quinta-feira, 9 de abril de 2020

A ÚLTIMA LUTA DE PAULO KAMBANGELA

Em Kitumbulu (fazenda, algures no Libolo) dos anos setenta, Paulo Kambangela era ainda miúdo que seu padrasto (avô paterno de Matouymorro) mandava correr com os macacos que davam cabo do milho.

O nome Kambangela (cigarra) está ainda por descortinar. Se calhar, quando nenê, gritava que nem uma cigarra estendida ao sol ardente do meio-dia. Quem é do campo já ouviu o grito estridente de uma cigarra.
Matoumorro, nascido depois do 25 de Abril (aquele Abril de setenta-e-quatro) conheceu Kambangela já aos 15 anos, embora soubesse da relação entre seu avô Ngana Muryangu com a velha Lulu, mãe de Kambangela.
Esguio, de altura média e com bom jogo de pernas e truques com as mãos que deixavam embasbacado o adversário da peleja, Kambangela ganhou, nos anos noventa (estamos a falar do século vinte) a fama de melhor lutador da aldeia de Kuteka. Que jovem não o reverenciava?
Kambangela, no dizer dos luandenses daquela época, "fazia ponta". Isto é, numa casa, podia surrar do mais novo ao mais idoso. À astúcia na peleja, juntava aspectos sádicos e virulentos.
- Éh, luta do mano Paulo só acaba quando ele ganhar. Se você lhe bate e foge ele te persegue ou te faz uma emboscada até te tirar sangue. É por isso que toda a gente lhe tem medo.- Diziam os púberes de então.

Por razões que nunca explicou, Kambangela nutria nutria um ódio visceral contra o seu antigo padrasto Ngana Muryangu, avô de Matoumorro. Assim foi que ao se terem avistado, em 1990, quando Matoumorro se refugiara na aldeia de Bango-de-Kuteka, fugido do ataque da Unita a Kalulu (25 Dez 1989), o lutador-mor encontrou no neto do antigo padrasto uma oportunidade de vingança.

Matoumorro, nos seus 15 anos, já era costureiro, profissão que aprendera dois anos antes com um primo com quem viveu em Kalulu. Estava, por isso, em casa do Ngunza-a Mbondondo, ajudando-o a colocar bainhas em alguns panos. Quando Kambangela, que era "kiphá" (contemporâneo) de Mbondondo, o viu começou a disparar em jeito de provocação.
- Xê, seu burro de merda, vais estragar a máquina de coser.
- Se o kota não saber, aprendi com o grande mestre Nguza-a-Soba e o kota Nando Mbondondo só me chamou porque sabe que posso ajudá-lo. Defendeu-se Matoumorro.
- Disseste o quê, neto de feiticeiro? Hoje vais me sentir que até o teu avô vai ressuscitar para te acudir.

Matoumorro ainda tentou justificar-se mas os cinco dedos calejados de Kambangela já tinham deixado marcas no seu rosto.

A audiência, conhecedora da malvadez do agressor, se conteve, embora reconhecendo que o rapaz nada fizera de errado para merecer tamanha agressão.
- Não te fiz, nada kota. Se me deres mais vou ter de me defender. - Atirou o rapaz, cujos nervos subiam à epiderme.
Ouvido isso, primeira vez em que Kambangela fora desafiado, o lutador da aldeia queria fazer do rapaz seu batuque.
- Lelo ngumuxika (hoje vou batucá-lo)! - Disse à plateia que aumentava minuto a minuto. Uns tentando acudir mas sem pretender se comprometer e outros com sede de ver sangue e um julgamento posterior na grande árvore do soba Mungongo.

Para o impedir de fugir, Kambangela pressionou Matoumorro pelos ombros, impossibilitando-o de se levantar da cadeira. Jamais tinha imaginado que o seu peso diminuto era vantagem para o adolescente que se pôs em pé com o adversário pendurado às costas.
Kambangela parecia estar lyambadu. Seus olhos eram sangue. Espumava pela boca à medida que rebuscava o mais profundo disparate contra o avô, o pai e a mãe de Matoumorro, por sinal sua parente.
Já fora da sala, levado às costas pelo adolescente, Kambangela tentou usar a sua táctica de sempre. Jogo de pernas, como fazem os pugilistas, e batimentos no peito que terminavam, sempre e certeiramente, com um golpe ao adversário.
Atento e já destemido, Matoumorro agarrou-o pelos ombros e espetou-lhe uma valente cabeçada que atirou o "Golias" ao solo rígido.
- Ewe?! - Gritou a plateia entre júbilo, pela derrota de kambangela, e medo do porvir.
- Corre. Vai. Fecha-te em uma casa. O Kambangela vai te matar. - Aconselharam outros.
A Cena seguinte foi Matoumorro a correr, seguindo os conselhos dos familiares mais directos e Kambangela a correr em direcção à sua casa, como se fosse em busca de algo contundente para se desforrar. Já não foi visto naquela tarde e noite.

