terça-feira, 1 de outubro de 2013

BRUNE DE DINHEIRO

Depois das kitotas e fungutas de sessenta e um a vinte-vinte-e-dois, era já tempo de paz. Kota Matadi acordou às 10 horas, ainda kimbonzado. A noite lhe tinha despedido no alambique do Januário, onde se embebedou até desconhecer-se por completo.

_ Lupuka, lupuka! _ Foram as expressões que o acordaram, gritadas pela miudagem quase ao ouvido.

Matadi passou água na boca e, ainda cheirando a kaporroto, dirigiu-se à casa de Jacinta.

_ É quê então, esta hora, cinco da manhã, já estão a se dar kibeto? _ Perguntou Kota Matadi, ainda entre a torpeza e a lucidez.

_ Cinco horas, acorda mano Matadi. Já é meio-dia. _ Respondeu-lhe a menina Joaninha.

Matadi olhou para o sol. Bola de fogo no meio da bola azul que sai do infinito ao infinito.

_ Ara possas! Mas é quê então, pá?! Ninguém me responde razão da kavwanza? _ Ameaçou.

_- É mano Bernardo que lhe picaram faca no primo Joaquim. As tripas saíram todas da barriga e o papá foi chamar o sô kifirmero para lhe cozer. _ Explicou Joaninha, filha de Jacinta.

_ E a burra da tua mãe foi aonde e onde é que Bernardo lhe meteram?

A cabeça de Matadi estava em caldo. O homem gira-girava com a catana à cintura, sem destino.

_ Esse gajo do Bernardo, se lhe apanho, vou lhe esquartejar. _ Vociferou, rangendo os dentes cariados.

_ Ó mano Matadidi, naquele dia kimbanda falou assim primo Joaquim lhe deram brune de ter dinheiro e está à procura de pessoa para lhe matar com wanga dele, mas como não está a aparecer… _ Joaninha deu-se conta que estava em estrada de adultos e meteu a mão na boca.

_ Fala, sua burra. _ Gritou Matadi. _ Quem te explicou essa maka toda?

_ E, tio não vê ainda mano Bernardo? _ Astuta, Joaninha cortou a conversa do feitiço.

_ Não Joaninha. Não. Quando Juízo na cabeça me está a ferver não gosto de ver sangue porque quando viro bicho ninguém me aguenta. Mas vai, corre ainda no caminho da tua mãe ver se kifirmero está a chegar.

Na phela do régulo havia motivo para reunião e o caso não era simples. Havia, há já algum tempo rumores sobre wanga de dinheiro, pedofilia e outras makas que estavam à espera de alguém que fosse encontrado com a boca na botija. Os oficiais de justiça comunitária têm à mesa uma tentativa de homicídio e vão aproveitar fazer o Estado da Nação. A polícia estava longe e a ordem tinha sido alterada.

Soba Kavindi, cachimbo na boca era motor a fazer ressonância na subida. Parecia tractor preguiçoso a puxar carroça cheia de milho. Chamou os notáveis para analisar o problema do Joaquim e mandou jovens com pulungunza caçar o Bernardo que estava foragido. Até agora ainda não se sabia ao certo por que razão Joaquim levou a navalha às miudezas de Bernardo.

Kinanvuidi, o enfermeiro, chegou a tempo de remendar a vida de Bernardo. Estava já a caminho do Hospital Grande da Vila que ficava a vinte quilómetros.

_ Mas, ó Joaquim, seu burro de merda, onde foi que tiraste esse juízo da faca? _ Interrogou Kavwindi, o soba.

_ Pai lhe encontrei com minha mulher a lhe dar um papel _. Defendeu-se o réu.

Joaquim estava amarrado à borracheira que dava sombra à phela.

_ Mas que papel é esse? É fotografia? _ Questionou o régulo, algo impaciente.

_ Não, pai.

_ É dinheiro?

_ Também não.

_ Porra, pá?! Então é quê que não te sai dessa boca de porcaria? _ Kavwindi demonstrava já muita impaciência e os oficiais de justiça entreolhavam-se a espera de uma ordem emanada pelo soberano.

