sábado, 13 de agosto de 2011

DIÁLOGO

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Hoje em dia, há, em todo o lado, pessoas que falam mais dos feitos do passado do que do futuro, que falam mais da oposição do que da governação, que olham mais para si do que para a país, que andam aí a gabar-se de coisas que nunca fizeram nem pensaram um dia fazer… pessoas que andam na roda sem saber como se toca a música. E, vamos indo de rasto em rasto, de promessas em mentiras, de pobrezas em misérias até à morte final. Faltam coisas novas, ideias… a até novas mentiras. O diálogo entre Katende e Kaphonde, dois nativos com vivências comuns e incomuns é exemplo.  

- Oh Mano Katende, dizem que desde que vieste a capital cresceu muito. É verdade?
- Hum! Quem foi que te mentiu assim, oh Kaphonde? O Musseque nem um passo deu em direcção ao asfalto e a luz eléctrica desapareceu. Em Maio de 1984, quando do meu primeiro cara-a-cara com Luanda, a cidade começava na Sat’Ana. Era ali que começavam duas ruas larga com os carros orientados em apenas um sentido. Havia iluminárias altas que diferenciavam Luanda de outras cidades do interior, onde também havia carros ruidosos e luz eléctrica. Hoje, 27 anos depois, o cenário é o mesmo, apesar de alguns trabalhos que uns desatentos dizem tratar-se de crescimento.
- Como assim se antes tudo isso aqui era capim?
- Quem sai de Viana a Luanda, rapidamente se apercebe que a capital tem algumas ruas iluminadas apenas ao chegar ao cemitério da Santa’Ana. O mesmo trecho que vi em 1984 e que vai até ao Jumbo. Todo o resto a montante é “paisagem” escura e propiciadora de muitos acidentes de viação, à noite, dado o encandeamento de uns sobre os outros que circulam em vias opostas. Os desníveis no asfalto, entre um trecho reparado e outro a aguardar pelo novo tapete, tem sido outra causa de despistes, rebentamentos de pneus e a destruição de jantes, sobretudo os de liga leve.
- E quem se responsabiliza pelos danos? Há?
- Ninguém! Você pensa que aqui te ligam? No cú do perú!
- Mas então a cidade cresceu ou não?
- Aumentaram apenas as casas. A vila da Mata, o Golfe, o Palanca, o Tunga-Ngó, o Curtume, o Kikolo e arredores, o Mulenvos, Viana Sanzala, Vila Nova, Kambamba, Benfica e outros bairros que na altura eram lavras são agora autênticos guetos… O Musseque Braga Junta-se ao Musseque Baia. Nada mais do que isso! Quanto à evolução da cidade é tudo pioria!
- Pioria como?
- Sim pioria. Male-male. Pior ainda é a nova banga na recolha nocturna do lixo e sua pesagem para pagamento. O peso é que define o valor a pagar à operadora. E nesta correria pelo dinheiro que é público muitas operadoras preferem mesmo escavar e levar terra em vez de lixo. Consequências, deixam os bairros esburacados e cada vez mais sujos! Outros na ânsia de chegar primeiro, os motoristas, vão espalhando rastos de lixo por onde passam, chegando mesmo a provocar acidentes de veículos que volta e meia dão de cara com um estranho monte de lixo na estrada caído dum camião ou tractor sem cobertura. Acha que alguém da parte do “quem de direito” vê isso?
– Ninguém vê. Na hora todos tornam-se cegos, excepto aqueles que vivem os problemas sem onde se queixar. Passa ainda pela estrada dos Mulenvos, que dá à lixeira provincial. É um exemplo de todos os dias. Os condutores de ligeiros estão sob risco permanente de serem abalroados por um camião de lixo descontrolado ou embater contra uma montanha de lixo “descarregado” na via.
- E os hospitais como estão? É que estou a pensar operar a minha dituba...
- Ah! Esses só a descer. Um paciente que acompanhei por duas vezes consecutivas foi internado numa cadeira do Banco de Urgência dum hospital de referência. E note-se que não é dos que ficam na periferia. É mesmo entre o largo Primeiro de Maio e o largo da Sagrada Família. Depois de ter passado a receber soro numa cadeira foi-lhe dada alta médica, alegadamente por falta de espaço. E não é que teve de voltar à noite ao Hospital pois a saúde degradou? Solução: outra noite, no mesmo hospital, outro soro na cadeira e outra alta na manhã seguinte…Nesse jogo de rato e gato tivemos de optar pelo Hospital do Prenda onde, mesmo sem camas e espaço no B.U., os médicos e enfermeiros se mostraram autênticos profissionais, distribuindo os pacientes em macas: um mal menor para quem passou duas noites seguidas internado numa cadeira.
- E a água já jorra nas torneiras como no tempo do caputo?
- No hospital do Prenda sim. Até deu para lavar o doente. Mas na torneira de casa são as baratas e as minhocas que moram no PVC.
- E a educação, mano, como vai? Disseram-me que o a-e-i-o-u já não se ensina na pré…
- Antigamente cantávamos a ma me mi mo um ou depois de aprender o abcd. Agora tudo mudou. É só passar de ano e professor único para todas as classes, da kabunga à sexta, já se viu? E nem tudo isso é ainda o cúmulo…
- Ah! Não é?
- Sim. Imagina no vizinho que de lua em lua põe música alta e a polícia que tem esquadra bem ao lado ainda aproveita ir pedir cerveja sem mandar fechar a aparelhagem.
- Mas como assim se não há luz todos os dias?
- Oh mano, você está a ficar burro ou quê? São os fofando! Você num sabe que já substituíram a luz da EDELI? Arra xiça pá! Vamos só descansar, antes que pensem que somos do contra!

segunda-feira, 2 de maio de 2011

O HOMEM ZELOSO E O KIFUMBE

Era uma vez…

Na Angolândia, uma país que vivia dias d epaz e muitos sorrisos nos rostos das crianças, havia um homem muito humilde, amigo dos filhos da esposa e de seus familiares. Todos o respeitavam por isso e sentia-se ele um homem feliz . Tinha a família ao seu lado.

Um certo dia resolveu visitar os parentes da esposa. Ela chamava-se Ngueve e ele Njamba. Pelo caminho, num cruzamento, encontrou um homem sem pés nem braços. Fazia tudo com a boca. Era desconhecido naquelas paragens, mas Njamba muito atencioso decidiu-se em dar-lhe ouvidos e atender as suas preocupações.
- Para aonde vão? - Perguntou o estranho.
- Visitar os meus sogros. – Respondeu Njamba.
- Também vou. – Afirmou o estranho.
- Tudo bem. – Respondeu Njamba sem questionar como ele iria e a que velocidade.
N a sua peculiar calma e paciência, Njamba arranjou uma maca e transportou o homem estranho que não se calava durante o caminho. Era tão impertinente que chegava a dar ordens a quem o transportava de graça.
- Pára aqui para beber água - Ordenou a certo momento.
- Pára ali que quero comer um figo. Vira acolá que quero descansar numa sobra de mufumeira .
Paciente, Jamba foi aturando até chegarem à aldeia dos sogros que distava uns treze quilómetros.
Mbuanga e Katambi, os sogros, receberam-nos como muito prazer e emoção. Até mesmo o estranho foi tratado como se de família se tratasse sentando-se também ele à mesa para o banquete .
- Eu só como carne e muita carne. – Disse o estranho Kifumbe.
- Ok. Sem problemas. Far-te-emos as honras da casa. Aguentamo-nos com as ervas que também nos fazem bem. - Disse Katambi, o sogro de Njamba, que teve a concordância da mulher, da filha e do genro.

Já de regresso à casa, os pais de Ngueve, que eram muito velhinhos, ofereceram ao genro muito gado, aves e cereais que colocaram numa carroça puxada por bois. Levaram de volta o estranho "empata" que não queria ficar naquela aldeia onde dizia ter parentes…
Ao chegarem ao mesmo cruzamento em que o encontraram pela primeira vez, o kifumbe disse para o casal: - Temos que repartir tudo o que vos ofertaram porque eu também fui visita na casa deles.
Mais uma vez Njamba concordou, embora tivesse a discordância da mulher, mas manso como era aceitou. Njamba não gostava de confusões. Deu-lhe dois cabritos, um boi, cinco galinhas e um saco de milho.
- Mas não é tudo. Não vês que falta uma coisa? – Perguntou o kifumbe.
- Uma coisa? Como assim? Não te dei parte do que me ofereceu o meu sogro? - Respondeu-lhe Njamba já meio aborrecido.
- Falta dividirmos a tua mulher - Disse-lhe o atrevido sorridente.
Chateado, perante aquela petulância e falta de gratidão, Njamba meteu-se aos choros e a clamar por socorro. Apercebeu-se de que estava perante um fantasma. Um assassino.
Primeiro apareceu um pássaro e depois um cão que perguntaram a Njamba por que estava ele a chorar de tanta raiva. Njamba explicou o que se tinha passado e o pássaro perguntou ao kifumbe:
- Como se pode repartir um ser humano ao meio?
O kifumbe sem resposta tentou atirar-se ao pássaro, mas este chamou pelo cão que correu com ele. Assim, a mulher ficou salva e a felicidade voltou a fazer parte daquele casal.

Moral da estória: Não se deve confiar em demasia nos estranhos.

sábado, 2 de abril de 2011

A MADRASTA TETÉ

ERA UMA VEZ…

Kibocolo é uma pequena vila do Uige. Uige é uma província do norte de Angola onde se planta muito café e muita mandioca também.

Na vila de Kibocolo vivia uma senhora cujo nome era Teté. A senhora era viúva tal como o senhor Jota-Jota que era pai da Joaninha.

Joaninha era uma menina de sete anos cuja mãe tinha falecido num acidente que até hoje ainda ninguém dos habitantes da vila sabe explicar. Como a menina precisava de cuidados de uma mãe, o seu pai decidiu-se casar novamente e dar a sua filhinha aos cuidados de dona Teté, a sua nova esposa.

Apesar de muito meiga e cumpridora dos seus deveres, Joaninha era muito maltratada pela madrasta e até privada de ir à escola. Sempre que chegasse o tempo de apanhar salalé era a ela que recaía esta missão difícil no meio do capim alto e muitos mosquitos que lhe podiam transmitir o paludismo e outras doenças da pele. Mas a menina mesmo sabendo que aquilo lhe podia fazer mal não incumpria.

