terça-feira, 1 de julho de 2014

NZOJI DERRADEIRO

- Me larga. Ó mana, me larga só. Tira a mão da minha camisa, pode rasgar. Estou a falar ´mbora a minha verdade. Não te fiz nada de mau. Não te devo dinheiro, nunca te maldisse, nunca entrei na tua casa... por que me persegues e me prejudicas, ó mana desgraça? - A música expelida pelos altifalantes soava alta. Os munícipes, que já se acotovelavam para passar naquele beco estreito, que leva os Kalulenses ao Bairro Azul, tinham de se esforçar ao máximo para perceberem outras conversas sobre a última chuva de Abril que tinha arrasado a aldeia de Musafu. Na phela[1] do soba, nas abcissas das ruas apertadas, no arreió-arreió[2] e até nos leitos mais íntimos das casas era a sobre última chuva e sobre a chegada do filho do dono do carro arrastado que se comentava.

A vila de Kalulu vivia um dia anormal. Matadidi, o mecânico, tinha perdido o carro dum cliente, arrastado pela fúria da água que desceu da kamunda[3] ao riacho Kambuku, levando tudo o que encontrara pelo trajecto. Nela dos Prazeres, a mulher mais encaixotada do Musafu, teve de se pôr a nado para salvar os filhos e o televisor que engoliam já litros de água, enquanto ela e o amante navegavam entre prazer e mar chuvoso.

Entre o antigo cinema e a casa que já foi comité municipal do MPLA, hoje conservatória dos registos civis, ficava a minha casa. O quintal era amplo, asseado e com muitos visitantes. Uns parentes e outros negociantes que procuravam curtos refúgios do sol ou para dar de mamar as crianças acossadas pela sede e fome.

A rua dianteira, a que nos leva ao Kwame Nkrumah, estava muito cheia. Parecia uma rua de Luanda, com adolescentes que iam e vinham do Instituto, carros e mulheres kitandeiras[4] a preencherem os passeios com magoga[5], bujingangas[6] de vestir e despir roto. Até apitos para o próximo carnaval estavam à venda.

Era também no meu quintal que muitos vizinhos da rua de trás, a do Miguel Neto, passavam para atingir a rua principal. Eu era já um idoso, sessenta anos mais ou menos. Não tinha mais a rabujice de hoje. Era pacífico e passivo. Ao pé de mim estava um homem a ascender à casa dos quarenta. Cheio de vida e voz firme a pôr ordem na casa. Tinha chegado de visita com uma carrinha carregada de coisas ainda por ver.

Enquanto eu sorria para as pessoas que passavam pelo quintal, umas cumprimentando ou se desculpando por transpor o quintal e outras não fazendo caso disso, ele fervia por todos os poros, reclamando do abuso de fazerem da casa do seu pai um desfiladeiro.

- A vida aqui é assim, filho. Todo mundo é família. Acalma-te. Vai conhecendo as pessoas, ou pelo menos os kandenges[7] que choram pelo quintal. Serão os que te vão oferecer a carne fresca quando tiveres a minha idade. – Aconselhei ao que me deu ouvidos. Tinha inteligência para tal.

- Está bem , pai. Vou cuidar das crias e da hortaliça.

Pegou sementes e lançou-os na sua horta. Pegou milho e distribui-o aos patos, gansos, galinhas e pombos. Estávamos todos em véspera de festa.

Com MMC tinha chegado o meu neto primogénito que começava a ganhar fama de engatatão[8]. Na grande cidade onde moravam as coisas eram feitas precocemente. Aqui não. Há até os precoces, mas tomam juízo e comem a broa do seu trabalho.

- Kutimbe!- Chamei pelo neto.

- Papá!

Fingi não ter ouvido. Dava-me banga[9] ser tratado por vô e repeti a dose.

- Kutimbe?!

- Já vou, vô.

- Meu neto! A vida é boa, mas é melhor quando vivida por etapas. Etapas programadas ao detalhe. Olha aqui o teu vô. Careca, dentes incompletos na boca, casa grande, viúvo, quase inválido, mas todo mundo que passa faz vénia, Já viste?

- Sim vô. O chará é Grande na sua pequena vila. Mas eu quero que me ensine a ser grande numa grande cidade.