_ É poema, ngana soba. _ Respondeu Joaquim entre lágrimas.

_ E poema se espeta faca no outro? S’explica ou vais ver diabo a assar sardinha. _ Ameaçou o soba.

_ Bernardo e eu somos amigos. Pai sabem.

_Sim, continua. - Respondeu o conselho do soba.

_ Bernardo e eu fomos no kimbanda para receber brune de dinheiro. Cada foi no dia dele. Ninguém se viu. Mas eu sei. Lhe mandaram dar papel de amor na mulher do melhor amigo para depois lhe dormir. Sabendo que eu seria o visado fiquei de olho e no dia do tal poema lhe antecipei com uma baioneta. Foi apenas isso.

_ E dizes que foi apenas isso como se tirar a vida do outro fosse como matar uma galinha? E a mulher vais lhe recuperar ou vais lhe sengar? _ Interrogou Ngana Tandela, responsável pela aplicação da justiça e preservação dos costumes.

_ Vou lhe entregar com ele. _ Respondeu Joaquim.

- O quê? Fidacaixa, pá! Se eles não se serviram você vai sengar a mulher? Que culpa ela tem se tu e teu amigo é que se meteram nos brune? Eu quero que você laperdoa já, logo-logo sai das cordas. _ Ditou o ancião.

Sem mais nem menos, Joaquim desamarrado da árvore da phela cumpriu a sentença: custear as despesas de saúde do Bernardo, trabalhar na lavra do ofendido até que melhore e pegar de volta Jacinta, sua esposa, que se refugiara em casa dos tios. Bernardo teria igualmente a sua reprimenda, mas só quando sarasse a última ferida.

=
Publicado pelo Jornal de Angola de 26.02.2023, e no Jornal Cultura, a 06.12.2023, com o título "Kavwanza na aldeia".

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

A DIMENSÃO, TEXTUAL, SOCIAL E ESPIRITUAL NOS 10ENCANTOS DE CANHANGA

NOTA PRÉVIA DO AUTOR

O meu Sonho, começado nos anos 90 e retomado com mais vigor com a abertura duma página para publicação de poemas, vê-se realizado com a publicação do livro que traz o mesmo título do Blog 10encantos. Vamos caminhar, buscando agora atingir a forma e perfeição inatingidos no primeiro poemário. Siga-nos atento como o faz Nguimba Ngola.

AS TRÊS DIMENSÕES DO(s) 10ENCANTOS DE SOBERANO CANHANGA
Por: Nguimba Ngola

Setembro é o mês em que nasceu Agostinho Neto e, no dia 17, o nosso poeta transita. O povo lembra-se dele nas várias dimensões da sua vida, como poeta e político. Na Cidade Diamante, a cidade da Pedra Brilhante, Neto também foi lembrado. Várias foram as actividades.

Na manhã do dia 16, o anfiteatro da Escola Média Politécnica, transbordou literalmente de alunos. Sim. Plateia jovem ouve atentamente a governadora, Cândida Narciso, palestrando sobre Agostinho Neto. Em seguida, vem a apresentação do terceiro (O Sonho de Kaúia, Manongo-Nongo, 10encantos) livro do escritor Soberano Canhanga, jovem de Libolo, onde nasceu há 37 anos.
A mim, coube a missão, desnecessária (?), de apresentar o livro que, depois de alguma relutância, aceitei porquanto tinha sido indicada outra apresentadora que por motivos alheios não se fez presente.

Soberano é um dedicado “bloguista”. Tomei inicial contacto com seu texto poético no seu blog “10encantos” que é o título do mais recente livro publicado. Já na sua forma gráfica, cuja apresentação não deixa a desejar, peguei o “filhinho” do Soberano entre mãos, acariciei-o, senti-lhe o cheiro agradável, passeei brevemente nos textos, para constatar o modo de arrumação. Enquanto isso, a voz no microfone anunciava o nome Nguimba Ngola para tomar o lugar. Um friozinho toma conta de mim, é grande a responsabilidade, câmaras, olhares atentos expectantes da apresentação, “é o tio dos livros do tchilar…” ainda ouvi da plateia. Som e palavra é igual a poder. Ganhei o poder e comecei. Tirei partido da apresentação para o aconselhamento dos jovens sobe a importância da leitura. No final, as palmas. Ah, que alívio! Acabou, não é nada fácil falar ao público.
Já no aconchego dos lençóis, eis que meu anfitrião comunica que lhe foi pedido o texto da apresentação. Não o tinha. Apenas as notas rabiscadas em papel qual esboço orientador do pensamento. Um pequeno lap top foi-me entregue. Agora escreva o texto, disse-me Soberano Canhanga.

