domingo, 1 de março de 2015

O TIO, O PASTOR E O GREGO DO SETE & MEIO

Depois de a "Classe de Kwanza-Sul" se ter emancipado do cargo de Kalemba, eu era o centro da disputa ao domingo, entre o casal que me adoptara para criação.

Órfão aos oito anos e deslocado de guerra, aliás, “recuados”, era esse o vocábulo dos anos 80 do século XX que designava aqueles que tinham abandonado suas terras de nascimento em busca de protecção nas cidades controladas pelas forças governamentais, no tempo da República popular de Angola, eu era árvore de caule flexível e que não resistia ao vento.

Explicando os termos: Classe é um espaço de culto entre os Metodistas Unidos, onde realizam encontros matutinos ou nocturnos, ao longo da semana. Cada membro da Igreja Metodista Unida frequenta, normalmente a classe do seu bairro.

De Maio de 1972 a Julho de 1983, um grupo numeroso de kwanza-sulinos residentes em Luanda e seus descendentes que tinham frequentado vários templos Metodistas da capital decidiram em fundar a sua classe que anos mais tarde veriam ascender à categoria de cargo ou “Igreja” como designam os locais de culto ao domingo. Entre eles havia também alguns malanjinos, kwanza-nortenhos e outros provenientes do centro norte e centro sul. Porém, os “kikís”, como são designados na intimidade os kibalistas e seus conterrâneos do Kwanza-Sul, eram a maioria. Se calhar, daí o nome “Classe Kwanza-Sul” não ter enfrentado resistência.

A "Classe Kwanza-Sul" subordinava-se à “Igreja”(templo) de Kalemba, que fica nas traseiras do cemitério de Sant’ Ana, ao Kilamba Kyaxi. Em 1983, a Classe emancipou-se, separando em termos de frequência dominical o casal que me tinha como tutores. Ele, também um kwanza-sulino, preferiu continuar na Kalemba onde tinha amigos e próximo da casa da filha. Na “igreja de Kalemba os ovimbundu e ambundu do centro estavam em maioria, embora lá cultuassem também catetenses, como a família da minha contemporânea Luzia Mateus Pedro. Ela, a esposa do meu tio, decidiu frequentar a novel “igreja” que ficou baptizada com o nome do profeta que levou os escravos israelitas do Egipto à terra prometida de Israel, Moisés. Como quem dá de beber e de comer aos filhos é a mãe, tive de segui-la e recorrer ao tio apenas para os conselhos e o dinheiro para o ofertório. Aliás, ele fazia questão de dar-mo todas as manhãs de domingo, antes da nossa separação de casa.

A caminho da igreja eu e a tia seguíamos caminhos distintos. Ela ia com as suas amigas da classe, e eu com os meus kambas da EBF (Escola Bíblica de Férias e do Pavilhão Infantil). O regresso é que era comum, devido as compras, à porta do Supermercado Nzala Ikola ou nas bancadas da Praça das Corridas (hoje conhecida apenas por Praça do Tunga Ngó).

Num domingo em que a tia não fora à Igreja, por razões que a memória se encarregou de apagar, caminhava em direcção à Moisés, com os meus amigos, quando a metros do Nzamba 1 nos deparamos com gente reunida à volta de um homem que falava sem cessar. Havia muita gente. Uns eram devotos e outros meros curiosos como nós que paramos para ver e depois contar aos ausentes. Uns sentados e outros em pé. Era uma nova confissão religiosa e um pastor muito eloquente. Daqueles que o meu amigo Murtala satirizou em música por “pastor murras”. O homem tinha sobre o púlpito um livro “Verbo Divino” que coincidia com a sua verborreia. E todos o ouviam, até os que se dirigiam ou saiam de outras “ngelús” bebiam e comiam um “koxitu” daquele sermão que aos cristãos mais treinados lembrava o Sermão do Monte, proferido pelo nazareno coroado Rei Celestial.

