sexta-feira, 25 de maio de 2018

"AMOR SEM PUDOR" DE KANYANGA E CRÍTICA DE CABOMBO

A  Evidência de um dos Vértices da Tríplice Estrutura da Conduta amorosa do Homem em “amor Sem Pudor” de Soberano Canyanga
Tazuari Keitá, S. Kanyanga, C. Cabombo e António Pinto (esq-dir)
 No ofício de descortinar o enigma, em torno da obra em análise, apesar de alguma aproximação afectiva, entre o autor do texto literário e do texto crítico, pelo facto de termos nascido no mesmo município (Libolo), sermos coetâneos, termos feito a graduação na mesma Instituição académica (ISCED/Luanda) ele em História e eu em Letras, pertencermos à mesma matriz religiosa e termos uma paixão comum, a saber a Literatura. Procuramos ver a crítica não como um veículo de enaltecimento de um “kamba” que publica mais um livro, mas comprometer-nos com a obra literária, enquanto escopo da nossa análise, com um olhar desapaixonado, colocando de parte qualquer malícia ou premeditação danosa, buscando evidências textuais, e quando necessário revisitarmos o autor, na senda do biografismo, para ajudar a desnublar  alguns espaços da sua tecitura poética. Embora docentes, procuraremos não utilizar, com frequência termos técnicos, tendo em conta a heterogeneidade do público a que nos dirigimos.
Sobre a trajectória literária do autor: no tocante ao conjunto da sua obra, Soberano Canyanga, de nome próprio Luciano Canhanga, estreiou-se no mosaico literário angolano com Sonho de Kaúia (romance, 2010); em 2012, publicou Manongo-Nongo (contos infanto-juvenis); em 2013, estreia-se na poesia com 10 encantos; em 2014, O Relógio do Velho Trinta (romance); ainda em 2014, O Coleccionador de Pirilâmpos (contos); 2015, Canções ao Vento (poesia), o autor é colaborador do Jornal A Nova Gazeta onde mantem acesas publicações de crónicas.
Do ponto de vista periodológico, mesmo sem lhe dar um rosto definido, situamos o autor no grupo de escritores que emergiram entre 2000 a 2010.  O autor faz parte de uma época caracterizada por um conjunto de ilhas literárias, algumas das quais gravitando em torno de projectos comuns como o Lev’arte e o Literagris, que se têm assumido como novos espaços legitimadores do fazer literário de jovens poetas que se pretendem afirmar no mosaico literário e cultural angolano. Estas plataformas literárias têm procurado, com dinâmicas continuadoras da literatura angolana, propiciar momentos de pulsação da mesma. Devendo, por isso, a História e a Crítica Literária angolanas trazê-las no centro da abordagem. O “resto” é apelo estimulador para o aperfeiçoamento contínuo na concepção e parto do fenómeno literário.
Procurando manter uma produção literária regular, em 2018, a cargo da Creative by Arp, da qual estimamos o esforço e dedicação, brinda-nos com a  obra poética amor Sem Pudor, numa tiragem de 1000 exemplares, que temos o ensejo de apresentar aqui no CEFOJOR.
Considerando que toda a produção literária é precedida da experiência previa da leitura, pois a “literatura alimenta-se da literatura”, assim ao indagar sobre as influências literárias de Soberano Canyanga em amor Sem Pudor verificamos, na superfície textual da obra em apreço vestígios, as vezes implícitos outras vezes explícitos, de construtos literários quer no contexto angolano e não só cujo dialogismo textual será demonstrado no decorrer da nossa abordagem.
Em amor Sem Pudor, não é de admirar que as influências literárias de Canyanga tenham como núcleo a Geração de 80, Geração-indepedência (cf. FEIJOÓ, 1994:18) ou ‘‘Geração das Incertezas’’, segundo Luís Kandjimbo. Essa Geração produziu textos, alguns dos quais, se podem aplicar, hoje, como referentes no estudo do erotismo literário na Literatura Angolana, sobretudo na poesia, pois olhando para a juventude do autor, temperada na cidade de Luanda entre as dinâmicas de sobrevivência como explicador de Língua Portuguesa no Bairro Caputo, a Jornalista, bem como pela sua formação em História serão ingredientes a considerar para que, no contexto angolano, pudesse entrar em contacto com obras de escritores, de cuja pena “brotam versos de intenso deleite” (FEIJOÓK, 1994:11), como António Panguila, Amor Mendigo; Paula Tavares, Ritos de Passagem; Luís Elias Queta, Binómio de Cacimbo; Lopito Feijoó, Entre o Écran e o Esperma, João Melo, Amor, etc.
A obra, que se construiu, em nosso entender, inteligentemente sob o signo do erotismo literário, vai-se desenrolando em torno desta atmosfera, porém a dado momento é assaltada por textos cujo construto se desenlança da atmosfera que a preside, numa espécie de ruptura temática, como se pode verificar nos poemas “Fuka Yami/Minha Terra” (33); “A Meio do Kasimbu” (p. 34); “Pesadelo” (p.41); “Desafio” (p.42); “Dias que Correm” (p. 43). Olhando para os acabamentos estéticos da maioria desses textos “intrusos” constata-se, na nossa visão de leitor, a inexistência de alguma oficina da palavra. como exemplo podemos citar “Dias que Correm” (p.43) Gosto de trabalhar/adapo-me a ambientes quaisquer/climas organizacionais quaisquer...essa prosa comum, efemeramente popular, ou “poesia do desabafo” faz lembrar  a obra Nem Tudo é Poesia de David Mestre.
Afinal, que amor é esse que o autor se propõe apresentar “sem pudor”. Será o ágape? – que é uma forma especial de amor? Enfatizado na perspectiva teológica como amor de Deus pelo Homem, esse amor apresentado no Novo Testamento por Cristo, através do qual Deus manifesta-o descendente e transformador da Humanidade, fazendo com que o Homem fosse capaz de amar o seu semelhante, “não por sua beleza ou valores atractivos, mas por si mesmo” (IBOR et al, 1977:6). Se fosse tal amor, porque teria, então sentimento de vergonha que Soberano Canyanga se propõe desmistificar na sua poética? Ao apresentá-lo “sem pudor”. Talvez, Nygren nos aponte uma saída ao contrapor o ágape ao eros “como dinámica erótica que impele para o «objecto» amado, desejável” (idem, ibidem) que para os gregos pressupõe a “força natural que impele os animais e o Homem à reprodução”. No plano humano, eros assenta nas raízes psicológicas enquanto o sexo nas raízes biológicas.
Portanto, sexo, eros e ágape são três vértices da conduta amorosa do Homem. Se por um lado existe a “atracção sexual” entre o homem e a mulher, por outro a “atracção erótica” na qual se digladiam simpatias e antipatias, desejos e aversões, vitalidades e fadigas, interesses e desinteresses, é esse complexo diná
mico que leva o homem e a mulher a apaixonarem-se e a desiludirem-se um pelo outro. No final de tudo, essa tríplice manter-se-á, se ligada ao vértice do reino do ágape, do amor perene.
Depois desse intróito, pode perceber-se que em amor Sem Pudor Canyanga evidencia o vértice eros – sua dimensão psicológica – que remete o Homem “não só a apropriação da beleza do outro corpo, mas a alcançar o mundo das imagens e das ideias”. (idem, ibidem)
Ora vejamos. Para além do sugestivo título amor Sem Pudor, na capa, vê-se uma imagem translúcida, cenografia típica: de pé, com a parte superior dos corpos desnudos, pelas feições físicas, aparenta um par de jovens em beijos que adoptou a posição mais cómoda para os seus objectivos.  As mãos do rapaz debaixo dos ombros dela mostram uma excessiva intimidade sexual. Na imagem, chama atenção o cabelo corrido da rapariga, apelando para a matriz estética feminina ocidental em oposição à carapinha ou jimi africano. E aqui, talvez, ocorra questionar que critérios estéticos ou soció-culturais puderão estar na base dessa proposta? Quando o contexto de que imana a obra é angolano/africano, em primeira instância a contar pelos referentes culturais predominantes no texto.
A obra é inaugurada pelo poema “Faixa de Gaja” (p.7), constituído por três estrofes, sendo todas quadras. O título, para os atentos ao que se passa no Médio-Oriente, sugere, convoca, ventila, o espaço físico conhecido por Faixa de Gaza. A alteração da consoante /z/ de Gaza para /j/ Gaja propõe, sob os auspícios da plurissignificação, duas ou mais leituras possíveis: a primeira, que chamaremos de “geografia feminina” começa por convocar dois elementos da natureza: montanhas e praia, olhe-se que diz montanhas, no mínimo duas e praia, uma, sobre as quais um túnel já sem distância/ ajuda quem por lá relaxa (v. 3, 1.ª estrofe), uma imagética  que alude a geografia feminina como fonte de prazer, afinal só é relaxante o que é prazeiroso. Mais abaixo, e mantendo a tendência metafórica acentua, um bebedouro sedes aguça, (v. 4, 2.ªestrofe) intertecendo diálogo com o trecho de Provérbios, 5:15 (não do ponto de vista da intencionalidade do sujeito poético, mas do barro usado pelos oleiros nos construtos textuais) bebe água da tua cisterna, e das correntes do teu poço, a relação entre as palavras bebedouro/cisterna/poço, sedes/água mostra a “faixa da gaja”, alusão a “perenidade” da geografia feminina, nas palavras do poeta entre montes e gémeos e terra prometida (v. 2, 3.ª estrofe) em alusão península perene.
