quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

TEMPOS DE PHAMBU DYA KALUNGA


Phambu dya kalunga é uma expressão kimbundu que quer dizer, literalmente, encruzilhada da morte. Também se costuma dizer "kanjila kajakata munzonge wa lulu" que significa, na Língua Luz-e-Tana, que o passarinho queimou e o molho amargou.
No tempo da mocidade dos meus tios e da minha meninice era comum ouvir os mais velhos a usarem o "phambu dya kalunga" para se referirem a alguém numa encruzilhada, com apenas dois caminhos.
Lembro-me de um kota que "encheu uma pinta[1]" e foi caçado pelos primos da mboa[2], já que ele esquivava sempre que o chamassem a sentar-se à mesa para falar com urbanidade. O manga[3] era refractário, outra expressão que saiu da moda linguística, e tanto temia assumir a munzúbya[4] quanto ser "kangado"[5] para a vida Kwemba[6].

No dia em que os primos da pura mboa[7] que estava pwã[8] o levaram à força para ir assumir o kizangu[9] da gravidez e fazer "os dever na moça", Tito Rafael estava a preparar-se, manhã cedo, para ir trabalhar na alfaiataria, no Golfe, vivendo ele no México do Rangel, na Ngwimbi, portanto.
O manga quando ouviu o "com licença" do Zezito pensou que fosse o seu colega de profissão e de caminhadas de beco em beco, fugindo dos ODP´s, CPPA´s, FAPLA´s kasimbados, ST's e PCU's[10]. Esses últimos eram os mais "fodidos", porque levavam tanto civis abrangidos para a vida militar, quanto os para-militares, os integrantes de milícias e os militares não dispensados dos quartéis. Eram mesmo quem mais rusgavam.
O kamba[11] do meu tiote, estudado minuciosamente pelos seus captores e enganado pela semelhança da voz anunciante, foi zangulado[12] e arrastado até ao quarteirão seguinte onde o aguardavam os makotas[13] da família da Ratinha, a wi[14] do cabelo longo, que andou a xaxatar de kaxexe[15] durante ano e meio, sem dizer "te quero de verdade ou de mentira". A expressão "namoro de ficar" não existia ainda no vocabulário do Português Luandense.

Tito Rafael, sozinho no meio de mais velhos de respeito, naquele tempo até os malandros eram "filhos de família", ensaiou dois caminhos: arrastar a conversa e não assumir o dikulu[16] antes que seus parentes fossem ao seu encontro, até porque casa, dinheiro e condições para sustentar a "filha alheia" e o mubinganu[17] por nascer eram coisas de que ainda não dispunha. A alternativa era pedir diligentemente licença para ir fazer necessidades menores e pôr-se a lume.
No bairro onde nasceu e cresceu, apesar das traquinices de uns e lyambices de outros, todos se conheciam e se davam ao respeito mútuo. Músculos nos problemas eram chamados somente quando alguém faltasse à palavra sadia e cortês. As galinhas e patos desapareciam de quintais, ainda feitos de tiras de chapas e pedaços de madeira descartada pelas serrações, mas era obra de mizangala[18] de outros bairros distantes. Os mexicanos não roubavam mexicanos. Era palavra de honra desde tempos avoengos.
Passados trinta minutos duma conversa que mais arrefecia do que aquecia e ante a ausência dos parentes e amigos mais chegados que àquela hora já não estariam no bairro, onde as rusgas aos "mata-kasumuna"[19] eram constantes, Rafael decidiu pôr em prática o plano b, o da evasão cobarde.

Pediu licença para se dirigir à latrina de chapas e aduelas que se encontrava a uns dez metros da figueira onde decorria o milonga[20]. A meio do caminho, entre os parentes de Ratinha sentados em círculo e a casota das necessidades, avistou a rua e trocou olhares com Ritinha, sua irmã kasula, escondida num canto e que lhe sinalizou o atraso do tio Joaquim “dos Mahezu”[21]. Rafael acelerou o passo e trocou os olhos e os caminhos.