Como o salalé era muito apreciado, a madrasta comia todo, contentando-se a menina com os restos. Tudo era feito na ausência de Jota-Jota que por ser pastor de gado ausentava-se frequentemente de casa para alimentar os seus rebanhos.

Um dia, Jota-Jota decidiu abandonar Kibocolo e mudar-se para Sanza Pombo que tinha prados com muito capim fresco para alimentar os cabritos e os carneiros. Como no quintal da nova casa havia uma figueira a madrasta incumbiu à Joaninha controlar a árvore de modo que ninguém roubasse os apetitosos figos.

Quando começaram as aulas Joaninha deixava a figueira desprotegida e os pássaros aproveitavam fazer a sua festa. Certo dia apareceram tantas aves famintas que acabaram com os figos todos. Foi um dia triste.

Ao chegar da escola, Joaninha apercebeu-se que a figueira estava sem frutas e muitas estavam espalhadas pelo chão. Começou a temer pelas represálias da madrasta que era muito má.

Dona Teté nem sequer deu ouvidos à menina e começou a bater nela até desmaiar. Temendo ser surpreendida pelo marido, a madrasta pegou o corpo da menina e o enterrou com vida longe da aldeia, num sítio de passagem do gado para a pastagem.

Chegado à casa, Jota-Jota notou a ausência da sua filhota e perguntou:

- Onde está a Joaninha?

- Foi ao rio acarretar água. – Respondeu ela a fingir.

Passado algum tempo Jota-Jota voltou a perguntar.

- Teté, onde foi que mandaste a criança?

- Já te disse Jota, foi ao rio. Sabes como é irresponsável a tua filha. Deve estar na brincadeira com as amigas. – Voltou a responder a senhora.

Preocupado, Jota-Jota meteu-se a caminho do rio e não encontrou a filha. Chegado à casa voltou a perguntar e a e mulher respondeu:

- Se não está no rio, também não sei aonde foi. Deve ter desaparecido.

Passados meses, no lugar onde a menina fora enterrada cresceu muita relva e sempre que os pastores por lá passassem acompanhando o gado ouviam uma estranha canção saída da mata.

Oh pastor do meu papá

Não cortes o meu cabelo

Minha mãe me criou

Minha madrasta me matou

Só por causa da figueira

Cujos figos não tirei.

Os pastores abandonaram o gado e correram à casa para contar o sucedido ao patrão Jota-Jota que decidira ir às compras na cidade de Carmona .

Suspeitando que estivesse quase a ser descoberta Teté mandou de imediato os pastores voltarem ao pasto, mas estes recusaram-se, e decidiram aguardar pelo patrão.

- Vocês sabem que o gado não pode ficar na aldeia, por que razão está aqui? – Perguntou ela ameaçando-os.

Os homens mantiveram-se calados e nada responderam. Teté ainda tentou inventar que os pastores tinham voltado à casa com o gado incompleto o que fez Jota-Jota dirigir-se mal aos seus trabalhadores.

O mais velho dos pastores chamou o patrão a um canto isolado e contou-lhe da música estranha que ouviram a caminho do pasto. Jota-Jota ainda tentou duvidar mas o pastor mais novo repetiu a canção;

Oh pastor do meu papá

Não cortes o meu cabelo

Minha mãe me criou

Minha madrasta me matou

Só por causa da figueira

Cujos figos não tirei.

Jota-Jota juntou os retalhos da história e concluiu que algo de mal se tinha acontecido com a sua filhinha. Rumou com os pastore ao local e mal o gado começou a comer a relva ouviu-se de novo a canção entoada por uma voz parecida à da Joaninha.

Concluiu então que dona Teté tinha morto a sua única filha querida.

Chegado à casa perguntou-lhe:

- Por que me disseste que a minha filha tinha desaparecido quando na verdade a mataste por causa dos figos?

Dona Teté, sem desculpas, começou a chorar implorando por perdão. Jota-Jota ordenou aos seus empregados que a amarrassem para não fugir e foi chamar a polícia que aprendeu, sendo condenada por muitos anos de cadeia.

quarta-feira, 2 de março de 2011

A CEGA E O CÃO

ERA UMA VEZ…
Na aldeia de Kanjala, na costa de Angola, entre o Sumbe e o Lobito, vivia uma mulher com deficiencia visual em um dos olhos. O nome dela era Milika e estava casada tradicionalmente com um homem chamado Ngufu.

Ngufu era extractor de maruvo de palmeira e de bordão e praticava também a caça. Tinha por isso um cão chamado Kelula .

Um dia, ao trepara à palmeira para cortar um cacho de dendém e retirar uma cabaça de maruvu, Ngufu esqueceu-se de levar consigo o kanjaviti e olhando para baixo dá de olhos com o cão que farejava no trilho dos pukus . O homem, preguiçoso diz para si mesmo:

- Se esse cão fosse pessoa dar-me-ia o machadinho e eu evitaria de descer completamente.

O cão que ouvira a expressào desdenhosa do seu amo, fez aquilo que faria um ser humano adulto e deu-lhe o kanjaviti.

Cortado o cacho de dendém, chegou a vez de retirar o maruvo. Encheu o primeiro que tinha à cintura e a como a vasilha pendurada à palmeira ainda tinha líquido precisou de uma segunda. Nisso olha novamnete para baixo e lá estava novamente o Kelula nas suas brincadeiras, atrás de borboletas. O homem, desta vez em voz muito baixa, volta a exclamar:

- Se esse cão fosse um menino me teria dado a kabaça que está ao pé dele.

Espantosamente, Kelula o cão, deu-lha.

Ngufu apenas riu em gesto de agradecimento. Estava agradecido e preocupado também, porque nunca um cão tinha entendido a linguagem humana. Nisso o cão que apesar de cumprir as ordens não tinha emitido sequer um som disse-lhe:

- Meu amo, por teres menosprezado a importância dum cão, de hoje em diante passas a entender a linguagem de todos os animais, sem que o possas contar a alguém sob pena de morreres.

Ngufu concordou. Ao chegar à casa encontrou a mulher a moer bombó num almofariz e uma peneira rudimentar. Milika, a mulher, estava cercada por galinhas que aproveitavam os bocados de bombó que caíam ao chão.

Enquanto ela enxotava as galinhas, o galo que estava algo distanciado disse às galinhas:

- Oh! suas burras, passem do lado do olho cego.

Nisto, Ngufu percebeu a linguagem dos animais e meteu-se a rir em locas gargalhadas o que enfureceu a mulher que queria uma explicação sobre a razào de tamanha rizada.

- Por que estás a rir? Tens de me explicar porque se não vou enforcar-me por estares a zombar da minha deficiência. – Disse ela.

Mais o homem tentou convencê-la de que era um segredo que não podia desvendar, mas a mulher não o compreendeu.

Por fim, perante a insitência da mulher, Ngufu ordenou que ela chamasse os mais velhos e o soba da aldeia.

- Eu, quando sai hoje com o meu cão, vivi algo inédito nesta aldeia. Aflito em cima da palmeira, o meu cão ajudou-me a entregar o kanjaviti e a kabaça e falou como se de um ser humano se tratasse. Só que me pediu que guardasse um segredo: Não podia contar a ninguém o sucediodo. Mas como a minha mulher está desconfiante duma rizada que dei quando as galinhas falaram, estou a contar-vos que eu entendo a linguagem dos animais. E por desvendar o segredo também ponho fim à minha vida.

Posto isso, o homem sucumbiu.

Os mais velhos e o soba da aldeia realizaram o funeral e no fim expulsaram Milika daquela comunidade por não ter confiado no que o marido lhe dissera.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

O RECADO DO COELHO


Mensagem enviada por e-mail ao meu "grande kota" José Soares Caetano (Tazuari Nkeita) e que m'a fez chegar.

...  Ontem à noite, fazia eu um "zapping" pelos canais da televisão, quando deparei com um programa que não conhecia, Arco-Íris que, pelo que vi, presumo ser um magazine cultural.

E lá estava ele, o nosso jovem amigo Soberano (Luciano?) Kanhanga, feliz e emocionado apresentando o seu "filho", "O Sonho de Kaúia".

Tal como ele também eu fiquei feliz e emocionado, porque sei exactamente o que se sente quando se "dá à luz" uma primeira obra.

E também te vislumbrei, de relance, depois do Kanhanga ter agradecido publicamente o teu decisivo incentivo.

Mas, já no fim, senti alguma amargura: alguns dos convidados a falar sobre o livro eram escritores, que não conhecia, jovens na maior parte, de quem, possivelmente, não terei a possibilidade de ler as suas obras, porque não chegam a Portugal, tal como o meu livro talvez nunca chegue a Angola...

E aqui faço a mesma pergunta/desafio que um dia fizeste: para quando a criação de uma Casa da Cultura Luso-Angolana, ou vice-versa, que possibilite um canal aberto à divulgação do que se vai fazendo no campo das artes, nomeadamente na Literatura?

Um forte abraço para ti e, por favor, estende-o ao jovem Kanhanga, cronista de mérito que aprendi a gostar através do sítio do nosso amigo Manecas Ruivo!


Tomás Lima Coelho

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

O COMÍCIO DO MBUKAYO

Mwata Cikambi sacudiu o único casaco que tinha e sem aviso prévio decidiu rumar à sede administrativa da circunscrição que tinha recebido um novo chefe. Com jeito vestiu a camisa branca, quase a perder a cor de tantas lavagens e nódoas involuntárias de sumo de caju. A parte traseira estava mesmo rota. O velho, um antigo guerrilheiro da luta de libertação, meteu-se a caminho para uma conversa aberta com o novel dimixi .

- Menina boa tarde. O camarada administrador está?
-Sim paizinho. Mas … o senhor veio da parte de quem?
- Da minha parte mesmo. Vim sozinho. Sou o Mwata Cikambi. Menina num me conhece?

A jovem, esbelta de se pôr inveja, dezanove anos mais ou menos, cintura fina e ombros de cabide, levou tempo a responder e logo o velho notou que ou não o conhecia ou a secretária estava a fingir.

- Essas meninas de agora são sempre assim. O chefe pode estar lá dentro, mas dizem sempre que não está ou está reunido. Mas hoje não sairei daqui sem que ele me receba. - Falou para si mesmo.

