quinta-feira, 1 de novembro de 2012

O PAGADOR DE JUROS

Este texto é parte do livro "O Colecionador de Pirilampos"
- Júlio, em nome de quem jurarias, se tal te fosse exigido para celebrares um contrato que muita falta te faz? - A conversa entre Júlio Katerça e Joana Tako Dimoxi começou assim.
Joana sabia da intenção do amigo em cravar-lhe um kilapi[1], mas desta vez, estava determinada em não dar sem ganho. Aliás, dizia ela às amigas que “dinheiro não investido não se reproduz” e queria aplicar o que aprendeu no curso de empreendedorismo que frequentou numa das suas idas à estranja[2].
Apesar de mulher solteira e mãe de Kamoxi e Kayadi, ambos com pais desconhecidos dos parentes e vizinhança, Joana tinha a sua vida remendada. Começou com o “compra no armazém, vende na barraca” que depois transformou em boutique e agora já vai à Ásia, Europa e América em busca de negócios que lhe rendem bons trocos que dão até para pôr Kamoxi num colégio com aulas de música e natação. Vive a arrotar bacalhau, apesar de viver no Tunga Ngó.
Júlio Katerça é outra coisa. É um jovem qualquer do bairro, sempre pronto a qualquer biscate e sempre dado a contrair empréstimos, mesmo sem garantia. Muitas vezes, e já depois de muita porrada dos cobradores mais impacientes, Júlio acaba pagando com trabalho que varia entre acarretar água, fazer puxadas de luz, cavar fossas e tanques para água, entre outros serviços domésticos. Até chão já limpou em casa de Maria Paulina Kanivete, mulher catetense que tem pulungunza[2] de homem.
Naquela tarde de sexta-feira, Katerça tinha uma festa de contribuição. Daquelas em que os jovens combinam aparecer com um artigo: uma caixa de cerveja, uma caixa de frango, uma garrafa de wisky, uma caixa de gasosas, etc. As festas de contribuição são as melhores que há em Albaláxia e outros bairros de Atukaye, a capital da República de Atujimbi.
- Mas oh Júlio! Você, um sem calções nem peúgas, vai logo logo se meter com os moços da cidade e ainda por cima participar da festa de contribuição dos filhos dos mwatas? Vais contribuir com quê - Questionou Tako Dimoxi ao amigo.
 - Mboa Joana, deixa só. “Os wi são môs pancos”. Eu é que faço a riqueza daqueles ndegues[2] todos.
- Então se tu é que fazes eles ter dinheiro porque estás aqui a chorar que nem cachorro molhado a procura de lume?
- Deixa, minha mana. Dá só um kilapi e te resolvo no primeiro passe que eu fizer ainda hoje lá no Albaláxia.
Os moradores de Albaláxia, a parte mais alta  da capital do país, eram na sua maioria antigos combatentes contra os invasores Luz e Tanos que por lá chegaram no tempo da distração dos velhos que perdiam tempo a cortar a barba junto ao espelho, enquanto os Luz e Tanos se apossavam das mulheres, das fazendas e de tudo o que Deus dos mambundu[3] lhes tinha dado. Quando abriram os olhos era tarde mas, mesmo assim, fizeram um recúo estratégico para as matas onde permaneceram quarenta e um anos de catana na mão, até conseguirem correr com os invasores no ano de 5791. E foi uma nvunda[3] de fazer crescer barba e cabelo.
À saída dos Luz e Tanos, os antigos combatentes assaltaram o bairro do Albaláxia, os carros e o poder que pegaram com todos os dedos de pegar catana. Criaram uma nova forma diferente de viver e gastar, longe dos seus parentes e coterrâneos, como o pai de Katerça que quando chegou da mata já não encontrou casa desocupada e foi viver na bwala[4], com aqueles que tinham ficado só na clandestinidade.
Os filhos dos novos donos das casas de Albaláxia também se vestem e agem diferentes dos seus contemporâneos que se arrastam nas sanzalas e nos musseques, como a Joana Tako Dimoxi e o próprio Júlio Katerça que só tem amigos na montanha por ser um liambeiro de fama e conhecido passador de passas.
Mesmo pobretão, Katerça gosta de fazer-se passar por um bem-sucedido. Tem um fato que lava todas as quintas e uns sapatos que só calça à sexta-feira quando se dirige às festas do bairro do monte, o Albaláxia. De biscate em biscate e de dívida em dívida faz também a sua vida no submundo da droga que os filhos dos grandes de Albaláxia introduzem impunemente no país.
- Mana Joana, vais então ou não me dar o dinheiro que te pedi?- Voltou a questionar Katerça.
- Tu, Júlio, quando precisas de dinheiro até de mana me tratas, mas quando te peço um favor nem estás ai. – Desabafou Tako Dimoxi, sempre na defensiva.
- Não é nada disso. Às vezes já tenho compromisso, mas hoje é mesmo a sério. Não posso faltar ao boda. Há gente pesada que consome toda a noite e ainda leva para o stock ou para oferecer aos amigos ausentes.
-  Quanto é que queres? Vamos lá ver se dá. Qual é a tua garantia? – Perguntou Joana.
- Hum, vamos lá ver… Quero quinze paus a pagar depois de amanhã, sem falta.
- Depois de amanhã? Com que garantia? Só se pagares com juros.
- Juros? Ok. Eu pago com juros. - Respondeu Katerça a esfregar as mãos e esticando depois o braço.
Joana, no seu canto, mão no queixo, pensando nas voltas que daria para resgatar o valor, caso fosse adiante com o empréstimo ao vizinho Katerça.
- Só aceito se receberes os 15 mil Réis e pagares com juro de trinta.- Disse Joana decidida.
- Jurar trinta vezes? Sem makas[5]. Eu juro, eu juro, eu juro, eu juro… Juro mesmo. Eu pago!



