sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

AS LÁGRIMAS DE KAYONGONA

- Ndombwa yetu iye! Ndombwa yetu iye!
Mulheres vestidas a rigor, como manda a tradição ovimbundu, cantavam eufóricas. Era a família do noivo que fora à busca do enxoval da jovem recém-casada.
- Gilera yacio lo fogão vye!
(Venha a geleira e o fogão!)
- Lombia vye!
(Venham as panelas!)
- Mala iye! Lonanga vye!
(Venha a mala! Venham os panos!)

Tias, primas e duas irmãs, um grupo de nove ou dez senhoras de meia e alta idade, todas elas parentes de Maurício Sandonga, eram as mandatadas do patrono da família para irem à casa dos país de Kayongona, acabada de casar. Aliás, kayongona estava ainda em acto matrimonial, pois o casamento só termina oficialmente quando ela estiver já senhora e mandona de sua casa. É preciso que se desligue dos seus parentes consanguíneos e se una aos Sandonga que a aguardam como nova filha.

Kayongona, que é do Moxico, estava a viver um momento único. É jovem como Maurício e com apenas um filho na barriga. Ambos estão ainda na casa dos vinte anos, embora Kayongona tenha dois cacimbos a mais do que ele. Porém, alto, barbudo e com a calvície a espreitar-lhe a cabeça, ninguém dá conta da menoridade em relação à mulher. Nem mesmo os pais de ambos. Casamento inter-étnico é o primeiro em sua vida. Nem mesmo os cinco anos de sociologia rural puderam dar-lhe este lado cultural, e vai, de minuto em minuto, vivendo com expectativa cada acontecimento, cada detalhe destas últimas vinte e quatro horas de insónia continuada.

- Come, minha filha! – Ordenou Ernestina, a sogra. – Casamento é alegria mas é também sacrifício. Amanhã ainda vais receber visita e os direitos particulares do Maurício só começam mesmo depois da última tia se dispersar.

- Está bem mamã, obrigada. - Agradeceu. – A mamã pode me dizer o que ainda está por acontecer? - Indagou Kayongona expectante.

- Minha filha, eu embora tua sogra, perante a família do Sandonga - Ernestina apontava para o grupo de Alzira, a cunhada mais velha – também sou nora como tu. Tens de perguntar àquela tia de lenço às riscas. É a tia Alzira Sandonga, tia mais velha do Maurício. É a ela que cabe ditar os teus passos até terminar o casamento e fazer cumprir a tradição.

Kayongona engoliu o discurso em seco. - Não vou estragar as coisas agora que estão no fim. - Pensou ela sem no entanto o dizer.

O pedido de noivado, feito no mesmo dia do casamento civil, tinha sido para muitos jovens uma autêntica aula de cultura bantu. Sandonga e Ernestina, visitantes em casa de Marcos Ekumbi e Cacilda Ekumbi, pais de Kayongona, deixaram que a tradição cokwe fosse cumprida. Ambos casais queriam mostrar a seus filhos nubentes, embora doutores, que a cultura tem peso e é para preservar. Cumpriram, por isso, com todos os preceitos dos tucokwe e dos ovimbundu em termos de rituais matriciais.

Longe da estranha moda citadina onde até terrenos e inertes fazem parte da lista de incumbências que o noivo leva ao acto pré-matricial, Marcos Ekumbi em concordância com Jones Kambango, tio mais velho de Kayongona, fez questão de enumerar a lista do impreterível e inadiável. Aliás, foi mais ideia de Kambango que queria pesar quanto os Sandonga são zeladores da cultura e cumpridores de promessas, do que Ekumbi que nessas circunstâncias perde o poder de decisão a favor do tio[1].


E a carta-lista começava assim.


“Queridos compadres,


Apesar de alguma instrução, que a escola e a convivência citadina nos proporcionaram, o mais fácil tem sido tirar o indivíduo do seu meio natural do que a cultura da sua vida.


É neste contexto que vimos remeter-vos as incumbências sem alternativa que esperamos, para o bem-estar emocional da nova família que desejamos todos criar, haja respeito escrupuloso.

Não se preocupem com o que a moda dita. Somos kacokwe com orgulho, o mesmo orgulho que notamos nas conversas havidas com os compadres que não abdicam da cultura ovimbundu que vos está no sangue e estará no sangue de nossos netos comuns que nos brindarão o já nosso filho Mauro e vossa filha kayongona.


