quarta-feira, 23 de maio de 2012

NÚCLEO DE AMIGOS DA LEITURA E LITERATURA


MANIFESTO

Prezado(a) Senhor(a),

A Elevação dos níveis de literacia de qualquer sociedade passam, necessariamente pela criação de hábitos de leitura entre as crianças e jovens e ensaio da escrita em todos os domínios ( escrita comum e escrita criativa).
 Atento e preocupado com a gritante perca de hábitos de leitura e, concomitantemente da Pesquisa Científica e Cultural, um grupo de jovens (Professor e estudantes da cadeira de língua portuguesa, da Escola Superior Politécnica da Lunda Sul) lançam o manifesto para a criação do NALL- Núcleo de Amigos da Leitura e Literatura.
 O NULL constitui-se como uma associação, independente, apartidária, sem credo religioso e sem fins lucrativos, cujos objectivos são:
- Promover e incentivar as crianças, adolescentes e jovens na prática da leitura, debate e escrita criativa.
- Proporcionar espaços de leitura e bibliografia para as crianças, adolescentes e jovens e servir de oficina de escrita para futuros homens de letras.
Para a prossecução dos seus objectivos a NALL poderá firmar acordos de parceria e cooperação com Organizações e Instituições culturais afins e bem como buscar patrocínios de Pessoas Singulares e Colectivas que se identifiquem com os seus objectivos.
O Núcleo de Amigos da Leitura e Literatura é de carácter nacional, devendo abrir filiais aí onde o interesse da juventude o justificar.
Para a sua proclamação e/ou constituição de filiais de NALL bastará um mínimo de cinco membros.
O NAAL é dirigido por um coordenador geral coadjuvado por secretários de áreas específicas, nomeados proporcionalmente de acordo com a composição numérica e por genero do seu agregado de membros.
A adesão ao NAAL é voluntária e aberta a todos os cidadão, bastando assinar uma ficha de inscrição para controlo dos seus membros.
Se se revê no Manifesto mAnde um e-mail para ngananguji@gmail.com
CONTAMOS CONSIGO!

O Coordenador da Comissão Instaladora
Soberano Canhanga
(Professor e escritor)

sexta-feira, 20 de abril de 2012

ALFARRABISMO E KISALO DAS LETRAS: UM RESGATE QUE SE TORNA NECESSÁRIO*


Ela é paciente. Está todas as noites, das 18 às 22horas, no pátio da escola do II nível de Saurimo onde a Escola Superior Politécnica da Lunda Sul (unidade orgânica da Universidade Lweji A Nkonde) tem salas emprestadas para estudantes nocturnos. Paciência Sanâmbua sabe que os estudantes universitários têm uma carga de conhecimentos muito diminuta devido à falta de bibliografia, aliada à inexistência de hábitos de leitura. Ela não só vende livros, como também aproveita retirar deles o conhecimento que têm.
Na sua bancada, Paciência expõe livros de escritores e autores angolanos editados pela Mayamba. É única em Saurimo a fazer este negócio. A cidade dispõe apenas de uma livraria situada em local de difícil reconhecimento. Não há divulgação/publicitação da mesma e acções tendentes a elevar os níveis de literacia são desconhecidas. Os alfarrabistas inexistem. Feiras de livros e outras artes também são inexistentes na cidade. Os leitores são poucos. Pouquíssimos. “vendo por dia (noite) entre 3 a 5 livros ou menos do que isso”, diz ela rasgando um sorriso característico de quem gosta do que faz. É como quem corre por gosto (não se cansa) e por isso Paciência não desiste da venda de livros.
Alguns professores, preocupados com as causas do tão fraco nível de conhecimentos dos estudantes, vão apelando à leitura e recomendando livros (gramáticas, dicionários, romances, contos, livros técnicos em função da especialidade, etc.). Uns, que já deram conta do quão atrasados estão, vão aplaudindo aos conselhos e vão adquirindo livros para a elevação do seu nível intelectual. Outros fazem “ouvidos de mercador”, mas é assim a vida. “Nem todos estão atrás do conhecimento”, como desabafou um dos meus estudantes preocupado com os colegas que, mesmo estando na universidade, desconhecem a definição do que é o sujeito de uma oração. “Uns querem apenas obter os certificados para serem chamados de doutores ou para terem os salários elevados”, rematou o insigne estudante.
"É o conhecimento que difere o doutor de fato e o Dr. de facto", tenho dito aos meus amigos, em todas as salas por onde ministro.

E, aqueles que pretendem ter um “canundo” como produto da carga de conhecimentos que possuem ou venham a possuir têm de ir à barraca da Paciência e outras barracas/livrarias (quitandas das letras) para enriquecerem as luzes/pistas que os professores dão sobre o saber científico. Fora disso, não há outro caminho.



          * Kisalo: o mesmo que kitanda em kimbundu (mercado em português)
O autor é docente de língua portuguesa na ESPLS-ULAN

sexta-feira, 9 de março de 2012

VEI AÍ MANONGO-NONGO

ANGOP:07-03-2012 10:36
LiteraturaLuciano Canhanga anuncia lançamento do seu segundo livro
Luanda - O jornalista e escritor Luciano António Canhanga anunciou hoje, quarta-feira em Luanda, ter previsão de lançar no II semestre do corrente ano o seu segundo livro intitulado "Manongo-Nongo".
Segundo o autor, em declarações à Angop, Manongo-Nongo é para os tchokwé (povos de Leste de Angola) uma cerimónia festiva que se dá de forma espontânea quando nasce uma nova criança na família.
Manongo-nongo é, por isso, a festa do recém-nascido. É a festa da criança que engrandece o agregado social.
Fez saber que decidiu intitular o seu livro de "Manongo-Nongo" por ser uma oferta às crianças de toda Angola que devem crescer com inteligência encontrada nos livros que lêm e na sabedoria e experiências transmitidas pelos mais velhos.
"Este livro contém estórias do nosso povo, contadas e recontadas de geração em geração, e outras que foram criadas e recriadas por mim", referiu.
O livro terá aproximadamente 70 páginas, devendo ser impresso no modelo A5 com textos (estórias) ilustrados e será lançado inicialmente em Luanda e posteriormente na província do Kwanza Sul.
Luciano Canhanga nasceu no Libolo (Kwanza Sul) em 1976. Jornalista desde 1996 é formado em Comunicação Social, trabalhou na LAC e colaborou em diversas rádios e jornais nacionais e estrangeiros.
Como escritor publicou "O Sonho de Kaúia" (romance-2010). Tem outros títulos por publicar, com destaque para "10 Encantos'' (poemas) e "O Relógio do Velho Trinta" (romance).
Trabalha desde 2006 em assessoria de imprensa na Sociedade Mineira de Catoca Lda.

