domingo, 1 de junho de 2014

O MACHIMBOMBO DAS TRÊS

No terminal inter-provincial do Baixo-Nordeste as luzes estavam todas apagadas. Sim. Isso mesmo. Apesar de algumas lamparinas e luzitas de camiões articulados, estacionados na berma para usufruir de uma aparente segurança, a empresa e os cérebros iluminados estavam todos apagados. O guarda dormitava embriagado na caserna construída para o serviço de informação ao cliente, enquanto os demais funcionários escalados para aquela noite, já a ceder o espaço à madrugada do dia seguinte, “espalhavam sémen pelo bairro circundante ou sugavam o último calor de tetas moribundas de suas donas”. Era o que mais se ouvia, quando a pergunta fosse “onde anda o pessoal de atendimento”?
 

- Ó, meu filho, não liga. Foram todos namorar. O guarda saiu daqui há já bom tempo. Está todo enfrascado que mal consegue se erguer. - Respondeu uma senhora já de idade, repousando numa cadeira portátil de praia.

No quintal, vasto e fedorento da estação, era o chão másculo que recebia os que tinham acabado de chegar. Homens emagrecidos na viagem, mulheres com os pés engordados no machimbombo e crianças que cresceram durante as 24 horas de viagem estavam ali atirados. Todos sem informação, sem serviços mínimos para a higiene íntima, nem um chá quente sequer. Os mil quilómetros de estrada, do oeste ao leste, tinham consumido uma tarde e um dia inteiro.

- Partimos ontem, sexta-feira, pelas 17 horas, e só hoje chegamos, quando o relógio apontava já 22 horas. Tivemos uma avaria pelo caminho e o socorro demorou a chegar. A estrada também, manos, não ajuda muito. Até parece que há mais buracos na estrada do que asfalto. Então, com a chuva que choveu nesse mês que acabou na semana finda, nem vos conto … – Narrou um jovem, ainda desperto, que se juntou ao Mário e Santiago que ali se dirigiram para esperar por um colega cujo machimbombo tardava em chegar.

Santiago e Mário moravam longe da cidade. Habitavam num vilarejo interior que ficava a 40 quilómetros da urbe principal e levavam já quatro horas de espera. O passageiro em falta tinha partido as 3 horas da manhã de sábado, com chegada prevista para as 5 ou 7 da noite do mesmo dia. Era o tempo que levava a transpor os cerca de mil quilómetros entre o oeste e o leste daquele país planáltico e recortado por abundantes rios caudalosos.
No interior do quintalão, os que chegavam e os que pretendiam partir procuraram, sem sucesso, por alguma alma viva que lhes pudesse iluminar com alguma informação sobre as chegadas e partidas de machimbombos. O que os dois amigos, Mário e Santiago, encontraram eram passageiros sem hora de partida e familiares sem informações sobre a hora de chegada dos seus já desesperados parentes.
- Boa noite, senhor. Pode dar-me informação sobre as chegadas desta madrugada? – Perguntou Santiago a uma tripla de homens que esticava os troncos, encostados a um machimbombo. Já passava meia hora de domingo.
- Boa noite, meu mano. - Respondeu um dos três, o que estava melhor agasalhado. – Até já é bom dia. Já reparou o relógio? – Corrigiu, antes de responder que “não vi nem guarda, nem recepcionista, nem ‘macânico’, nem motoristas. Todos se escapuliram daqui”.
Enquanto Santiago procurava pessoas para prosear, a fim de acabrunhar o frio, Mário fazia diligências. Reparou que no outdoor colocado à frente das instalações anunciavam-se dois números de telefones.
- Vou ter de ligar para a capital ou sei lá aonde para pedir informações sobre o autocarro que partiu as 3 horas da manhã. - Disse para si mesmo, chamando depois pelo amigo.
- Santiago?
- Diz, brô[1]. Achaste alguma informação? – Questionou Santiago que batia ligeiramente à janela da casota onde se desconfiava estar o vigilante ou qualquer outra pessoa ligada à empresa de transportes rodoviários.
 
