domingo, 1 de julho de 2012

MAKOJI

(Este texto é parte do livro "O Coleccionador de Pirilampos")

- Mutaleno, vem rápido! - Chamou aflita a mãe ao filho que jogava às pedrinhas, depois das aulas na explicação do Sô Jacinto Kudilonga. – vai chamar o teu avô, diz que em casa há problema do pai que lhe “apanharam” makoji”[1]. Vai mesmo a correr. Leva a tua jante e toma cuidado com os carros e kupapatas[2].

Calções rotos a mostrar faróis na parte traseira, Mutaleno imita o roncar de um jeep em inicio de marcha e mete-se à estrada que separa os dois quarteirões do Bairro Zorrô.
- Avô, avô, avô. - Mutaleno cansado nem conseguia suster a respiração para explicar o recado da mãe.

- Hum! - Respondeu Sá Mutale.- Fala seu burro. Assim já esqueceste o que te mandaram, não é?
- Avô, é a mamã que mandou chamar. Disse para ir rápido porque na tia Amélia há lá problema do papá que lhe “pegaram makoji no tio Januário Kabeçada”.

Sá Mutale agarrou a mutopa[3], já sem tabaco, que por um triz lhe caia da boca dado o susto. Endireitou o chapéu que lhe cobria a calva e, com as mãos à ilharga, exclamou: - Ora bola! Que chatice, pá!

- Mutaleno, vai na frente. Diz à mamã que avô está só beber cabucado de água.

Sá Mutale sabia das implicações que um caso desses encerra. É preciso usar diplomacia, juntar ideias, separar as melhores ideias para o debate e escolher os melhores adágios. Já tinha ele mesmo tido experiências dessas no passado, quando ainda jovem e com muito sangue na veia. Tinha sido surpreendido a colher em lavra alheia, como também já bebeu do fel que é ver a lavra arrasada por um intruso.
Há um pico que lhe atravessa a garganta até hoje, pois desconfia que o próprio Tambula Mwana, pai de Mutaleno, tenha sido fruto duma colheita forasteira em sua lavoura. Sá Mutale deixou a aldeia aos 17 anos e alistou-se na Revolução donde apenas saiu aos 23 anos. Embora as duas famílias soubessem do seu namorico com Na Mwana, mulher com quem vive até hoje, não tinha mantido com ela um contacto íntimo mais profundo que resultasse no filho com que foi brindado ao chegar da tropa. Pior ainda é a diferença fisionómica entre ele e Tambula Mwana. Embora ele, Sá Mutale, seja alto de pegar as estrelas, Tambula Mwana é tão baixo que parece “meia cuca” e tão claro que parece filho dum cubano, contrastando com a cor do pai que é duma escuridão que de noite apenas se reconhecem os dentes. É que Tambula Mwana nem olhos, grandes e redondos como goiabas, tirou do pai. Mesmo assim, Sá Mutale aceitou a mulher e o filho e já lá vão 37 anos.

Era preciso endireitar o discurso, avisar alguns amigos comuns com a casa do ofendido, e, sobretudo, encontrar o que se deve prometer como pagamento à família de Januário Kabeçada.

Sá Mutale jogou milho no terreiro para contar quantos galos tinha na capoeira. Acto contínuo, jogou sal no curral para chamar o gado que de imediato apareceu. Calculou qual dos bovinos podia servir de promessa para a multa, consultou a mulher sobre a quantidade de milho no celeiro e partiu. Casaco ao ombro, bengala na mão, cachimbo na boca, dez passo uma baforada, meteu-se a caminho.

Passou pela casa do compadre Lamba Lyeza, iminente negociador de makoji e amigo comum entre os Kabeçada e os Mutale. Eram, segundo se diz do mesmo munhaci[4]. Seguiram directo à casa onde tinha o filho retido, apanhado em flagrante delícia com Amélia Kexi-ko-Nvunda, a mulher de Januário Kabeçada, exímio lutador em brigas de bairro.

- Boa tarde compadres. - Cumprimentou Sá Mutale aos presentes que aguardavam pela família do autor do makoji. Era preciso demonstrar cordialidade e evitar que o assunto fosse levado à ciota[5] do mwene[6] Kavula Ndunge.

- Boa tarde. O que vos traz aqui a esta hora? Perguntou Kexi Mandumbu, tio do ofendido.

- Como o compadre sabe, criei um cão. Esse cão, agora que está grande, tanto me traz carne de caça como também me traz problemas lá onde passa. Fui informado que o meu cão está retido porque prevaricou na vossa casa. E, como quem tem dono aguarda resgate, eis-nos aqui compadres.

Como manda a praxe, Kexi Mandumbo fez também o seu discurso carregado de sabedoria ancestral e pinturas próprias da idade e experiência que carrega.

Desanuviada a tensão, os anfitriões pedem, à entrada, um garrafão de vinho tinto para iniciar a conversa propriamente dita.

- Compadre bate então no chão. Ou viste de mãos a abanar? - Disse Kexi Mandumbo.

- Sá Mutale sorveu forte o seu cachimbo, pulverizou o ar com o fumo branco da sua baforada, sinal que foi rapidamente percebido pelo sobrinho, Wanyanga, que de repente apareceu com um garrafão de vinho e um galo.

- Fiéééé, féééé! – Soaram assobios dos anfitriões ao que Sá Mutale correspondeu com uma vénia, seguida de uma salva de palmas colectiva.
- Compadres, antes de iniciarmos a conversa, quero ver o meu cão. Quero saber se está conforme saiu de casa ou se sofreu algum castigo degradante.

