terça-feira, 1 de agosto de 2023

COMO KATAKO PROVOU DEJECTOS

Há muito venho tentando narrar esse conto. Fogem-me, porém,  sempre que tento, palavras para dar forma à ideia. Vou tentar:
Já era tarde. O sol corria dorminhoco para o descanso habitual, lá pela zona da Baia Farta. Mirando para as colinas, o que os olhos enxergavam era uma cortina acinzentada, trazendo dúvida se era nevoeiro ou poeira de areias levantadas e transportadas pelo vento bravo da corrente fria de Benguela.
- Aqui, neva água miúda e neva areia! - Costumam informar os mais velhos aos visitantes que levam guarda-chuva em vez de chapeu e óculos.
Corria ainda o ano de 1977. O mês era o do fim da chuva e, no deserto, já o capim cor-de-sol tomava conta do vasto verde que, há pouco, tinha proporcionado festas sem fim às borboletas e outros amantes da vida farta.
Nascido numa família de nómadas que se haviam sedentarizado, apostando na agricultura e pecuária, mas com forte pendor ainda na caça e recoleção, Katako era um adolescente normal como os demais do seu tempo, porém, espevitado e dado à caça. Era capaz de atingir com a sua lança um leão a 50 metros! Dizia-se à boca pequena.
Certa vez, andando pelo deserto, Katako, açoitado por uma revolução intestinal, abeirou-se de uma carcaça de viatura deixada abandonada por um cokolonya¹ fugitivo e, mais tarde, descaracterizada por populares que, em vez de usufruirem da sua potência e raridade, preferiram rasgar-lhe os pneus para os londindi² e a chaparia para as flexas e panelas.
"Uma fortuna em mãos ignorantes que se fez merda", diria o professor de Katako, Carlos Kakonda, olhando para o HP que num passado recente desafiara as mais movediças areias do milenar deserto do sudoeste africano.
Encostado ao que fora a porta esquerda do bólide e, equanto se descartava do bolo alimentar, Katako sentiu uma picada de insecto junto à zona de descarga fecal.
- Será kisonde?!³ - Gritou em meio à dor duplicada.
Tentou confirmar, mas falhou o alvo e o dedo voltou adubado.
- Porra! - Exclamou.
Pensou na água rara e folhas arbóreas ausentes. Como livrar-se de eventual acidente?
A orientação mental mandava-lhe coçar a zona do glúteo afectada. Não podendo confirmar sem ver ou cheirar, levou o dedo indicador direito ao alcance do nariz que lhe relatou o conteúdo e seus dias de fermentação.
Era verdade. Tocara na merda. Agastado consigo mesmo, Katako sacudiu o dedo para que aquela bola nauseabunda se apartasse do dedo. Teve, porém, o azar de o dedo tocar numa lâmina da sucata, fazendo um corte no polegar que sangrava avermelhado.
Aflito e recorrendo instintivamente a uma prática secular, Katako levou o dedo à boca para estancar o sangue que corria a jacto, vindo a saber-lhe a hemolinfa e excremento. O dedo que visitara a pocilga tinha adentrado a boca!
=
¹- colono
²- alparcatas.
³- formiga brava.


sexta-feira, 30 de junho de 2023

UM FANTOCHE NA FARRA

 

Havia semana e meia que o espião terrorista estava misturado entre as gentes, comendo e bebendo com eles, ouvindo as conversas, indagando e sendo respondido e, sobretudo, tomando as notas, corrigindo o "tiro" e planificando novas vias de entrada e saída.

O movimento e movimentação regular de tropas republicanas levavam, às vezes, as pessoas, até os mais avisados e treinados pela herdeira da pide, à desatenção, fazendo com que os espiões "terroristas", fardados com uniforme republicano ou à paisana, penetrassem em surdina e se instalassem entre a população.

Sorte madrasta teve o Nuryeji. Vivia a sua segunda semana no Dundo, de bar em bar e de festa em festa. Exibindo, às vezes, o seu walkie talkie, era um pequeno mwata aos olhos dos incautos convivas, pagando cigarros, walwa e chafurdando o que podia.