domingo, 4 de março de 2012

A MÃE DO MEU AMIGO

(Este texto é parte do livro "O Coleccionador de Pirilampos")
Eram amigos desde o tempo da Mukaanda[1] quando ainda lhes faltava dentes na boca por completar. Desde os seus dez a doze anos que mais pareciam irmãos do que amigos. Frequentavam os mesmos bailes, a mesma escola, namoraram miúdas de mesmas ruas até que conseguiram emprego de estivador numa roça de café, em Kunda-dya-Base.
Mukwateno, mais excêntrico, e também grande apreciador de kangonha[2] parecia mais velho de Mutambuleno, um kapuqueiro[3] de dotes afinados.
Na manhã daquela terça-feira, depois de um fim-de-semana prolongado, os dois cavalheiros decidiram permanecer em casa, mesmo com a dureza da lei que estipulava faltas duplas para ausências em dias imediatos aos feriados e fins-de-semana.
- Hoje não vou bumbar. – Ligou Mutambuleno ao irmão Mukwateno.
- O que é isso, mano? Não sabes da nova lei?
- Qual lei?
- Aquela “de dois para um”. Já te esqueceste que hoje se faltarmos mamamos logo duas?
- Ah sim… mas… Há sempre uma forma.- Afirmou Mutambuleno.
Não tardou, o autocarro da recolha passou pela rua de Mukwateno e depois na de Mutambuleno, o permanente insatisfeito, que ao longo do percurso de trinta quilómetros, da vila de Kunda à roça, ia maquinando planos para a evasão ao trabalho.
- Mano, já imaginaste se fossemos pedir ao boss uma dispensa?
- Como assim? Que diríamos? – Questionou em réplica, já meio admirado, Mukwateno.
- Espera só. Quando chegarmos vou fazer duas cartas e tu me acompanhas. Bastará aceitares o que eu disser ao chefe Kaprakata.
A empresa trabalhava como de hábito. Pessoas correndo de um sítio para o outro. Uns cuidando da estufa, outros dos animais e outros ainda do plantio. Apenas o armazém estava em “hibernação”. Parecia uma área morta embora estivessem aí dois homens de complexidade física de meter inveja. Numa mesa de madeira, Mutambuleno redigia pesadamente uma carta. A lentidão no soletrar evidenciava, para os que lá passavam, quão sofrível era a sua redacção. Mukwateno, por sua vez, acondicionava uma carroça de cebola que devia seguir para Bula-a-Tumba.
Sem ainda tempo para a revista habitual em todas as secções e frentes de trabalho, o encarregado-geral, Kaprakata, desdobrava-se em recepções de clientes e fornecedores, todos desejosos de ter as contas acertadas. Foi naquele mesmo instante que irromperam, sala adentro, os dois cavalheiros.
- Chefe Kaprakata, bom… bom dia. – Saudaram aos soluços Mukwateno e Mutambuleno.
- Bom dia, colegas… que se passa?
- É nossa mãe, chefe, - Respondeu Mutambuleno.
- Que se passa com vossa mãe?
- Está doente chefe. Hoje mesmo ninguém conseguiu dormir. - Mukwateno sacou de um lenço de papel para enxugar as lágrimas que corriam como rio.
- Chefe! Por isso viemos aqui para falar consigo, chefe.
- E em que posso ajudar? Já a levaram ao centro médico?
- Não chefe. Ontem, assim mesmo que estamos a falar, a velha já estava no Kimbanda, mas o dinheiro que pediu não temos. -Responderam num coro desafinado que levantava suspeições.
- Ok. Então querem adiantamento…
- Sim chefe é isso mesmo. Nê, mano? - Interrogou Mutambuleno, buscando a confirmação do companheiro.
- Sim. Sim, mano. - Respondeu, abanando a cabeça de baixo para cima.
O chefe fixou o olhar aos dois e de seguida sentenciou:
- Ok. Ok… Vamos por partes. Mas quanto é que vocês querem?
- Dois salários para cada um, chefe. É que, como ganhamos pouco, queremos já juntar os dois adiantamentos para completar a conta do “mestre” que está a tratar a nossa mãe.
- Mas posso falar com vocês, um de cada vez? - Perguntou o encarregado.
- Sim chefe, “num tem prubulema”. Ou tem? - Perguntou novamente Mukwateno ao companheiro.
- Não, chefe num tem. - Confirmou Mutambuleno.
Lá fora, tudo parecia o mesmo, como nos outros dias, excepto aquela intromissão dos dois M na sala do patrão como era conhecida a sala administrativa.
Os cabritinhos medindo forças, as galinhas cacarejando, o cachorro atrás das borboletas e o sol ainda preguiçoso, desejoso de atingir o meio-dia. Na tonga[4] era momento apropriado para a rega. Kaprakata chamou pelo primeiro: entra o Mukwateno.
- Então, mostra lá a tua carta. Como se chama a mãe que está doente.
- É mãe Isaura, chefe.
- Mas somente Isaura? Não tem sobrenome?
- Outro nome, chefe?
- Sim. Sobrenome... Note bem… Eu sou Adolfo Kaprakata. Calculo que ela seja Isaura fulano, por exemplo…
- Ah, chefe! (a coçar a nuca) “Se chama” Isaura Muzuleno.
- Ok. Pode sair e diz para teu irmão entrar imediatamente.
- E tu Mutambuleno, qual é mesmo o significado do teu nome?
- Lhe recebem, chefe!
- Ah! Recebem-no. E você quer receber dois salários adiantados…
- Sim. É isso mesmo chefe.
- Ok. Vamos a isso. Como se chama a sua mãe?
- Chefe é aquele nome mesmo que o meu irmão disse.
- Sim, mas eu quero confirmar… Diz lá para eu assinar já os vossos documentos.
(A coçar a cabeça) - Chefe! é mãe Magui.
- Mas é só mesmo Magui? Não tem outro nome?
- Chefe! Vou falar já minha verdade. Eu não sei bem o nome dela.
- Oh, mas como assim? Ela é ou não é sua mãe?
- Chefe! Vou mesmo já falar minha verdade: é mãe do meu amigo!


[1] - Circuncisão (termo Cokwe).
[2] - Marijuana (termo Kimbundu).
[3] - Utilizador de kaporroto; bebida destilada usando processos tradicionais (termo Kimbundu).
[4] - Roça (termo Kimbundu).

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

O IRMAO DA IGREJA

(Este texto é parte do livro "O Coleccionador de Pirilampos)

É manhã de segunda-feira. A cidade conhece um transito muito agitado devido aos que se dirigem ao serviço. Apanhar táxi está complicado. Pior ainda porque os machimbombos[1] estão difíceis por causa da chuva que fez das estradas lagoas para criar peixe, embora sejam as rãs que enchem as noites com o seu incómodo coaxar. Entre os que madrugam está Kafuringa. O homem está decidido em cruzar com o chefe no corredor principal. Conhece a hora da entrada dele. Oito e um quarto. Foi exactamente neste momento em que Kafuringa apareceu diante do chefe com os olhos todos avermelhados.

- Chefe Katimba, bom dia. - Disse Kafuringa aos soluços.