 A segunda: chamaremos de “o dilema do Médio-Oriente” como referência à situação entre Israel e Palestina. A palavra “secura” como referente do deserto onde morre quem paus arremessa (v. 2, 2.ª estrofe) nesse deserto onde um bebedouro sedes aguça, a disputa pelo ente reclamado por uns e por outros, montes gémeos e terra prometida (v.2, 3.ª estrofe), em alusão à Terra Prometida, segundo o Antigo Testamento (mencionar). Parece-nos, portanto, vingar a primeira leitura, pois, na segunda há como que um esquivar do ‘engajamento’, um deluir da perspectiva Sartreana, como disse Antero de Quental (1988:29) “a poesia deixou de ter missão social. Os raros poetas, que ainda existem, são apenas os restos destroçados duma raça de outras idades e que breve terá desaparecido” e conclui o vate que  “a poesia conservar-se-á, mas perdeu o antigo carácter de uma das grandes forças sociais e espirituais da Humanidade, de agente poderoso de civilização”. (idem, p. 30) para Friedrich Schiller a chave para a solução das questões do «mundo político» teria de ser forjada precisamente no «mundo estético» como bem defendeu: “não se trata aqui do que a arte é para mim, e sim de como ela se comporta diante do espírito humano”. (BARBOSA apud Schiller, 2004:19).
Contudo, em nosso entender, a cadência esteticista, neste poema, destoa quando o oleiro da palavra, na circunstância de pôr a mão na argila para dar o toque final ao artefacto, denuncia com objectividade a urdidura poética, como se pode ler no último verso do poema é entre saia e blusam referentes dos territórios fronteiriços do bebedouro ( Primeira leitura). Pois, aqui, e como aponta David Mestre, denota-se uma ausência da “elevação da capacidade autocrítica e da afinação estética” (MESTRE apud FEIJOÓ, 1994:15). Pois, se o facto social já é demasiadamente obvio, o literário deve demarcar-se do obvio.
Em “Repada de Galo” (p. 19), a palavra repada afigura-se-nos uma (re)invenção do poeta, em lugar de (ripada de galo); dar ripas, que no sentido sexual, contexto a mwangolé, é fazer sexo com frenesim, toda a força possível. O texto é  marcado pela aliteração como se pode ler:  corre o cabrito, corre a vaca malhada/correm homens, corre o gado/corre água, corre leite com brio (...)/na curta relva relincha o cavalo..., ou se considerarmos omissão do /m/ na primeira palavra e atentando para a semântica no contexto, teriamos (remada de galo), quererá o sujeito poético, com essa omissão, ou no dizer de Martin Hedegger ocultação ou dissimulação, iludir para que nos possamos enganar? Então, a arte é um angano? esquivar-se para não denunciar o caminho conhecido? Ou sentiu-se atrapalhado, incomodado para apresentar, aqui, o “amor com pudor?” já que entre rochedos, no meio a cascata/ zurra a burra, descansa a vitela sensata (v.7-8, 1.ª estrofe ), depois do sobe, desce pêndulo guiado a martelo (v. 9, 1.ª estrofe), nestes versos, a primeira ilação que nos ocorreu é que o pulsar poético de Canyanga “mediatiza uma relação em que o leitor capta através da representação textual, um saber sobre o prazer” (DURIGAN, 1985:38), a segunda ilação, aponta para o dialogismo entre os textos, tendo “Repada de Galo” como intertexto o  “O que se Passa na Cama” (p. 282) de Drumond de Andrade. Aquilo que Canyanga poetiza nos termos zurra a burra, descansa a vitela sensata, em Drummond é dorme, menina, nanana/dorme a onça suçuarana/dorme a cândida vagina/dorme a última sirene.(v. 2-5, 2.ª estrofe), concretizando-se assim a função corroboradora da intertextualidade que permite que a imitação, a citação do texto modelar, a reiteração,  numa espécie de continuidade. A par da função corroboradora, o texto de Canyanga apresenta, em relação ao de Drummond, o grau médio da intertextualidade pelo facto de pôr em relevo alusões próximas, ou reflexos discretos e por continuidade, configurando  o espaço intertextual.
Em “Carga Pesada” (p.16) o poeta, sentado algures, constroi o inusitado, o “locus horrendus”: na imaginação/teus fluídos me invadem o rosto/e, como ganancioso cão/lambuzo-me no teu entreposto/vácuo, tormento e torneira de desgosto/ sinto quando de ti me desencosto/sukwama! Se há nela tormento e desgosto, por que é que se lambuza nela como ganacioso cão? Só pode ser um sádico que busca na dor e humilhação, a que se sujeita, o prazer sexual ou em eu, um leão faminto/ela, um vitelo perdido (p.17) ou ainda em vem firme/com toda tua força/toda tua ira/toda tua pressa/toda tua te(n)são (...)/asfixia-me no teu beijo metal/agarra-me num braço letal/adentra-me pelo bolso/assalta-me amor maldoso (p. 9). Como se pode ver na representação da representação, esclarecendo contornos do espetáculo amoroso de que o sujeito poético é actor: grito sufocado pelo prazer do fogo/ e, grito: coma-me logo! (p.16) Finalmente, o espetáculo erótico-amoroso ganha corpo, acção e qualidade. A descrição da geografia feminina, nesta floresta húmida, com ramagens, na visão erótica-amorosa do Canyanga. É de facto, aqui, “carga pesada”, esse poeta que em 10encantos se antecipa eroticamente suave “no teu colo frágil de mulher/com quentura de ovelha/minh´alma quer descanso...”
O estado poético pode ser propiciado pela dança, pelo canto, pelo culto, pelas cerimónias e pelo poema, como dizia Fernando Pessoa o poeta é um fingidor, esse poeta fingidor em amor Sem Pudor esquivou-se ao longo da escrituração, fingindo que .a sua abelha não gravita sobre as flores, mas no final assumiu, confessou: dormi contigo, Rosa/sim, dormi contigo/ não resisti ao teu corpo esguio de mulher madura ... corremos e trepamos montanhas e colhi maboque/doces, ímpares maboques e tu.../ apenas tomates e cenoura mas onde aconteceu isso na imaginação de um sussuro ousado, “Entre Dunas e Lençois”, (p.45).
Na obra, é recorrente a anáfora. Enquanto recurso estilístico que reforça uma ideia, numa insistência quase sempre intencional como em “Às Vezes” (10) (...) quantas voltas dei para abraçar/quantas lágrimas derramei para sorrir/quantas lutas travei para me afirmar/quantas solas consertei para beijar/quantos passos recuei para pular. (v.2-6), 1.ª estrofe, ainda em “Cruzes de Fevereiro” (27) que chova dilúvios de críticas/que se quebrem os telhados/que se esvoace a folhagem arbórea ... ou em “Sentindo-me Assim” (p. 13) apresenta-nos um texto panafórico  – começando todas as estrofes e versos com o verbo haver no impessoal ‘há’ como uma seta apontando para o sujeito poético que sente em si tanta coisa boa e má. E ao apontar as múltiplas existências em si que podem ser experimentadas pelos sentidos humanos, como tacto, calafrios; visão chuva; audição, trovões. Deixou de convocar ou reconhecer, em si, o paladar e o olfato será porque os terá reservado para outras coisas boas? 
A nossa impressão final é que o amor Sem Pudor de Soberano Canyanga constitui, do ponto de vista do erotismo literário, objecto de estudo onde se poderá dissecar aspectos como: a representação do corpo feminino; o erotismo e a natureza; o texto erótico como máscara entre o autor e o sujeito poético, a descrição das perversões: sadismo, etc. Fica-nos também o gosto com que o poeta trabalhou os textos, com excepção dos aspectos pontuais apontados.
Assim, para terminar o percurso do nosso diálogo com o enigma que é a arte, vamos convocar Martin Heidegger para o último questionamento: “mas por meio e a partir de quê é que o artista é o que é? através da obra; pois é pela obra que se conhece o artista” (HEIDEGGER, 2017:9), boa leitura!
 Luanda, CEFOJOR aos 25 de Maio de 2018
Carlos Cabombo
Referências Bibliográficas
BARBOSA. R. Schiller e a Cultura Estética. Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 2004.
BIBLÍA SAGRADA, tradução de João Ferreira de Almeida. Lisboa