A cidade, abastecida de géneros alimentares pela empresa kamanguista, era das mais importantes e recebendo dirigentes da capital e de urbes vizinhas a sul, sudeste e sudoeste. Até os do Comité Central, que politicavam na grande avenida das heroínas e do carro de assalto, mandavam requisições disto e daquilo.

Por essa altura, os terroristas faziam já "visitas" de sabotagem em quase todos os projectos, roubando comida, danificando o transporte de energia e apossando-se de bilhas de concentrado. Estávamos a viver a década de oitenta do século XX. Já tinham surpreendido e neutralizado a guarda e a gestão de um projecto, queimando um Hércules que pousara carregado de comida e sobressalentes.

Um dia, conto a estória dos "escapes rotos" por causa das bebedeiras dos terroristas que confundiram vinagre com vinho branco. Leram vino. Era italiano. Bastou beberem-no com gula de kaporroteiro sedento para diarreiarem dias e noites sem tréguas.

O terrorista Nuryeji estava camuflado numa festa da cidade. As pessoas conheciam-se e os civis toleravam os militares. Ninguém conhecia o terrorista. Por isso, alguns olhos, na festa, estavam postos nele, embora, treinado, se calhar, na bófia israelense, fosse de poucos falares e comedidos movimentos corporais.

Foi que uns akwenze decidiram dar-lhe de beber.

- Beba Camarada, não se acanhe!

Entre a indelicadeza que podia acirrar as desconfianças e a aceitação, o terrorista preferiu a segurança.

Meio copo, mais um copo, mais copo e meio, até que a bebida lhe aqueceu o corpo, ao ponto de meter-se na batucada, à roda dançante do cinguvu e ngoma ya phutu.

À medida que se ia contorcendo, com aquele dançar estranho que borrifava as noites sunguradas de Likwa, as calças do fantoche foram subindo e as peúgas exibindo o macho da galinha.

Alguém atento soltou aos ventos "fantoche na roda!" Instalou-se grande algazarra.

- É fantoche!

- Agarra fantoche, prende fantoche, mata fantoche!

Bem tentou ainda dar um pulo e marcar alguns passos para se desfazer na mata que era a sua predilecta cidade. Porém, os homens em todos os lados fizeram-se floresta e cumpriu-se a sentença:

- Amarra fantoche, prende fantoche, mata o fantoche!

Caído em desgraça, toda a sua vida e conexões foi, depois, exposta pelas vozes que desfilavam na frequência do walkie talkie disfarçável que levava preso à cintura.

Passaram semanas, meses, se calhar, e não se falou em todo o nordeste de outra coisa que integrasse a estória daquele fantoche apanhado na farra.

Publicado pelo Jornal Cultura a 16.03.2022

quinta-feira, 1 de junho de 2023

CÃO SEM DONO vs CÃO COM DIREITOS HUMANOS

IMBWA YAKAMBE NGANA[1] 

 

Já fiz óbito e enterro digno de um cão. Eu era criança ainda no final dos anos setenta do século passado. 


Dias sim, semanas sempre, Dona Maria, amável mulher do sô António, vinha pôr conversa, durante toda a vida do Atenção, tentando estorvar que o canídeo tivesse vida humana. 


_Mas ó minino, num faz isso. Comer com o cão ou lhe dar cuspo para te gostar não é coisa de gente, não. É coisa de bicho que se iguala ao cão. - Atirava ao ver-nos amistosamente envolvidos com o Atenção ou mais tarde com o Tigre, cão que o nosso pai dizia "é cão saído da Baia com o mesmo nome que fica no deserto do Namibe"

_ Pode me chamar "sô meu cão-de-merda", mamã. O Atenção é nosso amigo. Coelho que caça, põe saliva dele na ferida e a mamã come também. Então, mamã, já viu nê? – Respondeu Phande-a- Umba argucioso. 

_ Já viu o quê? 

_ Cuspo de cão Atenção não é veneno. Veneno é só daqueles cães-vadios que não tomam banho, nem comem no prato como o Atenção que é nosso amigo. - Retorquiu resmungão Phande a Umba, redobrando as carícias ao canídeo. 