- Compadre Sá Mutale, o seu cão está inteiro só que não está em condições de sair ao público. É preciso chamar uma tia ou esperar pela chegada da noite porque está despelado.

- Está sem pele? – Lamba Lyeza, até então calado, aproveitou a oportunidade e entrou na conversa. - Compadres, se o cão está despelado é preciso saber quais foram as causas do assunto e como é que se chegou à situação.

Há muito, Amélia e Tambula Mwana mantinham um compadrio de deixar qualquer um desconfiado. Para uns eles eram amantes, para outros simplesmente bons vizinhos, até naquela manhã de domingo quando Tambula Mwana se dirigia a caminho da loja do Sô Bernardo. Ao atravessar o quintal da vizinha, foi surpreendido com um balde de água suja. Julgando ser um acto acidental, o jovem acolheu as desculpas da vizinha e aceitou dirigir-se a casa dela para tirar a camisa molhada e enxugar o corpo com a toalha que lhe fora prontamente oferecida para o efeito.

Acto contínuo, Amélia fechou a porta e arreou o pano que lhe cobria o corpo esbelto e bronzeado a preceito, ameaçando chamar por socorro caso Tambula Mwana se negasse a consumar o acto. Foi no mesmo momento em que apareceu Januário Kabeçada, marido da Amélia, que, apercebendo-se do movimento estranho em sua casa, acorrentou a porta com um cadeado, avisando a mulher de Tambula Mwana que tinha surpreendido o seu marido com a Amélia.

A versão de Tambula Mwana, confirmada aos presentes por Amélia Kexi-ko-Nvunda, serviu de alívio àquilo que seria a grande penalização e castigos ao infractor. Tratando-se de um quase mal entendido, as partes entenderam dispensar levar o assunto ao soba. Porém, o facto de ter sido encontrado em lavra alheia fez com que Tambula Mwana passasse a vergonha de ser censurado publicamente e pagar uma multa em dinheiro e bebidas para os mais velhos da aldeia e ao ofendido, Januário Kabeçada, que continuou com a sua mulher com quem tem já quatro filhos menores.













[1] - Adultério (termo Cokwe)
[2] - Motorizadas (termo umbundu)
[3] - Cachimbo (termo Cokwe)
[4] -linhagem familiar (termo Cokwe)
[5] -Tribunal comunitário presidido pelo rei/soba coadjuvado pelos notáveis da corte. Em cokwe pronuncia-se tchiota.
[6] -Título do dententor do poder tradicional entre os Lunda e os Cokwe.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

A vez e a hora do "Manongo-Nongo, A Festa dos Recém-nascido"

Por: Tazuary Nkeita (*)
Começo por desejar as boas vindas a todos os presentes, agradecendo o vosso gesto, tão estimulante, de acompanhar o autor, Luciano Canhanga, no lançamento e na repercussão da sua segunda obra literária que tem um  título que se aplica a ele próprio.
Digo isso porque Manongo-Nongo não é apenas a festa dos recém-nascidos é também a festa de um recém-admitido no mundo da literatura e de todos aqueles que hoje, aqui, o acompanham. (em vosso nome, peço uma salva de palmas para o nosso Soberano Canhanga)
Apesar do Luciano ser um jovem jornalista com uma experiência profissional de vinte anos, conheci-o há apenas quatro anos por intermédio de amigos comuns, também ligados ao jornalismo e à literatura. Facto curioso, entre ele e eu, é que ambos iniciamos o jornalismo com a mesma idade: 19 anos!; eu em 1975 quando Angola estava a nascer e ele em 1996 quando a independência já era adulta. O mais curioso ainda é que desde que o conheci, ele não deixa  de me surpreender.
Surpreendeu-me a primeira vez quando me pediu para fazer a revisão e escrever o prefácio do seu primeiro livro, «O Sonho de Kauia», em 2010;
Surpreendeu-me novamente quando tomei conhecimento da publicação deste «Manongo-Nongo» -  a Festa dos Recém-nascido -  meses depois de ele ter pedido a minha opinião sobre um outro livro, «O Relógio do Velho Trinta», a obra que já anunciou antes deste lançamento.
E, como se não bastasse, voltou a surpreender-me pela última vez há menos de três dias, quando me convidou para fazer esta apresentação, em cima do joelho e quase na «Vigésima Quinta Hora».
Aceitei este desafio única e simplesmente por causa do espírito de combatividade que lhe é característico, que nos contagia, a todos, e que tenho elogiado desde que o conheci. E sinto um imenso orgulho por ser chamado de «padrinho» de um jovem assim, quando eu próprio, também, me sinto à deriva, procurando padrinhos,  como se fosse um recém-nascido mergulhado neste complexo universo que caracteriza a literatura angolana.
Talvez não seja o melhor dos exemplos, entre os possíveis, mas o sentimento que me anima,  estando ao lado do Luciano Canhanga, neste momento, é precisamente o da obrigação de um profissional, da saúde, chamado a socorrer com urgência o nascimento de uma criança; a sensação de alguém que vai sentir nos braços a respiração de um novo ser; o bater súbito de um coração na ponta dos dedos, mas, descobre, diante dos olhos, uma nova espécie de criação humana – quero dizer, o nascimento de uma obra literária com uma riqueza, um conteúdo e uma vitalidade impressionantes!
Manongo-Nongo merece, por mérito próprio, ser também, por isso mesmo, a  cerimónia festiva da consagração do autor no universo da literatura angolana.
É o mínimo que  posso dizer sobre o efeito que a leitura de  «Manongo-Nongo – a Festa dos recém-nascidos» causou em mim, nas últimas 72 horas que antecederam a esta cerimónia.
O Luciano Canhanga tem agora a oportunidade de alimentar o seu recém-nascido, espalhando repetidamente os ecos e a boa nova desta cerimónia, com a mesma combatividade com que tem enfrentado os obstáculos do seu dia a dia.
O livro que nos chega, hoje, às mãos merece uma repercussão nacional. Seria uma Cegueira imperdoável pensar que o principal  interesse por Angola hão-de ser eternamente as minas de diamantes, os poços de petróleo ou o jogo político. A prova está, aqui, na apresentação destas histórias fantásticas com um retrato magnífico da vida, da cultura e do património de povos de Angola e na mensagem que o autor nos transmite: - A nossa cultura é vasta e o trabalho que nos espera é maior ainda!
É um livro que se aconselha a todos os estudantes e amantes da literatura angolana; um livro que nos oferece histórias, de mais velhos que moldam o carácter dos mais novos, transmitindo conhecimentos e uma hierarquia de valores morais e sociais cujo resgate há muito se anda à procura.
É um livro onde os animais irracionais dão lições de civismo aos seres humanos e cuja repercussão nos faz exclamar «Esta é Angola, esta é a nossa terra; esta é a nossa gente!».
Outra característica é a recolha de mitos populares sobre a vida, a doença, a morte e o feitiço.  O autor reproduz histórias do dia a dia das aldeias que percorreu e termina com a lição moral que elas encerram, transmitindo valores fundamentais e fraquezas do génio humano, tais como a solidariedade, a ingenuidade, a inveja, a ignorância, a ingratidão, o ciúme,  a confiança mútua e triunfo da verdade e da justiça!
Se quisermos ser rigorosos na análise, Manongo-Nongo não é propriamente uma obra infanto-juvenil, mas um livro que os adultos devem ler e interpretar para as crianças.
É, finalmente, um livro que chega na hora certa e no contexto mais certo. Espero por conseguinte  que ajude a aumentar os níveis de confiança de todos aqueles que ainda estão indecisos quanto a qualidade e ao futuro da literatura angolana.
Muito obrigado
Tazuary Nkeita 
(*)Texto da apresentação da obra  «Manongo-Nongo» de Soberano Canhanga
Sede da União dos Escritores Angolanos em Luanda aos 5 de Junho de 2012