O “pastor murras” falava sobre o comportamento dum bom crente da sua igreja que “deve dar a face esquerda depois de apanhar uma valente galheta na face direita”. E continuava ele:

- Irmãos e irmãs, fui enviado pelo nosso pai, tal qual foram enviados os profetas da antiguidade. Um bom cristão tem de saber perdoar…
Os seus ouvintes seguiam-no atentos e, entre ligeiras pausas, recebia aplausos e assobios dos que se mostravam contentes, até que um “grego” do Sete e Meio irrompeu dentre a multidão com um “é mentira”!

Empolgado, “o pastor murras” esqueceu-se da pregação e soltou um veemente “vai para o carvalho, seu bandido!”

Foi a dispersão total dos que seguiam e se sentiam empolgados com aquele parlatório. Dos aplausos, passou a receber "mixoxu" de meio mundo.

Felizmente chegamos a tempo ao nosso Pavilhão Infantil para cantar o “kasanje-kasanje” do tio Farias, “Margarida Morena” da mana Cândida ou “o elefante que incomoda muita gente”.

De regresso a casa, aguardei pelo tio que chegava às duas da tarde e informei-o sobre os dislates dum pastor, seguido de perguntas “se pastor que é quase deus também ofende”.

- Como assim, sobrinho? No Kwanza-Sul o vosso pastor mordeu a língua?

- Não tio. Foi um pastor de rua que respondeu a um grego do Sete e Meio com um duro palavrão.

- Ai é? - O ancião procurou por palavras conciliadoras para “lozar” o seu conselho habitual, sem ter de desprestigiar o homem do verbo fácil, nem desencorajar-me de ouvir a palavra sagrada.

- Meu sobrinho, faz sempre o que te digo, mas nem sempre o que faço. O diabo está sempre á espreita e o tio ou o pastor pode errar. Aliás, não foi o pastor quem ofendeu o grego. Foi diabo quem se serviu de sua boca!

domingo, 1 de fevereiro de 2015

MEMÓRIAS DA LUTA A "14 GRAUS"


Na tropa tuga que os acolheu pela primeira vez, Serpa Pinto era uma cidade demasiado pequena para que dois jovens, educados em missões protestantes, não se reconhecessem.

- Nasci em Ekovongo e cresci em Kamundongo. - Apresentou-se Sabino ao cabo Coimbra.

Corria o ano 66 do século XX. Influenciados pelo fim da Segunda Guerra Mundial e pela Conferência de Bandung, os Movimentos de Libertação Nacional surgiam como cogumelos e os ex-militares, saídos das frentes militares na Europa, Ásia e Norte de África, vomitavam as novas ideias "jikulamesistas" nos países de origem.

- Também sou protestante de Cisamba e tenho a vida académica feita no Ndondi (ex-Vila Nova, hoje Kacyungu). Respondeu Coimbra sorridente.

O aperto que se seguiu à apresentação dos dois cabos bienos, dois anos de diferença, foi como a bala de G-3 alojada na caveira dum insurrecto. Assim eram as orientações salazaristas e thomazistas naqueles tempos do "para Angola e em força", a fim de manter "a joia da coroa lusitana em África", onde enfrentavam, a par da Guiné de Amílcar Cabral, umas das mais duras e desgastantes guerrilhas. "Alojar a bala na caveira dos patrícios e fazê-los temer a nossa autoridade e poder", era a frase de ordem diária dos furriéis à praça formada por nativos e metropolitanos trazidos em aviões e navios para travar o “comboio da liberdade”.

Coimbra e Sabino enfrentaram com valentia e sabedoria os dois anos de "tropa tuga" até chegar a dispensa para a vida civil, cumprindo ou esquivando ordens para que não fossem submetidos a castigos, nem tidos como subversionistas. Por outro lado, evitando também o confronto directo com os seus irmãos que nas matas e nas chanas lutavam com “kanyangulu e mwana-kaxitu” para dar fim ao poder do fascista Salazar e seu presidente-peão, Américo Thomaz, das terras de Ngola, Ya Ndemufayo, Wambu, Ndulu yo lo Sima, Cinyama, etc.