_ Ai, ê? continua mesmo respondão, sô mô bicho. Ó Sô António, estás a ouvir o teu filho, nê? Depois não me venham cá com kikonya [2] ou outras complicações. Cão que põe boca na porcaria é que você lhe lambe os beiços, assim mesmo está bom? Fala ainda pra tô pai ouvir. Assim está bom, sô mo cão. - Dona Maria levantava o tom de voz para despertar a atenção do marido que concertava as alparcatas para meter-se no mato para mais uma visita às suas armadilhas.  

 

A conversa com pícaros desafiadores e argumentos contraditórios levava tempo. Aliás, era conversa de todos os dias da vida daquele cão. Sô António atento ao que se discutia e sendo ele também bastante afetuoso para com o Atenção, preferiu pôr fim à contenda, chamando pelo filho. 

 

_ Phande! 

_ Papá. 

- Vem cá. Aprende a ser homem e deixa de discuti com a tua mãe. - Ordenou Sô António ao filho. 

_ Papá não fiz nada de mau. É mesmo a mamã que stá a se metê comigo e com o Atenção. – Phande procurou defender-se antevendo uma reprimenda.  

_ Põe corrente no Atenção. Procura salamba[3], calça quedes e vamos. Larga-lhe apenas quando transpusermos a aldeia para não se entreter com as cadelas vadias do sô Jacinto _ Recomendou em voz firme. 

_ Está bem papá. 

Foi momento de júbilo para Phande que rápido se equipou, metendo-se a cantarolar. Cesto às costas, catana na mão direita e Atenção puxado pela esquerda, seguiu atento ao que o pai foi explicando, enquanto Atenção começava a farejar os odores deixados, madrugada recente, pelas pacas, coelhos e ngulu ya muxitu[4]

O dia era ainda criança. Sol não havia. Apenas uma bola que podia ser amarela e quente ou ofuscada pelas nuvens que viajavam na boleia do vento. Dona Maria estava dividida também. Metade de atenção à panela que cozia a batata do mata-bicho e outra metade na Júlia que chorava.  

- Ainda bem que o Sô António chamou o chato do Phande e o seu Atenção. Ao menos, com o pai, aprende a ser pessoa. – Disse para si mesma.  

O ano dessas conversas perdeu-se na memória. Sei que nem eu, nem o Phande andávamos ainda na escola. A contagem das coisas que sabíamos era só mesmo moxi, yadi, tatu, wana[5]. Estávamos ainda em Kitumbulu, fazenda do Sô Fernando, pai do nosso pai. 

Atenção era um pastor alemão, exímio caçador. Um alemão agropecuário na região, entre os potentados de Kuteka e Thumba, ofertara o canídeo ao meu progenitor. 


Atenção ia sozinho à caça e arrastava o animal até à casa. Quando não pudesse fazê-lo, parava e ladrava até que Sô António fosse ajudá-lo.

Certo dia, Atenção foi à caça e cruzou com uma onça. Atenção lutou valentemente. Voltou muito maltratado e dos ferimentos não resistiu. Fizemos-lhe um thambi[6] "de pessoa". Foi a minha primeira experiência.
Depois o Sô António, comprou o Tigre. Era preto, pelos lisos. Chamávamos-lhe "cão mulato". O Tigre também caçava quando integrando caravana humana. Não era caçador independente como o Atenção, mas era melhor do que outros cães vadios da aldeia que só sabiam comer.  

 

Quando o Tigre morreu, de velhice ou doença já não me lembro, eu contava uns seis anos e participei mais activamente no seu enterro. Não teve urna como o Atenção, mas foi envolto em cobertor e lançado em uma cova com um metro de profundidade. Phande e eu ficamos em grande comoção e nesse dia ninguém comeu.

Essas estórias repudiam o tratamento indigno que se vem assistindo aos que ainda são conhecidos como "melhores amigos do homem", lugar que vão, nas cidades, perdendo para o telemóvel.


Cães abandonados, aparentemente sem dono, alimentando-se no lixo, sofrendo pedradas de "meninos também sem família". Quando enfermos ou mortos por doença ou atropelamento, apodrecem nas estradas até à decomposição total. 

 

Certa vez, uma avó, já tão farta de ver tanto cão morto nas estradas, gritou com toda a força que lhe restava no corpo.
 

