurava distrair o sogro com cenas do bom tempo, quando o velho ainda jovem o contactou para esposa do filho que andava na guerra contra os Tugas no Quitexe e Kamabatela.

- Papá lembras-te quando foste ter com os meus pais para me juntar com o Neto?

- Sim Mariana. Como é me ia esquecer de algo que me deu tantos netos e alegrias?

- Também havia guerra do Kuata-Kuata …- Lembrou a nora.

- Pois claro, minha filha. Mas se o Neto estava nas frentes de combate nós estávamos aqui a cavar a nossa mandioca e ninguém tinha que dormir nas matas. Só mesmos já no ano da revolução quando se começaram a escaramuçar é que a coisa mudou um pouco…

Mal o Velho terminou a explanação, rebentamentos de bazucas, disparadas à distância, assustavam a coluna de fugitivos. A longa fila de homens, mulheres e crianças lembrava o tempo de contratados. Todos, uns e outros, temendo apenas pela vida. Velho Trinta correu ainda vezes incontaveis, durante uns cinco anos, entre Rimbe e Katoto, sua aldeia natal, sempre implorando ao seu relógio para parar o tic-tac.

- Oh relógio que bates tic-tac,

Avaria sem conserto

Para de uma vez por todas

Deixar de leslizar este ponteiro…

Inesperadamente despediu-se numa noite em que o único barulho que se ouvia na noite escura era o farfalhar da chuva ao corpo hirto das chapas de zinco.

Mariana tinha madrugado, como sempre, à porta do sogro que ficava a uns dez metros da sua.

- Sessa ngana!

Era um exercício diário e vezeiro. Todas as manhàs, todos os anos em que Neto trinta os fez membros de uma mesma família. À saudação segui-se um silêncio nunca antes observado.

- Uaué cocolo diamié? - Gritou desesperada.

Ao choro da mulher juntaram-se outras vozes e outros choros de mulheres vindas de outras aldeias, algumas longínquas, trazidas pelo som do tantã das más novas. Havia também mulheres que aproveitavam o passamento do velho Trinta para recordar outros mortos ainda frescos na memória.

- Ai meu homem, como você me faz falta… - Lamentava Katumbo lembrando seu marido.

Velho Trinta leva saudações para meus pais e minha filha… - Chorava Eva Kambundu.

Os homens com ideias e valores traçavam planos para a feitura da campa e as exéquias fúnebres, enquanto outros descapitalizados ofereciam o seu choro e as suas preces, juntando-se ao exército feminino que se vestia de mulalas entre as pernas.

- Mas esse mano então que está a chorar assim é quem é do falecido?- Questionou Eva Kambundu.

- Hum filha, lhe deixa só. – Respondeu Katumbo interrompendo o choro - Se você está ver já um homem meteu mulala tipo é mulher, lhe controla. É porque não tem dinheiro para contribuir nas despezas do óbito e se mistura ’mbora connosco.

Mal terminou a explicação, Katumbo desatou outra vez aos gritos, evocando a memória do seu António partido recentemente para o nunca mais.

Outras mulheres faziam-se ao caminho do riacho em busca de água, levando sangas e latas de vinte litros à cabeça. Os mizangala dirigiam-se ao mato em busca de lenhas enquanto os dikotas procuravam pelo Sô Miguel da cerâmica para os tijolos da campa.

- Sabalo! - Chamou Neto ao filho.

- Papá!

- Não te esqueças de avisar o papá Nagana Ngunji, amigo do teu avô, para lavar o defunto e manterem a última conversa a sós.

- Mas papá, morto fala?

- Vai, seu burro. A tradição nunca se muda. Anda!

Velho Trinta e Ngana Ngunji eram do kissoco e companheiros em muitas caminhadas. A ele, Ngana Ngunji, cabia, após um monólogo com o finado, desvendar à família os segredos do amigo ainda ocultos.

Ngana Ngunji, também na casa dos setenta ou oitenta, chegou à noite com a mulher e uns parentes, trazidos numa “avó chegou” . Depois do habitual mahezo entre os que chegam e os anfitriões, o velho ficou alguns intantes a sós com cadáver a quem relembrou as alianças firmadas, os caminhos trilhados, a necessidade que tem agora de procurar por um outro confidente e, sobretudo, a pertinência de abrir aos filhos e netos o seu livro de vida, guardado a sete chaves até aquele dia.

- Mano, o que nos une só tu e eu sabemos. O que fizemos também só tu e eu sabemos. O que nos separa ainda é desconhecido, mas hoje, o mano me perdoa, vou violar os segredos para que não morram comigo. - Monologou.

No dia seguinte, seria também ele a aparar a barba do amigo, dar-lhe banho e vesti-lo. Era o compromisso a que tinha chegado com o amigo ainda vivo. Depois viriam os netos varões para depositar o cadáver na urna.


Homens à frente, revezando-se no transporte da tipoia que carregava o caixão acastanhado com os restos do velho Trinta; mulheres choronas no meio da comitiva e crianças curiosas a trás, seguiam todos em coluna. Um por um, lembrando filas indianas. O cortejo seguia ao lngo de dois quilómetros acompanhado pelo Kimbanda contratado para descobrir e anunciar nos dois dias seguintes as razões da morte.

- Velho Trinta, vingue-se dos seus inimigos. Não se esqueça de contactar os nossos antepassados para que estes me revelem se é causa de Deus ou dum nganga qualquer.

Entre passo e pausas no monólogo o kimbanda volta a suplicar:

- Mais velho, ajude-me a “escarlecer” quem foi que lhe “cumeu”. Se é alguém com dívida por receber ou se é só mesmo inveja do mundo…

A frase do adivinho foi usada para debate dos miúdos, à rectaguarda da fila, que já frequentavam a escola e com algum raciocínio de lógica científica.

- Mas oh João, ouviste bem o kimbanda?

- Sim ouvi e estou também a buscar o meu entendimento. “Comué” que o avô está no caixão e esse velho bacoco está ai a entrujar que foi comido por alguém?- Questionou-se.

- Ya, eu também estou buamado e vou mesmo recorrer ao professor para nos tirar essa dúvida. – Respondeu o Júlio, um dos primos de João Trinta.

Quem não perdeu tempo foi mesmo Phande que, aproveitando-se do facto de ser primo do professor Jorge Kakonda, marcou uns passos à frente e o interceptou no momento em que a urna descia à cova.


- Camá pressor, mi disculpa só ainda!


- Diz lá, mas fala baixinho.


- Pessoa si come?


- Como assim?