O homem tinha planeado tudo ao pormenor. Um pouco de cebola para provocar as lágrimas, um dente de alho para abafar o hálito do kimbombo[2] da noite anterior e intrujices mal pensados.

- Bom dia Kafu. – Respondeu-lhe o chefe. – O que se passa?

- Chefe é o meu irmão.

- O que se passou com o teu irmão?

- Morreu mesmo esta manhã!

- Ai que pena! De que padecia?

- Não chefe, não padecia. Morreu só mesmo.

- Ok. Ok… - Katimba teve de desviar o olhar e esconder o sorriso que de repente lhe invadiu a alma. - Os meus pêsames. – Prosseguiu comovido.

- E já trazes o documento dele?! – Indagou o chefe, olhando para o subordinado nada sério nas suas afirmações.

- Sim chefe. Ganhei já tempo para não ter de voltar mais a casa buscar.

- Deixa-me então ver. Pode ser?

- Sim chefe. Trouxe já para ver se o chefe me ajuda com uns produtos e a dispensa para o óbito…

- Ok, meu caro Kafu. (Olhando para os dados) - Mas os vossos apelidos não coincidem… Eram irmãos de pai ou de mãe? - Voltou a questionar o chefe, com o rosto já carregado de impaciência.

À medida que Kafuringa ia perdendo argumentos mais inconsistentes se tornavam as suas respostas. Kafu era naquele momento uma criança descalça correndo sob um chão molhado e escorregadio. Estava iminente a sua queda aparatosa.

- Não chefe, ele não é meu irmão de mãe nem de pai. - Respondeu Kafu.

- Hum! Como assim Kafu? Então era teu primo…

- Não chefe. É meu irmão da igreja!



[1] - Autocarros.
[2] - Bebida fermentada feita a base de arroz, fermento e açúcar (termo Kimbundu).

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

O PEIXE COR-DE-ROSA

Era uma vez, num lugar bem fundo, no mar do Amboim …

Vivia um peixe muito belo e inteligente de nome Rosa. A Rosa, que tinha as barbatanas cor-de-rosas, era tão esbelta que provocava a inveja a todos os demais elementos do seu cardume, principalmente as fêmeas. Entre elas, as fêmeas, ouvia-se sempre um murmúrio mas que nunca se pronunciava de forma aberta e directa.

- Quem ela pensa que é? Uma espécie rara? - Diziam as invejosas.

Rosa, com a sua beleza ímpar, e sempre perfumada com as melhores fragrâncias que retirava das algas marinhas, desfilava pelas águas profundas do mar de Amboim. A sua inteligência permitia dar sempre conta da inveja das companheiras e das “rasteiras” que preparavam para a prejudicar, bem como das iscas e das redes lançadas pelos homens para a pescar. É que a sua fama chegava até água acima, aos homens que procuravam por peixes raros e de cores diversificadas.

- Pôças, essa gata é uma brasa! – Diziam os peixes machos, todos eles galanteadores, deixando as companheiras de Rosa totalmente possuídas de ciúmes.

Com tantos elogios, inteligência e galanteios, Rosa ganhou uma inimiga declarada e determinada em eliminá-la do cardume. Era a Cinzenta. Tão feia e tão desarranjada que não havia ser vivente no mar que se parecesse a ela. A Feiosa, como era conhecida no grupo, chegava a inventar mentiras contra a Rosa.

Certo dia, havia sol aberto na terra e os pescadores resolveram ir à pesca. Era um dia perfeito para muita faina. Os homens, munidos de canoas, redes e anzóis, remaram para o mais distante possível da costa, a fim de encontrar os cardumes que no fundo do mar festejavam a clareza da água.

Num sítio em que a ausência de ondas denunciava a presença de muitos peixes, os homens lançaram as suas redes ao mar, sem se darem conta de um buraco na rede principal, aquela que tinha um tamanho menor do que o corpo de Rosa e única que a podia capturar.

Mais uma vez, a Cinzenta vendo que os machos estavam todos à volta de Rosa ficou coberta de inveja e retirou-se do sítio em que estavam, para mais fofoquinhas com as suas amigas que combinavam junto a um monte de pedras e conchas mais uma armadilha para prejudicar a Rosa. Foi no mesmo instante que os pescadores lançaram a rede ao mar apanhando-a de surpresa.

- Socorro, socoooorrrrooooooooooooo! - Gritava a Cinzenta aflita, sem poder se libertar da linha que lhe apertava as guelras.

- Oh, que azar! - Exclamaram os peixes ao lado, sem nada poderem fazer.

- Quem a vai ajudar? - Perguntavam-se uns aos outros, sem que alguém desse o primeiro passo.

Foi aí que Rosa, mesmo sabendo que corria o risco de também ficar presa entre a rede dos pescadores, desfez-se dos companheiros e lançou-se à empreitada de salvação da Cinzenta que apenas mexia a cauda, já sem forças para se libertar nem para gritar.

Rosa, a inteligente, reparou que a rede tinha dois buracos. Entrou com jeito por um deles e pediu a Cinzenta que deixasse de respirar e puxasse o corpo para traz. Feito isso, pediu à invejosa Cinzenta que a seguisse sem se desviar da rota e ambas conseguiram sair pelo outro buraco que havia na rede.

Salva e muito feliz, Cinzenta deu um beijo à Rosa como forma de agradecimento.

- És muito melhor do que eu pensava. – Disse Cinzenta. – Desculpa-me por tudo que te fiz de mau. Aceitas?

- Desculpas aceites, amiga. - Respondeu Rosa sorridente.

Posto isso, as duas partiram abraçadas para um passeio bem mais seguro, entre rochas onde nunca seriam apanhadas por uma rede lançada por pescadores.

Texto de Judith Pinto Carlos com adaptações de Soberano Canahnaga

domingo, 4 de dezembro de 2011

O MORCEGO DE MAYOMBE

(X conto)


Na floresta de Mayombe, Tati era um morcego feliz. Vivia com sua família e tinha tudo. Frutas abundantes, insectos com muitos nutrientes e uma família que cooperava na segurança e conforto. O ninho em que viviam era de plumas recolhidas junto a um aviário. Tati vivia em festa permanente, pois nunca lhe faltava nada.

O andar do tempo e a destruição do seu habitat trouxe, entretanto, alterações na sua vida.

Primeiro apareceram os madeireiros e derrubaram a árvore em que estava o seu ninho. Foi um dia muito triste, pois chovia muito em Mayombe e a família de Tati teve que dormir ao relento.

Quando a chuva terminou, ainda tentaram construir um outro abrigo, mas as plumas que aqueciam os abrigos ninhos tempo de chuvas ácidas estavam cada vez mais difíceis.

Depois surgiram as pestes, devido à poluição que se fazia sentir na região. As fábricas mandavam muito fumo para a atmosfera, as britadeiras faziam muita poeira e os esgotos das residências estavam todos apontados para os rios. Todos começaram a sofrer: os homens, os animais e até as plantas. Ninguém tinha um ar puro nem água potável.

