quinta-feira, 1 de maio de 2014

A TUTELA DOS SOBREVIVOS


(Conto adaptado)
 
Um homem de negócios, com três irmãos mais novos, casado e pai de quatro filhos, morre num acidente de aviação.

Kexi Jina era a figura mais influente da sua família e comunidade. Sempre velou pela harmonização familiar e educação dos seus. Os seus filhos: Lamba, Maka, Vitangi e Neso frequentavam as melhores escolas, juntamente com seus primos.

Preocupados com a educação de seus quatro sobrinhos, Mukwasenu, Mucinenu e Mukwatenu, os irmãos do finado, reuniram-se para acertar como proporcionar uma educação aceitável dos meninos órfãos.

Chegados à casa de Kexi Jina, o finado, e junto da viúva, Mukwasenu anunciou que ficaria com os sobrinhos Lamba e Neso. Mucinenu não mugiu nem tugiu. Dele apenas se ouviu silêncio.

Mukwatenu, o irmão caçula, embora estivesse ainda a formar-se e sem vida estável ou estruturada, decidiu tomar Vitangi como sua protegida.

- Manos, não vejo outra solução senão levar a sobrinha Vitangi para minha casa e crescermos juntos. Onde eu comer, onde eu dormir e onde eu tirar para estudar ela também usufruirá, pois este foi o sonho do nosso finado irmão, ter os filhos e os sobrinhos todos formados. - Disse, ao que Mukwasenu, irmão mais velho, concordou e elogiou.

De Mucinenu, irmão intermédio, nada se ouvia. Maka estaria condenada a ficar com a mãe que já decidira voltar ao Congo Democrático, sua terra de procedência.

Perante tal situação e quanto o irmão mais velho fazia as contas e já bastante chateado pela falta de atitude de Mucinenu, Mukwatenu voltou a anunciar:

- Já que para o mano "Muci" não abre a boca, levo também a "Kamaka" juntamente com Vitangi e assim a cunhada fica mais aliviada. Vamos dar a educação familiar e a formação que o mano Kexi Jina sempre desejou para seus filhos e sobrinhos. - Rematou, ganhando uma salva de palma por parte de Sambukila, a viúva, e do irmão Mukwasenu.

No seu canto, cachimbo na boca e boina ligeiramente inclinada, a cobrir-lhe parte do rosto, Mucinenu parecia distante daquele cenário. Não tinha emitido sequer uma opinião. Quando todos os dois manos se preparavam para se despedir e anunciar os dias em que voltariam para levar os sobrinhos, Mucinenu pediu a palavra.

- Alto ai! Um momento. Também quero falar.

- Falar o quê, se quando devias ter tomado decisão não o fizeste e forçaste o nosso irmão caçula a assumir uma responsabilidade para a qual não está preparado? Não tens direito a palavra e não amasses a nossa paciência. - Repreeendeu Mukwasenu, o mais velho entre os três.

- Não, mano, por favor. Deixe-me falar, suplicou Mucinenu.

- Mano vamos ouvir o que ele vai falar. Mesmo sabendo que nada alterará o que já aqui foi decidido. Só espero que não venham poucas vergonhas dessa boca. - Ironizou Mukwatenu.

- Ok. Vocês se dividiram os sobrinhos. Tudo bem, eu concordo. E quem vai ficar com a viúva? Deixaram-na para mim? Se é isso que vocês pretendiam, eu aceito e fico com ela!

quarta-feira, 30 de abril de 2014

MATO OU MORRO


"Me larga. Ó mana, me larga só. Tira a mão da minha camisa, pode rasgar. Estou a falar ´mbora a minha verdade. Não te fiz nada de mau, não te devo dinheiro, nunca te maldisse, nunca entrei na tua casa... por que me persegues e me prejudicas, ó mana desgraça?"
A música expelida pelos altifalantes soava alta e as pessoas, que já se acotovelavam para passar naquele beco estreito, tinham de se esforçar ao máximo para perceberem outras conversas sobre a chuva que tinha arrasado a aldeia de Wanda. Na phela do soba, nas abcissas das ruas, no arreió-arreió e até nos leitos mais íntimos das casas era a dona chuva que estava nas conversas.
Matadidi, o mecânico da aldeia, tinha perdido o carro dum cliente arrastado pela fúria da água que descia da kamunda ao riacho, levando tudo o que encontrara pelo trajecto. Nela do Pacote, a mulher mais encaixotada da aldeia de Wanda, teve de se pôr a nado para salvar o mona que engolia já litros de água, enquanto ela e o amante navegavam entre prazer e mar chuvoso...







Pretendo escrever um livro com esse título e essa iniciação. Quero inspiração e força para a transpiração necessária na arte literária. Haverá mão caridosa para uma bolsa de criação para neófitos como eu?