Da porta do quintal à rua foi já a passo de lebre. Só que, igual a lebre, a sua berrida[22] foi sol de pouca dura. Acabou nas mãos dos PCU's que vasculhavam o bairro como quem procura agulha no palheiro.
Tinha passado o mês das apresentações voluntárias dos abrangidos pela Lei do Serviço Militar Obrigatório e todo civil abrangido, sem isenção ou adiamento, teria o KK como destino. A camioneta UNIMOG serviu de acolhimento durante dia e noite, até ser despachado para o Centro de Recrutamento e Mobilização Militar onde fez a a peritagem médica e despachado para Namakunde[23]. Entretanto foi mesmo no temido KK, área de Kayundu, onde fez os primeiros disparos de um militar e sentiu o assobio mortífero duma bala inimiga.

No Kwandu-Kuvangu, palco da Guerra Fria, onde se travavam encarniçados combates entre forças nacionais antagónicas, apoiadas por exércitos estrangeiros, também antagónicos, Rafael lutou corajoso e valente e teve várias distinções. Mesmo com o lápis desafiado, chegou a primeiro-tenente das FAPLA, antes da desmobilização que se seguiu à paz de Bicesse e, de volta ao kubiku, [24] recuperou Ratinha "Cabeluda", pinta[25] asseada na fala e no estar, com quem fez outros três filhos. Contam já cinco netos.


[1] Mulher; jovem (calão).
[2] Mulher; jovem (calão).
[3] O individuo (calão).
[4] Mulher (calão).
[5] Rusgado, capturado (calão).
[6] Também designada por vida militar ou cumprimento do serviço militar obrigatório; Kwemba representava um palco difícil para os militares (calão).
[7] Mulher (calão).
[8] Grávida (calão).
[9] Problema (calão kimbundu).
[10] Organização de Defesa Popular (milicia); Corpo de Polícia Popular de Angola; Serviço de Tropas (Policía Militar); Posto de Comando Unificado.
[11] Amigo (kimbundu).
[12] Levantado; segurado (calão).
[13] Mais velhos (kimbundu).
[14] A senhora (calão).
[15] Namorar de pianinho; de soslaio (Kimbundu).
[16] Problema (calão).
[17] Substituto; herdeiro (kimbundu).
[18] Jovens (kimbundu).
[19] Mata-formigas; alusão a jovens desempregados; sem ocupação (do kimbundu).
[20] Problemas (kimbundu).
[21] Mahezu é em kimbundu exposição de problema; aquí é o diplomata.
[22] Corrida (calão).
[23] Município do Kunene, Angola (calão).
[24] Casa  (calão).
[25] Mulher (calão).