_ Quem não consegue cuidar cão que não compre/receba, mesmo que seja de oferta!  

Acho que a vovó tinha razão. Quem decidir ter cão que faça como Sô António e seus dois filhos. Eles não deixavam o Atenção e o Tigre comer alimento cru e quase se faziam à mesa com os donos.  

Dona Maria, hoje já velha, ainda se recorda e conta para os netinhos que “o Tigre e o Atenção foram cães com direitos humanos” porque, não podendo sentar-se à mesa com os donos, comia à mesma hora que eles! 

Publicado pelo Jornal de Angola de 12.06.2022

[1] Cão sem dono 

[2] Doença respiratório (do Kimbundu) 

[3] Cesto feito de junco ou fibra de palmeira para transporte de animais de pequeno porte ou carne limpa, depois de uma actividade de caça (do Kimbundu). 

[4] Porco do mato, javali (do Kimbundu) 

[5] Um, dois, três, quatro (do Kimbundu) 

[6] Óbito (do Kimbundu) 

 

quinta-feira, 25 de maio de 2023

PISTAS PARA A HISTÓRIA - KITOTAS: RECUOS E AVANÇOS - UM LIVRO DE MEMÓRIAS

 Discurso de apresentação

                                     Edmira Cariango Manuel [i]

Excelências,

Minhas senhoras e meus senhores,

Respeitosos cumprimentos!

Expresso a minha gratidão em nome do Movimento Litteragris e em meu nome. Coube-me a honra de tecer notas em jeito de leitura crítica a este livro de Soberano Kanyanga, que tendes em posse.

Este livro reúne um conjunto de memórias de uma época de guerra (a civil) e mostra, a partir de um discurso subjectivo, sem preocupações normativas próprias da actividade investigativa, marcas de vários homens e mulheres em lugares variados, maioritariamente na parte sul, que tiveram dias de recuo, que nesse livro são muitas vezes denominados por “recuados”.

São relatos não ficcionais que anotam actos que, à luz dos Direitos Humanos, constituem violação à integridade de pessoas, relatos que cumprem hoje parte da tarefa de pacificação através de expurgação da memória:

“A primeira vez que a guerra chegou aos meus ouvidos foi em 1983. Povos recuados da Kisala e cercanias chegavam com manadas de bois. Descansaram dias ou mesmo semanas na antiga Fazenda Israel, onde havia tanques para o abeberamento e banho dos bovídeos. Porém, a devastação das lavras dos aldeões locais, a inexistência de pastos preparados para o efeito e a proximidade do asfalto tê-los-á levado a procurar por outra área que já teve a mesma serventia”. (p.11)

Na sua estrutura, podemos encontrar títulos como: Ngela aos meus ouvidos; Velho Trinta; Segundo Recuo; Kitota na Munenga; Estórias do Musexi e Kanzangiri; Conversas que Kwachas impediram; Evolução com fuba e peixe frito; Classes que bisei; Segundo ataque a Kalulu; Bicesse e funguta a todo terreno; Bala na câmara, mãos ao ar; cárceres e bailes; Emboscado em Kasanji; Moda de russos e cubanos; Agarrem o Anti motim;

Insere-se assim no conjunto de apontamentos de guerra que cada angolano se predispõe a registar como contributo para a história que se reconstrói continuamente com estudos, testemunhos e o com a ficção literária. 

Dominado pela linguagem corrente com alguns chavões, com títulos em anexo tais quais: O Kwitw depois do cerco; Memórias do Moxico e da paz; Memórias de repórter; Tinta, cimento e novo rosto; Reviver o acordo de paz do Lwena.

São no total 20 textos, cinco dos quais anexados, fazendo da obra uma estrutura composta de duas partes.

É de notar que em termos de matéria histórica, essas memórias oferecem pistas para futuros pesquisadores sobre lugares do Kwanza-Sul, que não podem ser confundidas como um livro de pesquisa histórica.

São indicações que podem ser úteis, exemplo a nota sobre o cerco do Kuito, uma matéria com escassa pesquisa e em construção, que pode ser uma nota importante para aqueles que buscam pela história, adolescentes podem aproveitar para começar uma trajectória de busca pela história dessas localidades.

