sexta-feira, 25 de setembro de 2026

UANHENGA XITU E SOBERANO KANYANGA - BREVE ANALOGIA: MEMÓRIA, CULTURA E IDENTIDADE NA LITERATURA ANGOLANA

Introdução

A literatura angolana encontra em Uanhenga Xitu um dos seus mais importantes intérpretes da realidade social e cultural do país. Através da sua obra, o escritor registou modos de vida, valores, tradições e formas de organização das comunidades angolanas, transformando a literatura num instrumento de resistência cultural e afirmação identitária.

Em período posterior, surge Soberano Kanyanga, pseudónimo literário de Luciano Canhanga, cuja produção literária revela afinidades temáticas com algumas das preocupações que marcaram a obra de Uanhenga Xitu. Embora separados por gerações, contextos históricos e percursos literários distintos, é possível estabelecer uma breve analogia entre ambos, não numa relação de igualdade estética ou histórica, mas na perspectiva de mestre e discípulo, influência e continuidade.

Enquanto Uanhenga Xitu escreveu num contexto de luta contra a dominação colonial e de afirmação da angolanidade, Soberano Kanyanga desenvolve a sua escrita num contexto pós-independência, marcado pelos desafios da preservação da memória colectiva, da valorização das culturas locais e da transmissão de conhecimentos às novas gerações.

Memória colectiva e preservação cultural

A obra de Uanhenga Xitu constitui uma das mais importantes expressões literárias da memória colectiva angolana. As suas narrativas recuperam costumes, práticas sociais, formas de autoridade tradicional, crenças e relações comunitárias que o colonialismo procurou marginalizar ou substituir.

Nesta perspectiva, as reflexões de Maurice Halbwachs sobre a memória colectiva ajudam a compreender a importância da sua produção literária. A memória individual transforma-se em memória partilhada quando passa a integrar o património simbólico de uma comunidade.

Influenciado por essa tradição de valorização da memória, Soberano Kanyanga procura igualmente preservar experiências e saberes locais. Em obras como Kitotas: Recuos e Avanços e Lubolo & Arredores, o autor recupera memórias associadas à guerra, à vida comunitária, aos usos e costumes do Libolo e às transformações sociais ocorridas ao longo das últimas décadas.

Todavia, importa sublinhar que, enquanto Uanhenga Xitu assume uma dimensão fundacional na literatura angolana, Soberano Kanyanga procura modestamente inserir-se nessa herança cultural, contribuindo para que memórias locais não desapareçam perante a velocidade das mudanças contemporâneas.

Oralidade e identidade cultural

Uma das marcas mais significativas da obra de Uanhenga Xitu é a valorização da oralidade. Os seus textos reproduzem modos de falar, provérbios, expressões idiomáticas e formas narrativas herdadas da tradição oral africana.

A este respeito, Amadou Hampâté Bâ recorda que, em África, a tradição oral constitui um dos principais meios de transmissão do conhecimento e da identidade cultural.

Também na escrita de Soberano Kanyanga se observa uma atenção particular às formas de expressão popular, sobretudo às especificidades linguísticas do Libolo, ao diálogo entre o kimbundu e o português angolano e à preservação de vocábulos e narrativas locais.

Não obstante, a oralidade em Kanyanga surge mais como um exercício de resgate e valorização cultural inspirado por uma tradição literária consolidada por autores como Uanhenga Xitu, do que como elemento fundador de uma nova corrente estética.

O espaço como lugar de memória

As narrativas de Uanhenga Xitu encontram na aldeia e no universo rural angolano um espaço privilegiado de representação cultural. O território não é apenas cenário; é lugar de memória, identidade e pertença.

De forma semelhante, o Libolo ocupa posição central na obra de Soberano Kanyanga. Em Lubolo & Arredores, o espaço transforma-se em património narrativo, permitindo ao autor documentar práticas culturais, modos de vida e referências históricas da região.

Sob a óptica de Pierre Nora, ambos os escritores contribuem para a construção de «lugares de memória». Contudo, enquanto Uanhenga Xitu fixou literariamente referências fundamentais da cultura angolana, Soberano Kanyanga concentra-se numa escala mais localizada, procurando salvaguardar a memória histórica e cultural do Libolo e das comunidades vizinhas.

Literatura e formação cidadã

Outro ponto de convergência reside na dimensão educativa da literatura. Nas obras de Uanhenga Xitu, a crítica social surge frequentemente associada à reflexão sobre comportamentos individuais, relações de poder, práticas culturais e desafios da sociedade angolana.

Influenciado por esta tradição humanista, Soberano Kanyanga tem igualmente procurado atribuir à literatura uma função pedagógica. Em Kitotas: Recuos e Avanços, aborda as consequências humanas da guerra. Em Contos para Lúcia, privilegia valores ligados à amizade, à convivência social, à imaginação e à formação moral das novas gerações.

Em ambos os casos, a literatura ultrapassa a dimensão estética para assumir uma função social e educativa.

Conclusão

Qualquer analogia entre Uanhenga Xitu e Soberano Kanyanga deve reconhecer, antes de tudo, a posição singular ocupada por Uanhenga Xitu no panorama da literatura angolana. A sua obra constitui uma referência maior na preservação da memória colectiva, na valorização da cultura nacional e na afirmação da identidade angolana.