10encantos do Soberano

Analiso a poesia desencantada do Soberano em três dimensões: Dimensão textual, dimensão social e dimensão espiritual.

Os textos do Soberano se nos apresentam com uma estrutura externa não tradicional, não encontraremos formas fixas como o soneto. Sim. Os textos são desprovidos de métrica, impera porém o verso livre que deixa margens para maior criatividade e liberdade ao poeta.

Ainda assim, elementos poéticos básicos podem ser observados como a rima “Revejo/ num quarto agora vazio/ esse teu corpo tão esguio// Recrio/ emoções e amores loucos…/ voltam à vida aos poucos// Reencontro/ espalhados pelo chão/ roupas, beijos e paixão!” (in Sem medo, pg 85). O ritmo também confere beleza nos vários textos 10encantados. É sentir, por exemplo, “À fala com os meus botões” onde “tarda o sono/ nos sonhos a traição…” (pg 103), ou ainda “tórrida e sofrida/ minha pátria/ dorida…” (pg 53).

A linguagem poética, em muitos textos, torna-se expressiva pelo recurso de figuras e tropos e é assim que encontraremos “pretinha cor de nuvens”, “espertinha na quilometragem da idade”, “o sol já brinca no quintal”, “fustigai-vos ó ventos/ maltratai-vos ó águas/ façam-se remoinhos”, “no além da curva sanitária/ morre o sémen preguiçoso”.

A dimensão social dos poemas do Soberano Canhanga, reveste-se de textos, alguns dramáticos, porém apontado esperanças, “e sonhos de liberdade”. Sinto isso no poema “Êxodo” (pg 29). Quem não constata hoje, o drama nas vidas de muitos que “ontem/ na sanzala/ gente farta gritando/ canções alegres, intrépidas!”? E “Hoje/ na cidade/ gente magra/ esfarrapada/ entoa baladas tristes”… Profunda para todos, pois o contrário seria como diz o sujeito lírico do Soberano Canhanga apenas “paz podre” (pg 61), “paz sem perdão/ é tentar esquecer/ sem dar o braço a torcer/ não é paz, é podridão”.
Eis então que no que depender de todos nós, devemos buscar sempre a paz.
Sensível, o poeta, ante o drama da transição (morte), pede a que se chore a “mãe-grande”, mãe de seu “grande kota José Caetano”, “com prosa e poesia…// com pintura e escultura/ choremo-la com realidades e ficções/ choremo-la com ARTE!” (pg 33). São os 10encantos do poeta, desabafos e choros, “o mundo enfrentar/ sofrer (?)”.

O fenómeno prostituição também é motivo lírico pois pululam ao vento “kitata kuribeka”, que deixam suas tetas moribundas serem sugadas “no leito da morte”. Hoje é intensa a correria ao “álcool barrigudo” e, despudoradamente, vão “xaxatando nádegas flácidas” “mbunda ya kitadi”, “mbolo ya kizwa/ kufwa kidi!” (in Na cama de hotel, pg 18). O falante lírico vive intensamente suas paixões, descrevendo-as com nostalgia, rememorando sonhos e traições, e muitas vezes encantando-se com a beleza da(s) sua(s) amada(s).

Na dimensão espiritual, vejo o poeta convocar-nos para o cultivo. “Vinde e cultivai/ que é próprio o memento!” É o momento de amar verdadeiramente pois “ o nosso amor é a importância que nos atribuímos”. Todos aqueles que se furtarem ao verdadeiro amor devem perceber “que é chegada a ceifa” , “é chegado o julgamento/ do Cefeiro que chega à hora”, eis a infalível reintegração cósmica. O eu lírico confronta-se com a realidade mística “há vezes/ em que não sou eu quem age/ mas o oculto” (pg 44). Sim. É a inteligência universal comunicando.