1-                Longa lya huma[2]


2-                Njimbu[3]


3-                Katemu[4]


4-                Mufulu[5]


5-                O que gostariam que levássemos caso os papéis fossem invertidos.


Elevada estima e consideração,


Mwata Kambango (tio de Kayongona)


Marcos Ekumbi (pai de Kayongonona, vossa nora escolhida)”


Marcos EKumbi e soma Katokola, co-irmão[6] de Ernestina, precisaram de viajar ao Congo para encontrar um obreiro para as encomendas. Os Luvale de Angola há muito tinham abandonado o trabalho artesanal do ferro, mas era tão elevado o seu ânimo em cumprir com as exigências da família Ekumbi que conseguiram a enxadinha, o kanjaviti[7] e os super wax[8] em tempo record. Mês e meio, apesar de terem recorrido ao estrangeiro para encontrar o prato do oleiro e a enxada e o machadinho fundidos por um artesão. Um boi, uma cabra, vinhos, cachimbo e tabaco e um isqueiro de corda foram acrescentados ao dote.

Sandonga, respeitado e conhecido entre os seus como homem de posses e boas maneiras,             queria também mostrar o peso e honra da sua família e juntou ao tradicional uma nesga do modernismo. Dir-se-ia mesmo que Sandonga juntou a fome à vontade de comer. Precisaram de recrutar jovens fortes para carregar e esvaziar a camioneta Daimler que gemia nos saltos devido ao peso.

Na tarde do pedido, os momentos que antecederam a abertura e aferição da carta-lista constituíram-se num jogral de adágios criteriosamente escolhidos para a ocasião, sendo intervenientes mwata Kambango, tio de Kayongona e soma Katokola, que se afirmava como o legítimo representante legal de Maurício Sandonga, de quem dizia ter elevado orgulho.

Maurício era um jovem hábil e que enfrentava com estoicismo as adversidades que cruzavam a sua vida. Na cerimónia de Evamba[9], que frequentou em tempo certo, foi um destacado aluno, durante as férias dos dez anos. Assim também foi na Faculdade de Economia onde se doutorou com apenas vinte e quatro anos, mesmo vivendo tentações e privações ligadas ao seu noviciado na capital do país que tem uma vida bem mais agressiva do que a vila de Kamakupa[10].

Maurício destaca-se em quase tudo, o que orgulha ainda mais o tio.

- É melhor do que os irmãos todos! - Costuma gabar-se Katokola, sobretudo quando acompanhado de amigos. – O meu sobrinho não se compara aos vossos que entraram na Evamba em noite sem luar[11]. Ele é diferente. É único! – Afirma sem receio, sempre que discute o sucesso e insucesso dos jovens de Kamakupa.

Soba na sua embala, Katokola não se coíbe e nem perde oportunidade de se gabar do seu herdeiro predilecto[12].

- Ele é caçula, é o primeiro doutor, é o primeiro casado entre os onze filhos do meu cunhado Sandonga e único que está mais ligado a mim por laços afectivos. – Assim descreve o sobrinho.
…
Semanas antes do acto, kayongona, noiva avisada, tinha feito uma pesquisa junto a família de Mauricio sobre os gostos alimentares dos Sandonga e, com empenho, aprendeu com as cunhadas a confeccionar os pratos tradicionais do Bié.

Na hora do repasto, depois de conversas arrumadas, que no fundo era mais o cumprir de um formalismo do que a busca de verdades incógnitas, a mesa estava recheada: do lado ovimbundu havia pirão de fuba de milho e feijão, losate[13], peixe seco assado e outras iguarias. Xima nyi ifo[14], ixi ya mulwiji[15], matamba[16], macoso[17], entre outros acompanhantes, do lado kacokwe.

No centro da enorme mesa, uma tábua de contraplacado com uns três metros de largura e metade de comprimento, estava a água, os refrigerantes, os vinhos, as cervejas, a garapa[18], a hidromel, o whisky e outras aguardentes.

