quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

MORREU O MESTRE "UANHENGA"


 
É dele a expressão no Parlamento Angolano: "já fui árvore, já fui lenha, já fui carvão, agora sou cinza. Ninguém quererá fazer mal à cinza". No seu tempo de Deputado, era a reserva moral da bancada. O símbolo de verdade. Sempre disse o que pensava...
O nacionalista angolano Agostinho André Mendes de Carvalho morreu esta quinta-feira, 13.02.2014, em Luanda, aos 89 anos, vitima de doença prolongada, disse à Angop fonte familiar.

Uanhenga Xitu, seu pseudónimo literário, nasceu em 29 de Agosto de 1924, em Kalomboloca, município de Icolo e Bengo, província de Luanda.

Escreveu, dentre outros livros, Manana (estreia), Cultos especiais, Vozes na Sanzala, Mestre Tamoda, o Ministro, Mungo, Ponto de Ordem Senhor Presidente, etc.
Foi enfermeiro, preso político em Tarrafal (Cabo Verde), Ministro da Saúde, Embaixador na Polónia, Deputado à Assembleia Nacional pelo MPLA, conselheiro e fonte de inspiração para muitos escritores (eu incluído) e alguns políticos.
Desejo um descanso eterno ao Grande Combatente pela liberdade, político e Escritor Uanhenga Xitu (seu nome em Kimbundu).

sábado, 1 de fevereiro de 2014

AS EXECUTIVAS DO PROTOCOLO


AS EXECUTIVAS DO PROTOCOLO

São jovens na flor da idade, algumas ainda pubertárias. Estão sempre de salto alto, bronzeadas, cabelo emprestado do Brasil e Índia e unhas sempre em dia. Ao sair de casa, algumas se vestem à executiva, para fingir ser gente. Uma vez na rua, apresentam-se de forma muito ousada: de collants extravagantes, muitas vezes mostrando a natureza genitália, calções curtos e top less que deixam a “faixa de gaja” e pinturas labiais que as distanciam das demais fêmeas do bicho homem.

Habitualmente, dormem durante o dia, quando não têm trabalho extraordinário, e trabalham à noite. São as “organizadoras” de eventos sócio-culturais e “meninas do protocolo” para os notáveis da alta sociedade.

Apostando no marketing, as executivas do protocolo optaram por elaborar business cards com fotos ousadas e endereço telefónico que entregam a convivas bem aparentados e desacompanhados nos eventos públicos e ou restritos das cidades angolanas. O resto é preço a combinar.

Dessas negociatas das executivas do protocolo surgem os jeeps top de gama com que algumas raparigas, ainda púberes, se exibem, quando não são os famigerados i10 e arredores.

Endinheirados, pseudo empresários, administradores de empresas públicas, altos dignitários do Estado, kamanguistas e generais no activo fazem arte dos preferidos e muito cobiçados pelas “moças do protocolo” que chegam a resolver contendas entre elas com imposição de voz e músculos sempre que uma se antecipe ao cliente permanente de outra. Pena é que já não cantam as kalashenikov e de tanques, tirando os de lavar roupas, já ninguém morre de medo. Nos tempos doutra senhora seriam capazes de resolver as diferenças protocolares a balázios…

Perante outras mulheres, elas são diferentes. Deslizam no gingar. Ciciam como cadela no cio. Usam perfumes com fragrâncias super sex e têm perícias em coçar a barba do idoso ou roçar a zona baixa do “Cabo de Santo Homem”.

Têm também expressões decoradas que lhe conferem uma aparente cultura do bem falar e modos cordatos. Apenas trechos de folhas decoradas, porque o resto são borboletas. O verbo que melhor sabem conjugar é fazer. Sendo “se fazer” o tempo mais empregue.

Uma vez transitadas para a fase posterior, a do emprego com remuneração mensal, não se coíbem em passar pelo “teste do sofá”, galgando como alpinistas. De sofá em sofá e de homo sapiens sapiens ao homo sapiens… Do general ao praça, até que sua volúpia se esfume.

Para os pais, as filhas fazem biscates de protocolo em eventos culturais.

- O emprego está difícil. - Concluem.

Para as puritanas, elas são a nova peste que arrasa a humanidade. As estraga lares e outros epítetos.