[1] - Empréstimo em dinheiro.
[2] - Miúdos (do kimbundu).
[3] - Negros.
[4] - Aldeia; bairro periférico.
[5] - Problemas (do kimbundu).

terça-feira, 2 de outubro de 2012

BRANCA COMO A NEVE


 1-      BRANCA COMO A NEVE
Este conto é parte do livro "As travessuras do Jacinto"

Jacinto era um rapaz de 13 anos, adolescente hábil, que executava que executava as tarefas com rapidez e rigor. Nunca fugia à luta. Dada a sua inteligência, percebia as missões que lhe eram incumbidas e as executava ao pé da letra.

Vivendo com a avó no período de férias escolares, certo dia Nakulu que ia manhã cedo á lavra, ordenou:

- Oh neto!

- Avó! - Respondeu ele, sempre pronto.

- Estou a deixar a mocroeira[1] na tarimba. Se por acaso chover, luta com a chuva! – Retirou-se a velha cambaleante, descendo o monte que separa a aldeia da lavra.

- Ordem dada, ordem acatada, avó. - Respondeu Jacinto.

A velha Nakulu e as amigas foram cantarolando a caminho da naka enquanto Jacinto se preparava para a peleja. O céu estava carregado de nuvens. Umas eram brancas, outras cinzentas e outras ainda escuras parecendo fumo preto. Fazia remoinho no céu. Longe, não muito longe, ouviam-se estrondos que recordavam a guerra do passado. Os trovões que anunciavam a chegada da água pareciam explosões de obuses.
Jacinto começou então a juntar paus e pedras. Teria uma luta renhida com a chuva.

Mal caiu a primeira gota, Jacinto começou a jogar os paus e as pedras que tinha junto de si contra a chuva que gotejava cada vez com maior intensidade.

A última pedra lançada correspondeu à última gota.

- Balas terminadas inimigo vencido! – Disse Jacinto para si mesmo.

Não tardou a chegada da velha Nakulu que ao ver o neto todo exausto perguntou:

- Porquê deste aspecto sujo e sofrido?
- Avó! Lutei com a chuva conforme recomendou ao ir para a lavra.
- E a macroiera?
- Calculo que esteja no lugar. Nem houve tempo para a ver, pois a luta não foi fácil.