terça-feira, 1 de abril de 2014

À DERIVA

O desabafo bruto e cru daquele homem de meia idade tinha deixado meio mundo boquiaberto. Melhor porque foi em mar abeto. Na terra, uma tirada como aquela e saída da boca de quem saiu teria um imediato catálogo herege.
O barco em que seguiam andava à deriva havia já muitos pares de anos. Todos os avisos das cercanias e de radares externos tinham sido pura e simplesmente ignorados. Embarcações em situações análogas há muito tinham afundado ou mudado de comandante. Navio como aquele e tripulação como aquela já se contavam aos dedos de uma mão pelo mundo oceânico, onde os ventos turbulentos coligavam com os tubarões de todos os dia.
Martins, o homem do desabafo, era marinheiro há já três décadas. O seu apego pelo mar é natural. Nasceu à beira duma ria e cedo seus pais se mudaram para uma ilhota do Índico, até que, numa noite de poucas estrelas, o mar rugiu e fez juntar as águas de todos os lados. A casota de palhas de palmeiras e mafumeiras foi abraçada pela água furiosa. Martins perdeu o irmão das brincadeiras e a mãe dos fervidos e assados. Viu-se apenas ele e o pai flutuando sobre o mar deserto, apoiados em velhos destroços duma antiga piroga.
- Papá, o mar atingiu-nos. – Disse Martins tão logo se deu conta da situação calamitosa em que se encontravam.
- Sim meu filho. O mar atingiu indelevelmente nossas vidas. Comparado a isso foi apenas o fascismo do início do século. - Respondeu José, o pai.
Vivia-se o século vinte. Bem no começo da segunda metade. Os náufragos lutaram contra as águas raivosas e o vento furioso e um sol assador, até que ao cabo de sete horas sobre aquele dilúvio fizeram-se à terra firme. Eram heróis aos olhos do povo que perfilava a costa e que já tinha preparado oferendas à Kianda, mãe de todas as sereias  daquele mar agitado.  Era a forma habitual de impedir que mais mortes acontecessem.
Lukinda, de seu nome de nascimento, viu-se apelidado por Martins, uma corruptela de “mar tingiu-nos”. E assim ficou conhecido e reconhecido agora como marinheiro de incontáveis milhas.
O navio já levava anos à deriva no Índico. Martins era capitão. O comandante era Sam Téh. Homem hábil nos tempos que já lá se foram, mas que se apresenta agora com o cérebro calvo e fragilizada pelas calemas que sempre o apoquentaram durante os dois séculos cruzados pela sua vida. Embora Martins fosse pessoa influente e homem de argumentos que incentivavam os co-viajantes a se manterem no barco até às últimas calemas, era Sam Téh que tomava as decisões e a quem todos deviam obediência.
Sam era duma crueldade que alimentava os tubarões com os seus marinheiros revoltosos. Em terra firme a capitania já o teria apeado do leme. Mas em alto mar, e com o navio sem bússola e sem terra à vita, a ninguém mais Sam prestava atenção senão ao seu próprio ego. E não foram poucos os capitães promovidos e despromovidos por erros do Comandante mas sempre imputados a Martins e pares.
Na sua vida de marinheiro, Martins já fora herói e vilão. Soube sempre coabitar com o mel e fel naquele navio. Em tempos de bom vento, fora inclusive elevado à categoria de Vice-Comandante. Foi descendo, descendo, devagar, devagarinho até se deparar com a condição de simples passageiros. Era isso que não entendia por mais esforço que fizesse.
- Está difícil manter o Estado neste barco. – Desabafou Martins perante a multidão que planejava a destituição do Comandante e encontrar um comandante que os levasse a porto algum.
- Mas ó camarada Martins, você não faz parte da tripulação? - Questionou  Taci, um crónico insatisfeito.
- Não meu senhor. Já fiz o que pude fazer enquanto achei que alguma terra nos pudesse acolher. Com o actual estado de coisas, tudo o que pretendo é que passe por cá um barco ou helicóptero que nos socorra e nos salve desta aventura samtsetiana, disse entre dentes, antes de se retirar.
Mal tinha colocado o pé na porta do seu aposento, o seu desabafo já se tinha convertido em assunto para reflexão e debate.
Primeiro perguntou-se a autoria do seu nome e depois o significado daquele “está difícil manter o Estado neste barco”. Ninguém conseguia perceber o alcance daquelas palavras tão simples quanto profundas como o Índico que os mantinha cativos entre a vida e a morte.
Sá Lutenda, um vidente, sabia do que lhes esperava. Sabia também que caminhos tinha trilhado Martins e que ideias lhe invadiam a alma. Mas não o disse de imediato. Deixou que a discussão atingisse o auge.
- Eu sou contra o Martins e deve ser levado à razão. – Defendiam os aduladores do Comandante.
- Acho que o Martins está cheio de razão. Embora ache que não seja ele a quem de deva confiar o comando do Navio é importante que se dê oportunidade a pessoas do mar ou que ,no mínimo, se deixe os marinheiros trocar ideias. - Defendeu Lamba, o mais idoso da tripulação.
Lamba, talvez devido ao peso dos seus anos, costuma dizer que já foi árvore, já foi lenha, já foi carvão e agora é cinza. Diz as coisas sem peneira e de acordo ao seu conhecimento e experiência. Goza por isso de aceitação e é reconhecido como grande marinheiro, embora nunca tenha chegado ao leme.
- O mar é complexo e cada um tem uma experiência que pode ser partilhada. - Continuou Lamba que foi molhado com assobios elogiosos.
 - Mas, ó kota Lamba, você que tem mais idade do que este navio, você que conhece todos os comandantes, capitães e marinheiros, pode nos explicar quem na verdade é o Martins? - Questionou Lunga Mana, o mais jovem dos passageiros.
- Olha, meu jovem marujo, podes anotar na tua caderneta mental. O chefe Martins é um homem que já esteve próximo daquele leme. Alguém que já fez muito para que o navio continuasse flutuante, embora à deriva. Martins é um jovem que entrou no navio cheio de vida como tu. Que foi subindo e acertando as velas ou colocando lenha na caldeira. Já puxou demasiado cabo e descamou demasiado peixe até chegar à direita do Comandante. Também desencalhou o navio por diversas vezes. E por diversas vezes prejudicou a si e aos seus para manter a reputação do Comandante que, apesar de tudo… - Lamba puxou da mutopha carregada de kangonha de Kalandula para pôr mais ar no peito que já lhe ia rareando vezes sim, vezes sempre. E continuou: - O Martins é um homem que se deu conta que a seguir o Comandante como às vezes se segue, aplaudindo e remendando os seus erros de miopia, morremos todos e ninguém encontrará sequer os destroços da embarcação.
Mais palavras não houve. Apenas um forte ruído motivado pelo casamento entre o mar, o navio e a rocha. Bummmmmm!!!!
O choque do incauto motorista de Hiace contra uma árvore que repousava já meio século no passeio da rua da Missão, acordou Benedito que seguia embalado no seu sonho de marinheiro.
 