– É preciso tomar medidas contundentes e urgentes, antes que o pântano nos engula. - Apregoam.

Para as mães libertárias, elas são coitadas, invejadas pelas más-línguas.

– São trabalhadoras honestas, submetidas a longas horas de labuta, sem tempo para descanso. – Acodem.

Para os músicos da nova vaga, elas são a razão das elevadas vendas, de casas de espectáculos cheias e fonte de inspiração para temas prolixos.

– Essas munzúbias me ‘arrebentam’. – Evocam no seu pobre vocabulário.

 

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

A MORTE DO REI ACICATADO PELA CONSORTE



Até ao registo destes acontecimentos o reino de Magestic desfrutava de uma paz abundante e vida farta. Corria o ano de 3102 do tempo comum. Os limites geográficos de Magestic, um reino secular, eram a Avenida da Lagoa Negra, a leste; o Grande Rio Intermitente, a norte; e uns Estados autónomos em constantes guerras, a oeste e sul. Era, sobretudo, a sul de Magestic que mais se sentia a desestabilização que indirectamente acabavam por afectar o Magestic, sua corte e seu povo.
Tata Ngana, Senhor das Terras, era a autoridade suprema de Magestic, auxiliado por uma corte fiel e prestativa que administrava os Estados vassalos e cobrava impostos.
Detentor de um poder hereditário, Tata Ngana, estava desposado com Arra Gante, uma plebeia de origem citadina. O seu poder consistia num meio termo entre o autocrático e o democrático, custando-lhe a alcunha de “O Senhor do equilíbrio”. Ele , porém, preferia ser tratado pelo epíteto de “O inventor da terceira via” que aos poucos levava o reino a transformar-se em império. Numerosos eram os povos que o admiravam e tão notória era a áurea da sua corte e Estado.
- Se grandes males não houver, construirei um império que sobreviva a todas intempéries durante mil anos. – Gabava-se aos embaixadores e homólogos a quem oferecia banquetes.
Nu dia, daqueles em que o sol e nuvens negras se revezas no alto dos céus, o reino de Magestic acordou alvoraçado. Num dos Estados litigantes do sul, onde grassavam a fome e a miséria, a  rainha tinha feito comentários e comparações deselegantes em relação à forma como o seu rei conduzia os destinos do Estado.
- Quero uma capital com torres iluminadas, universidades, alamedas, sorrisos, transportes públicos e muito mais. É isso que quero que faças em vez de te estares a afundar em guerras que só enfraquecem o nosso Estado. – Disse Mbunda Inene, a rainha do Estado do Sul que ameaçou mesmo pedir asilo ao rei de Magestic.
 - Aié? Queres que te dê o que o Norte tem? Como sabes que Magestic tem tudo isso? - Questionou o rei Kasumuna furiosos.
- soube dos embaixadores e da media. - Respondeu Mbunda Inene que nem imaginou o fel que bombeava o coração do seu marido.
- Pois é… se subestimas o meu governo e me colocas abaixo de Magestic e Tata Ngana é porque há já muito tempo nos tens traído, a mim e ao meu reino. Desmereces minha consideração e tens 24 horas para deixar o palácio, se não queres ser decapitada em praça pública. – Sentenciou o rei possuído de ira.
- Eu abandonar o palácio que ajudei a decorar? Por que não abdicas antes e juntos nos exilamos para Magestic ou outro Estado que nos queira acolher? – Refilou Mbunda Inene.
Não convencido mas também sem argumentos, numa atitude cobarde, Kasumuna declarou guerra ao vizinho do norte, o Estado de Magestic.
O ataque relâmpago foi desferido às 5h de uma manhã. Mulhers da vida retornavam às casas e donas de casa cuidavam do asseio para rumarem às vidas diárias. Magestic estava em festa da coroação do rei. As suas tropas desfrutavam do repasto e há muito não sentiam o troar dum canhão ou o tagarelar duma kalashinikov. O belicoso Kasumuna aludiu um provável encontro secreto entre sua dama e Tata Ngana como motivo da guerra.
O ataque injusto e sem fundamentos desferido pelo Estado vizinho do Sul despoletou uma guerra civil em Magestic. Colocaram-se, lado a lado, generais conselheiros favoráveis ao rearmamento do Estado para fazer frente à guerra e outros que defendiam uma negociação incondicional com o belicoso vizinho do sul para evitar a destruição do Estado. Neste segundo grupo estava  a rainha e parte da população impreparada para a guerra que acusaram o soberano de relações promíscuas.
- Apelo à clemência e à calma. Vamos apelar as instancias internacionais e regionais para se apurarem as reais motivações dos ataques contra a nossa Pátria amada. – Pediu Tata Ngana à população reunida em frente ao palácio real.
- Não, não, não. Negou o povo eufórico e embriagado, paradoxalmente comandados pela rainha Arra Gante. – Queremos  a paz urgente. Queremos a cabeça. – Exigiram.
 - Eu, um homem livre, filho de príncipes, neto de soberanos, com serventes na corte, bisneto de príncipes com escravos, ser julgado em hasta publica por alegada traição ao meu próprio Estado? Quem o fez crescer o tornar-se destaque na sub-região e continente?  Nego. Nunca resignarei ainda que se quedem as estrelas dos céus. – Afirmou veemente o rei, aplaudido pela corte.
Tata Ngana não abdicou mas a sua vida e imagem ficou seriamente afectada. Deixou de ter vida pública como no passado. Tornou-se extrovertido e seus sorrisos apenas eram vistos nas sonenidades com monarcas estrangeiros que o visitavam ou quando retribuía visitas de cortesia. Até a água-ardente, sua predilecta água deixou de marcar presença na sala de trabalho.
Os largos sorrisos em companhia da família tinham desaparecido. A família e o reino estavam em retalhos. Faltavam as falas e Arra Gante embora arrependida dos dislates não conseguia reanimá-lo. Era apenas mais uma no palácio.
“Honra de rei lava-se com sangue”, comentava com os seus colaboradores sem nunca esmiuçar como lavaria a honra perdida.  Se investiria contra o Estado vizinho do Sul, se contra a sua consorte que não a apoiou se contra a oposição palaciana. Durante muitos meses e anos pensou calado em como resolveria a questão.
- Sacrificar a rainha Arra Gante? – Os seus botões aconselhavam que não! Seria tomado como sanguinário.
- Mover guerra e aniquilar o Estado atacante do sul? – sacrificaria o bem-estar da sua população e morreriam pessoas na guerra.
 