- Nada disso, Santiago. Isso aqui não tem SIC[2]. Encontrei números telefónicos do SAC[3] e vou tentar fazer ligações para quem quer que seja. Emprestas-me o teu telefone?
 Santiago abandonou, por instantes, a sua pesquisa pelo interior da estação e dirigiu-se ao amigo que se mostrava mais impaciente e mais friorento do que ele.
- Toma o telefone e prepara-te para dormitar na carrinha. Só espero que não ressones nem sonhes com a comadre... – Galhofou.
Mário discou para o primeiro número. Soletrou dígito a dígito para não se enganar 89-3-6-7-8-9-1-7-3 e a secretária electrónica respondia peremptória: “esse número está desligado ou numa área sem cobertura”. Muxoxou[4] demoradamente e tentou ainda a alternativa 12-2-6-2-1-3-5-0-4 que não saia do “pim, pim, pim, pim”… e nunca mais.
- Entreprise abeti indif! [5] – Exclamou Santiago no seu lingala[6] ainda bem conservado, apesar de duas décadas longe do Congo Kinshasa que acolheu a sua infância e juventude enquanto refugiado.
Riram-se perdidamente que quase se abraçaram. De longe, e aos olhos de estranhos, pareciam meninos da primária caminhando descontraídos para casa e com o pensamento centrado no lanche. Ao Mário e ao Santiago era o paradeiro do último machimbombo que ocupava o pensamento. Estava há já 22 horas com paradeiro incerto. A informação mais recente, recebida ainda ao meio do dia, apontava que tinha sofrido uma avaria a meio do percurso, entretanto, já socorrido por um outro enviado da Matamba.
- Santiago, vamos procurar água para lavar o rosto? – Provocou Mário.
- Tu, mas’é, queres whisky. Só que a esta hora só encontras guardas dorminhocos e fantasmas nas cantinas. – Atirou Santiago que se tinha juntado a outros dois passageiros do machimbombo chagado há poucas horas.
 - Sabem, môs kotas. - Atirou Gaspar, quarenta anos mais ou menos. – Na capital, sou operativo numa empresa de segurança. Certa vez, eu estava no meu posto e do outro lado da estrada um ‘bardeado’[7] também no posto dele. O mwadye[8], depois de passar por um tira-kawelele[9] e uma pica[10], entendeu retirar o carregador da arma e guardá-lo na sacola que tinha ao lado, colocando a lenha[11] atrás da cadeira em que adormeceu. Sabem o que lhe aconteceu?
- Não! - Responderam Mário, Santiago e o outro rapaz que lhes fazia companhia.
- Pois é. O pior estava por acontecer com o segurança que nunca foi operativo. Estão a ver aqueles miúdos que andam à toa na cidade capital, né? Os miúdos, tipo saiam duma festa, quando viram o manga[12] a roncar, tipo é IFA carregado a subir montanha, pegaram na pasta e zás. Zarparam[13] com a pasta e o carregador da mutimba[14].
- E quando o segurança acordou? – Questionou Mário cada vez mais interessado no desfecho da cena.
- Kota, aquilo é que foi o puro filme. – Prosseguiu Gaspar, embalado pela atenção que lhe era debitada. – Só vi já o mwadye a revistar toda a rua. Pegava aqui, pegava ali, espreitava acolá, revistou até o tecto da casa, mas a sacola nada.
- E tu? - Perguntou desta vez Santiago.
- Eu sempre no meu posto a travar kibidi[15] com um comando de mosquitos. – Ironizou Gaspar Kwosi Tenda, um antigo militar da revolta pós-independência. 
- E tu não o avisaste da situação? - Interrompeu mais uma vez o Mário.
- Nada, kota. Essa vida de segurança, cada um fica no seu posto. Você tem que estar concentrado apenas no objectivo que te foi dado a guardar. Mas vou continuar. Posso? – Perguntou Gaspar, buscando mais atenção para o fim da tragédia.
- Podes. Responderam desta vez os três ouvintes, formando um coro.
- Yá, kotas. A pura dica foi quando o supervisor dele chegou, na hora da renda. O gajo não sabia se inventava um assalto no posto dele, se se enterrava no chão ou se fugia. Foi despedido mesmo já ali. O supervisor mandou-o descalçar as botas, entregar a farda e os passadores e terminou o contrato.
Um silêncio momentâneo apossou-se dos quatro homens que ficaram a reflectir sobre aquele trágico desfecho da cena, embora ninguém tenha voltado a questionar. A narração de Gaspar tinha sido límpida como as águas do Longa superando curvas e pedras no seu percurso mais agitado.
No alpendre em que se acoitavam os recém-chegados do penúltimo autocarro, os monas[16] amontoados choravam e cheiravam. Aliás, estavam todos ofegantes. Há mais de 30 horas que não faziam sequer higiene íntima, exceptuando as senhoras mais avisadas e calejadas nessas andanças que levam sempre consigo garrafitas de água e toalhitas desodorizantes para afugentar os kibuzos[17] mais salientes. De resto, os homens e as mulheres acabados de chegar, e que procuravam enganar o sono naquele chão duro, cheiravam todos a gato bravo ou a mijo. Teriam de aguardar pelo novo sol dum domingo ainda embrionário para se dirigirem à casa de familiares ou pegar outro carro para o destino final.
Ainda naquele terminal de partidas e chegadas de gente proveniente de vários pontos cardeais e colaterais do pais, a criatividade da juventude habituada a viver de remendos e improvisos, tinha-os levado a baptizar o último autocarro que partira da capital, no oeste, de “o machimbombo das três”. Era o tal machimbombo que mais reunia pessoas naquela estação, dada a incerteza do seu paradeiro. Homens buscando por mulheres, mulheres buscando por maridos e ou filhos, velhotas de idade desconfiando de um acidente pelo caminho, etc. Eram permanentes os registos sobre sinistros rodoviários e as mortes nas estradas superavam todas as outras causadas por doenças conhecidas e desconhecidas. Até o paludismo, que sempre ganhou a eleição da doença mais mortal do país, tinha caído para a “segundona”.
“O machimbombo das três” já tinha notícias embargadas nas redacções dos media, aguardando apenas pela confirmação da sua desgraça ou localização distante.
- “Autocarro desaparece com mais de 60 pessoas a bordo.” - Intitulara o “Vespertino”, jornal que saia 3 vezes por semana.
- “Sangue e luto na estrada.” Escrevera o editor da “Rádio Kuribota” que detém a maior fatia da audiência na cidade.
- “Despiste (?) ceifa vidas a XX pessoas na estrada Oeste-Leste.”- Era o título da estação televisiva “Izuzumbya” que emitia em sistema aberto e que tinha já comentadores contratados para o show off de sempre.
 
Apesar de madrugada, a cidade registava um movimento anormal. Os jornalistas, sem parar, passavam de hora em hora, caçando desgraças alheias para alimentar os seus públicos. Nas redacções de notícias ensaiavam-se os títulos mais sonantes. Era disso que viviam os “mujimbeiros”[18], como lhes chamavam os mais ortodoxos da cidade de Kacongona, já cansados de notícias sem valor acrescentado. O jornalismo tinha se tornado numa profissão banal, confiado a jovens sem preparação técnica nem linguística. Até os fazedores de opinião não passavam de “spin doctors”[19]  que verbalizavam discursos de gente endinheirada e interessada em desinformar e criar uma pseudo mentalidade e identidade alheias aos princípios dos povos daquelas terras bantu.
 
Ainda sem encontrar quem os pudesse informar sobre o “machimbombo das três”, Mário, aproveitou-se duma situação que acabara de assistir debaixo dum eucalipto e contou também a sua estória para aliviar o fardo do tempo.
- Epá! Já viram o cão a urinar? Sabem por que o cão levanta a perna e a cadela baixa-se toda ao fazer as necessidades menores?
Santiago, Gaspar e o jovem que não se tinha identificado estavam curiosos e seguiam atentos a explanação do Mário.
- Conta, queremos saber. – Solicitaram quase em uníssono.
- Pois é. Conta-se que há muito, muito tempo, os cães, para além do instinto, também tinham um pouco de racionalidade. Numa casa abandonada duma fazenda, um cão e uma cadela caçavam lebres. A certa altura, a cadela sentindo-se com a bexiga cheia baixou-se junto a uma parede que já estava a ruir para urinar... (Mário fez pausa para encher os pulmões de ar fresco) … Não é que a parede caiu por cima da cadela?! O cão visionário, daquele dia em diante, passou a levantar a perna para impedir que parede nenhuma lhe venha cair por cima na hora da susa[20].
- Kiá, kiá, kiá… - Riram-se perdidamente os quatro companheiros de ocasião.
 
O tempo passava despercebido. Cada um tinha contado uma cena. Era a alternativa à falta de um placar informativo, ausência de pessoas físicas e de um televisor para entreter quem chegasse sem possibilidades de ir para casa, aqueles que esperavam por familiares e aqueles que estavam de partida mas sem informações sobre a hora de saída. Fazia frio, apesar de o cacimbo estar ainda a 96 horas do seu dia oficial. E aconteceu mesmo. Só quando os galos estavam já fartos de anunciar o novo dia, chegou o “machimbombo das três”. O dia de domingo carregava já duas horas.


 Obs: Texto publicado pelo Jornal Cultura



[1] Do inglês brother, equivalente a irmão.
[2] Serviço de informação ao cliente.
[3] Serviço de atendimento ao cliente.
[4] Fez um estalido bocal em jeito de reprovação ou desagrado (do kimbundu muxoxu).
[5] A empresa acobardou-se.
[6] Língua falada na República do Congo Democrático e por algumas comunidades angolanas.
[7] Alusão a indivíduos pouco instruídos ou sem experiência no que fazem (calão de Luanda).
[8] Indivíduo.
[9] Alusão à bebida alcoólica forte para afugentar o frio.
[10] Lyamba, maconha, marijuana.
[11] Alusão à arma de fogo sem o carregador de munições.
[12] Indivíduo.
[13] Meteram-se a lume, fugiram.
[14] Arma de fogo.
[15] Luta.
[16] As crianças, filhotes (do kimbundu).
[17] Odores fedorentos.
[18] Linguarudos (do kimbundu mujimbu).
[19] Falsos doutores com discursos encomendados.
[20] Lê-se sussa (do kimbundu ku susa=urinar).