Publicado pelo Jornal de Angola, Caderno Fim-de-Semana, 29/04/18

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

NO TEMPO DE CIPAIOS E CAPATAZES

No edifício rosado da vila crescente de Lumbala Ngimbu, Xavier Martins e Ernesto Del Ponte dividiam o corredor longo e estreito. Duas salas com portas paralelas se enfiavam ao fundo, ganhando janelas pelas laterais e pelos fundos, um arrojo da arquitectura daquele tempo oitocentista. Uma das salas era do administrador do posto e a outra era a do secretário.
Do outro lado estavam os cobradores de imposto indígena, os cipaios e seus cacetes, os serviçais e os queixosos e queixados. Mais longe, mas no mesmo quintal engalanado de flores que desbrochavam em todas as épocas, estavam as casas para as "sentinas": duas para os brancos da administração e um “covil” que servia a "negralhada" toda, onde homens e mulheres acossados pelas descargas fisiológicas se revezavam minuto sim, minuto sempre. Kapita era empregado auxiliar e cuidava de levar e trazer o que os brancos pedissem.
Certo dia, daqueles em que o céu parecia ter descido à terra, ameaçando queimar tudo e todos, Xavier na sua sala suava. Del Ponte também de suor molhava a malha da camisa estampada que quase lhe mordia o corpo torneado. Os dois se pareciam a nascentes de rios que se alargavam a cada chuva, a cada gota. Já tinham trocado os lenços pelas toalhas que mesmo assim não bastavam para se enxugarem. Água nos moringues já não havia.
Kapita, atrás dum monandege traquino, na vista do administrador se colocou.
- Ei, ó preto, pega uma bacia e traz água. Tens um minuto e meio. - Ordenou Xavier Martins, o administrador.
Dois passos à frente, outro grito e Kapita ainda sem descodificar o que lhe foi solicitado.
- Kapita! Outra bacia para mim, uma toalha límpida e um minuto e meio para a empreitada. - A voz de Del Ponte, um luso de descendência hispânica era inconfundível. O homem era dos principais queixinhas de Xavier Martins e culpado pelo desterro de muitos serviçais à roça Camokomoko, autêntica colónia de morte nos tempos da administração estrangeira no Leste de Angola.
- Coitado. Mbacia chamado por um e por outro, 'deve ser muito sério o que esse irmão aprontou'. - Kapita assim pensou e meteu-se mangueiras e laranjeiras abaixo, gritando e procurando por Mbacia.
- Mano Mbacia, ó Mbacia, se estás a te esconder é melhor se apresentar, porque o branco está a ficar vermelho. Mwata mutolo nyi secretario já informaram no sipaio e disseram que se o Minuto e Meio não vier contigo, ais mar água m sangue.
Kapita gritou até fazer-se ouvir por todos os que se tinham dirigido ao posto administrativo, sem que ninguém o pudesse ajudar. Nem Mbacia, nem Minuto e Meio se apresentaram.
Desolado, pensando nas palmatoadas que levaria por conta do fugitivo Mbacia que não pôde encontrar, dirigiu-se aos soluços ao gabinete do secretário Del Ponte.
- Sô secretario, Mbacia nyi Minuto e Meio ma lunga o ma pwo? (Bacia e o minuto e meio são homens ou mulheres?) 'Num li vistei casa tudo'. - Explicou numa mistura entre ucokwe e português.
Del Ponte, furioso, fez-se como flexa ao gabinete do administrador, informando que Kapita se tinha gozado deles e se recusado a dar-lhes água.
Xavier Martins, um flexa que já tinha sido capturado nas guerras de conquista do Leste, pegou, com as próprias mãos em Kapita e o acorrentou pelo pescoço, juntamente com outros dois empregados que se faziam passear pelo quintal. Foram mandados à roça Camokomoko desbastar uma montanha durante as manhãs e cortar lenhas durante as tardes.
Lá ficaram, os três, cinco anos, sempre labutando acorrentados ao pescoço. Até às "sentinas" sempre juntos: Kapita, Katonde e Sandumba...
Num Novembro de mangas fartas, sede na hora doze acompanhava a fome da fuba levada pela chuva. Na frondosa mangueira, habilidosamente, decidiram subir e desfrutar-se de polpa que cumpriria as duas funções: matar sede e fome num só trago.
Mangueira acima se fizeram. Lá foram os trigémeos. Uma formiga brava, entretanto, sangue humano queria sugar e Katonde, o do meio, não foi poupado.
- Wawé, ndifa! (Ai, morro!) - Exclamou em umbundu.
Pretendendo desfazer-se do incómodo quebrou o galho. Outro abaixo acolheu a corrente. Katonde e Sandumba num lado e Kapita noutro balouçando.
- A suku a tatê, tukutise ño (Deus pai. ajude-nos). - Gritava Kapita.
- Capatajééé, Tukwase! (Capataz, ajude-nos!) - Replicavam apelos, em ucokwe, Sandumba e Katonde.
Mukwa Kuxaha, o cipaio, e Mukwahenda, o capataz, fizeram-se meteram-se a caminho. Um com a espingarda e o cacetete e o outro com o chicote.
- Toma a chave, liberta um e depois o da outra ponta. O do meio desce com a corrente. - Ordenou o cipaio.
O capataz trepou, mas o coração pesou-lhe a alma. Na sombra, o cipaio arma na mão, pronto a atirar.
- Sô cipaio, “quarente” está complicado desamarrar”. em só me ajudar. - Iscou o capataz.
- Desce de lá seu sebo e se eu conseguir resgata-los, coloco-te na condição destes desgraçados. – Ameaçou o cipaio antes de concluir: - Dou-te a espingarda e atira neles, antes de eu cumprir em ti minha promessa. Desce de lá, pá!
Mukwahenda também temendo pela sorte. Livrou-se da árvore. Fez-se à sombra, caçadeira na mão. O cipaio descalçou as botas, arregaçou as mangas e ajeitou os calções de caqui. Embravecido agarrou a árvore como quem lhe pega pela garganta. Confirmou as chaves dos cadeados no bolso. Subiu ao colmo. Sedento de sangue soltou valente bofetada a Kapita que apenas suspirou antes de levar o rio de saliva ao rosto do assassino.
- Ai é? É la em baixo que vamos ajustar as contas.- Verberou alto.
Mukwa Kuxaha, soltou Katonde e voltou ao lado de Kapita que sangrava na boca. Quando o cipaio se preparava para descer, Mukuahenda, o capataz, deu-lhe a provar do veneno.
- Tuááá! - A bala certeira de caçadeira abraçou-o de morte. Fez-se silêncio e depois o eco além savana. O cheiro de pólvora e as aves predadoras fizeram-se anunciar. Era sangue e pedaços espalhados pelo matagal.  
Kapita e o capataz meteram-se mata adentro. Catonde e Sandumba seguiram a caminho do caudaloso e pantanoso Lunge-Bunge, não se sabendo qual foi a sua sorte. Outrossim, ficou registado que o corajoso capataz e os seus troféus entregaram-se ao Movimento.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