Tati, o morcego de Mayombe que já era órfão de pai, perdeu a mãe e, depois, os seus cinco irmãos.

O sofrimento instalou-se e Tati começou a passar fome e falta de companhia.

Primeiro, juntou-se a um grupo de ratos que procuravam por comida debaixo duma árvore. Tati apresentou-se e contou toda a sua história: da perda da família, da destruição do ecossistema que grassava pelo Mayombe e da solidão da sua vida. Um dos ratos, Madyeco, que era por sinal o mais pequeno e muito instruído, ainda chegou a dar um abraço a Tati, mas os mais velhos, vendados pela ignorância, retiraram-se e negaram toda a aproximação com Tati.

- Oh Madyeco, estás burro ou quê? Já alguma vez viste um rato com asas? Isso é obra de Satanás. Anda dali, pá! - Ordenou o mais velho do grupo de nome Ntengo.

Madyeco teve de seguir o grupo e Tati continuou sozinho.

Veio a noite e depois a manhã. Um bando de passarinhos festejava na copa da árvore a chegada do rei sol. Tati acordou e depois da higiene matinal decidiu juntar-se a eles. Os morcegos geralmente são noctívagos e não se apresentam durante o dia, mas Tati fez coragem e lá foi ter com os passarinhos. Mal se apresentou, já dois deles zombavam da sua presença.

- Hi-hi-hi… - ria perdidamente Kadyembe, um passarinho conhecido na floresta pela sua loucura. - Vocês já viram, alguma vez, um parente nosso com pelos? - Perguntou outro, retirando-se posteriormente em voo rasante sobre as árvores mais baixas.

- Tati sentiu-se tão mal com o comportamento daqueles jovens ignorantes que nada entendiam de convivência pacífica entre as espécies. Abordou o passarinho que parecia ser o mais velho do grupo para explicar que apenas queria conversar, já que estava sem os seus parentes, mas Ntyete, o chefe daquele bando, também o desprezou.

- Sai daqui seu dentuço. Não há, por esta floresta, pássaro nenhum que tenha dentes. - Alertou ao seu grupo que se retirou de imediato.

Com a segunda desfeita, Tati não teve outra saída que não fosse o seu recolhimento ao ninho.

Com o desgosto da desfeita, Tati deixou de comer em condições e a vida para ele parecia não ter mais sentido.

Um belo dia, quando tudo parecia perdido, apareceram perto da árvore que suportava o seu pequeno ninho uns homens com roupas que se pareciam a folhas de árvores. Os homens de verde inventariavam os estragos que a desflorestação tinha causado à flora e à fauna do Mayombe. Notaram que muitas árvores tinham sido cortadas e os animais, sobretudo os morcegos que à noite embelezavam a floresta com seus voos, tinham desaparecido.

- Vamos preservar a nossa herança colectiva. - Disse um deles.

- Sim. Vamos recolher tudo o que for exemplar único para que possa viver e reproduzir-se. Temos de fazer com que os nossos filhos vejam árvores, pássaros e outros animais como nós víamos quando éramos pequenos. – Responderam os demais integrantes do grupo que carregavam uma enorme gaiola onde colocavam todos os passarinhos que encontravam solitários .

Tati apercebeu-se então que podia ser salvo da morte anunciada. Fez a última força que lhe permitia o seu corpo e saiu do ninho.

Os homens recolhiam também para um zoológico os animais e as plantas que estavam em vias de extinção para os preservar.

Os ambientalistas levaram-no ao jardim zoológico de Simulambuco onde Tati vive até hoje muito feliz, com outros animais e aves de várias espécies recolhidos do Mayombe.



segunda-feira, 7 de novembro de 2011

O CÃO RAFEIRO DA RUA DA LIBERDADE

Na cidade de Ondjiva, Twayovoka era o cão mais rafeiro da rua da Liberdade. Lutava por tudo e nada e tinha as orelhas todas estraçalhadas devido às arranhaduras e mordeduras que já sofreu. De longe, as marcas das feridas e os buracos nas orelhas pareciam argolas.

Twendi ko Vaso, o seu amo, até já quis se desfazer dele mas a dona Nsingi, uma senhora do Zaire que gostava de cães, impediu que Twayovoka fosse morto e prometeu ficar com ele caso Twendi ko Vaso insistisse em matá-lo.

O surgimento de uma cadela em período de cio era motivo para Twayovoka se envolver em brigas com outros canídeos que se fizessem à rua. As suas lutas demoravam horas ou mesmo o dia todo e Twayovoka, o cão mais rafeiro, como também era conhecido, só deixada de brigar quando chegasse o seu amo ou a dona Nsingi. E não era fácil separá-lo dos outros cães da cidade. Era preciso dar-lhe um pedaço de frango ou um osso qualquer. A briga só terminava ao fugir dos outros, para que não cobiçassem o seu lanche.

Certa vez, numa das suas brigas, Twayovoka enfrentou um cão polícia que não lhe deu tréguas. A sua fama de melhor lutador tinha terminado, pois o cão polícia, que era enorme, enrolou Twayovoka como se fosse uma bola e o arrastou por muitos metros. Até as cadelas que preferiam o aguerrido Twayovoka tinham deixado de gostar dele. Não se sabe ainda se foi por causas das suas frequentes brigas ou se foi por causa daquela surra que apanhou do cão polícia.

Mas a grande cena do Twayovoka foi mesmo quando a vizinha Nsingi lhe ofereceu um grande osso de vaca.

Twendi ko Vaso, o seu amo, estava ausente em gozo de férias na Lunda Norte e Twayovoka, que era odiado pela vizinhança, passava fome.

Zelosa, como sempre, a dona Nsingi, que também era assistente de veterinário , decidiu dar-lhe uma segunda oportunidade. Deu-lhe um osso, ainda com alguma carne, e o cão, com o osso na boca, meteu-se em correrias para o outro lado do rio Kunene.

Foi então que ao atravessar a ponte, viu a sua imagem reflectida na água. Ambicioso como era, Twayovoka pensou que fosse um outro cão que o perseguia para lhe receber o osso.

Para afastar aquele que pensava ser o seu inimigo, o cão guloso ladrou e o osso escapou-lhe da boca, caindo na água.

Faminto e aflito, o cão jogou-se rio abaixo, mas a corrente era tão grande que Twayovoka foi arrastado até a uma grande queda onde havia jacarés.

Sem como escapar daqueles famintos répteis, Twayovoka serviu de almoço dos jacarés que tiveram um dia de muita festa.

Com a morte de Twayovoka, as lutas entre cães vadios diminuíram na cidade de Ondjiva e os meninos que frequentavam a escola deixaram de ser atacados por cães raivosos que eram muitos no tempo de Twayovoka.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

A GALINHA SOLTEIRA E O GALO QUE NUNCA SE VIU AO ESPELHO

Kaxinda era uma galinha solitária. Kolombolo, o galo que sempre lhe foi fiel companheiro, foi abatido para alimentar uma festa de fim do curso do Sr. Kalipande, o dono da casa em que Kaxinda vivia. Os seus lindos filhos, Kimone, Sanuka e Ngwami Maka, também foram abatidos em outras festas que se passaram na mansão do tio Kalipande e sua mulher, dona Nzala ya Ifo.