quarta-feira, 23 de maio de 2012

NÚCLEO DE AMIGOS DA LEITURA E LITERATURA


MANIFESTO

Prezado(a) Senhor(a),

A Elevação dos níveis de literacia de qualquer sociedade passam, necessariamente pela criação de hábitos de leitura entre as crianças e jovens e ensaio da escrita em todos os domínios ( escrita comum e escrita criativa).
 Atento e preocupado com a gritante perca de hábitos de leitura e, concomitantemente da Pesquisa Científica e Cultural, um grupo de jovens (Professor e estudantes da cadeira de língua portuguesa, da Escola Superior Politécnica da Lunda Sul) lançam o manifesto para a criação do NALL- Núcleo de Amigos da Leitura e Literatura.
 O NULL constitui-se como uma associação, independente, apartidária, sem credo religioso e sem fins lucrativos, cujos objectivos são:
- Promover e incentivar as crianças, adolescentes e jovens na prática da leitura, debate e escrita criativa.
- Proporcionar espaços de leitura e bibliografia para as crianças, adolescentes e jovens e servir de oficina de escrita para futuros homens de letras.
Para a prossecução dos seus objectivos a NALL poderá firmar acordos de parceria e cooperação com Organizações e Instituições culturais afins e bem como buscar patrocínios de Pessoas Singulares e Colectivas que se identifiquem com os seus objectivos.
O Núcleo de Amigos da Leitura e Literatura é de carácter nacional, devendo abrir filiais aí onde o interesse da juventude o justificar.
Para a sua proclamação e/ou constituição de filiais de NALL bastará um mínimo de cinco membros.
O NAAL é dirigido por um coordenador geral coadjuvado por secretários de áreas específicas, nomeados proporcionalmente de acordo com a composição numérica e por genero do seu agregado de membros.
A adesão ao NAAL é voluntária e aberta a todos os cidadão, bastando assinar uma ficha de inscrição para controlo dos seus membros.
Se se revê no Manifesto mAnde um e-mail para ngananguji@gmail.com
CONTAMOS CONSIGO!

O Coordenador da Comissão Instaladora
Soberano Canhanga
(Professor e escritor)