Sobressai nos conteúdos dessa obra a pista sobre a necessidade de controle dos perímetros minados de Angola, a urgência da reforma dos solos, etc.

Tendo sido a guerra civil uma soma de perdas, ceifa de vidas e tantos recuos, o caminho da reconciliação é extenso. Há muitos danos por se rever continuamente, tanto no solo (terra) quanto no subsolo da memória, o id dos angolanos...

Vários autores anotaram nos seus trabalhos as consequências da guerra civil: (…) órfãos à deriva, desconfiança crónica entre os patrícios e outros recuos. Porém, Kitotas, recuos e avanços representa uma tentativa, o esforço de participar na busca pela reconciliação. Isto, uma marca de avanço.

Finalizando as minhas notas, deixo algumas recomendações:

Edmira Cariango
Edmira Cariango

Que se trabalhe numa edição mais normativa e um pouco mais legível em termos de disposição dos textos e a sua representação gráfica. Talvez seja uma boa ideia adaptar o formato para livro de bolso.

Tratando-se de memórias, o autor tem a liberdade de recorrer a termos sem precisar destacá-los por pressuposta ambiguidade que podem acarretar. A ficha técnica deixa outros intermediários sem ferramentas completas de busca, que convencionalmente são representados, não apenas pelo título e data, mas também pelo número de depósito legal e de catalogação internacional, este não rigidamente requerível, mas que se deva respeitar. Porém, o registo de depósito legal é requerível, pois salvaguarda também a documentação e o melhor controle do que se vai produzindo. Não queira o autor estar à margem disso.

Aproveito também expressar que o acto de reconciliar e pacificar requer uma predisposição da parte de todos, opressores e oprimidos, em aceitar a história e o passado como algo que deva ser expiado e consumido pelos ideais renovadores do presente a fim de se olhar para o futuro e traçar nele as constantes reformulações.

Agradeço a atenção dispensada, pacificar a minha gratidão em nome do Movimento Litteragris e em meu próprio. Parabéns ao autor e à sua equipa! 

Votos de boa leitura!

________________

[i] Ensaísta

terça-feira, 9 de maio de 2023

SOBERANO KANYANGA COM NOVA OBRA LITERÁRIA

 Soberano Kanyanga com nova obra literária - ANGOP

     Cultura Luanda     Segunda, 08 Maio De 2023    20h36  
Novas instalações do Ministério dos Recursos Minerais, Petróleo e Gás
Pedro Parente-Angop

Luanda -O escritor angolano Soberano Kanyanga lança, a 26 deste mês, a sua nova obra literária denominada “ Kitotas: Recuos e Avanços“ (nas instalações do MIREMPET).

A obra, em crónica, aborda as peripécias vividas em tempo de guerra no Libolo (Cuanza Sul), até a assinatura dos acordos de paz, em 2022.

Em declarações à ANGOP, o escritor avançou ainda que a obra, cujo lançamento está marcado para a sede do Ministério dos Recursos Minerais, Petróleo e Gás, retrata três periódos da sua vida, nomeadamente dos 8 aos 10, dos 13 aos 16, numa leitura simples de assuntos verdadeiros e que podem ser elencados como literatura complementar da história recente de Angola.

"Desta vez não é ficção e as pessoas citadas com nomes de registo oficial, nomes de guerra ou de casa (nas aldeias temos nomes de casa e nome da escola) estão muitas ainda presentes. 

Conforme o autor, apesar de ainda "quase jovem" decidiu trazer as memórias em livro, pois a vida é curta e os miúdos de hoje, a começar pelos seus filhos e sobrinhos, acham determinadas narrativas verdadeiras como se de ficção se tratasse. 

O escritor esclareceu que esta obra vai contribuir para que a nova geração saiba de facto preservar a paz.

“A guerra comeu pessoas e não capim. A paz deve ser preservada e, no universo da triste história de guerra civil, quem fez o quê ou quem esteve em que lado, é necessário conhecer os factos nus e crus, para que a juventude se possa guiar no futuro", reforçou.

Para o escritor, os jovens de hoje, os nascidos depois da "paz do Kamorteiro" agem de forma muito emocional, fazendo apelos à rebelião, à guerra como se fossem assistir a um filme.

