
Nesse espaço LITERÁRIO a sua crítica é muito BEM-VINDA. = ® Reservados todos os direitos ao autor deste Blog =

Ilustres Confrades,
Que o indiano é comerciante e emigrante por excelência, você, eventualmente, já sabia. Que os "zazás" não se lhes ficam atrás na kandonga e na exportação da sua cultura alimentar para aonde quer que estejam, também é líquido. A novidade deve ser o "casamento" entre o comerciante indiano e a tia congolaise que confecciona e vende fufu, sakamadeso e makayabu.
Realizada num 15 de Setembro, já leva século, quase. Não existia ainda a EN120 ou, para ser mais preciso, sobre o largo e caudaloso Kwanza, o novo atalho, desenhado entre o Alto Dondo e o Fortim da Kibala, não possuía ainda travessia. Pretendia-se encurtar a distância entre a crescente capital e a florescente Nova Lisboa de então. Ao pôr-do-Sol emergia a capital do novo distrito, Benguela Velha.
Tá maluka, avô chegou, kaleluia são designativos da mota de três rodas (coexistem também as de seis rodas adaptadas para cisternas de transporte de água). A esses nomes, oriundos da rica invencionice angolana, junta-se outro, por ironia coincidente com a designação de uma municipalidade aonde os carros chegam a custo. Nâmbwa. Isso mesmo. Diminutivo de Nâmbuangongo que fica na província do Bengo.
Em 1977, o meu pai mandou comprar o seu segundo rádio em Luanda. Vivíamos ainda em Kitumbulu (fazenda de meu avô paterno). Era um Philips cinzento, de 4 pilhas grandes, made in Singapura, lembro.
Caminhava exausta pela savana. Era tempo chuvoso e capim alto a mostrar apenas as cabeças de pessoas altas. O sol, bom para alegrar a vida e as sementes a querer ser vida, brilhava no alto dos céus de meio-dia, fazendo-a caloriar[1] como se tivesse atravessado um dos imensos rios a nado.
Perto de uma pequena floresta onde pacaças e alguns elefantes buscavam
sombra encontrou um animal inanimado, mas ainda com sinais vitais. Aproximou-se
corajosa, sem espingarda, nem catana, e verificou que a pacaça tinha sido
atacada por um crocodilo.
- Há carne para conduto, há "mahaki"[2], há pele para alparcata,
há chifres para soprar e levar mensagem distante. Haverá festa nas aldeias
todas. - Disse a formiga sortuda.
Com auxílio de um pau e uma pedra, desmontou um dos chifres do animal e fez
uma corneta. Ganhou mais força ainda. O cansaço que trazia tinha sido
literalmente anulado pelo achado. Era só a festa que lhe corria no sangue.
Subiu ao topo de uma kamunda[3] que se achava no centro de
cinco aldeias e gritou com toda a força que permitia o seu diafragma:
- Vocês aí, nessa aldeia onde se põe o sol, tragam baldes, facas e homens
fortes. Temos pacaça.
Virou-se à nascente:
- Mwamama, lyatata. Tokano. Ambatano
l'ombya phala masaki ly langinga. Utana ly laphoko mwaxyale![4]
Ao norte e sul fez mesmos apelos e, num correr de pouco tempo, a floresta
encheu-se de homens e mulheres corajosos, cheios de vigor e vontade de uma rica
funjada de miudezas regada com maluvu[5].
As mulheres acondicionaram o sangue, o fígado, o coração, os rins, pâncreas
e pulmões em panelas. Com a água trazida nas cabaças as jovens raparigas
lavaram as tripas e os intestinos para a confecção de jinginga[6].
Os jovens, rápido acenderam uma fogueira para os assados de primeira hora,
enquanto os makota[7]
planificavam e repartição do animal pelas cinco aldeias. Depois seria a gestão
de cada soba, dividindo a parte a receber por cada lar da sua comunidade.
Essa cena já leva milênios. Porém, até hoje, quando a mulher se senta de
baixo da árvore do seu terreiro, a catar os piolhos na cabeça da neta, vem-lhe
à memória o grito, daquela formiga que achou no meio do capim uma mosca e
chamou todos os seus semelhantes das aldeias à volta para carregarem e
repartirem a carne do grande animal que era a mosca.
[1] Transpirar.
[2] Sangue para sarrabulho
ou para colorir a jinginga (Kimbundu).
[3] Monte, elevação ou
pequena montanha (Umbundu).
[4] Mulheres e homens,
venham. Tragam panelas para o sangue e as miudezas. Não esqueçam de trazer
catanas e facas Kimbundu).
[5] Vinho de palma ou
seiva de palmeira (Kimbundu).
[6] Miudezas: tecidos do
tubo digestivo, fígado e outros órgãos internos (Kimbundu).
[7] Os mais velhos (Kimbundu).