CANHANGA. S. 10encantos. Edição do autor, Luanda, 2013.

CANHANGA. S. Canções ao Vento. Editor CeD, Luanda, 2015.
DURIGAN. J. A. Erotismo e Literatura. Editora Ática, Série Princípios, são Paulo, 1985.

FEIJOÓ K. J.A.S. L. Meditando. Execução Gráfica SOPOL, SARL, Luanda, 1994.
HEIDEGGER. M. A Origem da Obra de Arte. Tradução de Maria da Conceição Costa, Edições 70, Lisboa, 2017.
IBOR, et al. Livro da Vida Sexual. Vol.I, Edições CELBRASIL, Lisboa, 1977.
MESTRE. D. Nem Tudo é Poesia. 2.ª edição, Edições ASA, Portugal, 1989.
KANYANGA. S. amor SEM PUDOR. Creative by arp, Luanda, 2018.
PIRLOT. G e PEDINIELLI. J-L. as perversões sexuais e narcísicas. CLIMEPSI Editores, Lisboa, 2006.
QUENTAL. A. Antero de Quental, a Poesia na Actualidade. Fenda Edições, Lisboa, 1988.
SARAIVA. A. Carlos Drummond de Andrade 65 Anos de Poesia. Antologia, Edições O Jornal, 2ª edição, Lisboa, 1989.

 

domingo, 1 de abril de 2018

PÁGINAS RASGADAS DA ESTÓRIA

 - É minha, é minha..!
 A disputa  pela "Mina" parecia animada por crianças ainda lactentes. Aos ouvidos de gente sensata não passaria de briga por uma bola ou uma boneca. Mas era mesmo gente de barba rija na jogada e corpos ninfáticos em disputa.
 
- Aquela é minha. Eu já a acompanho desde os ensaios e investi bastante para que tivesse esse formato!
A noite levava horas. Quase madrugada. A gala aprazada para as 21 horas estava atrasada por conta do governante máximo que tivera uns encontros fora da agenda. Todavia, nem o atraso diminuíam o frenesim lá dentro. As meninas, todas "trabalhadas a preceito" afugentavam o fantasma da "inexistência de matéria-prima local e natural com atributos para ganhar os concursos naturais". Esse era o argumento dos organizadores do concurso anual que se viam forçados a pescar na mesma lagoa e a enfeitar com escamas rãs e raias para se parecerem a peixe. Outros defendiam que "nos tempos do make up só existiria feiura onde inexistisse dinheiro. "Tudo se inventa e recria. Até a beleza", argumentavam.
 
Entre os notáveis e os que só iam para comer sem pagar, os números de presenças eram gordos. Enquanto o "povo em geral" se contentava com a bancada, as mesas ocupavam a zona mais baixa do salão, concomitantemente, a mais próxima do espectáculo. Aqui, a visão era tridimensional. Mesmo assim, duas das mesas dianteiras corriam sempre risco: a do júris e a da entidade organizadora que ladeavam a cabeceira da pista, enquanto a dos governante de topo ficava frente-a-frente com o desfiladeiro onde músicos e candidatos iam fazer vénia antes e depois da apresentação. O júris e os organizadores eram, regra geral, gentes do povo que levavam a vida, no seu dia-a-dia, a tratar por chefe e sua excelência um bom punhado de pessoas com os verbos ser e ter.
 -Sabes quem sou eu? - Ameaçou, certa vez, um detentor de café aos ombros.
 - Sim chefe. Peço desculpas a vossa excelência, por ser o presidente do Júri, pois é mesmo para vós que julgareis as qualidades e requisitos inseridos no manual, que foi colocada essa mesa lateral dianteira. - Ironizou o jovem, medroso mas polido.
 O homem da habitual farda com riscos verticais encolheu os ombros que lhe transportam as divisas de café mas não desistiu. Foi tentar a mesma sorte junto da comissão organizadora onde encontrou passividade e ali se acomodou. E não era o único da sua classe. Anos passavam e anos vinham. O cenário sempre o mesmo. Os que podiam lá estar marcavam presença na fila dianteira, numa das mesas que configuravam a cabeceira da pista. Os outros, ausentes ou impossibilitados,  mandavam olheiros. Todos com uma missão. Ser o dono da Miss. Não importava se a vencedora ou a derrotada. Bastava passar pelo palco e desfilar nos três ou quatro trajes: biquínis, tradicional e vestido formal, quando não houvesse o fio-informal.
 
E assim, para muitas raparigas desnorteadas bastava deixar de fazer chichi-na-cama para subir à cama do chefe e se transformar também em "chefa" no gabinete, no quartel, no partido e na praça do arreió-arreió. Felizmente, esses tempos não têm volta porque lugar de criança é na escola e de adultos sem juízo é na cadeia!

Texto publicado no Jornal de Angola/Caderno Fim-de-semana/2018

quinta-feira, 1 de março de 2018

ALDEIA DA JUVENTUDE

 
O tempo histórico é incógnito. Apenas os dizeres que viajam de geração em geração dão ideia de que não terá sido na antiguidade clássica. E conta-se que num plateau, também esquecido dessa imensa Angola, vivia uma enorme comunidade. Homens novos e homens velhos se destacavam nos trabalhos que consistiam em agricultura, pesca, caça e recolecção.