Diante do palácio real crescia uma figueira. Tinha sido plantada no dia da sua entronização. Já tinha dezena e maia de anos, sendo podada sempre com orientação vertical. Contava mais de dez metros. Tata Ngana olhou para a árvore, os figos e a alegria dos pássaros que a habitavam. Contrastava com a vida que levava nos últimos nãos.
- Vou entregar-me ao deleite e causar uma grande festa jamais vista neste Estado. – anunciou ao secretário do palácio.
Como quem empurrado pelos ventos e puxado pelos ancestrais, que o preferiram junto de si do que detestado por uma rainha e povo ingratos, Tata Ngana lançou-se aos figos que espreitavam o terraço.
- Buuuummmmmmmmm!
O secretário do palácio nem tempo teve para pedir socorro. O rei estava estatelado no pavimento térreo com as vísceras por fora.
Quando os bombeiros e o médico do Palácio chegaram Tata Ngana estava já sem vida. Uma missiva, no bolso do casaco, descrevia a sua ascensão e queda. Foi chorado durante meses e anos mas o reino de Magestic jamais conheceu dias áureos como aqueles vividos durante o seu reinado.

domingo, 1 de dezembro de 2013

NOVA GAZZETA PERGUNTA E SOBERANO CANHANGA RESPONDE

Entrevista reaçlizada a 22 de Agosto de 2013 

·        Depois de “Sonho de Kawia” e “Manongo Nongo”, o que  traz com os “10encantos” ?

·        Com o “10encantos” trago o lado e o grito poético que reside em mim. A fonte de inspiração continua  a ser a mesma: a sociedade e os seus contrastes. Porém, a forma de sentir e de narrar os factos é que mudaram.

·        Quando vai ser lançado e onde?