sexta-feira, 20 de abril de 2012

ALFARRABISMO E KISALO DAS LETRAS: UM RESGATE QUE SE TORNA NECESSÁRIO*


Ela é paciente. Está todas as noites, das 18 às 22horas, no pátio da escola do II nível de Saurimo onde a Escola Superior Politécnica da Lunda Sul (unidade orgânica da Universidade Lweji A Nkonde) tem salas emprestadas para estudantes nocturnos. Paciência Sanâmbua sabe que os estudantes universitários têm uma carga de conhecimentos muito diminuta devido à falta de bibliografia, aliada à inexistência de hábitos de leitura. Ela não só vende livros, como também aproveita retirar deles o conhecimento que têm.
Na sua bancada, Paciência expõe livros de escritores e autores angolanos editados pela Mayamba. É única em Saurimo a fazer este negócio. A cidade dispõe apenas de uma livraria situada em local de difícil reconhecimento. Não há divulgação/publicitação da mesma e acções tendentes a elevar os níveis de literacia são desconhecidas. Os alfarrabistas inexistem. Feiras de livros e outras artes também são inexistentes na cidade. Os leitores são poucos. Pouquíssimos. “vendo por dia (noite) entre 3 a 5 livros ou menos do que isso”, diz ela rasgando um sorriso característico de quem gosta do que faz. É como quem corre por gosto (não se cansa) e por isso Paciência não desiste da venda de livros.
Alguns professores, preocupados com as causas do tão fraco nível de conhecimentos dos estudantes, vão apelando à leitura e recomendando livros (gramáticas, dicionários, romances, contos, livros técnicos em função da especialidade, etc.). Uns, que já deram conta do quão atrasados estão, vão aplaudindo aos conselhos e vão adquirindo livros para a elevação do seu nível intelectual. Outros fazem “ouvidos de mercador”, mas é assim a vida. “Nem todos estão atrás do conhecimento”, como desabafou um dos meus estudantes preocupado com os colegas que, mesmo estando na universidade, desconhecem a definição do que é o sujeito de uma oração. “Uns querem apenas obter os certificados para serem chamados de doutores ou para terem os salários elevados”, rematou o insigne estudante.
"É o conhecimento que difere o doutor de fato e o Dr. de facto", tenho dito aos meus amigos, em todas as salas por onde ministro.

E, aqueles que pretendem ter um “canundo” como produto da carga de conhecimentos que possuem ou venham a possuir têm de ir à barraca da Paciência e outras barracas/livrarias (quitandas das letras) para enriquecerem as luzes/pistas que os professores dão sobre o saber científico. Fora disso, não há outro caminho.



          * Kisalo: o mesmo que kitanda em kimbundu (mercado em português)
O autor é docente de língua portuguesa na ESPLS-ULAN

sexta-feira, 9 de março de 2012

VEI AÍ MANONGO-NONGO

ANGOP:07-03-2012 10:36
LiteraturaLuciano Canhanga anuncia lançamento do seu segundo livro
Luanda - O jornalista e escritor Luciano António Canhanga anunciou hoje, quarta-feira em Luanda, ter previsão de lançar no II semestre do corrente ano o seu segundo livro intitulado "Manongo-Nongo".
Segundo o autor, em declarações à Angop, Manongo-Nongo é para os tchokwé (povos de Leste de Angola) uma cerimónia festiva que se dá de forma espontânea quando nasce uma nova criança na família.
Manongo-nongo é, por isso, a festa do recém-nascido. É a festa da criança que engrandece o agregado social.
Fez saber que decidiu intitular o seu livro de "Manongo-Nongo" por ser uma oferta às crianças de toda Angola que devem crescer com inteligência encontrada nos livros que lêm e na sabedoria e experiências transmitidas pelos mais velhos.
"Este livro contém estórias do nosso povo, contadas e recontadas de geração em geração, e outras que foram criadas e recriadas por mim", referiu.
O livro terá aproximadamente 70 páginas, devendo ser impresso no modelo A5 com textos (estórias) ilustrados e será lançado inicialmente em Luanda e posteriormente na província do Kwanza Sul.
Luciano Canhanga nasceu no Libolo (Kwanza Sul) em 1976. Jornalista desde 1996 é formado em Comunicação Social, trabalhou na LAC e colaborou em diversas rádios e jornais nacionais e estrangeiros.
Como escritor publicou "O Sonho de Kaúia" (romance-2010). Tem outros títulos por publicar, com destaque para "10 Encantos'' (poemas) e "O Relógio do Velho Trinta" (romance).
Trabalha desde 2006 em assessoria de imprensa na Sociedade Mineira de Catoca Lda.