Saurimo, 16.09.2013.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

NA ENFERMARIA COM NELSON MANDELA

Estou enfermo, na África do Sul, acompanhado pelo Beto Spina e Didi Domingos, meus dois amigos desde a adolescência. O Beto é o meu “canino” confidente e o Didi, enquanto piloto aviador, é conhecedor do país do arco-íris.

O Hospital-Hotel em que estamos alojados é o mesmo que dá tratamento ao ícone maior da tolerância africana, Nelson Mandela. É uma pena que neste momento em que escrevo essas linhas não me lembre do nome e tenho de fazer um esforço para sair e ver o letreiro. Mas, confesso, era inimaginável um hospital onde o paciente pudesse ter também alojados os seus acompanhantes. Por isso trato-o por Hospital-Hotel.

Apesar do requinte e serviços de última geração, o Hospital-Hotel é um equipamento construído e mantido por homens falíveis. Na última noite, o meu quarto-enfermaria teve uma pequena fuga de água e, na aflição, refugiei-me na enfermaria seguinte onde estava um idoso com o cabelo todo esbranquiçado. O quarto-enfermaria era simples como o meu. Havia um grande movimento no corredor. Rezas, espetáculos tradicionais que me fugiam do entendimento e muito mais. Havia também um polícia, mas algo distanciado do corredor, a quem as pessoas se dirigiam em caso de anormalidade no quarto do ancião.

- Imagine o meu espanto quando olhei para a foto que ocupava o espaço-topo da banca de cabeceira do idoso acamado?!

Era a foto de Nelson Mandela. Quase cai de susto.

- Nelson Mandela aqui? - Não quis acreditar e refiz a pergunta colocada a mim mesmo.

- Eu no hospital de Nelson Mandela?

O idoso repousava na sua cama de hospital, já sem a respiração assistida mas muito fragilizado pela idade e pela enfermidade. Tinha os olhos fechados e parecia estar no quinto sono. Mesmo assim, ousei em saudá-lo no meu torpe Inglês.

- Grand Father, good morning!

Uma voz vinda do fundo da alma, tão fraca mas cheia de vida quanto podia, respondeu-me.

- Good morning. Are you from Moza?!

Fiquei mais estupidificado ainda ao receber aquela resposta à minha saudação e, sem demora, tentei refinar o meu pobre Inglês:

- No, grand father, I´m came from Angola.

Pois isto, o ancião ergueu os olhos e respondeu-me com uma voz muito mais nítida.

- Oh, well come and not be afraid.

Engasguei-me. A frase seguinte que me saiu da boca foi em Português

- Sim, avó! - Respondi-lhe alegre.

Minha enfermidade  e minhas preocupações com o quarto que tinha infiltração de água tinham meticulosamente passado. Lembrei-me de que quando voltasse a Angola teria de me gabar do facto e peguei no telefone para gravar o resto da conversa, sem que o mais velho desse conta disso.

E, Nelson Mandela pediu-me, num Português melhor do que a minha dicção do seu Inglês, que me sentisse à vontade no seu quarto-enfermaria, indicando-me a cama ao lado que estava vaga.

- Por favor, senta neste cama e deixa mais velho dormir um cabocado.

- Thank you very much, my grand father. – Respondi-lhe felicíssimo.

Momentos depois, lá apareceu o gerente da parte hoteleira da instituição a comunicar-me sobre um novo quarto para onde haviam sido transladados os meus pertences. O homem, alto e calvo, mas de elegância e polimento incontestáveis, começou por desculpar-se pelos transtornos ao que respondi apenas com um “do not worry”.

Já com o Beto, e ao encontro do Didi que estava alojado noutro hotel, o Hill Park, contei o que vivi naquela tarde e fomos espalhando, entre os angolanos com quem cruzávamos, a minha boa nova. Uns estavam crédulos.
- É normal aqui na África do Sul um responsável estar ao lado de gente normal. - Diziam. 