Um dia, ao ver que o portão da casa estava aberto, Kaxinda decidiu espreitar a vida fora do quintal e verificou que havia muitos galos, galinhas, frangos e pintainhos que se deleitavam com a vida fora daquele muro alto e gradeado. Kimone bateu as asas, deu um pulo e saiu.

Na rua, foi recebida com cantos e cacarejos, embora criasse ciúmes a certos galos que se gladiavam por causa da sua beleza ímpar.

Wafwa Meso, foi o príncipe encantado que Kimone escolheu. Ele era tão grande e tão calvo que tinha a cabeça em forma de meia-lua e a crista cheia de crostas e cicatrizes . Wafwa Meso vencia todas as lutas e tinha, por isso a simpatia de todas as galinhas daquela rua.

Depois de muito esgravatar a terra e conviver com os seus semelhantes, Kimone decidiu voltar à casa. Eram já treze horas, altura em que os meninos da primária voltavam da escola e o portão se voltava a abrir. Wafwa Meso, o namorado encantado, foi acompanhá-la e também entrou na mansão, sendo bem recebido pelo cão Mukwateno que cabriolava na relva e pelo pequeno Mwana Mwata, o kaçula da casa.

Enquanto Kaxinda passeava pelo quintal, como quem mostra a casa ao visitante, Wafwa Meso, que também enxergava mal, não se cansava de olhar para os vidros das portas e das janelas que reflectiam a sua imagem. Dentro de si terá pensado que havia à sua frente um outro galo e que cobiçava a sua nova namorada.

Wafwa Meso ensaiou posições de ataque e atirou-se várias vezes contra a porta fechada.

Aflita com a pequenice daquele galo grande, Kaxinda cacarejava cada vez mais forte, em jeito de correcção. Mas Wafwa Meso estava cego de tudo e não conseguia entender a razão do chamamento. Continuou a lutar contra a sua própria imagem reflectida no espelho.

O galo tanto lutou que acabou desmaiado na relva onde o aguardava o cachorro Mukwateno que o atacou pela garganta até não poder respirar. O rapaz Mwana Mwata ainda tentou acudi-lo, mas já era tarde. O galo morreu asfixiado e foi entregue aos seus donos que confeccionaram uma apetitosa cabidela.

Kaxinda continuou solteira e nunca mais decidiu levar à casa um galo que não tivesse vidros reflectores em sua casa, para não voltar a passar tamanha vergonha.

sábado, 3 de setembro de 2011

Lwole e Mukwa Wevu

(História e estórias do nosso povo)

Musumba era a antiga capital do reino da Lunda, uma grande cidade que ficava nas margens do rio Kasay. O rei Nkonde Mateta, já muito velhinho, tinha dois filhos, Kinguri e Cinhama e uma filha, Lueji.

Como os filhos eram muito desordeiros, o rei decidiu, antes da sua morte, deixar a coroa real à guarda de Lueji. Tanto por ser a mais nova e mais ainda por ser mulher, aquela escolha criou um grande descontentamento dos irmãos e daqueles aldeões mais conservadores.

Kinguri juntou os seus apoiantes e, com a mulher e os filhos, retirou-se para oeste. Cinhama também juntou a sua família e os seus amigos e partiram para o sul.

Lueji e todos aqueles que a aceitaram como nova rainha ficaram na Musumba. Mais tarde casou com Ilunga, um caçador estrangeiro, de origem Luba.

Na Musumba do rei Mateta o povo vivia da caça, da pesca e dos frutos que a terra dava. A retirada dos dois príncipes, veio alterar esses hábitos antigos. Kinguri e o seu povo optaram pela guerra, pelo comércio e pela agricultura. Cinhama, continuaram a caçar e a pescar nas chanas [1] do Moxico, mas tornaram-se grandes viajantes, chegando a conhecer vários povos com os quais se casaram e formaram alianças.

Essas viagens dos descendentes de Cinhama deixaram histórias que foram passando de geração em geração.

Perto de Kameya viviam dois homens, netos de Cinhama.

Lwole era cego e vivia com a sua esposa e sete filhos na aldeia de Hwima, encostada a uma pequena montanha. Cultivava masambala [2] ao redor da sua pequena aldeia familiar. Possuía muitos cães de caça e outros animais domésticos.

Mukwa Wevu tinha herdado do avô uma espingarda de caça e passava a vida junto às nascentes dos rios e nos prados [3] onde apareciam muitos animais selvagens. Certo dia, vendo que estava sem cartuchos, deixou a sua aldeia, nas margens do rio Luxico e foi ter com o irmão Lwole.

- Meu irmão, estou sem cartuchos para caçar. Preciso que me emprestes os teus cães de caça e tudo quanto conseguir será dividido ao meio.

Lowle, que era o mais velho entre os netos de Cinhama, concordou.

- Está bem meu irmão. Peço-te apenas que tenhas cuidado com os animais ferozes e voltem todos completos.

Mukwa Wevu, satisfeito, partiu no dia seguinte com os sobrinhos e os valentes cães de raça. Levavam ração para os dias de retiro.

Durante sete dias, Mukwa Wevu conseguiu apanhar, com a ajuda dos cães, dez gazelas, vinte cabras do mato e algumas lebres. A carga foi repartida entre os seus ajudantes que seguiram de imediato à aldeia de Citende onde viviam.

Ao chegar à aldeia, Mukwa Wevu foi recebido pela mulher e pelos filhos com uma grande festa. Cimwanga, a esposa de Wevu, apercebeu-se de que a caça tinha sido boa e por isso convidou todos os parentes e os povos das aldeias mais próximas para um grande banquete. Tão grande foi a festa que boa parte da carga foi consumida, restando pouca carne para o irmão mais velho que aguardava pelas peças que lhe foram prometidas.

Três dias mais tarde, quando Lwole lamentava já a ausência do irmão e dos seus cães, lá apareceu o caçador com uma gazela pendurada ao ombro e duas lebres como recompensa.

-Mano, aqui estão os cães e a metade da carne que apanhámos. - Disse Mukwa Wevu.

- Será que os meus cães só apanharam esta carne? - Interrogou Lwole, desconfiado. E prosseguiu, acusador: - Até soube da grande festa que houve na tua aldeia e que se espalhou por todo este Cifuci [4].

Então, Mukwa Wevu, que já tinha bebido uma cabaça [5] de hidromel, começou a maldizer o irmão mais velho, chamando-o de cego e inválido.

