Depois de mês e meio na estranja, a comer saladas, caracóis e sóis que nem um boi, Mangodinho estava já naquela fase de ignorar os mendigos que enfeitam Lissabone e a coleccionar moedas para a janta.
Nesse espaço LITERÁRIO a sua crítica é muito BEM-VINDA. = ® Reservados todos os direitos ao autor deste Blog =
domingo, 17 de setembro de 2023
O OCTOGENÁRIO DE AREEIRO
terça-feira, 1 de agosto de 2023
COMO KATAKO PROVOU DEJECTOS
sexta-feira, 30 de junho de 2023
UM FANTOCHE NA FARRA
O movimento e movimentação regular de tropas republicanas levavam, às vezes, as pessoas, até os mais avisados e treinados pela herdeira da pide, à desatenção, fazendo com que os espiões "terroristas", fardados com uniforme republicano ou à paisana, penetrassem em surdina e se instalassem entre a população.
Sorte madrasta teve o Nuryeji. Vivia a sua segunda semana no Dundo, de bar em bar e de festa em festa. Exibindo, às vezes, o seu walkie talkie, era um pequeno mwata aos olhos dos incautos convivas, pagando cigarros, walwa e chafurdando o que podia.
A cidade, abastecida de géneros alimentares pela empresa kamanguista, era das mais importantes e recebendo dirigentes da capital e de urbes vizinhas a sul, sudeste e sudoeste. Até os do Comité Central, que politicavam na grande avenida das heroínas e do carro de assalto, mandavam requisições disto e daquilo.
Por essa altura, os terroristas faziam já "visitas" de sabotagem em quase todos os projectos, roubando comida, danificando o transporte de energia e apossando-se de bilhas de concentrado. Estávamos a viver a década de oitenta do século XX. Já tinham surpreendido e neutralizado a guarda e a gestão de um projecto, queimando um Hércules que pousara carregado de comida e sobressalentes.
Um dia, conto a estória dos "escapes rotos" por causa das bebedeiras dos terroristas que confundiram vinagre com vinho branco. Leram vino. Era italiano. Bastou beberem-no com gula de kaporroteiro sedento para diarreiarem dias e noites sem tréguas.
O terrorista Nuryeji estava camuflado numa festa da cidade. As pessoas conheciam-se e os civis toleravam os militares. Ninguém conhecia o terrorista. Por isso, alguns olhos, na festa, estavam postos nele, embora, treinado, se calhar, na bófia israelense, fosse de poucos falares e comedidos movimentos corporais.
Foi que uns akwenze decidiram dar-lhe de beber.
- Beba Camarada, não se acanhe!
Entre a indelicadeza que podia acirrar as desconfianças e a aceitação, o terrorista preferiu a segurança.
Meio copo, mais um copo, mais copo e meio, até que a bebida lhe aqueceu o corpo, ao ponto de meter-se na batucada, à roda dançante do cinguvu e ngoma ya phutu.
À medida que se ia contorcendo, com aquele dançar estranho que borrifava as noites sunguradas de Likwa, as calças do fantoche foram subindo e as peúgas exibindo o macho da galinha.
Alguém atento soltou aos ventos "fantoche na roda!" Instalou-se grande algazarra.
- É fantoche!
- Agarra fantoche, prende fantoche, mata fantoche!
Bem tentou ainda dar um pulo e marcar alguns passos para se desfazer na mata que era a sua predilecta cidade. Porém, os homens em todos os lados fizeram-se floresta e cumpriu-se a sentença:
- Amarra fantoche, prende fantoche, mata o fantoche!
Caído em desgraça, toda a sua vida e conexões foi, depois, exposta pelas vozes que desfilavam na frequência do walkie talkie disfarçável que levava preso à cintura.
Passaram semanas, meses, se calhar, e não se falou em todo o nordeste de outra coisa que integrasse a estória daquele fantoche apanhado na farra.
quinta-feira, 1 de junho de 2023
CÃO SEM DONO vs CÃO COM DIREITOS HUMANOS
Já fiz óbito e enterro digno de um cão. Eu era criança ainda no final dos anos setenta do século passado.
_ Pode me chamar "sô meu cão-de-merda", mamã. O Atenção é nosso amigo. Coelho que caça, põe saliva dele na ferida e a mamã come também. Então, mamã, já viu nê? – Respondeu Phande-a- Umba argucioso.