A secretária, sabendo que o chefe demoraria a atender o soba, optou por levá-lo à sala de espera.

- Mwata, espera só um bocado que vou já avisar o chefe que está reunido com umas pessoas que também vieram de longe e chegaram primeiro.
- Está bem filha, - respondeu, embora recticente.

Na sala, Satula recebia um a um outros senhores, os notáveis de Mbukayo. O administrador tinha apenas dias, mas a lista de pedidos de audiências já era enorme. Eram fazendeiros que pediam alfaias e acesso ao crédito agropecuário, sobas que exigiam regalias, antigos guerrilheiros que pediam pensões, viúvas que procuravam por maridos desaparecidos na guerra, enfim… um mar de preocupações com que Satula nunca contaria logo na primeira semana. Mas o destino estava traçado. “Não adianta fugir dos problemas porque eles antecipam-se à nossa marcha”. - Desabafava com os poucos amigos que tinha na vila.

- Pai, toma um café? - Questionou Lawa, a secretária.
- Sim menina.

O tempo passava, a vez de entrar na sala do administrador tardava em chegar e o café esfriava. Nem sequer o tinha adocicado com o mel delicadamente servido numa tigelinha. Duas horas depois, com o administrador já pronto para o cara-a-cara, Lawa voltou à sala de espera e reparou que o café, já sem calor, mantinha-se intocado. 

...

- Oh Citonji, essa tua mania do está ultrapassado eu não gosto. Como é que você vê as pessoas a sofrerem e na hora já de falar te ultrapassei. Por acaso você viu alguém na estrada a andar de vagar?
- Cala a boca seu terrorista. A tua sorte e que a guerra já acabou se não eu mesmo é que ia te apagar desta vez. – Rechaçou Citonji, Manuel Nyanga de seu nome, mas assim apelidado devido a contracção de uma deficiência física na guerra da independência.

A rivalidade entre Mwata Citonji e Kajivunda era de há muito tempo e escapava ao conhecimento do administrador que os recebeu em simultâneo para exporem em conjunto as dificuldades por que passam os antigos guerrilheiros da pátria em Mbukayo.

Residiam, enquanto crianças, em paredes-meias e foi o único tempo de amizade e cumplicidades. Um no primeiro andar do pequeno edifício da vila que chamavam kaprédio e outro no rés-do-chão. A rivalidade começou na juventude quando tiveram de aderir aos movimentos. Citonji era e é um fervoroso apoiante dos Vermelhinhos e como eles alinhou para as matas do Leste onde viria a ser lesionado no ombro esquerdo. Kajivunda sempre se reviu nos Verdinhos do Jacinto e cedo se tornou no encarregado da logística do mais novo movimento que depois passou à oposição armado ao regime dos vermelhinos. Separados no ano de setenta e um, voltaram a reencontrar-se já nos anos noventa e sem a pujança doutrora.

- Vocês do Vermelho são sempre assim. Lambem a bota até furar o cabedal… O administrador é novo e precisa de saber as coisas, pá!
- E vocês que partiram o Mbukayo pelo meio são quê. É? Me fala seu reaça.
- Reaça é você, seu cobarde. Onde te está a dar a comichão é onde você se coça. Porquê que andas roto se o vosso Vermelhinho te dá tudo e tu não precisas de nada mais?
- Cala a boca, pá! Olha que se não fosse o meu ombro punha-te agora mesmo a apanhar castanhas, seu inergúmeno duma figa…
- Inergúmeno, eu? Inergúmeno é a tua senhora que não te dá bons conselhos está bem? E olha que hoje andaste com sorte porque se fosse nos tempos do meu marechal isso ia ficar feio… e ia ficar mesmo…

A subida de tom das vozes dos dois idosos puxava para o quintal da administração muitos dos transeuntes que sem saberem as causas e os fundamentos daquela briga ora procuravam apaziguar evocando a paz do Jacinto ora colocando mais lenha na fogueira. Foi naquele instante que Lawa foi alertada pelo guarda que assistia à discussão entre os dois veteranos de guerra saídos da sala do administrador e foi ver o que se passava para informar ao chefe se fosse caso para tal.

- Mas paizinhos o quê então que se passa convosco, pai? – Perguntou no meio de tantos disse-que-disse da assistência.
- Filha, já viu esse Kajivunda a me ameaçar eu, um antigo combatente da pátria?
- Citonji explica só o que se passa. Talvez é o administrador que mandou a menina.
- Não, pá, seu filho da pu... você hoje vai me ouvir.

- Mas assim não vos oiço. - Interrompeu a moça no meio do disse que disse. - E se a discussão é de algo que saiu de lá dentro com o chefe é que vou informar?
- Pois bem. O Citonji explicou os problemas dele. Falou que lhe falta comida, casa e adubos. O chefe lhe escutou e eu não lhe cortei. Mas o gajo na minha vez de explicar veio com a mania dele de dizer que este assunto está ultrapassado, mas ele pensa já que também é chefe? Eu me coço ali onde está a me dar comichão…
….

- Então o paizinho não tomou o café?
- Não filha estava à espera do pão!
Sem se poder controlar, a secretária pôs-se a rir em bandeja larga o que deixou enfurecido o velho regedor que entrou de rompante na sala do administrador a quem expôs a falta de respeito por parte da secretária e os problemas que o afligiam. Satula só teve um caminho para apaziguar os ânimos exaltados do soba mais importante da região.

- Mwata, os jovens de hoje não sabem como estar perante um mais velho. Peço já as minhas desculpas e vamos tomar medida para que isso não volte a acontecer.

Satula largou um berro enraivecido ao gosto do velho que pretendia a tomada de medidas repreensivas contra a menina “mal-educada”.

- Lawa! arruma já as tuas coisas e estás suspensa!
- Não chefe, me desculpa só… - A jovem entrou humilde, ajoelhou-se aos prantos ao pé do velho que olhando para o administrador ordenou:
- Pronto já filha. Mostraste que apesar do erro conheces os costumes. Chefe, pode lhe perdoar. Emprego está difícil e escola para educar os filhos num há aqui desde que o colono foi embora.

Para contentar o velho, Satula propôs-lhe a realização do primeiro comício público na sua redoria, ao que de imediato concordou. Para mwa-Cikambi acolher o primeiro acto público do administrador era sinal de grande reconhecimento e de vantagem sobre os outros regedores e sobas da região. Rápido afogou a dor causada pela rizada da menina-moça e retirou-se satisfeito, mesmo sem ter levado nada de material. O dia para Mwa-Cikambi estava ganho. “O resto virá com o tempo” - disse ele ao chegar à sua aldeia que distava dez quilómetros da sede municipal.

Pim, pim, pimmmm…. Uion uion uion… Polícias e ambulância médica abriam o caminho entre a multidão revoltada para facilitar a retirada forçada do administrador. O comício tinha ficado pelo meio e o povo furioso, mais uma vez, conseguiu correr com um administrador.

Terminada a guerra, Satula abandonou o Maquis com a patente de Major e graças a argúcia que possuía e alguns compadrios na superestrutura partidária foi nomeado administrador do Mbukayo.

- Cipalavela!
- Chefe.
- Sabes falar Umbundu?
- Sim chefe. Nasci mesmo aqui- respondeu o guarda-costas.
- Amanhã vamos fazer o primeiro comício no Mwa Cikambi e como aquele povo é mafioso vais fazer a tradução.
- Está bem, chefe. Pode confiar.

Satula, um mukwakuyza, levava como recomendação dos seus superiores: pôr ordem naquele município que durante muito tempo foi administrado pela guerrilha. Já dois seus antecessores civis tinham fracassado e a ele, um militar, a missão seria a de impor a ordem administrativa, custasse o que custasse.

- Viva o povo!
- Viva!
- Viva a paz!
- Viva!

A multidão, embora rotulada de resistente, começava a flexibilizar-se e a cantar a “música” do administrador, tirando uma bolsa que se mantinha sentada debaixo da mulemba.

- A luta?
- Acabou! – Responderam.
- A vitória?
- Foi à lavra!
- Isto já me cheira à provocação, pá! - Recamou em voz baixa, mas se conteve.

O sol tornava-se cada vez mais intenso e a chuva anunciava presença. O povo cada vez mais incómodo de sentia, pior ainda com as palavras caducas do administrador. Este por sua vez, vacinado contra a resistência do povo, de imediato franziu o rosto e ordenou ao intérprete.

- Para ouvirem bem traduz tudo para a língua daqui. Não esquece nem uma vírgula está bem? E diz-lhes que vou falar em português.
- Sim chefe.

E o intérprete começou:
- A Wiñi wo Mbukayo kalungi!
- Kuku! - Respondeu a multidão que aguardava pelas novidades do novo administrador.
- Omo akuti Soma kapopi elimi lietu, otuvanguila mwenle voputu, noke ame ndipitilisa ondaka vumbundu. – Preveniu Cipalavela, o guarda-costas promovido a tradutor.

(Como a administrador não fala a nossa língua, vai falar a língua dos portugueses e eu vou traduzi-lo para Umbundu).

E começou:
- Camaradas do Mbukayo, já sei que vocês correram com dois comissários porque negaram cumprir as ordens que trouxeram da província. Eu vim com muito respeito do povo e quero também muito respeito para comigo. Se não, vamos ver quem é que manda, se é o administrador enviado para governar ou se é o povo que não quer obedecer as leis do Estado...

A população se conteve às palavras ameaçadoras do administrador e até mesmo os conhecidos sabotadores dos comícios se mantiveram silenciosos.

- Os camaradas que por cá passaram já me disseram que vocês gostam de foder os outros, só porque andaram nas matas, numa vida errante de cada um por si. Mas comigo a coisa vai ser diferente. Trago orientações superiores que são muito precisas. Quem tentar me foder engana-se. Eu é que o fodo primeiro, ouviram?

O administrador fez uma pausa para limpar o suor que lhe inundava o rosto enquanto o tradutor convertia o discurso letra a letra para a língua do dia-a-dia.

De imediato o povo reagiu com gritos de reprovação e alguns tomates que tinham sido recolhidos para servirem de oferta ao administrador foram lançados ao alpendre que produzia a sombra. Uns retiravam-se aos muxoxos e outros ensaiavam posições ameaçadoras à integridade física do dirigente. O clima estava empolvorado.