terça-feira, 11 de março de 2014

O CARNAVAL DO RANGEL E A HOMENAGEM QUE FALTA A MAM-BRÁS

A coroa do carnaval de Luanda voltou ao Rangel, mercê da soberba actuação do União Sagrada Esperança, do bairro (agora distrito urbano) que me viu crescer e fazer-me homem. Foi no Rangel, entre a Rua da Ambaca, da Saúde, Comandante Cantiga, Rua do Paraná, Rua da Mão e do Povo, entre outras, que tomei contacto com o carnaval luandense, ainda no tempo do já finado “carnaval da vitória” que se realizava em Março, para assinalar a saída do último “carcamano sul-africano-racista” do solo pátrio, a 27 de Março de 1976, depois da invasão estrangeira que visava inviabilizar a proclamação da independência de Angla pelo MPLA.
No Rangel, dançávamos ao carnaval da vitória com o Grupo Atu Zemba, União Estrela do Kaputu (Zona 15), União Mãe Ya Ndengue, Andorinhas, União Povo do Rangel, União Juventude, e tantos outros que animavam o município inteiro, antes e nos dias do desfile. Agradava-me assistir aos ensaios e ver aquela gente alegre. Alegria espontânea e não comprada ou a troco de alguma distinção à marginal. E dançávamos eufóricos ao som da ngoma de lata, reco-reco, puíta, chocalho, etc. O rei e sua rainha vestiam-se à moda angolana e exibiam coroas feitas a base de ferros recortados e outros metais. Era tudo a base do improviso e da espontaneidade. A criatividade também morava connosco e já se dizia que corria no sangue.
Mas quem mais alegria dava aos munícipes todos, em especial às mamãs peixeiras e outras quitandeiras da praça das Corridas (hoje mais conhecida como praça do Tunga Ngó) e da Praça Nova (defronte a administração comunal do Rangel) e aos meninos e meninas da minha infância “rangelina”, era o Mam-Brás, exímio vocalista de carnaval, dançarino e tocador de ngoma. Mam-Brás sofria de algum distúrbio mental que não cheguei a definir e alimentava-se frequentemente de carne que lhe era ofertada pelas quintandeiras que apreciavam os seus toques e retoques de dança carnavalesca.
Depois da exibição, perguntava sempre:
- Há uma gordurinha? - O homem referia-se à miudezas que voluntariamente lhe eram ofertadas.
Seguindo o som do seu batuque, muitas crianças chegavam a se perder, dando lugar a outro tocar de lata, desta vez das famílias cujo petiz se perdeu no rasto da ngoma do Mam-Braz que continua o seu percurso.
- Nanhi wa ngi bongela kamona ka dyalê?! (Quem sabe do paradeiro de uma criança de sexo masculino?!)
Fruto disso, muitas mães preferiam mandar parar o Mam-Brás e tocar por alguns minutos à porta de casa, oferecendo-lhe depois aquilo que houvesse. Assim, as crianças deixavam de o acompanhar. Mas não era a mesma coisa. Ver o Mam-Braz tocar à porta de nossa casa e vê-lo exibir-se em rua livre ou na Praça das Corridas.
Mam-Brás foi um feitor e zelador do nosso carnaval de bairro. Carnaval alegre, sem preço, sem patrocínios, sem contrapartidas e que não era encomendado por ninguém. Mam-Brás corporizava essa alegria de quem estava e sentia-se livre na sua terra.
O Mam-Brás vivia na rua da mão, também conhecida por rua do “ti Avelino dos Santos”. Apesar de sofrer de distúrbio mental, tinha o reconhecimento e respeito de todos. Era prendado pelas mamãs que gostavam do som do seu tambor, da voz do seu canto e dos toques da sua dança, quer na rua ou nos mercados onde preferencialmente se fazia exibir. Nada cobrava. Apenas recebia o que lhe era dado de oferta no momento da exibição e fazendo do seu carnaval, sem época, o seu ganha-pão.
Mam-Brás, que ainda faz ecoar no meu ouvido a nossa alegria de criança esboçada com o refrão: Mam-Bragéé- é, Mam-Bragéé-é!,  É o meu homenageado neste carnaval de 2014, cujo vencedor, em Luanda foi o União Sagrada Esperança do Rangel que homenageou as vivências tradicionais de Luanda.
Que o próximo homenageado seja o Mam-Bragéé- é, Mam-Bragéé-é!
 

domingo, 2 de março de 2014

MULHERES DE KAMUNDONGO

- Tu kusiña kimbo lya vel´apo! (Encontrar-te-emos na aldeia celestial!) – Cantava de forma angelical o coro da sociedade de mulheres da IECA que acompanhou Celita Adolfo à sua última morada.