Até dança kafundeji[19] houve para animar os compadres. O grupo Zango Lyeza[20], do Kakolo, tinha sido propositadamente convidado para animar a festa e mostrar aos luandeses e bienos a homogenidade da cultura lunda-cokwe.
…
À chegada, à casa que Maurício preparou para si e mulher e onde a restante família aguarda pela inquilina, outra canção. As tias de Maurício são incansáveis no cancioneiro. Flores junto a porta do quintal, lenços brancos imitando bandeiras e anunciando a paz perpétua para aquele lar, bocas regadas de kisângua, senhoras de todas idades vocalizam:

- Ndombwa twa yongwile yeya!
(A noiva desejada chegou!)
- Ndombwa yetu ya fina!
(A nossa noiva/nora é linda!)
- Sekulu wa sola cywa!
(O senhor/noivo fez boa escolha!)
- Vitima vya sanjuka enene!
(Os corações estão muito alegres!)

A canção entoada com pausas fez com que Kayongona, que entendia um pouco daquela letra, se emocionasse, banhando-se em lágrimas, ao que alguns assistentes, alheios à simbologia das lágrimas, entendessem como sinónimo de tristeza e indisposição por parte da noiva.

- Estás a chorar, linda cunhada? - Interrogou um dos amigos de Maurício.

- É só alegria, Carvalho. É difícil de conter a emoção! - Respondeu-lhe Kayongona com um sorriso rasgado entre os lábios sedentos.







[1]- Contrariamente a cultura ocidental, na tradição bantu o tio é depositário de poder e autoridade sobre os filhos da irmã, cabendo-lhe a decisão quanto ao seu futuro.
[2] - Prato de argila, símbolo de aliança entre duas famílias.
[3] -Machado; peça de ferro fundida por ferreiro artesanal, simbolizando o trabalho masculino.
[4] - Enxada; peça de metal fundida por ferreiro artesanal, simbolizando o trabalho feminino ou a lavoura.
[5] - Muda de panos, normalmente para a mãe da noiva.
[6] - Primos de primeiro grau. Os ovimbundu tratam-se por irmãos, sendo primo apenas o filho do irmão da mãe ou o filho da irmã do pai.
[7] - O mesmo que pequeno machado (do umbundu njaviti).
[8] - Marca de panos muito usados em cerimónias de alembamento ou pedido de noivado (Angola).
[9]- Cerimónia de circuncisão (termo ovimbundu). Pode ler também REDINHA, José, “Etnossociologia dos povos do nordeste de Angola”, pgs. 74-80.
[10]- Município do Bié (centro de Angola).
[11]- Assim são designados aqueles que não se destacam na sociedade.
[12]- Na tradição dos ovimbundu e dos bantu, em geral, o sobrinho está na primeira linha de sucessão ou herança, secundado pelo filho do tio finado.
[13]- Beringela (termo umbundu).
[14]- Funje com carne (termo cokwe).
[15]- Peixe do rio/de água doce (termo cokwe).
[16]- Kisaka; alimento confeccionado com folhas de mandioqueira (termo Cokwe).
[17]- O mesmo que Katatu em Kimbundu; lagarta; insecto em estádio intermédio da metamorfose das borboletas (termo cokwe).
[18]- Bebida feita a base de milho e mbundi (espécie de raiz com propriedade adoçante e fermentadora).
[19]- Espécie de dança do ventre apreciada e executada pelos tucokwe e que retrata as relações pré-sexuais. É exercitada pelas raparigas em idade núbil procedentes da escola de iniciação feminina “mukanda wa pwo”.
[20]- Do cokwe alegria chegou.

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

A MORTE DO VELHO XINGA

Este texto é parte do livro "O Coleccionador de Pirilampos"

Makenzo e a cunhada discutiam, manhã cedo, sobre as causas da morte do avô.

Xinga Wanga tinha morrido, passavam seis dias. Era véspera do komba-di-tokwa[1] e mesmo a família mais próxima não estava esclarecida quanto ao que levou o Mais-Velho ao mundo do descanso sem fim.

- Mas oh cunhado, de quê então que morreu o vosso avô? - Perguntou Dina, irmã jingongo[2] de Diana, a mulher de Makenzo.

O jovem, trinta e três anos às costas, idade de Cristo, pensou, repensou e reteve a resposta.

- Cunhada, está um pouco difícil dar resposta consentânea.

- Morreu de consentânea? - Que doença é essa então.

Makenzo tinha a mania de falar bom português. Era professor dessa cadeira e não media os níveis de literacia dos seus interlocutores que eram todos os dias surpreendidos com as novas aquisições do Professor Kenzo, como também era conhecido.

- Olha Dina, sua tola, consentânea não é doença. Doença mesmo é uma jovem ter um dicionário em casa e não o consultar. Isso é que provoca um mal maior aos jovens vivos. Deixa lá o avô Xinga que ele está bem na terra do descanso.