- Sim mano - Phande esqueceu-se, por instantes, da regra imposta pelo professor de que mano era apenas na informalidade da casa - ouvi o kimbanda a falar que o avô Trinta foi “cumido”num feiticeiro…


- Oh pioneiro, tens de entender que esses velhos traduzem tudo ao pé da letra.


O rapaz ficou mais confuso ainda com a expressào inusitada do professor Kakonda.

- Prossor letra tem pé? Não é só pontos nos is e traços nos tés?

- Phande, os mais velhos traduzem para o português o que se comunica em Kimbundu. Como é que se tem dito quando alguém morre ou quando alguém gasta dinheiro alheio?

- É “cumeu”, camá pressor!

Feito o funeral, as pessoas desoladas voltaram cada uma no seu caminho. Velho Nagana Ngunji, apesar da idade que lhe proporcionava experiência e coragem em situações análogas, parecia sem forças e pronto a despedir-se também.

- Avô tens de fazer coragem. Teu amigo foi p’ro decanso. – Aconselhou Joaquim Neto, o neto mais velho do Velho Trinta.

- Sim meu neto. Avisaainda os pais, os tios e os teus irmãos. Todos os netos que já se amigaram para abrirmos o segredo do vosso avô falecido. - Ordenou o ancião.

Em poucos minutos o jango tornou-se pequeno. Todos contados chegavam aos cem. O Velho Trinta tinha tido boa safra e o número de netos e bisnetos crescia todos os meses. E começou:

- Filhos, o falecido partiu. Choremo-lo, mas festejemos também. Ele cuidou-se bem e fez essa riqueza – apontava o dedo indicador para a assistência - fez também coisas que só hoje vão saber, o que é próprio de um homem com a desenvoltura do mano Trinta.

A assistência fez a vénia em jeito de aprovação do discurso e o velho continuou.

- Chamem o Domingos para estar também aqui.

- Avô, qual Domingos mais que falta se já estamos todos os filhos e netos aqui? – Perguntou Sabalo.

- Aquele do Kuteca que vocês chamam de Kastruque…

Gerou-se um pequeno pânico e interrogações. Procurava-se entender por que razão teria Kastruque acesso àquela reunião restrita, não sendo ele parente directo do finado. Domingos, o homem dos truques, era apenas um amigo da família.

- Chamem só. Eu sei porquê. - Ordenou algo impaciente.


Esse - apontava para o recém-entrado - também é vosso irmão. Neto, você que é o mais velho dá-lhe ainda um abraço…

Silêncio total. Ali não era para mugir nem tugir. Uns ficaram até boquiabertos perante a revelação. Nunca lhes passara pela cabeça o que acabavam de ouvir.

- O meu amigo tem ainda uma filha no Ebo onde esteve como contratado no tempo do caputo . Neto, manda para lá um emissário, de preferência um dos netos do mano Trinta, que vai ao encontro da tia. A foto dela está aqui - exibiu-a à multidão -, os dados todos estão escritos atrá. O mais velho deixou também quinze bois no Roussel e uma dívida de dois cabritos com o Xika Yango que está alí fora. Quando sairem podem contactá-lo para saber se ele quer a dívida dele ou se não… - Orientou.

Com a assistêncioa sempre atenta, em silêncio, fazendo apenas o gesto de aprovação com a cabeça ligeiramente bailonçada para frente e para trás, o ancião prosseguiu:

- Têm também uma conta a receber na fazenda Sector Sete. Os docuemntos estão aqui. - Entregou-os ao filho mais velho, Neto Trinta.

Feito o relatório, velho Ngana Ngunji soltou as lágrimas, as últimas que ainda guardava, e evocou aos soluços a memória do amigo a quem esteve ligado por mais de meia centena de anos.

- Mano, vai com Deus, mas revela-nos nos sonhos. Se foi mesmo a hora que chegou, descansa em paz, mas se foi um nganga que te comeu atormenta-o a ele e sua casa. Não lhe poupa nem o curral, nem a capoeira.

Filhos e netos do Velho Trinta que a pouco acompanhavam Ngana Ngunji no choro abanavam de novo as cabeças em jeito de aprovação do discurso.

- Avô aparece no meu sonho e revela-me se “kalunga ka ngana ó kalunga ka kifumbe”. - Recomendou Katembo, interrompendo o silêncio.

A noite descrevia a sua última curva e os galos já anunciavam o nascer do outro dia. Lá fora aquecia a dança à volta da ngoma e da kissaca , tocadas por gente experiente convidada de outras aldeias, e fazia-se festa. Festa rija que nunca mais houvera naqueles tempos de guerra. Velho Nganga Ngunji foi dormir e no dia seguinte não mais acordou. Seguiu o caminho do amigo.



segunda-feira, 1 de novembro de 2010

OLH'O MALUCO

Era no mês de Outubro. As aulas na primária tinham começado a um mês. Alunos e professores procuravam ganhar tempo naqueles dias de relativa acalmia. Já que há três meses que não se ouviam disparos, nem boatos sobre kitotas . Até mesmo o Kissongo, terra predilecta da guerrilha, parecia pacificado.

-Clovis!

- Camá pressor!

Que pretendes ser quando fores grande?

O menino meneia a cabeça. A pergunta foi-lhe colocada em contra-mão e não tem a resposta formada. Nunca, nos seus oito anos, tinha pensado no que seria quando fosse grande.

- Qual é a profissão que queres seguir quando fores mais velho?- Endireitou o professor Lotário.

- Quero ser pai, camá pressor!

- Pai?

- Sim, camá pressor!

- Mas porquê?

- Porque os pai “comeum” bué!

A resposta despreconceituosa do aluno deixou a turma e o professor em alta pressão. Risadas e risos controlados nos quatro cantos da sala. Lotário teve mesmo de sair para buscar concentração e inspirar ar puro. A aula de ciências integradas, da terceira classe, tinha chegado ao fim, cinco minutos depois da motivação. Clovis, agora jovem, nunca se esquece do episódio que lhe custou a alcunha de “Os pai comeum bué”. Era por este nome que todos os meninos da escola número três de Calulo o tratavam sempre que o objectivo fosse zombaria . Assim foi até chegar à quinta classe e mudar de escola.

A frequentar a preparatória no Instituto Kwame Nkrumah e a trabalhar de tipógrafo numa cerâmica, Clovis está agora decidido em ter um nome e uma profissão que dignifiquem a família e a sua vila amada.

“O pão, ainda que mal amassado, exige sacrifícios”! Era esta a lição que Clovis carregava e distribuía por onde quer que fosse, por isso, fazia-se manhã cedo à estrada acompanhando a música dos militares.