Dito isso, a velha meteu-se aos prantos e a reclamar da tristeza que era o seu neto.

O assunto foi motivo de comentários durante semana e meia na aldeia e teve de ser julgado pelo soba dadas as represálias que a velha infringia ao neto por ter deixado a chuva arrastar a sua macroeira.

Lei Para Todos, o soba de Muxaluando[2], convocou todo o povo da aldeia. Chamou os que tinham formação académica e aqueles que não tinham estudado. Buscou estórias do passado em que ordens mal dadas foram também mal acatadas e resultaram em prejuízos para a população. Depois da análise do caso, os notáveis[3] da aldeia deram razão ao menino Jacinto, pois a ordem para a recolha do bombó à chegada da chuva fora mal dada.

 

 



[1] Pedaços de mandioca humedecida e triturada para secagem.
[2] Município da província angolana do Bengo.
[3] Os chefes da aldeia; os responsáveis.

sábado, 1 de setembro de 2012

MANONGONONGO DA MAURA

(Este texto é parte do livro "O Colecionador de Pirilampos")

É sexta-feira. As mulheres camponesas voltam cedo das lavras e as que trabalham na cidade também chegam uma hora mais cedo do que o habitual. Os homens, barulhentos como são à sexta-feira, estão todos reunidos. Uns nos jangos[1] comunitários que abundam na região e outros nos seus quintais, metendo conversa em dia.

A cantina do Dialó, um senegalês que aqui aportou em busca de negócios, regista um entra e sai sem precedentes. O estrangeiro, alheio à cultura deste povo, apenas bate palmas de contente devido à enchente que regista o seu estabelecimento, ignorando o que estará por atrás de tamanha procura de sumos, gasosas[2] e frangos congelados.

Mais movimentada ainda está a loja do Satxambe onde o tilintar das garrafas que saem carregadas faz adivinhar a ocorrência de uma festa em local não muito distante.

Maria, a filha do Sô Joaquim, da mota de três rodas, deu à luz uma menina. Pariu com apenas sete meses de gestação mas a bebé está saudável e dispensou a incubadora. É por isso que todos da família estão contentes e em festa.

Na rua da trás, a dona Isabel, parteira, mulher do Zé Toy que é kamanguista[3] de muita fama e dinheiro, também deu à luz gémeos. Um rapaz, gordinho como leitão, e uma menina com corpo de miss. Até já foi apelidada de miss Maura.

Zé Toy que se tornou pai pela primeira vez não consegue conter a alegria e quase fechou a rua para dar uma festa aberta a todos os vizinhos e outros transeuntes. A polícia teve mesmo de intervir para amainar os ânimos e acautelar excessos. Uma notificação foi-lhe passada para pagar a transgressão administrativa no comissariado, mas o Kamanguista, apesar de ter acatado, não está preocupado com a multa e a sua festa continua no quintal e no passeio da rua. É que todos os colegas e amigos dele e da mulher apareceram com os seus carros e caixas térmicas repletas de bebidas diversas, carne e peixe já temperados e outras iguarias. A festa tornou-se mesmo popular e as mulheres do bairro vão chegando para saudar os novos na phasa[4] e sa phasa da rua Verde[5].

Na rua Amarela, onde vive Maria e o seu pai Sô Joaquim, como lhe chamam os mais novos do bairro, também há festa rija. Kasovita[6] é motivo de alegria que contagia a vizinhança e vão chegando de hora em hora brindes para a kivadi[7]. Maria e o seu marido Kexijina, apesar de muito novos, já vão no quarto manongonongo[8] que acaba sempre por juntar as duas famílias e todos os amigos comuns.

Na Lunda é assim. A festa espontânea do recém-nascido só termina quando secar a última gota de álcool, quando soar o último ngoma[9] e quando cantar o último galo. É até se fartar a madrugada!