Soberano Kanyanga, por sua vez, pode ser entendido como um escritor que, guardadas as devidas proporções, revela influência dessa tradição literária ao dedicar parte da sua produção à preservação da memória histórica, cultural e linguística das comunidades do Lubolu e de outras paragens de suas vivências e imaginação.

Não se trata, portanto, de comparar grandezas literárias equivalentes, mas de identificar continuidades de inspiração. Se Uanhenga Xitu representa o mestre que ajudou a consolidar a literatura angolana como espaço de resistência cultural e afirmação identitária, Soberano Kanyanga procura seguir algumas dessas pegadas, adaptando-as aos desafios do seu tempo.

Nessa relação entre mestre e discípulo, entre influência e continuidade, ambos testemunham a capacidade da literatura angolana de preservar a memória dos povos, valorizar as culturas locais e fortalecer a consciência nacional.

=              

Por: Mona-a-Chico

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

A LAVRA DE NINGUÉM

Na aldeia de Rimbe, onde o rio Kazondo se insinuava como veia ancestral entre dois domínios, o das mulheres ao norte e o dos homens ao sul, o tempo não corria: meditava. Ali, o presente era uma sombra alongada do que fora sonhado, mas jamais plenamente alcançado.

Rimbe emergira do êxodo dos migrantes de Kuteka e de Katoto, almas errantes que, fugindo da pólvora e da ignorância, carregavam nos ossos o esboço de um município utópico, a Munenga, cuja concretização tardaria quarenta e cinco anos, quando os fundadores já não mais existissem: mortos, dispersos ou tragados pelo esquecimento.
Ao norte, onde o rio Kazondo se entregava ao Ryaha, rio maior, as mulheres, sobretudo as raparigas, lavavam louça, purificavam o corpo e desenhavam sonhos com a água. Era o território da higiene, da subsistência e da esperança doméstica.
Ao sul, onde o rio contemplava a nascente guardada por uma montanha perene em verdor, os homens — valentes, inválidos, infantes, mancebos e anciãos — encontravam abrigo, silêncio e vício. Era o domínio da introspecção, da força e da fuga.
Foi nesse sul que os mizangala, jovens de espírito inquieto e engenho improvisado, começaram a se envolver com a Kangonya, erva de leve combustão e vasto alcance. Para uns, era estímulo ao labor braçal; para outros, altivez compensatória diante da ausência de coragem ou eloquência. Mas havia os que, tragados pela erva, se afundavam no ócio absoluto. Não se avivavam para nada e tombavam como pintainhos em poça de água. Pareciam-se com sombras de si mesmos. Eram os “molhados”.
Com o aumento exponencial dos adeptos e os efeitos deletérios da planta, a administração municipal, respaldada pela força policial, passou a fiscalizar lavras e hortas ribeirinhas. Repreendia, e por vezes conduzia os infratores ao tribunal da municipalidade, onde se lhes impunha dias de reclusão e trabalhos sociais. As plantas eram arrancadas e incineradas ao sabor dos ventos montanhosos, como oferendas à ordem pública.
O primeiro a ser colhido pela repressão foi Obaid, surpreendido em flagrante inspiração sob a árvore que sombreava uma planta de lyamba. Alegava que ali pensava melhor, que o mundo lhe surgia mais claro quando o fumo ascendia.
Depois veio Ojna, cuja lavra, batizada de Chaleira, não apenas produzia, mas abastecia a comunidade e cercanias. Visitantes vinham de longe e os amigos o apelidaram de “o farmacêutico da montanha”. Mas também ele foi alcançado pela repreensão policial. Condenado a trabalhos sociais, ouviu sermões que não curavam.
Etnerc, mais discreto, cultivava o que chamava de horta da lucidez. Mas nem a lucidez o livrou da punição. A aldeia começava a se fechar sobre si mesma e os homens sentiam que a terra lhes fugia assim como o Rimbe fugira aos seus fundadores.
Foi então que Ueta, mais avisado e igualmente apreciador da Kangonya, convocou os amigos sob a mesma árvore que abrigara os devaneios de Obaid. Propôs-lhes uma solução inédita:
— Abramos uma lavra de ninguém.
— Lavra de ninguém? Como assim? — indagaram os demais, entre risos e perplexidade.
— Uma lavra que não pertença a Obaid, nem a Ojna, nem a Etnerc, nem a mim. Uma lavra que seja de todos e de ninguém. Se vierem fiscalizar, não encontrarão dono. Se perguntarem, diremos: é da aldeia.
A ideia germinou como a própria lyamba. Decidiram abrir o campo junto à nascente do Kazondo, onde o matagal era cerrado e o caminho, quase invisível. Cortaram apenas o necessário, deixando a natureza como cúmplice. A horta passou a chamar-se CHA — Cooperativa dos Homens da Aldeia.
Para que nenhum homem singular fosse responsabilizado, pregaram numa árvore visível a todos uma placa com três letras: CHA. E ali, entre o verde que nunca secava e o silêncio que guardava segredos, os mizangala reinventaram a pertença.
Rimbe, que um dia fugira dos seus, voltava a ser deles, mesmo que fosse só por entre fumaça, folhas e alucinações.