Inicialmente, os mais novos, dada a sua robustez física, executavam as mais penosas tarefas, enquanto aos idosos recaia a tarefa de ensinar e coordenar todas as actividades socio-culturais e culturais.
A investigação e a implementação de novas tecnologias era também tarefas confiadas aos mais novos, chegando, muitos deles, a envaidecer-se e desrespeitar os seus pais e avós a quem tratavam por "caducos".
Certo dia, um grupo de jovens petulantes chegou a propor a separação da aldeia, construindo, num campo que distava dois quilómetros, a aldeia dos jovens que procuravam "libertar-se" da "escuridão" a que diziam estar os velhos votados. Na verdade, a intenção maior era ver a aldeia de Kitumbulu "uma lar de idosos carentes e pedintes".
A nova aldeia, designada Light Youth City foi erguida em tempo recorde. Entre os jovens abundavam arquitectos, engenheiros civis, tecnólogos, informáticos, autómatos, entre outras ciências modernas daquele tempo.
Erguida em zona plana de uma montanha, a iluminação fotovoltaica fazia dela um esplendor. Uns tratavam-na de "cidade celestial", pois havia quase tudo e consumiu apenas meio ano.
Chegou o kasimbu, tempo seco e de caça. Os armazéns de víveres estavam vazios e era preciso pescar e caçar. As mulheres, belas e modernas já não se contentavam apenas com a cidade. Algumas furavam o combinado que era "não se deslocar á aldeia de Kitumbulu onde ficaram os velhos até que se rendessem e se mostrassem abertos ás estravagâncias juvenis". Porém, saudade e fome quando se casam, a lei evapora. Sorrateiramente, uma e outra iam visitar os pais e pedir o que comer.
Lá, em Kitumbulu, mesmo com suas forças diminutas e seus meios artesanais e rudimentares, a pesca e a caça nunca foi problema. A fartura apossou-se das casas e os velhos e velhas doutro tempo pareciam mais jovens que seus filhos desertores que padeciam de fome e má nutrição.
Aflitos, os habitantes da Light Youth City tiveram de reunir-se e nomear uma embaixada que foi se desculpar aos idosos e solicitar que os ensinassem a pescar em lagoas e pântanos e a caçar com artefactos rudimentares entre o capinzal ribeirinho.
Valeu-lhes o facto de "o amor paternal ser imensurável e inesgotável". Foram tolerados e instruídos. Mas, em contrapartida, cada filho teve de levar os seus pais para a nova cidade.

Publicado no Jornal Cultura de 05/12/17, pag. 11

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

BANANA DE 10

A juventude é um estado de espírito. Assim como a senilidade. Uns são velhos na juventude e outros jovens eternos. As novas tecnologias e a prática ou ausência de exercícios físicos têm levado jovens à velhice precoce, como inovado e transformado em quase meninos muitos idosos. E quando ao estado de espírito juvenil se agrega a massa muscular, melhor ainda. É como juntar à fome a vontade de comer.

  Desde os cinquenta anos que decidiu estar na moda e recuperar a juventude que havia congelado com a maternidade e a afirmação profissional. Tudo o que uma mulher normal e culta ansiava ter ela possui: casa própria, emprego bem remunerado, formação universitária com especialização, carros, possibilidade de viagens ao estrangeiro, filhos e até neto tem um. Apenas marido não possui. Aliás já teve, mas dispensou-o.
- Mulher do meu calibre precisa de homem e não de marido. - Justifica-se, sempre que abordada sobre a sua condição de eterna celibatária.
Martínia frequenta o ginásio há já seis meses.
- É preciso torrar a picanha e tonificar os músculos. - Diz ela sempre que questionada por colegas e coetâneas. Aos olhos de quem a vê pela primeira vez, encaixa-se nos trinta ou menos do que isso. Depende das roupas e do penteado. As rugas encontram máscara e a silhueta concorre com a filha mais nova.
No ginásio que frequenta estão homens e mulheres. Uns com idades mais avançadas que regulam o que o tempo trouxe de sobra e outros queimando tempo e ociosidade. Neste grupo, o segundo, estão as meninas que se aprontam para exuberantes "executivas de protocolo" e meninos que aguardam por acenos de mulheres que conjugam o verbo ter. Damos de companhia? Também os deve haver.
Nas conversas de fazer o tempo voar, enquanto trocam de equipamentos de musculação e calibragem, os homens e mulheres adultos falam sobre sumos e frutas naturais. A banana é mais para mulheres, sendo a manga a preferida dos descendentes varões de Adão.
Martínia, não fala. Ela aprecia. As canções desfilam apenas no seu íntimo. Os planos, os olhares disfarçados, os desejos e tédios, tudo um segredo.
Na quarta-feira, saiu mais cedo do que o habitual. Seis e meia da noite. Parou na esquina. Sacou de um cigarro e fingiu que o acendia. Anatólio, jovem de dezanove, ainda a poupar a barba e sem emprego nem universidade, vinha matutinando. Namorava a miúda da rua seguinte e tinham conversa adiada. A miúda pressionava um valor para retoques ao seu cabelo. Pelo caminho, Anatólio ensaiava a saída, ou melhor, a nova desculpa. Já tinha inventado o atraso do ordenado. Depois foi o desemprego, aproveitando-se do fecho de muitas micro. Desta vez nem sabe o que inventar.
Ao vê-lo passar, Martínia fingiu sentir-se mal, apelando por socorro.
Diligente, mas carente, Anatólio ofereceu o seu corpo-socorro e ajeitou a mulher no banco traseiro, levando-a à clínica mais próxima. Meio quilómetro, porém, Martínia se recompôs e propôs uma recompensa ao jovem diligente. Um jantar a dois regado de Moet Chandon.
O repasto levou tempo. O local era chique. Teve outros detalhes mais pitorescos. No fim, quando já se preparavam para sair, Anatólio procurou confessar que não teria como pagar tamanha e agradável surpresa, recebendo dela uma simples quanto seca provocação.
- Bastará a tua banana de dez!

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

SINOPSE: MANGODINHO

Luanda e as grandes cidades do litoral de Angola ainda são os polos de atracção da juventude, ávida de "dar avanços na vida".
As assimetrias entre o campo (incluindo pequenas cidades e vilas interiores) e as grandes cidades, com destaque para Luanda, é causa para o êxodo que vamos assistindo quase que inertes.
Mangodinho é apenas mais um jovem, humilde, sem escolaridade, nem possibilidades que vem a Luanda, em situação de óbito, conhecer as vivências em uma grande cidade. Torna-se um sonhador e revolucionador que pretende levar a cidade ao campo, ao contrário de muitos que levam à cidade hábitos campestres.
Mangodinho, na cidade, conhece piscinas, latrinas, escolas e centros médicos. Sonha com a sua aldeia de Pedra escrita, no Libolo, bafejada com tais equipamentos sociais e comunitários. Sonha, organiza e realiza perante um mar de incompreensões. E não são poucos os abrolhos e percalços...
Quem chega ao fim, encontra nessa narrativa a força das ideias que transformam as comunidades e um povo. É exemplo do líder que a nova administração territorial, obviamente, há-de precisar.