Transcorreram os 48 meses esquivando uns e outros, embora os corações, quer dum quer doutro, fosse revoltoso. Terminada a missão militar, Coimbra acabaria por alistar-se num curso de enfermagem.

- O único caminho que tenho para ajudar a Revolução é curar os populares e os compatriotas deixados feridos pelo calor da refrega. - Disse Coimbra para si mesmo no dia da decisão. E fez o curso geral de enfermagem, ano e meio, em Nova Lisboa. Sendo colocado na delegacia de Kamanonge, distrito de Moxico.

Sabino, desmobilizado, um ano mais tarde, seguiu-lhe no sonho, embora nada houvesse  de acerto entre ambos.

- Agora que já não estou a servir os colonialistas, e com os conhecimentos militares que tenho, vou enquadrar-me no Movimento.

Tentou fazer-se à estrada até atingir a vila Teixeira de Sousa, no extremo Leste. Os espinhos eram muitos e poucos com histórico militar conseguiam transpor as barreiras impostas pela administração colonial até chegar à última estação do Caminho-de-Ferro de Benguela em território angolano. Já um ano tinha voado, depois da dispensa da vida militar e Sabino continuava com o sonho por realizar.

- A revolução também se pode fazer na recta-guarda. - Segredo-lhe o tio Njamba Ya Mina, já há anos com “kudibangela” na mão.

Conselho ouvido, conselho acatado. Sabino enquadrou-se no curso geral de enfermagem e o destino levou-o igualmente a  Kamanonge, onde viria a reencontrar o seu antigo colega e conselheiro Coimbra.

Quando se avistaram pela primeira vez, em Serpa Pinto (hoje Menongue), Coimbra ja era pai de segunda caminhada. Sabino ainda sonhava com a noiva deixada intacta em casa do padre Maurício, irmão de Argentina. Mal tinham começado a garinar o jovem, com o segundo ano do liceu concluído, foi forçado a enquadrar-se na tropa de ocupação colonial.

Em Kamanonge, estavam no epicentro da revolta contra o sistema colonial. A proximidade com a Rodésia independente e permissiva aconselhava o recrudescer dos combates e até facilitou o surgimento do kasula entre os  Movimentos guerrilheiros anti-salazaristas em Angola.  Coimbra, na chefia da delegacia da saúde, recebeu o neófito Sabino, seguindo-se outros anos de companheirismo e cumplicidades entre as duas famílias.

Durante o sol atendiam os colonos e aldeões da circunscrição e, às noites, os "irmaos kambutas" que abundavam nas chanas “trafulhosas” do Leste, até que chegou a Revolução dos Cravos. Salazar já pagava pelos pecados e Caetano, seu substituto na ditadura primo-ministerial, via o diabo a assar "joaquinzinhos" em lume ateado pelo movimento dos capitães.

- A independência chegou! - Gritaram as colónias. Colonizadores e colonizados sentaram-se à mesa de negociações, 14 anos depois do início das “nvundas do tunda mindele". Coimbra voltou a Silva Porto e Sabino enfrentou a traição rasteira de irmãos de sangue e sofrimento perante o chicote colonial.

- É ovimbundu, é colaborador. - Sem mais nem menos, acusaram-nos com sede de lhe tomar a cadeira na chefia da delegacia deixada por Coimbra transferido. “Foi o preço da revolução feita com poucos cérebros encanetados”, diria mais tarde.

Fugido das masmorras “pidescas”, à cadeia “disesca” foi entregue, acusado de traição.

- Nunca estive com eles. Nunca me simpatizei com eles. - Defendeu-se Sabino perante uma acusação que não permitia advogado.

Sabino viu o sol e até estrelas aos quadrados no meio de muita sova. Resistiu, porém, à tortura e à morte. Viu companheiros de desgraça, acusados de colaboracionismo com o terceiro Movimento, partirem para nunca mais se ouvir falar deles. Com o passar do tempo, recebeu outros parceiros de sofrimento, rusgados na refrega inglória do 27 de Maio. Muitos deles seguiram o destino dos primeiros. Desapareceram de dia para noite sem deixar rasto. Quando o sino da liberdade tocou, voltou à urbe nativa, fundada por Silva, o do Porto, onde voltou a encontrar o seu amigo e companheiro de todas as caminhadas. Coimbra dava vida ao confiscado hospital missionário de Kamundongo.