Satula olhou para o também aflito Cipalavela e questionou:

- Que se passa, pá?
- Parece que não gostaram do que o chefe disse que lhes vai foder primeiro.
- Mas tu falaste mesmo assim do que os adultos fazem à noite?
- Sim chefe. O chefe mandou falar tudo. Palavra com virgula…
- Porra, pá! Agora tu é que me fodeste, pá!

No local, terreiro da casa do soba Mwa Cikambi, o povo largou uns “kwende, katuyongola usonguwi wu ndeti ”, mas apenas uma mancha de poeira se via no trilho. O céu continuou ameaçador de chuva, mas nada os demovia. Nem mesmo o sol que se revezava com a sombra das nuvens viajantes.

Livre da rebelião, mas nunca da punição, Satula esperaria pela sua sorte, talvez a cadeia, tão logo a notícia chegasse à província. E não tardou. Dois dias depois foi chamado à sede da província pelo Comissário-Chefe. Seguiu no sei NIVA amarelo acompanhado de dois emissários armados que não o deixaram sequer despedir-se da mulher. Até o volante foi-lhe retirado e entregue a um dos emissários do Comissário-Chefe.

Pelo caminho, tentou saber a razão da chamada e daquele canino acompanhamento.

- O Maior disse-nos apenas para não o deixar respirar, Sr. major Satula. - A voz firme era dum jovem de uns vinte e tal anos. Pedro Gama, cabeça rapada, barba aparada nem parecia um bófia. Ao volante seguia um senhor de idade, quarenta e tal cacimbo vividos ao volante ora de IFA ora de DAIMER, ora de ZIL e outras tantas marcas que só ele sabia. O homem de pouca palavra, respondia apenas pelo cognome de Dono da Estrada.

- Estamos apenas para cumprir ordens, nós também não sabemos o motivo que nos trouxe. -Respondeu ele à pergunta de Satula que a todo o custo pretendia saber para onde iam e com quem falaria uma vez chegados à cidade.

Satula foi conduzido à penitenciária provincial e despachado semana depois para Luanda onde cumpriu seis meses de sem julgamento.
…

Na cadeia, o homem sôfrego sente ainda as cordas a lhe morderem a carne. Havia já dois dias que fora ali depositado como cão sem dono. Aquela dor, como dentes que se encravam horas sem fim na carne moída, era uma enorme tortura. Satula não se conteve de tanta raiva - raiva mesmo era o que sentia – e largou as últimas lágrimas que guardara para a mãe já cansada de velhice. A solidão e o sofrimento apossaram-se dele e viria a largar um pequeno sorriso apenas, diga-se involuntário, à resposta de um dos companheiros de cárcere à música tocada no rádio a pilhas pendurado na parede alta do recinto.

Francisco Cikolasonyi, natural do Mwa Cimbundu, estava ali detido por ter aderido a um movimento secessionista e posto na Kinyonga às ordens de quem desconhecia. Fora agarrado numa noite de festa. Propositadamente embriagado por um indivíduo que conheceu no mesmo dia, foi levado já sem sentido e acordou na cela. A mínima noção de culpa que tem foi-lhe transmitida por um outro desconhecido que passou pela cela no último domingo.

- Você é o Cikolasonyi?
- Sim chefe.
- Sabes o que significa?
- Sim chefe. É provoca vergonha, chefe!
- E te sentes bem aqui numa cadeia, um pai de filhos com mulher e família?
- Não chefe.
- Então, se um dia saíres daqui, pensa bem antes de te juntares àqueles divisionistas sem cérebro, está bem?
- Sim chefe! - Respondeu sem saber de onde vinha e que missão tinha aquele homem de baixa estatura, mas cheio de ares de grandeza.

Cikolasonyi ignorava o poder das ondas hertezianas e a telegrafia sem fios era, para ele, um conto de fadas. O homem acreditava piamente no feitiço e noutras forças ocultas que podiam colocar homens de grande estatura dentro de um garrafão de vinho ou numa caixa de fósforos, mantendo a sua vida e executando as acções dos humanos no seu ambiente natural: falar, por exemplo, ou mesmo cantar como se canta nos coros juvenis da igreja protestante.

Era a primeira vez que ligava um rádio a mando do chefe da cela, o famigerado Tira Sangue. Tão logo girou para a direita o botão power, saíram da pequena caixa preta, com barra de vidro na parte superior, vozes que ele entendeu como se uma pessoa cativa dentro do aparelho o tivesse perguntado: “Cika, Cika nunca mais te vi” …, ao que ele de imediato respondeu na mesma bitola cantada:

- “Num estovo aqui, andovo no Mwa-Cimbundo”…

Ninguém se conteve, nem mesmo o carcereiro que andava à solta a procura de zaragateiros, que existiam aos montes, para meter em acção o seu predilecto porreto de borracha.

Santula pôde, finalmente e por alguns instantes, interromper aquele rosário de pesares e, por uns curtos segundos, desfrutar do que muito gostava de fazer em horas vagas: Troçar e rir de bandeja farta.

Cikolasonyi que nunca “engoliu” nenhuma ciência trazida pelos brancos também nunca lhe passou pela cabeça que aquele objecto transmitia apenas a música de alguém que podia estar em local muito distante e incerto, sendo a caixa apenas um reprodutor de “recados”. Para ele, só podia ser uma pessoa escondida dentro do aparelho e que ao vê-lo aproximar-se para o tocar, de imediato o questionou da sua prolongada ausência, como diria no seu habitual Cokwe: ca kumwene!

Não fosse a rudeza do Tira Sangue, um pilha-galinhas dos musseques calús , um dia destes tiraria a dúvida. Estava decidido em desmontar o rádio e ver quem se alojava dentro daquelas pequeníssimas paredes de madeira, vidro e plástico. Queria ver o tal branquelo com aquela voz de gente fina e farta de benesses, bem-disposto, dando ordens e sango ou cantando sem soluçar. Foi uma pena!

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

DO PUNHO DOS OUTROS (I)

PONTO PRÉVIO:
1- Não sou crítico literário, muito menos um escritor consagrado. Sou apenas um amante da literatura e com apenas um rebento trazido à luz. Tudo o que faço é por gosto e convicto de que é exercitando que se "dá forma à pedra".
2- Começo essa aventura (DO PUNHO DOS OUTROS) trazendo escritos de outros confrades, para que: tal; como eles me dão a conhece nas suas páginas, por este blog se conheçam também os feitos/escritos dos meus confrades e amigos de peito.

Espreitando a "prosa poética e melancólica" de Armando Graça, um luso-angolano, emigrado para a metrópole nos tempos da Revolução dos Cravos, encontro na sua proposta de leitura esta "preciosidade" que resumida pelo editor, levo ao conhecimento do meu leitor.

"Memórias de Gente Vulgar" levam-nos a fazer uma viagem das origens do autor aos dias de hoje (1945-2010).

Como o título deixa antever, não há aqui berços de ouro nem se trata de desfilar de sucessos, bem pelo contrário. Revelam-se aqui como enfrentaram as dificuldades muitos dos portugueses nascidos logo após a II Guerra Mundial. E dá-se conta como a procura de vidas melhores dá lugar a infâncias conturbadas.

Entra-se em África, pela Baía de Luanda, retendo cheiros, cores e sabores de um novo mundo.

Relatam-se aventuras escolares e desventuras de prematuros empregos. E sentem-se...

Sentem-se servidões, colonislismos e racismos oficialmente desmentidos.

Sentem-se alguns dos terrorres que deram lugar a nova fuga, então apelidade de "retorno"...

Sentem-se as aventuras de quem volta ao seus país e se acha no estrangeiro, seja porque é mesmo assim, seja porque a Revolução dos Cravos agitou alguma coisa...

Sentem-se, ao longo de várias décadas, governos que desgovernam, empresas geridas para afundar e pessoas que não se comportam como tal...

Mas sente-se, acima de tudo e apesar de tudo, um constante fazer pela vida...
(...)".

É esta prosa que nos oferece Armando Graça, também meu revisor, a par de José Soares Caetano (autor de "O Último Segredo" - UEA/Edições Novembro, 2010), no seu "Memórias de Gente Vulgar" cujo lançamento em Portugal está agendado para os primeiros dias deste mês de  Fevreiro/2011 em Portugal.

Espero que o livro chegue às mãos dos angolanos sedentos de "leitura limpa"  ou no mínimo esteja à disposição dos cibernautas.

Voce pode ler um pouco aqui: http://www.sitiodolivro.pt/fotos/livros/excerto-memorias-de-gente-vulgar_1290100247.pdf

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

O CIÚME E O FEITIÇO

Era uma vez…
Havia na aldeia do Kuteca uma mulher muito ciumenta, cujo marido, já velho, saia todas as noites sem nunca dizer para aonde ia. A mulher sempre que lhe perguntasse sobre as suas saídas ele respondia:

- É melhor não saberes onde vou. Olha que isso é para o teu próprio bem.

Mas a senhora, Milika de seu nome, já desconfiada de algo que não sabia e nem entendia, fez um plano e falou consigo mesma:
- Hoje, quando ele pretender sair, vou seguiu-lo para saber aonde tem ido e o que tem feito.

De noite, quando Kavindi chegou, deu-lhe o jantar: funje com bagre fumado e lombi . Depois do repasto, o homem decidiu-se em sair como de costume.

De pianinho, sem fazer-se perceber, Milika começou a segui-lo. O homem atravessou a aldeia e entrou no sertão. Chegado ao muzungu, o chefe dos feiticeirtos disse-lhe:

- Homem, estás a ser seguido!

- Eu? Não. Vim sozinho e com muito cuidado como sempre. - Respondeu ele.

Perante a insistência dos colegas, Kavindi ordenou que se revistasse o matagal e a mulher foi descoberta, escondeida atrás de uma bananeira.

- Por teres desfeito o nosso segredo também te tornas feiticeira. - Disseram-lhe.

- Não, por favor. Eu não posso ser feiticeira. Sou religiosa e toda a minha família requenta a igreja. – Suplicou ela.

- Então terás de morrer.- Sancionaram em coro.
- Por favior, tenho filhos pequenos.
Perante as súplicas da senhora, os homens deixaram-na partir, mas com o decorrer do tempo Milika começou a adoecer. Frequentava os melhores hospitais da região mas nunca mehorava, definhando cada vez mais, até que contou a verdade ao soba da aldeia sobre o que tinha feito e o que tinha descoberto na mata cerrada.