A octogenária nascida e crescida na missão de Kamundongo (Kuito-Bié), onde se formou e louvou, manifestara, em vida, o desejo de ser sepultada junto de seus familiares e contemporâneos cujos restos repousavam já em Kamundongo.
 
Os filhos, sobrinhos, netos e bisnetos, contados em centenas, não fizeram mais senão cumprir o pedido da antiga diaconisa.
 
- Vamos levar a avó a Kamundongo e cumprir com o seu último desejo. - Afirmaram entre tristeza e alegria.
 
Tristeza porque era uma biblioteca que ia a enterrar. Alegria porque a sua obra apontava para um descanso merecido ao lado do Senhor. Dai a canção “Tu kusiña kimbo lya vel´apo!”
 
A missão de Kamundongo fica a 22 quilómetros da capital biena. À semelhança das missões homólogas do Chilesso, Dondi, Chissamba, Chilume, Vouga, entre outras, Kamundongo viu nascer e formou homens e mulheres que tiveram um papel relevante no surgimento da consciência nacionalista angolana, na luta pela emancipação dos angolanos e no processo de criação da nossa nação (ainda em curso).
 
Inicialmente como professora de artes e ofícios e mais tarde como parteira, Celita Adolfo, nascida em 1928, foi uma mulher que fez o máximo que pôde pelos homens e pela sua IECA de que foi diaconisa. Teve, por isso, a merecida homenagem de despedida na Igreja Central do Kuito, também designada por “Catedral da Paz”, e um elogio fúnebre à dimensão da Grande mulher que foi.
 
Troço da picada que nos leva a Missão de Kamundongo
Em Kamundongo, localidade alcançável em tempo chuvoso apenas com recurso a carros todo-o-terreno e com pontecos a reclamar por reparações, as árvores frondosas que guardam a memória de notáveis homens e mulheres da sociedade Biena e não só, acolheram as centenas de pessoas que foram ao último adeus a Celita.
 
Uns cantando, outros acompanhando apenas os coros mas guardando reverência e expressando nos seus rostos comoção, outros ainda mais soltos nos gestos e mais alegres nos semblantes, duas mulheres se destacam entre a multidão.
 
Uma é idosa. Tem o netinho às costas. Setenta ou mais anos, indicam as rugas e a flacidez da epiderme. Está toda apossada de tristeza, como quem quer dizer, mas sem força, sem fôlego “sempre estivemos juntas, por que me deixas nesta cidade provisória”? Despejada de quase tudo, dos amigos de infância e adolescência, das colegas dos coros em que cantou, despojada talvez de filhos e netos ao longo das carnívoras guerras travadas no planalto central angolano, a idosa só podia oferecer a sua comoção, enquanto panos já envelhecidos de tantas lavagens cobriam seu corpo quase secular como também amparavam o “nekulu” que cabriolava despreocupado nas costas.
 
Noutra frente, uma jovem há pouco saída da adolescência, disputava com as amigas o melhor cabelo emprestado e grife da tarde carente de sol e chuva. Com um vestidinho colado ao corpo, como se fosse sua pele, e a mostrar as encostas das nádegas, a jovem estava pintada à moda mulher da vida. E, como nestes eventos a vaidade e a petulância vivem juntas, lá estava ela totalmente singular, exibindo as chaves de uma viatura que seu trabalho honesto e limpo ainda não permitem comprar. Se calhar, esteja também a sonhar com uma despedida e um  repouso eterno em Kamundongo… Porém, para lá chegar, terá antes de conhecer e seguir as peugadas de Celita Adolfo e ter como guião a fé, boas obras, honestidade e moderação.
 
Kamundongo, Kuito, 04 de Fevereiro de 2014.
 

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

MORREU O MESTRE "UANHENGA"


 
É dele a expressão no Parlamento Angolano: "já fui árvore, já fui lenha, já fui carvão, agora sou cinza. Ninguém quererá fazer mal à cinza". No seu tempo de Deputado, era a reserva moral da bancada. O símbolo de verdade. Sempre disse o que pensava...
O nacionalista angolano Agostinho André Mendes de Carvalho morreu esta quinta-feira, 13.02.2014, em Luanda, aos 89 anos, vitima de doença prolongada, disse à Angop fonte familiar.

Uanhenga Xitu, seu pseudónimo literário, nasceu em 29 de Agosto de 1924, em Kalomboloca, município de Icolo e Bengo, província de Luanda.

Escreveu, dentre outros livros, Manana (estreia), Cultos especiais, Vozes na Sanzala, Mestre Tamoda, o Ministro, Mungo, Ponto de Ordem Senhor Presidente, etc.
Foi enfermeiro, preso político em Tarrafal (Cabo Verde), Ministro da Saúde, Embaixador na Polónia, Deputado à Assembleia Nacional pelo MPLA, conselheiro e fonte de inspiração para muitos escritores (eu incluído) e alguns políticos.
Desejo um descanso eterno ao Grande Combatente pela liberdade, político e Escritor Uanhenga Xitu (seu nome em Kimbundu).

sábado, 1 de fevereiro de 2014

AS EXECUTIVAS DO PROTOCOLO


AS EXECUTIVAS DO PROTOCOLO

São jovens na flor da idade, algumas ainda pubertárias. Estão sempre de salto alto, bronzeadas, cabelo emprestado do Brasil e Índia e unhas sempre em dia. Ao sair de casa, algumas se vestem à executiva, para fingir ser gente. Uma vez na rua, apresentam-se de forma muito ousada: de collants extravagantes, muitas vezes mostrando a natureza genitália, calções curtos e top less que deixam a “faixa de gaja” e pinturas labiais que as distanciam das demais fêmeas do bicho homem.