“Ngongoé, ngongoé

yá, yá, yá

Ngongo ya mon’âdiala !

Ya, yá yá”!

O jovem aprendera com os pais, já finados, a fazer armadilhas para animais de pequeno e médio porte e a cultivar numa pequena horta que visitava ao raiar do sol, já que tinha de voltar à vila para o trabalho administrativo na cerâmica do Sô Miguel.

Na estrada, negra e encurvada como serpente, que faz deslizar os carros para Luanda, uma fila de noventa jovens mancebos corre ainda despreocupada com o devir. Muitos tinham sido retirados à força do colo de suas mães e outros, poucos, eram vuluntários cansados das rusgas e maus-tratos familiares. Qualquer um podia ainda ir para à casa pernoitar junto da família e apresentar-se à unidade no dia seguinte, pois só no fim da recruta é que seriam distribuídos pelas frentes que o LCB tinha nas comunas. Aí sim. Seria a vida dura dum militar.

O sol apresentava-se ainda como uma bolinha amarela e envergonhada, sem força para aquecer. Embora transcorresse o mês de Outubro, era mesmo o frio que ainda dominava. Homens, uns já nas ruas com samarras soviéticas, acordados pela companhia de instruendos das FAPLA’s, e outros ainda debaixo das mantas, sugando o último calor de suas amadas.

Clovis estava entre os madrugadores, buscando inspiração nos homens de sucesso que conhecia, no chilrear dos passarinhos e até no zunir dos ventos. O jovem queria ser escritor de fama e por isso usava de tudo para escrever, mesmo quando lhe faltasse o papel.

- Clovis! Estás sempre a levar lapiseira no bolso mas nunca levas papel para escrever. - Disse-lhe certa vez Peregrina, a irmã.

- Sim. Se não tiver papel há sempre um trazido pelo vento ou sirvo-me de uma folha de árvore. Há muitas por aí.

- E por que escreves tanta coisa que não é da escola, nem é do serviço e nem é carta?

- Um dia saberás, minha maninha.

- Hum… Um dia… Ainda te chamam de maluco…- Resmungou insatisfeita. A útima frase foi, porém, pronunciada já em surdina.

Peregrina não estava enganada. Devido ao seu hábito de parar em qualquer esquina para apanhar papéis, quando lhe soprasse a inspiração, muitos já o tinham como demente.

- Olh’o maluco!- Gritavam os miúdos da rua sempre que o vissem passar.

- Maluco é… Cuidado miúdo... Um dia parto-te as fuças!

Ele sabia do que fazia, como também sabia do que dele se dizia. Mas dava tempo ao tempo para mostrar quem mais estava próximo da demência. Se ele ou os que assim o tratavam.

Às sete, hora de regresso à vila, Clovis cruzou novamente com a mizangala da tropa. Os mancebos cantavam, já sem a mesma forças das cinco da manhã, a predilecta canção:

“Oh fantoche,

oh fantoche tunda kó !

oh fantoche,

oh fantoche tunda ko, ko Kissongo”!

Na fila estava também uma moça de poucos anos e seios ainda duros como laranjas. A jovem recruta era muito mais do que linda. Também era desejável tê-la onde quer que fosse. Era um poço de carne tenra que se expunha num vai-e-vem seguindo em passos preguiçosos.

- Sucuama! – Suspirou Clovis ao ver a “máquina” a passar, enfiada num camuflado que mal cobria as nádegas.

- Mas quê que essa moça, tão boa, está aí a fazer no meio destes marmanjos todos? - Questionou um dos traunseuntes.

- Deve ser para “desencravar” as armas dos chefes! - Respondeu outro. Era Salviano Margoso, um agricultor biscateiro .

A estrada estava dividida em duas filas: Uma era dos mancebos que corriam a passos curtos. Curtinhos mesmo. Pareciam andar em vez de correr. A outra era dos civis, que também eram muitos, que se dirigiam às lavras, aos kadiengues , aos empregos e mesmo às aldeias distantes. Todos aproveitavam o sol ainda manso e preguiçoso para ganhar terreno. Clovis seguia-os a todos ao pormenor, embora tivesse os olhos fixos no corpo daquela musa metida naquela farda verde-oliverira.

- Xê mano, não olha assim para a mulher do outro. – Ironizou Salviano, também ele atento ao passar do primeiro pelotão. O homem tinha na boca um cigarro de kangonha que acabara de enrolar.

- E quem te disse que é do outro? – Interrogou Clovis. - Mulher com dono não anda nessa vida, nem fica a puxar as calças para cima e para baixo de metro em metro. Já pensou no que seria essa mana se estivesse na vida civi?

- Mano, elas estão a levar a moda também à vida militar. É já assim mesmo. O mano não anda a ver as meninas na rua? É só já olhar e fechar a boca.- Respondeu-lhe o lavrador.

O primeiro pelotão estava já a subir a montanha da Pedra Santa e o terceiro fazia-se à baixa do rio Kambuco. A moça perdia terreno para os segundos e parecia estar no mesmo lugar em que Clovis e Salviano ensaiavam a prosa matinal.

- Moda tem limites. Quem se expõe é porque quer ser vista e o belo é para ser contemplado - Disse Clovis.

- E desejado também, né mano?- Emendou o lavrador.

A moça que ainda pôde ouvir a sentença do lavrador, largou uma estrondosa gargalhada que assustou os colegas menos atentos.

- kiá-kiá-kia-kia…

- Quê isso Marinete?

- É esse moço aí.- Apontava ela para Clovis já meio distante.

- Que te fez o homem?- Perguntou um dos instrutores.

- Chefe, o moço é bué! Só o que me falou?

- Que foi que te disse o refractário- Interrogou o tenente em tom ameaçador.

- Te conto na hora do descanso, chefe.

Luis Garrincha, o instrutor, era dos que mais guarida dava a Marinete, procurando tirar alguns loros duarante aquele período de aprendizagem. Aliás, Marinete era benquista de todos. Era a única mulher da companhia de instruendos e todos a tinham como mascote.


Um dia, daqueles em que toda a população era chamada a enclinar-se ao som tosco do Toshiba para ouvir as notícias do país, Clovis tinha sido informado sobre a constituição obrigatória de Brigadas Populares de Literatura e tinha gostado da ideia. Procurou pelo patrão, Miguel Serafim, que o insentivou a escrever e a ler. O branco de Trás-os-Montes, que na revolução ficou do lado dos patrícios, tinha colocado à disposição do jovem empregado um “José Maria Relvas” e vários outros livros de autores tugas do século dezanove.