domingo, 4 de março de 2012

A MÃE DO MEU AMIGO

(Este texto é parte do livro "O Coleccionador de Pirilampos")
Eram amigos desde o tempo da Mukaanda[1] quando ainda lhes faltava dentes na boca por completar. Desde os seus dez a doze anos que mais pareciam irmãos do que amigos. Frequentavam os mesmos bailes, a mesma escola, namoraram miúdas de mesmas ruas até que conseguiram emprego de estivador numa roça de café, em Kunda-dya-Base.
Mukwateno, mais excêntrico, e também grande apreciador de kangonha[2] parecia mais velho de Mutambuleno, um kapuqueiro[3] de dotes afinados.
Na manhã daquela terça-feira, depois de um fim-de-semana prolongado, os dois cavalheiros decidiram permanecer em casa, mesmo com a dureza da lei que estipulava faltas duplas para ausências em dias imediatos aos feriados e fins-de-semana.
- Hoje não vou bumbar. – Ligou Mutambuleno ao irmão Mukwateno.
- O que é isso, mano? Não sabes da nova lei?
- Qual lei?
- Aquela “de dois para um”. Já te esqueceste que hoje se faltarmos mamamos logo duas?
- Ah sim… mas… Há sempre uma forma.- Afirmou Mutambuleno.
Não tardou, o autocarro da recolha passou pela rua de Mukwateno e depois na de Mutambuleno, o permanente insatisfeito, que ao longo do percurso de trinta quilómetros, da vila de Kunda à roça, ia maquinando planos para a evasão ao trabalho.
- Mano, já imaginaste se fossemos pedir ao boss uma dispensa?
- Como assim? Que diríamos? – Questionou em réplica, já meio admirado, Mukwateno.
- Espera só. Quando chegarmos vou fazer duas cartas e tu me acompanhas. Bastará aceitares o que eu disser ao chefe Kaprakata.
A empresa trabalhava como de hábito. Pessoas correndo de um sítio para o outro. Uns cuidando da estufa, outros dos animais e outros ainda do plantio. Apenas o armazém estava em “hibernação”. Parecia uma área morta embora estivessem aí dois homens de complexidade física de meter inveja. Numa mesa de madeira, Mutambuleno redigia pesadamente uma carta. A lentidão no soletrar evidenciava, para os que lá passavam, quão sofrível era a sua redacção. Mukwateno, por sua vez, acondicionava uma carroça de cebola que devia seguir para Bula-a-Tumba.
Sem ainda tempo para a revista habitual em todas as secções e frentes de trabalho, o encarregado-geral, Kaprakata, desdobrava-se em recepções de clientes e fornecedores, todos desejosos de ter as contas acertadas. Foi naquele mesmo instante que irromperam, sala adentro, os dois cavalheiros.
- Chefe Kaprakata, bom… bom dia. – Saudaram aos soluços Mukwateno e Mutambuleno.
- Bom dia, colegas… que se passa?
- É nossa mãe, chefe, - Respondeu Mutambuleno.
- Que se passa com vossa mãe?
- Está doente chefe. Hoje mesmo ninguém conseguiu dormir. - Mukwateno sacou de um lenço de papel para enxugar as lágrimas que corriam como rio.
- Chefe! Por isso viemos aqui para falar consigo, chefe.
- E em que posso ajudar? Já a levaram ao centro médico?
- Não chefe. Ontem, assim mesmo que estamos a falar, a velha já estava no Kimbanda, mas o dinheiro que pediu não temos. -Responderam num coro desafinado que levantava suspeições.
- Ok. Então querem adiantamento…
- Sim chefe é isso mesmo. Nê, mano? - Interrogou Mutambuleno, buscando a confirmação do companheiro.
- Sim. Sim, mano. - Respondeu, abanando a cabeça de baixo para cima.
O chefe fixou o olhar aos dois e de seguida sentenciou:
- Ok. Ok… Vamos por partes. Mas quanto é que vocês querem?
- Dois salários para cada um, chefe. É que, como ganhamos pouco, queremos já juntar os dois adiantamentos para completar a conta do “mestre” que está a tratar a nossa mãe.
- Mas posso falar com vocês, um de cada vez? - Perguntou o encarregado.
- Sim chefe, “num tem prubulema”. Ou tem? - Perguntou novamente Mukwateno ao companheiro.
- Não, chefe num tem. - Confirmou Mutambuleno.
Lá fora, tudo parecia o mesmo, como nos outros dias, excepto aquela intromissão dos dois M na sala do patrão como era conhecida a sala administrativa.
Os cabritinhos medindo forças, as galinhas cacarejando, o cachorro atrás das borboletas e o sol ainda preguiçoso, desejoso de atingir o meio-dia. Na tonga[4] era momento apropriado para a rega. Kaprakata chamou pelo primeiro: entra o Mukwateno.
- Então, mostra lá a tua carta. Como se chama a mãe que está doente.
- É mãe Isaura, chefe.
- Mas somente Isaura? Não tem sobrenome?
- Outro nome, chefe?
- Sim. Sobrenome... Note bem… Eu sou Adolfo Kaprakata. Calculo que ela seja Isaura fulano, por exemplo…
- Ah, chefe! (a coçar a nuca) “Se chama” Isaura Muzuleno.
- Ok. Pode sair e diz para teu irmão entrar imediatamente.
- E tu Mutambuleno, qual é mesmo o significado do teu nome?
- Lhe recebem, chefe!
- Ah! Recebem-no. E você quer receber dois salários adiantados…
- Sim. É isso mesmo chefe.
- Ok. Vamos a isso. Como se chama a sua mãe?
- Chefe é aquele nome mesmo que o meu irmão disse.
- Sim, mas eu quero confirmar… Diz lá para eu assinar já os vossos documentos.
(A coçar a cabeça) - Chefe! é mãe Magui.
- Mas é só mesmo Magui? Não tem outro nome?
- Chefe! Vou falar já minha verdade. Eu não sei bem o nome dela.
- Oh, mas como assim? Ela é ou não é sua mãe?
- Chefe! Vou mesmo já falar minha verdade: é mãe do meu amigo!


[1] - Circuncisão (termo Cokwe).
[2] - Marijuana (termo Kimbundu).
[3] - Utilizador de kaporroto; bebida destilada usando processos tradicionais (termo Kimbundu).
[4] - Roça (termo Kimbundu).

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

O IRMAO DA IGREJA

(Este texto é parte do livro "O Coleccionador de Pirilampos)

É manhã de segunda-feira. A cidade conhece um transito muito agitado devido aos que se dirigem ao serviço. Apanhar táxi está complicado. Pior ainda porque os machimbombos[1] estão difíceis por causa da chuva que fez das estradas lagoas para criar peixe, embora sejam as rãs que enchem as noites com o seu incómodo coaxar. Entre os que madrugam está Kafuringa. O homem está decidido em cruzar com o chefe no corredor principal. Conhece a hora da entrada dele. Oito e um quarto. Foi exactamente neste momento em que Kafuringa apareceu diante do chefe com os olhos todos avermelhados.

- Chefe Katimba, bom dia. - Disse Kafuringa aos soluços.

O homem tinha planeado tudo ao pormenor. Um pouco de cebola para provocar as lágrimas, um dente de alho para abafar o hálito do kimbombo[2] da noite anterior e intrujices mal pensados.