- Xé mano, paga manongonongo, não fica só kamwelo[10]! – Dizem as mulheres à passagem de um transeunte bem vestido.

E a festa que adivinhava o seu epílogo retoma com as moedas doadas pelo forasteiro que deixa as últimas reservas da sua algibeira para se juntar à festa tradicional. É manongonongo!





















[1] - Alpendre onde se reúnem os notáveis da aldeia para discutir e resolver os problemas da comunidade (termo Bantu).
[2] - Refrigerantes.
[3] - Traficante ou explorador artesanal de diamantes (termo Cokwe)
[4] - Mãe de gémeos (termo Cokwe)
[5] - Pai de gémeos (termo Cokwe)
[6] - Menina que nasce depois de rapazes seguidos (termo Umbundu)
[7] - Parturiente (termo Kimbundu).
[8] -Festa espontânea que se dá ao nascer de um bebé (termo Cokwe).
[9] -Batuque; tambor.
[10] - Pouco dado à partilha, soberbo (do kimbundu).

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

A COBRA DO HOSPITAL

Este texto é parte do livro "O Coleccionador de Pirilampos"
Naquela sexta-feira de Maio de 1790 a aldeia de Wanga Kalunga tinha despertado com um grande alvoroço. O sino das más notícias tinha tocado à madrugada, sinónimo de alguma praga à volta ou despedida de um dos notáveis da aldeia ou do reino de Tata Ngunji.
E, como as más notícias correm o mundo, até os reinos vizinhos do Além-Monte estavam de olhos em Tata Ngunji e, particularmente, no seu Estado Livre de Wanga Kalunga que tem os aldeões estacionados à volta da grande mulemba[1] das reuniões.

O sol, ainda sem força, marcava envergonhado os primeiros passos. Apressados para o Jango das boas e más notícias estavam todos os aldeões: mulheres grávidas e outras por engravidar, homens válidos e inválidos (também chamados de homens sem sombra), crianças sãs e doentias, velhos trôpegos e moribundos, todos. Nus e vestidos às pressas. Ninguém queria que “o céu lhe desabasse a casa” ou ouvir de bocas terceiras as más novas que tinham acontecido ou que estavam por acontecer. Tamanha era a preocupação motivada por aquele madrugador sino dos maus agoiros.
- Nessa aldeia, onde quem conta um conto lhe acrescente dois pontos e quem reconta lhe acrescente cinco, não é bom ficar em casa e esperar que te contem. – Disse Ngan´Oxiki, noventa anos às costas.

O idoso, que com coragem e últimas forças puxou do casaco e bengala, era o conselheiro geral da aldeia e do Soba Xisa Wanga e gozava, por isso, do benefício de receber em sua libata[2], para consulta ou prestação de informação sobre as últimas ocorrências na aldeia, no reino e até mesmo nos Estados vizinhos. Mas Ngan´Oxiki  foi também.

Para os demais aldeões de Wanga Kalunga a ausência em reuniões colectivas era punida com admoestações simples, trabalhos sociais na aldeia e ou na lavra comunitária.
Mais o sol caminhava para o centro, mas subia a apreensão do povo. Pior ainda porque apesar de todos estarem no local das reuniões não se fazia presente o soba Xisa Wanga.

- Mas, porquê que o ngana soba ainda não está aqui? - Questionavam-se os mais críticos da aldeia, numa altura em que a impaciência dos mais idosos acelerava as cachimbadas e o avolumar do fumo que pulverizava o ambiente.