A ZUNGA E A BERRIDA DOS KABOMBAS


FI-DA-CAXA! é para mim uma interjeição e não "palavrão". É nessa acepção que  espero entendam a utilização do étimo nessa crónica.  

Fi-da-caxa! Estorvaram-me a prosa com o kamba de ofício. Nosso encontro foi inesperado.
Eu o imaginava em Katumbela e ele contava-me em Sawlimbu. Ali mesmo no chão do aeroporto, rua primeira de quem espreita o Kasekel
[1], eu saído do cheiro e clima doutro mundo a apanhar balanço para nova vida na Ngwimbi[2], ele no intervalo duma acção de kudilonga[3], cruzamos, cara-a-cara. Se um fosse kilapeiro[4] do outro não teria nem buraco para se esconder.

-Epá! Confrade, não te imaginava aqui e plenamente hoje. Vieste em bumbas[5] ou em turismo sobre rodas? - Metralhei-o, logo logo, com perguntas.
- Yá. Vim numa formação. É preciso nos aperfeiçoarmos. Estou já há umas semanitas. - Defendeu-se.
- Yá. Tenho lido o teu diário, mas pensava que fossem escritos buscados dum baú recente.
- Pelos vistos estás a chegar... tens novidades literárias?
Mal começamos a falar sobre um dos aspectos que nos tornam umbilicais, a escrita e as publicações para Novembro, quatro carros da patrulha conjunta, entre fiscais e policias, pararam repentinamente colados a nós, com os "comandos" a pularem por cima dos zungueiros
[6] de saldo e mawanas[7] de sol. Parecia kitota[8] nos tempos do mano Barbudo ou rusga do luz-e-tano Poeira quando encheu as cadeias pidescas de revoltosos tunda mindele[9].
O resto da prosa, depois de minutos de separação, porque cada um de nós (mais ele do que eu que ando kasimbado
[10] nestas guerras de fiscais contra vendedeiras) fugiu para sitio diferente e distante para escapar daquele "assalto", foi apenas um chau apressado com o coração em alta rotação.
- Fidacaxa dos fiscais! Com as zungueiras até parece que fizeram curso de pular, puxar, apanhar coisas esquecidas ou caídas na fuga e guarda-las rápido e de caxexe
[11] no carro. - Atirou o puto Sofrimento Moderno, também conhecido no aeroporto por SM, que obteve o contributo de um colega de desgraça:


- Yá. Tipo nada. Mwadyé
[12] distraído pensa que não houve nada. Tipo guerra relâmpago do Adolfo da Alemanha quando queria reino mundial de mil anos. Mas "lhe" saiu pela culatra.
 - A quem é que entregam as coisas kasumbuladas na rua? - Perguntou ainda uma mana, Belita nome dela, enquanto limpava a nova ferida do encontrão que teve com uma arca antiga de vender bebidas.