- Olha, seu patrício, podes ler este ”libro” mas nunca o levas daqui, está bem?

-Está bem Sô Miguel, obrigado.

- E quando amadureceres, vê lá se não te esqueces de me consultar, porque não é com decretos e nem com duas cantigas que se fazem escritores, está bem? - Voltou a recomendar o branco.

- Sim Sô Miguel. Mas assim, Sô Miguel, vou começar mesmo por onde então?

- Olha! Tens de “escreber” muito e rasgar sempre – orientou - até conseguires a forma.

- Mas isso não demora muito?

- Pois é, seu Clovis. Ser escritor é paciência. Tens de “escrebinhar” em quase tudo e sobre quase tudo. Também tens de engolir este “libro” aí. Ensaia a Olivetti e depois a forma e a fama vêm a seguir.- Recomendou.

O homem deu volta e meia e meteu-se pelo fundo do quintal onde os mecânicos consertavam uma empilhadeira avariada a um par de anos. Havia encomendas atrasadas por falta de máquina e de força braçal para o carregamento de tijolos.

No pequeno escritório, onde repousava o livro de ponto e as facturas, a máquina de escrever, cansada de tanto uso e pouca atenção, parecia uma velhota vergastada pelo tempo. O tic-tac do movimento das teclas já era audível a mais de trezentos metros de distância, mesmo com o barulho das máquinas da cerâmica. Foi nela que Clovis aprendeu a dactilografar os rabiscos que trazia de casa em folhas arrancadas de cadernos escolares, outras apanhadas na rua e outras ainda arrancadas de árvores, quando papel lhe faltasse.

Já de longe, o patrão ainda voltou a adverti-lo: -Oh Clovis!

- Sô Miguel!

- Vê se não me partes as teclas que eu te parto a ti também, ouviste?

- Sim patrão!

- Patrão não, Sô Miguel, ok?- Corrigiu o transmontano.

-Sim Sô Miguel.

- Vê lá! Ainda me confundem com os contra-revolucionários e pequeno-burgueses que andam por aí a pôr pânico no “goberno”… Eu, por cá, não quero encrencas, está bem?

- Não Sô Miguel,me desculpa já.

- Ok. Vê lá então se não partes a Olivetti. - Voltou a recomendar.

- Não Sô Miguel, os ossos da “Oliveira” é que já estão sem ”sangue”. – Ironizou o aprendiz.


No quartel, a tarde estava reservada à educação patriótica e revolucionária, a aula do tenente Garrincha. Marinete estava, como sempre, no centro das atenções.

- Camaradas! - Gritou ele à companhia em parada.

- Prontos comandante!

- Olhem para a moça! – ordenou. – Têm dois minutos para descrevê-la em função do nosso tema.

- Escrever, comandante? Eu só cheguei até à primeira classe. – Disse Claudomiro.

- Cala a boca seu ignorante. Dá dois passos à frente e vinte cambalhotas já. – Ordenou o instrutor.

O Jovem, dezoito anos por fazer, desconhecia a gramática e escrever ou descrever para ele eram a mesma coisa.

- O chefe está a me castigar só à toa. - Resmungou, mas sem deixar de cumprir.

- Mateus! – Voltou a gritar, olhando para o meio da companhia.

- Pronto comandante!

- Então, que dizes da Marinete, pá?

- Sim comandante. Ela é um pedaço que não serve na minha boca, chefe!

- De joelhos já! - Sentenciou transtornado pela resposta que acabara de ouvir.

- E tu Gregório?

- Bem, “prontos”, comandante, como disse o camarada Clo, eu também “num” lhe conheço bem.

- Outro ignorante. Cambada de mentecaptos. Vinte cangurús – Ordenou.

- Satula!

- Pronto, maior!

- Salva-me a tarde, meu guerrilheiro.

Satula estava a ser sondado para o curso de sargentos na Gomes Spencer, no Huambo, tão logo terminasse a recruta. O jovem, estaura acima da média, deu dois passos à frente e, pés ligeiramente afastados, postura frontal e vertical, expôs:

- Permita-me maior. Ela é uma heroina viva nos dias de hoje em que as mulheres apenas servem o exército como voluntárias ou assalariadas civis.

A turma nem esperou pela aprovação do instrutor e rápidamente gritou vivas ao colega pela brilhante descrição. O homem tinha visto qualidades onde os outros apenas viam sexo. Garrincha bateu palmas e os instruendos seguiram-lhe o exemplo.

- E tu Marinete que dizes dos camaradas aqui em parada?

-Chefe, tirando uns, são todos uns buezezas . Apenas me comem com os olhos e nunca me dizem nada!

A resposta da jovem criou um espanto total, até ao instrutor que passava a vida a planificar a melhor altura para lhe cantar o fado. Garrincha deu meia volta, ergueu a boina, e marchou uns poucos metros para buscar postura e mudar de tema. A companhia de instruendos falaria sobre os feitos de Che, Deolinda, Henda e do Guia Imortal.


Na Olaria Moderna de Miguel & Filhos, o jovem dactilógrafo vivia em regime voluntário de enclausuramento. As saídas estavam restingidas à escola e ao cuidado da horta que muito prezava. Alcunhava-se como “o feitor da natureza”. Os convivios sociais tinham sido embargados para o pós livro.

- Então, jovem Clovis, já não te vejo nas farras, que se passa contigo?

- Estou em processo de fecundação intelectual. - Respondeu ele ao professor Lotário que o procurara para ver umas facturas de compra de tijolos.

- Olha, dizem que vêm ai os kassav e o Mamborrô. – Insistiu.

Clovis começava a ganhar a fama de novo intelectual, dada a sua nova forma refinada de se expressar em público e a limitação das suas saídas, algo que Lotário queria confirmar.

- Camarada professor, adiei tudo parta o futuro. O meu presente é o cumprimento do meu sonho. Não foi o senhor que me tinha questionado sobre o que seria no futuro? Pois que é chegado o futuro.

Lotário, apesar dos vinte cacimbos que tinha a cima do Clovis não escondia a admiração que criava e a amizade que pretendia construir. O menino que queria ser pai era na verdade uma outra criatura.

- Sim rapaz, mas quê isso de fecundação intelectual?

-É um processo de elevação espiritual e de criação estético-literária. Estou a escrever uma obra-prima que vai elevar a nossa municipalidade aos areópagos da intelectualidade artístico-literária.

O profesor, que até fazia parte da nata intelectual da vila, ficou buambo . Tinha ouvido tudo ao pormenor, mas pouco tinha entendido. Tão fortes eram o português que o ex-pupilo losava .