Outros, entretanto, estavam um tanto ou quanto renitentes em acreditar. Foram estes que me fizeram puxar do telefone para reproduzir as últimas palavras que Mandela me dissera no seu quarto-enfermaria, antes do gerente me arranjar outro aposento.
A frase “Por favor, senta neste cama e deixa mais velho dormir um cabocado” ainda ecoava nos meus ouvidos.

Ao procurar pelo arquivo de sons gravados, o meu telefone tocou. Trim, trimmmm, trimmmmm. Era o despertador que me apelava para a hora da higiene matinal.

Afinal foi apenas um sonho.

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

O AMIGO DO CAMARADA ANTÓNIO JACINTO


No meio da floresta densa, Mwata Cikambi e seus parentes ergueram um vilarejo com cerca de quinhentas almas. O átrio estava arreado. Flores silvestres engalanavam a parede que expunha quadros de figuras políticas do contexto estadual e internacional. Olhando para a parede, frontal à vista da população e onde se acomodava a mesa do presidium, Mwa Cikambi, o anfitrião, começou por apresentar ao povo os presentes, depois os ausentes vivos e os ausentes finados.

- Povo, Gi!

- Gi! - Respondeu eufórico e na mesma bitola.

- Este é o nosso novo comissário. O nome dele é Satula Muryanga. Uma salva de palmas para o nosso chefe. - Solicitou.

- Puá, puá, puá! - O povo correspondeu com três salvas sincronizadas.

- Com o comissário veio também a sua camarilha. Peço que se levantem para que o povo vos conheça. – Prosseguiu o regedor na sua apresentação.

- Puá, puá! – Ouviram-se duas salvas de palmas mais brandas.

-Povo! Aqui na parede, sob o olhar silencioso de Lénine que está aqui, - mostrou a foto do pai da Revolução Socialista de Outubro – está o camarada Manguxi. – Mwata Cikambi fez uma pausa mais prolongada para aguardar pelas habituais salvas de palmas.

O povo assobiou de contente e soaram estridentes rajadas de palmas antes inaudíveis.

- Ele é pai grande. – Gritaram alguns jovens mais espevitados, referindo-se ao finado camarada Manguxi.

- Aqui, ao lado do camarada Manguxi - prosseguiu Cikambi – está atento e silenciosamente o camarada António Jacinto do Amaral.

- Puá, puá, puá! - Novamente uma tripla rajada de palmas que serviram como barómetro do auditório.

Cikambi desvia o olhar para a foto seguinte, a de Marx de quem não se recorda o nome, e anuncia:

- Este último, um camarada também importante na história da nossa luta, é o camarada… - tentou buscar o nome ou uma ajuda mas não a obteve e continuou – é o camarada amigo do camarada Jacinto Amaral.

Nisso o povo que até ali se tinha comportado de forma urbana começou a gritar: “o nduko; o nduko yaye?! [1]”.
 
O comissário teve de intervir...

Extracto do livro PREDESTINADOS (no prelo)


[1] O nome; o seu nome?! (do umbundu).

segunda-feira, 1 de julho de 2013

CHUMBO NO VULTO

1
Obs: este conto é parte do livro "As Travessuras do Jacinto" no prelo
 
Terminada a 8ª classe, quando já tinha 17 anos, Jacinto decidiu-se mudar para Luanda, cidade com muitos institutos, institutos de imperar a “lei da gasosa” [1]nas instituições. Antes deslocou-se ao Lucusse, onde tinha o irmão mais velho da mão. A sua família estava espalhada, um pouco pelo país. Havia a família da parte materna da mãe que estava no território do Moxico. Os da parte paterna de Naxitula eram do Vye, enquanto os parentes do pai estavam espalhados entre os Kwanza-Sul e Norte, Luanda, Malanje e até no Zaire.
- Eh, pá! – exclamou uma vez na escola, aos amigos que zombavam da sua permanente condição de viajante.- Sou um cidadão nacional de pleno directo e com parentes por toda Angola.
Kumonla- o-Njamba, o tio que vive no Lucusse, era um “kazenze ya ihunda yali” [2]e exímio caçador de antílopes que abundavam o leste. Mal Jacinto se apresentou, o tio incumbiu-lhe, naquele mesmo dia, uma missão a desempenhar durante a semana.
- Sobrinho Jacinto!
- Ti- Njamba! – Respondeu sempre solícito.
- Essa é a tua tia Ndombwa, a primeira tia, estás a ouvir bem?
- Sim ti-Njamba.
- Essa é a Carlota, tua segunda tia – continuou Njamba a apresentação a que se seguiram os filhos, dez no total, apresentados conforma os nomes do registo oficial.
- Esse aqui, o filho mais velho da Ndombwa com teu tio, que sou eu, é o Twayovoka Ekokelo Gbadolite, nasceu no dia daquele acordo que não deu certo. Essa é a Yorque Carmelita, filha da tua tia Carlota, que nasceu no dia dos acordos de Nova York. Esse é fulano aquele é sicrano… - Prosseguiu.
 