Habitualmente, dormem durante o dia, quando não têm trabalho extraordinário, e trabalham à noite. São as “organizadoras” de eventos sócio-culturais e “meninas do protocolo” para os notáveis da alta sociedade.

Apostando no marketing, as executivas do protocolo optaram por elaborar business cards com fotos ousadas e endereço telefónico que entregam a convivas bem aparentados e desacompanhados nos eventos públicos e ou restritos das cidades angolanas. O resto é preço a combinar.

Dessas negociatas das executivas do protocolo surgem os jeeps top de gama com que algumas raparigas, ainda púberes, se exibem, quando não são os famigerados i10 e arredores.

Endinheirados, pseudo empresários, administradores de empresas públicas, altos dignitários do Estado, kamanguistas e generais no activo fazem arte dos preferidos e muito cobiçados pelas “moças do protocolo” que chegam a resolver contendas entre elas com imposição de voz e músculos sempre que uma se antecipe ao cliente permanente de outra. Pena é que já não cantam as kalashenikov e de tanques, tirando os de lavar roupas, já ninguém morre de medo. Nos tempos doutra senhora seriam capazes de resolver as diferenças protocolares a balázios…

Perante outras mulheres, elas são diferentes. Deslizam no gingar. Ciciam como cadela no cio. Usam perfumes com fragrâncias super sex e têm perícias em coçar a barba do idoso ou roçar a zona baixa do “Cabo de Santo Homem”.

Têm também expressões decoradas que lhe conferem uma aparente cultura do bem falar e modos cordatos. Apenas trechos de folhas decoradas, porque o resto são borboletas. O verbo que melhor sabem conjugar é fazer. Sendo “se fazer” o tempo mais empregue.

Uma vez transitadas para a fase posterior, a do emprego com remuneração mensal, não se coíbem em passar pelo “teste do sofá”, galgando como alpinistas. De sofá em sofá e de homo sapiens sapiens ao homo sapiens… Do general ao praça, até que sua volúpia se esfume.

Para os pais, as filhas fazem biscates de protocolo em eventos culturais.

- O emprego está difícil. - Concluem.

Para as puritanas, elas são a nova peste que arrasa a humanidade. As estraga lares e outros epítetos.

– É preciso tomar medidas contundentes e urgentes, antes que o pântano nos engula. - Apregoam.

Para as mães libertárias, elas são coitadas, invejadas pelas más-línguas.

– São trabalhadoras honestas, submetidas a longas horas de labuta, sem tempo para descanso. – Acodem.

Para os músicos da nova vaga, elas são a razão das elevadas vendas, de casas de espectáculos cheias e fonte de inspiração para temas prolixos.

– Essas munzúbias me ‘arrebentam’. – Evocam no seu pobre vocabulário.

 