- Puthu ya diuabela, mas kimbundu kota .- Atirou, rendendo-se à preparação verbal de Clovis.

- Mas onde é que eparendeste tudo isso em tão pouco tempo?

- Professor, é tão somente a elvação que me proporciona a auto-superação possível através do “ndunda” do Zé Maria Relvas que o Sô Miguel me emprestou. Ele tem sido também o meu guia nesta travessia irrecusável e necessária.

- Uaué, mon’âmié? Então te estás a cultivar na língua de Camões…

- Sim Professor Lotário. Foi o senhor que certo dia me perguntou o que seria quando fosse grande. Eis agora o meu futuro. Quero ser escritor.

- Ok. Bravo, meu rapaz. E quando é que te leio de verdade?

- Dentro em breve, senhor professor, dentro em breve. O Sô Miguel e os filhos dele, lá na metrópole, estão a ver quem vai editar o livro. É só uma questão de escolha e de tempo porque valor já disseram que tem.

- E o livro vai chegar até aqui?

- De facto, senhor professor. Depois do Sô Miguel, o senhor professor vai receber o primeiro autógrafo por ter sido a pessoa que me ensinou a pensar no futuro…


Terminada a recruta, Marinete foi enviada à escola Fadário Muteka para cursar comunicações. O comandante queria voltar a tê-la sempre ao seu lado e como pessoa de confiança.

- Jovem mulher!

- Pronta chefe! – respondeu.

- Vais fazer três meses no Fadário e quando voltares vais pegar as máquinas do Manda-Boca que vai subir .- Ordenou o comandante em parada.

Seria a primeira vez que sairia da sua terra natal e que ficaria sem a protecção do seu amante, mas Marinete tinha consciência de que na tropa não se podia negar uma ordem.

- Sim chefe. Aceito.

- Então prepara a mochila poque o eleicóptero chega mesmo já amanhã. Hoje à noite falo com o camarada Garrincha que, pelo que sei, anda contigo...

Marinete apenas sorriu e dirigiu-se à caserna do Garrincha que já dominava o assunto.

No Huambo, Marinete e Vutuka eram as únicas meninas que eram militares de verdade, sendo complementadas em número por umas seis senhoras já de idade que trabalhavam como cozinheiras e lavadeiras da unidade-escola.

Txakumuena Vutuka era procedente de Muatxibundo, no nordeste, e orfã de pai e mãe. Melhor, como ela mesma dizia, era orfã de tudo. Era sobrevivente única de uma família que fora dizimada pela guerrilha.

- Mana, nem imaginas o que me aconteceu para cá estar no meio dos homens… - Abriu-se ela certa vez à companheira quando falavam do seu percurso para a vida militar.

- Conta-me mana. Que foi que te trouxe à tropa. Estás cansada dos abusos dos homens na tua aldeias?

- Yame ká !

- Como assim?

- Quem me dera. Fui ao município representar a OPA num concurso de Cianda e os meus pais foram todos “matados” pelos fantches do imperialismo.

- Aié? Qiue pena. Temos mesmo de fazer força para ver se lhes damos o troco que merecem… - Respondeu comovida a colega, evitando outros comentários que a podessem transtornar.

Vutuka, apesar de mulher coragiosa e libertária, tinha um lado bastante sencível. A colega queria evitar ressuscitar as dores que ainda inundavam a sua alma e limitou-se na conversa, buscando outros motivos.

- xtás a ver aquele gajo do Sakaiossa? O gajo é um gentio…

- É teu tio?

- Não, gentio. Pessoa sem consideração. Um matumbo de primeira. Como é que lhe dou um geito e fica aí a me espalhar?

- Se fizeram?

- Não. Eu com ele? Só se fosse o único à superfície da terra. Encontrou-me em baixa e trocamos apenas um beijo.

- E que te fez mais?

- Nada mais. Não é que o gajo anda aí a tratar-me por Vareta do comandante só porque lhe neguei o “bife”?

Aié? E tu já apresentaste queixa ao comandante da escola? – Questionou Vutuka que se apresentava mais experiente no campo dos amores sem rodeios.

Marinete tinha tido algumas experiências durante a recruta com o agora aspirante a sargento Satula e com o instrutor Garrincha. Mas foram todas entregas afectivas e nada de fazer por fazer.

- Sabes, aqui não tenho protecção e esses gajos são sempre mal intencionados. Ainda me suja só e já sabes que o boato anda mais depressa do que as pessoas.

- Nada de medo, somos todos tropas. Se lhe deixas te sujar ele te come até as espinhas. Ou então lhe aceitas já ou queixas “no” comandante.- Aconselhou.


No Fádário Muteka, Satula levava já mês e meio carregando sêmen. As idas às aldeias próximas do acampamento militar tinham sido proibidas devido ao “mi gosta” que fazia os homens até fugir da unidade militar para se juntarem às moças das aldeias vizinhas.


- Oh, Chipalavela!- Chamou o comandante da escola, o capitão Cara Podre, ao ajudante de campo.

- Sim comandante, ordene!

- Avisa a tropa. Todos. Homens e mulheres que vestem farda. Estão proibidos de hoje em dia a irem na buala . Há muito abuso na formatura por causa do “mi gosta”.

- Sim chefe. Mas, se comandante me autoriza…

- Podes falar. Quê que queres contestar já?

- Sim chefe. O comandante sabe da principal carência daqui na unidade. Água e comida temos em “ambundâncha”, mas que não há mesmo é só “curtição” e chefe sabe que o “mi gosta” vem mesmo do tempo do kaprandanda e a tropa sempre combateu contra o Kaputu .

Cara Podre, assim apelidado por gostar de franzir o rosto, endireitou a boina e olho-no-olho colocou-se à frente da tropa.

- Se vocês me disserem que aceitam castigo severo de quem falhar na formatura eu retiro o que disse. Mas fica compromisso militar mesmo.

A tropa, em coro, emitiu um barulhento “Viva comandante!” em sinal de aprovação. Satula, na primeira fila, era dos que mais satisfeitos se mostravam ante a pequena abertura do camandante.

(continua)




sábado, 2 de outubro de 2010

O SEGREDO DA MUXIMA

O dia nasceu envergonhado. Lá em cima a lua, cinzenta ainda com preguiça do longo descanso, e o sol também vaidoso e todo ele alaranjado, pareciam gêmeos. A cidade, porém, está já com a agitação do meio-dia doutros tempos.