No dia seguinte havia uma caçada pelas montanhas de Kitumbulu (junto à fazenda do avô paterno de Motoumorro (ex padrasto de Paulo Kambangela).
Não vai. Quando voltarmos vamos associar carne para ti. O mano Paulo pode te flechar. - Desaconselharam o rapaz a sair de casa.

Sem medo e com o atrevimento da idade, Matoumorro meteu-se a caminho do sertão, mesmo sem zagaia e flechas. Evitaram-se durante a caçada que durou 6 horas. Foi mais Kambangela quem andou distante do infante. De lá para cá nunca mais Paulo Kambangela lutou e ficou desfeito o seu mito de lutador invencível do Kuteka.

Publicado pelo Jornal de Angola, 06.06 2021

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

SOBERANO KANYANGA VOLTA À BNAP COM "INSTANTE NOSSO"

A iniciativa The Best "New" African Poets (BNAP) é uma antologia poética de autores africanos e diáspora, editada em Português, Francês e Inglês, sendo antólogos o zimbabueano Tendai Mwanaka e o angolano Daniel da Purificação.

Com inicio em 2015, na África do Sul, a BNAP vai na sua quinta edição (selecção 2019), contando com a quarta participação do angolano Soberano Kanyanga que na edição inaugural fez publicar os poemas "Mano Décimo", "No meu imaginário" e "Debaixo da ponte".
Em 2016 participou com os poemas "Faixa de gaja" e "Conte(n)são", fazendo pausa em 2017, segundo ele, "para dar oportunidade a uma plêiade de jovens que tutorava na Lunda Sul e Luanda, no âmbito do projecto Núcleo de Jovens Amigos da Leitura e Literatura da Lunda Sul".

Nesse contexto, conta, diversos jovens do NALL (hoje Núcleo Lev'Arte Lunda Sul) marcaram a sua estreia literária, dentre eles o seu primogênito Mohamed Canhanga ("Sei que te escondes", "Quinta-feira" e "Escritos libertários").

Soberano Kanyanga voltou a participar da iniciativa BNAP em 2018 com "Poeta Farrapo". Na edição de 2019, que conta com apenas cinco lusófonos, dentre eles dois angolanos, Kanyanga propôs "Instante Nosso", um texto que nos seus versos traz à tona o lado lírico e, às vezes, extravagante do autor de "Amor sem pudor".
A antologia é distribuída a partir de Abril de 2020 na África do Sul.

sábado, 1 de fevereiro de 2020

DIA D (XI)

A operação FF estava como prevista.  Pouca Sorte, saído de Luanda, foi ver a Libertação de Kalulu. A coluna de Libertação de Kalulu, procedeu tudo quanto fora planeado. Os homens do Comandante Infeliz, conhecedores do terreno, foram à frente. No meio posicionaram-se os de Kara-Podre. O grosso saído de Luanda, com toda a fúria e fogo, posicionou-se na recta-guarda, como quem diz "Aqui, a ferro e fogo, ninguém recua".
- É retirar o galo da capoeira e má-nada! - Dizia o comandante Bonifácio nas recomendações finais.
Os primeiros foram pela Kakula. Os segundos entraram por Kibuma, os terceiros subdividiram-se em três subgrupos coordenados no espaço e tempo: A saída pelo Kisongu, sendo inatingível, estava sob a alça-de-mira da artilharia pesada, fazendo com que quem lá estivesse ou procurasse fuga tivesse como alternativa adentrar a vila. Um pente fino se fazia pela estrada de Mukongu-Longolo e outro, não menos apertado, por Kabuta.
-  É morrer ou se entregar! - Gritou, furioso, o Comandante Infeliz, ao reentrar no seu Quartel das Mangueirinhas, de onde fora desalojado, havia semana e meia, no dia de Natal daquele ano bissexto.
- Lupuka, lupuka, twendi.- Gritavam os desalojados, carregando o que podiam.
As milícias sobreviventes, já sem farda e sem armas deixadas na atrapalhação, tiveram, na fuga, de se juntar ao povo que procurava por abrigos mais seguros aos morteiros que caiam como chuva de Abril.
                                               