 
 

quinta-feira, 15 de maio de 2014

O ÍNTIMO DE BRIGITE E O SORRISO A ANGOLANA

Apesar da chuva que caiu em Saurimo, na tarde de sábado, 08 Fev. 2014, cerca de meia centena de pessoas presenciaram ao acto de apresentação do poemário de Brigitte Caferro, realizado no Cine Chicapa, com a presença da Governadora da Lunda Sul, Cândida Narciso, que se fez acompanhar de dois vice-governadores e do director provincial da cultura. Soberano Canhanga, também poeta  e  prosador, foi convidado para a apresentação crítica do livro, começando por recitar um poema que escreveu para homenagear a autora e as senhoras presentes:

“SORRISO A ANGOLANA

Nesta sala que me acolhe
No consagrado teu dia

Percorre-me a memória
Os sorrisos mais luminosos que me brindaste
Mesmo multi-atarefada
Mesmo preocupada
Entre emprego e família dividida
TEU SORRISO SEMPRE PRESENTE

De dor gemendo, aflita,

Sonolenta,
De noite mal dormida
Do mona adoentado
Moída pelo trabalho
Pelas lidas caseiras
Cuidando marido ressacado
Ou desviando patrão mal-intencionado
TEU SORRISO SEMPRE PRESENTE!”


Ø Excelências, amigos das artes e, sobretudo, da literatura.
Ø  A minha saudação especial às nossas mães, razão da nossa existência.
Ø Vénia redobrada à Dra. Cândida Narciso que nunca deixou de estar presente num acto de lançamento de livros em Saurimo, dando assim exemplo de que a sociedade só cresce com conhecimento.

A nossa escritora tem como nome artístico Brigitte Caferro, sendo de nome próprio Brigite Causse Caferro. Nascida aqui mesmo em Saurimo, em meados da década de 80 do século passado, é formada em Administração pela Universidade Federal de Paraná, no Brasil. É cantora, artesã e escultora da palavra, sendo este “do meu íntimo mais íntimo” o seu primeiro “artefacto” literário. Brigitte Caferro também pode ser lida na antologia “Amores diversos”, publicada no Brasil, em 2012, bem como na “Folha Carioca” onde ilustrou com um poema a matéria “literotismo”.
O meu primeiro contacto com Brigitte foi pela via do FB, e já quando tinha terminado de ler o seu livro que me fora enviado para essa empreitada difícil que é apresentar o livro às senhoras e senhores aqui presentes.

 Confesso, que quando recebi o convite do grupo Hytweza para comparecer nessa cerimónia de apresentação do poemário de Brigitte, o sentimento foi de satisfação por ser eu um amante fervoroso das letras e incentivador da cultura da leitura e escrita entre os jovens. Embora acometido por uma lombalgia, aceitei o convite. Porém, um calor interior invadiu-me quando me foram pedidos conselhos sobre como organizar um lançamento de livro. Opinei, mas fiquei receoso que algo sobrasse para mim. Assim pensado, assim solicitado. Senti-me criança perante tamanha responsabilidade, embora honrosa e irrecusável.
Estamos aqui dois estreantes. Ela na publicação e eu na apresentação crítica de um livro. A minha missão se torna ainda mais difícil pelo facto de o livro trazer já uma apreciação crítica de Ricardo Alfaya, um escritor, crítico literário, revisor e editor, como se poderá ler na pág. 07 (elementos pré-textuais da obra).

Ø   Queridas mamãs, queridos papás, caros jovens,

Um estudo realizado recentemente pelo investigador Tomás  Lima Coelho, sobre a literatura angolana e feita pelos angolanos, actualizada nesta última quinta-feira, aponta que, de 1849 (ano em que foi publicada a primeira obra de um angolano), a esta parte, o número de escritores nascidos na Lunda Sul ainda NÃO CHEGA A DEZ. São apenas SETE, contando já com a nossa caçula Brigitte Caferro, Sendo que o primeiro lundasulino a publicar um livro em Angola foi o Professor Dr. Vítor Kajibanga com “A alma sociológica na ensaística de Mário Pinto de Andrade, em 2000”. A ele se seguiram Bula Mbungue, Elias Chinguli de Oliveira, Fonseca Sousa, Raul Luís Fernandes Júnior e Valter Hugo Mãe (este último nasceu aqui em Saurimo mas vive em Portugal desde 1976). Brigitte é, portanto a primeira lundasulina a publicar um livro, já que, dos SETE naturais desta província, seis são homens.

Preocupados, vamos fazendo apelos e vamos tomando iniciativas como a criação do Núcleo de Leitura e Literatura, na Escola Superior Politécnica da Lunda Sul, que, desde já, convido todos os jovens a frequentá-lo.

Ø   Ilustres senhoras e senhores,
Já vai sendo tempo de começarem a surgir novos valores na Literatura da Lunda Sul. Precisamos que surjam mais Brigitte Caferro. Pessoas que façam da escrita “a fotografia do coração”, conforme nos recomenda a nossa autora no seu poema ARTISTA (pág. 81). “Solte-se a palavra, por meio da escrita. Escreva-se, reescreva-se”.

Brigitte Caferro não vem fazer número. Vem preencher o seu lugar e trazer vida à criatividade artística na Lunda Sul. Vem dizer que é possível desde que se tenha a palavra e a coragem de a esculpir conforme nos ensina nas páginas 05 e 06.“Escrevo desde os meus 13 anos. Anotava num caderno e por questão de segurança passei a digitá-los. Com o evoluir do tempo fui evoluindo a linha de pensamento e melhorei a escrita… Quando senti que a minha sensibilidade artística era muito forte, decidi escrever e publicar esse livro”. Aos jovens, candidatos a escritores, aqui está o conselho mais do que claro. Ser escritor não é algo que se consiga de dia para noite. Exige inspiração e, acima de tudo, transpiração. Muita transpiração para dar forma à palavra.

Nos seus 76 poemas, Brigite apregoa, acima de tudo, o amor, o ser e a sociedade. A escrita de Brigitte é, sobretudo, intimista. É o seu grito ao encontro do “nós” social. A fotografia desta poesia intimista pode ser encontrada na pág. 17 “Dois corpos e uma paixão” ou ainda na pág. 21 “Vem amor/com teu fogo/causar-me curto circuito… /com teu cabo de alta tensão/ fazer-me conexão…”.

Nos “amores de Brigitte” encontramos também dilemas. A antagonia entre o estar juntos e compreender/enfrentar a separação. A ansiedade, o desejo de regressar e de reconquistar colos… Próprio de quem se encontre distante dos seus. Próprio dos migrantes.