"- … Me desculpa só ué! Eu sou a outra. Também mereço ser feliz…" O rádio dentro dum Toyota Hiace tinha o volume excessivamente alto. E os passageiros precisavam gritar para comunicar o local da paragem ou aproveitar a viagem para uma prosa com a pessoa ao lado.

A viatura de nove lugares parecia “empanturrada” de gente. Eram dezasseis no total. Por onde passava soltava ritmos que convidavam à dança e à reflexão de senhoras puritanas e libertárias flagelando-se com farpas que estendiam ao autor material da música em voga.

– Mas esse moço foi criado aonde, para trazer aqui essas suas modas de segunda? – Interrogou Domingas António, devota católica e frequentadora assídua do santuário da Muxima .

– Mana Domingas, deixa só. – Aconselhou Madalena José, sua comadre e companheira de rezas e viagens, também ela procedente do santuário além Kwanza.

Manda-diá- Zuze ou Madó, para as colegas da paróquia, é crente e devota, muito dada à caridade e trabalhos sociais na comunidade. A sua elegância contrasta porém com a vida pacata que leva. Mãe de dois filhos, “sem pai”, confiados à benevolência do Padre Abreu, que os tem como afiliados, buscava a forma mágica de manter um segredo apenas seu.

Enquanto as devotas vão tentando se acalmar do sururú causado por aquela música ou no mínimo procurar fôlego para engolir aquele “também mereço” do Damásio, uma jovem põe “lenha na fogueira” e desbota:

– Hoje em dia o homem já não é “empresa privada”. Se você estiver ’mbora a dormir ou a engordar à toa com as regalias, são as outras que ficam com ele de verdade. - Chiquita mal tinha terminado a exposição, quando ganhou o complemento de Manuela que estava na cabine, junto ao motorista, dirigindo-se de forma provocadora às devotas:

– Mamãs! Os tempos mudaram e os gostos também. Os tios agora gostam coisas que vocês nunca imaginaram fazer…

- O quê? – Questionaram as senhoras indignadas.

Madó tentou engolir a provocação em seco, mas foi-lhe dificil. Interropmeu, por instantes, a sua viagem à memória e a conversa com os botões e atirou:

– Mas agora é assim? Suas cabronas de merda! Já não se respeita mai sas mais velhas e até marido das vossas mães também estão a receber? E ainda vos acodem na música deste malandro que as p… também merecem… Deus, Nossa Senhora!- Desabafou transtornada pelo que acabara de ouvir das jovens.

Os nervos afloravam à pele e a senhora teve mesmo de se controlar para não soltar palavras que nunca se esperavam sair da boca de uma senhora de idade. Madó tinha-se lembrado do ditado popular .

- Mana ambula ngó. Madiuanu ! - Acalmou Domingas António.

No clima de “conversa puxa conversa”, uma autêntica confusão se instalou no Hiace para a gratidão do cobrador que, devido ao calor e falta de acépsia, ia distribuindo odores fedorentos aos mais próximos.

– Pôças, esses jovens nem higiene laboral têm! Mal o mecânico termina os trabalhos eu juro: Nunca mais essa merda! – Desabafou desgostoso um homem de idade, Matias Fuccic de seu nome de registo civil.

A viagem prossegue. Com ela, a “música do momento” que passa, repassa e torna a passar como se outra não houvesse. Entre prós e contras se fomentam conversas várias e aumentam-se os volumes bocais. O que sai para fora da viatura é já um turbilhão de vaias, elogios e palavras desencontradas. Os sons emitidos pelos altifalantes, os gemidos de um carro já cansado e sufocado pelo excesso de peso e as vozes dos que se xingam. Jovens atrevidos assobiam ao desgosto da mulheres ortodoxas.

- Hoje é hoje… - Desafiou Serafim, um conhecido gatuno de telemóveis e carteiras que costumava viajar nos candongueiros para avisar os amigos que se encontravam em prontidão nas diversas paragens.

- Parece que as "mamoites" vão perder a batalha (das palavras)! - Emendou outro jovem, dos cinco que se faziam transportar no veículo.

- Calem masé as bocas, seus pirralhos! – Repreendeu com veemência Domingas António, já cansada de tanto disse-que-disse.

- Hum, Mana Minga Deixa só. Esses assim querem já confiança, mas estão enganados. - Acalmou a compenheira.

Na primeira paragem, Domingas António decide abandonar o carro e aliviar-se do sufoco. Serafim que se apercebera da intenção da senhora tinha avisado por sms os amigos que a aguardavam em prontidão.

A horda de larápios tinha ensaiado a rota para a fuga e como descontrolar a vítima sem recurso à arma branca.

Mal a senhora, com sacola a tiracolo, poisou o primeiro pé no chão, um atrevido espetou-lhe uma kibiona para a desconcentrar.

-Mamoite passa o mambo! - Advertiu o larápio com o dedo indicador entre o canal rectal da senhora.

Aflita, entre resguardar a sanidade moral e a sacola, preferiu a primeira opção. Aliás nem tempo teve para pensar. A sacola, com os haveres, caiu em mãos do mal-feitor.

- Socorro, é ngombiri ! Socorro Sô polícia! Me levaram a pasta. - Gritava aflita ao que se seguiu um “agarra gatuno!, “prendam o ladrão” e outras gritarias apenas para entreter. Quem gritavam eram os proprios amigos de quem tinha furtado a sacola.

Com o episódio, instalou-se uma outra confusão no interior do táxi, juntando-se a que se passava na rua Revolução de Outubro, onde nem polícias, nem fiscais se aprontaram para o solicitado SOS.

- Os tempos estão mesmo mudados - Atirou Domingas António aos seus botões.

A sociedade impiedosa assistia impávida ao filme. O ladrão caminhava impune. E os carros revezavam-se na paragem para apanhar ou deixar passageiros. A vida continuava apressada como sempre. Aos soluços ficou Domingas António, seguindo o rasto da música que rumava ao São Paulo, destino daqueles Hiaces, sempre com a “queta” do momento, num vai e vem sem fim.

… Me desculpa só ué. Eu sou a outra. Também mereço ser feliz…

Na segunda-feira, dia seguinte, o tema, "Valerá ceder ou vamos continuar a rezar para reter os nossos maridos?" foi levado ao padre Abreu, na Capela da Dona Maria.

As mulheres queriam, aí mesmo, debitar ideias. Mas foi uma agitação tão grande e um falar alto que não permitia o entendimento. Havia três correntes formadas em função das faixas etárias. As liberais, as revolucionárias e as ortodoxas, cada grupo puxando a brasa para a sua sardinha. O padre teve de solicitar que o mesmo fosse motivo de reflexão caseira para um debate posterior, na reunião da “sociedade de mulheres de idade”.