Depois da kitota, a tropa reuniu-se para curar os feridos, dar dignidade aos tombados e contabilizar o material restante e deixado pelos fugitivos.
Era no rossio da vila que os cansados e estropiados se curavam ao e com sol ausente na trincheira e caserna. No logradouro da casa do comissário, que se achava no sopé do monte que carrega a fortaleza, estavam os comandantes de olhos para a cozinha. Já tinha havido fumo, fogo, fumo e silêncio. Menos aquilo que levaria à contenda os garfos e facas sobre a mesa estendida longitudinalmente e forrada com lençóis verdes do SAMM (serviços de assistência médica militar).
Quando a paciência da tropa e do comando começou a escassear com o agigantar da fome, o cozinheiro saiu confesso:
- Comandante Boni, infelizmente não temos almoço.
- O quê? O Tê-Cê Infeliz mentiu?
-Não chefe. Não é o comandante que mentiu.
- Então quê que se passa para o comando não ter almoço? Falta arroz e lataria?
- Chefe, me perdoa só. Fizemos funji. Já está mesmo pronto. Só que na hora de ver onde estava o conduto, sentimos que o óleo estava misturado com gasóleo?
- E porque não matam o cabrito que disseram que estava a morar no palácio?
- Chefe, o cabrito também fugiu!

O quadrúpede que já se tinha habituado com os invasores e ocupantes temporários do Palácio que aí o levaram, ao vê-los em debandada, meteu-se também a fresco, indo pastar o mais distantes possível, na baixa do Kambuku, caminho da Kibuma, onde fora "raptado".

Publicado no Jornal Cultura de 22 de Novembro de 2023

quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

GRANADA ENCRUSTADA (X)

Era já tempo de paz. daquela mini-paz que se seguiu às maratonas negocistas em Portugal entre os donos das balas. Os homens que mandavam nas minas, não aquelas em que o individuo ou o carro acciona e morre, não! minas onde se extraem recursos. Dizia, os homens decidiram revitalizar a área e escolheram, uma do sul do país. A comitiva era grande. Homens, mulheres e alguns adolescentes que não se desgrudavam dos papás-mandões. Uns eram geólogos e outros eram apenas leigos que aproveitavam conhecer ou colecionar ajudas de custos que, quando bem usadas, podiam superar a avença mensal. Entre eles, Ngandu, antigo militar que emprestava força à extração de pedra que embelezava sumptuosas mansões nas grandes cidades da Europa e América.
Quando o grupo começou a se desintegrar em pequenos aglomerados de especialistas em qualquer coisa, sendo os líderes seguidos por curiosos e coleccionadores de afirmações alheias, eis que no meio da multidão surge um vozeirão:
-Aqui, há granada.
- O quê, chefe?! - indagou, com elevado espanto, um dos assistentes que tinha o corpo na mina e pensamento naquela enorme montanha plana que se fazia sobressair no meio dum mato desértico.
- Sim. Há granada no meio do mármore! - Clarificou o geólogo Ndandi.
- Granada que mata? Porra! Fujam. Pode explodir! - Gritou Ngandu, o ex-militar, tomando a dianteira dos pé-no-ngimbu.
Num abrir e fechar de olhos, a mina de mármore, calma em todos os dias de sua vida, tornou-se num corre-pr'aqui, corre-pr'ali, com homens e mulheres imitando cabras que se precipitam ante a presença de um felino.
-É mina que s'expludiu. - Açucarou  Kuribota, uma senhora de falas largas, aumentando mais ainda a tensão.
 
Noutra mina, não distante da exploração de pedra branca, viu-se pedra, fumo e ruído projectados para o ar.
- Bum!- Explosão foguenta e ensurdecedora.
- Wawéee?! Morri! - Um grito, mais um grito, mais outros. Pânico geral.
Um dos fugitivos, sem saber, arrastou o cordel detonador na exploração periférica que se dedicava à exploração de gness para pavimentação rodoviária.
O Ngandu, que de minuto a minuto se gabava "herói de muitas batalhas do tempo colonial e pós colonial", era um homem-pedaços borrifado por um misto de mijo e detritos alimentares.
Procuram-se ainda os fugitivos do "kibidi" e os que se decidiram, ali mesmo, se apresentar à contra-parte.
- Camarada terrorista, faz favor. Não me mata só. Apenas vim lhes acompanhar. Também fui raptado. Nunca andei com eles, nem sei o que é ser tropa. - Atirou dona Kuribota, prostrada ao vento, sentindo-se agarrada pelas costas.
Os espinhos duma árvore nua e sedenta impediram-na prosseguir o caminho da fuga, prendendo o seu largo casaco.

domingo, 1 de dezembro de 2019

BALÁZIOS NATALINOS (IX)

Em Luanda, era festa de natal. Pouca Sorte, Sabalu (o desmobilizado), outro Sabalu (o kaynga) e mais outras famílias de sangue tinham juntado tudo o que conseguiram para viverem uma festa ímpar de suas vidas.
 