- Bom dia Kafu. – Respondeu-lhe o chefe. – O que se passa?

- Chefe é o meu irmão.

- O que se passou com o teu irmão?

- Morreu mesmo esta manhã!

- Ai que pena! De que padecia?

- Não chefe, não padecia. Morreu só mesmo.

- Ok. Ok… - Katimba teve de desviar o olhar e esconder o sorriso que de repente lhe invadiu a alma. - Os meus pêsames. – Prosseguiu comovido.

- E já trazes o documento dele?! – Indagou o chefe, olhando para o subordinado nada sério nas suas afirmações.

- Sim chefe. Ganhei já tempo para não ter de voltar mais a casa buscar.

- Deixa-me então ver. Pode ser?

- Sim chefe. Trouxe já para ver se o chefe me ajuda com uns produtos e a dispensa para o óbito…

- Ok, meu caro Kafu. (Olhando para os dados) - Mas os vossos apelidos não coincidem… Eram irmãos de pai ou de mãe? - Voltou a questionar o chefe, com o rosto já carregado de impaciência.

À medida que Kafuringa ia perdendo argumentos mais inconsistentes se tornavam as suas respostas. Kafu era naquele momento uma criança descalça correndo sob um chão molhado e escorregadio. Estava iminente a sua queda aparatosa.

- Não chefe, ele não é meu irmão de mãe nem de pai. - Respondeu Kafu.

- Hum! Como assim Kafu? Então era teu primo…

- Não chefe. É meu irmão da igreja!



[1] - Autocarros.
[2] - Bebida fermentada feita a base de arroz, fermento e açúcar (termo Kimbundu).

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

O PEIXE COR-DE-ROSA

Era uma vez, num lugar bem fundo, no mar do Amboim …

Vivia um peixe muito belo e inteligente de nome Rosa. A Rosa, que tinha as barbatanas cor-de-rosas, era tão esbelta que provocava a inveja a todos os demais elementos do seu cardume, principalmente as fêmeas. Entre elas, as fêmeas, ouvia-se sempre um murmúrio mas que nunca se pronunciava de forma aberta e directa.

- Quem ela pensa que é? Uma espécie rara? - Diziam as invejosas.

Rosa, com a sua beleza ímpar, e sempre perfumada com as melhores fragrâncias que retirava das algas marinhas, desfilava pelas águas profundas do mar de Amboim. A sua inteligência permitia dar sempre conta da inveja das companheiras e das “rasteiras” que preparavam para a prejudicar, bem como das iscas e das redes lançadas pelos homens para a pescar. É que a sua fama chegava até água acima, aos homens que procuravam por peixes raros e de cores diversificadas.

- Pôças, essa gata é uma brasa! – Diziam os peixes machos, todos eles galanteadores, deixando as companheiras de Rosa totalmente possuídas de ciúmes.

Com tantos elogios, inteligência e galanteios, Rosa ganhou uma inimiga declarada e determinada em eliminá-la do cardume. Era a Cinzenta. Tão feia e tão desarranjada que não havia ser vivente no mar que se parecesse a ela. A Feiosa, como era conhecida no grupo, chegava a inventar mentiras contra a Rosa.

Certo dia, havia sol aberto na terra e os pescadores resolveram ir à pesca. Era um dia perfeito para muita faina. Os homens, munidos de canoas, redes e anzóis, remaram para o mais distante possível da costa, a fim de encontrar os cardumes que no fundo do mar festejavam a clareza da água.

Num sítio em que a ausência de ondas denunciava a presença de muitos peixes, os homens lançaram as suas redes ao mar, sem se darem conta de um buraco na rede principal, aquela que tinha um tamanho menor do que o corpo de Rosa e única que a podia capturar.

Mais uma vez, a Cinzenta vendo que os machos estavam todos à volta de Rosa ficou coberta de inveja e retirou-se do sítio em que estavam, para mais fofoquinhas com as suas amigas que combinavam junto a um monte de pedras e conchas mais uma armadilha para prejudicar a Rosa. Foi no mesmo instante que os pescadores lançaram a rede ao mar apanhando-a de surpresa.

- Socorro, socoooorrrrooooooooooooo! - Gritava a Cinzenta aflita, sem poder se libertar da linha que lhe apertava as guelras.

- Oh, que azar! - Exclamaram os peixes ao lado, sem nada poderem fazer.

- Quem a vai ajudar? - Perguntavam-se uns aos outros, sem que alguém desse o primeiro passo.

Foi aí que Rosa, mesmo sabendo que corria o risco de também ficar presa entre a rede dos pescadores, desfez-se dos companheiros e lançou-se à empreitada de salvação da Cinzenta que apenas mexia a cauda, já sem forças para se libertar nem para gritar.

Rosa, a inteligente, reparou que a rede tinha dois buracos. Entrou com jeito por um deles e pediu a Cinzenta que deixasse de respirar e puxasse o corpo para traz. Feito isso, pediu à invejosa Cinzenta que a seguisse sem se desviar da rota e ambas conseguiram sair pelo outro buraco que havia na rede.

Salva e muito feliz, Cinzenta deu um beijo à Rosa como forma de agradecimento.

- És muito melhor do que eu pensava. – Disse Cinzenta. – Desculpa-me por tudo que te fiz de mau. Aceitas?

- Desculpas aceites, amiga. - Respondeu Rosa sorridente.

Posto isso, as duas partiram abraçadas para um passeio bem mais seguro, entre rochas onde nunca seriam apanhadas por uma rede lançada por pescadores.