Da contenda entre eles resultou que os dois manos se amaldiçoaram um ao outro o que fez com que uma grande praga se instalasse sobre a região: De repente, o céu escureceu. Veio um vento muito forte. Tão violento que as árvores foram todas arrancadas do solo e ninguém sobreviveu. A aldeia de Hwima ficou transformada em gigantescas pedras que hoje só acolhem cobras e canta-pedras [6]. Por sua vez, a aldeia de Citende, onde vivia o ambicioso Mukwa Wevu, transformou-se num enorme lago onde ainda hoje abundam bagres e cacusos [7].

Isto aconteceu a muito, muito tempo! Mas quem vai ao Moxico, ainda hoje ouve os mais velhos contarem o que se passou com Lwole e Mukwa Wevu e da lição que ficou para lembrar a ambição de um dos netos de Cinhama, o fundador das terras do Moxico.



[1] - Terrenos alagados. Muito abundantes no Leste de Angola.
[2] - O mesmo que sorgo ou milho-miúdo.
[3] - Terrenos planos próprios para a pastagem de animais.
[4] - Território, País (na língua Cokwe).
[5] - Reservatório usado para a fermentação do mel e outras bebidas.
[6] - Pequenos animais roedores que se abrigam em cavernas.
[7] - O mesmo que Tilápia: peixe bastante apreciado pelos povos de Angola.

sábado, 13 de agosto de 2011

DIÁLOGO

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Hoje em dia, há, em todo o lado, pessoas que falam mais dos feitos do passado do que do futuro, que falam mais da oposição do que da governação, que olham mais para si do que para a país, que andam aí a gabar-se de coisas que nunca fizeram nem pensaram um dia fazer… pessoas que andam na roda sem saber como se toca a música. E, vamos indo de rasto em rasto, de promessas em mentiras, de pobrezas em misérias até à morte final. Faltam coisas novas, ideias… a até novas mentiras. O diálogo entre Katende e Kaphonde, dois nativos com vivências comuns e incomuns é exemplo.  

- Oh Mano Katende, dizem que desde que vieste a capital cresceu muito. É verdade?
- Hum! Quem foi que te mentiu assim, oh Kaphonde? O Musseque nem um passo deu em direcção ao asfalto e a luz eléctrica desapareceu. Em Maio de 1984, quando do meu primeiro cara-a-cara com Luanda, a cidade começava na Sat’Ana. Era ali que começavam duas ruas larga com os carros orientados em apenas um sentido. Havia iluminárias altas que diferenciavam Luanda de outras cidades do interior, onde também havia carros ruidosos e luz eléctrica. Hoje, 27 anos depois, o cenário é o mesmo, apesar de alguns trabalhos que uns desatentos dizem tratar-se de crescimento.
- Como assim se antes tudo isso aqui era capim?
- Quem sai de Viana a Luanda, rapidamente se apercebe que a capital tem algumas ruas iluminadas apenas ao chegar ao cemitério da Santa’Ana. O mesmo trecho que vi em 1984 e que vai até ao Jumbo. Todo o resto a montante é “paisagem” escura e propiciadora de muitos acidentes de viação, à noite, dado o encandeamento de uns sobre os outros que circulam em vias opostas. Os desníveis no asfalto, entre um trecho reparado e outro a aguardar pelo novo tapete, tem sido outra causa de despistes, rebentamentos de pneus e a destruição de jantes, sobretudo os de liga leve.
- E quem se responsabiliza pelos danos? Há?
- Ninguém! Você pensa que aqui te ligam? No cú do perú!
- Mas então a cidade cresceu ou não?
- Aumentaram apenas as casas. A vila da Mata, o Golfe, o Palanca, o Tunga-Ngó, o Curtume, o Kikolo e arredores, o Mulenvos, Viana Sanzala, Vila Nova, Kambamba, Benfica e outros bairros que na altura eram lavras são agora autênticos guetos… O Musseque Braga Junta-se ao Musseque Baia. Nada mais do que isso! Quanto à evolução da cidade é tudo pioria!
- Pioria como?
- Sim pioria. Male-male. Pior ainda é a nova banga na recolha nocturna do lixo e sua pesagem para pagamento. O peso é que define o valor a pagar à operadora. E nesta correria pelo dinheiro que é público muitas operadoras preferem mesmo escavar e levar terra em vez de lixo. Consequências, deixam os bairros esburacados e cada vez mais sujos! Outros na ânsia de chegar primeiro, os motoristas, vão espalhando rastos de lixo por onde passam, chegando mesmo a provocar acidentes de veículos que volta e meia dão de cara com um estranho monte de lixo na estrada caído dum camião ou tractor sem cobertura. Acha que alguém da parte do “quem de direito” vê isso?
– Ninguém vê. Na hora todos tornam-se cegos, excepto aqueles que vivem os problemas sem onde se queixar. Passa ainda pela estrada dos Mulenvos, que dá à lixeira provincial. É um exemplo de todos os dias. Os condutores de ligeiros estão sob risco permanente de serem abalroados por um camião de lixo descontrolado ou embater contra uma montanha de lixo “descarregado” na via.
- E os hospitais como estão? É que estou a pensar operar a minha dituba...
- Ah! Esses só a descer. Um paciente que acompanhei por duas vezes consecutivas foi internado numa cadeira do Banco de Urgência dum hospital de referência. E note-se que não é dos que ficam na periferia. É mesmo entre o largo Primeiro de Maio e o largo da Sagrada Família. Depois de ter passado a receber soro numa cadeira foi-lhe dada alta médica, alegadamente por falta de espaço. E não é que teve de voltar à noite ao Hospital pois a saúde degradou? Solução: outra noite, no mesmo hospital, outro soro na cadeira e outra alta na manhã seguinte…Nesse jogo de rato e gato tivemos de optar pelo Hospital do Prenda onde, mesmo sem camas e espaço no B.U., os médicos e enfermeiros se mostraram autênticos profissionais, distribuindo os pacientes em macas: um mal menor para quem passou duas noites seguidas internado numa cadeira.
- E a água já jorra nas torneiras como no tempo do caputo?
- No hospital do Prenda sim. Até deu para lavar o doente. Mas na torneira de casa são as baratas e as minhocas que moram no PVC.
- E a educação, mano, como vai? Disseram-me que o a-e-i-o-u já não se ensina na pré…
- Antigamente cantávamos a ma me mi mo um ou depois de aprender o abcd. Agora tudo mudou. É só passar de ano e professor único para todas as classes, da kabunga à sexta, já se viu? E nem tudo isso é ainda o cúmulo…
- Ah! Não é?
- Sim. Imagina no vizinho que de lua em lua põe música alta e a polícia que tem esquadra bem ao lado ainda aproveita ir pedir cerveja sem mandar fechar a aparelhagem.
- Mas como assim se não há luz todos os dias?
- Oh mano, você está a ficar burro ou quê? São os fofando! Você num sabe que já substituíram a luz da EDELI? Arra xiça pá! Vamos só descansar, antes que pensem que somos do contra!

segunda-feira, 2 de maio de 2011

O HOMEM ZELOSO E O KIFUMBE

Era uma vez…

Na Angolândia, uma país que vivia dias d epaz e muitos sorrisos nos rostos das crianças, havia um homem muito humilde, amigo dos filhos da esposa e de seus familiares. Todos o respeitavam por isso e sentia-se ele um homem feliz . Tinha a família ao seu lado.