- Pois bem. Presta então atenção. Tenho umas palavras que te queria dizer no dia do teu aniversário mas antecipaste as coisas. Estava para preparar viagem na semana que vem, quando o mecânico me entregar o jeep. Ouve bem, meu neto: até aos dezoito anos, somos ainda um ovo que não tem vida própria, embora já fora da galinha. Depois disso o pintainho aprende a andar, a fugir, a seguir os conselhos dos progenitores e se vai autonomizando. O melhor é que esse período chegasse aos trinta. Você deve trabalhar e gozar sem chatices de ninguém, tirando o vinho para o vovô. Dos trinta aos sessenta é o período de trabalhar a dobrar, construir um património que não será teu, porque será dela e deles, e depois virão outros anos incógnitos, de velhice e canseira e de desfrute e luta pela vida. A segunda e a terceira etapa da vida têm de ser de grande responsabilidade para que tenhas uma casa e um quintal grande como o meu. Ouviste? É esse o percurso. É esse o caminho que te mostro. Só espero que o encontres.

- Ouvi e vou satisfazer a sua vontade, vô. Obrigado pelo conselho e nunca deixe que o meu comboio descarrile, enquanto estiver vivo.

MMC não era homem de muitas palavras. Era mais conhecido pelo seu pragmatismo. Era de dizer e fazer. Era por isso que a vila toda estava em alvoroço. A fama deixada nos tempos em que fora militar naquelas paragens ainda se mantinha viva e intacta, mesmo entre a geração que nem sequer o conhece pela fotografia.

Avisado pelos mais atentos, o mestre Matadidi pegou um cabrito ainda sem chifres e foi à vila, à casa do cliente que ficou com o carro inundado, desculpar-se e buscar entendimento.

- Pai, bom dia, meu kilamba[10]. Soube da chegada do mano MMC e vim explicar-lhe o sucedido, desculpar-me e prometer que em quinze dias meto a maquina a roncar como no antigamente.

Peguei-o no ombro e trocamos sorrisos. Mostrei-lhe o MMC, todo calmo e a cuidar da horta e das galinhas. MMC abraçou-o de forma inesperada e dentre muitas coisas que lhe disse ouviu-se o “Vim apenas ver o Velho e comer uma galinha”.

O Cabrito ficou amarrado junto à goiabeira e o mecânico juntou-se aos preparativos do que viria a acontecer.

Alertados pela miudagem curiosa que circundava a Power Glic, avô e neto dirigimo-nos à carrinha que gemia a cada quilo que perdia. Estava empanturrada de comidas e bebidas. O resto da família chegaria horas depois para a festa do Kutimbe programada para a casa do avô.

Um pássaro que festejava o raiar do rei sol cantou à janela. Despertei. Uma luzita invadia meu quarto. Olhei para o relógio: seis e meia da manhã. Foi apenas um nzioji[11]. Somente o décimo sétimo aniversário do meu primogénito tinha sido real. Aconteceu a 29 de Junho.




[1] Palácio, casa oficial do régulo.
[2] Negócio de rua; comércio ambulante e informal.
[3] Montanha; elevação. Do umbundu.
[4] Vendedeiras; do kimbundu kitanda: equivalente a praça ou mercado.
[5] Sanduíche.
[6] Artigos diversos de pouco valor.
[7] Crianças.
[8] Namoradeiro.
[9] Gozo, prazer.
[10] Senhor; amo. Do kimbundu.
[11] Sonho.
 
 
 
 

  
 

domingo, 1 de junho de 2014

O MACHIMBOMBO DAS TRÊS

No terminal inter-provincial do Baixo-Nordeste as luzes estavam todas apagadas. Sim. Isso mesmo. Apesar de algumas lamparinas e luzitas de camiões articulados, estacionados na berma para usufruir de uma aparente segurança, a empresa e os cérebros iluminados estavam todos apagados. O guarda dormitava embriagado na caserna construída para o serviço de informação ao cliente, enquanto os demais funcionários escalados para aquela noite, já a ceder o espaço à madrugada do dia seguinte, “espalhavam sémen pelo bairro circundante ou sugavam o último calor de tetas moribundas de suas donas”. Era o que mais se ouvia, quando a pergunta fosse “onde anda o pessoal de atendimento”?
 

- Ó, meu filho, não liga. Foram todos namorar. O guarda saiu daqui há já bom tempo. Está todo enfrascado que mal consegue se erguer. - Respondeu uma senhora já de idade, repousando numa cadeira portátil de praia.