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

MANGODINHO NO EMPOSSAMENTO DE JLo

Em Novembro de 1975, criança ainda com 12 anos, Mangodinho era já homem no pensar. Quando ouviu no rádio que a independência estava a chegar, preparou um kaquibuto de macroeira e meteu-se numa BEDFORD a caminho de Luanda. Sorte ou azar, ainda não me contou bem essa parte, encontrou a ponte do rio Zenza suspensa. 
- Ninguém mais passa. Os carcamanos e mobutistas estão a vir para impedir o camarada Neto levantar a bandeira. - Contou que lhe disseram isso e ficou mesmo por ali.
Quando entrou na Ngimbi, encontro o camarada Agostinho Neto já era Presidente e Angola já não era mais de Portugal.
Em 1979, o óbito do camarada Neto apanho-o numa ilhota do rio Longa. Tinha ido tarrafar sem o seu radito e quando voltou, com muitas "salambas" de peixe, encontrou toda aldeia de Kuteka "era só choro". Escapou desmaiar mas fez coragem de se aproximar devagar, devagarinho até se cruzar com rapaz Sabalo que o informou sobre o infortúnio do camarada Neto. Dos mabululos onde ficava a aldeia até chegar a capital levou quatro semanas. Aliás, é já hábito dos homens de Kuteka que, quem vai à capital, mesmo que se hospede em casa de "burguês", tem de levar qualquer coisa. E nessa de preparar a viagem perdeu a investidura do camarada Eduardo dos Santos, que foi a 21 de Setembro.
Também, mesmo que fosse, não O deixariam entrar. A cerimônia parece que foi no Palácio onde até os makota grandes, se não têm convite, não entram. Dizem que no Palácio a segurança é apertada tipo é sandalheta de quem vai caminhar uma grande distância. Por isso mesmo, em 2008 e 212 Mangodinho não se deu massada de ir a Luanda assistir a investidura do Presidente reeleito.
- Se ele é já nosso Presidente desde que o cda Neto se foi para quê só "se dar" massada de ir mais "lhe" ver? Foi assim que Mangodinho tinha parado de tentar. Mas quando ouviu que o camarada dos Santos vai meter o colar da República no pescoço do camarada Lourenço, Mangodinho fez tudo às pressas. O quibuto dele de macroeira já estava preparado. O peixe do rio Longa a e carne de caça também já tinha. Uma semana antes, meteu-se já na estrada. Agora com a paz que temos viagem de trezentos quilómetros é só mesmo em um dia e a pessoa chega mbora bem. E chegou. Ficou na casa do tio dele Sabalo onde a luz não falta para ver televisão.
Quando "lhe disseram no" Bartolomeu que a entrada no Mausoléu é de borla, ou seja sem convite, Mangodinho, cinco da manhã já estava lá com garrafa dele de água mamão e um pouco de bombô assado com jinguba. Ao sair do Benfica ainda estava a cair kawelewele. Nalguns sítios era mesmo irmão pequeno de chuva. Por isso, levou boné, casaco de lona e mais um guarda-chuva que não chegou a usar.
Aliás, antes de sair de casa, penetrou bem o cabelo, escovou o casaco e os sapatos, embora com sola gasta e inclinada, estavam a brilhar. Mangodinho para quem o visse era homem de pôr respeito. Posto na bancada pública da Praça da República, Mangodinho disse para si mesmo "não quero confusão". Foi, por isso, ocupar uma cadeira na penúltima fila, onde esperou, esperou, esperou sem desesperar.
- A viagem do Kuteka a Luanda demora mais do que esperar pelo Cda Presidente das cinco e meia ao meio dia. - Disse para se encorajar.
Mangodinho no lugar dele de visibilidade privilegiada viu todos os presidentes a chegarem, a serem ovacionados, e o "camarada de vestido preto" que falou ao camarada Lourenço que "se abre, a partir de hoje, uma Via Expressa para corrigir o que está mal e melhorar o que está bem". O homem disse mesmo como pai que recomenda o filho que (camarada Presidente), "combata a corrupção, melhore a vida da população, diversifique a economia...". Já a lhe correrem lágrimas de contente, Mangodinho ouviu atentamente o camarada Lourenço a reafirmar que vai cumprir as promessas da campanha e as detalhou uma a uma.
- Não. Esse camarada Lourenço tem cabeça. Não esqueceu nenhuma das promessas e ainda acrescentou lá outras como "Ninguém é tão rico para não ser punido ou tão pobre para não ser protegido". - Mangodinho a baba a cair-lhe tipo é nenê que está a esperar a chegada dos dentes de leite. É alegria ou quê?!
Mangodinho, assim mesmo, está a preparar as malas para regressar à aldeia de Mbangu de Kuteka. Pelo caminho vai fazer a acta detalhada que vai apresentar ao povo já convocado para uma Assembleia. Afinal, ele foi já indicado "Administrador de aldeia", no âmbito do regulamento da Lei da Administração Local.


Texto publicado no Jornal de Angola, Jan. 2018

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

E AGORA?

Viram-se crianças. Ele mais adiantado na idade do que ela. Namoraram ao iniciar a juventude plena, ele,  e ela a findar a adolescência. Madó e Loló, naquele tempo assim conhecidos, seus pais e até seus avós nasceram e sempre viveram no Margoso. Estudaram em escolas diferentes, encontraram outros cônjuges com os quais juntaram trapos e formaram famílias. Viveram, porém, e vivem no mesmo bairro. Ele em um edifício de três andares, construído ainda no tempo colonial. Ela em habitação térrea.

             Já a caminho da senilidade, ele pai de menina, a Tininha, prendada por Deus e pela herança biológica. Uma "estraga sapatos" ao passar. Qual homem que se depara com sua carga e não tropeça? Ela, dona Madalena, Madó em tempos de menina, é hoje mãe de rapaz.

As conversas de comadre, entre Madó e amigas de juventude, levaram o Totó a se aperceber que no passado houvera um "affaire" entre a sua mãe e o pai da jovem que ele ardentemente cobiçava. Sentiu-se encorajado ao ouvir aquela conversa e conseguiu cravar o primeiro beijo à Tininha.

Com o tempo, conversas daqui e dacolá, Totó contou à namorada o que foram a adolescência e os factos marcantes entre seus progenitores. Outros factos lhes chegariam aos ouvidos, por meio de tios e tias com que os pais conviviam.
- Teu pai deflorou minha mãe! - Disse um dia Totó, despretensioso e a seco.
Tininha nem sim, nem não. Era ainda uma flor imaculada. Rolaram os tempos, cada vez mais eram vistos de mãos dadas.
- Esses meninos estão mesmo a seguir as peugadas dos pais. - Diziam os mais velhos do bairro que sabiam mas nada diziam.

 
Dias depois. Noite de pouca luz. Depois da telenovela das vinte e trinta, Tininha chegava a casa banhada de lágrimas. Saia, quase a cambalear, do terraço do prédio onde fora vista a conversar com o Totó.


- O que foi, filha? - Questionou o pai preocupado.

- Foi o Totó, pai.  Fez-me o que o papá fez à mãe dele!
 
 Publicado pelo jornal Nova Gazeta de 29/06/17 
 

















 
 












domingo, 1 de outubro de 2017

O CERTIFICADO DE HULE

 Fazia meses que em Nampula fazia calor. Pior, quando El Nino se aproximava, cumprida a sua sazonalidade. Estava um calor de assar sardinhas para um prenúncio de noite. Já se alinhavam estrelas num céu cinzento recortado por nuvens turvas. Ao mesmo tempo que Hule procurava acertar a cor do céu afivelava ideias sobre a janta do dia seguinte e o leite do Diploma que brilhava nas costas. 
Hule fora enviada a Maputo ainda na puberdade aonde o pai pretendia que sua filha do meio se formasse em medicina ou outra ciência afim. Mas cedo conheceu angolanos e outros diplomatas oeste-africanos que exploravam petrodólares. Meticais para que te quero?! Instituto para que me serves?! Hule encontrou vida fácil. Dançarina de primeira hora, conhecedora de noites luxuosas, dama de companhia para eventos se fez. Não escolhia cor da epiderme. Não! Nem idade lhe interessava. Diferenças etárias eram apenas números. Somente uma cor, a do dinheiro americano lhe interessava. O certificado de habilitações literárias que lhe proporcionaria emprego numa instituição do Estado, sonho amputado do pai,  foi substituído pela cria. Foi assim que os mais inconformados com aquela opção da jovem passaram a tratar a filha de Hule por "Certificado".