Resposta, ninguém só lhe deu e vai ficar toda a vida com a raiva dela sempre que olhar para a cicatriz.

Os magalas a exibir banga[13], pareciam que treinaram comandos no Cabo Ledo para irem metralhar os carcamanos[14] reaganistas-malanistas e seus  apaniguados mwangolês[15] no Kwitu Kwanavale de 1987.

- Fidacaixa! Força deles é só com os zungueiros de cuecas, saldo, magoga[16], fio dental de mulher que quer já já e mawanas de sol. No tempo em que barbudo nos intimidava eram capazes até de andar com a cauda entre a muxaxala[17]. Cambada de gregos! - Raiva de Miguelito era grande que nem mesmo o desabafo carregado de alguma malícia atenuou a força da pedra que aquela acção lhe calcou no coração.

 
Quem também lhes xingou, com todos os verbos, tempos e modos, foi Mariquinha que viu entornada a sua bancada de magoga e "bebe-me-deixa"
[18].
- Com grego igual não torram farinha. -Atirou. - Por que não vão ainda se medir capacidade com os gregos do Sambila, do México, do Sete e Meio, do Ngwanhã, dos Ossos, do Saber Andar, da Fubu e doutras bandas onde a polícia é quem bate continência aos bandjus? Gregos de meia tigela, mazé pá! Quando o Barbudo nos ameaçou empurrar o comboio com os beiços andaram aonde? Me totolei
[19] só no pé!
E eu, repleto de vivências, mochila nas costas, pé no ngwimbu
[20] para soltar ao vento o que meus olhos viram e meus ouvidos registaram. Saí voado!




[1] Bairro de Luanda; areal (grafia kimbundu).
[2] Calão de Luanda; alusão à capital de Angola.
[3] Aprendizagem; ensino; curso (kimbundu).
[4]Devedor; calão de Angola.
[5] Trabalho (calão).
[6] Vendedores ambulantes; do kimbundu zunga=andar sem destino.
[7] Óculos de sol (calão).
[8] Guerra.
[9] Saiam os brancos; alusão à luta pela independência (kimbundu).
[10] Calejado (calão); alusão a quem tem muitos kasimbus (anos) de ofício.
[11] De soslaio.
[12] Individuo (calão).
[13] Estilo; exibicionismo.
[14] Assim eram designados os invasores sul-africanos no tempo da guerra em Angola.
[15] Angolanos (calão).
[16] Sandes.
[17] Entre as nádegas.
[18]Refrigerante em PET de meio litro.
[19] Tropecei; bati (kimbundu).
[20] Nuca (calão).

sábado, 1 de novembro de 2014

CONVERSAS CENSITÁRIAS

Era sábado de futebol. O país inteiro estava de olhos na TV e ouvidos no rádio que de meia em meia hora vomitava algumas verdades e muitas mentiras. Ora se dizia que a equipa lilás seria campeão, se vencesse e outra empatasse. Ora se dizia que os presidentes estavam em campanha “ganhística” extra-campo, a oferecerem prémios de jogo chorudos aos adversários do adversário à conquista da taça.

E o disse-que-disse passava de boca em boca a velocidade estonteante. Ninguém se podia alcandorar como detentor de verdade sobre o jogo de bastidores e de influências que se apregoavam na média.

No bairro da Lata, as ruas estavam movimentadas. A equipa do bairro tinha subido de divisão e teria no seu primeiro embate o vencedor da taça do ano precedente. Todos queriam saber quem será o campeão que rebaptizaria a equipa do bairro da Lata no campeonato maior do Estado.

Na rua das gajajeiras havia mais gente do que estrada. Até mesmo as frondosas gajajeiras pareciam desaparecer, ante aquele mar de gente, a subir e a descer para lugar incerto. O estádio das gajajas estava ainda de portas encerradas. Onde e meia, sol ardente, bairro a dentro. As kilumbas aproveitavam camuflar a feíce, enquanto os homens endireitavam as aparências. A “barbaria” do Chiquito, à berma da rua das gajajeiras, tornou-se lugar de encontros e reencontros. Os homens à direita e as mulheres perfiladas à esquerda. Conversas díspares poluíam o recinto de 32 metros quadrados. Do lado masculino era o futebol quem comandava.