No quintal, vasto e fedorento da estação, era o chão másculo que recebia os que tinham acabado de chegar. Homens emagrecidos na viagem, mulheres com os pés engordados no machimbombo e crianças que cresceram durante as 24 horas de viagem estavam ali atirados. Todos sem informação, sem serviços mínimos para a higiene íntima, nem um chá quente sequer. Os mil quilómetros de estrada, do oeste ao leste, tinham consumido uma tarde e um dia inteiro.

- Partimos ontem, sexta-feira, pelas 17 horas, e só hoje chegamos, quando o relógio apontava já 22 horas. Tivemos uma avaria pelo caminho e o socorro demorou a chegar. A estrada também, manos, não ajuda muito. Até parece que há mais buracos na estrada do que asfalto. Então, com a chuva que choveu nesse mês que acabou na semana finda, nem vos conto … – Narrou um jovem, ainda desperto, que se juntou ao Mário e Santiago que ali se dirigiram para esperar por um colega cujo machimbombo tardava em chegar.

Santiago e Mário moravam longe da cidade. Habitavam num vilarejo interior que ficava a 40 quilómetros da urbe principal e levavam já quatro horas de espera. O passageiro em falta tinha partido as 3 horas da manhã de sábado, com chegada prevista para as 5 ou 7 da noite do mesmo dia. Era o tempo que levava a transpor os cerca de mil quilómetros entre o oeste e o leste daquele país planáltico e recortado por abundantes rios caudalosos.
No interior do quintalão, os que chegavam e os que pretendiam partir procuraram, sem sucesso, por alguma alma viva que lhes pudesse iluminar com alguma informação sobre as chegadas e partidas de machimbombos. O que os dois amigos, Mário e Santiago, encontraram eram passageiros sem hora de partida e familiares sem informações sobre a hora de chegada dos seus já desesperados parentes.
- Boa noite, senhor. Pode dar-me informação sobre as chegadas desta madrugada? – Perguntou Santiago a uma tripla de homens que esticava os troncos, encostados a um machimbombo. Já passava meia hora de domingo.
- Boa noite, meu mano. - Respondeu um dos três, o que estava melhor agasalhado. – Até já é bom dia. Já reparou o relógio? – Corrigiu, antes de responder que “não vi nem guarda, nem recepcionista, nem ‘macânico’, nem motoristas. Todos se escapuliram daqui”.
Enquanto Santiago procurava pessoas para prosear, a fim de acabrunhar o frio, Mário fazia diligências. Reparou que no outdoor colocado à frente das instalações anunciavam-se dois números de telefones.
- Vou ter de ligar para a capital ou sei lá aonde para pedir informações sobre o autocarro que partiu as 3 horas da manhã. - Disse para si mesmo, chamando depois pelo amigo.
- Santiago?
- Diz, brô[1]. Achaste alguma informação? – Questionou Santiago que batia ligeiramente à janela da casota onde se desconfiava estar o vigilante ou qualquer outra pessoa ligada à empresa de transportes rodoviários.
 