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

A MORTE DO REI ACICATADO PELA CONSORTE



Até ao registo destes acontecimentos o reino de Magestic desfrutava de uma paz abundante e vida farta. Corria o ano de 3102 do tempo comum. Os limites geográficos de Magestic, um reino secular, eram a Avenida da Lagoa Negra, a leste; o Grande Rio Intermitente, a norte; e uns Estados autónomos em constantes guerras, a oeste e sul. Era, sobretudo, a sul de Magestic que mais se sentia a desestabilização que indirectamente acabavam por afectar o Magestic, sua corte e seu povo.
Tata Ngana, Senhor das Terras, era a autoridade suprema de Magestic, auxiliado por uma corte fiel e prestativa que administrava os Estados vassalos e cobrava impostos.
Detentor de um poder hereditário, Tata Ngana, estava desposado com Arra Gante, uma plebeia de origem citadina. O seu poder consistia num meio termo entre o autocrático e o democrático, custando-lhe a alcunha de “O Senhor do equilíbrio”. Ele , porém, preferia ser tratado pelo epíteto de “O inventor da terceira via” que aos poucos levava o reino a transformar-se em império. Numerosos eram os povos que o admiravam e tão notória era a áurea da sua corte e Estado.
- Se grandes males não houver, construirei um império que sobreviva a todas intempéries durante mil anos. – Gabava-se aos embaixadores e homólogos a quem oferecia banquetes.
Nu dia, daqueles em que o sol e nuvens negras se revezas no alto dos céus, o reino de Magestic acordou alvoraçado. Num dos Estados litigantes do sul, onde grassavam a fome e a miséria, a  rainha tinha feito comentários e comparações deselegantes em relação à forma como o seu rei conduzia os destinos do Estado.
- Quero uma capital com torres iluminadas, universidades, alamedas, sorrisos, transportes públicos e muito mais. É isso que quero que faças em vez de te estares a afundar em guerras que só enfraquecem o nosso Estado. – Disse Mbunda Inene, a rainha do Estado do Sul que ameaçou mesmo pedir asilo ao rei de Magestic.
 - Aié? Queres que te dê o que o Norte tem? Como sabes que Magestic tem tudo isso? - Questionou o rei Kasumuna furiosos.
- soube dos embaixadores e da media. - Respondeu Mbunda Inene que nem imaginou o fel que bombeava o coração do seu marido.
- Pois é… se subestimas o meu governo e me colocas abaixo de Magestic e Tata Ngana é porque há já muito tempo nos tens traído, a mim e ao meu reino. Desmereces minha consideração e tens 24 horas para deixar o palácio, se não queres ser decapitada em praça pública. – Sentenciou o rei possuído de ira.
- Eu abandonar o palácio que ajudei a decorar? Por que não abdicas antes e juntos nos exilamos para Magestic ou outro Estado que nos queira acolher? – Refilou Mbunda Inene.
Não convencido mas também sem argumentos, numa atitude cobarde, Kasumuna declarou guerra ao vizinho do norte, o Estado de Magestic.
O ataque relâmpago foi desferido às 5h de uma manhã. Mulhers da vida retornavam às casas e donas de casa cuidavam do asseio para rumarem às vidas diárias. Magestic estava em festa da coroação do rei. As suas tropas desfrutavam do repasto e há muito não sentiam o troar dum canhão ou o tagarelar duma kalashinikov. O belicoso Kasumuna aludiu um provável encontro secreto entre sua dama e Tata Ngana como motivo da guerra.
O ataque injusto e sem fundamentos desferido pelo Estado vizinho do Sul despoletou uma guerra civil em Magestic. Colocaram-se, lado a lado, generais conselheiros favoráveis ao rearmamento do Estado para fazer frente à guerra e outros que defendiam uma negociação incondicional com o belicoso vizinho do sul para evitar a destruição do Estado. Neste segundo grupo estava  a rainha e parte da população impreparada para a guerra que acusaram o soberano de relações promíscuas.
- Apelo à clemência e à calma. Vamos apelar as instancias internacionais e regionais para se apurarem as reais motivações dos ataques contra a nossa Pátria amada. – Pediu Tata Ngana à população reunida em frente ao palácio real.
- Não, não, não. Negou o povo eufórico e embriagado, paradoxalmente comandados pela rainha Arra Gante. – Queremos  a paz urgente. Queremos a cabeça. – Exigiram.
 - Eu, um homem livre, filho de príncipes, neto de soberanos, com serventes na corte, bisneto de príncipes com escravos, ser julgado em hasta publica por alegada traição ao meu próprio Estado? Quem o fez crescer o tornar-se destaque na sub-região e continente?  Nego. Nunca resignarei ainda que se quedem as estrelas dos céus. – Afirmou veemente o rei, aplaudido pela corte.
Tata Ngana não abdicou mas a sua vida e imagem ficou seriamente afectada. Deixou de ter vida pública como no passado. Tornou-se extrovertido e seus sorrisos apenas eram vistos nas sonenidades com monarcas estrangeiros que o visitavam ou quando retribuía visitas de cortesia. Até a água-ardente, sua predilecta água deixou de marcar presença na sala de trabalho.
Os largos sorrisos em companhia da família tinham desaparecido. A família e o reino estavam em retalhos. Faltavam as falas e Arra Gante embora arrependida dos dislates não conseguia reanimá-lo. Era apenas mais uma no palácio.
“Honra de rei lava-se com sangue”, comentava com os seus colaboradores sem nunca esmiuçar como lavaria a honra perdida.  Se investiria contra o Estado vizinho do Sul, se contra a sua consorte que não a apoiou se contra a oposição palaciana. Durante muitos meses e anos pensou calado em como resolveria a questão.
- Sacrificar a rainha Arra Gante? – Os seus botões aconselhavam que não! Seria tomado como sanguinário.
- Mover guerra e aniquilar o Estado atacante do sul? – sacrificaria o bem-estar da sua população e morreriam pessoas na guerra.
 
Diante do palácio real crescia uma figueira. Tinha sido plantada no dia da sua entronização. Já tinha dezena e maia de anos, sendo podada sempre com orientação vertical. Contava mais de dez metros. Tata Ngana olhou para a árvore, os figos e a alegria dos pássaros que a habitavam. Contrastava com a vida que levava nos últimos nãos.
- Vou entregar-me ao deleite e causar uma grande festa jamais vista neste Estado. – anunciou ao secretário do palácio.
Como quem empurrado pelos ventos e puxado pelos ancestrais, que o preferiram junto de si do que detestado por uma rainha e povo ingratos, Tata Ngana lançou-se aos figos que espreitavam o terraço.
- Buuuummmmmmmmm!
O secretário do palácio nem tempo teve para pedir socorro. O rei estava estatelado no pavimento térreo com as vísceras por fora.
Quando os bombeiros e o médico do Palácio chegaram Tata Ngana estava já sem vida. Uma missiva, no bolso do casaco, descrevia a sua ascensão e queda. Foi chorado durante meses e anos mas o reino de Magestic jamais conheceu dias áureos como aqueles vividos durante o seu reinado.

domingo, 1 de dezembro de 2013

NOVA GAZZETA PERGUNTA E SOBERANO CANHANGA RESPONDE

Entrevista reaçlizada a 22 de Agosto de 2013 

·        Depois de “Sonho de Kawia” e “Manongo Nongo”, o que  traz com os “10encantos” ?

·        Com o “10encantos” trago o lado e o grito poético que reside em mim. A fonte de inspiração continua  a ser a mesma: a sociedade e os seus contrastes. Porém, a forma de sentir e de narrar os factos é que mudaram.

·        Quando vai ser lançado e onde?