"É um livro com uma média de 80 páginas. Pequeno em volume rico em conteúdo. São trechos de tempo vivido e trazido à prosa", avançou.  

Apelou aos leitores, principalmente aos jovens, que leiam, comentem e partilhem o que conseguirem reter e saibam o quanto custou a paz e quanto se deve esforçar para preservá-la.

O escritor Luciano Kanyanga tem nove obras literárias já públicas, nomeadamente O Sonho de Kauia (2010), Manongonongo (2011), 10 encantos (2012), O relógio do Velho Trinta (2014), O caçador de pirilampos (2014), Canções ao vento (2015), As travessuras de Jack (2017), Amor sem pudor (2018). FMA/VM

sábado, 1 de abril de 2023

QUANDO ZEZUS SE JUNTA AO MÚSICO

Era Kasimbu (cacimbo). No Reordenamento do Rangel, Mangololo tinha um descampado que juntava anos, se calhar décadas, sem uma capina sequer.

Como se aquilo parado lhe desse dinheiro, passava dias sim, semanas sempre, debaixo do arvoredo, contando os aviões que sobrevoavam o bairro e matando kas(s)umuna também.
Quando se ausentava, os cabritos todos do bairro faziam-lhe a vez, pastoreando, e fazendo do rossio um logradouro colectivo e campo para o futebol dos anandenge.
Por razões que apenas disse "familiares e urgentes", Mangololo se tinha ausentado por largas semanas.
Ninguem sabia aonde fora, tirando a mulher e o Kavumbu, amigo dele "das confianças".
À chegada, regado de primeiríssima da Ki(s)ama, Mangolo foi tomado por um misto de alegria e dor.
O terreno devoluto estava transgormado em um autêntico campo, sem relva e sem vida que tinha aos olhos do dono.
E, de espanto em espanto, Mangololo não tinha medida para surpresas. Até Kandonika, a mulher, que, "na hora do vamos ver", interjectava "ai mô homi", estava a verbalizar "ai Zezus, ai Cristo!".
Será que o melhor do Petro Atlético e o músico tiraram uma peladinha no campo dele?
Voltou à Ndemba Xiu, Kis(s)ama, para procurar pela casa de adivinho secular.
Será que você o ajuda a esclarecer o que terá acontecido?
Mahezu, ngana!

quarta-feira, 1 de março de 2023

MANGODINHO EM 7 RIOS

Na banda, rio é rio mesmo de verdade, com caudal, margens, lodo preto, algas verdes, peixes com escama e sem escama, água que corre apressada, lenta ou estagnada e meninos que fogem de casa para fimbas desgovernadas. Já antes da viagem, Mangodinho, como é costume dele desde há muito tempo, foi ao seu Kuteka banhar no Longa.

Posto na estranja, passou pela capital da Tuga e foi alojado numa banda que dizem "tem sete rios".
- Porra! Sete rios duma vez? Deve ser kuyoso! - Exclamou.
Posto no sítio, adentrou o cimo do hotel para contemplar a paisagem e matar a curiosidade, emprestando os olhos ao deleite dos rios, um a uma, até sete.
A paisagem que lhe era oferecida aos olhos pela envidraçada janela mostrava apenas colinas altas e arborizadas. Uma rua impunha-se, como tanga, no meio de prédios altos e adornados.
- Deve ser pelo lado oposto, o da estação de comboios. - Pensou.
 Mangodinho é viciado em obra. "Está a pensar, está a agir". Meteu-se a caminho do ponto inverso que o obrigou a deixar o hotel e adentrar a estação de comboios.
Entre contemplação e meditação, entreteve-se com o chegar e sair de comboios, uns encarnados e outros amarelos. Só faltou o preto para compor as cores da sua predilecta bandeira.
Começou pelo ponto mais alto e foi descendo os três ou quatro andares que separam comboios autocarros e metropolitano em mesma estação.
- Porra, esses gajos estão noutro patamar. Mas não vão me dizer que os sete rios estão escondidos no underground.
Toalha no ombro e sabão em uma das mãos,  abeirou-se a um jovem africano que lhe parecia jovem da banda.
- Epá, comuê, fixe!
- Pois é! Diga lá. Posso ajudar?
- Estou a procura dos Sete rios.
- Sete rios é mesmo aqui.
- Sim, mas não vejo rio nenhum. Sabes onde é que se banha?
Julgando-o a "estagiar", o jovem portuga evaporou do lugar, correndo em direcção à loja de conveniência.
- Porra, esses gajos ainda são um pouco matumbos. Comuê que escrevem sete rios, se nem um desfiladeiro de água pluvial há?! - Soliloquiou Mangodinho, voltando ao hotel, cansado e aborrecido. Afinal, Sete Rios é só nome. Não há banhos em praia fluvial, nem pesca, nem travessias à canoa como no Longa ou Kwanza!