Kenzo e Dina eram tão amigos que não havia fronteiras nas suas conversas e os ataques verbais de Kenzo já eram vitaminas para Dina que se deleitava em ouvir palavras desconhecidas do seu pobre vocabulário. Aproveitava, também ela, lozar[3] às suas amigas sempre que podia. Só que com um senão: nem sempre os vocábulos correspondiam aos contextos.

-Mas, o avô então morreu de quê? - Insistiu ela, já meio cabisbaixa por não ter conseguido obter a resposta que prometera às amigas do bairro indígena.

- Olha, gostaria que não insistisses nisso. Vamos chorar o Mais-Velho e acabou. – Disse Makenzo, num tom duro, como quem quer pôr ponto final à conversa.

- Mas as pessoas me perguntam. Sabes que sempre que vou ao mercado ou noutro sítio elas me confundem com a Mana Diana e perguntam se avô do marido morreu de quê.

Kenzo deu duas voltas sobre a palmeira que ensombrava o quintal. Era uma árvore nova que tinha dado os primeiros cachos de dendém. Tão jovem quanto eles, Kenzo e Dina. O professor recuou e respondeu:

- Morreu de parede!

- Hum? De parede?

Dina não se conteve e soltou um grito desesperado: - Waéééééé! Avô finale morreu mbora de parede, já viram azar?

O grito espantou os demais familiares que preparavam a batata-doce, a lambula[4] e a kisângwa[5] para o último dia do óbito.

- Mana Joana, você que é enfermeira antiga, me diz ainda. Parede também é doença? - Indagou Zeferino Gaspar, um vizinho que acompanhava a conversa.

- Oh Sô Zeferino, você com essa idade toda ainda não sabe o que são doenças e o que são brincadeiras do Kenzo que gosta de inventar palavras para impressionar as moças do bairro indígena?

- Oh tia Joana, mas o Kenzo falou com uma seriedade que me pareceu ser verdade. Deve ser nova doença. – Interrompeu Sá Domingas, conhecida interpretadora de sonhos no bairro. Há muito que é tida como a melhor vidente de Luanda e já comprou dois Hiaces e um turismo nesse seu ofício. É por isso uma senhora de respeito que quando abre a boca até as mulheres mais rabujentas do Sambizanga lhe dão ouvidos. Quando não tem pacientes com sonos por interpretar, Sá Domingas vende peixe no Roque Santeiro, seu negócio desde jovita[6]. É também a fornecedora de peixe aos vizinhos do bairro indígena que deixaram de ir ao mercado. É por isso que está no óbito do Mais-Velho Xinga Wanga.

A intervenção de Sá Domingas serviu para conter os ânimos por apenas alguns instantes. Era uma conversa de livros, de ciência e não de sonhos nem de peixes. Aquela doença prognosticada pelo professor Kenzo, um filho que todos viram crescer até se formar no estrangeiro, era estranha. Se o morto fosse outra pessoa, o Velho Xinga teria mesmo exclamado madiwano[7], como ele fazia sempre que algo estranho acontecesse. O burburinho começou novamente a ganhar corpo e só parou quando Kenzo voltou a pôr os pés no quintal de chapas de zinco com uma caixa de cerveja Biker entre as mãos.

- Mano Kenzo, nosso rapaz de confiança, - chamou carinhosamente Sá Domingas - nos explica ainda esta doença que matou o avô. Sabes que amanhã é dia de komba-di-tokwa e as coisas todas têm que estar bem esclarecidas para as pessoas irem embora para as suas casas sem dúvidas. Consentânea é doença de quê, meu filho? - Questionou Sá Domingas suplicante.

- Avô Domingas, eu estava a explicar a esta pacóvia da cunhada Dina que não tinha uma resposta certa sobre a morte do avô que, calculo, tenha morrido de parede. É uma forma satírica de amainar a minha dor. Na verdade, o avô morreu de uma contusão causada pela derrocada dos adobes[8] quando dormia na sua choupana.

- Ah! Agora sim. Então foi a parede que o matou, não e? - Questionaram as senhoras em coro. – Então o menino tem razão. Morreu mesmo de parede! - Concluiu Sá Domingas.