Vivem hoje aposentados, cuidando de netos a quem contam a cada sol um episódio, fazendo-lhes companhia a "pomada", as cicatrizes e as memórias.

- Então, compadre, o que será hoje o almoço? - Perguntou Sabino, na pele de visitante, enquanto ajeitava a sacola em que acomodava o galo trazido da fazenda.

- Catorze graus, com carne e pirão. É tempo de independência, compadre. - Respondeu Coimbra.

Rodeados por filhos kasulas, sobrinhos e netos comuns, Coimbra e Sabino abriram os seus livros de memórias e os descendentes foram anotando com atenção.

- Vovôs, vamos escrever um livro com vossas recordações. - Verbalizou Any Bingo, uma das netas comuns. A cabidela foi regada com vinho tinto de 14 graus, enquanto os mais novos festejavam com kisângwa.


Obs: Texto publicado pelo Semanário Angolense em Fevereiro de 2015.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

TEMPOS DE PHAMBU DYA KALUNGA


Phambu dya kalunga é uma expressão kimbundu que quer dizer, literalmente, encruzilhada da morte. Também se costuma dizer "kanjila kajakata munzonge wa lulu" que significa, na Língua Luz-e-Tana, que o passarinho queimou e o molho amargou.
No tempo da mocidade dos meus tios e da minha meninice era comum ouvir os mais velhos a usarem o "phambu dya kalunga" para se referirem a alguém numa encruzilhada, com apenas dois caminhos.
Lembro-me de um kota que "encheu uma pinta[1]" e foi caçado pelos primos da mboa[2], já que ele esquivava sempre que o chamassem a sentar-se à mesa para falar com urbanidade. O manga[3] era refractário, outra expressão que saiu da moda linguística, e tanto temia assumir a munzúbya[4] quanto ser "kangado"[5] para a vida Kwemba[6].

No dia em que os primos da pura mboa[7] que estava pwã[8] o levaram à força para ir assumir o kizangu[9] da gravidez e fazer "os dever na moça", Tito Rafael estava a preparar-se, manhã cedo, para ir trabalhar na alfaiataria, no Golfe, vivendo ele no México do Rangel, na Ngwimbi, portanto.
O manga quando ouviu o "com licença" do Zezito pensou que fosse o seu colega de profissão e de caminhadas de beco em beco, fugindo dos ODP´s, CPPA´s, FAPLA´s kasimbados, ST's e PCU's[10]. Esses últimos eram os mais "fodidos", porque levavam tanto civis abrangidos para a vida militar, quanto os para-militares, os integrantes de milícias e os militares não dispensados dos quartéis. Eram mesmo quem mais rusgavam.
O kamba[11] do meu tiote, estudado minuciosamente pelos seus captores e enganado pela semelhança da voz anunciante, foi zangulado[12] e arrastado até ao quarteirão seguinte onde o aguardavam os makotas[13] da família da Ratinha, a wi[14] do cabelo longo, que andou a xaxatar de kaxexe[15] durante ano e meio, sem dizer "te quero de verdade ou de mentira". A expressão "namoro de ficar" não existia ainda no vocabulário do Português Luandense.

Tito Rafael, sozinho no meio de mais velhos de respeito, naquele tempo até os malandros eram "filhos de família", ensaiou dois caminhos: arrastar a conversa e não assumir o dikulu[16] antes que seus parentes fossem ao seu encontro, até porque casa, dinheiro e condições para sustentar a "filha alheia" e o mubinganu[17] por nascer eram coisas de que ainda não dispunha. A alternativa era pedir diligentemente licença para ir fazer necessidades menores e pôr-se a lume.
No bairro onde nasceu e cresceu, apesar das traquinices de uns e lyambices de outros, todos se conheciam e se davam ao respeito mútuo. Músculos nos problemas eram chamados somente quando alguém faltasse à palavra sadia e cortês. As galinhas e patos desapareciam de quintais, ainda feitos de tiras de chapas e pedaços de madeira descartada pelas serrações, mas era obra de mizangala[18] de outros bairros distantes. Os mexicanos não roubavam mexicanos. Era palavra de honra desde tempos avoengos.
Passados trinta minutos duma conversa que mais arrefecia do que aquecia e ante a ausência dos parentes e amigos mais chegados que àquela hora já não estariam no bairro, onde as rusgas aos "mata-kasumuna"[19] eram constantes, Rafael decidiu pôr em prática o plano b, o da evasão cobarde.