No dia em que a cena aconteceu, Hule estava à porta da sua mandjungu ou choupana que herdara da avó materna de quem a filha se tornou xará. Abriu a porta, entre duas colunas que se prolongam e se revezam no andar. Deixou entrar um pouco de ar para arrefecer o forno que se achava envolto a kapulanas, como são tratados os tecidos em Moçambique.  O forno, fundo, húmido e já com pouca elasticidade, ante ao uso revezeiro, é a sua indústria, seu banco. Ajeitou os maboques, um par no peito, que se prestavam a fugir do soutien. Jactou o decote. Mamas já flácidas jazem quase quase num amontoado de esponjas suportadas por arcos metálicos. Aos lábios, levou um batom pobre e encarnado. É sangue procurando suor e sangue. À filha, chorona e resmungona, espectou um sambapito na boca. 
- Cala. A mamã vai ganhar pão pra amanhã! 
Hule fez-se a caminho da baixa de Nampula, entre Faina e Mutotope, seu emprego prazeroso. Foi lá que o Manuel, polícia de profissão, já quase noivo, a encontrou em flagrante delícia.
Ali mesmo, no Largo Machel, depois de adentrar o jeep grande de vidros translúcidos, não precisou de vistoriar à volta. 
- São cooperantes, nada os detém! - Pensou.
Imitou o canídeo. Lambeu a sua cria,  afugentando-lhe as maleitas. O bicho respirou fundo e esticou-se ao comprido. Hule, feita canídea de Rafa, simulou caminhada, de quatro, do kambwá como dizem os angolanos na margem atlântica do continente. Sem se aperceberem, a polícia que procurava por marginais foragidos fez-lhes uma surpreendente visita. Manuel estava na patrulha.
- Estão presos, malandros!

Texto publicado no Jornal de Angola do dia 01/10/17

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

FIM DE MISSÃO

Já lá vão três anos que Mangodinho teve a arriscada ideia de construir instalações para o que pode vir a ser o Posto Médico da aldeia. Como homem avisado, cuidou também de mandar à Huíla miúdo Russo e Sembe, jovens da aldeia que não hesitaram em aproveitar a oportunidade de crescer na vida e ajudar o povo. Aliás foi mesmo esse o discurso de Mangodinho quando os abordou.

- Miúdo Russo, como vês, aqui as pessoas morrer é tipo cabrito. Não há enfermeiro nem Posto. Não queres estudar saúde? Já falei com o meu pai que foi trabalhar no Lubango e ele pode ajudar. Pelo menos cresces na vida e ajudas o povo.

miúdo Russo, miúdo de visão, não hesitou.

- Obrigado Tio Godinho. Muito obrigado. Vou já avisar a mãe. É mesmo avisar.

Mangodinho falou também com Sembe sobre o assunto e nos mesmos termos. Sembe, miúdo crescido e já um pouco viajado, viu naquela proposta a vez da sua vida.

- Já aceitei, tio. Não precisa só se dar massada de explicar. Não aproveitar é ser burro e continuar na lavra e nos alambiques. -Concluiu Sembe, fazendo-se à casa para avisar os familiares.

Já não era boato. Era certeza. O chefe Sabalo, tio de Mangodinho que foi ao Lubango trabalhar na ordem e segurança, cuidou de os inscrever na Escola Técnica e instalar no internato de Civingiro. Vezes tantas levou apoio moral e material para suprir carências de visita e de quem vive de braços estendidos.

Mangodinho, hoje distinto daquele que aportou à Ngwimbi em situação de óbito, é homem diferente, iluminado.

Com as instalações erguidas e os dois técnicos formados, mesmo que venham a ser pagos apenas pela comunidade, só restará pedir à administração os equipamentos e medicamentos. Mangodinho é, ao que diria Salas Neto, "um filósofo de bairro" ou um "mago no escuro da aldeia rural". Ele foi felicita-los pelo empenho e leva-los de volta à Pedra Escrita.

- Epá! Tio Godinho e chefe Tio Sabalo?! Muito gosto. Obrigado por nos darem o estudo e virem nos visitar. - Soltaram em coro miúdo Russo e Sembe.

- Nós é que agradecemos o vosso espírito de entrega é de sacrifício. Sabia que a vossa vida aqui, longe da família, não seria fácil mas confiei também na vossa resiliência, enquanto jovens comprometidos com o bem-estar da população. - Agradeceu Mangodinho.

- Tio, só o começo é que foi duro, explicou miúdo Russo a desembrulhar os certificados, mas o resto foi fácil, porque o chefe tio Sabalo estava sempre aqui ou íamos com ele à cidade comer e beber.

Cumprido o protocolo junto da direcção do lar de estudantes, fizeram as imbambas e rumaram à cidade onde fariam a compra de algumas lembranças. Civingiro fica para a história. Dentro de uma semana, será a aldeia de Pedra Escrita a construir outras páginas em suas vidas.

Pacientes: feridos, doentes de cólera, dermatológicos, crianças de barrigas fartas, todos pacientes. Eles também pacientes. Aguardavam-se uns aos outros.

A notícia da formação dos dois enfermeiros gerais tinha chegado cedo à sede do

município. Camas, medicamentos e lençóis chegaram 24 antes e, no dia do desembarque dos dois "mestres", o administrador já os esperava para as boas-vindas, apresentar o material de trabalho, as guias de colocação e abrir o Posto.

Mangodinho aproveitou pedir ao camarada administrador comunal para deixar a função de coordenador do bairro e se dedicar exclusivamente ao Partido. Afinal, era ano eleitoral.
Publicado na pag. 10 do Caderno Fim-de-semana do Jornal de Angola de 10.12.17

terça-feira, 15 de agosto de 2017

VELHO LUMINGU E NETINHO


Dizia o pregador: um jovem, Boss de seu nome, vivia com seu pai que era já muito idoso. Reumatismos e outras maleitas faziam dele franzino e trémulo. À mesa, quase sempre, deixava cair os talheres, os pratos e copos, recebendo desaprovação da nora que se queixava de ver o seu enxoval a diminuir.

Boss tentava encontrar um meio termo. Quando podia comprava louça substituta, porém, a fúria de Queen era tanta.
A conselho da mulher, o jovem Boss entendeu fabricar artesanalmente pratos de madeira e copos de caniço de bambu para o pai.
Velho Lumingu nem força tinha para comer, quanto mais para reclamar. Aceitava pacificamente tudo quanto lhe dessem ou lhe ditassem. A viver aflito encontrava-se Netinho, o filho de Boss e Queen. Acompanhava atento quer ao quebrar da loiça por parte do vovô Lumingu, das arrelias da "filha prendada" de maus ensinamentos que era Queen e  ainda a cegueira daquele jovem próspero, seu pai. E via o vovô Lumingu sempre comendo em prato de madeira e usando copos de bambu.
 

O tempo foi passando. O menino, já adolescente, ia ganhando prática em escultura. Trabalhava e talhava a madeira como ninguém da sua aldeia e da sua idade. Era já quase um artista no trabalho da madeira.
 

Certo dia, decidiu dedicar toda manhã à fabricação de utensílios de cozinha. Não tomou sequer o pequeno almoço.
 