- Até água-ardente bagaceira havia. - Contou Kiteta, anos depois, aos sobrinhos reunidos para rememorar.

Kiteta era o anfitrião dos Sabalu e Súmbula, todos sobrinhos. Entre eles estava o Etelvino, afilhado do casal hospedeiro que decidiu passar a quadra natalina com a madrinha de quem era muito chegada.
- Amo mais a minha madrinha do que a mamã que me bate bwé. - Dizia ele quando questionado por que era mais visto em casa dos padrinhos do que na de seus progenitores.
Etelvino era hiperactivo, razão que levava sua mãe constantemente aos arames.
- Meu filho num põe pé no chão. Vida dele é só andar, é só mexer. Pessoa num tem descanso, toda a hora é progulema aqui, é receber parte ali. Esse filho lhe faço mais como então, vizinha Bela? Me fala você que nasceu e criou dez e é nossa mãe aqui no bairro. Me dá só conselho, faxavor!- Suplicava Manda-dya Xiku.

Etelvino, na escola, pioneiro esperto. Primeiro nas perguntas e nas contas. tarefa ele sempre faz antes de ir para casa. Rapaz inteligente, olho aqui, outro olho ali, tirou as medidas da rua e do bairro. A madrinha entretida nos bolos e os padrinho na caneca. Jorravam vinho, gasosas, kisângwa, cerveja pomba branca, Havana Club e água-ardente bagaceira.  Os homens estavam no desfrute. Etelvino foi medir a rua que estava larga, decorada com fitas que suspendiam tiras de papel, de dez em dez metros. Havia farra de canudo e gira-discos e alguns simbas com cassete dos kassav.
Etelvino com lápis e caderninho anotava tudo que via e ouvia para contar ao professor e colegas, na redacção encomendada sobre as festas de natal e ano-novo.
Chegou o casamento dos ponteiros do relógio. Meia-noite. os tiros começaram em todos os quintais onde houvesse militares, kayngas, desmobilizados ou refractários armados.
- Trá-tra-trá-tra-ta-ta-ta!. - Muitas rajadas a saírem de todos os lados e a pintarem de vermelho o céu. Assim se comemoravam os acontecimentos de grande importância, fazendo recurso ás armas-de-fogo que quase todos tinham. Tiros ao ar, bastantes até o carregador declarar secura, era sinónimo de festa ou vingança. Mas o dia era de festa nalguns lares.
Kiteta, a mulher e demais convivas, até os pais de Etelvino, estavam nas engordas, a comemorar mais um natal.
- Acudam, socorro, faxavor! É um pioneiro! - O grito replicado de gente que se divertia, fez despertar o bairro.
De repente, a rua ficou apinhada. Era pioneiro desconhecido. Não tardou, chegaram os padrinhos, também movidos pela curiosidade, apenas para ver e não esperar pelo disse-que-disse do dia seguinte. Olho de mulher é tipo de lince. Dina Santos, olho atento nas vestimentas do pioneiro tombado.
- Wawé, kokolo dyami! Wawé, Etelinoé! Falo quê na tua mãe, mô afilhado?! - O choro desesperado de Dina prolongou-se durante a manhã toda e toda a semana. O Etelvino fora atingido por uma balça perdida que se alojou no seu crânio.


sexta-feira, 1 de novembro de 2019

BAZUCA PERDIDA (VIII)