Texto de Judith Pinto Carlos com adaptações de Soberano Canahnaga

domingo, 4 de dezembro de 2011

O MORCEGO DE MAYOMBE

(X conto)


Na floresta de Mayombe, Tati era um morcego feliz. Vivia com sua família e tinha tudo. Frutas abundantes, insectos com muitos nutrientes e uma família que cooperava na segurança e conforto. O ninho em que viviam era de plumas recolhidas junto a um aviário. Tati vivia em festa permanente, pois nunca lhe faltava nada.

O andar do tempo e a destruição do seu habitat trouxe, entretanto, alterações na sua vida.

Primeiro apareceram os madeireiros e derrubaram a árvore em que estava o seu ninho. Foi um dia muito triste, pois chovia muito em Mayombe e a família de Tati teve que dormir ao relento.

Quando a chuva terminou, ainda tentaram construir um outro abrigo, mas as plumas que aqueciam os abrigos ninhos tempo de chuvas ácidas estavam cada vez mais difíceis.

Depois surgiram as pestes, devido à poluição que se fazia sentir na região. As fábricas mandavam muito fumo para a atmosfera, as britadeiras faziam muita poeira e os esgotos das residências estavam todos apontados para os rios. Todos começaram a sofrer: os homens, os animais e até as plantas. Ninguém tinha um ar puro nem água potável.

Tati, o morcego de Mayombe que já era órfão de pai, perdeu a mãe e, depois, os seus cinco irmãos.

O sofrimento instalou-se e Tati começou a passar fome e falta de companhia.

Primeiro, juntou-se a um grupo de ratos que procuravam por comida debaixo duma árvore. Tati apresentou-se e contou toda a sua história: da perda da família, da destruição do ecossistema que grassava pelo Mayombe e da solidão da sua vida. Um dos ratos, Madyeco, que era por sinal o mais pequeno e muito instruído, ainda chegou a dar um abraço a Tati, mas os mais velhos, vendados pela ignorância, retiraram-se e negaram toda a aproximação com Tati.

- Oh Madyeco, estás burro ou quê? Já alguma vez viste um rato com asas? Isso é obra de Satanás. Anda dali, pá! - Ordenou o mais velho do grupo de nome Ntengo.

Madyeco teve de seguir o grupo e Tati continuou sozinho.

Veio a noite e depois a manhã. Um bando de passarinhos festejava na copa da árvore a chegada do rei sol. Tati acordou e depois da higiene matinal decidiu juntar-se a eles. Os morcegos geralmente são noctívagos e não se apresentam durante o dia, mas Tati fez coragem e lá foi ter com os passarinhos. Mal se apresentou, já dois deles zombavam da sua presença.

- Hi-hi-hi… - ria perdidamente Kadyembe, um passarinho conhecido na floresta pela sua loucura. - Vocês já viram, alguma vez, um parente nosso com pelos? - Perguntou outro, retirando-se posteriormente em voo rasante sobre as árvores mais baixas.

- Tati sentiu-se tão mal com o comportamento daqueles jovens ignorantes que nada entendiam de convivência pacífica entre as espécies. Abordou o passarinho que parecia ser o mais velho do grupo para explicar que apenas queria conversar, já que estava sem os seus parentes, mas Ntyete, o chefe daquele bando, também o desprezou.

- Sai daqui seu dentuço. Não há, por esta floresta, pássaro nenhum que tenha dentes. - Alertou ao seu grupo que se retirou de imediato.

Com a segunda desfeita, Tati não teve outra saída que não fosse o seu recolhimento ao ninho.

Com o desgosto da desfeita, Tati deixou de comer em condições e a vida para ele parecia não ter mais sentido.

Um belo dia, quando tudo parecia perdido, apareceram perto da árvore que suportava o seu pequeno ninho uns homens com roupas que se pareciam a folhas de árvores. Os homens de verde inventariavam os estragos que a desflorestação tinha causado à flora e à fauna do Mayombe. Notaram que muitas árvores tinham sido cortadas e os animais, sobretudo os morcegos que à noite embelezavam a floresta com seus voos, tinham desaparecido.

- Vamos preservar a nossa herança colectiva. - Disse um deles.

- Sim. Vamos recolher tudo o que for exemplar único para que possa viver e reproduzir-se. Temos de fazer com que os nossos filhos vejam árvores, pássaros e outros animais como nós víamos quando éramos pequenos. – Responderam os demais integrantes do grupo que carregavam uma enorme gaiola onde colocavam todos os passarinhos que encontravam solitários .

Tati apercebeu-se então que podia ser salvo da morte anunciada. Fez a última força que lhe permitia o seu corpo e saiu do ninho.

Os homens recolhiam também para um zoológico os animais e as plantas que estavam em vias de extinção para os preservar.

Os ambientalistas levaram-no ao jardim zoológico de Simulambuco onde Tati vive até hoje muito feliz, com outros animais e aves de várias espécies recolhidos do Mayombe.



segunda-feira, 7 de novembro de 2011

O CÃO RAFEIRO DA RUA DA LIBERDADE

Na cidade de Ondjiva, Twayovoka era o cão mais rafeiro da rua da Liberdade. Lutava por tudo e nada e tinha as orelhas todas estraçalhadas devido às arranhaduras e mordeduras que já sofreu. De longe, as marcas das feridas e os buracos nas orelhas pareciam argolas.

Twendi ko Vaso, o seu amo, até já quis se desfazer dele mas a dona Nsingi, uma senhora do Zaire que gostava de cães, impediu que Twayovoka fosse morto e prometeu ficar com ele caso Twendi ko Vaso insistisse em matá-lo.