Brigitte mostra-nos com surrealismo, na pág. 25, em que diz viver num “mundo de sonhos” onde o ”maior pesadelo é a realidade” de um dia “encontrar-te”. Em oposição, na pág. 20, Brigitte fala sobre o fim do tempo ou o fim da missão, mais quando tempo não houver para o “abraço final”,  quando deixarmos de “dividir a sala, sorrisos e futuros”…
Considero a poesia de Brigitte Caferro, como desabafos da alma que nos chegam por via da escrita. Neles, impera o verso livre, não se destacando formas tradicionais como o soneto, as quadras e as métricas, etc. Encontramos porém elementos metalinguísticos, próprios do género literário. E, Brigitte também reinventa a língua com que trabalha no seu “íntimo mais íntimo”. Bastará ler o “penso, repenso e tripenso” (pág. 27), ou ainda elementos como a rima em “chamas-me p´ra cama/mas não me amas/ És o fantasma/que corrompe minha alma” (Pág. 53).

A anáfora e a gradação, outras características deste género, também estão representadas em vários textos como “Quero voltar a ser criança…/Quero voltar ao passado/… Quero regressar à meninice…/(pág. 56).
No “íntimo mais íntimo” de Brigitte nota-se também o recurso à personificação e a expressões metafóricas como se pode conferir em “As luzes revelando segredos sombrios/no palco da cidade adormecida” (pág. 97) ou ainda o pintar “… na tela da alma/amores, sonhos e ilusões…”

Outra questão, não menos importante, é o facto de a angolana Brigitte Caferro, ter escrito com base no discurso brasileiro da língua portuguesa ou aproximando o discurso ao AOLP de que Angola, por razões óbvias, cultural e socialmente ponderáveis, ainda não aderiu.
Grande parte da produção científica e intelectual, escrita em Língua Portuguesa, vem do Brasil e de Portugal, sendo o país americano, aquele que mais falantes possui. Daí, a necessidade de um apelo aos jovens, aos professores das nossas crianças. Escrevam de acordo ao português padrão, aquele convencionado até hoje, mas não deixem de estar atentos às regras do AOLP, para que tão logo os linguistas e os políticos se entendam não fiquemos na fila de trás, quanto à aplicação das novas regras.

Quero agradecer a Brigitte Caferro pela ousadia que teve em trazer-nos os seus gritos da alma e pedir que não se embale nos elogios que esteja ou vá receber. Continue a cultivar-se e a polir a palavra. Vá lendo os clássicos da literatura lusófona e, sobretudo, aqueles que reinventaram a língua como Fernando Pessoa, Eça de Queirós, António Jacinto, Alexandre Dáskalos, Agostinho Neto, Alda do Espírito Santo, entre outros. Vá também tutorando os jovens que a vão procurar para dar forma aos seus textos. Somos poucos para a grande empreitada que é desenvolvermos a nossa terra, a nossa Lunda Sul, a nossa Angola.
Para terminar,
Precisamos que surjam mais jovens como Brigitte Caferro. Pessoas que façam da escrita a fotografia do coração. “Solte-se a palavra, por meio da escrita. Escreva-se, reescreva-se”.

Tal como recomendou, uma vez, o já finado mais velho Mendes de Carvalho, a quem rendo homenagem, “os jovens não precisam de ter pressa em publicar. Devem antes cultivar-se”. Porque a literatura adiada não apodrece. Ela amadurece.
E já que estamos a comemorar o dia internacional da mulher, com a apresentação do livro de uma jovem mulher, por que não irmos à página 75 e desfrutarmos do poema Mulheres?

“Dos seios/liberam as mulheres/ a essência-fragrância/que hipnotiza os homens/e que os leva ao êxtase!/ Doces como teixos/ as mulheres precisam ser/irrigadas e acariciadas/ Também mimadas/amadas e protegidas/ para que não se tornem venenosas”.
Muito obrigado,

SOBERANO CANHANGA (Jornalista e escritor)
Saurimo, 08 de Março de 2014.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

A TUTELA DOS SOBREVIVOS


(Conto adaptado)
 
Um homem de negócios, com três irmãos mais novos, casado e pai de quatro filhos, morre num acidente de aviação.

Kexi Jina era a figura mais influente da sua família e comunidade. Sempre velou pela harmonização familiar e educação dos seus. Os seus filhos: Lamba, Maka, Vitangi e Neso frequentavam as melhores escolas, juntamente com seus primos.

Preocupados com a educação de seus quatro sobrinhos, Mukwasenu, Mucinenu e Mukwatenu, os irmãos do finado, reuniram-se para acertar como proporcionar uma educação aceitável dos meninos órfãos.

Chegados à casa de Kexi Jina, o finado, e junto da viúva, Mukwasenu anunciou que ficaria com os sobrinhos Lamba e Neso. Mucinenu não mugiu nem tugiu. Dele apenas se ouviu silêncio.

Mukwatenu, o irmão caçula, embora estivesse ainda a formar-se e sem vida estável ou estruturada, decidiu tomar Vitangi como sua protegida.

- Manos, não vejo outra solução senão levar a sobrinha Vitangi para minha casa e crescermos juntos. Onde eu comer, onde eu dormir e onde eu tirar para estudar ela também usufruirá, pois este foi o sonho do nosso finado irmão, ter os filhos e os sobrinhos todos formados. - Disse, ao que Mukwasenu, irmão mais velho, concordou e elogiou.

De Mucinenu, irmão intermédio, nada se ouvia. Maka estaria condenada a ficar com a mãe que já decidira voltar ao Congo Democrático, sua terra de procedência.

Perante tal situação e quanto o irmão mais velho fazia as contas e já bastante chateado pela falta de atitude de Mucinenu, Mukwatenu voltou a anunciar:

- Já que para o mano "Muci" não abre a boca, levo também a "Kamaka" juntamente com Vitangi e assim a cunhada fica mais aliviada. Vamos dar a educação familiar e a formação que o mano Kexi Jina sempre desejou para seus filhos e sobrinhos. - Rematou, ganhando uma salva de palma por parte de Sambukila, a viúva, e do irmão Mukwasenu.

No seu canto, cachimbo na boca e boina ligeiramente inclinada, a cobrir-lhe parte do rosto, Mucinenu parecia distante daquele cenário. Não tinha emitido sequer uma opinião. Quando todos os dois manos se preparavam para se despedir e anunciar os dias em que voltariam para levar os sobrinhos, Mucinenu pediu a palavra.

- Alto ai! Um momento. Também quero falar.

- Falar o quê, se quando devias ter tomado decisão não o fizeste e forçaste o nosso irmão caçula a assumir uma responsabilidade para a qual não está preparado? Não tens direito a palavra e não amasses a nossa paciência. - Repreeendeu Mukwasenu, o mais velho entre os três.

- Não, mano, por favor. Deixe-me falar, suplicou Mucinenu.

- Mano vamos ouvir o que ele vai falar. Mesmo sabendo que nada alterará o que já aqui foi decidido. Só espero que não venham poucas vergonhas dessa boca. - Ironizou Mukwatenu.