A guerra civil estava no auge. As rusgas, os anúncios nas rádios sobre soldados tombados, capturados, velhas violadas, crianças mutiladas na fuga eram conversas do dia-a-dia e que nunca faltavam nas bichas nas lojas de qualquer coisa.
- Kalulu estava tomada pelo "inimigo". A vila tinha resistido durante setenta e duas horas, mas, sem apoio da aviação, nada mais havia por fazer. Era evacuar as mulheres, os velhos, os feridos, queimar o armamento que não dava para levar, desmontar as agulhas das armas e deixar os gajos entrar. - Era essa a conversa dos mais velhos.
Uns tinham sido já militares como o Sabalu Kambota, o Kiteta e o Kwanza e outros como o Pouca Sorte tinham conhecimento de guerra verdadeira vivida no terreno. Mas outros, guerra deles era só mesmo nos noticiários e nas conversas de kotas que voltavam de férias, feridos, evacuados ou que tinham fugido a tempo da vida militar.
Matoumorro era ainda kandenge e, embora apreciasse as estórias, compondo um filme imaginário, idade da tropa, para ele e Etelvino, ainda não tinha chegado.
- Depois de três dias nas mãos dos "inimigos", a vila de Kalulu seria finalmente recuperada. - Era o que a rádio e o jornal diziam.
Deixado o vilarejo de Munenga, quem sobe em direcção à Vila, ao descrever a Curva do Aníbal, a coluna descobriu que um grupo "inimigo"  preparava-se, junto de Lussussu, para ir reforçar os ocupantes de Kalulu que desconfiavam "poder ser regados pela aviação" ou ser atacados a partir da entrada da Ponte Filomena, à Kabuta.
- Ngandu!
- Chefe!
- Presta atenção e toma nota:  atirar há trinta quilómetros. Posição sul, latitude 14 graus e longitude 21 graus. Duas batatas. - Ordenou o comandante da Coluna de Libertação de Kalulu, saída de Luanda, o coronel Bonifácio.
Havia já cinco dias de movimento com paragens e avanços coordenados a partir do Estado-Maior General.
- Senhor coronel, só no dia D-1 se avistará com o comandante Kara Podre que está de momento a fazer pente na região à volta para impedir reagrupamentos de pequenas bolsas e reforço ao nosso alvo. O comandante Infeliz e a tropa que lhe sobrou dizem também que estão com moral elevada e prontos a integrar a CLK, no dia D-2. - A ordem do operador de rádio, às ordens do general Dilaji, indicava ainda uma paragem no campo da Eka e uma marcha de cinco quilómetros em direcção a Kazengu. Uma intromissão no sistema de comunicação inimiga seria feita apontando a progressão naquele sentido, ao que a coluna recuaria ao Alto Dondo e apanhar a EN 120 que conduz à Munenga e desta para o objectivo. A ordem dada ao coronel Boni rezava ainda:
- Efectuar paragem no horizonte C3/D-2 e integrar o efectivo recuado.
Ngandu, bússola à frente, mapa na mão, calculou a distância,  introduziu as coordenadas, soltou um curto  alarme e soltou um morteiro e mais outro. Apenas os soltou sem saber o que havia no destino.
- Bum! - Rebentou o primeiro no meio do aquartelamento precário.
- Bum! Rebentou outro com maior intensidade, pois calhou numa pedra plana que levou estilhaços de aço e de brita ao encontro da companhia de civis armados na aurora para irem "fazer barulho com disparos" ao lado dos homens do Man-Babas.
Ao segundo rebentamento, a  companhia ficou desfeita.
- Ai wé, ndifa! - Gritou o chefe atingido, provocando a dispersão  do povo-armado que voltaria às suas aldeias do makyakya e xilimina de todas as noites.
- Quando a morte te pode visitar a qualquer hora, todo o instante de vida deve ser festa. - Dizia-se pelas aldeias visitadas pela guerra e por isso, fosse em presença de forcas armadas do povo ou do inimigo, o povo comia o que conseguia, bebia se walende e fazia xilimina, folguedo com batuques e guitarras de fabrico artesanal.
Depois do lançamento das batatas, a Coluna de Libertação de Kalulu continuou a marcha. Infeliz,  Kara Podre e suas tropas, todos conhecedores da geografia e das aldeias com propensão para acolher e apoiar logisticamente a rebelião, já estavam integrados na CLK.
Enquanto os comandantes da região faziam o balanço e o ponto de situação no terreno, bem como confirmavam as cartas trazidas por Bonifácio, Ngandu apensava no que podia ser a consequência ou a perda material daquelas duas bazucas perdidas.
- Aonde foram? O que encontraram? E se uma tiver caído na kinda duma velhota a caminho da lavra? E se outra matar um boi, quem vai se aproveitar da carne? E se cair na lagoa de um rio, quem vai recolher o peixe? - Era a última paragem. Aproximava-se o Dia D.
...

terça-feira, 1 de outubro de 2019

BALAS CRUZADAS: E AGORA? (VII)

Quando chegou a febre do Hi5, Keci Mandumbu conheceu Fafá, sem que os nomes apontassem para alguma proximidade familiar. Kitumba Keci Mandumbu, como se apresentava na rede social substituída pelo facebook, nasceu e sempre viveu no Kwandu Kuvangu.
 