Jacinto, sempre atento, foi apertando a mão e dizendo o seu nome. Às tias dizia o nome completo enquanto aos primos dizia apenas JAK.
 
Ao terceiro dia, Kumonla-o Njamba que estava em casa da segunda mulher, mais nova por sinal, decidiu mudar-se para a casa de Ndombwa e aproveitando a presença do seu depositário, chamo-o para uma missão.
- Sobrinho, como vês, o tio aqui é mwata. E mwata tem que ter protecção. Como hoje vou na casa da tia mais velha, ficas com essa caçadeira e não permitas nenhuma intrusão na casa da tua tia pequena. Qualquer vulto à noite que te pareça de homem, fogo!
- Missão dada, missão cumprida!– Respondeu o sobrinho.
As casas eram próximas uma da outra, separadas por escassos dez metros, mais ou menos. A noite era friorenta e Njamba lembrou-se que tinha o casaco na casa onde saíra. Como tinha a chave, não foi difícil entrar sem se fazer perceber pelo sobrinho. Pensou que àquela hora o sobrinho estaria no quinto sonho. Entrou sem acordar os miúdos, pegou o casaco e pós-se a lume. Porém, o barulho da porta alertou Jacinto que não fez mais do que cumprir a ordem recebida: Qualquer vulto à noite que te pareça de homem, fogo!
A caçadeira “22 longos” já estava carregada de dois chumbos e Jacinto não teve muito trabalho. Apenas premiu o gatilho e “chumbou as pernas do que lhe parecia um vulto com feições humanas.
O tiro nocturno acordou a comunidade que, de repente se juntou ao quarteirão do jacinto. Uns já cantavam“amukwata makoji” [3]. Num abrir e fechar de olhos estavam no terreiro adjacente à casa todos os aldeões, excepto o dono da casa, o que suscitou curiosidade. Destapado o ferido verificou-se que Jacinto tinha atirado contra o próprio tio.
Enquanto as mulheres choravam e os intriguistas incriminavam, Jacinto e os primos levaram o Njamba ao hospital do Lucusse onde recebeu tratamento. Felizmente os ferimentos não tinham sido tantos.
As más-línguas que corriam pelo bairro, insinuando a Njamba que era preciso dar uma lição ao sobrinho, fizeram com que Jacinto interrompesse as férias para escapar dos mais acérrimos críticos da aldeia.
Quanto a Njamba, não teve como se queixar da acção de Jacinto porque a ordem tinha partido dele. Tio e sobrinho despediram-se e o destino de Jack foi Luanda.
 


[1]Assim se designavam os actos de corrupção nas instituições públicas.
[2]O mesmo que “grilo com duas tocas” ou homem com duas mulheres (cokwe).
[3]Apanhado em adultério.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

O FALSO LEÃO


Nota: Este conto é parte do esboço de livro "As travessuras do Jacinto"
Apesar das travessuras do Jacinto as férias do fim de ano lectivo tinham corrido bem para ele e para os tios. Os primos estavam todos felizes porque tinham ganho novas brincadeiras. O natal tinha sido maravilhoso e todos os meninos tinham ganhado muitos presentes que o tio Wandisyapo comprou na loja do Sô Venâncio.
Wandisyapo e a irmã, Naxitula, tinham combinado que Jacinto regressaria à casa acompanhado do primo Bernabé, enquanto o irmão mais novo, Xendi Vali, ficaria com o tio. Lito que estava adoentado voltaria à casa mais tarde.