Pediu licença para se dirigir à latrina de chapas e aduelas que se encontrava a uns dez metros da figueira onde decorria o milonga[20]. A meio do caminho, entre os parentes de Ratinha sentados em círculo e a casota das necessidades, avistou a rua e trocou olhares com Ritinha, sua irmã kasula, escondida num canto e que lhe sinalizou o atraso do tio Joaquim “dos Mahezu”[21]. Rafael acelerou o passo e trocou os olhos e os caminhos.

Da porta do quintal à rua foi já a passo de lebre. Só que, igual a lebre, a sua berrida[22] foi sol de pouca dura. Acabou nas mãos dos PCU's que vasculhavam o bairro como quem procura agulha no palheiro.
Tinha passado o mês das apresentações voluntárias dos abrangidos pela Lei do Serviço Militar Obrigatório e todo civil abrangido, sem isenção ou adiamento, teria o KK como destino. A camioneta UNIMOG serviu de acolhimento durante dia e noite, até ser despachado para o Centro de Recrutamento e Mobilização Militar onde fez a a peritagem médica e despachado para Namakunde[23]. Entretanto foi mesmo no temido KK, área de Kayundu, onde fez os primeiros disparos de um militar e sentiu o assobio mortífero duma bala inimiga.

No Kwandu-Kuvangu, palco da Guerra Fria, onde se travavam encarniçados combates entre forças nacionais antagónicas, apoiadas por exércitos estrangeiros, também antagónicos, Rafael lutou corajoso e valente e teve várias distinções. Mesmo com o lápis desafiado, chegou a primeiro-tenente das FAPLA, antes da desmobilização que se seguiu à paz de Bicesse e, de volta ao kubiku, [24] recuperou Ratinha "Cabeluda", pinta[25] asseada na fala e no estar, com quem fez outros três filhos. Contam já cinco netos.


[1] Mulher; jovem (calão).
[2] Mulher; jovem (calão).
[3] O individuo (calão).
[4] Mulher (calão).
[5] Rusgado, capturado (calão).
[6] Também designada por vida militar ou cumprimento do serviço militar obrigatório; Kwemba representava um palco difícil para os militares (calão).
[7] Mulher (calão).
[8] Grávida (calão).
[9] Problema (calão kimbundu).
[10] Organização de Defesa Popular (milicia); Corpo de Polícia Popular de Angola; Serviço de Tropas (Policía Militar); Posto de Comando Unificado.
[11] Amigo (kimbundu).
[12] Levantado; segurado (calão).
[13] Mais velhos (kimbundu).
[14] A senhora (calão).
[15] Namorar de pianinho; de soslaio (Kimbundu).
[16] Problema (calão).
[17] Substituto; herdeiro (kimbundu).
[18] Jovens (kimbundu).
[19] Mata-formigas; alusão a jovens desempregados; sem ocupação (do kimbundu).
[20] Problemas (kimbundu).
[21] Mahezu é em kimbundu exposição de problema; aquí é o diplomata.
[22] Corrida (calão).
[23] Município do Kunene, Angola (calão).
[24] Casa  (calão).
[25] Mulher (calão).