·        Em princípio, penso em lançar o livro na Lunda Sul, durante a semana do Heroi Nacional, por uma razão muito especial.  A minha produção literária é feita neste território que,  aos poucos, vai também ganhando leitores, sobretudo nas instituições de ensino superior em que colaboro. Temos feito um grande trabalho que visa incutir na juventude o gosto pela leitura e quero reconhecer este esforço e entrega da juventude com o lançamento, em primeira mão, de um dos meus livros.

·        Foi o jornalismo que o levou à escrita?

·        A escrita é anterior ao jornalismo como tal. Porém tenho dúvidas em aferir se seria capaz de chegar aonde consigo enchergar se não tivesse o jornalismo como profissão e vício. Continuo a dizer que a literatura é, em mim, uma extensão do jornalismo.

·        Quanto tempo leva para  escrever um livro?

·        Depende. É variável. Tudo começa como pequenos textos que vão ganhando forma ou que ficam na gaveta. Dos três livros já editados, “10encantos” foi o que durou mais tempo a escrever já que tem poemas do tempo do IMEL, 1993, e outros ainda do Ngola Mbandy, 1990. Sempre que publico um livro começo a escrever enquanto outro livro entra em revisão ortográfica. Isso permite-me ter sempre um em prontidão para entrar em produção, em caso de necessidade.

·        Geralmante onde é que busca inspiração para escerever? Qual é o momento do dia que mais o inspira? E onde é que escreve? Na praia, em casa, no escritório?

·        Todas as manhãs, encho a banheira e fico a meditar 20 a 30 minutos, em silêncio, pensando sempre em um tema do passado, do presente ou do futuro (imaginário). Depois traço os esboços ou as ideias chaves. À noite, depois dos compromissos profissionais com Catoca e com as Universidades em que colaboro, passo os esboços a limpo. Luanda é um território fecundo mas a redacção acontece normalmengte em Catoca, na Lunda Sul. 

·        É um homem de múltiplas actividades. A literatura para si é apenas um hobby?

·        Sim. Ainda não me sinto escritor, embora me sinta preocupado sempre que fique uma ou duas semansas sem escrever uma crónica. Também não tenho obcessão pelas coisas. A escrita acontece de forma espontânea e natural… Sem forçar e sem me sentir pressionado.

·        O que é ser escritor para si?

·        Ser escritor é, para mim, sentir de forma diferente o que sinto. Isto é, viver da escrita ou levar a arte muito mais a sério. Por isso, prefiro considerar-me apenas um contador de cenas.

·        Actualmente, o que o preocupa mais na literatura angolana?

·        Preocupa-me a falta de correcção no uso da língua pelos escritores emergentes, a falta de humildade em reconhecer que pouco se sabe da artes da escrita e do domínio das línguas e noto também a ausência dos mais experimentados para auxiliar os mais novos. Felizmente, não é o meu caso, pois tenho o José Caetano, Armando Graça e o Manuel Ruivo que sempre se mostraram disponíveis em me “puxar à orelha”. 

·        Hoje vão-se colocando alguns receios resultantes de uma aparente ausência de renovação geracional, entre os escritores angolanos. É uma questão real? Preocupa-o?

·        Considero que tudo acontece no tempo próprio. É obvio que se a minha geração estiver mais virada para a fama do que para a transpiração, os mais velhos a considerarão sempre como uma geraçãpo incipiente. Temos de nos aplicar mais naquilo em que nos propomos. Temos de mostrar que somos capazes de fazer a viragem, de continuar e aumentar o respeito que a literatura angolana já alcançou.  A questão que hoje me coloco é como fazer novos Aires de Almeida Santos, novos Agostinho Neto, novos Uanhenga Xitu, novos Viriatos, etc. É essa a questão que me persegue.

·        E o que pensa sobre a ideia comum de que os jovens escritores angolanos não sabem escrever?

·        Acho que não devemos generalizar em demasia. Reconheço que há alguma relutância de uns em se aprimorarem no domínio das línguas e da exposição artística das ideias.  Um texto literário ou para literário não é a mesma coisa que um texto não literário. Os primeiros têm de possuir elementos estilísticos que lhes conferem beleza e arte.

·        Já agora, o Prémio António Jacinto não teve vencedor pelo segundo ano consecutivo, e o argumento evocado pelo júri foi exactamente a falta de qualidade dos candidatos. Como olha para essa questão?