_ Já viu o quê?
_ Cuspo de cão Atenção não é veneno. Veneno é só daqueles cães-vadios que não tomam banho, nem comem no prato como o Atenção que é nosso amigo. - Retorquiu resmungão Phande a Umba, redobrando as carícias ao canídeo.
_ Ai, ê? continua mesmo respondão, sô mô bicho. Ó Sô António, estás a ouvir o teu filho, nê? Depois não me venham cá com kikonya [2] ou outras complicações. Cão que põe boca na porcaria é que você lhe lambe os beiços, assim mesmo está bom? Fala ainda pra tô pai ouvir. Assim está bom, sô mo cão. - Dona Maria levantava o tom de voz para despertar a atenção do marido que concertava as alparcatas para meter-se no mato para mais uma visita às suas armadilhas.
A conversa com pícaros desafiadores e argumentos contraditórios levava tempo. Aliás, era conversa de todos os dias da vida daquele cão. Sô António atento ao que se discutia e sendo ele também bastante afetuoso para com o Atenção, preferiu pôr fim à contenda, chamando pelo filho.
_ Phande!
_ Papá.
- Vem cá. Aprende a ser homem e deixa de discuti com a tua mãe. - Ordenou Sô António ao filho.
_ Papá não fiz nada de mau. É mesmo a mamã que stá a se metê comigo e com o Atenção. – Phande procurou defender-se antevendo uma reprimenda.
_ Põe corrente no Atenção. Procura salamba[3], calça quedes e vamos. Larga-lhe apenas quando transpusermos a aldeia para não se entreter com as cadelas vadias do sô Jacinto _ Recomendou em voz firme.
_ Está bem papá.
Foi momento de júbilo para Phande que rápido se equipou, metendo-se a cantarolar. Cesto às costas, catana na mão direita e Atenção puxado pela esquerda, seguiu atento ao que o pai foi explicando, enquanto Atenção começava a farejar os odores deixados, madrugada recente, pelas pacas, coelhos e ngulu ya muxitu[4].
O dia era ainda criança. Sol não havia. Apenas uma bola que podia ser amarela e quente ou ofuscada pelas nuvens que viajavam na boleia do vento. Dona Maria estava dividida também. Metade de atenção à panela que cozia a batata do mata-bicho e outra metade na Júlia que chorava.
- Ainda bem que o Sô António chamou o chato do Phande e o seu Atenção. Ao menos, com o pai, aprende a ser pessoa. – Disse para si mesma.
O ano dessas conversas perdeu-se na memória. Sei que nem eu, nem o Phande andávamos ainda na escola. A contagem das coisas que sabíamos era só mesmo moxi, yadi, tatu, wana[5]. Estávamos ainda em Kitumbulu, fazenda do Sô Fernando, pai do nosso pai.
Atenção era um pastor alemão, exímio caçador. Um alemão agropecuário na região, entre os potentados de Kuteka e Thumba, ofertara o canídeo ao meu progenitor.
_ Quem não consegue cuidar cão que não compre/receba, mesmo que seja de oferta!
Acho que a vovó tinha razão. Quem decidir ter cão que faça como Sô António e seus dois filhos. Eles não deixavam o Atenção e o Tigre comer alimento cru e quase se faziam à mesa com os donos.
Dona Maria, hoje já velha, ainda se recorda e conta para os netinhos que “o Tigre e o Atenção foram cães com direitos humanos” porque, não podendo sentar-se à mesa com os donos, comia à mesma hora que eles!
[1] Cão sem dono
[2] Doença respiratório (do Kimbundu)
[3] Cesto feito de junco ou fibra de palmeira para transporte de animais de pequeno porte ou carne limpa, depois de uma actividade de caça (do Kimbundu).
[4] Porco do mato, javali (do Kimbundu)
[5] Um, dois, três, quatro (do Kimbundu)
[6] Óbito (do Kimbundu)
quinta-feira, 25 de maio de 2023
PISTAS PARA A HISTÓRIA - KITOTAS: RECUOS E AVANÇOS - UM LIVRO DE MEMÓRIAS
Discurso de apresentação
Edmira Cariango Manuel [i]
Excelências,
Minhas senhoras e meus senhores,
Respeitosos
cumprimentos!