Publicado pelo Jornal de Angola, Caderno Fim-de-Semana, 29/04/18

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

NO TEMPO DE CIPAIOS E CAPATAZES

No edifício rosado da vila crescente de Lumbala Ngimbu, Xavier Martins e Ernesto Del Ponte dividiam o corredor longo e estreito. Duas salas com portas paralelas se enfiavam ao fundo, ganhando janelas pelas laterais e pelos fundos, um arrojo da arquitectura daquele tempo oitocentista. Uma das salas era do administrador do posto e a outra era a do secretário.
Do outro lado estavam os cobradores de imposto indígena, os cipaios e seus cacetes, os serviçais e os queixosos e queixados. Mais longe, mas no mesmo quintal engalanado de flores que desbrochavam em todas as épocas, estavam as casas para as "sentinas": duas para os brancos da administração e um “covil” que servia a "negralhada" toda, onde homens e mulheres acossados pelas descargas fisiológicas se revezavam minuto sim, minuto sempre. Kapita era empregado auxiliar e cuidava de levar e trazer o que os brancos pedissem.
Certo dia, daqueles em que o céu parecia ter descido à terra, ameaçando queimar tudo e todos, Xavier na sua sala suava. Del Ponte também de suor molhava a malha da camisa estampada que quase lhe mordia o corpo torneado. Os dois se pareciam a nascentes de rios que se alargavam a cada chuva, a cada gota. Já tinham trocado os lenços pelas toalhas que mesmo assim não bastavam para se enxugarem. Água nos moringues já não havia.
Kapita, atrás dum monandege traquino, na vista do administrador se colocou.
- Ei, ó preto, pega uma bacia e traz água. Tens um minuto e meio. - Ordenou Xavier Martins, o administrador.
Dois passos à frente, outro grito e Kapita ainda sem descodificar o que lhe foi solicitado.
- Kapita! Outra bacia para mim, uma toalha límpida e um minuto e meio para a empreitada. - A voz de Del Ponte, um luso de descendência hispânica era inconfundível. O homem era dos principais queixinhas de Xavier Martins e culpado pelo desterro de muitos serviçais à roça Camokomoko, autêntica colónia de morte nos tempos da administração estrangeira no Leste de Angola.
- Coitado. Mbacia chamado por um e por outro, 'deve ser muito sério o que esse irmão aprontou'. - Kapita assim pensou e meteu-se mangueiras e laranjeiras abaixo, gritando e procurando por Mbacia.
- Mano Mbacia, ó Mbacia, se estás a te esconder é melhor se apresentar, porque o branco está a ficar vermelho. Mwata mutolo nyi secretario já informaram no sipaio e disseram que se o Minuto e Meio não vier contigo, ais mar água m sangue.
Kapita gritou até fazer-se ouvir por todos os que se tinham dirigido ao posto administrativo, sem que ninguém o pudesse ajudar. Nem Mbacia, nem Minuto e Meio se apresentaram.
Desolado, pensando nas palmatoadas que levaria por conta do fugitivo Mbacia que não pôde encontrar, dirigiu-se aos soluços ao gabinete do secretário Del Ponte.
- Sô secretario, Mbacia nyi Minuto e Meio ma lunga o ma pwo? (Bacia e o minuto e meio são homens ou mulheres?) 'Num li vistei casa tudo'. - Explicou numa mistura entre ucokwe e português.