No dia em que Jacinto e Bernabé receberam a notícia de morarem juntos na vila de Munhango[1] quase não dormiram. A curiosidade de Bernabé era tanta e queria que o primo lhe falasse sobre como eram as águas dos rios, os animais, as frutas da mata e das lavras, os peixes dos rios os chilrear dos passarinhos e tudo mais.
- Oh primo, conta então ou não queres que eu vá contigo. – Ameaçou Bernabé, em jeito de troça.
- Bebé! Arruma a tua mochila. Os teus olhos te vão contar ao longo da viagem. – Respondeu-lhe Jak, como era tratado Jacinto no seio familiar.

 - E tu, Jak, já arrumaste a tua mochila? - Ripostou Bernabé.
- Ainda não. Mas eu sei onde andam as minhas coisas e não será difícil.

- Olha para isso. – Bernabé mostrava o cantil que ganhara como presente por ter transitado de ano académico. – Vai ser útil ao longo da nossa viagem até à casa da tia Naxitula. - Disse.
- Ai é? E vamos mesmo a pé? – Perguntou Jacinto a zombar.
Os dois já tinham combinado gastar o dinheiro da passagem em guloseimas[2] e fazer o percurso de dez quilómetros a pé. Conheciam o caminho e eram também conhecidos dos aldeões daquela região onde bastava dizer de quem se era filho ou neto para logo ser acolhido em qualquer aldeia por onde se passasse.

No domingo, dia em que o comboio faz o percurso Lwena-Byé, os meninos foram à estação dos caminhos-de-ferro acompanhados por Wandisyapo, pai de Bernabé e tio de Jacinto.
Os rapazes, que já tinham o dinheiro da passagem, fingiram dirigir-se à bilheteira de modo a despistar Wandisyapo. E conseguiram mesmo ludibriá-lo, pois tinham conseguido de véspera uns bilhetes que já não tinham validade. E foram estes que mostraram ao pai a quem se despediram.
- Papá, não adianta esperar pela partida do comboio. Jak e eu já somos grandes e o papá pode ir descansado. Quando chegarmos, a tia vai ligar para dar notícias. Não é isso Jak? – Perguntou Bernabé.

- Sim, tio. – Respondeu Jacinto, a fingir que subia no vagão, puxando pela mão do primo.
Mal Wandisyapo marcou os primeiros passos em retirada, os dois trapaceiros desceram do vagão e meteram-se a caminho do mato que liga as embalas[3]. Na mata serrada do Moxico, em direcção ao pôr-do-sol, os dois aventureiros transpuseram riachos e contornaram montanhas, deleitando-se, ao longo do percurso, com muitas frutas: umas colhidas de pomares que iam encontrando e outras silvestres. Viram também um passarinho preto, amarelo e vermelho que lhes fez recordar a bandeira de Angola.
- Jak! Olha aí o Angola-Avante! - Exclamou Bernabé, o primeiro a ver o passarinho no cimo de uma árvore.
- Angola-Avante é o hino nacional. Esse aí é cor-de-bandeira. - Corrigiu Jak que era um ano mais velho do que o primo.

Depois de caminharem cerca de uma hora JAC e Bebé sentaram debaixo de uma árvore frondosa para descansar e conversar. O mutismo e o cansaço já se tinha apoderado deles.
Jak puxou da mochila a sua bússola para ver em que direcção estavam, enquanto Bernabé prospectava com o seu binóculo[4] o que se passava à volta. Foi neste instante que viu, não muito longe do local em que estavam, uma cabra do mato que corria perdidamente.