- Epá, qual dos adversários preferes para a nossa benquista equipa da Lata?

- Para mim, qualquer. Só temos campeões na fila da frente. – Lené antecipou-se à pergunta de Kapenda que era novo naquela pequena urbe e que procurava por afinidades.

- Qualquer como assim?- Voltou a pôr conversa, na expectativa de mais argumentos e contra-argumentos.

- Sim, qualquer. Veja bem. Nós seremos neófitos. Na frente do campeonato deste ano estão um bi-campeão, um campeão, e depois uma equipa que nunca foi campeã, mas que já tem tradição e com bom plantel. Depois vêm a segunda equipa mais titulada do campeonato e em quinto o papa títulos. Qualquer um deles será osso duro e não pêra fácil.

- Boa argumentação! - Exclamou o barbeiro que acompanhava atento a conversa.

- E vais ao campo ou só te ficas pela rádio e TV? - Voltou a questionar Kapenda.

- Sou o coordenador do fã club da equipa da Lata. Não falto a nenhuma partida.- Respondeu Nelé.

Enquanto os homens festejam o futebol, as mulheres praguejavam os resultados do censo realizado pelo Estado que tinham colocado a descoberto um segredo que puderam manter incólume por muito tempo.

- Mana Joia, sabes o que o censo descobriu?

- Não, Lena. Descobriu o quê?

- Poças! Nem te digo, Mana Joia. A dupla e tripla agregação estão em risco.

- Como assim?

- Não viste os resultados do censo? – Ripostou Mariquinha.

- Ó Mariquinha! Qual censo qual quê? Mas então o tal censo censou o quê? Me fala meu Deuju!

- Sim, Mana Joia. - Mariquinha, mais serena, olhou para as companheiras desinformadas e abeirou-se da pasta onde tinha os relatórios preliminares sobre o comportamento quantitativo e qualitativo da população. – Não somos assim tantas que cheguem três a quatro para cada uma.

- Ai é? Como assim? Então o censo disse o quê?

- Joia, Josina de Andrade, de nome próprio, natural de Kunda Dya Base, Malanje, criada e crescida em Luanda, em casa de madrinha abastada, mas pouco escolarizada, parecia adivinhar um perigo em frente.

Foi aí que Mariquinha começou a desbobinar.

- Quem olha, e guardamos isso por mito tempo, pode lhe parecer que haja bwé de terrenos desocupados, mas é mentira. Quer dum lado quanto do outro, há mbayas.

- Mbayas, como, minha filha, Interveio dona Joana, mulher de respeito em todo o bairro da Lata. Era a coordenadora da comissão de bairro, dona de um Jeep que fazia ciúmes aos governadores da capital.

- Sim tia Joana. O censo veio a desmontar a ideia de que existiam três a quatro mulheres para cada angolano. Quase todos os homens se gabavam de garanhões e de terem mais do que uma “munzúbia”, entre a oficial e as que chamam de posições ou sei la o quê.

- E não é verdade, filha? Não sabes que morreram muitos na guerra e também, mesmo em tempos de paz, os rapazes são mais propensos a desportos radicais e outras forças violentas que os levam, algumas vezes à morte?

- Sim, tia Joana. Sei disso. Estudamos isso em demografia, mas o censo diz que a proporção é bem diferente e contrária até ao que dizem os homens. Veja bem - Mariquinha, mais serena do antes, prossegui na sua explanação – Há mais mulheres do que homens, mas não chega uma e meia para cada um. São apenas 52 mulheres para cada 48 homens. Quer dizer que, em cada cem pessoas, 52 são mulheres e 48 são homens. Onde é que saem as demais com que se fazem passear os chefes e kamangwistas?

- Minha filha, eu sou segunda, mas também não sei. -Respondeu Joana perturbada.