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2023

ATENTADO AO PUDOR NO DESFILADEIRO DO AMOR

O boné policial estava esquecido na ponta de um arbusto cortado para alimentar fogueira e cuja cercania guardava a descarga intestinal de alguém que na véspera se alimentara de milho.

Sa Ufuku caminha à frente dos filhos e sobrinhos, em coluna, apesar de poderem andar aos pares. Cimene-mene, o filho kasula, foi quem viu o chapéu.

_ Apanhar não é roubar gritou, fazendo atenção de se dirigir ao achado, que estava a metro e meio da picada.

_ Xé! Toma cuidado. Não sentes o cheiro que vem da mata? Deve haver aí qualquer azar. Deixa o chapéu e vamos embora. Está a nascer sol. _ Alertou o ancião, tentando despistar o filho de uma desgraça. 

_ Deve haver cadáver por perto- _ Pensou sem o dizer.

Traquina, Cimene-mene, fazendo descaso do aviso do velho, deu um salto e pegou o boné.

_ É meu e ninguém me recebe.  _Alertou.

_ É da polícia.  _ Disse-lhe o primo Lwanya.

_ Então deve acontecer qualquer coisa estranha aqui. Assim o autor dessa pouca-vergonha é polícia?! Vou apresentar queixa na esquadra. _Desabafou Sa Ufuku, endireitando o cachimbo na boca.

O desfiladeiro do amor, caminho que trilhavam, é uma linha longitudinal de 2,5m de largura. Foi assim apelidado pelos jovens que o frequentam para seus namoricos longe dos pais e dos incómodos da polícia, que proíbe aventuras amorosas em viaturas nessa zona.

O desfiladeiro parte da Estrada Nacional para sítio incerto. A única certeza que se pode inferir é a de que ele não atravessa o Lwacimu que se apresenta à sua frente, numa distância de três a quatro quilómetros. O rio rosna cansado de tanta caminhada solitária ainda pela frente e de tanto desrespeito que tem de aturar até se afundar no Kasay que o

morre no Nzadi e este no grande Kalunga-Lwiji. Pelo percurso deixa lágrimas e alegrias. Leva detritos também e aos magotes.

No desfiladeiro do amor, lebres e humanos revezam-se na permanência e nos actos procriativos. Os primeiros mais ao estilo e ambiente natural. Os segundos encapuzados pela noite e pela distância. Estes, trancados em máquinas rolantes, embaciam vidros na noite fria de Agosto e, mesmo com fome de carne, não se entregam à vontade de caçar carne tenra de lebre nutrida. Afinal, é carne fresca que levam consigo, nas viaturas de luxo cedidas pelos patrões. Nessa paz amorosa, lebres e láparos ainda trôpegos dão azo aos seus zigue-zagues banhados pelas luzes que se perdem no matagal nordestino.

As orgias são nocturnas, assim como as lebres são noctívagas, e acontecem longe dos olhares da polícia que só de vez em quando, ao meio do mês e ao final de semana, quando o pão e a gasolina se tornam raros, se dirige ao desfiladeiro para surpreender alguns incautos apaixonados, negociando a soltura daquilo que no dizer dos homens da farda azul é «motivo de prisão imediata».

É assunto ocorrido na mata e tudo deve ficar resolvido aqui mesmo, concorda-se previamente.

_ Aceito a proposta, senhor polícia. Só discordo da inoportuna visita, quando estava já na hora «H». Pior que tudo é ter-me estorvado e por cima me aplicar multa. Onde é que já se viu isso? _ questiona o desfilador.