- Jak, Jak! Uma cabra do mato está a correr em direcção ao rio. Queres ver? Deve haver um leão atrás dela!
- Hum, leão? - Balbuciou Jak acossado de medo.
- Sim aqui há leões, leopardos, hienas, onças e outros animais ferozes. Doutra vez - contava Bebé – o papá caçou um leão velhinho que rondava o curraval do Soba. Só a juba dele? Parecia um espantalho. Era um bicho assim…

Bernabé descrevia o animal enquanto Jak, já quase sem forças nas pernas, sorvia uma porção de água do cantil. Foi no mesmo instante em que Bebé, também ele sedento, esticou a mão para receber o cantil.
- Está aqui. – Disse Jak.
- Mam![5] Estou perdido. - Gritou Bernabé que se meteu a correr pelo mato.
Nisto, Jak que tinha pensado que o primo fugia duma fera, também se meteu em fuga pelo mato mas foi por um outro atalho.
Andaram perdidos no sertão[6] cerca de hora e meia até que se reencontrarem numa aldeola, já proximo do Munhango. Estavam exaustos, sedentos e famintos.
- De que fugiste Bernabé? - Questiounou Jak aborrecido.
- Não foste tu que disseste que o leão estava aí? Ou querias que eu servisse de almoço do bicho? - Respondeu Bernabé também agastado.
- Eu não me referi ao leão. Esticaste a mão para receber o cantil e eu te disse “está aqui” o que pedias.
- E por que te meteste também a correr? - Voltou a perguntar Bernabé já mais calmo.
- Fugi porque ao te ver com o “pé no ngimbo” [7] pensei que tivesses visto, na verdade, um leão!
 

[1] Vila ferroviária que fica na fronteira entre as províncias angolanas do Bié e do Moxico.
[2] Reboçados, chocolates, amêndoas e outras doçarias.
[3] Grandes aldeias rurais; vilarejos.
[4] Instrumento com lentes ampliadas que permite ver de longe.
[5] Interjeição em língua cokwe que expressa admiração ou espanto.
[6] Mata; floresta.
[7] Correr a bom passo.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

AS FÉRIAS DO JACINTO


Este texto é parte do livro "as travessuras do Jacinto", no prelo.

 
No ano de 1974, já depois dos acordos de Lunhamege, no Moxico, Jacinto que estudava a quarta classe, tinha decidido passar as férias grandes em casa do tio Wandisyapo, irmão mais novo da mãe.

Quando o tio se despediu, estava ele com os dois irmãos mais novos Lito e Xendi Vali, que também foram gozar férias, e os três primos filhos de Wandisyapo: Bernabé, Kokelo e Ndakavele.

- Meninos, vou à caça. A fome espreita e é preciso arranjar algo para acompanhar o pirão.[1] - Disse o tio Wandisyapo, acompanhado de cães valentes e uma espingarda de caça “22 longos”.

- Está bem tio. - Respondeu Jacinto que era o mais crescido entre os cinco meninos.

Volvidos três dias de retiro pela coutada de Kameya, onde a caça era abundante, lá estava de volta Wandisyapo com muitas presas. A caçada tinha sido tão boa que precisou de duas viagens para transportar os animais abatidos.

À primeira viagem, disse ao sobrinho:

- Sobrinho Jacinto, enquanto vou buscar outros animais que guardei na mata, vai esfolando estes, que estão juntamente com o cavalo.

Jacinto que não era de negar orientações, fossem elas claras ou não, pôs-se a cumprir a empreitada. Matou o cavalo e o esfolou juntamente com os animais que tinham sido pousados junto do equino[2].

Chegado da segunda viagem e já visivelmente cansado, Wandisyapo perguntou se alguém tinha levado o seu cavalo de estimação.

- Não tio. O cavalo está misturado aqui na carne de caça! - Respondeu Jacinto.

- Na carne de caça? Como assim? - interrogou WandIsYapo.

- Sim, esfolei-o conforme o tio me ordenou!

Se não fosse a polidez de Wandysiapo o assunto teria resvalado em briga familiar, pois a sua esposa, Witangi, já tinha corrido ao soma Katyopololo para expor o assunto e mandado alguém à embala do Vye para chamar os pais de Jacinto. Mas, avisado como era, o tio Wandisyapo ultrapassou o assunto. Apenas deu uma reprimenda ao Jacinto que prometeu maior atenção antes de executar as tarefas.

 

 



[1] Massa pastosa feita de farinha de milho, o mesmo que funje.
[2] Cavalo.