Lá dentro, na Zemba[3] do Soba, Kabezo e Kixindo, mulher e filho do soberano, tudo faziam para reanimar o soba que estava moribundo e poderem apresentá-lo aos seus súbditos, como era de costume secular. O soba não pode viajar, nem que seja para a morte, sem despedir-se do seu povo e a excepção à regra não era de admitir.
Xisa Wanga, com uma temperatura de assar kabwenha[4], tremia de fio que nem galinha no frigorífico. Na tarde anterior, quando revistava as suas armadilhas à volta da lavra, sentiu um ligeiro pico no calcanhar direito. Corajoso como é, o soba não deu muita importância. Tomou o seu banho vespertino e segui para casa sem sequer olhar para o local afectado. Julgou que se tratasse de um pico qualquer, daqueles normais que se sentem quando se anda mal calçado pela mata. Porém, o frio que lhe congela o sangue e lhe assa a carne ainda viva, faz da família desconfiar de outra coisa. Uma mordedura perigosa, um envenenamento, se calhar…

- Meu povo! Por favor arranjem transporte porque o velho está mal. - Irrompeu da libata o jovem Kixindo, num tom trémulo e dirigindo-se ao grosso da população que aguardava ansiosa pelo soba e pelas más notícias.

- Chamem o Kimbanda, chamem o Enfermeiro e chamem também o catequista. Cada um vai fazer o que sabe e o que pode. – Emendou o ancião Ngan´Oxiki, sábio como ninguém naquelas paragens.
De imediato, o comerciante compareceu com a carrinha. O kimbanda com as suas mahambas[5] e raízes medicinais; o enfermeiro com os seus utensílios: medidor de pressão arterial, estetoscópio, mala de primeiros socorros, entre outras ferramentas; o catequista com a sua bíblia, kamba-dya-mwenho[6], terço e miniatura de santos. Cada um apelava à eficiência da sua ciência, dos seus santos e arcanjos para poder salvar o soba que gozava de grande aceitação do povo, devido à sua abertura ao diálogo e negociação e solução comparticipada dos problemas do povo.

- Avó Grande, assim era tratado o velho Ngan´Oxiqui, já temos a carrinha do Sô Marques com um colchão de espuma e um lençol novo. – Disse Pascoal Kaquarta, um jovem estimado pelo seu dinamismo e perfeccionismo.
- Vamos levar o papá soba ao hospital da Vila de Tala Boxi. É perto. São apenas vinte quilómetros. - Disse o motorista Sabalo Kaphonde que, sem mais demora, partiu a caminho da Vila, transpondo a serra que servia de cortina visual com outros povos do Além-Montes.

Durante a viagem, a carrinha ocupada pelo doente, enfermeiro, kimbanda[7] e o catequista era um mundo à parte. Um mundo novo que permitiu coabitar, pela primeira vez, três ritos antes incompatíveis. O kimbanda, Kidady Wenji, com os seus amuletos evocava a memória dos antepassados para que dessem mais tempo de vida ao Soba. Mukwa-Kusanza, o enfermeiro, buscava os sinais vitais do seu paciente e fazia pensos húmidos para poder fazê-lo chegar ainda com vida ao Médico que já os aguardava no hospital de Tala Boxi. O catequista, Ngunga Ngele, evocava nomes de todos santos conhecidos e outros desconhecidos para que protelassem a chamada do soba… assim foi durante os vinte quilómetros. E todos fizeram-no com dedicação e sabedoria o que permitiu que, embora moribundo, sem fala e nem tacto, Xisa Wanga mantivesse a visão e enxergasse tão bem que ao ser descarregado da carrinha, como caixa de ovos cujos donos pretendem que não se quebre sequer um, o soba Xisa Wanga deparou-se com o símbolo do hospital que era uma cobra enrolada num pau e deitando veneno num copo.

- Tatê! Outra cobra? - Exclamou, metendo-se a correr num passo e velocidade quem nem mesmo o vento dum fechado cacimbo lhe pôde parar.
Xisa wanga pôde sentir-se curado sem que uma injecção ou comprimido lhe tivesse sido ministrado pelo médico.




[1] Árvore frondosa; borracheira.
[2] Casebre.
[3] Palácio do soba.
[4] Peixe miúdo. Muito apreciado nas aldeias do interior de Angola.
[5] Amuletos.
[6] Livro de hinos e rituais de missa da igreja Católica.
[7] Curandeiro; pessoa que exercita a medicina tradicional; adivinho.

domingo, 1 de julho de 2012

MAKOJI

(Este texto é parte do livro "O Coleccionador de Pirilampos")

- Mutaleno, vem rápido! - Chamou aflita a mãe ao filho que jogava às pedrinhas, depois das aulas na explicação do Sô Jacinto Kudilonga. – vai chamar o teu avô, diz que em casa há problema do pai que lhe “apanharam” makoji”[1]. Vai mesmo a correr. Leva a tua jante e toma cuidado com os carros e kupapatas[2].