·        Em princípio, penso em lançar o livro na Lunda Sul, durante a semana do Heroi Nacional, por uma razão muito especial.  A minha produção literária é feita neste território que,  aos poucos, vai também ganhando leitores, sobretudo nas instituições de ensino superior em que colaboro. Temos feito um grande trabalho que visa incutir na juventude o gosto pela leitura e quero reconhecer este esforço e entrega da juventude com o lançamento, em primeira mão, de um dos meus livros.

·        Foi o jornalismo que o levou à escrita?

·        A escrita é anterior ao jornalismo como tal. Porém tenho dúvidas em aferir se seria capaz de chegar aonde consigo enchergar se não tivesse o jornalismo como profissão e vício. Continuo a dizer que a literatura é, em mim, uma extensão do jornalismo.

·        Quanto tempo leva para  escrever um livro?

·        Depende. É variável. Tudo começa como pequenos textos que vão ganhando forma ou que ficam na gaveta. Dos três livros já editados, “10encantos” foi o que durou mais tempo a escrever já que tem poemas do tempo do IMEL, 1993, e outros ainda do Ngola Mbandy, 1990. Sempre que publico um livro começo a escrever enquanto outro livro entra em revisão ortográfica. Isso permite-me ter sempre um em prontidão para entrar em produção, em caso de necessidade.

·        Geralmante onde é que busca inspiração para escerever? Qual é o momento do dia que mais o inspira? E onde é que escreve? Na praia, em casa, no escritório?

·        Todas as manhãs, encho a banheira e fico a meditar 20 a 30 minutos, em silêncio, pensando sempre em um tema do passado, do presente ou do futuro (imaginário). Depois traço os esboços ou as ideias chaves. À noite, depois dos compromissos profissionais com Catoca e com as Universidades em que colaboro, passo os esboços a limpo. Luanda é um território fecundo mas a redacção acontece normalmengte em Catoca, na Lunda Sul. 

·        É um homem de múltiplas actividades. A literatura para si é apenas um hobby?

·        Sim. Ainda não me sinto escritor, embora me sinta preocupado sempre que fique uma ou duas semansas sem escrever uma crónica. Também não tenho obcessão pelas coisas. A escrita acontece de forma espontânea e natural… Sem forçar e sem me sentir pressionado.

·        O que é ser escritor para si?

·        Ser escritor é, para mim, sentir de forma diferente o que sinto. Isto é, viver da escrita ou levar a arte muito mais a sério. Por isso, prefiro considerar-me apenas um contador de cenas.

·        Actualmente, o que o preocupa mais na literatura angolana?

·        Preocupa-me a falta de correcção no uso da língua pelos escritores emergentes, a falta de humildade em reconhecer que pouco se sabe da artes da escrita e do domínio das línguas e noto também a ausência dos mais experimentados para auxiliar os mais novos. Felizmente, não é o meu caso, pois tenho o José Caetano, Armando Graça e o Manuel Ruivo que sempre se mostraram disponíveis em me “puxar à orelha”. 

·        Hoje vão-se colocando alguns receios resultantes de uma aparente ausência de renovação geracional, entre os escritores angolanos. É uma questão real? Preocupa-o?

·        Considero que tudo acontece no tempo próprio. É obvio que se a minha geração estiver mais virada para a fama do que para a transpiração, os mais velhos a considerarão sempre como uma geraçãpo incipiente. Temos de nos aplicar mais naquilo em que nos propomos. Temos de mostrar que somos capazes de fazer a viragem, de continuar e aumentar o respeito que a literatura angolana já alcançou.  A questão que hoje me coloco é como fazer novos Aires de Almeida Santos, novos Agostinho Neto, novos Uanhenga Xitu, novos Viriatos, etc. É essa a questão que me persegue.

·        E o que pensa sobre a ideia comum de que os jovens escritores angolanos não sabem escrever?

·        Acho que não devemos generalizar em demasia. Reconheço que há alguma relutância de uns em se aprimorarem no domínio das línguas e da exposição artística das ideias.  Um texto literário ou para literário não é a mesma coisa que um texto não literário. Os primeiros têm de possuir elementos estilísticos que lhes conferem beleza e arte.

·        Já agora, o Prémio António Jacinto não teve vencedor pelo segundo ano consecutivo, e o argumento evocado pelo júri foi exactamente a falta de qualidade dos candidatos. Como olha para essa questão?

·        É uma pena que estando poucas vezes em Luanda ainda não tive a oportunidade de me candidatar. Vou no terceiro livro e nunca participei de tal prémio. Quero tentar para depois poder fazer um melhor juizo. Pode ser que os juízes tenham razão. A recíproca também pode ser verdadeira.

·        Que escritores angolanos tem como referência? Por quê?

·        Rodferick Neone, Isaqueil Cori, o incontornável Uanhenga Xitu, Jacinto de Lemos, Pepetela, Jofre Rocha, etc. São autores cujos escritos influenciaram a minha forma de encarar o mundo e a realidade. Já os li muito nos tempos do IMEL (curso de jornalismo) e continuo a lê-los.

·        Os angolanos não têm hábitos de leitura. Concorda? Há quem diga ser um falso problema.

·        Faltam hábitos de leitura, sim senhor! Houve um tempo em que os país se tinham demitido da missão de educar os filhos a ler. Já vi livros a serem rasgados para empacotar ginguba… Por outro lado, a carestia dos livros também afugenta quem quer ler mas não tenha dinheiro. No ensino médio, costumávamos emprestar os livros e em finais de anos oferecíamos e recebíamos livros. Também era obrigatório frequentar a União dos Escritores Angolanos. Não sei se a União ainda enche como nos anos noventa.