·        É uma pena que estando poucas vezes em Luanda ainda não tive a oportunidade de me candidatar. Vou no terceiro livro e nunca participei de tal prémio. Quero tentar para depois poder fazer um melhor juizo. Pode ser que os juízes tenham razão. A recíproca também pode ser verdadeira.

·        Que escritores angolanos tem como referência? Por quê?

·        Rodferick Neone, Isaqueil Cori, o incontornável Uanhenga Xitu, Jacinto de Lemos, Pepetela, Jofre Rocha, etc. São autores cujos escritos influenciaram a minha forma de encarar o mundo e a realidade. Já os li muito nos tempos do IMEL (curso de jornalismo) e continuo a lê-los.

·        Os angolanos não têm hábitos de leitura. Concorda? Há quem diga ser um falso problema.

·        Faltam hábitos de leitura, sim senhor! Houve um tempo em que os país se tinham demitido da missão de educar os filhos a ler. Já vi livros a serem rasgados para empacotar ginguba… Por outro lado, a carestia dos livros também afugenta quem quer ler mas não tenha dinheiro. No ensino médio, costumávamos emprestar os livros e em finais de anos oferecíamos e recebíamos livros. Também era obrigatório frequentar a União dos Escritores Angolanos. Não sei se a União ainda enche como nos anos noventa.

·        Que mecanismos devem ser usados para incentivar o hábito de leitura nos jovens?

·        Criar bibliotecas infantis é um bom caminho. Os pais devem ler para os filhos e diante dos filhos para que estes se orgulhem e lhes sigam o exemplo.

·        É fácil editar um livro em Angola?

·        Não. Ou se tem dinheiro para pagar ou se arranja patrocínio ou você é excelente e cai nas boas graças de uma editora que assume os custos na totalidade. A última vertente é a mais difícil.

·        Literatura na política, literatura politizada. Estas expressões existem, no contexto angolano? Que lhe dizem?

·        Já li alguns livros evocativos que me deixaram confuso se aquilo era literatura ou propaganda… Sendo apenas um amante da literatura e não um crítico, deixo essa tarefa aos especialistas para julgarem.

·        Que conselhos deixa a quem está à busca de uma oportunidade para mostrar o seu talento e entrar no mercado literário?

·        Que domine antes a língua em que vai trabalhar e leia muitos autores e diversificados estilos. É o que estou a fazer.

·        Tem projectos literários para o futuro?

·        Muitos. Tenho um livro em revisão ortográfica (“Predestinados” que já tinha anunciado com o título “Relógio do velho Trinta). Tenho ainda “As travessuras do Jacinto” e escrevo outras coisas que podem evoluir para esboços de livros. Não paro de escrever uma coisa ou outra.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