Milika pediu antes que todos os aldeões se reunissem no jango, à volta de uma enorme fogueira, e contou:

- Sei que vou morrer. A minha morte será por ter sido ciumenta e curiosa, chegando a descobrir um segredo que era apenas do meu marido, mesmo tendo ele me pedido que não o fizesse. Como não aceitei morrer no local nem tornar-me feiticeira, tenho esta penitência: a morte lenta.

E ela morreu.

Por sua vez, uma vez descobertos pela comunidade, os feiticeiros foram jogados à fogueira pela população reunida em torno do soba Mbembwa-yo-Cily .

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

A CRÍTICA LITERÁRIA E O SONHO DE UM SOBERANO*

Começo com um ponto prévio, numa correcção importante. Não sou um crítico literário, nem um escritor. Gosto de escrever crónicas e ando (a) procura de um compromisso com a literatura. A leitura é uma das minhas maiores paixões e quando o texto ou discurso literário são ricos e agradáveis custa-me interrompê-los, não importa quantas páginas tenham.

Há tempos, o Luciano Canhanga, jovem jornalista, 34 anos, deu-me a ler o esboço do seu primeiro rebento literário. Era um trabalho tão interessante que coloquei de lado o que estava a fazer numa das horas de lazer.

Ele tinha dado ao seu rascunho um título diferente do que tem hoje, mas que transmitua a ideia de uma “marcha entre chamas”, um país a arder sob o fogo das armas e de uma grave crise económica e social; a vida infernal numa aldeia; a fuga desespererada para a cidade das mil uma oportunidades e um conjunto de dramas de quem vive na agonia, sem saber como vai terminar o sofrimento. Compreendi, sem nada perguntar, que era a história dele e da sua família. A história de muitos angolanos. Em 1997, já tinha ouvido uma história idêntica de uma jovem, também jornalista, que fugiu a pé do cenário da guerra e me motivou a escrever “os jornalistas e a saúde”, para o Jornal de Angola.

Eu e o Luciano tornamo-nos amigos via internet. Ele reagiu a uma crónica que escrevi neste jornal e criou-se uma simpatia mútua. Depois, descobrimos amigos comuns dentro e fora de Angola e fui portador de encomendas para ele. O Luciano é do Kuanza-Sul, terra onde eu passei parte da infância. Discutindo via e-mail, ficamos amigos.

Mais tarde, aceitei o desafio que ele me colocou para rever e prefaciar o seu primeiro livro, publicado há uma semana com o título de “O Sonho de Kaúia”. Fiz várias observações ao texto, a mais importante das quais foi a necessidade de definoir fronteiras entre a ficção literária e um diário com referências a actores políticos do tempo que ele retrata. Disse-lhe que deveria criar personagens e dar-lhes suficiente liberdade em cada capítulo ou episódio, sem medo. “Dá mais autonomia aos teus personagens e quanto menos te intrometeres será melhor, para o leitor. Tu és o criador, eles são os protagonistas”, insistia sempre. Em Julho de 2010, o sonho de Soberano estava realizado. O lançamento ocorreu na sexta-feira, dia 17 de Dezembro, nas instalações do Cefojor, aqui em Luanda, num ambiente bastante agradável, testemunhado por jornalistas, escritores, líderes religiosos e amigos da literatura.

O Sonho de Kaúia pode não ser uma obra perfeita, mas é seguramente uma história interessante e perspicaz.

O Manuel Muanza, jornalista, professor e crítico literário fez reparos semânticos antes de dizer que a obra é “um instruimento de denúncia social e de crítica a uma prática que se tornou instituição na nossa sociedade”. Ele “corrigiu” várias vezes o autor, sugerindo que se escrevesse Kanhanga e não Canhanga; Kawya em vez de Kaúia; Kyanda e não Kianda. “São convênios”, explicou ele. Eu confesso que também não sabia.

Sobre o conteúdo do livro, disse substancialmente: “na Europa ocidental, o realismo de Balzac e Flaubert aconteceu no momento das grandes transformações económicas e culturais. (…) Nas sociedades em construção como a nossa, os problemas sociais, económicos e culturais não vão deixar de envenenar o texto literário, como é agora o caso”.

Sejam quais forem as “PaLaVras…” sobre esta primeira obra, estamos perante um livro digno de ser livro. E é um conselho aos jovens que pouco recebem dos adultos: leiam mais, como alternativa às sextas-feiras do homem e aos “clipes e outdoors” que vos induzem a beber desenfreadamente, com trágicas consequências aos fins de semana!

Depos da crítica de Manuel Muanza e de Arlindo Isabel, cujo discurso também exortou os jovens a seguir as “regras de bem escrever”, o Luciano coinfessou que tinha vontade de fugir da sala e deixou em branco a magnífica oportunidade de repetir o olhar crítico da sua obra. Foi pena!

Gostaria que ele contasse aos presentes como surgiu como surgiu e como desenvolveu a ideia deste livro. Mas, logo compreendi que sendo o primeiro “sonho”, ele imaginou-se um peixinho acabado de nascer no meio de “tubarões” e protegeu o seu investimento, autografando-o em silêncio! Mais tarde, recebi um sms dele, no meu telemóvel, explicando o que tinha sentido: “… Kota, partilho consigo as críticas e os elogios!”.

“Uma boa aposta. Este rapaz tem futuro”, termino como ele próprio terminou o diálogo entre os personagens do “seu” grande “Sonho de Kaúia” (pág. 111). Luciano, segue o teu caminho!


* Tazuary Nkeita (José Soares Caetano) in: Semanário Angolense, edic. 398, de 25 Dez. 2010, pág. 26.
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quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

O RELÓGIO DO VELHO TRINTA

O calendário apontava o mês de Janeiro dum ano já apagado da memória. No Rimbe, o que se dizia ser a aldeia não passava de pequenas ilhas distanciadas. Casas e lavras de famílias que tinham abandonado o Kuteca e Katoto em busca de terras ainda virgens e maior tranquilidade. Era, no fundo, a prosperidade e a independência que alí os levara.

Velho Trinta e os seus filhos: Neto, Nando, Raúl e Kimone; seus netos; noras e genro constituiam o maior agregado comunitário. Umas dez casas sem soba , recaindo a autoridade em Neto Trinta, o filho primogênito, e no conselho sempre pronto e sábio do ancião.

Noutro pequeno povoado estava Xica Yango, esposa e seus filhos: Jorge Kakonda, Ngunza Kabolo e a caçula Eva. Os filhos varões já estavam casados e tinham-no presenteado com uns cinco netos. A família estava ainda no começo do seu alargamento.

Xika Yango tinha sido soba no Kuteka e, embora tivesse reunciado voluntariamente, conservava ainda o título, pois assim o tratavam todos os que o conhecimam e que por ele procuravam. Até mesmo os do Kuteka, já administrados por um novo soba que fora coadjutor de Xika Yango, mantinham a mesma admiração e respeito.

António, primo de Xica e Katumbo, também prima de Nzumba Tembo, a esposa de Xica, viviam também numa outra ilha continental. Porém, a morte de prematura de António levou Katumbo, a prole de cinco menores e suas crias; três bodes e algumas galinhas a juntar-se aos primos.

No Rimbe vivia ainda o Domingos Kastruque, também ele oriundo do distante Kuteca que dista trinta e cinco quilómetros percorridos sempre a pé ou de tractor até à estrada naciona 120. Kastruque tinha finalmente se afiliado aos Trinta para cujo aglomerado se tranferiu posteriormente.

Embora ilhado, o Rimbe crescia e era tido por todos como uma aldeia dependente da regedoria de Tumba Grande. A vida comunitária, a partilha do mel e fel da vida entre os chefes das famílias e seus dependentes fazia deles uma unidade coesa até que chegou a guerra.

Velho Trinta, setenta ou mais anos às costas, ninguém sabia ao certo quando tinha nascido. Apesar da aparente robustez, mostrava-se já sem forças para subir e descer montanhas, fugindo dos guerrilheiros opositores ao governo instalado no dia da independência.

- Sei que se me encontram nada me faze, e se me matam apenas me oferecem uma viagem pro descanso. – Atirou certa vez aos netos, em jeito de brincadeira. O seu único temor era a possibilidade de ficar sem a companhia dos netos, já jovens e adolescentes, que para as hostes da UNITA valiam como ouro.

- Avô, se voce fica aqui sei que nada lhe fazem, mas quem vai acarretar água e cozinhar para si? - Questionou a pequena Katembo respondendo ao avô.

- Hum, vou só mesmo me enrascar. – Respondeu cauteloso, ciente da dificuldade que seria acarretar lenha e água e colher e confeccionar alimentos.

A fome era na verdade um inimigo que matava lentamente, por isso seguia tropego a comitiva de fugitivos que cortavam um atalho sertanejo de vinte e tal quilómetros.

Velho Trinta algodão à cabeça, metro e oitenta de altura a curva-lhe a coluna e voz ainda férrea, anda cantando suas malambas .

- Oh relógio que bates tic-tac,

Avaria sem conserto

Para de uma vez por todas

Deixar de leslizar este ponteiro

Oh relógio que estás no peito

Meu prazo está caducado …

…

Os netos, alguns ainda inocentes, perguntavam por que razão teria ele guardado o relógio no peito, enquanto Mariana, a esposa de Neto Trinta, procurava distrair o sogro com cenas do bom tempo, quando o velho ainda jovem o contactou para esposa do filho que andava na guerra contra os Tugas no Quitexe e Kamabatela.

- Papá lembras-te quando foste ter com os meus pais para me juntar com o Neto?

- Sim Mariana. Como é me ia esquecer de algo que me deu tantos netos e alegrias?

- Também havia guerra do Kuata-Kuata …- Lembrou a nora.

- Pois claro, minha filha. Mas se o Neto estava nas frentes de combate nós estávamos aqui a cavar a nossa mandioca e ninguém tinha que dormir nas matas. Só mesmos já no ano da revolução quando se começaram a escaramuçar é que a coisa mudou um pouco…

Mal o Velho terminou a explanação, rebentamentos de bazucas, disparadas à distância, assustavam a coluna de fugitivos. A longa fila de homens, mulheres e crianças lembrava o tempo de contratados. Todos, uns e outros, temendo apenas pela vida. Velho Trinta correu ainda vezes incontaveis, durante uns cinco anos, entre Rimbe e Katoto, sua aldeia natal, sempre implorando ao seu relógio para parar o tic-tac.