Texto publicado pelo GAZETA-Lavra e Oficina, UEA, 2021
Corriam os anos sessenta do século XX. A chuva tinha caído bastante naquele ano distante. Os rios ainda escoavam em abundância. As florestas alegres de verde, embora o capim começasse a vergar as flores para baixo, dando lugar à festa das codornas entre o areal esparso dos caminhos afunilados. Anunciava-se o kasimbu, reortografado pelos lusos por cacimbo. Às mães estava confiada com a colheita do último milho e a preparação de novas terras para a época vindoura. Era tempo de olhar para o cipembe¹ que reentra na lavoura.
Para os pais, eram tempos difíceis. Estavam divididos entre a participação na
luta armada pela independência, que deles ordenava entrega afóbica, e o
recrutamento coercivo para as milícias africanas do regime colonial. Muitos
corações estavam divididos, assim com os lares e as famílias que podiam ter um
tropa tuga e um irmão kambuta². Porém, aos infantes a vida corria bem,
divididos entre a escola, as férias, a pesca miúda, as caçadas, as armadilhas
aos pássaros e as brincadeiras. Fora da escola, com professores rígidos no
ensino do â-mbê-cê-ndê, as férias grandes era o melhor que as crianças viviam
de suas vidas inocentes e imaculadas.
Nos parcos momentos de inactividade militar, os pais de Kambweyo dividiam-se
entre a lavra, a pastorícia e a nembele³. Uns abraçavam-se às vihamba⁴ e outros
à arte de kukendja⁵.
Os jovens, cuidadores da aldeia e os intelectuais saídos para o trabalho
nas vilas e cidade, aproveitavam o sábado para exorcizar a dureza do trabalho o
contragosto que era combater ao lado do combatido e pôr a politica em dia. Era
dia da Voz de Angola⁶.
No momento em que a aldeia de Kambweyo se mostrava vazia, Borges, um DGS,
barba aparada, óculos escuros em tarde cinzenta, fez-se à Aldeia, interceptando
Arlindo e Agostinho, meninos a contar 3 e 6 anos que brincavam à corrida de
jante.
- Então, estão bem?
- Sim, chefe.
- Aonde foi vosso pai.
- Papai wanda ko kacipembe7.
Borges, um DGS/PIDE com já muitos anos de Angola, conhecia os códigos, as
expressões mais frequentes e os lugares.
Era um tempo em que a metrópole concorria para o lugar cimeiro de maior
produtor vinícola da Europa. Os destilados locais que haviam sido remetidos à
preciosidade da clandestinidade estavam "terminantemente proibidos" e
caçados os seus fabricantes e utilizadores.
Nas aldeias do Vye, os jovens de então os haviam rebaptizado de kacipembe. Nome
que soava cipembe8 aos ouvidos de caçadores de desgraça alheia.
Borges, confuso, sacou dois rebuçados da sua sacola e voltou a aproximar-se dos
dois primos que empunhavam cada um deles uma jante de bicicleta com que
ensaiavam corridas de uma ponta a outra de Kambweyo.
- Ó meninos, venham cá. Tenho rebuçados para vocês.
Enfiou a mão ao porta-luvas e de lá retirou a sacola na qual guardava as
guloseimas. Escolheu duas unidades e emendou:
- Se quiserem amêndoas também é só dizerem. - Adoçou.
Agostinho, o mais velho, dois anos à frente e Arlindo com cinco anos,
aproximaram-se desconfiados. Filhos de irmãos assimilados, falavam português,
mas estavam treinados: com branco, mesmo amigo dos papás, resposta é só em
Umbundu.
- Então, digam lá outra vez. Vocês são irmãos de mesmo pai e mesma mãe.
- Hum-hum. - Abanaram as cabeças em jeito de negação.
- Então aonde foram vossos papás e os amigos de vossos papás. - Indagou o
agente Borges, conhecido na aldeia, por causa da sua Land Rover branca com
carroça coberta de lona que já levara para castigos na cidade jovens e adultos
daquela aldeia.
- Vatete vanda ko kacipembe9. - Voltaram a responder os petizes.
Confundindo kacipembe e cipembe, Borges meteu-se, sem caça, a caminho da
cidade. Os meninos e os jovens de Kambweyo tinham ganho o dia, enquanto o
agende da PIDE/DGS registava mais um fracasso nas suas tentativas de prender e
molestar os utilizadores de destilados locais.
=
¹- Terreno agrícola em sistema de repouso (Umbundu).
²-Guerrilheiro do MPLA
³- Igreja (Umbundu).
⁴-Adereços mágicos, mixórdias (Umbundu).
⁵- Destilar (Umbundu)
⁶- Programa radiofônico do MPLA emitido a partir de Dolisie, República Popular
do Congo.
⁷- Bebida destilada à base de milho, cana e outros produtos).
8- Terreno agrícola em sistema de repouso
(Umbundu).
9- Os papás foram beber
kaporroto/kacipembe.
=
N1- Adaptado de uma estória contada por Agostinho Lopes.
N2- Publicado pela GAZETA-Lavra e Oficina, UEA, 2021