- Ok. Vocês se dividiram os sobrinhos. Tudo bem, eu concordo. E quem vai ficar com a viúva? Deixaram-na para mim? Se é isso que vocês pretendiam, eu aceito e fico com ela!

quarta-feira, 30 de abril de 2014

MATO OU MORRO


"Me larga. Ó mana, me larga só. Tira a mão da minha camisa, pode rasgar. Estou a falar ´mbora a minha verdade. Não te fiz nada de mau, não te devo dinheiro, nunca te maldisse, nunca entrei na tua casa... por que me persegues e me prejudicas, ó mana desgraça?"
A música expelida pelos altifalantes soava alta e as pessoas, que já se acotovelavam para passar naquele beco estreito, tinham de se esforçar ao máximo para perceberem outras conversas sobre a chuva que tinha arrasado a aldeia de Wanda. Na phela do soba, nas abcissas das ruas, no arreió-arreió e até nos leitos mais íntimos das casas era a dona chuva que estava nas conversas.
Matadidi, o mecânico da aldeia, tinha perdido o carro dum cliente arrastado pela fúria da água que descia da kamunda ao riacho, levando tudo o que encontrara pelo trajecto. Nela do Pacote, a mulher mais encaixotada da aldeia de Wanda, teve de se pôr a nado para salvar o mona que engolia já litros de água, enquanto ela e o amante navegavam entre prazer e mar chuvoso...







Pretendo escrever um livro com esse título e essa iniciação. Quero inspiração e força para a transpiração necessária na arte literária. Haverá mão caridosa para uma bolsa de criação para neófitos como eu?

terça-feira, 1 de abril de 2014

À DERIVA

O desabafo bruto e cru daquele homem de meia idade tinha deixado meio mundo boquiaberto. Melhor porque foi em mar abeto. Na terra, uma tirada como aquela e saída da boca de quem saiu teria um imediato catálogo herege.
O barco em que seguiam andava à deriva havia já muitos pares de anos. Todos os avisos das cercanias e de radares externos tinham sido pura e simplesmente ignorados. Embarcações em situações análogas há muito tinham afundado ou mudado de comandante. Navio como aquele e tripulação como aquela já se contavam aos dedos de uma mão pelo mundo oceânico, onde os ventos turbulentos coligavam com os tubarões de todos os dia.
Martins, o homem do desabafo, era marinheiro há já três décadas. O seu apego pelo mar é natural. Nasceu à beira duma ria e cedo seus pais se mudaram para uma ilhota do Índico, até que, numa noite de poucas estrelas, o mar rugiu e fez juntar as águas de todos os lados. A casota de palhas de palmeiras e mafumeiras foi abraçada pela água furiosa. Martins perdeu o irmão das brincadeiras e a mãe dos fervidos e assados. Viu-se apenas ele e o pai flutuando sobre o mar deserto, apoiados em velhos destroços duma antiga piroga.
- Papá, o mar atingiu-nos. – Disse Martins tão logo se deu conta da situação calamitosa em que se encontravam.
- Sim meu filho. O mar atingiu indelevelmente nossas vidas. Comparado a isso foi apenas o fascismo do início do século. - Respondeu José, o pai.
Vivia-se o século vinte. Bem no começo da segunda metade. Os náufragos lutaram contra as águas raivosas e o vento furioso e um sol assador, até que ao cabo de sete horas sobre aquele dilúvio fizeram-se à terra firme. Eram heróis aos olhos do povo que perfilava a costa e que já tinha preparado oferendas à Kianda, mãe de todas as sereias  daquele mar agitado.  Era a forma habitual de impedir que mais mortes acontecessem.
Lukinda, de seu nome de nascimento, viu-se apelidado por Martins, uma corruptela de “mar tingiu-nos”. E assim ficou conhecido e reconhecido agora como marinheiro de incontáveis milhas.
O navio já levava anos à deriva no Índico. Martins era capitão. O comandante era Sam Téh. Homem hábil nos tempos que já lá se foram, mas que se apresenta agora com o cérebro calvo e fragilizada pelas calemas que sempre o apoquentaram durante os dois séculos cruzados pela sua vida. Embora Martins fosse pessoa influente e homem de argumentos que incentivavam os co-viajantes a se manterem no barco até às últimas calemas, era Sam Téh que tomava as decisões e a quem todos deviam obediência.
Sam era duma crueldade que alimentava os tubarões com os seus marinheiros revoltosos. Em terra firme a capitania já o teria apeado do leme. Mas em alto mar, e com o navio sem bússola e sem terra à vita, a ninguém mais Sam prestava atenção senão ao seu próprio ego. E não foram poucos os capitães promovidos e despromovidos por erros do Comandante mas sempre imputados a Martins e pares.
Na sua vida de marinheiro, Martins já fora herói e vilão. Soube sempre coabitar com o mel e fel naquele navio. Em tempos de bom vento, fora inclusive elevado à categoria de Vice-Comandante. Foi descendo, descendo, devagar, devagarinho até se deparar com a condição de simples passageiros. Era isso que não entendia por mais esforço que fizesse.
- Está difícil manter o Estado neste barco. – Desabafou Martins perante a multidão que planejava a destituição do Comandante e encontrar um comandante que os levasse a porto algum.
- Mas ó camarada Martins, você não faz parte da tripulação? - Questionou  Taci, um crónico insatisfeito.
- Não meu senhor. Já fiz o que pude fazer enquanto achei que alguma terra nos pudesse acolher. Com o actual estado de coisas, tudo o que pretendo é que passe por cá um barco ou helicóptero que nos socorra e nos salve desta aventura samtsetiana, disse entre dentes, antes de se retirar.
Mal tinha colocado o pé na porta do seu aposento, o seu desabafo já se tinha convertido em assunto para reflexão e debate.
Primeiro perguntou-se a autoria do seu nome e depois o significado daquele “está difícil manter o Estado neste barco”. Ninguém conseguia perceber o alcance daquelas palavras tão simples quanto profundas como o Índico que os mantinha cativos entre a vida e a morte.
Sá Lutenda, um vidente, sabia do que lhes esperava. Sabia também que caminhos tinha trilhado Martins e que ideias lhe invadiam a alma. Mas não o disse de imediato. Deixou que a discussão atingisse o auge.
- Eu sou contra o Martins e deve ser levado à razão. – Defendiam os aduladores do Comandante.
- Acho que o Martins está cheio de razão. Embora ache que não seja ele a quem de deva confiar o comando do Navio é importante que se dê oportunidade a pessoas do mar ou que ,no mínimo, se deixe os marinheiros trocar ideias. - Defendeu Lamba, o mais idoso da tripulação.
Lamba, talvez devido ao peso dos seus anos, costuma dizer que já foi árvore, já foi lenha, já foi carvão e agora é cinza. Diz as coisas sem peneira e de acordo ao seu conhecimento e experiência. Goza por isso de aceitação e é reconhecido como grande marinheiro, embora nunca tenha chegado ao leme.
- O mar é complexo e cada um tem uma experiência que pode ser partilhada. - Continuou Lamba que foi molhado com assobios elogiosos.
 - Mas, ó kota Lamba, você que tem mais idade do que este navio, você que conhece todos os comandantes, capitães e marinheiros, pode nos explicar quem na verdade é o Martins? - Questionou Lunga Mana, o mais jovem dos passageiros.
- Olha, meu jovem marujo, podes anotar na tua caderneta mental. O chefe Martins é um homem que já esteve próximo daquele leme. Alguém que já fez muito para que o navio continuasse flutuante, embora à deriva. Martins é um jovem que entrou no navio cheio de vida como tu. Que foi subindo e acertando as velas ou colocando lenha na caldeira. Já puxou demasiado cabo e descamou demasiado peixe até chegar à direita do Comandante. Também desencalhou o navio por diversas vezes. E por diversas vezes prejudicou a si e aos seus para manter a reputação do Comandante que, apesar de tudo… - Lamba puxou da mutopha carregada de kangonha de Kalandula para pôr mais ar no peito que já lhe ia rareando vezes sim, vezes sempre. E continuou: - O Martins é um homem que se deu conta que a seguir o Comandante como às vezes se segue, aplaudindo e remendando os seus erros de miopia, morremos todos e ninguém encontrará sequer os destroços da embarcação.
Mais palavras não houve. Apenas um forte ruído motivado pelo casamento entre o mar, o navio e a rocha. Bummmmmm!!!!
O choque do incauto motorista de Hiace contra uma árvore que repousava já meio século no passeio da rua da Missão, acordou Benedito que seguia embalado no seu sonho de marinheiro.
 