Um certo dia resolveu visitar os parentes da esposa. Ela chamava-se Ngueve e ele Njamba. Pelo caminho, num cruzamento, encontrou um homem sem pés nem braços. Fazia tudo com a boca. Era desconhecido naquelas paragens, mas Njamba muito atencioso decidiu-se em dar-lhe ouvidos e atender as suas preocupações.
- Para aonde vão? - Perguntou o estranho.
- Visitar os meus sogros. – Respondeu Njamba.
- Também vou. – Afirmou o estranho.
- Tudo bem. – Respondeu Njamba sem questionar como ele iria e a que velocidade.
N a sua peculiar calma e paciência, Njamba arranjou uma maca e transportou o homem estranho que não se calava durante o caminho. Era tão impertinente que chegava a dar ordens a quem o transportava de graça.
- Pára aqui para beber água - Ordenou a certo momento.
- Pára ali que quero comer um figo. Vira acolá que quero descansar numa sobra de mufumeira .
Paciente, Jamba foi aturando até chegarem à aldeia dos sogros que distava uns treze quilómetros.
Mbuanga e Katambi, os sogros, receberam-nos como muito prazer e emoção. Até mesmo o estranho foi tratado como se de família se tratasse sentando-se também ele à mesa para o banquete .
- Eu só como carne e muita carne. – Disse o estranho Kifumbe.
- Ok. Sem problemas. Far-te-emos as honras da casa. Aguentamo-nos com as ervas que também nos fazem bem. - Disse Katambi, o sogro de Njamba, que teve a concordância da mulher, da filha e do genro.

Já de regresso à casa, os pais de Ngueve, que eram muito velhinhos, ofereceram ao genro muito gado, aves e cereais que colocaram numa carroça puxada por bois. Levaram de volta o estranho "empata" que não queria ficar naquela aldeia onde dizia ter parentes…
Ao chegarem ao mesmo cruzamento em que o encontraram pela primeira vez, o kifumbe disse para o casal: - Temos que repartir tudo o que vos ofertaram porque eu também fui visita na casa deles.
Mais uma vez Njamba concordou, embora tivesse a discordância da mulher, mas manso como era aceitou. Njamba não gostava de confusões. Deu-lhe dois cabritos, um boi, cinco galinhas e um saco de milho.
- Mas não é tudo. Não vês que falta uma coisa? – Perguntou o kifumbe.
- Uma coisa? Como assim? Não te dei parte do que me ofereceu o meu sogro? - Respondeu-lhe Njamba já meio aborrecido.
- Falta dividirmos a tua mulher - Disse-lhe o atrevido sorridente.
Chateado, perante aquela petulância e falta de gratidão, Njamba meteu-se aos choros e a clamar por socorro. Apercebeu-se de que estava perante um fantasma. Um assassino.
Primeiro apareceu um pássaro e depois um cão que perguntaram a Njamba por que estava ele a chorar de tanta raiva. Njamba explicou o que se tinha passado e o pássaro perguntou ao kifumbe:
- Como se pode repartir um ser humano ao meio?
O kifumbe sem resposta tentou atirar-se ao pássaro, mas este chamou pelo cão que correu com ele. Assim, a mulher ficou salva e a felicidade voltou a fazer parte daquele casal.

Moral da estória: Não se deve confiar em demasia nos estranhos.

sábado, 2 de abril de 2011

A MADRASTA TETÉ

ERA UMA VEZ…

Kibocolo é uma pequena vila do Uige. Uige é uma província do norte de Angola onde se planta muito café e muita mandioca também.

Na vila de Kibocolo vivia uma senhora cujo nome era Teté. A senhora era viúva tal como o senhor Jota-Jota que era pai da Joaninha.

Joaninha era uma menina de sete anos cuja mãe tinha falecido num acidente que até hoje ainda ninguém dos habitantes da vila sabe explicar. Como a menina precisava de cuidados de uma mãe, o seu pai decidiu-se casar novamente e dar a sua filhinha aos cuidados de dona Teté, a sua nova esposa.

Apesar de muito meiga e cumpridora dos seus deveres, Joaninha era muito maltratada pela madrasta e até privada de ir à escola. Sempre que chegasse o tempo de apanhar salalé era a ela que recaía esta missão difícil no meio do capim alto e muitos mosquitos que lhe podiam transmitir o paludismo e outras doenças da pele. Mas a menina mesmo sabendo que aquilo lhe podia fazer mal não incumpria.

Como o salalé era muito apreciado, a madrasta comia todo, contentando-se a menina com os restos. Tudo era feito na ausência de Jota-Jota que por ser pastor de gado ausentava-se frequentemente de casa para alimentar os seus rebanhos.

Um dia, Jota-Jota decidiu abandonar Kibocolo e mudar-se para Sanza Pombo que tinha prados com muito capim fresco para alimentar os cabritos e os carneiros. Como no quintal da nova casa havia uma figueira a madrasta incumbiu à Joaninha controlar a árvore de modo que ninguém roubasse os apetitosos figos.

Quando começaram as aulas Joaninha deixava a figueira desprotegida e os pássaros aproveitavam fazer a sua festa. Certo dia apareceram tantas aves famintas que acabaram com os figos todos. Foi um dia triste.

Ao chegar da escola, Joaninha apercebeu-se que a figueira estava sem frutas e muitas estavam espalhadas pelo chão. Começou a temer pelas represálias da madrasta que era muito má.

Dona Teté nem sequer deu ouvidos à menina e começou a bater nela até desmaiar. Temendo ser surpreendida pelo marido, a madrasta pegou o corpo da menina e o enterrou com vida longe da aldeia, num sítio de passagem do gado para a pastagem.

Chegado à casa, Jota-Jota notou a ausência da sua filhota e perguntou:

- Onde está a Joaninha?

- Foi ao rio acarretar água. – Respondeu ela a fingir.

Passado algum tempo Jota-Jota voltou a perguntar.

- Teté, onde foi que mandaste a criança?

- Já te disse Jota, foi ao rio. Sabes como é irresponsável a tua filha. Deve estar na brincadeira com as amigas. – Voltou a responder a senhora.

Preocupado, Jota-Jota meteu-se a caminho do rio e não encontrou a filha. Chegado à casa voltou a perguntar e a e mulher respondeu:

- Se não está no rio, também não sei aonde foi. Deve ter desaparecido.

Passados meses, no lugar onde a menina fora enterrada cresceu muita relva e sempre que os pastores por lá passassem acompanhando o gado ouviam uma estranha canção saída da mata.

Oh pastor do meu papá

Não cortes o meu cabelo

Minha mãe me criou

Minha madrasta me matou

Só por causa da figueira

Cujos figos não tirei.