- Oh relógio que bates tic-tac,

Avaria sem conserto

Para de uma vez por todas

Deixar de leslizar este ponteiro…

Inesperadamente despediu-se numa noite em que o único barulho que se ouvia na noite escura era o farfalhar da chuva ao corpo hirto das chapas de zinco.

Mariana tinha madrugado, como sempre, à porta do sogro que ficava a uns dez metros da sua.

- Sessa ngana!

Era um exercício diário e vezeiro. Todas as manhàs, todos os anos em que Neto trinta os fez membros de uma mesma família. À saudação segui-se um silêncio nunca antes observado.

- Uaué cocolo diamié? - Gritou desesperada.

Ao choro da mulher juntaram-se outras vozes e outros choros de mulheres vindas de outras aldeias, algumas longínquas, trazidas pelo som do tantã das más novas. Havia também mulheres que aproveitavam o passamento do velho Trinta para recordar outros mortos ainda frescos na memória.

- Ai meu homem, como você me faz falta… - Lamentava Katumbo lembrando seu marido.

Velho Trinta leva saudações para meus pais e minha filha… - Chorava Eva Kambundu.

Os homens com ideias e valores traçavam planos para a feitura da campa e as exéquias fúnebres, enquanto outros descapitalizados ofereciam o seu choro e as suas preces, juntando-se ao exército feminino que se vestia de mulalas entre as pernas.

- Mas esse mano então que está a chorar assim é quem é do falecido?- Questionou Eva Kambundu.

- Hum filha, lhe deixa só. – Respondeu Katumbo interrompendo o choro - Se você está ver já um homem meteu mulala tipo é mulher, lhe controla. É porque não tem dinheiro para contribuir nas despezas do óbito e se mistura ’mbora connosco.

Mal terminou a explicação, Katumbo desatou outra vez aos gritos, evocando a memória do seu António partido recentemente para o nunca mais.

Outras mulheres faziam-se ao caminho do riacho em busca de água, levando sangas e latas de vinte litros à cabeça. Os mizangala dirigiam-se ao mato em busca de lenhas enquanto os dikotas procuravam pelo Sô Miguel da cerâmica para os tijolos da campa.

- Sabalo! - Chamou Neto ao filho.

- Papá!

- Não te esqueças de avisar o papá Nagana Ngunji, amigo do teu avô, para lavar o defunto e manterem a última conversa a sós.

- Mas papá, morto fala?

- Vai, seu burro. A tradição nunca se muda. Anda!

Velho Trinta e Ngana Ngunji eram do kissoco e companheiros em muitas caminhadas. A ele, Ngana Ngunji, cabia, após um monólogo com o finado, desvendar à família os segredos do amigo ainda ocultos.

Ngana Ngunji, também na casa dos setenta ou oitenta, chegou à noite com a mulher e uns parentes, trazidos numa “avó chegou” . Depois do habitual mahezo entre os que chegam e os anfitriões, o velho ficou alguns intantes a sós com cadáver a quem relembrou as alianças firmadas, os caminhos trilhados, a necessidade que tem agora de procurar por um outro confidente e, sobretudo, a pertinência de abrir aos filhos e netos o seu livro de vida, guardado a sete chaves até aquele dia.

- Mano, o que nos une só tu e eu sabemos. O que fizemos também só tu e eu sabemos. O que nos separa ainda é desconhecido, mas hoje, o mano me perdoa, vou violar os segredos para que não morram comigo. - Monologou.

No dia seguinte, seria também ele a aparar a barba do amigo, dar-lhe banho e vesti-lo. Era o compromisso a que tinha chegado com o amigo ainda vivo. Depois viriam os netos varões para depositar o cadáver na urna.

…

Homens à frente, revezando-se no transporte da tipoia que carregava o caixão acastanhado com os restos do velho Trinta; mulheres choronas no meio da comitiva e crianças curiosas a trás, seguiam todos em coluna. Um por um, lembrando filas indianas. O cortejo seguia ao lngo de dois quilómetros acompanhado pelo Kimbanda contratado para descobrir e anunciar nos dois dias seguintes as razões da morte.

- Velho Trinta, vingue-se dos seus inimigos. Não se esqueça de contactar os nossos antepassados para que estes me revelem se é causa de Deus ou dum nganga qualquer.

Entre passo e pausas no monólogo o kimbanda volta a suplicar:

- Mais velho, ajude-me a “escarlecer” quem foi que lhe “cumeu”. Se é alguém com dívida por receber ou se é só mesmo inveja do mundo…

A frase do adivinho foi usada para debate dos miúdos, à rectaguarda da fila, que já frequentavam a escola e com algum raciocínio de lógica científica.

- Mas oh João, ouviste bem o kimbanda?

- Sim ouvi e estou também a buscar o meu entendimento. “Comué” que o avô está no caixão e esse velho bacoco está ai a entrujar que foi comido por alguém?- Questionou-se.

- Ya, eu também estou buamado e vou mesmo recorrer ao professor para nos tirar essa dúvida. – Respondeu o Júlio, um dos primos de João Trinta.

Quem não perdeu tempo foi mesmo Phande que, aproveitando-se do facto de ser primo do professor Jorge Kakonda, marcou uns passos à frente e o interceptou no momento em que a urna descia à cova.


- Camá pressor, mi disculpa só ainda!


- Diz lá, mas fala baixinho.


- Pessoa si come?


- Como assim?


- Sim mano - Phande esqueceu-se, por instantes, da regra imposta pelo professor de que mano era apenas na informalidade da casa - ouvi o kimbanda a falar que o avô Trinta foi “cumido”num feiticeiro…


- Oh pioneiro, tens de entender que esses velhos traduzem tudo ao pé da letra.


O rapaz ficou mais confuso ainda com a expressào inusitada do professor Kakonda.

- Prossor letra tem pé? Não é só pontos nos is e traços nos tés?

- Phande, os mais velhos traduzem para o português o que se comunica em Kimbundu. Como é que se tem dito quando alguém morre ou quando alguém gasta dinheiro alheio?

- É “cumeu”, camá pressor!

…
Feito o funeral, as pessoas desoladas voltaram cada uma no seu caminho. Velho Nagana Ngunji, apesar da idade que lhe proporcionava experiência e coragem em situações análogas, parecia sem forças e pronto a despedir-se também.

- Avô tens de fazer coragem. Teu amigo foi p’ro decanso. – Aconselhou Joaquim Neto, o neto mais velho do Velho Trinta.

- Sim meu neto. Avisaainda os pais, os tios e os teus irmãos. Todos os netos que já se amigaram para abrirmos o segredo do vosso avô falecido. - Ordenou o ancião.

Em poucos minutos o jango tornou-se pequeno. Todos contados chegavam aos cem. O Velho Trinta tinha tido boa safra e o número de netos e bisnetos crescia todos os meses. E começou:

- Filhos, o falecido partiu. Choremo-lo, mas festejemos também. Ele cuidou-se bem e fez essa riqueza – apontava o dedo indicador para a assistência - fez também coisas que só hoje vão saber, o que é próprio de um homem com a desenvoltura do mano Trinta.

A assistência fez a vénia em jeito de aprovação do discurso e o velho continuou.

- Chamem o Domingos para estar também aqui.

- Avô, qual Domingos mais que falta se já estamos todos os filhos e netos aqui? – Perguntou Sabalo.

- Aquele do Kuteca que vocês chamam de Kastruque…

Gerou-se um pequeno pânico e interrogações. Procurava-se entender por que razão teria Kastruque acesso àquela reunião restrita, não sendo ele parente directo do finado. Domingos, o homem dos truques, era apenas um amigo da família.

- Chamem só. Eu sei porquê. - Ordenou algo impaciente.

…

Esse - apontava para o recém-entrado - também é vosso irmão. Neto, você que é o mais velho dá-lhe ainda um abraço…

Silêncio total. Ali não era para mugir nem tugir. Uns ficaram até boquiabertos perante a revelação. Nunca lhes passara pela cabeça o que acabavam de ouvir.

- O meu amigo tem ainda uma filha no Ebo onde esteve como contratado no tempo do caputo . Neto, manda para lá um emissário, de preferência um dos netos do mano Trinta, que vai ao encontro da tia. A foto dela está aqui - exibiu-a à multidão -, os dados todos estão escritos atrá. O mais velho deixou também quinze bois no Roussel e uma dívida de dois cabritos com o Xika Yango que está alí fora. Quando sairem podem contactá-lo para saber se ele quer a dívida dele ou se não… - Orientou.

Com a assistêncioa sempre atenta, em silêncio, fazendo apenas o gesto de aprovação com a cabeça ligeiramente bailonçada para frente e para trás, o ancião prosseguiu:

- Têm também uma conta a receber na fazenda Sector Sete. Os docuemntos estão aqui. - Entregou-os ao filho mais velho, Neto Trinta.

Feito o relatório, velho Ngana Ngunji soltou as lágrimas, as últimas que ainda guardava, e evocou aos soluços a memória do amigo a quem esteve ligado por mais de meia centena de anos.

- Mano, vai com Deus, mas revela-nos nos sonhos. Se foi mesmo a hora que chegou, descansa em paz, mas se foi um nganga que te comeu atormenta-o a ele e sua casa. Não lhe poupa nem o curral, nem a capoeira.

Filhos e netos do Velho Trinta que a pouco acompanhavam Ngana Ngunji no choro abanavam de novo as cabeças em jeito de aprovação do discurso.

- Avô aparece no meu sonho e revela-me se “kalunga ka ngana ó kalunga ka kifumbe”. - Recomendou Katembo, interrompendo o silêncio.

A noite descrevia a sua última curva e os galos já anunciavam o nascer do outro dia. Lá fora aquecia a dança à volta da ngoma e da kissaca , tocadas por gente experiente convidada de outras aldeias, e fazia-se festa. Festa rija que nunca mais houvera naqueles tempos de guerra. Velho Nganga Ngunji foi dormir e no dia seguinte não mais acordou. Seguiu o caminho do amigo.



segunda-feira, 1 de novembro de 2010

OLH'O MALUCO

Era no mês de Outubro. As aulas na primária tinham começado a um mês. Alunos e professores procuravam ganhar tempo naqueles dias de relativa acalmia. Já que há três meses que não se ouviam disparos, nem boatos sobre kitotas . Até mesmo o Kissongo, terra predilecta da guerrilha, parecia pacificado.