terça-feira, 11 de março de 2014

O CARNAVAL DO RANGEL E A HOMENAGEM QUE FALTA A MAM-BRÁS

A coroa do carnaval de Luanda voltou ao Rangel, mercê da soberba actuação do União Sagrada Esperança, do bairro (agora distrito urbano) que me viu crescer e fazer-me homem. Foi no Rangel, entre a Rua da Ambaca, da Saúde, Comandante Cantiga, Rua do Paraná, Rua da Mão e do Povo, entre outras, que tomei contacto com o carnaval luandense, ainda no tempo do já finado “carnaval da vitória” que se realizava em Março, para assinalar a saída do último “carcamano sul-africano-racista” do solo pátrio, a 27 de Março de 1976, depois da invasão estrangeira que visava inviabilizar a proclamação da independência de Angla pelo MPLA.
No Rangel, dançávamos ao carnaval da vitória com o Grupo Atu Zemba, União Estrela do Kaputu (Zona 15), União Mãe Ya Ndengue, Andorinhas, União Povo do Rangel, União Juventude, e tantos outros que animavam o município inteiro, antes e nos dias do desfile. Agradava-me assistir aos ensaios e ver aquela gente alegre. Alegria espontânea e não comprada ou a troco de alguma distinção à marginal. E dançávamos eufóricos ao som da ngoma de lata, reco-reco, puíta, chocalho, etc. O rei e sua rainha vestiam-se à moda angolana e exibiam coroas feitas a base de ferros recortados e outros metais. Era tudo a base do improviso e da espontaneidade. A criatividade também morava connosco e já se dizia que corria no sangue.
Mas quem mais alegria dava aos munícipes todos, em especial às mamãs peixeiras e outras quitandeiras da praça das Corridas (hoje mais conhecida como praça do Tunga Ngó) e da Praça Nova (defronte a administração comunal do Rangel) e aos meninos e meninas da minha infância “rangelina”, era o Mam-Brás, exímio vocalista de carnaval, dançarino e tocador de ngoma. Mam-Brás sofria de algum distúrbio mental que não cheguei a definir e alimentava-se frequentemente de carne que lhe era ofertada pelas quintandeiras que apreciavam os seus toques e retoques de dança carnavalesca.
Depois da exibição, perguntava sempre:
- Há uma gordurinha? - O homem referia-se à miudezas que voluntariamente lhe eram ofertadas.
Seguindo o som do seu batuque, muitas crianças chegavam a se perder, dando lugar a outro tocar de lata, desta vez das famílias cujo petiz se perdeu no rasto da ngoma do Mam-Braz que continua o seu percurso.
- Nanhi wa ngi bongela kamona ka dyalê?! (Quem sabe do paradeiro de uma criança de sexo masculino?!)
Fruto disso, muitas mães preferiam mandar parar o Mam-Brás e tocar por alguns minutos à porta de casa, oferecendo-lhe depois aquilo que houvesse. Assim, as crianças deixavam de o acompanhar. Mas não era a mesma coisa. Ver o Mam-Braz tocar à porta de nossa casa e vê-lo exibir-se em rua livre ou na Praça das Corridas.
Mam-Brás foi um feitor e zelador do nosso carnaval de bairro. Carnaval alegre, sem preço, sem patrocínios, sem contrapartidas e que não era encomendado por ninguém. Mam-Brás corporizava essa alegria de quem estava e sentia-se livre na sua terra.
O Mam-Brás vivia na rua da mão, também conhecida por rua do “ti Avelino dos Santos”. Apesar de sofrer de distúrbio mental, tinha o reconhecimento e respeito de todos. Era prendado pelas mamãs que gostavam do som do seu tambor, da voz do seu canto e dos toques da sua dança, quer na rua ou nos mercados onde preferencialmente se fazia exibir. Nada cobrava. Apenas recebia o que lhe era dado de oferta no momento da exibição e fazendo do seu carnaval, sem época, o seu ganha-pão.
Mam-Brás, que ainda faz ecoar no meu ouvido a nossa alegria de criança esboçada com o refrão: Mam-Bragéé- é, Mam-Bragéé-é!,  É o meu homenageado neste carnaval de 2014, cujo vencedor, em Luanda foi o União Sagrada Esperança do Rangel que homenageou as vivências tradicionais de Luanda.
Que o próximo homenageado seja o Mam-Bragéé- é, Mam-Bragéé-é!
 

domingo, 2 de março de 2014

MULHERES DE KAMUNDONGO

- Tu kusiña kimbo lya vel´apo! (Encontrar-te-emos na aldeia celestial!) – Cantava de forma angelical o coro da sociedade de mulheres da IECA que acompanhou Celita Adolfo à sua última morada.


A octogenária nascida e crescida na missão de Kamundongo (Kuito-Bié), onde se formou e louvou, manifestara, em vida, o desejo de ser sepultada junto de seus familiares e contemporâneos cujos restos repousavam já em Kamundongo.
 
Os filhos, sobrinhos, netos e bisnetos, contados em centenas, não fizeram mais senão cumprir o pedido da antiga diaconisa.
 
- Vamos levar a avó a Kamundongo e cumprir com o seu último desejo. - Afirmaram entre tristeza e alegria.
 
Tristeza porque era uma biblioteca que ia a enterrar. Alegria porque a sua obra apontava para um descanso merecido ao lado do Senhor. Dai a canção “Tu kusiña kimbo lya vel´apo!”
 
A missão de Kamundongo fica a 22 quilómetros da capital biena. À semelhança das missões homólogas do Chilesso, Dondi, Chissamba, Chilume, Vouga, entre outras, Kamundongo viu nascer e formou homens e mulheres que tiveram um papel relevante no surgimento da consciência nacionalista angolana, na luta pela emancipação dos angolanos e no processo de criação da nossa nação (ainda em curso).
 