Os pastores abandonaram o gado e correram à casa para contar o sucedido ao patrão Jota-Jota que decidira ir às compras na cidade de Carmona .

Suspeitando que estivesse quase a ser descoberta Teté mandou de imediato os pastores voltarem ao pasto, mas estes recusaram-se, e decidiram aguardar pelo patrão.

- Vocês sabem que o gado não pode ficar na aldeia, por que razão está aqui? – Perguntou ela ameaçando-os.

Os homens mantiveram-se calados e nada responderam. Teté ainda tentou inventar que os pastores tinham voltado à casa com o gado incompleto o que fez Jota-Jota dirigir-se mal aos seus trabalhadores.

O mais velho dos pastores chamou o patrão a um canto isolado e contou-lhe da música estranha que ouviram a caminho do pasto. Jota-Jota ainda tentou duvidar mas o pastor mais novo repetiu a canção;

Oh pastor do meu papá

Não cortes o meu cabelo

Minha mãe me criou

Minha madrasta me matou

Só por causa da figueira

Cujos figos não tirei.

Jota-Jota juntou os retalhos da história e concluiu que algo de mal se tinha acontecido com a sua filhinha. Rumou com os pastore ao local e mal o gado começou a comer a relva ouviu-se de novo a canção entoada por uma voz parecida à da Joaninha.

Concluiu então que dona Teté tinha morto a sua única filha querida.

Chegado à casa perguntou-lhe:

- Por que me disseste que a minha filha tinha desaparecido quando na verdade a mataste por causa dos figos?

Dona Teté, sem desculpas, começou a chorar implorando por perdão. Jota-Jota ordenou aos seus empregados que a amarrassem para não fugir e foi chamar a polícia que aprendeu, sendo condenada por muitos anos de cadeia.

quarta-feira, 2 de março de 2011

A CEGA E O CÃO

ERA UMA VEZ…
Na aldeia de Kanjala, na costa de Angola, entre o Sumbe e o Lobito, vivia uma mulher com deficiencia visual em um dos olhos. O nome dela era Milika e estava casada tradicionalmente com um homem chamado Ngufu.

Ngufu era extractor de maruvo de palmeira e de bordão e praticava também a caça. Tinha por isso um cão chamado Kelula .

Um dia, ao trepara à palmeira para cortar um cacho de dendém e retirar uma cabaça de maruvu, Ngufu esqueceu-se de levar consigo o kanjaviti e olhando para baixo dá de olhos com o cão que farejava no trilho dos pukus . O homem, preguiçoso diz para si mesmo:

- Se esse cão fosse pessoa dar-me-ia o machadinho e eu evitaria de descer completamente.

O cão que ouvira a expressào desdenhosa do seu amo, fez aquilo que faria um ser humano adulto e deu-lhe o kanjaviti.

Cortado o cacho de dendém, chegou a vez de retirar o maruvo. Encheu o primeiro que tinha à cintura e a como a vasilha pendurada à palmeira ainda tinha líquido precisou de uma segunda. Nisso olha novamnete para baixo e lá estava novamente o Kelula nas suas brincadeiras, atrás de borboletas. O homem, desta vez em voz muito baixa, volta a exclamar:

- Se esse cão fosse um menino me teria dado a kabaça que está ao pé dele.

Espantosamente, Kelula o cão, deu-lha.

Ngufu apenas riu em gesto de agradecimento. Estava agradecido e preocupado também, porque nunca um cão tinha entendido a linguagem humana. Nisso o cão que apesar de cumprir as ordens não tinha emitido sequer um som disse-lhe:

- Meu amo, por teres menosprezado a importância dum cão, de hoje em diante passas a entender a linguagem de todos os animais, sem que o possas contar a alguém sob pena de morreres.

Ngufu concordou. Ao chegar à casa encontrou a mulher a moer bombó num almofariz e uma peneira rudimentar. Milika, a mulher, estava cercada por galinhas que aproveitavam os bocados de bombó que caíam ao chão.

Enquanto ela enxotava as galinhas, o galo que estava algo distanciado disse às galinhas:

- Oh! suas burras, passem do lado do olho cego.

Nisto, Ngufu percebeu a linguagem dos animais e meteu-se a rir em locas gargalhadas o que enfureceu a mulher que queria uma explicação sobre a razào de tamanha rizada.

- Por que estás a rir? Tens de me explicar porque se não vou enforcar-me por estares a zombar da minha deficiência. – Disse ela.

Mais o homem tentou convencê-la de que era um segredo que não podia desvendar, mas a mulher não o compreendeu.

Por fim, perante a insitência da mulher, Ngufu ordenou que ela chamasse os mais velhos e o soba da aldeia.

- Eu, quando sai hoje com o meu cão, vivi algo inédito nesta aldeia. Aflito em cima da palmeira, o meu cão ajudou-me a entregar o kanjaviti e a kabaça e falou como se de um ser humano se tratasse. Só que me pediu que guardasse um segredo: Não podia contar a ninguém o sucediodo. Mas como a minha mulher está desconfiante duma rizada que dei quando as galinhas falaram, estou a contar-vos que eu entendo a linguagem dos animais. E por desvendar o segredo também ponho fim à minha vida.

Posto isso, o homem sucumbiu.

Os mais velhos e o soba da aldeia realizaram o funeral e no fim expulsaram Milika daquela comunidade por não ter confiado no que o marido lhe dissera.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

O RECADO DO COELHO


Mensagem enviada por e-mail ao meu "grande kota" José Soares Caetano (Tazuari Nkeita) e que m'a fez chegar.

...  Ontem à noite, fazia eu um "zapping" pelos canais da televisão, quando deparei com um programa que não conhecia, Arco-Íris que, pelo que vi, presumo ser um magazine cultural.

E lá estava ele, o nosso jovem amigo Soberano (Luciano?) Kanhanga, feliz e emocionado apresentando o seu "filho", "O Sonho de Kaúia".

Tal como ele também eu fiquei feliz e emocionado, porque sei exactamente o que se sente quando se "dá à luz" uma primeira obra.

E também te vislumbrei, de relance, depois do Kanhanga ter agradecido publicamente o teu decisivo incentivo.

Mas, já no fim, senti alguma amargura: alguns dos convidados a falar sobre o livro eram escritores, que não conhecia, jovens na maior parte, de quem, possivelmente, não terei a possibilidade de ler as suas obras, porque não chegam a Portugal, tal como o meu livro talvez nunca chegue a Angola...

E aqui faço a mesma pergunta/desafio que um dia fizeste: para quando a criação de uma Casa da Cultura Luso-Angolana, ou vice-versa, que possibilite um canal aberto à divulgação do que se vai fazendo no campo das artes, nomeadamente na Literatura?

Um forte abraço para ti e, por favor, estende-o ao jovem Kanhanga, cronista de mérito que aprendi a gostar através do sítio do nosso amigo Manecas Ruivo!


Tomás Lima Coelho