[1] - Do kimbundu varrer as cinzas; cerimónia que acontece no sétimo dia da morte de alguém.
[2] - Do Kimbundu gémeo.
[3] - Do Kimbundo Ku loza; o mesmo que disparar.
[4] - Sardinha.
[5] - Bebida feita de múkua ou milho e açúcar.
[6] - Adolescente; jovem.
[7] - Interjeição em kimbundu; o mesmo que azar.
[8] - Blocos para construção feitos de barro cru.

sábado, 1 de dezembro de 2012

A FUGA DE NEHONE


Este texto é parte do livro "O Colecionador de Pirilampos"

Nehone está entre a alegria e a tristeza. Não sabe ainda ao certo o que lhe vai acontecer durante três meses de isolamento da sua família e amigas, as mais novas e as mais velhas. Vai entrar no acampamento, em local também ainda desconhecido por ela. Apenas as mais velhas da aldeia, um círculo muito restrito, sabe onde se vai fixar o acampamento feminino e o tempo em que vai durar o retiro.


Nehone já riu de alegria e também já chorou de tristeza. A menina, doze anos completados, sete classes feitas na escola pública, tem a consciência em guerra. Sempre que lhe falam do aproximar do dia lembra-se da aula de MGF que a escola e as madres condenam. Lembra-se também das lições que vem aprendendo desde criança, ainda no colo materno: “uma mulher Kwanyama só o é depois de sair da efundula[1]”.
- Mas, mamã, até eu que estudo também vou no acampamento?
- Nehone, minha filha, olha à tua volta. Todas as tuas amigas vão, és única que queres ficar? – A resposta-pergunta de Nanditemwa deixou a menina mais confusa ainda que correu ao seu quarto para descarregar a fúria contra os cadernos e os livros. Nehome abriu a mochila, despejou o material e jogou, um a um, contra a parede. O seu íntimo lhe dizia que algo estava errado. Só não encontrava palavras para esgrimir o que lhe vinha na alma. Trancou a porta, chorou por alguns instantes e adormeceu até ao cantar do galo.
Tudo o que sabe, de ouvir dizer, sobre efundula são estórias desencontradas de pessoas que elogiam e outras que condenam o rito tradicional. São mais de dez meninas que, no dizer das mais velhas da embala de Kambyote, já estão prontas para transitar de grupo etário. Todas as meninas que viram o fluxo menstrual este ano de 4791 vão engrossar o número reduzido de moças. As últimas saídas do último efundula já estão casadas, algumas com dois filhos às costas.
- Mamã, eu não quero fazer a infibulação. Na escola já disseram que é crime. Disse Nehone à mãe tão logo raiou o sol.
- Infibulação[2] é quê, minha filha?
- É aquilo que andam chamar acampamento das meninas. Que querem organizar para mim e as outras miúdas da embala. Eu não vou, mamã.
- Minha filha, estás a me ver com cara de poder ficar mais aqui se falhares nesse efundula? O quê que as mais-velhas vão pensar de mim e da família toda? Que eu eduquei mal a minha única menina?
- E porquê que a mãe não diz ao papá para mudarmos para a cidade?
Enquanto Nanditemwa e Nehone trocavam argumentos, mais ao estilo urbano do que noutras casas onde as meninas também reclamavam da participação no acto de iniciação feminina, ouviu-se um tocar do sino.
- Mamã! Parece que são eles. Tocaram já o sino. Assim há uma coisa que vai acontecer. Lhes diz que estou doente ou que fui ver minha madrinha em Pereira D´Eça[3].
Nehone tinha razão. Era dum pressentimento certeiro. Naxilupa, a mulher-mãe da embala de Kambyote, em Namakunde[4], tinha convocado todas as adolescentes que aguardavam pelo dia D para a cerimónia pré-acantonamento que consistia na feitura do dongwena[5]especial. Seriam vistas durante uma semana e partiriam depois para três meses de aulas num sítio onde podiam ser visitadas apenas por mulheres viúvas e sem contacto sexual. A puberdade que lhes tinha batido à porta seria celebrada com este ritual onde aprenderiam as danças milenares do povo, a cuidar da casa, da família, do futuro esposo, da lavoura, da ordenha das vacas, do mahini[6], do desfarelamento e trituração da masambala[7], da feitura do pirão[8]e, sobretudo, das técnicas nocturnas. A inteligência que Nehone evidencia na escola dá garantias a Nanditemwa de que a sua única filha venha a destacar-se no grupo, pressuposto importante para ser mulher dum osimanaya[9] ou um doutor da cidade.
Não tardou a chegada da mulher-conselheira da aldeia. Naxilupa passava de casa em casa fazer a convocatória oral. Nenhuma mão devia reclamar do desconhecimento dos preparativos da cerimónia. Já lá vão mais de doze anos desde que Naxilupa herdou a pulseira que a identifica como a mulher-mãe de Kambyote, a depositária dos ritos femininos do seu povo que pretende perpetuar a todo custo a quem respire o ar kwanyama.
- Com licença nesta casa de Nda Mufayo[10]! – A voz de Naxilupa é única e inconfundível.
- Salve, rainha-mãe, herdeira e depositária da nossa identidade! - Respondeu Nanditemwa.
- Filha amada, vim convocar a menina Nehone para a ndongwena da efundula que é na semana que vem - Disse Naxilupa num Kwanyama rebuscado.
- Mamã, não sei o que lhe dizer. Parece que a menina só vai entrar no ano que vem com as meninas mais novas.
 