O surgimento de uma cadela em período de cio era motivo para Twayovoka se envolver em brigas com outros canídeos que se fizessem à rua. As suas lutas demoravam horas ou mesmo o dia todo e Twayovoka, o cão mais rafeiro, como também era conhecido, só deixada de brigar quando chegasse o seu amo ou a dona Nsingi. E não era fácil separá-lo dos outros cães da cidade. Era preciso dar-lhe um pedaço de frango ou um osso qualquer. A briga só terminava ao fugir dos outros, para que não cobiçassem o seu lanche.

Certa vez, numa das suas brigas, Twayovoka enfrentou um cão polícia que não lhe deu tréguas. A sua fama de melhor lutador tinha terminado, pois o cão polícia, que era enorme, enrolou Twayovoka como se fosse uma bola e o arrastou por muitos metros. Até as cadelas que preferiam o aguerrido Twayovoka tinham deixado de gostar dele. Não se sabe ainda se foi por causas das suas frequentes brigas ou se foi por causa daquela surra que apanhou do cão polícia.

Mas a grande cena do Twayovoka foi mesmo quando a vizinha Nsingi lhe ofereceu um grande osso de vaca.

Twendi ko Vaso, o seu amo, estava ausente em gozo de férias na Lunda Norte e Twayovoka, que era odiado pela vizinhança, passava fome.

Zelosa, como sempre, a dona Nsingi, que também era assistente de veterinário , decidiu dar-lhe uma segunda oportunidade. Deu-lhe um osso, ainda com alguma carne, e o cão, com o osso na boca, meteu-se em correrias para o outro lado do rio Kunene.

Foi então que ao atravessar a ponte, viu a sua imagem reflectida na água. Ambicioso como era, Twayovoka pensou que fosse um outro cão que o perseguia para lhe receber o osso.

Para afastar aquele que pensava ser o seu inimigo, o cão guloso ladrou e o osso escapou-lhe da boca, caindo na água.

Faminto e aflito, o cão jogou-se rio abaixo, mas a corrente era tão grande que Twayovoka foi arrastado até a uma grande queda onde havia jacarés.

Sem como escapar daqueles famintos répteis, Twayovoka serviu de almoço dos jacarés que tiveram um dia de muita festa.

Com a morte de Twayovoka, as lutas entre cães vadios diminuíram na cidade de Ondjiva e os meninos que frequentavam a escola deixaram de ser atacados por cães raivosos que eram muitos no tempo de Twayovoka.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

A GALINHA SOLTEIRA E O GALO QUE NUNCA SE VIU AO ESPELHO

Kaxinda era uma galinha solitária. Kolombolo, o galo que sempre lhe foi fiel companheiro, foi abatido para alimentar uma festa de fim do curso do Sr. Kalipande, o dono da casa em que Kaxinda vivia. Os seus lindos filhos, Kimone, Sanuka e Ngwami Maka, também foram abatidos em outras festas que se passaram na mansão do tio Kalipande e sua mulher, dona Nzala ya Ifo.

Um dia, ao ver que o portão da casa estava aberto, Kaxinda decidiu espreitar a vida fora do quintal e verificou que havia muitos galos, galinhas, frangos e pintainhos que se deleitavam com a vida fora daquele muro alto e gradeado. Kimone bateu as asas, deu um pulo e saiu.

Na rua, foi recebida com cantos e cacarejos, embora criasse ciúmes a certos galos que se gladiavam por causa da sua beleza ímpar.

Wafwa Meso, foi o príncipe encantado que Kimone escolheu. Ele era tão grande e tão calvo que tinha a cabeça em forma de meia-lua e a crista cheia de crostas e cicatrizes . Wafwa Meso vencia todas as lutas e tinha, por isso a simpatia de todas as galinhas daquela rua.

Depois de muito esgravatar a terra e conviver com os seus semelhantes, Kimone decidiu voltar à casa. Eram já treze horas, altura em que os meninos da primária voltavam da escola e o portão se voltava a abrir. Wafwa Meso, o namorado encantado, foi acompanhá-la e também entrou na mansão, sendo bem recebido pelo cão Mukwateno que cabriolava na relva e pelo pequeno Mwana Mwata, o kaçula da casa.

Enquanto Kaxinda passeava pelo quintal, como quem mostra a casa ao visitante, Wafwa Meso, que também enxergava mal, não se cansava de olhar para os vidros das portas e das janelas que reflectiam a sua imagem. Dentro de si terá pensado que havia à sua frente um outro galo e que cobiçava a sua nova namorada.

Wafwa Meso ensaiou posições de ataque e atirou-se várias vezes contra a porta fechada.

Aflita com a pequenice daquele galo grande, Kaxinda cacarejava cada vez mais forte, em jeito de correcção. Mas Wafwa Meso estava cego de tudo e não conseguia entender a razão do chamamento. Continuou a lutar contra a sua própria imagem reflectida no espelho.

O galo tanto lutou que acabou desmaiado na relva onde o aguardava o cachorro Mukwateno que o atacou pela garganta até não poder respirar. O rapaz Mwana Mwata ainda tentou acudi-lo, mas já era tarde. O galo morreu asfixiado e foi entregue aos seus donos que confeccionaram uma apetitosa cabidela.

Kaxinda continuou solteira e nunca mais decidiu levar à casa um galo que não tivesse vidros reflectores em sua casa, para não voltar a passar tamanha vergonha.