Quando o Boss e a Queen, seu pai e sua mãe, foram ter com ele encontraram-no no meio de uma pilha de objectos: garfos, facas, colheres, pratos, copos, etc.
Surpreendidos, perguntaram-no para que seriam àqueles objectos todos.

- Serão para o papá e a mamã quando tiverem a idade do vovô. Pode ser que até lá eu já não tenha a destreza de os poder fabricar.

Atónitos com a resposta do filho, desfizeram-se automaticamente dos objectos de madeira e repuseram a qualidade de vida que haviam usurpado ao velho Lumingu.

Queen e Boss correm hoje para a idade senil e levam para o fim de suas vidas a lição aprendida do filho primogénito. Espalham-na por onde passam, tornando-se palestrantes em várias organizações, explicando a necessidade de os filhos acolherem os progenitores em casa.
- O tratamento que dispensares aos teus progenitores, será, tenha certeza, o mesmo que pedes a teus filhos! - Têm dito nas suas preleções.

Texto publicado pelo jornal Nova Gazeta

terça-feira, 1 de agosto de 2017

NAS MARGENS DO RIO

Conta a lenda (com meu apimento):
Duas manas, Kimone e Samba, saídas das terras banhadas pelas águas do Lukala e Kwanza, lá pelas bandas de Kakulu nyi Kabasa, decidiram distanciar-se e constituírem seus “reinos”. Kimone correu em direcção à rota do Sol e fixou-se no médio Kwanza. Samba foi para sul, percorrendo a rota oposta à trajectória do sol, e encontrou terra vastas de vegetação farta que indiciavam ser de elevada fertilidade. Encontrou também sossego entre o Longa e Nyiha. Fazendo-se ao centro daquele território de água e caça abundantes, fixou nele a sua morada.

Com o correr do tempo, a saudade, quer de uma quer de outra, foi aumentando, chegando quase à exaustão. Recadistas não havia e aqueles que transmitiam “mensagens de ouvir contar” também rareavam. A travessia dos rios, em tempo chuvoso, era penosa. Kimone, a irmã mais velha, possuída de saudade, fez-se ao sertão, à procura da irmã. Terá sido em tempo de queimadas, normalmente entre Agosto e Outubro. Viam-se as planuras, as montanhas, os contornos dos rios, e os animais ferozes estavam distantes de terrenos lavrados pelo fogo.

Quando se achavam próximos da aldeia fundada pela irmã, Kimone mandou um emissário confirmar se o povoado à vista era o de Samba, ao que ergueu uma tenda onde aguardou pela resposta que veio afirmativa.

Samba, o emissário de Kimone e mais uns tantos aldeões saíram carregados de presentes e ali mesmo, onde Samba mandara erguer uma tenda para descansar e aguardar pela confirmação, se fez uma grande festa de recepção.

Para levar à posteridade aquele momento ímpar, no local foi construída uma casota que evoluiu até se constituir em aldeia, ganhando o nome da irmã visitante.

Kimone permaneceu na aldeia fundada pela irmã mais nova algum tempo. Dizem mesmo que foi quase um ano, nova época de queimadas, até afogar a saudade.

De regresso à casa, quando perguntada sobre "onde estivera todo aquele tempo", ela simplesmente respondeu:

- Ngwe(nde)le kumona ipala kya Samba (fui ver o rosto de Samba).

A terra conquistada por Samba ficou conhecida, até hoje, por Kipala-kya-Samba (Kibala). No local onde Kimone descansara surgiu uma aldeia registada com o seu nome. Antes da vila da Kibala (Quibala) está a aldeia de Kimone que possui um templo da Igreja Metodista Unida em Angola, baptizado por Boa Esperança-Kimone.

Publicado pelo Jornal Nova Gazeta de 23.02.2017

sábado, 15 de julho de 2017

OS MONSTROS QUE AS QUEIMADAS POEM A NU

O suprimento da saudade que os sufocava, havia já mês e meio, fê-los sorver aquele momento único em surdina. Era como sugar o tutano na mais profunda intimidade. Ele instalado nela (carrinha) e ela dando gozo ao longo de léguas que separavam o nordeste do centro-oeste para aonde se dirigiam.

- Lembras-te, Soba, quando viemos parecia não haver ferro retorcido ao longo da via. Vês que a paisagem hoje mudou? - Disse ela em ruídos apaixonados.

- Sim, Maria. Temos ainda muitas sobras das guerras. - Respondeu o companheiro, enquanto a afagava com mais uma mudança de força.

Mas, Soba, donde vieram então esses monstros todos, já sem cor nem forma, e que fazem recordar os tempos do tri-tri-tri-buummmm?!

- Estavam escondidos, Maria. Eu também pensava que os catadores de ferro já tivessem recolhido todas essas lembranças das guerras e levadas à siderurgia nacional. Pensava que já estivéssemos a usar arados fabricados com despojos e destroços das guerras. Ainda bem que as queimadas à beira da estrada estão a colocar tudo à mostra dos recolectores de ferro velho. É tempo de obra para os ferreiros. - Explicou o amo.

A travessia de um grupo de adolescentes com pás nos ombros fê-los interromper a prosa oral para reflectirem sobre as pás que sulcam terra em busca de incertezas escondidas no subsolo, numa altura em que a paz permite ter escolas à dimensão dos aglomerados, porém algumas chorando por alunos refractários.

- Esses assim vão à tonga ou à campanha sabatina de limpeza escolar? - Atirou Maria inocente.

- Acorda, filha. Estamos em Xamikelenge. Aqui e na Muxinda as pás, mesmo em tempo de paz, significam ainda a busca de kamanga. As escolas têm ainda as carteiras vazias à espera desses mancebos. - Explicou irónico o dono dela.

- Soba, voltou a interromper Maria, quando falávamos sobre as sucatas acastanhadas de ferrugem e já sem as chaparias que ajudariam a descortinar de que tipo de veículo se tratavam, falavas em sobras das guerras, no plural. Houve por cá muitas guerras? Gostaria que me explicasses tim-tim por tim-tim. - Solicitou Maria quase suplicante e cortado já, a meio, a encosta de Kabatukila, Xinje, onde, por ironia, um camião carregado de ferro velho repousava ad eternum no meio da rodovia, entregando-se também à interminável quantidade de ferro por recuperar país adentro, recortar, transportar, fundir e transformar. - É preciso, afinal de contas, dar vida à agricultura e à construção de infraestruturas, o que passa pela reactivação da indústria siderúrgica, cogitou, sem no entanto o pronunciar.

- Sim Maria. Usei mesmo, e propositadamente, o plural.

Houve a guerra dos movimentos contra o colono, durante 14 anos, em que muita técnica das tropas ocupacionistas foi aniquilada nas emboscadas. Depois foi a guerra civil que também destruiu a técnica militar automóvel e rodo-transportada das partes conflituantes ao longo de 28 anos. Temos ainda a guerra infinita entre a estradas e os veículos, entre os automobilistas e as vias, que parece ser a mais dura e lúgubre. - Explicou seu amo.

Maria aprovou o discurso, solicitando uma mudança de menos força e mais corrida ao que Soba prontamente compreendeu e anuiu.

Prosseguiram a viagem entre silêncios, diálogos e afagos carregados de recordações e afectos. Maria, no auge da força e jovialidade. Ele, Soba, no auge do poder, vigor a paciência em contornar as inúmeras armadilhas e os incautos camionistas que, vezes sem conta, colocavam o traile no eixo da via, submetendo em risco a vida daqueles com quem se cruzam nesta batalha da busca do pão comum para o estômago vazio.

- Esses assim pensam que a estrada é propriedade privada deles ou que os outros não têm vida? - Desatou Maria, que não poupou um estrondoso muxoxu que lhe invadiu a boca. - Vão mazé, seus sacanas de merda, e tenham juízo nas vossas cabeças de gafanhoto, pá! - Concluiu resmungante Maria.