Expresso a minha gratidão em nome do
Movimento Litteragris e em meu nome. Coube-me a honra de tecer notas em jeito
de leitura crítica a este livro de Soberano Kanyanga, que tendes em posse.
Este livro reúne um conjunto de memórias de uma época de guerra (a civil) e mostra, a partir de um discurso subjectivo, sem preocupações normativas próprias da actividade investigativa, marcas de vários homens e mulheres em lugares variados, maioritariamente na parte sul, que tiveram dias de recuo, que nesse livro são muitas vezes denominados por “recuados”.
São relatos não ficcionais que
anotam actos que, à luz dos Direitos Humanos, constituem violação à integridade
de pessoas, relatos que cumprem hoje parte da tarefa de pacificação através de
expurgação da memória:
“A primeira vez que a guerra chegou
aos meus ouvidos foi em 1983. Povos recuados da Kisala e cercanias chegavam com
manadas de bois. Descansaram dias ou mesmo semanas na antiga Fazenda Israel,
onde havia tanques para o abeberamento e banho dos bovídeos. Porém, a
devastação das lavras dos aldeões locais, a inexistência de pastos preparados
para o efeito e a proximidade do asfalto tê-los-á levado a procurar por outra
área que já teve a mesma serventia”. (p.11)
Na sua estrutura, podemos encontrar
títulos como: Ngela aos meus ouvidos; Velho Trinta; Segundo Recuo; Kitota na
Munenga; Estórias do Musexi e Kanzangiri; Conversas que Kwachas impediram;
Evolução com fuba e peixe frito; Classes que bisei; Segundo ataque a Kalulu;
Bicesse e funguta a todo terreno; Bala na câmara, mãos ao ar; cárceres e
bailes; Emboscado em Kasanji; Moda de russos e cubanos; Agarrem o Anti motim;
Insere-se assim no conjunto de
apontamentos de guerra que cada angolano se predispõe a registar como
contributo para a história que se reconstrói continuamente com estudos,
testemunhos e o com a ficção literária.
Dominado pela linguagem corrente com
alguns chavões, com títulos em anexo tais quais: O Kwitw depois do cerco;
Memórias do Moxico e da paz; Memórias de repórter; Tinta, cimento e novo rosto;
Reviver o acordo de paz do Lwena.
São no total 20 textos, cinco dos
quais anexados, fazendo da obra uma estrutura composta de duas partes.
É de notar que em termos de matéria
histórica, essas memórias oferecem pistas para futuros pesquisadores sobre
lugares do Kwanza-Sul, que não podem ser confundidas como um livro de pesquisa
histórica.
São indicações que podem ser úteis,
exemplo a nota sobre o cerco do Kuito, uma matéria com escassa pesquisa e em
construção, que pode ser uma nota importante para aqueles que buscam pela
história, adolescentes podem aproveitar para começar uma trajectória de busca
pela história dessas localidades.
Sobressai nos conteúdos dessa obra a
pista sobre a necessidade de controle dos perímetros minados de Angola, a
urgência da reforma dos solos, etc.
Tendo sido a guerra civil uma soma de
perdas, ceifa de vidas e tantos recuos, o caminho da reconciliação é extenso.
Há muitos danos por se rever continuamente, tanto no solo (terra) quanto no
subsolo da memória, o id dos angolanos...
Vários autores anotaram nos seus
trabalhos as consequências da guerra civil: (…) órfãos à deriva, desconfiança
crónica entre os patrícios e outros recuos. Porém, Kitotas, recuos e avanços
representa uma tentativa, o esforço de participar na busca pela reconciliação.
Isto, uma marca de avanço.
Finalizando as minhas notas, deixo
algumas recomendações:
Edmira Cariango
Que se trabalhe numa edição mais
normativa e um pouco mais legível em termos de disposição dos textos e a sua
representação gráfica. Talvez seja uma boa ideia adaptar o formato para livro
de bolso.