·        Que mecanismos devem ser usados para incentivar o hábito de leitura nos jovens?

·        Criar bibliotecas infantis é um bom caminho. Os pais devem ler para os filhos e diante dos filhos para que estes se orgulhem e lhes sigam o exemplo.

·        É fácil editar um livro em Angola?

·        Não. Ou se tem dinheiro para pagar ou se arranja patrocínio ou você é excelente e cai nas boas graças de uma editora que assume os custos na totalidade. A última vertente é a mais difícil.

·        Literatura na política, literatura politizada. Estas expressões existem, no contexto angolano? Que lhe dizem?

·        Já li alguns livros evocativos que me deixaram confuso se aquilo era literatura ou propaganda… Sendo apenas um amante da literatura e não um crítico, deixo essa tarefa aos especialistas para julgarem.

·        Que conselhos deixa a quem está à busca de uma oportunidade para mostrar o seu talento e entrar no mercado literário?

·        Que domine antes a língua em que vai trabalhar e leia muitos autores e diversificados estilos. É o que estou a fazer.

·        Tem projectos literários para o futuro?

·        Muitos. Tenho um livro em revisão ortográfica (“Predestinados” que já tinha anunciado com o título “Relógio do velho Trinta). Tenho ainda “As travessuras do Jacinto” e escrevo outras coisas que podem evoluir para esboços de livros. Não paro de escrever uma coisa ou outra.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

MENINAS, MINAS E DINHEIRO

- É mentira! É verdade! – A disputa punha jovens na flor da idade em dois campos opostos. Cada grupito puxando a sardinha à sua brasa.
A conversa sobre meninas e minas já levava hora e a aula de economia não ganhava pernas para começar. Professores e alunos passavam em revista os últimos acontecimentos e as últimas noticias divulgadas pela media.
Inspirando-se em Arlindo Barbeitos, Kexijina Lamba, que já estava farto da certas conversas sobre minas, pediu ao professor e aos colegas para ler um texto que tinha escrito na última noite, depois de ouvir mais uma estória cabeluda sobre minas que disputam a maternidade angolana em termos de números.
 E começou:
“Há muitos anos houve em tempo em que o pais foi minado pelos militares de diferentes exércitos  que aqui se pleitearam por várias razões e convicções. Minaram os tugas que tudo fizeram para não serem corridos do país que lhes era alheio, minaram os movimentos de libertação nacional que pretendiam acabar com cinco séculos de domínio estrangeiro, minaram os rebeldes do pós-independência, minaram as forças do Governo da República Popular e minaram os exércitos “socorristas” de África, América e Euroásia.
Há muitos anos houve um tempo em que se dizia que havia uma mina para cada um dos angolanos e que restavam umas tantas outras para estropiar quem cá encontrasse poiso…  E o sermão das minas levado de rádio em rádio, de jornal a jornal e de televisão em televisão passou de boca em boca como o passa a palavra das forças armadas em combate contra a verdade das minas.
Mina por cá, mina acolá até que o povo deixou de fazer agricultura com medo delas. As cinturas verdes que noutros países em situações análogas de conflito eram normais e crescentes tinham desaparecido pois  aqui só faltam existir minas voadoras como os aviões de comida importada pelos próprios propagandistas das minas. E os miúdos que nasciam desconheciam a jingubeira e o milheiro, pensando que a jinguba fosse uma invenção fabril ou das lojas dos “governantes mineiros” e o milho procedente duma planta chamada PAM.
Há muitos anos houve um tempo em que, preocupados com as notícias sobre as minas, vieram de todos os cantos ONG´s calejadas em localização e desactivação de engenhos. Desminaram falácias sobre minas à volta das cidades que impediam a horticultura , a avicultura e a pequena pecuária refugiada no medo crescente dos engenhos. De repente as cidades começaram a produzir. Couve-flor, aguardente e frutas também. Tubérculos, ovos e leite também. E os homens dos discursos mineiros cedo se tornaram em novos evangelizadores do verde periurbano, tornando-se donos . Roncaram moto-bombas, desviou-se água da boca para a raiz da hortaliça. Mas as minas continuaram milhares e impossíveis de erradicar no interland, agora com novos donos e vítimas de sempre e como os discursos de sempre.
Há muitos anos houve um tempo em que se apregoou que as minas, mesmo aquelas implantadas em zonas onde nunca houve presença militar precisavam de ser desactivadas, explodidas ou apenas transformadas em outras minas cabíveis em bolsos gordos de verdura americana. E se condicionavam agricultura extensiva, estradas distantes, cidades largas, tudo se condicionava às minas por estancar dando lugar a outras minas.
Há muitos anos que se vai desminando, sempre que se plante uma mandioqueira, um poste de energia periurbana, um prédio urbano, uma cantina agrícola. As minas tornaram-se também minas no decénio da probidade que enfeita discursos repletos de minas que dão transbordo a bolsos de dezenas que se riem ad eternum, a desfavor de milhares de mutilados por falácias e repletos de fome e nudez causado por minas.
Há muitos anos houve um tempo em que os engenhos implantados pariram minas!”
Kexijina Lamba terminou, com aplausos, a composição que tinha sido o tema para trabalho caseiro que consistia em reflectir sobre o impacto das minas pessoais na economia do país.
Kexijina Lamba terminou, com aplausos, a composição que tinha sido o tema do trabalho caseiro que consistia em reflectir sobre o impacto das minas pessoais na economia do país.