Calções rotos a mostrar faróis na parte traseira, Mutaleno imita o roncar de um jeep em inicio de marcha e mete-se à estrada que separa os dois quarteirões do Bairro Zorrô.
- Avô, avô, avô. - Mutaleno cansado nem conseguia suster a respiração para explicar o recado da mãe.

- Hum! - Respondeu Sá Mutale.- Fala seu burro. Assim já esqueceste o que te mandaram, não é?
- Avô, é a mamã que mandou chamar. Disse para ir rápido porque na tia Amélia há lá problema do papá que lhe “pegaram makoji no tio Januário Kabeçada”.

Sá Mutale agarrou a mutopa[3], já sem tabaco, que por um triz lhe caia da boca dado o susto. Endireitou o chapéu que lhe cobria a calva e, com as mãos à ilharga, exclamou: - Ora bola! Que chatice, pá!

- Mutaleno, vai na frente. Diz à mamã que avô está só beber cabucado de água.

Sá Mutale sabia das implicações que um caso desses encerra. É preciso usar diplomacia, juntar ideias, separar as melhores ideias para o debate e escolher os melhores adágios. Já tinha ele mesmo tido experiências dessas no passado, quando ainda jovem e com muito sangue na veia. Tinha sido surpreendido a colher em lavra alheia, como também já bebeu do fel que é ver a lavra arrasada por um intruso.
Há um pico que lhe atravessa a garganta até hoje, pois desconfia que o próprio Tambula Mwana, pai de Mutaleno, tenha sido fruto duma colheita forasteira em sua lavoura. Sá Mutale deixou a aldeia aos 17 anos e alistou-se na Revolução donde apenas saiu aos 23 anos. Embora as duas famílias soubessem do seu namorico com Na Mwana, mulher com quem vive até hoje, não tinha mantido com ela um contacto íntimo mais profundo que resultasse no filho com que foi brindado ao chegar da tropa. Pior ainda é a diferença fisionómica entre ele e Tambula Mwana. Embora ele, Sá Mutale, seja alto de pegar as estrelas, Tambula Mwana é tão baixo que parece “meia cuca” e tão claro que parece filho dum cubano, contrastando com a cor do pai que é duma escuridão que de noite apenas se reconhecem os dentes. É que Tambula Mwana nem olhos, grandes e redondos como goiabas, tirou do pai. Mesmo assim, Sá Mutale aceitou a mulher e o filho e já lá vão 37 anos.

Era preciso endireitar o discurso, avisar alguns amigos comuns com a casa do ofendido, e, sobretudo, encontrar o que se deve prometer como pagamento à família de Januário Kabeçada.

Sá Mutale jogou milho no terreiro para contar quantos galos tinha na capoeira. Acto contínuo, jogou sal no curral para chamar o gado que de imediato apareceu. Calculou qual dos bovinos podia servir de promessa para a multa, consultou a mulher sobre a quantidade de milho no celeiro e partiu. Casaco ao ombro, bengala na mão, cachimbo na boca, dez passo uma baforada, meteu-se a caminho.

Passou pela casa do compadre Lamba Lyeza, iminente negociador de makoji e amigo comum entre os Kabeçada e os Mutale. Eram, segundo se diz do mesmo munhaci[4]. Seguiram directo à casa onde tinha o filho retido, apanhado em flagrante delícia com Amélia Kexi-ko-Nvunda, a mulher de Januário Kabeçada, exímio lutador em brigas de bairro.

- Boa tarde compadres. - Cumprimentou Sá Mutale aos presentes que aguardavam pela família do autor do makoji. Era preciso demonstrar cordialidade e evitar que o assunto fosse levado à ciota[5] do mwene[6] Kavula Ndunge.