MENINAS, MINAS E DINHEIRO

- É mentira! É verdade! – A disputa punha jovens na flor da idade em dois campos opostos. Cada grupito puxando a sardinha à sua brasa.
A conversa sobre meninas e minas já levava hora e a aula de economia não ganhava pernas para começar. Professores e alunos passavam em revista os últimos acontecimentos e as últimas noticias divulgadas pela media.
Inspirando-se em Arlindo Barbeitos, Kexijina Lamba, que já estava farto da certas conversas sobre minas, pediu ao professor e aos colegas para ler um texto que tinha escrito na última noite, depois de ouvir mais uma estória cabeluda sobre minas que disputam a maternidade angolana em termos de números.
 E começou:
“Há muitos anos houve em tempo em que o pais foi minado pelos militares de diferentes exércitos  que aqui se pleitearam por várias razões e convicções. Minaram os tugas que tudo fizeram para não serem corridos do país que lhes era alheio, minaram os movimentos de libertação nacional que pretendiam acabar com cinco séculos de domínio estrangeiro, minaram os rebeldes do pós-independência, minaram as forças do Governo da República Popular e minaram os exércitos “socorristas” de África, América e Euroásia.
Há muitos anos houve um tempo em que se dizia que havia uma mina para cada um dos angolanos e que restavam umas tantas outras para estropiar quem cá encontrasse poiso…  E o sermão das minas levado de rádio em rádio, de jornal a jornal e de televisão em televisão passou de boca em boca como o passa a palavra das forças armadas em combate contra a verdade das minas.
Mina por cá, mina acolá até que o povo deixou de fazer agricultura com medo delas. As cinturas verdes que noutros países em situações análogas de conflito eram normais e crescentes tinham desaparecido pois  aqui só faltam existir minas voadoras como os aviões de comida importada pelos próprios propagandistas das minas. E os miúdos que nasciam desconheciam a jingubeira e o milheiro, pensando que a jinguba fosse uma invenção fabril ou das lojas dos “governantes mineiros” e o milho procedente duma planta chamada PAM.
Há muitos anos houve um tempo em que, preocupados com as notícias sobre as minas, vieram de todos os cantos ONG´s calejadas em localização e desactivação de engenhos. Desminaram falácias sobre minas à volta das cidades que impediam a horticultura , a avicultura e a pequena pecuária refugiada no medo crescente dos engenhos. De repente as cidades começaram a produzir. Couve-flor, aguardente e frutas também. Tubérculos, ovos e leite também. E os homens dos discursos mineiros cedo se tornaram em novos evangelizadores do verde periurbano, tornando-se donos . Roncaram moto-bombas, desviou-se água da boca para a raiz da hortaliça. Mas as minas continuaram milhares e impossíveis de erradicar no interland, agora com novos donos e vítimas de sempre e como os discursos de sempre.
Há muitos anos houve um tempo em que se apregoou que as minas, mesmo aquelas implantadas em zonas onde nunca houve presença militar precisavam de ser desactivadas, explodidas ou apenas transformadas em outras minas cabíveis em bolsos gordos de verdura americana. E se condicionavam agricultura extensiva, estradas distantes, cidades largas, tudo se condicionava às minas por estancar dando lugar a outras minas.
Há muitos anos que se vai desminando, sempre que se plante uma mandioqueira, um poste de energia periurbana, um prédio urbano, uma cantina agrícola. As minas tornaram-se também minas no decénio da probidade que enfeita discursos repletos de minas que dão transbordo a bolsos de dezenas que se riem ad eternum, a desfavor de milhares de mutilados por falácias e repletos de fome e nudez causado por minas.
Há muitos anos houve um tempo em que os engenhos implantados pariram minas!”
Kexijina Lamba terminou, com aplausos, a composição que tinha sido o tema para trabalho caseiro que consistia em reflectir sobre o impacto das minas pessoais na economia do país.
Kexijina Lamba terminou, com aplausos, a composição que tinha sido o tema do trabalho caseiro que consistia em reflectir sobre o impacto das minas pessoais na economia do país.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

BRUNE DE DINHEIRO

Depois das kitotas e fungutas de sessenta e um a vinte-vinte-e-dois, era já tempo de paz. Kota Matadi acordou às 10 horas, ainda kimbonzado. A noite lhe tinha despedido no alambique do Januário, onde se embebedou até desconhecer-se por completo.

_ Lupuka, lupuka! _ Foram as expressões que o acordaram, gritadas pela miudagem quase ao ouvido.

Matadi passou água na boca e, ainda cheirando a kaporroto, dirigiu-se à casa de Jacinta.

_ É quê então, esta hora, cinco da manhã, já estão a se dar kibeto? _ Perguntou Kota Matadi, ainda entre a torpeza e a lucidez.

_ Cinco horas, acorda mano Matadi. Já é meio-dia. _ Respondeu-lhe a menina Joaninha.

Matadi olhou para o sol. Bola de fogo no meio da bola azul que sai do infinito ao infinito.

_ Ara possas! Mas é quê então, pá?! Ninguém me responde razão da kavwanza? _ Ameaçou.

_- É mano Bernardo que lhe picaram faca no primo Joaquim. As tripas saíram todas da barriga e o papá foi chamar o sô kifirmero para lhe cozer. _ Explicou Joaninha, filha de Jacinta.

_ E a burra da tua mãe foi aonde e onde é que Bernardo lhe meteram?

A cabeça de Matadi estava em caldo. O homem gira-girava com a catana à cintura, sem destino.

_ Esse gajo do Bernardo, se lhe apanho, vou lhe esquartejar. _ Vociferou, rangendo os dentes cariados.