Del Ponte, furioso, fez-se como flexa ao gabinete do administrador, informando que Kapita se tinha gozado deles e se recusado a dar-lhes água.
Xavier Martins, um flexa que já tinha sido capturado nas guerras de conquista do Leste, pegou, com as próprias mãos em Kapita e o acorrentou pelo pescoço, juntamente com outros dois empregados que se faziam passear pelo quintal. Foram mandados à roça Camokomoko desbastar uma montanha durante as manhãs e cortar lenhas durante as tardes.
Lá ficaram, os três, cinco anos, sempre labutando acorrentados ao pescoço. Até às "sentinas" sempre juntos: Kapita, Katonde e Sandumba...
Num Novembro de mangas fartas, sede na hora doze acompanhava a fome da fuba levada pela chuva. Na frondosa mangueira, habilidosamente, decidiram subir e desfrutar-se de polpa que cumpriria as duas funções: matar sede e fome num só trago.
Mangueira acima se fizeram. Lá foram os trigémeos. Uma formiga brava, entretanto, sangue humano queria sugar e Katonde, o do meio, não foi poupado.
- Wawé, ndifa! (Ai, morro!) - Exclamou em umbundu.
Pretendendo desfazer-se do incómodo quebrou o galho. Outro abaixo acolheu a corrente. Katonde e Sandumba num lado e Kapita noutro balouçando.
- A suku a tatê, tukutise ño (Deus pai. ajude-nos). - Gritava Kapita.
- Capatajééé, Tukwase! (Capataz, ajude-nos!) - Replicavam apelos, em ucokwe, Sandumba e Katonde.
Mukwa Kuxaha, o cipaio, e Mukwahenda, o capataz, fizeram-se meteram-se a caminho. Um com a espingarda e o cacetete e o outro com o chicote.
- Toma a chave, liberta um e depois o da outra ponta. O do meio desce com a corrente. - Ordenou o cipaio.
O capataz trepou, mas o coração pesou-lhe a alma. Na sombra, o cipaio arma na mão, pronto a atirar.
- Sô cipaio, “quarente” está complicado desamarrar”. em só me ajudar. - Iscou o capataz.
- Desce de lá seu sebo e se eu conseguir resgata-los, coloco-te na condição destes desgraçados. – Ameaçou o cipaio antes de concluir: - Dou-te a espingarda e atira neles, antes de eu cumprir em ti minha promessa. Desce de lá, pá!
Mukwahenda também temendo pela sorte. Livrou-se da árvore. Fez-se à sombra, caçadeira na mão. O cipaio descalçou as botas, arregaçou as mangas e ajeitou os calções de caqui. Embravecido agarrou a árvore como quem lhe pega pela garganta. Confirmou as chaves dos cadeados no bolso. Subiu ao colmo. Sedento de sangue soltou valente bofetada a Kapita que apenas suspirou antes de levar o rio de saliva ao rosto do assassino.
- Ai é? É la em baixo que vamos ajustar as contas.- Verberou alto.
Mukwa Kuxaha, soltou Katonde e voltou ao lado de Kapita que sangrava na boca. Quando o cipaio se preparava para descer, Mukuahenda, o capataz, deu-lhe a provar do veneno.
- Tuááá! - A bala certeira de caçadeira abraçou-o de morte. Fez-se silêncio e depois o eco além savana. O cheiro de pólvora e as aves predadoras fizeram-se anunciar. Era sangue e pedaços espalhados pelo matagal.  
Kapita e o capataz meteram-se mata adentro. Catonde e Sandumba seguiram a caminho do caudaloso e pantanoso Lunge-Bunge, não se sabendo qual foi a sua sorte. Outrossim, ficou registado que o corajoso capataz e os seus troféus entregaram-se ao Movimento.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