- É isso, Maria. Isso é pão de cada hora. É isso que alimenta os esqueletos metálicos na via. Alguns camionistas só se dão conta disso depois de entrar em prantos, envolvidos num sinistro, ou quando tripulando um veículo menor se depara com semelhante corneada. É essa a luta desigual que mais me preocupa. - Falou- lhe filosófico o amo antes de ser parado para uma fiscalização preventiva dos homens do apito laranja.

- Donde vem, senhor condutor? - Atirou o agente de farda verde e colete laranja.

- Do nordeste, senhor agente. – Respondeu o soba, já com a papelada da Maria e a sua em mãos.

Conferida a papelada, acto que se repetiu outras nove vezes ao longo do trajecto, o agente, caprichosamente aprumado com gravata e luvas, devolveu os documentos e fez o sinal de partida. Aliás, não faltaram as perguntas do costume: como vai a viagem e que notas de realce nos reporta, senhor automobilista­?

Não havendo acidentes ou incidentes graves ao longo de tudo quanto tinha percorrido, preferiu soltar um NADA CONSTA e seguir viagem até à cidade erguida sobre a encosta da montanha das cobras Ndala onde tomou a primeira refeição do dia que se acrescentaria ao meio litro de café que tomara ao longo das oito horas de estrada. Maria também reclamava pela segunda refeição, o que lhe foi servida sem hesitação. Havia ainda perto de duas centenas e meia de quilómetros pela frente. O sol despedia-se a caminho do grande Kalunga-Lwiji, ao ocidente. Sábado da batida e da Ngwenda na capital e arredores, na Catedral do amor católico, bem nas barbas do Kwanza que dá vida e dinheiro aos akwaxi, as devotas pediam dinheiro, maridos, felicidade e tristezas para as concorrentes. À espera de uns incautos desconhecedores das regras de trânsito ou das leis estariam outros akwaxi. É a lei da vida urbana e da selva. É a lei dos opostos. Maria que ouvira até aí os desabafos do seu amo voltou a questionar.

- Mas por que pedem algumas pessoas a morte de rivais, Soba­?

- É a lei dos opostos, filha. O que te faz bem pode não me fazer bem. O que pedes pode ser o oposto do meu desejo. Já vi duas rivais a rezarem para que a consorte desaparecesse do mapa. – Troçou o amo.

- Ai é­? Então leva-me à Muxima. Pretendo pedir que nessa estrada, da Capital aos Kwanzas, passes a andar somente com o António (nome de outra viatura), pois há muito que ando com a coluna sôfrega.

Entre curvas e lombas, sol poente, sombras e penumbra, seguiram seu caminho até à próxima paragem...

Obs: Texto publicado pelo Semanário Angolense a 09.10.2015

sábado, 1 de julho de 2017

A ORAÇÃO DO KAPITIA

A amizade que carregam, há mais de meio século, dá-lhe a ousadia para falarem de tudo e sobre tudo. Entre eles, nada é segredo. Apenas há segredos que desvendam só quando a fila ande. Aí sim. Abrem um espaço nos epitáfios e levam ao conhecimento dos parentes mais chegados as extravagâncias inauditas do de cujus.

 
Chegados da Kibala, Kitembo e os amigos Kanhanga, Kilole e Kapitia notaram a ausência de Kandungu. O homem tinha o telefone desligado, não mandava os habituais recados aos manos da sua geração e igualhagem, nem pedia dinheiro para a cura de reumatismo que ardilosamente desviava para as "baixinhas espumosas", como gostava de tratar as cervejas de garrafa curta.

- Compadres, o gajo deve ter ido para a pior ou a caminho disso. Depois do culto, é melhor irmos espreitar, se ainda encontramos o corpo quente. - Kanhanga aos coetâneos que depressa concordaram.

Juntaram moedas, as que haviam sobrado de um domingo de muitos balaios: fundo de construção, acção de graças, dízimo do Senhor (roubará o homem a seu Deus? Questionara o pastor para melhor penetrar-lhe o cérebro e a algibeira), oferta dominical, etc. Tinha sido uma fina peneira, mas, mais-velho é já mais velho, tem sempre reserva estratégica. E foi com o sacudir dos kafokolos, onde normalmente fica enfiada a reserva estratégica, que fizeram a vaquinha com que se meteram a estrada, ao encontro de Kandungu.

Encontraram-no vivo, mas degradado. Isso mesmo degradado e em estado lastimável. Os saltos, provocados pelos buracos na via que separa a capital da sede de Kibala, haviam debilitado a sua coluna de sustentação. Os antibióticos e analgésicos para afugentar as artrites foram substituídos pelas "pequenas espumantes". Encontraram um amigo vivo mas transfigurado. Mais morto do que vivo.

Primeiro entrou Kitembu, amigo e tio, embora dois anos mais novo do que Kandungu. Seguiram-se-lhe Kanhanga e Kilole. Kapitia chegaria meio atrasado, pois fora ver a filha nas cercanias.

- Boa tarde sô Kandungu. Esta hora já estás calibrado? - Saudou, gozão, Kitembu.

- Não brinques assim. Se me encontraram com vida é já sorte. Quanto à bebida com que sempre te embirras, hoje só bebi mesmo uma. Estou mesmo a morrer e nem sei porquê que Deus não me leva já. - Respondeu Kandungu, resmungão e com a voz trémula, como se lhe faltassem apenas instantes para transitar para outra dimensão da vida.

- Mas ó Kandungu, é mesmo morrer que queres, quando pessoas com noventa fogem da morte como satanás foge da cruz? - Indagou Kilole?

- Sim, mano Kilo. Aqui já não está a dar certo. Sofrimento é muito. Morrer é descansar.

Os amigos, algo co condoídos, algo chateados, com o indivíduo que degradou o corpo por livre vontade, decidiram retirar-se e voltar no dia seguinte. Eram todos reformados e Kitembu tinha um bom jeep em que se faziam transportar, quando não fosse na carrinha de dupla cabina que Kanhanga acabara de receber de oferta do filho.

- Vamos. Quando voltarmos trazemos outras ideias e esperamos não te encontrar mais nesse leito e nessa desgraça. - Disse Kitembu a despedir-se e puxando pelos amigos.

Kapitia, que acabara de chegar, tentou ainda convencer Kandungu para se livrar da ideia de se eutanasiar.

- Mas, ó mano Kandungu, ainda a semana passada que choramos o irmão Domingos João, até as lágrimas nos olhos ainda não se secaram, você quer já nos deixar?

- Sim, Kapitia, é melhor eu partir. Se vocês acham que estou a brincar, amanhã mesmo não vão mais me encontrar.- Disse Kandungu com as últimas forças que lhe restavam.

Kapitia, entre sarcasmo e compaixão, decidiu solicitar uma oração, mesmo Kandungu não sendo mais membro da igreja, ao que todos concordaram, até o inferno que se achava sem forças para se pôr em pé.

- Oremos: " Pai nosso, nosso Senhor, Deus que dá a vida é que a retira quando quer, estamos aqui perante nosso irmão que jazz nesse leito, mais pra lá do que cá. A vida que o irmão Kandungu leva é de muito sofrimento e miséria, pai. Já que ele mesmo está a pedir, por que é que o pai não manda essa noite seu anjo busca-lo? Ao menos ele descansa perto ou longe do Senhor, em função das suas obras no mundo. Que assim seja. Ámen!

- Ámen! - Confirmaram os amigos.

Kapitia ainda não tinha ainda terminado a oração, já Kandungu se sacudia de pé, entre os amigos. Afinal, não era a morte que desejava.