-Clovis!

- Camá pressor!

Que pretendes ser quando fores grande?

O menino meneia a cabeça. A pergunta foi-lhe colocada em contra-mão e não tem a resposta formada. Nunca, nos seus oito anos, tinha pensado no que seria quando fosse grande.

- Qual é a profissão que queres seguir quando fores mais velho?- Endireitou o professor Lotário.

- Quero ser pai, camá pressor!

- Pai?

- Sim, camá pressor!

- Mas porquê?

- Porque os pai “comeum” bué!

A resposta despreconceituosa do aluno deixou a turma e o professor em alta pressão. Risadas e risos controlados nos quatro cantos da sala. Lotário teve mesmo de sair para buscar concentração e inspirar ar puro. A aula de ciências integradas, da terceira classe, tinha chegado ao fim, cinco minutos depois da motivação. Clovis, agora jovem, nunca se esquece do episódio que lhe custou a alcunha de “Os pai comeum bué”. Era por este nome que todos os meninos da escola número três de Calulo o tratavam sempre que o objectivo fosse zombaria . Assim foi até chegar à quinta classe e mudar de escola.

A frequentar a preparatória no Instituto Kwame Nkrumah e a trabalhar de tipógrafo numa cerâmica, Clovis está agora decidido em ter um nome e uma profissão que dignifiquem a família e a sua vila amada.

“O pão, ainda que mal amassado, exige sacrifícios”! Era esta a lição que Clovis carregava e distribuía por onde quer que fosse, por isso, fazia-se manhã cedo à estrada acompanhando a música dos militares.

“Ngongoé, ngongoé

yá, yá, yá

Ngongo ya mon’âdiala !

Ya, yá yá”!

O jovem aprendera com os pais, já finados, a fazer armadilhas para animais de pequeno e médio porte e a cultivar numa pequena horta que visitava ao raiar do sol, já que tinha de voltar à vila para o trabalho administrativo na cerâmica do Sô Miguel.

Na estrada, negra e encurvada como serpente, que faz deslizar os carros para Luanda, uma fila de noventa jovens mancebos corre ainda despreocupada com o devir. Muitos tinham sido retirados à força do colo de suas mães e outros, poucos, eram vuluntários cansados das rusgas e maus-tratos familiares. Qualquer um podia ainda ir para à casa pernoitar junto da família e apresentar-se à unidade no dia seguinte, pois só no fim da recruta é que seriam distribuídos pelas frentes que o LCB tinha nas comunas. Aí sim. Seria a vida dura dum militar.

O sol apresentava-se ainda como uma bolinha amarela e envergonhada, sem força para aquecer. Embora transcorresse o mês de Outubro, era mesmo o frio que ainda dominava. Homens, uns já nas ruas com samarras soviéticas, acordados pela companhia de instruendos das FAPLA’s, e outros ainda debaixo das mantas, sugando o último calor de suas amadas.

Clovis estava entre os madrugadores, buscando inspiração nos homens de sucesso que conhecia, no chilrear dos passarinhos e até no zunir dos ventos. O jovem queria ser escritor de fama e por isso usava de tudo para escrever, mesmo quando lhe faltasse o papel.

- Clovis! Estás sempre a levar lapiseira no bolso mas nunca levas papel para escrever. - Disse-lhe certa vez Peregrina, a irmã.

- Sim. Se não tiver papel há sempre um trazido pelo vento ou sirvo-me de uma folha de árvore. Há muitas por aí.

- E por que escreves tanta coisa que não é da escola, nem é do serviço e nem é carta?

- Um dia saberás, minha maninha.

- Hum… Um dia… Ainda te chamam de maluco…- Resmungou insatisfeita. A útima frase foi, porém, pronunciada já em surdina.

Peregrina não estava enganada. Devido ao seu hábito de parar em qualquer esquina para apanhar papéis, quando lhe soprasse a inspiração, muitos já o tinham como demente.

- Olh’o maluco!- Gritavam os miúdos da rua sempre que o vissem passar.

- Maluco é… Cuidado miúdo... Um dia parto-te as fuças!

Ele sabia do que fazia, como também sabia do que dele se dizia. Mas dava tempo ao tempo para mostrar quem mais estava próximo da demência. Se ele ou os que assim o tratavam.

Às sete, hora de regresso à vila, Clovis cruzou novamente com a mizangala da tropa. Os mancebos cantavam, já sem a mesma forças das cinco da manhã, a predilecta canção:

“Oh fantoche,

oh fantoche tunda kó !

oh fantoche,

oh fantoche tunda ko, ko Kissongo”!

Na fila estava também uma moça de poucos anos e seios ainda duros como laranjas. A jovem recruta era muito mais do que linda. Também era desejável tê-la onde quer que fosse. Era um poço de carne tenra que se expunha num vai-e-vem seguindo em passos preguiçosos.

- Sucuama! – Suspirou Clovis ao ver a “máquina” a passar, enfiada num camuflado que mal cobria as nádegas.

- Mas quê que essa moça, tão boa, está aí a fazer no meio destes marmanjos todos? - Questionou um dos traunseuntes.

- Deve ser para “desencravar” as armas dos chefes! - Respondeu outro. Era Salviano Margoso, um agricultor biscateiro .

A estrada estava dividida em duas filas: Uma era dos mancebos que corriam a passos curtos. Curtinhos mesmo. Pareciam andar em vez de correr. A outra era dos civis, que também eram muitos, que se dirigiam às lavras, aos kadiengues , aos empregos e mesmo às aldeias distantes. Todos aproveitavam o sol ainda manso e preguiçoso para ganhar terreno. Clovis seguia-os a todos ao pormenor, embora tivesse os olhos fixos no corpo daquela musa metida naquela farda verde-oliverira.

- Xê mano, não olha assim para a mulher do outro. – Ironizou Salviano, também ele atento ao passar do primeiro pelotão. O homem tinha na boca um cigarro de kangonha que acabara de enrolar.

- E quem te disse que é do outro? – Interrogou Clovis. - Mulher com dono não anda nessa vida, nem fica a puxar as calças para cima e para baixo de metro em metro. Já pensou no que seria essa mana se estivesse na vida civi?

- Mano, elas estão a levar a moda também à vida militar. É já assim mesmo. O mano não anda a ver as meninas na rua? É só já olhar e fechar a boca.- Respondeu-lhe o lavrador.

O primeiro pelotão estava já a subir a montanha da Pedra Santa e o terceiro fazia-se à baixa do rio Kambuco. A moça perdia terreno para os segundos e parecia estar no mesmo lugar em que Clovis e Salviano ensaiavam a prosa matinal.

- Moda tem limites. Quem se expõe é porque quer ser vista e o belo é para ser contemplado - Disse Clovis.

- E desejado também, né mano?- Emendou o lavrador.

A moça que ainda pôde ouvir a sentença do lavrador, largou uma estrondosa gargalhada que assustou os colegas menos atentos.

- kiá-kiá-kia-kia…

- Quê isso Marinete?

- É esse moço aí.- Apontava ela para Clovis já meio distante.

- Que te fez o homem?- Perguntou um dos instrutores.

- Chefe, o moço é bué! Só o que me falou?

- Que foi que te disse o refractário- Interrogou o tenente em tom ameaçador.

- Te conto na hora do descanso, chefe.

Luis Garrincha, o instrutor, era dos que mais guarida dava a Marinete, procurando tirar alguns loros duarante aquele período de aprendizagem. Aliás, Marinete era benquista de todos. Era a única mulher da companhia de instruendos e todos a tinham como mascote.

…

Um dia, daqueles em que toda a população era chamada a enclinar-se ao som tosco do Toshiba para ouvir as notícias do país, Clovis tinha sido informado sobre a constituição obrigatória de Brigadas Populares de Literatura e tinha gostado da ideia. Procurou pelo patrão, Miguel Serafim, que o insentivou a escrever e a ler. O branco de Trás-os-Montes, que na revolução ficou do lado dos patrícios, tinha colocado à disposição do jovem empregado um “José Maria Relvas” e vários outros livros de autores tugas do século dezanove.

- Olha, seu patrício, podes ler este ”libro” mas nunca o levas daqui, está bem?

-Está bem Sô Miguel, obrigado.

- E quando amadureceres, vê lá se não te esqueces de me consultar, porque não é com decretos e nem com duas cantigas que se fazem escritores, está bem? - Voltou a recomendar o branco.

- Sim Sô Miguel. Mas assim, Sô Miguel, vou começar mesmo por onde então?

- Olha! Tens de “escreber” muito e rasgar sempre – orientou - até conseguires a forma.

- Mas isso não demora muito?

- Pois é, seu Clovis. Ser escritor é paciência. Tens de “escrebinhar” em quase tudo e sobre quase tudo. Também tens de engolir este “libro” aí. Ensaia a Olivetti e depois a forma e a fama vêm a seguir.- Recomendou.

O homem deu volta e meia e meteu-se pelo fundo do quintal onde os mecânicos consertavam uma empilhadeira avariada a um par de anos. Havia encomendas atrasadas por falta de máquina e de força braçal para o carregamento de tijolos.

No pequeno escritório, onde repousava o livro de ponto e as facturas, a máquina de escrever, cansada de tanto uso e pouca atenção, parecia uma velhota vergastada pelo tempo. O tic-tac do movimento das teclas já era audível a mais de trezentos metros de distância, mesmo com o barulho das máquinas da cerâmica. Foi nela que Clovis aprendeu a dactilografar os rabiscos que trazia de casa em folhas arrancadas de cadernos escolares, outras apanhadas na rua e outras ainda arrancadas de árvores, quando papel lhe faltasse.

Já de longe, o patrão ainda voltou a adverti-lo: -Oh Clovis!

- Sô Miguel!

- Vê se não me partes as teclas que eu te parto a ti também, ouviste?

- Sim patrão!

- Patrão não, Sô Miguel, ok?- Corrigiu o transmontano.

-Sim Sô Miguel.

- Vê lá! Ainda me confundem com os contra-revolucionários e pequeno-burgueses que andam por aí a pôr pânico no “goberno”… Eu, por cá, não quero encrencas, está bem?

- Não Sô Miguel,me desculpa já.

- Ok. Vê lá então se não partes a Olivetti. - Voltou a recomendar.