- Como assim se ela está na embala e o acampamento é já no começo do frio? - Questionou intrigada Naxilupa.
- A mamã viu ontem aquela carrinha da missão que saiu na Ombanja[11]? Era a madrinha dela que veio buscá-la para uma semana no Oyohle[12].
A peregrinação ao local que acolhe o corpo hirto do rei dos Kwanyamas é o que mais se espera de um ovambo[13]. Agora dividida entre o dever de Nehone frequentar a escola de iniciação feminina e o outro, também sagrado, de visitar Oyole, Naxilupa abandona a casa abanando a cabeça. E vai indo levada pelo vento que sopra do sul ao norte. Precisará de encontrar argumentos para as outras mães da aldeia cujas filhas vão a efundula e evitar que haja outras desistências.
Preocupada está também Nanditemwa que precisa de esconder a menina até conseguir fazê-la sair da aldeia, lançada que está a mentira.
- Filha! Estou quase a cumprir o teu desejo, mas tens que fazer coragem e aguentar até que as madres venham. O teu pai já foi ao encontro delas e vão passar aqui numa hora em que ninguém está na embala. Vais à missão estudar até passar o tempo da efumbula.
Entre sóis ardentes e noites luarentas, Nehone suportou dezassete dias no minúsculo cubículo até a chegada da Land Cuiser da missão Católica. Exactamente no dia da partida das noviças da embala para o acampamento. As mulheres entretidas na organização da cerimónia e os homens cuidando da transumância[14] do gado que carecia de pastos e de água nas proximidades. Kambyote estava às moscas. As madres pararam a carrinha cobrindo a entrada da casa. Uma delas meteu-se porta adentro com um saco contendo um hábito e a habitual cabaça em que levam mahini.
Nehone pôde sair em segurança e levada ao internato feminino onde estudou enfermagem, tornando-se na mais conhecida activista contra a clitoritomia[15]entre os povos da sua região. É hoje uma médica casada com um rico fazendeiro e investigador da cultura Ovambo.


[1]- Cerimónia de iniciação feminina (do kwanyama).
[2]- Excisão genital; retirada total ou parcial do clítoris.
[3]- Antiga designação de Ndjiva, capital da província angolana do Kunene.
[4]- Município do Kunene.
[5]- Penteado tradicional Kwanyama (cada tipo de ndongwena tem um significado especial).
[6]- Leite fermentado em cabaças (termo kwanyama).
[7]- Milho-miúdo.
[8]- Pasta feita a base de farinha de milho ou masambala, bastante apreciado entre os povos do centro e sul de Angola.
[9]- Ferreiro; arte de siderurgia (termo kwanyama).
[10]- Alusão a Mandume Ya Ndemufayo, rei dos Kwanyama.
[11]- Capital do reino (termo kwanyama).
[12]- Local onde se encontra o monumento que homenageia Mandume, o lendário rei dos Kwanyama.
[13]- Povo que habita o sul de Angola e norte da Namíbia; o mesmo que Kwanyama.
[14] - Deslocamento sazonal de rebanhos para locais que oferecem melhores condições de pasto durante uma parte do ano.
[15]- Excisão; ablação do órgão genital feminino.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