Inicialmente como professora de artes e ofícios e mais tarde como parteira, Celita Adolfo, nascida em 1928, foi uma mulher que fez o máximo que pôde pelos homens e pela sua IECA de que foi diaconisa. Teve, por isso, a merecida homenagem de despedida na Igreja Central do Kuito, também designada por “Catedral da Paz”, e um elogio fúnebre à dimensão da Grande mulher que foi.
 
Troço da picada que nos leva a Missão de Kamundongo
Em Kamundongo, localidade alcançável em tempo chuvoso apenas com recurso a carros todo-o-terreno e com pontecos a reclamar por reparações, as árvores frondosas que guardam a memória de notáveis homens e mulheres da sociedade Biena e não só, acolheram as centenas de pessoas que foram ao último adeus a Celita.
 
Uns cantando, outros acompanhando apenas os coros mas guardando reverência e expressando nos seus rostos comoção, outros ainda mais soltos nos gestos e mais alegres nos semblantes, duas mulheres se destacam entre a multidão.
 
Uma é idosa. Tem o netinho às costas. Setenta ou mais anos, indicam as rugas e a flacidez da epiderme. Está toda apossada de tristeza, como quem quer dizer, mas sem força, sem fôlego “sempre estivemos juntas, por que me deixas nesta cidade provisória”? Despejada de quase tudo, dos amigos de infância e adolescência, das colegas dos coros em que cantou, despojada talvez de filhos e netos ao longo das carnívoras guerras travadas no planalto central angolano, a idosa só podia oferecer a sua comoção, enquanto panos já envelhecidos de tantas lavagens cobriam seu corpo quase secular como também amparavam o “nekulu” que cabriolava despreocupado nas costas.
 
Noutra frente, uma jovem há pouco saída da adolescência, disputava com as amigas o melhor cabelo emprestado e grife da tarde carente de sol e chuva. Com um vestidinho colado ao corpo, como se fosse sua pele, e a mostrar as encostas das nádegas, a jovem estava pintada à moda mulher da vida. E, como nestes eventos a vaidade e a petulância vivem juntas, lá estava ela totalmente singular, exibindo as chaves de uma viatura que seu trabalho honesto e limpo ainda não permitem comprar. Se calhar, esteja também a sonhar com uma despedida e um  repouso eterno em Kamundongo… Porém, para lá chegar, terá antes de conhecer e seguir as peugadas de Celita Adolfo e ter como guião a fé, boas obras, honestidade e moderação.
 
Kamundongo, Kuito, 04 de Fevereiro de 2014.
 

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

MORREU O MESTRE "UANHENGA"


 
É dele a expressão no Parlamento Angolano: "já fui árvore, já fui lenha, já fui carvão, agora sou cinza. Ninguém quererá fazer mal à cinza". No seu tempo de Deputado, era a reserva moral da bancada. O símbolo de verdade. Sempre disse o que pensava...
O nacionalista angolano Agostinho André Mendes de Carvalho morreu esta quinta-feira, 13.02.2014, em Luanda, aos 89 anos, vitima de doença prolongada, disse à Angop fonte familiar.

Uanhenga Xitu, seu pseudónimo literário, nasceu em 29 de Agosto de 1924, em Kalomboloca, município de Icolo e Bengo, província de Luanda.

Escreveu, dentre outros livros, Manana (estreia), Cultos especiais, Vozes na Sanzala, Mestre Tamoda, o Ministro, Mungo, Ponto de Ordem Senhor Presidente, etc.
Foi enfermeiro, preso político em Tarrafal (Cabo Verde), Ministro da Saúde, Embaixador na Polónia, Deputado à Assembleia Nacional pelo MPLA, conselheiro e fonte de inspiração para muitos escritores (eu incluído) e alguns políticos.
Desejo um descanso eterno ao Grande Combatente pela liberdade, político e Escritor Uanhenga Xitu (seu nome em Kimbundu).

sábado, 1 de fevereiro de 2014

AS EXECUTIVAS DO PROTOCOLO


AS EXECUTIVAS DO PROTOCOLO

São jovens na flor da idade, algumas ainda pubertárias. Estão sempre de salto alto, bronzeadas, cabelo emprestado do Brasil e Índia e unhas sempre em dia. Ao sair de casa, algumas se vestem à executiva, para fingir ser gente. Uma vez na rua, apresentam-se de forma muito ousada: de collants extravagantes, muitas vezes mostrando a natureza genitália, calções curtos e top less que deixam a “faixa de gaja” e pinturas labiais que as distanciam das demais fêmeas do bicho homem.

Habitualmente, dormem durante o dia, quando não têm trabalho extraordinário, e trabalham à noite. São as “organizadoras” de eventos sócio-culturais e “meninas do protocolo” para os notáveis da alta sociedade.

Apostando no marketing, as executivas do protocolo optaram por elaborar business cards com fotos ousadas e endereço telefónico que entregam a convivas bem aparentados e desacompanhados nos eventos públicos e ou restritos das cidades angolanas. O resto é preço a combinar.

Dessas negociatas das executivas do protocolo surgem os jeeps top de gama com que algumas raparigas, ainda púberes, se exibem, quando não são os famigerados i10 e arredores.

Endinheirados, pseudo empresários, administradores de empresas públicas, altos dignitários do Estado, kamanguistas e generais no activo fazem arte dos preferidos e muito cobiçados pelas “moças do protocolo” que chegam a resolver contendas entre elas com imposição de voz e músculos sempre que uma se antecipe ao cliente permanente de outra. Pena é que já não cantam as kalashenikov e de tanques, tirando os de lavar roupas, já ninguém morre de medo. Nos tempos doutra senhora seriam capazes de resolver as diferenças protocolares a balázios…

Perante outras mulheres, elas são diferentes. Deslizam no gingar. Ciciam como cadela no cio. Usam perfumes com fragrâncias super sex e têm perícias em coçar a barba do idoso ou roçar a zona baixa do “Cabo de Santo Homem”.

Têm também expressões decoradas que lhe conferem uma aparente cultura do bem falar e modos cordatos. Apenas trechos de folhas decoradas, porque o resto são borboletas. O verbo que melhor sabem conjugar é fazer. Sendo “se fazer” o tempo mais empregue.

Uma vez transitadas para a fase posterior, a do emprego com remuneração mensal, não se coíbem em passar pelo “teste do sofá”, galgando como alpinistas. De sofá em sofá e de homo sapiens sapiens ao homo sapiens… Do general ao praça, até que sua volúpia se esfume.

Para os pais, as filhas fazem biscates de protocolo em eventos culturais.

- O emprego está difícil. - Concluem.

Para as puritanas, elas são a nova peste que arrasa a humanidade. As estraga lares e outros epítetos.

– É preciso tomar medidas contundentes e urgentes, antes que o pântano nos engula. - Apregoam.

Para as mães libertárias, elas são coitadas, invejadas pelas más-línguas.

– São trabalhadoras honestas, submetidas a longas horas de labuta, sem tempo para descanso. – Acodem.

Para os músicos da nova vaga, elas são a razão das elevadas vendas, de casas de espectáculos cheias e fonte de inspiração para temas prolixos.

– Essas munzúbias me ‘arrebentam’. – Evocam no seu pobre vocabulário.