- Nada disso, Santiago. Isso aqui não tem SIC[2]. Encontrei números telefónicos do SAC[3] e vou tentar fazer ligações para quem quer que seja. Emprestas-me o teu telefone?
 Santiago abandonou, por instantes, a sua pesquisa pelo interior da estação e dirigiu-se ao amigo que se mostrava mais impaciente e mais friorento do que ele.
- Toma o telefone e prepara-te para dormitar na carrinha. Só espero que não ressones nem sonhes com a comadre... – Galhofou.
Mário discou para o primeiro número. Soletrou dígito a dígito para não se enganar 89-3-6-7-8-9-1-7-3 e a secretária electrónica respondia peremptória: “esse número está desligado ou numa área sem cobertura”. Muxoxou[4] demoradamente e tentou ainda a alternativa 12-2-6-2-1-3-5-0-4 que não saia do “pim, pim, pim, pim”… e nunca mais.
- Entreprise abeti indif! [5] – Exclamou Santiago no seu lingala[6] ainda bem conservado, apesar de duas décadas longe do Congo Kinshasa que acolheu a sua infância e juventude enquanto refugiado.
Riram-se perdidamente que quase se abraçaram. De longe, e aos olhos de estranhos, pareciam meninos da primária caminhando descontraídos para casa e com o pensamento centrado no lanche. Ao Mário e ao Santiago era o paradeiro do último machimbombo que ocupava o pensamento. Estava há já 22 horas com paradeiro incerto. A informação mais recente, recebida ainda ao meio do dia, apontava que tinha sofrido uma avaria a meio do percurso, entretanto, já socorrido por um outro enviado da Matamba.
- Santiago, vamos procurar água para lavar o rosto? – Provocou Mário.
- Tu, mas’é, queres whisky. Só que a esta hora só encontras guardas dorminhocos e fantasmas nas cantinas. – Atirou Santiago que se tinha juntado a outros dois passageiros do machimbombo chagado há poucas horas.
 - Sabem, môs kotas. - Atirou Gaspar, quarenta anos mais ou menos. – Na capital, sou operativo numa empresa de segurança. Certa vez, eu estava no meu posto e do outro lado da estrada um ‘bardeado’[7] também no posto dele. O mwadye[8], depois de passar por um tira-kawelele[9] e uma pica[10], entendeu retirar o carregador da arma e guardá-lo na sacola que tinha ao lado, colocando a lenha[11] atrás da cadeira em que adormeceu. Sabem o que lhe aconteceu?
- Não! - Responderam Mário, Santiago e o outro rapaz que lhes fazia companhia.
- Pois é. O pior estava por acontecer com o segurança que nunca foi operativo. Estão a ver aqueles miúdos que andam à toa na cidade capital, né? Os miúdos, tipo saiam duma festa, quando viram o manga[12] a roncar, tipo é IFA carregado a subir montanha, pegaram na pasta e zás. Zarparam[13] com a pasta e o carregador da mutimba[14].
- E quando o segurança acordou? – Questionou Mário cada vez mais interessado no desfecho da cena.
- Kota, aquilo é que foi o puro filme. – Prosseguiu Gaspar, embalado pela atenção que lhe era debitada. – Só vi já o mwadye a revistar toda a rua. Pegava aqui, pegava ali, espreitava acolá, revistou até o tecto da casa, mas a sacola nada.
- E tu? - Perguntou desta vez Santiago.
- Eu sempre no meu posto a travar kibidi[15] com um comando de mosquitos. – Ironizou Gaspar Kwosi Tenda, um antigo militar da revolta pós-independência. 
- E tu não o avisaste da situação? - Interrompeu mais uma vez o Mário.
- Nada, kota. Essa vida de segurança, cada um fica no seu posto. Você tem que estar concentrado apenas no objectivo que te foi dado a guardar. Mas vou continuar. Posso? – Perguntou Gaspar, buscando mais atenção para o fim da tragédia.
- Podes. Responderam desta vez os três ouvintes, formando um coro.
- Yá, kotas. A pura dica foi quando o supervisor dele chegou, na hora da renda. O gajo não sabia se inventava um assalto no posto dele, se se enterrava no chão ou se fugia. Foi despedido mesmo já ali. O supervisor mandou-o descalçar as botas, entregar a farda e os passadores e terminou o contrato.
Um silêncio momentâneo apossou-se dos quatro homens que ficaram a reflectir sobre aquele trágico desfecho da cena, embora ninguém tenha voltado a questionar. A narração de Gaspar tinha sido límpida como as águas do Longa superando curvas e pedras no seu percurso mais agitado.
No alpendre em que se acoitavam os recém-chegados do penúltimo autocarro, os monas[16] amontoados choravam e cheiravam. Aliás, estavam todos ofegantes. Há mais de 30 horas que não faziam sequer higiene íntima, exceptuando as senhoras mais avisadas e calejadas nessas andanças que levam sempre consigo garrafitas de água e toalhitas desodorizantes para afugentar os kibuzos[17] mais salientes. De resto, os homens e as mulheres acabados de chegar, e que procuravam enganar o sono naquele chão duro, cheiravam todos a gato bravo ou a mijo. Teriam de aguardar pelo novo sol dum domingo ainda embrionário para se dirigirem à casa de familiares ou pegar outro carro para o destino final.
Ainda naquele terminal de partidas e chegadas de gente proveniente de vários pontos cardeais e colaterais do pais, a criatividade da juventude habituada a viver de remendos e improvisos, tinha-os levado a baptizar o último autocarro que partira da capital, no oeste, de “o machimbombo das três”. Era o tal machimbombo que mais reunia pessoas naquela estação, dada a incerteza do seu paradeiro. Homens buscando por mulheres, mulheres buscando por maridos e ou filhos, velhotas de idade desconfiando de um acidente pelo caminho, etc. Eram permanentes os registos sobre sinistros rodoviários e as mortes nas estradas superavam todas as outras causadas por doenças conhecidas e desconhecidas. Até o paludismo, que sempre ganhou a eleição da doença mais mortal do país, tinha caído para a “segundona”.
“O machimbombo das três” já tinha notícias embargadas nas redacções dos media, aguardando apenas pela confirmação da sua desgraça ou localização distante.
- “Autocarro desaparece com mais de 60 pessoas a bordo.” - Intitulara o “Vespertino”, jornal que saia 3 vezes por semana.
- “Sangue e luto na estrada.” Escrevera o editor da “Rádio Kuribota” que detém a maior fatia da audiência na cidade.
- “Despiste (?) ceifa vidas a XX pessoas na estrada Oeste-Leste.”- Era o título da estação televisiva “Izuzumbya” que emitia em sistema aberto e que tinha já comentadores contratados para o show off de sempre.
 