Tratando-se de memórias, o autor tem
a liberdade de recorrer a termos sem precisar destacá-los por pressuposta
ambiguidade que podem acarretar. A ficha técnica deixa outros intermediários
sem ferramentas completas de busca, que convencionalmente são representados,
não apenas pelo título e data, mas também pelo número de depósito legal e de
catalogação internacional, este não rigidamente requerível, mas que se deva
respeitar. Porém, o registo de depósito legal é requerível, pois salvaguarda
também a documentação e o melhor controle do que se vai produzindo. Não queira
o autor estar à margem disso.
Aproveito também expressar que o
acto de reconciliar e pacificar requer uma predisposição da parte de todos,
opressores e oprimidos, em aceitar a história e o passado como algo que deva
ser expiado e consumido pelos ideais renovadores do presente a fim de se olhar
para o futuro e traçar nele as constantes reformulações.
Agradeço a atenção dispensada, pacificar a minha gratidão em nome do Movimento Litteragris e em meu próprio. Parabéns ao autor e à sua equipa!
Votos de boa leitura!
________________
[i] Ensaísta
terça-feira, 9 de maio de 2023
SOBERANO KANYANGA COM NOVA OBRA LITERÁRIA
Soberano Kanyanga com nova obra literária - ANGOP![]()

Pedro Parente-Angop
Luanda -O escritor angolano Soberano Kanyanga lança, a 26 deste mês, a sua nova obra literária denominada “ Kitotas: Recuos e Avanços“ (nas instalações do MIREMPET).
A obra, em crónica, aborda as peripécias vividas em tempo de guerra no Libolo (Cuanza Sul), até a assinatura dos acordos de paz, em 2022.
Em declarações à ANGOP, o escritor avançou ainda que a obra, cujo lançamento está marcado para a sede do Ministério dos Recursos Minerais, Petróleo e Gás, retrata três periódos da sua vida, nomeadamente dos 8 aos 10, dos 13 aos 16, numa leitura simples de assuntos verdadeiros e que podem ser elencados como literatura complementar da história recente de Angola.
"Desta vez não é ficção e as pessoas citadas com nomes de registo oficial, nomes de guerra ou de casa (nas aldeias temos nomes de casa e nome da escola) estão muitas ainda presentes.
Conforme o autor, apesar de ainda "quase jovem" decidiu trazer as memórias em livro, pois a vida é curta e os miúdos de hoje, a começar pelos seus filhos e sobrinhos, acham determinadas narrativas verdadeiras como se de ficção se tratasse.
O escritor esclareceu que esta obra vai contribuir para que a nova geração saiba de facto preservar a paz.
“A guerra comeu pessoas e não capim. A paz deve ser preservada e, no universo da triste história de guerra civil, quem fez o quê ou quem esteve em que lado, é necessário conhecer os factos nus e crus, para que a juventude se possa guiar no futuro", reforçou.
Para o escritor, os jovens de hoje, os nascidos depois da "paz do Kamorteiro" agem de forma muito emocional, fazendo apelos à rebelião, à guerra como se fossem assistir a um filme.
"É um livro com uma média de 80 páginas. Pequeno em volume rico em conteúdo. São trechos de tempo vivido e trazido à prosa", avançou.
Apelou aos leitores, principalmente aos jovens, que leiam, comentem e partilhem o que conseguirem reter e saibam o quanto custou a paz e quanto se deve esforçar para preservá-la.
O escritor Luciano Kanyanga tem nove obras literárias já públicas, nomeadamente O Sonho de Kauia (2010), Manongonongo (2011), 10 encantos (2012), O relógio do Velho Trinta (2014), O caçador de pirilampos (2014), Canções ao vento (2015), As travessuras de Jack (2017), Amor sem pudor (2018). FMA/VM
sábado, 1 de abril de 2023
QUANDO ZEZUS SE JUNTA AO MÚSICO
Era Kasimbu (cacimbo). No Reordenamento do Rangel, Mangololo tinha um descampado que juntava anos, se calhar décadas, sem uma capina sequer.
quarta-feira, 1 de março de 2023
MANGODINHO EM 7 RIOS
Na banda, rio é rio mesmo de verdade, com caudal, margens, lodo preto, algas verdes, peixes com escama e sem escama, água que corre apressada, lenta ou estagnada e meninos que fogem de casa para fimbas desgovernadas. Já antes da viagem, Mangodinho, como é costume dele desde há muito tempo, foi ao seu Kuteka banhar no Longa.