- As irmãs vão primeiro reflectir cada uma no seu canto e depois, na próxima quinta-feira, vão concluir aqui na capela. A irmã Madalena José será a moderadora. – Recomendou padre.

As mulheres ainda tentaram convence-lo para que fosse ele a dissertar, mas o religioso passou a bola à uma delas. Tinha ele outros planos para a semana e faltar-lhe-ia tempo para preparar o tema.

No dia combinado para o reencontro das devotas, Madalena José surpreendeu-as com uma súbita ausência. Ninguém sabia por que motivo, ela que nunca faltava à reunião da quinta, estava ausente.

- Deve estar com problema ou adoentada. – Conjecturavam as colegas.

- Mana Maria Simão, mana Isabel Francês, mana Luarica Gomes e eu vamos à casa da Manda-dia-Zuze. – Era a voz comandante de Domingas António.

A comissão de visita, munida de frutas e alguns valores em dinheiro, foi de imediato à casa de Madalena tendo-a encontrado vivinha da silva. Apenas um detalhe:

Na mesma noite em que se combinou realizar o debate na quinta-feira, o padre avisado da ausência prolongada do marido, foi rever os afiliados e envolver-se na quentura carnal da sua amada. Fazia tempo que não ensaiava os versos líricos.

- Sabes Madó, amo-te muito.
- Hum. Não me parece, sô padre!
- Por quê amor meu de Cristo?
- Tens estado mais em outros lugares do que aqui. Ou deixaste de ser homem como os outros que adam de Jeans e sapatos de bico fino?
- Quê isso mulher?
- Sim. Sei que tens superiores que são “deus e homem”, mas tu nem tempo tens para os filhos que ate são teus! Dizes a isso amor?
- É sim, irmã Madó. Tem sido difícil concilar o trabalho de servo e de homem terreno. Repartir-me tem sido dificil…
- E assim dizes que me amas? Até os teus filhos andam saudosos…
- Os meus afilhados estão bem e vejo-os todos os dias nos colégios.
- E para mim bastam os filhos starem com saúde? E Homem?
- Peço perdão a Deus e a ti Madó, mas tens de pôr na cabeça que a curva que estamos a descrever é apertada…
- Tenho dúvidas, meu padre.
- Já te disse. A dois deixo de representar a Cristo.
- Mas amanhã estarás vestido de batina ao saires daqui. Ou me engano?
- Em parte certa e em parte errada. Mas não me trates por padre porque nesta condição não te posso amar como pretendes.
- Então confirmas que não me amas não é? E até já estás com cara de pressa de sair. Hoje não vais sem molhar a sopa!
- Amo-te como um pastor ama as suas ovelhas e um homem de carne a uma mulher carnal.
- Prova-me isso então. Apalpa-me o meu peito e recebe-me como carne que sou para tua boca faminta.
- És um sabor agridoce mas recebo-te com prazer…

E os momentos que se seguiram foram de êxtase até que passada hora e meia da meia noite o galo cantou de aviso, feito vigilante. Tinha chegado o momento da partida do home-padre. Madó acordaria, como sempre, envoltra em lençois. Estava acostumada e já não fazia caso contentando-se com o efémero momento vivido e olhando para a taça de pé alto com o rosé ainda por beber. Abreu, por seu lado, entraria de pianinho na casa paroquial numa hora em que a cidade se preparava para mais um dia de agitação.

No dia seguinte, terça-feira, Abreu tinha outra visita no bairro na Lixeira, casa de Maria Simão, por sinal, uma amiga de longos anos de Madalena José. Há meses que tricavam olhares intencionais e ambos tinham combinado aproveitar a ausência dos filhos de maria que tinham ido visitar o pai na distante Lunda, onde trabalhava. A tarde, solorenta seria momento ideal para pôr a conversa em dia, e quicá…

O sol brilhava furioso ao meio da circunferência azul. Dificil se tornava olhar para ele e caminhar sem água tornava-se sufocante. Madalena, que saia das compras no Roque Santeiro, decidiu então ir à casa da amiga e afinar algumas ideias sobre o debate agendado para quinta-feira. De longe reparou que havia uma viatura junto à casaa e ganhou confiança de que a iria encontrar.

Ao avistar a viatura paroquial estacionada em frente ao portão, Madalena nem imaginou no que estaria a acontecer intra-muros. Como de costume, a porta estava entreaberta e mal a empurrou deparou-se com um inimaginável cenário: Maria e Abreu trocavam intimidades.

- Xê mana, Kima kiânhi mualô banga ?

Foia a aflição total para Maria que se achava seguracom o padre Abreu naquele hora em sua casa, sem ninguém à volta, e para o "anunciante das boas novas" que nunca imaginou ser surpreendido nas suas caçadas.


- Mana que susto! Então combinamos já hoje o debate e a comadre faltou? - Questionou Domingas.
- Manas obrigada por me terem vindo visitar. Estava sem forças. Viram na igreja o padre Abreu?
- Não! - Responderam em coro admiradas.
- Viram a mana Maria?
- Sim. Ela veio connosco. - Responderam em coro, sem dar conta da ausência da companheira.

Enquanto se dirigiam à casa de Madalena nem se deram conta da desistência de Maria Simão. Custou à Madalena abrir-se às amigas e contar que tinha surpreendido a sua melhor amiga, Maria Simão, com o Padre Abreu, homem com quem ela fizera os dois meninos. Foi o fim do segredo da Muxima.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

PAPÁ CHEGOU!


...
Kambuta chegou de viagem. Se tivesse de andar num azul-e-branco até à casa teria de gastar, ao fim do percurso que separa o Aeroporto do Bairro Viana Nova, um total de Kz. 400,00, divididos em 4 trechos de igual valor. Foi a pobreza momentânea que o forçou naquele dia, último da tolerância contra os azuis-e-brancos, a optar pelo transporte colectivo urbano. A passos da paragem ainda pôde trocar prosas sobre a vida na capital.


-Epá, - dizia ele para um colega de viagem, - isso agora parece que está mais p’ro inferno do que para a urbanidade!


- Sim, meu camarada! É só ver como andam as pessoas nos carros, todos ensardinhados, e aengolir cada vez mais poeira levantada pelos veículos...


- É. Isso anda maluco! e nós que estamos mais no interior do que na capital sofremos mais ainda.


- Pois é. - Replicou Kitomangombe, o seu interlocutor, que vivia ininterruptamente na capital. Porém a semana de ausência, no nordeste, também lhe causava estranhezas.