- Sim, tia Joana. Veja bem. - Mariquinha continuou explicativa e inocente. - O censo demonstrou que nem sequer há uma mulher e meia para um dos homens. Onde é que saem as demais? O censo, mana Joana, mostra que as mulheres é que têm múltiplos homens agregados a si.

- Concordo contigo, minha filha. - Joana, a boss do bairro da Lata, começou a entender e não tardou em contar o segredo:

 – Então, se os homens pensavam que cada um tinha direito demográfico de quatro mulheres, a verdade diz que pelo menos três ou quatro partilham a mesma “xuinga”.

- É isso, Dona Joana. – Respondeu Lareira, assim apelidada pela sua fama de namoradeira a troco de boleia e aquecedora de lares apossados de gelo. A moça de má fama resistiu ao início da conversa mas pode ir mais além. Intrometeu-se na conversa e contando as verdades verdadeiras de que era dominadora. – Nós é que estamos na mó de cima, mana Joana. Mesmo no Kunene a diferença é mínima. Nós é que usamos e abusamos dos homens. Pior é que ainda há homens xuingado que pensam que têm mesmo por direito demográfico esse número ilusório de mboas e que a xuinga não passa por várias bocas. Outros assumem voluntariamente o socialismo mulherístico e empurram a carroça para frente, partilhando com xulos e outros levando uma vida de timatosismo ou pachequismo.

- Ai é, filha? – Interrompeu Joana, pensando que fosse única nessas andanças. – Olha, filha, olhando para o censo, até na Lunda Norte, onde o direito consuetudinnário institucionaliza a poligamia não há mulheres suficientes para o elevado número de homens, mas cada uma se arroga ao direito de ter mais do que uma. De onde é que saem as demais?

- É do segredo, tia Joana. Responderam as comadres todas do salão de cabeleireira.

E não tardou. O sino do estádio tocou. A ambulância passou com o seu wion, wion, wion característico. Seguiu-se o carro da polícia a abrir as alas. O povo todo eufórico. O jogo da equipa da aldeia nada tinha de importância, pois a subida de divisão era já um facto. Restava saber com quem se jogaria na primeira volta do campeonato, por isso, os ouvidos deviam estar ligados ao rádio e os olhos à TV. Nelé e Kapenda saíram de imediato, com a aparência ainda por terminar. Era dia de futebol! 

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

EU, O TIO E O VELHO KAFEJÁ

O prazer que ele tinha de caminhar, conversando, era tão grande que só hoje se reconhece o valor que encerra. A idade, esse somar de segundos, minutos, dias, semanas, meses, anos, décadas e etc., transfigura-nos. Torna as pessoas diferentes. Pensam diferente, de forma mais estruturada e evoluída. A cada segundo que se passa algo minúsculo, mas real, acontece em nós. Ele gostava de caminhar e conversar. Eu, às vezes, na minha inocência, falava com o meu íntimo e perguntava-me por que ele gostava de estar comigo, impedindo-me de estar com os meus amigos que nas traquinices da idade, ante a ausência dos pais, perdidos na busca do “mbolo ya kizwa[2]”, passam tempo a “estigar”[3] o coitado do vizinho “Velho Kafejá”!

Francisco Ngandu, ou simplesmente Chico, era um pouco mais idoso do que ele e tratavam-se por tio e sobrinho. Eram parentes maternos. Avô Chico, para os rapazes de família, era calvo e com o occipital saliente, aparentado ao desenho escolar de um grão de feijão. Talvez por isso é que os meninos mais “mal-educados” do Kaputu o tratavam por “Velho Kafejá”

Saído da “bwala”, repleto de conhecimentos escolares para a idade, mas sem a esperteza dum “kanuku da ngwimbi”[4], encontrou o tio na casa dos sessenta, pois veio a reformou-se três anos depois. Já a sua filha o tinha presenteado com três continuadores do nome: Raquel, Josira e Bruno. A netinha mais velha tinha apenas seis anitos e o “kasula” deliciava-se ainda com o leite do biberon, sempre que a mãe se dirigisse ao serviço.