O PAGADOR DE JUROS

Este texto é parte do livro "O Colecionador de Pirilampos"
- Júlio, em nome de quem jurarias, se tal te fosse exigido para celebrares um contrato que muita falta te faz? - A conversa entre Júlio Katerça e Joana Tako Dimoxi começou assim.
Joana sabia da intenção do amigo em cravar-lhe um kilapi[1], mas desta vez, estava determinada em não dar sem ganho. Aliás, dizia ela às amigas que “dinheiro não investido não se reproduz” e queria aplicar o que aprendeu no curso de empreendedorismo que frequentou numa das suas idas à estranja[2].
Apesar de mulher solteira e mãe de Kamoxi e Kayadi, ambos com pais desconhecidos dos parentes e vizinhança, Joana tinha a sua vida remendada. Começou com o “compra no armazém, vende na barraca” que depois transformou em boutique e agora já vai à Ásia, Europa e América em busca de negócios que lhe rendem bons trocos que dão até para pôr Kamoxi num colégio com aulas de música e natação. Vive a arrotar bacalhau, apesar de viver no Tunga Ngó.
Júlio Katerça é outra coisa. É um jovem qualquer do bairro, sempre pronto a qualquer biscate e sempre dado a contrair empréstimos, mesmo sem garantia. Muitas vezes, e já depois de muita porrada dos cobradores mais impacientes, Júlio acaba pagando com trabalho que varia entre acarretar água, fazer puxadas de luz, cavar fossas e tanques para água, entre outros serviços domésticos. Até chão já limpou em casa de Maria Paulina Kanivete, mulher catetense que tem pulungunza[2] de homem.
Naquela tarde de sexta-feira, Katerça tinha uma festa de contribuição. Daquelas em que os jovens combinam aparecer com um artigo: uma caixa de cerveja, uma caixa de frango, uma garrafa de wisky, uma caixa de gasosas, etc. As festas de contribuição são as melhores que há em Albaláxia e outros bairros de Atukaye, a capital da República de Atujimbi.
- Mas oh Júlio! Você, um sem calções nem peúgas, vai logo logo se meter com os moços da cidade e ainda por cima participar da festa de contribuição dos filhos dos mwatas? Vais contribuir com quê - Questionou Tako Dimoxi ao amigo.
 - Mboa Joana, deixa só. “Os wi são môs pancos”. Eu é que faço a riqueza daqueles ndegues[2] todos.
- Então se tu é que fazes eles ter dinheiro porque estás aqui a chorar que nem cachorro molhado a procura de lume?
- Deixa, minha mana. Dá só um kilapi e te resolvo no primeiro passe que eu fizer ainda hoje lá no Albaláxia.
Os moradores de Albaláxia, a parte mais alta  da capital do país, eram na sua maioria antigos combatentes contra os invasores Luz e Tanos que por lá chegaram no tempo da distração dos velhos que perdiam tempo a cortar a barba junto ao espelho, enquanto os Luz e Tanos se apossavam das mulheres, das fazendas e de tudo o que Deus dos mambundu[3] lhes tinha dado. Quando abriram os olhos era tarde mas, mesmo assim, fizeram um recúo estratégico para as matas onde permaneceram quarenta e um anos de catana na mão, até conseguirem correr com os invasores no ano de 5791. E foi uma nvunda[3] de fazer crescer barba e cabelo.
À saída dos Luz e Tanos, os antigos combatentes assaltaram o bairro do Albaláxia, os carros e o poder que pegaram com todos os dedos de pegar catana. Criaram uma nova forma diferente de viver e gastar, longe dos seus parentes e coterrâneos, como o pai de Katerça que quando chegou da mata já não encontrou casa desocupada e foi viver na bwala[4], com aqueles que tinham ficado só na clandestinidade.
Os filhos dos novos donos das casas de Albaláxia também se vestem e agem diferentes dos seus contemporâneos que se arrastam nas sanzalas e nos musseques, como a Joana Tako Dimoxi e o próprio Júlio Katerça que só tem amigos na montanha por ser um liambeiro de fama e conhecido passador de passas.
Mesmo pobretão, Katerça gosta de fazer-se passar por um bem-sucedido. Tem um fato que lava todas as quintas e uns sapatos que só calça à sexta-feira quando se dirige às festas do bairro do monte, o Albaláxia. De biscate em biscate e de dívida em dívida faz também a sua vida no submundo da droga que os filhos dos grandes de Albaláxia introduzem impunemente no país.
- Mana Joana, vais então ou não me dar o dinheiro que te pedi?- Voltou a questionar Katerça.
- Tu, Júlio, quando precisas de dinheiro até de mana me tratas, mas quando te peço um favor nem estás ai. – Desabafou Tako Dimoxi, sempre na defensiva.
- Não é nada disso. Às vezes já tenho compromisso, mas hoje é mesmo a sério. Não posso faltar ao boda. Há gente pesada que consome toda a noite e ainda leva para o stock ou para oferecer aos amigos ausentes.
-  Quanto é que queres? Vamos lá ver se dá. Qual é a tua garantia? – Perguntou Joana.
- Hum, vamos lá ver… Quero quinze paus a pagar depois de amanhã, sem falta.
- Depois de amanhã? Com que garantia? Só se pagares com juros.
- Juros? Ok. Eu pago com juros. - Respondeu Katerça a esfregar as mãos e esticando depois o braço.
Joana, no seu canto, mão no queixo, pensando nas voltas que daria para resgatar o valor, caso fosse adiante com o empréstimo ao vizinho Katerça.
- Só aceito se receberes os 15 mil Réis e pagares com juro de trinta.- Disse Joana decidida.
- Jurar trinta vezes? Sem makas[5]. Eu juro, eu juro, eu juro, eu juro… Juro mesmo. Eu pago!