Apesar de madrugada, a cidade registava um movimento anormal. Os jornalistas, sem parar, passavam de hora em hora, caçando desgraças alheias para alimentar os seus públicos. Nas redacções de notícias ensaiavam-se os títulos mais sonantes. Era disso que viviam os “mujimbeiros”[18], como lhes chamavam os mais ortodoxos da cidade de Kacongona, já cansados de notícias sem valor acrescentado. O jornalismo tinha se tornado numa profissão banal, confiado a jovens sem preparação técnica nem linguística. Até os fazedores de opinião não passavam de “spin doctors”[19]  que verbalizavam discursos de gente endinheirada e interessada em desinformar e criar uma pseudo mentalidade e identidade alheias aos princípios dos povos daquelas terras bantu.
 
Ainda sem encontrar quem os pudesse informar sobre o “machimbombo das três”, Mário, aproveitou-se duma situação que acabara de assistir debaixo dum eucalipto e contou também a sua estória para aliviar o fardo do tempo.
- Epá! Já viram o cão a urinar? Sabem por que o cão levanta a perna e a cadela baixa-se toda ao fazer as necessidades menores?
Santiago, Gaspar e o jovem que não se tinha identificado estavam curiosos e seguiam atentos a explanação do Mário.
- Conta, queremos saber. – Solicitaram quase em uníssono.
- Pois é. Conta-se que há muito, muito tempo, os cães, para além do instinto, também tinham um pouco de racionalidade. Numa casa abandonada duma fazenda, um cão e uma cadela caçavam lebres. A certa altura, a cadela sentindo-se com a bexiga cheia baixou-se junto a uma parede que já estava a ruir para urinar... (Mário fez pausa para encher os pulmões de ar fresco) … Não é que a parede caiu por cima da cadela?! O cão visionário, daquele dia em diante, passou a levantar a perna para impedir que parede nenhuma lhe venha cair por cima na hora da susa[20].
- Kiá, kiá, kiá… - Riram-se perdidamente os quatro companheiros de ocasião.
 
O tempo passava despercebido. Cada um tinha contado uma cena. Era a alternativa à falta de um placar informativo, ausência de pessoas físicas e de um televisor para entreter quem chegasse sem possibilidades de ir para casa, aqueles que esperavam por familiares e aqueles que estavam de partida mas sem informações sobre a hora de saída. Fazia frio, apesar de o cacimbo estar ainda a 96 horas do seu dia oficial. E aconteceu mesmo. Só quando os galos estavam já fartos de anunciar o novo dia, chegou o “machimbombo das três”. O dia de domingo carregava já duas horas.


 Obs: Texto publicado pelo Jornal Cultura



[1] Do inglês brother, equivalente a irmão.
[2] Serviço de informação ao cliente.
[3] Serviço de atendimento ao cliente.
[4] Fez um estalido bocal em jeito de reprovação ou desagrado (do kimbundu muxoxu).
[5] A empresa acobardou-se.
[6] Língua falada na República do Congo Democrático e por algumas comunidades angolanas.
[7] Alusão a indivíduos pouco instruídos ou sem experiência no que fazem (calão de Luanda).
[8] Indivíduo.
[9] Alusão à bebida alcoólica forte para afugentar o frio.
[10] Lyamba, maconha, marijuana.
[11] Alusão à arma de fogo sem o carregador de munições.
[12] Indivíduo.
[13] Meteram-se a lume, fugiram.
[14] Arma de fogo.
[15] Luta.
[16] As crianças, filhotes (do kimbundu).
[17] Odores fedorentos.
[18] Linguarudos (do kimbundu mujimbu).
[19] Falsos doutores com discursos encomendados.
[20] Lê-se sussa (do kimbundu ku susa=urinar).