_ Ó mano Matadidi, naquele dia kimbanda falou assim primo Joaquim lhe deram brune de ter dinheiro e está à procura de pessoa para lhe matar com wanga dele, mas como não está a aparecer… _ Joaninha deu-se conta que estava em estrada de adultos e meteu a mão na boca.

_ Fala, sua burra. _ Gritou Matadi. _ Quem te explicou essa maka toda?

_ E, tio não vê ainda mano Bernardo? _ Astuta, Joaninha cortou a conversa do feitiço.

_ Não Joaninha. Não. Quando Juízo na cabeça me está a ferver não gosto de ver sangue porque quando viro bicho ninguém me aguenta. Mas vai, corre ainda no caminho da tua mãe ver se kifirmero está a chegar.

Na phela do régulo havia motivo para reunião e o caso não era simples. Havia, há já algum tempo rumores sobre wanga de dinheiro, pedofilia e outras makas que estavam à espera de alguém que fosse encontrado com a boca na botija. Os oficiais de justiça comunitária têm à mesa uma tentativa de homicídio e vão aproveitar fazer o Estado da Nação. A polícia estava longe e a ordem tinha sido alterada.

Soba Kavindi, cachimbo na boca era motor a fazer ressonância na subida. Parecia tractor preguiçoso a puxar carroça cheia de milho. Chamou os notáveis para analisar o problema do Joaquim e mandou jovens com pulungunza caçar o Bernardo que estava foragido. Até agora ainda não se sabia ao certo por que razão Joaquim levou a navalha às miudezas de Bernardo.

Kinanvuidi, o enfermeiro, chegou a tempo de remendar a vida de Bernardo. Estava já a caminho do Hospital Grande da Vila que ficava a vinte quilómetros.

_ Mas, ó Joaquim, seu burro de merda, onde foi que tiraste esse juízo da faca? _ Interrogou Kavwindi, o soba.

_ Pai lhe encontrei com minha mulher a lhe dar um papel _. Defendeu-se o réu.

Joaquim estava amarrado à borracheira que dava sombra à phela.

_ Mas que papel é esse? É fotografia? _ Questionou o régulo, algo impaciente.

_ Não, pai.

_ É dinheiro?

_ Também não.

_ Porra, pá?! Então é quê que não te sai dessa boca de porcaria? _ Kavwindi demonstrava já muita impaciência e os oficiais de justiça entreolhavam-se a espera de uma ordem emanada pelo soberano.

_ É poema, ngana soba. _ Respondeu Joaquim entre lágrimas.

_ E poema se espeta faca no outro? S’explica ou vais ver diabo a assar sardinha. _ Ameaçou o soba.

_ Bernardo e eu somos amigos. Pai sabem.

_Sim, continua. - Respondeu o conselho do soba.

_ Bernardo e eu fomos no kimbanda para receber brune de dinheiro. Cada foi no dia dele. Ninguém se viu. Mas eu sei. Lhe mandaram dar papel de amor na mulher do melhor amigo para depois lhe dormir. Sabendo que eu seria o visado fiquei de olho e no dia do tal poema lhe antecipei com uma baioneta. Foi apenas isso.

_ E dizes que foi apenas isso como se tirar a vida do outro fosse como matar uma galinha? E a mulher vais lhe recuperar ou vais lhe sengar? _ Interrogou Ngana Tandela, responsável pela aplicação da justiça e preservação dos costumes.

_ Vou lhe entregar com ele. _ Respondeu Joaquim.

- O quê? Fidacaixa, pá! Se eles não se serviram você vai sengar a mulher? Que culpa ela tem se tu e teu amigo é que se meteram nos brune? Eu quero que você laperdoa já, logo-logo sai das cordas. _ Ditou o ancião.

Sem mais nem menos, Joaquim desamarrado da árvore da phela cumpriu a sentença: custear as despesas de saúde do Bernardo, trabalhar na lavra do ofendido até que melhore e pegar de volta Jacinta, sua esposa, que se refugiara em casa dos tios. Bernardo teria igualmente a sua reprimenda, mas só quando sarasse a última ferida.

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Publicado pelo Jornal de Angola de 26.02.2023, e no Jornal Cultura, a 06.12.2023, com o título "Kavwanza na aldeia".