Chegou inteligente mas sem a esperteza e domínio dos truques da sobrevivência numa cidade-acampamento (sim, acampamento de recuados de todos os pontos da Angola em chamas), expunha-se inocente e desavisado nos apertados becos do Rangel, sem a mínima noção do perigo que enfrentava todos os dias ao cruzar com os “gregos”[5] do México, sempre que se fizesse a caminho da Praça das Corridas.

O velho, avisado e vacinado pelo tempo de vivência luandina, estava sempre atento e com os conselhos na ponta da língua.

- Olha, sobrinho! Faz um “kaburaco” aqui na cintura dos calções e guarda o dinheiro do peixe. Cuidado com os “gregos”. Fumam lyamba e não têm juízo na cabeça!

 Algumas vezes ouvia-o com ouvidos retentores. Outras vezes, se bem que poucas, o conselho caía em saco roto de “mabela”[6] que dava ao arrependimento e às reprimendas da mãe que herdara uma mão sempre leve.

Aos domingos aconteciam mais conversas. Transpunham o Rangel, Terra Nova e invertiam pelas traseiras do cemitério de Sant´Ana, a caminho do templo da Igreja Metodista Unida de Kalemba. Sentavam num mesmo banco corrido, daqueles feitos pelo marceneiro que respeita a Deus, não deixando as roupas dos fiéis a mercê de pregos mal assassinos. O idoso carregava a bíblia que não lia e o sobrinho o Hinário “Povo cantai!” onde guardava o dinheiro para o ofertório e para os doces à saída do culto. Apenas aos domingos o sexagenário levava a mão ao bolso para as guloseimas do sobrinho. E cantavam juntos “madibesa kala nvula”[7] ou o “nome bom, doce a fé….”.

Depois do culto, boca adocicada, estômago resmungante e conversa de fazer crescer. Era sobre o progresso que falavam na hora do regresso à casa. Metiam-se a caminho do bairro Popular, a casa da Teresinha, a filha que vivia num “kaprédio do tempo colonial”. Visitavam-na religiosamente, independentemente da diferença da profissão religiosa.

Na verdade, o tio precisava de um sobrinho ou um neto a quem pudesse transmitir experiências. Não queria ficar com os seus conhecimentos em stock, sem que alguém deles fizesse usufruto e os legasse às gerações vindouras.

- Cada tempo é um tempo. Há coisas diferentes mas muitas se mantêm na mesma. Por isso, sobrinho, “jikula meso”. - Dizia, vezes sem conta.

Ainda indesperto, cansado de caminhadas, quando se podiam fazer transportar num autocarro da ETP, depois rebaptizada por TCUL, o sobrinho respondia inocente:

- Estou acordado tio. Quem dorme não anda!

- É que não te oiço responder. Estás a ver os carros aqui na Estrada de Katete? Passam rápidos. É preciso olhar aos dois lados e correr ao atravessar. Meus olhos já viram muitos a serem "engomados".

- ´Stá bem, tio. Mas tio sabe que criança não morre. É como “Kilombo”[8] que só desaparece...

- Sim sobrinho. Não há óbito de “Kambuta” nem de alto, de branco ou de preto, ainda mais o “kilombo” que é apenas um acidente de nascença (biológico), não faz sentido separar as pessoas vivas ou defuntas. Mesmo a “kitata”[9] e o “ngombiri”[10] que não fazem coisas recomendáveis não se fala deles quando Deus os chama. Apenas se diz que alguém morreu. O ofício dele fica esquecido. - Explicou  antes de "fechar" com uma advertência:

Não fala com os estranhos essas coisas de mais velhos, sobrinho. Primeiro aprende e depois vai aos debates. Pronto. Agora acelera o passo e vamos à igreja onde deves ficar atento à pregação.

Está bem tio! Está bem. A lição foi absorvida!




[1] Abre o olho (Kimbundu).
[2] Pão de cada dia (Kimbundu).
[3] Insultavam; instigavam a… (calão).
[4] Rapaz da cidade (calão).
[5] Delinquentes; bandidos (calão).
[6] Ráfia (Kimbundu).
[7] Cântico religioso (bênçãos como água).
[8] Albino  (Kimbundu).
[9] Prostituta (calão).
[10] Violador  (Kimbundu).