- Não Sô Miguel, os ossos da “Oliveira” é que já estão sem ”sangue”. – Ironizou o aprendiz.

…

No quartel, a tarde estava reservada à educação patriótica e revolucionária, a aula do tenente Garrincha. Marinete estava, como sempre, no centro das atenções.

- Camaradas! - Gritou ele à companhia em parada.

- Prontos comandante!

- Olhem para a moça! – ordenou. – Têm dois minutos para descrevê-la em função do nosso tema.

- Escrever, comandante? Eu só cheguei até à primeira classe. – Disse Claudomiro.

- Cala a boca seu ignorante. Dá dois passos à frente e vinte cambalhotas já. – Ordenou o instrutor.

O Jovem, dezoito anos por fazer, desconhecia a gramática e escrever ou descrever para ele eram a mesma coisa.

- O chefe está a me castigar só à toa. - Resmungou, mas sem deixar de cumprir.

- Mateus! – Voltou a gritar, olhando para o meio da companhia.

- Pronto comandante!

- Então, que dizes da Marinete, pá?

- Sim comandante. Ela é um pedaço que não serve na minha boca, chefe!

- De joelhos já! - Sentenciou transtornado pela resposta que acabara de ouvir.

- E tu Gregório?

- Bem, “prontos”, comandante, como disse o camarada Clo, eu também “num” lhe conheço bem.

- Outro ignorante. Cambada de mentecaptos. Vinte cangurús – Ordenou.

- Satula!

- Pronto, maior!

- Salva-me a tarde, meu guerrilheiro.

Satula estava a ser sondado para o curso de sargentos na Gomes Spencer, no Huambo, tão logo terminasse a recruta. O jovem, estaura acima da média, deu dois passos à frente e, pés ligeiramente afastados, postura frontal e vertical, expôs:

- Permita-me maior. Ela é uma heroina viva nos dias de hoje em que as mulheres apenas servem o exército como voluntárias ou assalariadas civis.

A turma nem esperou pela aprovação do instrutor e rápidamente gritou vivas ao colega pela brilhante descrição. O homem tinha visto qualidades onde os outros apenas viam sexo. Garrincha bateu palmas e os instruendos seguiram-lhe o exemplo.

- E tu Marinete que dizes dos camaradas aqui em parada?

-Chefe, tirando uns, são todos uns buezezas . Apenas me comem com os olhos e nunca me dizem nada!

A resposta da jovem criou um espanto total, até ao instrutor que passava a vida a planificar a melhor altura para lhe cantar o fado. Garrincha deu meia volta, ergueu a boina, e marchou uns poucos metros para buscar postura e mudar de tema. A companhia de instruendos falaria sobre os feitos de Che, Deolinda, Henda e do Guia Imortal.

…

Na Olaria Moderna de Miguel & Filhos, o jovem dactilógrafo vivia em regime voluntário de enclausuramento. As saídas estavam restingidas à escola e ao cuidado da horta que muito prezava. Alcunhava-se como “o feitor da natureza”. Os convivios sociais tinham sido embargados para o pós livro.

- Então, jovem Clovis, já não te vejo nas farras, que se passa contigo?

- Estou em processo de fecundação intelectual. - Respondeu ele ao professor Lotário que o procurara para ver umas facturas de compra de tijolos.

- Olha, dizem que vêm ai os kassav e o Mamborrô. – Insistiu.

Clovis começava a ganhar a fama de novo intelectual, dada a sua nova forma refinada de se expressar em público e a limitação das suas saídas, algo que Lotário queria confirmar.

- Camarada professor, adiei tudo parta o futuro. O meu presente é o cumprimento do meu sonho. Não foi o senhor que me tinha questionado sobre o que seria no futuro? Pois que é chegado o futuro.

Lotário, apesar dos vinte cacimbos que tinha a cima do Clovis não escondia a admiração que criava e a amizade que pretendia construir. O menino que queria ser pai era na verdade uma outra criatura.

- Sim rapaz, mas quê isso de fecundação intelectual?

-É um processo de elevação espiritual e de criação estético-literária. Estou a escrever uma obra-prima que vai elevar a nossa municipalidade aos areópagos da intelectualidade artístico-literária.

O profesor, que até fazia parte da nata intelectual da vila, ficou buambo . Tinha ouvido tudo ao pormenor, mas pouco tinha entendido. Tão fortes eram o português que o ex-pupilo losava .

- Puthu ya diuabela, mas kimbundu kota .- Atirou, rendendo-se à preparação verbal de Clovis.

- Mas onde é que eparendeste tudo isso em tão pouco tempo?

- Professor, é tão somente a elvação que me proporciona a auto-superação possível através do “ndunda” do Zé Maria Relvas que o Sô Miguel me emprestou. Ele tem sido também o meu guia nesta travessia irrecusável e necessária.

- Uaué, mon’âmié? Então te estás a cultivar na língua de Camões…

- Sim Professor Lotário. Foi o senhor que certo dia me perguntou o que seria quando fosse grande. Eis agora o meu futuro. Quero ser escritor.

- Ok. Bravo, meu rapaz. E quando é que te leio de verdade?

- Dentro em breve, senhor professor, dentro em breve. O Sô Miguel e os filhos dele, lá na metrópole, estão a ver quem vai editar o livro. É só uma questão de escolha e de tempo porque valor já disseram que tem.

- E o livro vai chegar até aqui?

- De facto, senhor professor. Depois do Sô Miguel, o senhor professor vai receber o primeiro autógrafo por ter sido a pessoa que me ensinou a pensar no futuro…

…

Terminada a recruta, Marinete foi enviada à escola Fadário Muteka para cursar comunicações. O comandante queria voltar a tê-la sempre ao seu lado e como pessoa de confiança.

- Jovem mulher!

- Pronta chefe! – respondeu.

- Vais fazer três meses no Fadário e quando voltares vais pegar as máquinas do Manda-Boca que vai subir .- Ordenou o comandante em parada.

Seria a primeira vez que sairia da sua terra natal e que ficaria sem a protecção do seu amante, mas Marinete tinha consciência de que na tropa não se podia negar uma ordem.

- Sim chefe. Aceito.

- Então prepara a mochila poque o eleicóptero chega mesmo já amanhã. Hoje à noite falo com o camarada Garrincha que, pelo que sei, anda contigo...

Marinete apenas sorriu e dirigiu-se à caserna do Garrincha que já dominava o assunto.

No Huambo, Marinete e Vutuka eram as únicas meninas que eram militares de verdade, sendo complementadas em número por umas seis senhoras já de idade que trabalhavam como cozinheiras e lavadeiras da unidade-escola.

Txakumuena Vutuka era procedente de Muatxibundo, no nordeste, e orfã de pai e mãe. Melhor, como ela mesma dizia, era orfã de tudo. Era sobrevivente única de uma família que fora dizimada pela guerrilha.

- Mana, nem imaginas o que me aconteceu para cá estar no meio dos homens… - Abriu-se ela certa vez à companheira quando falavam do seu percurso para a vida militar.

- Conta-me mana. Que foi que te trouxe à tropa. Estás cansada dos abusos dos homens na tua aldeias?

- Yame ká !

- Como assim?

- Quem me dera. Fui ao município representar a OPA num concurso de Cianda e os meus pais foram todos “matados” pelos fantches do imperialismo.

- Aié? Qiue pena. Temos mesmo de fazer força para ver se lhes damos o troco que merecem… - Respondeu comovida a colega, evitando outros comentários que a podessem transtornar.

Vutuka, apesar de mulher coragiosa e libertária, tinha um lado bastante sencível. A colega queria evitar ressuscitar as dores que ainda inundavam a sua alma e limitou-se na conversa, buscando outros motivos.

- xtás a ver aquele gajo do Sakaiossa? O gajo é um gentio…

- É teu tio?

- Não, gentio. Pessoa sem consideração. Um matumbo de primeira. Como é que lhe dou um geito e fica aí a me espalhar?

- Se fizeram?

- Não. Eu com ele? Só se fosse o único à superfície da terra. Encontrou-me em baixa e trocamos apenas um beijo.

- E que te fez mais?

- Nada mais. Não é que o gajo anda aí a tratar-me por Vareta do comandante só porque lhe neguei o “bife”?

Aié? E tu já apresentaste queixa ao comandante da escola? – Questionou Vutuka que se apresentava mais experiente no campo dos amores sem rodeios.

Marinete tinha tido algumas experiências durante a recruta com o agora aspirante a sargento Satula e com o instrutor Garrincha. Mas foram todas entregas afectivas e nada de fazer por fazer.

- Sabes, aqui não tenho protecção e esses gajos são sempre mal intencionados. Ainda me suja só e já sabes que o boato anda mais depressa do que as pessoas.

- Nada de medo, somos todos tropas. Se lhe deixas te sujar ele te come até as espinhas. Ou então lhe aceitas já ou queixas “no” comandante.- Aconselhou.

…
No Fádário Muteka, Satula levava já mês e meio carregando sêmen. As idas às aldeias próximas do acampamento militar tinham sido proibidas devido ao “mi gosta” que fazia os homens até fugir da unidade militar para se juntarem às moças das aldeias vizinhas.


- Oh, Chipalavela!- Chamou o comandante da escola, o capitão Cara Podre, ao ajudante de campo.

- Sim comandante, ordene!

- Avisa a tropa. Todos. Homens e mulheres que vestem farda. Estão proibidos de hoje em dia a irem na buala . Há muito abuso na formatura por causa do “mi gosta”.

- Sim chefe. Mas, se comandante me autoriza…

- Podes falar. Quê que queres contestar já?

- Sim chefe. O comandante sabe da principal carência daqui na unidade. Água e comida temos em “ambundâncha”, mas que não há mesmo é só “curtição” e chefe sabe que o “mi gosta” vem mesmo do tempo do kaprandanda e a tropa sempre combateu contra o Kaputu .

Cara Podre, assim apelidado por gostar de franzir o rosto, endireitou a boina e olho-no-olho colocou-se à frente da tropa.

- Se vocês me disserem que aceitam castigo severo de quem falhar na formatura eu retiro o que disse. Mas fica compromisso militar mesmo.

A tropa, em coro, emitiu um barulhento “Viva comandante!” em sinal de aprovação. Satula, na primeira fila, era dos que mais satisfeitos se mostravam ante a pequena abertura do camandante.

(continua)