A ZUNGA E A BERRIDA DOS KABOMBAS


FI-DA-CAXA! é para mim uma interjeição e não "palavrão". É nessa acepção que  espero entendam a utilização do étimo nessa crónica.  

Fi-da-caxa! Estorvaram-me a prosa com o kamba de ofício. Nosso encontro foi inesperado.
Eu o imaginava em Katumbela e ele contava-me em Sawlimbu. Ali mesmo no chão do aeroporto, rua primeira de quem espreita o Kasekel
[1], eu saído do cheiro e clima doutro mundo a apanhar balanço para nova vida na Ngwimbi[2], ele no intervalo duma acção de kudilonga[3], cruzamos, cara-a-cara. Se um fosse kilapeiro[4] do outro não teria nem buraco para se esconder.

-Epá! Confrade, não te imaginava aqui e plenamente hoje. Vieste em bumbas[5] ou em turismo sobre rodas? - Metralhei-o, logo logo, com perguntas.
- Yá. Vim numa formação. É preciso nos aperfeiçoarmos. Estou já há umas semanitas. - Defendeu-se.
- Yá. Tenho lido o teu diário, mas pensava que fossem escritos buscados dum baú recente.
- Pelos vistos estás a chegar... tens novidades literárias?
Mal começamos a falar sobre um dos aspectos que nos tornam umbilicais, a escrita e as publicações para Novembro, quatro carros da patrulha conjunta, entre fiscais e policias, pararam repentinamente colados a nós, com os "comandos" a pularem por cima dos zungueiros
[6] de saldo e mawanas[7] de sol. Parecia kitota[8] nos tempos do mano Barbudo ou rusga do luz-e-tano Poeira quando encheu as cadeias pidescas de revoltosos tunda mindele[9].
O resto da prosa, depois de minutos de separação, porque cada um de nós (mais ele do que eu que ando kasimbado
[10] nestas guerras de fiscais contra vendedeiras) fugiu para sitio diferente e distante para escapar daquele "assalto", foi apenas um chau apressado com o coração em alta rotação.
- Fidacaxa dos fiscais! Com as zungueiras até parece que fizeram curso de pular, puxar, apanhar coisas esquecidas ou caídas na fuga e guarda-las rápido e de caxexe
[11] no carro. - Atirou o puto Sofrimento Moderno, também conhecido no aeroporto por SM, que obteve o contributo de um colega de desgraça:


- Yá. Tipo nada. Mwadyé
[12] distraído pensa que não houve nada. Tipo guerra relâmpago do Adolfo da Alemanha quando queria reino mundial de mil anos. Mas "lhe" saiu pela culatra.
 - A quem é que entregam as coisas kasumbuladas na rua? - Perguntou ainda uma mana, Belita nome dela, enquanto limpava a nova ferida do encontrão que teve com uma arca antiga de vender bebidas.

Resposta, ninguém só lhe deu e vai ficar toda a vida com a raiva dela sempre que olhar para a cicatriz.

Os magalas a exibir banga[13], pareciam que treinaram comandos no Cabo Ledo para irem metralhar os carcamanos[14] reaganistas-malanistas e seus  apaniguados mwangolês[15] no Kwitu Kwanavale de 1987.

- Fidacaixa! Força deles é só com os zungueiros de cuecas, saldo, magoga[16], fio dental de mulher que quer já já e mawanas de sol. No tempo em que barbudo nos intimidava eram capazes até de andar com a cauda entre a muxaxala[17]. Cambada de gregos! - Raiva de Miguelito era grande que nem mesmo o desabafo carregado de alguma malícia atenuou a força da pedra que aquela acção lhe calcou no coração.

 
Quem também lhes xingou, com todos os verbos, tempos e modos, foi Mariquinha que viu entornada a sua bancada de magoga e "bebe-me-deixa"
[18].
- Com grego igual não torram farinha. -Atirou. - Por que não vão ainda se medir capacidade com os gregos do Sambila, do México, do Sete e Meio, do Ngwanhã, dos Ossos, do Saber Andar, da Fubu e doutras bandas onde a polícia é quem bate continência aos bandjus? Gregos de meia tigela, mazé pá! Quando o Barbudo nos ameaçou empurrar o comboio com os beiços andaram aonde? Me totolei
[19] só no pé!
E eu, repleto de vivências, mochila nas costas, pé no ngwimbu
[20] para soltar ao vento o que meus olhos viram e meus ouvidos registaram. Saí voado!




[1] Bairro de Luanda; areal (grafia kimbundu).
[2] Calão de Luanda; alusão à capital de Angola.
[3] Aprendizagem; ensino; curso (kimbundu).
[4]Devedor; calão de Angola.
[5] Trabalho (calão).
[6] Vendedores ambulantes; do kimbundu zunga=andar sem destino.
[7] Óculos de sol (calão).
[8] Guerra.
[9] Saiam os brancos; alusão à luta pela independência (kimbundu).
[10] Calejado (calão); alusão a quem tem muitos kasimbus (anos) de ofício.
[11] De soslaio.
[12] Individuo (calão).
[13] Estilo; exibicionismo.
[14] Assim eram designados os invasores sul-africanos no tempo da guerra em Angola.
[15] Angolanos (calão).
[16] Sandes.
[17] Entre as nádegas.
[18]Refrigerante em PET de meio litro.
[19] Tropecei; bati (kimbundu).
[20] Nuca (calão).