- E como é que vais à casa? - Perguntou ainda Kitomangombe.


-Epá, vou me desenrascar... De qualquer meio que aparecer. Kupapata ou mesmo “avó chegou” , tudo serve.


Kitomangombe seguiu o caminho do Rocha Pinto e ele, Kambuta, dirigiu-se ao Banco que ladeia a estrada da "Revolução Soviética". Estava decidido em alugar, se possivel, uma viatura particular para chegar cedo à casa, onde os filhos e a amada o aguardavam esperançosos.


- Meus senhores, bom dia!


- Bom dia, - respondeu um dos guardas que acabava de endireitar os olhos enramelados na noite mal dormida. O homem parecia "estar apenas por estar" .


- O senhor pode cuidar da minha mala cá fora? é que venho de viagem e estou sem dinheiro para chegar à casa…


- Vem de viagem? Mas o senhor não pode deixar aqui a sua mala.


- Então posso levá-la comigo até lá dentro...


- O quê? levar lá dentro e se der maka?


- Que maka? O senhor está bem da cabeça ou faz-se?- perguntou já sem paciência.


O jogo de perguntas e respostas atraía mais gente à porta do banco. uns dando razões ao Kambuta e outros alegando que devido aos aconteciemntos dos últimos tempos em que muitos guardas foram driblados, o segurança estava certo. Kambuta operdia a paciência, perante um rasteiro vigilante que estava longe de um polimento urbano.


Sem dinheiro no bolso teria mesmo de enfrentar os autocarros, coisa que não fazia há mais de dois anos, desde que propositadamente fez o percurso Rangel/Viana para registar os cânticos anónimos. Mas de lá para cá muita coisa mudou. Pelo menos, dizia-se nos jornais, Rádio e televisão que muita coisa havia evoluído. Apregoaram-se autocarros limpos e cómodos, equipados com AC e silenciosos, com mais jornais em leitura do que falas dispersas


… Diálogo…

O primeiro machimbombo que por ele passou tinha a designação de Segura a Gola d’Outro e estava apinhado de gente. Tudo quanto ouvira levaram-no e pensar que se tratasse de um funeral e não desistiu da espera. O segundo, da companhia Tira o Colete e Ultima a Luta, também rebentava pelas chaparias. Desesperado tentou enfiar-se por um espaço que restava entre pernas mal colocadas na pequena escada do pesado, mas sem sucesso. Desistiu.


- Taxi, taxi. - Chamou ele deseperado.


- É 'scongolense, papoite. - Advertiu o cobrador.


- Quanto é a passagem?


- Preço da igreja meu papoite!


Pagou os primeiros Akz.100,00 para um percurso aproximado de 2km. Encontrou uma agência bancária com multicaixa e tentou a longa fila. Os Kwanzas acabaram e a reposição tardava com a mesma persistência com que o sol atingia o epicentro.


À saída da agência, colocou a mala sobre o lancil, à sobra duma velha acácia húmida de mijo. Riu de forma aberta, espantou os nervos e caminhou mais um trecho. Agora sem dinheiro e sem força nas pernas, Kambuta limpa a mala, esconde os óculos que o identificam com facilidade e mistura-se num aglomerado que aguarda pelos autocarros. Estava perante o último recurso.


- Não há escolha. – Introspectou.


Ao chegar à paragem o primeiro autocarro da companhia Tira Ultima Risada e Anda, Kambuta não titubeou e nem mesmo os passageiros à boca da porta o fizeram desistir. Estava já há duas horas na capital, tempo superior ao da viagem aérea em que transpôs mil quilómetros.


- Tomara que seja mesmo climatizado. -Falou aos botões.


Já dentro, os empurrões e os cheiros desencontrados davam-lhe as boas vindas.


Gelados de múcua , kikuanga , makayabo , kapuka madrugador, vómitos mal lavados e outras náuseas imundas fazia o cocktail fedorento.


- Moço,”mi disculpa” só paizinho! Toca mais à frente! - Ordenou a cobradora.


Próximo da porta frontal, que servia de entrada, uma jovem nos seus 15 aninhos reclamou:


- Pôça! Até cheiro de liamba? Para quê que não vão à pé? Alguém tem de ver isso. – Desabafou desesperada.


- Xê kanuca! ‘Stás a falar assim a quem? - A voz rouca e pouco higienzizada era dum jovem que aparentava 29 ou 30 anos. Estava ébrio. Diria mesmo encharcado. Grandes teriam sido as dozes que engolira na véspera e que faziam dele um evaporadouro de álcool etílico.


- Hum, falei pra ti? Olha então a cara dele… - Resmungou a jovem.


Entre reencontros provocados pelas travagens repentinas e contorções da viatura que soluçava ao encontro dos enormes buracos deixados pela chuva recente na estrada repavimentada, os passageiros iam tomando contactos mais íntimos. Corpo a corpo e suor no suor, qual molhados de fogo da paixão. Mais se parava, mais se falava e mais se ia trocando salivas das falas dispersas, deixando fervilhar no ar um perfume de aromas desconhecidos. E tudo mudava.


Os penteados desfeitos pareciam noites intermináveis de amor da puberdade ao passo que outros cabelos, industriais ou herdados de indianas, jaziam também sapato abaixo, naquele chão, evocando aos fios o sofrimento que é uma viagem num machimbombo de Luanda.


Foi nesse clima que Kambuta reencontrou a capital, a horas da declaração da Tolerância Zero aos desmandos dos automobilistas. Os cintos de segurança, os porta-bebés, os macacos, os coletes reflectores, as chaves de rodas e outros apetrechos passam a ser obrigatórios e as penalizações vão até ao tecto de 2 anos de salário mínimo.

Nas ruas as más-línguas apregoam que no dia primeiro de Maio haveria no largo da Cimangola um palratório de todos os candongueiros para reclamarem das vindouras multas policiais.


As boas línguas, porém, reforçam na media que ninguém mais abortará a aplicação da Mudança. Apregoa-se também, nos altifalantes públicos e privados de vocação pública, a inundação da cidade de novos autocarros. Políticos, empresários e pseudo empresários se revezam nas promessas e a “Revolução Viária” se torna palavra de ordem. A mesma ordem que ainda se confunde com a “gasosa” das multas adiadas em conversas de cavalheiros.


Já em casa, Kambuta, maltratado pela viagem, é recebido apenas por uma das filhas que o reconhece pelas rugas no rosto.


- Como foi a viagem papá?


- Terrível filha, terrível! Os autocarros são baratos mas bastante infernais. -Respondeu aborrecido.