 

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

A MORTE DO REI ACICATADO PELA CONSORTE



Até ao registo destes acontecimentos o reino de Magestic desfrutava de uma paz abundante e vida farta. Corria o ano de 3102 do tempo comum. Os limites geográficos de Magestic, um reino secular, eram a Avenida da Lagoa Negra, a leste; o Grande Rio Intermitente, a norte; e uns Estados autónomos em constantes guerras, a oeste e sul. Era, sobretudo, a sul de Magestic que mais se sentia a desestabilização que indirectamente acabavam por afectar o Magestic, sua corte e seu povo.
Tata Ngana, Senhor das Terras, era a autoridade suprema de Magestic, auxiliado por uma corte fiel e prestativa que administrava os Estados vassalos e cobrava impostos.
Detentor de um poder hereditário, Tata Ngana, estava desposado com Arra Gante, uma plebeia de origem citadina. O seu poder consistia num meio termo entre o autocrático e o democrático, custando-lhe a alcunha de “O Senhor do equilíbrio”. Ele , porém, preferia ser tratado pelo epíteto de “O inventor da terceira via” que aos poucos levava o reino a transformar-se em império. Numerosos eram os povos que o admiravam e tão notória era a áurea da sua corte e Estado.
- Se grandes males não houver, construirei um império que sobreviva a todas intempéries durante mil anos. – Gabava-se aos embaixadores e homólogos a quem oferecia banquetes.
Nu dia, daqueles em que o sol e nuvens negras se revezas no alto dos céus, o reino de Magestic acordou alvoraçado. Num dos Estados litigantes do sul, onde grassavam a fome e a miséria, a  rainha tinha feito comentários e comparações deselegantes em relação à forma como o seu rei conduzia os destinos do Estado.
- Quero uma capital com torres iluminadas, universidades, alamedas, sorrisos, transportes públicos e muito mais. É isso que quero que faças em vez de te estares a afundar em guerras que só enfraquecem o nosso Estado. – Disse Mbunda Inene, a rainha do Estado do Sul que ameaçou mesmo pedir asilo ao rei de Magestic.
 - Aié? Queres que te dê o que o Norte tem? Como sabes que Magestic tem tudo isso? - Questionou o rei Kasumuna furiosos.
- soube dos embaixadores e da media. - Respondeu Mbunda Inene que nem imaginou o fel que bombeava o coração do seu marido.
- Pois é… se subestimas o meu governo e me colocas abaixo de Magestic e Tata Ngana é porque há já muito tempo nos tens traído, a mim e ao meu reino. Desmereces minha consideração e tens 24 horas para deixar o palácio, se não queres ser decapitada em praça pública. – Sentenciou o rei possuído de ira.
- Eu abandonar o palácio que ajudei a decorar? Por que não abdicas antes e juntos nos exilamos para Magestic ou outro Estado que nos queira acolher? – Refilou Mbunda Inene.
Não convencido mas também sem argumentos, numa atitude cobarde, Kasumuna declarou guerra ao vizinho do norte, o Estado de Magestic.
O ataque relâmpago foi desferido às 5h de uma manhã. Mulhers da vida retornavam às casas e donas de casa cuidavam do asseio para rumarem às vidas diárias. Magestic estava em festa da coroação do rei. As suas tropas desfrutavam do repasto e há muito não sentiam o troar dum canhão ou o tagarelar duma kalashinikov. O belicoso Kasumuna aludiu um provável encontro secreto entre sua dama e Tata Ngana como motivo da guerra.
O ataque injusto e sem fundamentos desferido pelo Estado vizinho do Sul despoletou uma guerra civil em Magestic. Colocaram-se, lado a lado, generais conselheiros favoráveis ao rearmamento do Estado para fazer frente à guerra e outros que defendiam uma negociação incondicional com o belicoso vizinho do sul para evitar a destruição do Estado. Neste segundo grupo estava  a rainha e parte da população impreparada para a guerra que acusaram o soberano de relações promíscuas.
- Apelo à clemência e à calma. Vamos apelar as instancias internacionais e regionais para se apurarem as reais motivações dos ataques contra a nossa Pátria amada. – Pediu Tata Ngana à população reunida em frente ao palácio real.
- Não, não, não. Negou o povo eufórico e embriagado, paradoxalmente comandados pela rainha Arra Gante. – Queremos  a paz urgente. Queremos a cabeça. – Exigiram.
 - Eu, um homem livre, filho de príncipes, neto de soberanos, com serventes na corte, bisneto de príncipes com escravos, ser julgado em hasta publica por alegada traição ao meu próprio Estado? Quem o fez crescer o tornar-se destaque na sub-região e continente?  Nego. Nunca resignarei ainda que se quedem as estrelas dos céus. – Afirmou veemente o rei, aplaudido pela corte.
Tata Ngana não abdicou mas a sua vida e imagem ficou seriamente afectada. Deixou de ter vida pública como no passado. Tornou-se extrovertido e seus sorrisos apenas eram vistos nas sonenidades com monarcas estrangeiros que o visitavam ou quando retribuía visitas de cortesia. Até a água-ardente, sua predilecta água deixou de marcar presença na sala de trabalho.
Os largos sorrisos em companhia da família tinham desaparecido. A família e o reino estavam em retalhos. Faltavam as falas e Arra Gante embora arrependida dos dislates não conseguia reanimá-lo. Era apenas mais uma no palácio.
“Honra de rei lava-se com sangue”, comentava com os seus colaboradores sem nunca esmiuçar como lavaria a honra perdida.  Se investiria contra o Estado vizinho do Sul, se contra a sua consorte que não a apoiou se contra a oposição palaciana. Durante muitos meses e anos pensou calado em como resolveria a questão.
- Sacrificar a rainha Arra Gante? – Os seus botões aconselhavam que não! Seria tomado como sanguinário.
- Mover guerra e aniquilar o Estado atacante do sul? – sacrificaria o bem-estar da sua população e morreriam pessoas na guerra.
 
Diante do palácio real crescia uma figueira. Tinha sido plantada no dia da sua entronização. Já tinha dezena e maia de anos, sendo podada sempre com orientação vertical. Contava mais de dez metros. Tata Ngana olhou para a árvore, os figos e a alegria dos pássaros que a habitavam. Contrastava com a vida que levava nos últimos nãos.
- Vou entregar-me ao deleite e causar uma grande festa jamais vista neste Estado. – anunciou ao secretário do palácio.
Como quem empurrado pelos ventos e puxado pelos ancestrais, que o preferiram junto de si do que detestado por uma rainha e povo ingratos, Tata Ngana lançou-se aos figos que espreitavam o terraço.
- Buuuummmmmmmmm!
O secretário do palácio nem tempo teve para pedir socorro. O rei estava estatelado no pavimento térreo com as vísceras por fora.
Quando os bombeiros e o médico do Palácio chegaram Tata Ngana estava já sem vida. Uma missiva, no bolso do casaco, descrevia a sua ascensão e queda. Foi chorado durante meses e anos mas o reino de Magestic jamais conheceu dias áureos como aqueles vividos durante o seu reinado.