[1] - Empréstimo em dinheiro.
[2] - Miúdos (do kimbundu).
[3] - Negros.
[4] - Aldeia; bairro periférico.
[5] - Problemas (do kimbundu).

terça-feira, 2 de outubro de 2012

BRANCA COMO A NEVE


 1-      BRANCA COMO A NEVE
Este conto é parte do livro "As travessuras do Jacinto"

Jacinto era um rapaz de 13 anos, adolescente hábil, que executava que executava as tarefas com rapidez e rigor. Nunca fugia à luta. Dada a sua inteligência, percebia as missões que lhe eram incumbidas e as executava ao pé da letra.

Vivendo com a avó no período de férias escolares, certo dia Nakulu que ia manhã cedo á lavra, ordenou:

- Oh neto!

- Avó! - Respondeu ele, sempre pronto.

- Estou a deixar a mocroeira[1] na tarimba. Se por acaso chover, luta com a chuva! – Retirou-se a velha cambaleante, descendo o monte que separa a aldeia da lavra.

- Ordem dada, ordem acatada, avó. - Respondeu Jacinto.

A velha Nakulu e as amigas foram cantarolando a caminho da naka enquanto Jacinto se preparava para a peleja. O céu estava carregado de nuvens. Umas eram brancas, outras cinzentas e outras ainda escuras parecendo fumo preto. Fazia remoinho no céu. Longe, não muito longe, ouviam-se estrondos que recordavam a guerra do passado. Os trovões que anunciavam a chegada da água pareciam explosões de obuses.
Jacinto começou então a juntar paus e pedras. Teria uma luta renhida com a chuva.

Mal caiu a primeira gota, Jacinto começou a jogar os paus e as pedras que tinha junto de si contra a chuva que gotejava cada vez com maior intensidade.

A última pedra lançada correspondeu à última gota.

- Balas terminadas inimigo vencido! – Disse Jacinto para si mesmo.

Não tardou a chegada da velha Nakulu que ao ver o neto todo exausto perguntou:

- Porquê deste aspecto sujo e sofrido?
- Avó! Lutei com a chuva conforme recomendou ao ir para a lavra.
- E a macroiera?
- Calculo que esteja no lugar. Nem houve tempo para a ver, pois a luta não foi fácil.

Dito isso, a velha meteu-se aos prantos e a reclamar da tristeza que era o seu neto.

O assunto foi motivo de comentários durante semana e meia na aldeia e teve de ser julgado pelo soba dadas as represálias que a velha infringia ao neto por ter deixado a chuva arrastar a sua macroeira.

Lei Para Todos, o soba de Muxaluando[2], convocou todo o povo da aldeia. Chamou os que tinham formação académica e aqueles que não tinham estudado. Buscou estórias do passado em que ordens mal dadas foram também mal acatadas e resultaram em prejuízos para a população. Depois da análise do caso, os notáveis[3] da aldeia deram razão ao menino Jacinto, pois a ordem para a recolha do bombó à chegada da chuva fora mal dada.

 

 



[1] Pedaços de mandioca humedecida e triturada para secagem.
[2] Município da província angolana do Bengo.
[3] Os chefes da aldeia; os responsáveis.