- Meu pai, andou por cá, nos tempos da guerra de Mavinga e Kwitu Kwanavale. Deixou-me, talvez, na barriga de minha mãe e com as confusões que se seguiram, eles nunca mais se encontraram. Nem telefone havia, naquele tempo e carta também não tinha destino certo nem portador. - Narrou, acrescentando acreditar que tenha perecido nas refregas do 23 de Março de 1987 ou nas guerras que vieram depois da mini-paz de Maio de noventa. - Minha mãe conta que ele era destemido. Nome dele era Sabalu e era infanteiro. Nada mais sei sobre ele e mesmo que apareça pouco ou nada acresceria à minha pobre vida, pois até sou mais conhecido por "Sem Família", que na nossa língua nativa é Keci Mandumbu.
- Meu pai também andou naquelas paragens como jornalista militar e conta várias cenas de combates que dizimaram muitas pessoas e desestruturam famílias.   
 
Fafá, a jovem, é de Luanda, entrou na casa dos dezoito e é filha de Pouca Sorte, o jornalista de mochila e arma.
Pouca Sorte e Sabalu eram primos. O Hi5 fê-los criar paixão um pelo outro, sem que soubessem do parentesco. Avançam ou param?

domingo, 1 de setembro de 2019

TIROS MADRUGADORES EM NHUNDU (VI)

Certo dia, a coluna militar de reabastecimento que progredia de Savate a Nhundu, na EN 140 paralela ao rio Kuvangu (Cubango na língua dos outros), teve de pernoitar. Andar com luzes acesas era dos maiores perigos, tendo em conta a vigilância dos "mirages" carcamanos. O comandante ordenou paragem, ocultação dos objectivos e dispersão. Fez as leitura das permissões e, sobretudo, das proibições.
- Não foguear, nem fumar. Não se movimentar de trás para frente. Atenção à senha e contra-senha. Atenção à voz de comando...
Os soldados que não conheciam a zona e os novos na coluna, como foi o caso de Pouca Sorte, foram aconselhados a sinalizarem o nascer e pôr-do-sol como possível orientação de posicionamento em caso de ataque.
É certo que "as FAPLA não dormiam" mas o inimigo atacou a coluna à madrugada e à distância, criando pânico na coluna motorizada da BTR.
- Bum, bum, bum. - Foram três bujardas apenas.
- Apenas? Você que nunca foi tropa de verdade diz apenas?
Toda a tropa acordou a dispara instintivamente a toa. As kalashenikov, sempre à mão, já estavam abastecidas e oleadas desde o momento da partida. O primeiro minuto foi de "fogo de presença e para medir força". Cada disparava aonde lhe pareciam terem saído aquelas "batatas". Depois surgiu o comandante a orientar o posicionamento táctico do fogo, em caso de necessidade de resposta ao inimigo.
Foram muitas balas disparadas. Muitas delas dispersas que poderão ter atingido alguém, um ser vivente com sangue ou simplesmente se enterrado na terra, numa árvore ou ainda na água abundante de rios caudalosos.
Pouca Sorte ficou a pensar noutras guerras mais prazerosas do que violentas que os soldados e jornalistas militares tiveram ao longo de uma vida inteira. Lembrou-se de seu primo Sabalu Kambota, militar da 108 brigada de infantaria e assalto. Contara-lhe, em carta, que tinha passado, mata-a-mata, pelo Lunge-Bungu, Longa, Luxazes, Kamanonge, Mavinga e Kwitu Kwanavale.
- Já depois de recebermos as medalhas dos cubanos pela defesa de Mavinga, e contençãodo inimigo e sua derrota no Kwitu Kwanavale começamos a sair do quartel para as bwalas disparar a arma encravada pela solidão nocturna de todos os dias. Foi assim que conheci uma pioneira filha de um criador de gado com a qual deixei um filho que dei nome do teu primo Kitumba. A vida de tropa tem dessas, meu primo. Uma dia, se a paz chegar e a estrada permitir, vamos lá recuperar a tua cunhada e o teu sobrinho. - Sabalu falava com nostalgia e decisão.
É pena que tenha morrido ingloriamente como civil desmobilizado e que a aldeia e o nome da mulher não tenham sido clarificados. Mas o Facebook ou outras técnicas que os homens gostam de parir ainda são esperança para recuperar Balas Perdidas..!