_ O senhor atentou à moral pública...

_ Moral pública?! Como assim?! _ É moral pública sim e o senhor não tem nada que reclamar. Essa é uma via pública, construída para as pessoas passarem e não um sítio de imoralidade.

_ Namorar é imoralidade?! O senhor não namora?

_ Ó senhor, haja respeito. Eu tenho mulher e não sou como o senhor que deve estar com uma miúda que não é sua senhora.

_ Senhor polícia, respeito-o e exijo o mesmo respeito. Primeiro, é que a via é privada. É do dono do terreno da quinta que deve existir lá mais adiante. Segundo, o senhor vai ter de me provar que a menina não tem compromisso comigo. Terceiro, o senhor mente quando diz que não namora, porque mesmo com as senhoras lá de casa também se namora.

A equipa do autuante continuava na viatura de carroça aberta, a espera do produto da caça. Uns aproveitavam fumar, enquanto um outro se tinha metido na mata, se calhar, para se desfazer da comida triturada pelo estômago.

E o debate prosseguia entre os dois homens.

_ À noite, aqui só passam lebres, senhor polícia. _ Argumentou o desfilador.

_ Então é atentado ao pudor. – Sentenciou o agente, já com os documentos do autuado no bolso da sua farda desbotada e a reclamar substituição, para forçar a «gasosa ou o «saldo».

_ Discordo senhor polícia. Pudor das lebres ou dos colegas frequentadores do desfiladeiro para o mesmo fim que me trouxe? Isso que está a fazer, senhor agente, é ilegal e sem respaldo na lei.

-_ Ai é? Queres evocar lei aqui? Então vamos à esquadra. _ Ameaçou o agente.

_ Como é que vamos à esquadra se fizemos um pré-acordo para resolvermos aqui mesmo o assunto por ter ocorrido na mata e à escuridão?

_ Então passa a «gasosa» e não se fala mais no assunto. Olha que somos quatro na patrulha!

Joca pôs a mão debaixo do assento e sacou um saco com refrigerantes. Por sorte, eram mesmo quatro as latas que comprara antes de se fazer ao desfiladeiro.

_ Estão aqui, chefe! Como o senhor pediu, estão aqui as gasosas. São quatro e mais duas águas.

Sem contra-argumentos, Kamosu encaixou o golpe do espertalhão do autuado (não contava com essa de gasosa de gasosa mesmo), pegou no saco, abriu uma delas e provou-a. Estava ainda fria e engoliu-a toda, num só trago. Quase a engasgar-se, bateu-se no peito e soltou um muxoxo.

_ Porra, pá! Por que é que não me disseste que estava muito gelada? Se a gripe me pegar vais aumentar na multa. _ Voltou a ameaçar, algo sarcástico. Em seguida, jogou o saco à patrulha e, mãos no bolso, devolveu a carta de condução.

_ Boa continuação e volte sempre. _ Despediu-se, engatando marcha inversa até à boca do desfiladeiro.

_ Volte sempre?! Esses gajos pensam que sou o multi-caixa deles? Sacanas, desta vez bateram na rocha: quer gasosa, leva gasosa! _ Disse, algo inchado com a proeza, à companheira, que já tinha largado um mar de lágrimas.

A intrusão policial fora para Joca e Cajó um balde de água na fogueira.

_ Tudo estragado, possas, pá! _ Atirou o desfilador, furioso com a «mota que (já) não pegava».

No dia seguinte, sábado da lavoura para os funcionários públicos e para os aldeões das redondezas, seria recomposta a cena em várias versões pelos caminhantes que se deparariam com os trilhos e o sémen asfixiado nos preservativos espalhados pelo sítio.

_ Isso é que é atentado ao pudor! _ Desabafou Sa Ufuku, dirigindo-se com o boné policial à esquadra da aldeia para tirar satisfações ao comandante.

_ O povo confia na polícia para acabar com a pouca-vergonha, mas a própria polícia, afinal, também se mete lá? Isso é atentado à moral, senhor comandante! - Rematou Sa Ufuku, sem nada mais dizer.