Havia nebulosidade no ar. Aliás, dois tipos de nevoeiro: a tentativa de
condensação do de partículas de água suspensas no ar e a nuvem preta levantada
pelos ngulu
que grunhiam nas matas e
nas aldeias, a poeira levantada pelas pessoas andrajosas e irreconhecíveis à
chegada e a poeira levantada pelos Nâmbwa
e IFA's que se atreviam naquele troço que nos conduz ou nos traz de
Muxi-a-lwandu.
Avó Treza, oitenta e tal anos nas costas, embora contorcendo-se com dores
da idade, estava determinada em ir a Caxito, sede provincial, fazer o seu
"estou viva"
junto do banco das enchentes e dos antigos combatentes. Tinha sido pioneira em
Kaji Mazumbu, onde se alistou
adolescente e ficou até ao tunda mindele.
O dia, como dizia, era friorento e tristonho, mas avó Teté, como também é
chamada, meteu-se mesmo assim a caminho. Meteu-se num Nâmbwa, da sua aldeia de
Kingimbi até à vila de Muxya,
50 quilômetros mais ou menos, para apanhar a guia da delegação municipal dos
antigos guerrilheiros. Do Muxya a Caxito, outros cento e tal quilômetros,
encimando a carroça do IFA carregado de sacos de macroeira
e longos cachos de banana.
Era verde, a perder cor, as pessoas, às vezes, não sabiam ao certo se diziam cor
branca esfregada em capim verde dos atalhos ou verde acastanhado da poeira do
asfalto ausente. O IFA 50, nos tempos da guerra tratado amável e
diferencialmente por IFA industrial, tirando algumas “madres” já cansadas,
carros abatidos pela polícia e forças armadas, raros aventureiros que entregavam
à destruição suas máquinas novinhas saídas de cidades distantes e os famosos
Nambwa, era único, dia sim, semana também, naquela estrada recortada entre um
asfalto esburacado e uma picada a reclamar de garganta seca por um pouquinho de
asfaltite, qual rico a Lázaro. Para avó Teté o IFA que a levou era
verde-cremoso.
Por causa dos saltos e da velocidade de camaleão, a idosa chegou
aborrecida, embora nunca tenha escondido a sua simpatia, os caninos e incisivos
que ainda desfilavam na boca e o seu verbo refinado quando fosse para comunicar
as suas ideias, suas experiências e seu sofrimento nas matas do Kaji Mazumbu.
Caxito, a capital do Bengo, é, aos olhos dela, "vila pequena com rua e
meia, sendo a vertical longa para pedestres, esticando-se da açucareira ao
açude, e uma transversal que uma criança de cinco anos corre em minuto e
meio". Avó Teté passou pela delegação dos antigos guerrilheiros onde
renovou a foto. Era já conhecida. Alguns "meninos" que lá trabalhavam
eram filhos ou netos de antigos companheiros de avó Teté, por isso não
encontrava demora e nem era exposta à fila.
No banco da rede azul, avó Teté chegou aprumada. Trocou o pano sobre o
ombro, endireitou o lenço, ajeitou e limpou as sandálias de cabedal e fez-se à
fila dos mais velhos.
- Bom dia camaradas. Espero que estejais bem. - Saudou sorridente.
Os presentes retribuíram a vênia com alguns comentários dóceis. Um dos que
se encontravam na fila, reconheceu-a pela doçura e expressividade da voz, quase
locutora se fosse ao Voz de Angola, no Congo de Ngouabi.
- Camarada Teresa, bom dia. Quando saiu de Nambuangongo? Eu sou o sargento Cardoso do Mazumbu, o segundo logístico da primeira leva. Lembra-se?
- Que belo reencontro, meu camarada. Tenho muito gosto em vê-lo vivo e
saudável.
Aproximaram-se e beijaram-se. Dois beijos com as distâncias bem medidas.
- Como vai a sua família? Mulher, filhos, netos e bisnetos, quantos? -
Provocou a camarada Teté.
- Pois é, camarada guerrilheira, os filhos estão aí, a caminho também da
velhice. Os netos na busca do emprego que não há. Os bisnetos a crescer. Acho
que, juntando-os todos, já dava para um destacamento.
Sorriram durante alguns instantes. Se não fosse a educação e o pudor,
teriam mesmo mostrado os mabwim.
- Tornei-me viúva. Os filhos andam entre o Nâmbwa e Luanda. Os netos idem.
A tua estória, as tuas lutas, a esperança que tivemos nas matas bombardeadas
com napalm, as frutas que disputávamos aos símios, a contribuição à edificação
da nação, as incompreensões pós independência, o descaso a que se votou as
aldeias revolucionárias do Nâmbwa e a desilusão é tudo. É tudo similar,
camarada Cardoso.
- É sim, camarada Teté. Aprendemos que a luta era para o benefício futuro.
Um país sem exploradores, igualitário, com escolas, hospitais e oportunidades
... - Recordou Cardoso.
- Sim camarada! A nossa luta é até ao fim. Até à ultima gota é esperança.
E foram conversando, recordando, com passagens pitorescas pelo meio, assim
como o cronista repleta o estômago da sua prosa. Chegou a vez da avó Teté que
se encontrava na fila feminina das "pessoas de idade" como os jovens
tratavam os idosos daqueles tempos da terceira República. A agência estava
cheia, porém alegre. A avó Teté com o seu refinado linguajar era,
efectivamente, uma rosa naquela floresta humana.
- Seu nome, avó? - Perguntou a funcionaria bancária.
- Chamo-me Teresa.
- Sua idade, avó?
- Conforme o Bilhete de Identidade. - Respondeu a octogenária, num
"bom português', ao mesmo tempo que esticava a mão que continha o
documento.
A jovem conferiu, o nome, a filiação, o local e data de nascimento e a
altura. Porém, esqueceu-se de ver a assinatura.
No fim do preenchimento da ficha, sacou da almofada com tinta e procurou
explicar que dedo a idosa mergulharia no tinteiro.
- Avó esse dedo, aqui, o indicador, é que vai meter assim, e estampar
assim?
- O quê? - Questionou meio revoltada a idosa.
- Sim, avó é para assinar.
- Não, não minha netinha. Estudei e ensinei alunos no tempo da ardósia.
Dá-me cá uma caneta que eu assino.
Um idoso que se achava ao lado, já com sua conta actualizada, rápido se
prestou em esticar a caneta que a avó Teté segurou com toda a delicadeza, como
se fosse desenhar uma flor novembrina e, com sua caligrafia de pôr inveja a
doutoras de seis pancadas, assinou legivelmente o seu nome.
Teresa Miranda Lopes.
Estupefacta, a rapariga, vinte e tal anos, quase se ajoelhou em súplicas e
pedidos de perdão.
- Ngiloloke kuku. Ngakudyondo.
Velha Treza, crente metodista confessa e convicta, pôs-lhe a mão sobre a
cabeça e desatou:
- Fica com a minha bênção netinha. Não fizeste nada de mau.
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Texto publicado pelo Jornal Cultura de 14.09.2022, pg. 24.
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