- Boa tarde. O que vos traz aqui a esta hora? Perguntou Kexi Mandumbu, tio do ofendido.

- Como o compadre sabe, criei um cão. Esse cão, agora que está grande, tanto me traz carne de caça como também me traz problemas lá onde passa. Fui informado que o meu cão está retido porque prevaricou na vossa casa. E, como quem tem dono aguarda resgate, eis-nos aqui compadres.

Como manda a praxe, Kexi Mandumbo fez também o seu discurso carregado de sabedoria ancestral e pinturas próprias da idade e experiência que carrega.

Desanuviada a tensão, os anfitriões pedem, à entrada, um garrafão de vinho tinto para iniciar a conversa propriamente dita.

- Compadre bate então no chão. Ou viste de mãos a abanar? - Disse Kexi Mandumbo.

- Sá Mutale sorveu forte o seu cachimbo, pulverizou o ar com o fumo branco da sua baforada, sinal que foi rapidamente percebido pelo sobrinho, Wanyanga, que de repente apareceu com um garrafão de vinho e um galo.

- Fiéééé, féééé! – Soaram assobios dos anfitriões ao que Sá Mutale correspondeu com uma vénia, seguida de uma salva de palmas colectiva.
- Compadres, antes de iniciarmos a conversa, quero ver o meu cão. Quero saber se está conforme saiu de casa ou se sofreu algum castigo degradante.

- Compadre Sá Mutale, o seu cão está inteiro só que não está em condições de sair ao público. É preciso chamar uma tia ou esperar pela chegada da noite porque está despelado.

- Está sem pele? – Lamba Lyeza, até então calado, aproveitou a oportunidade e entrou na conversa. - Compadres, se o cão está despelado é preciso saber quais foram as causas do assunto e como é que se chegou à situação.

Há muito, Amélia e Tambula Mwana mantinham um compadrio de deixar qualquer um desconfiado. Para uns eles eram amantes, para outros simplesmente bons vizinhos, até naquela manhã de domingo quando Tambula Mwana se dirigia a caminho da loja do Sô Bernardo. Ao atravessar o quintal da vizinha, foi surpreendido com um balde de água suja. Julgando ser um acto acidental, o jovem acolheu as desculpas da vizinha e aceitou dirigir-se a casa dela para tirar a camisa molhada e enxugar o corpo com a toalha que lhe fora prontamente oferecida para o efeito.

Acto contínuo, Amélia fechou a porta e arreou o pano que lhe cobria o corpo esbelto e bronzeado a preceito, ameaçando chamar por socorro caso Tambula Mwana se negasse a consumar o acto. Foi no mesmo momento em que apareceu Januário Kabeçada, marido da Amélia, que, apercebendo-se do movimento estranho em sua casa, acorrentou a porta com um cadeado, avisando a mulher de Tambula Mwana que tinha surpreendido o seu marido com a Amélia.

A versão de Tambula Mwana, confirmada aos presentes por Amélia Kexi-ko-Nvunda, serviu de alívio àquilo que seria a grande penalização e castigos ao infractor. Tratando-se de um quase mal entendido, as partes entenderam dispensar levar o assunto ao soba. Porém, o facto de ter sido encontrado em lavra alheia fez com que Tambula Mwana passasse a vergonha de ser censurado publicamente e pagar uma multa em dinheiro e bebidas para os mais velhos da aldeia e ao ofendido, Januário Kabeçada, que continuou com a sua mulher com quem tem já quatro filhos menores.













[1] - Adultério (termo Cokwe)
[2] - Motorizadas (termo umbundu)
[3] - Cachimbo (termo Cokwe)
[4] -linhagem familiar (termo Cokwe)
[5] -Tribunal comunitário presidido pelo rei/soba coadjuvado pelos notáveis da corte. Em cokwe pronuncia-se tchiota.
[6] -Título do dententor do poder tradicional entre os Lunda e os Cokwe.