sábado, 20 de agosto de 2016

À VOLTA DA VELA APAGADA


 
Nessas visitas de reconhecimento ou de "ajuda e controlo", como as chamávamos noutro tempo,  fui ver a minha prima Rosária Albano, no Morro da Luz. A velha Rosária, como a tratamos carinhosamente, é uma pessoa de paz permanente, sem os fingimentos natalícios, e está sempre a rir e a fazer sorrir os que a cercam contando cenas, umas verdadeiras e outras que inventa para entreter os sobrinhos e netinhos. No oeste de África, ela estaria próxima de uma griot.

Ainda não sei por que razão, sempre que estamos juntos, ela não se esquece de perguntar a minha idade e eu, sabendo da sátira que vem sempre da boca dela, vezes há em que aumento mais uns meses ou mesmo uns anitos, só para adoçar a conversa.

Desta vez, começou a falar sobre a idade que eu e suas filhas tínhamos quando se deu a trafulha. E dizia a velha Rosária para a Remisa, a segunda das suas filhas, que "quando chegou a trafulha ela, agora já senhora, contava com apenas dois anos, sendo que a Geny, que vem a seguir à Remisa, estava no sexto mês de gestação". E foi tudo a propósito de quem era o mais velho entre eu e as suas duas filhas em presença.

A minha atenção redobrada para a leitura correcta do seu discurso levou-me a descodificar o que chamou ela de trafulha (confusão dos movimentos, antes e depois da independência de Angola).

- Mana, eu, a trafulha já me encontrou. - Expliquei para aclarar a questão das idades.

- Você, assim, tem já quantos anos? - Questionou ela, para depois acrescentar que "só sabia da data certa do nascimento dos seus dois primeiros filhos", pois era ainda moça, e recitou as datas com dia, hora e tudo.

- A Angelina nasceu no dia 15 de Setembro de 1965. Ela e o Segunda foi quase escadinha. Criei a Angelina só um ano. No ano seguinte, 01 de Agosto de 1967, nasceu o Segunda. O Toy e o Roque (filhos de uma irmã e uma prima respectivamente) nasceram em 1968. - Acrescentou a septuagenária.

Todos seguíamos atentos, inclusive os netos dela e o meu primogênito, Mociano que se acha mais dado às contas do que às estórias, dado o seu curso de Arquitectura.

- E por que a mana se lembra da data de nascimento dos primeiros filhos e não dos outros? - Voltei a indagar, antes ainda que lhe respondesse sobre a minha idade.

- Bem, essa aqui, apontava para a Remisa, enquanto buscava outra data memorável, é a que estava nas costas quando fui ao óbito do soba Kitinu (meu avô materno e homónimo). Encontrei a Kilombu tinha parido naquele mesmo dia. Por isso, você Luciano não pode ser mais velho da Geny. - Explicou ela meio equivocada.

- Então, se a mana foi com a Remisa ao colo ao óbito do nosso avô e encontrou a mãe deu-me à luz naquele mesmo dia, sendo que a trafulha ainda não tinha começado e a Geny ainda não estava na barriga da mana, como é que ela se torna minha mais velha? Quando eu nasci, a Remisa era a nené do colo. Quando chegou a trafulha ela tinha dois ou três anos e eu um ano. A Geny que no ano da trafulha estava na barriga da mana terá nascido em 1976. Portanto, eu tenho 41 anos. A Remisa tem 43 e a Geny tem 39. - Esclareci.

A idosa que seguia atenta a minha explanação, abanando a cabeça de cima para baixo, em jeito de aprovação, ficou alguns segundos com a bola de funje a meio caminho entre o prato e a boca. A kisaka estava já fria e mesmo a pasta de bombô estava também com pouco calor.

- Quarenta e um anos tem o mano? É muito. E eu que te encontrei "te nasceram" naquele mesmo dia em que a  tua mãe foi chorar o pai dela, avô Kitinu, tenho quantos anos? Só pode ser 250 anos. - Concluiu sem aguardar por uma resposta.

A assistência, sobretudo os netos e o sobrinho, o meu filho, fizeram gosto à boca e riram-se um pouco da desconversa da idosa.

- Avó, no mundo não há pessoa viva com essa idade. – Retorquiram os adolescentes.

- Mas eu tenho 250 anos. Me levem no governo para me apresentar na televisão. Se o Luciano tem 41 anos, eu só posso ter mesmo 250. -  Reforçou a velha Rosaria, preparando-se para contar outras malambas seguidas, sempre de forma atenciosa, pela moçada que se diverte e aprende com a velha da família.

É que no meio de tanta brincadeira da anciã há sempre lições que ficam retidas sobre a forma digna de viver em comunidade e alguns relatos históricos que complementam a narração científica.

Já depois da minha retirada, contaram-me que a preleção prosseguiu com os netos que pretendiam mais detalhes sobre o que ela chama de trafulha.

E constou-me que ela contou tim tim por tim tim o quão dura foi a Luta pela Independência de Angola e qual dos três Movimentos “ficou com o povo, dando vacinas, cobertores, sal e roupas de fardo, quando os outros regressaram às matas de onde voltavam de forma relâmpago apenas para queimar tractores e pilhar galinhas”.

- Nós estávamos mbora com o Movimento do Neto que não fazia mal às pessoas. É por isso que chamo aqueles dias que antecederam e se seguiram à independência do tunda mindele como momentos de trafulha. - Concluiu a velha Rosária.

A vela, sobre a qual se formara uma roda, já tinha vivido a vida que lhe fora dada pelo fabricante. Sem energia eléctrica e sem outra vela substituta, os netos foram escapando um a um, chamados pelo sono. Ela continuava empolgada, ora recontando estórias ora intercalando adivinhas expressas no seu materno Kimbundu.

Porém, à medida que a roda ia ficando vazia, foi percebendo do passo apressado do relógio para o dia seguinte e, no final, a velha seguiu-os também.

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

A ALEGRIA DOS LUKALENSES


Lucala, aldeia que dista dezanove quilómetros da vila de Kibala, no Kwanza-Sul, é uma comunidade que sorri todos os dias, apesar da poeira e do frio que fazem dos corpos de seus aldeões autênticas telas de arte pictórica.
-Aqui, o cieiro não tem dia e se você põe creme, ainda é mais pior. - Desabafa Rosa José, visitante em situação de óbito de um irmão, mas também ela natural daquelas cercanias.
Apesar do frio que dizem se ter acentuado desde que a Fazenda Mbumba-Alunga construiu um dique de contenção de água que propicia a rega de enormes campos agricolas que fornecem batata do reino e outros agroalimentos ao mercado luandense e a algumas indústrias transformadoras, segundo o morador José António.
- É que o povo anda mais satisfeitos porque já tem trabalho e os empresários portugueses e brasileiros que cuparam as antigas fazendas também meteram cacusso no dique que já vai ajudando o povo. - Afiançou o camponês José António.
Quem se desloca a Lukala não precisa dos dados do censo de 2014 para se aperceber que mais de 70% da populaçao são crianças menores de 16 anos. Os agregados são compostos, em média, por 06 a 08 pessoas, não se contando aqueles que migraram para a vila (sede municipal) e Luanda em busca de estudos e ou melhores empregos para os homens que tentam a sorte nas construtoras ou negócios para o caso das senhoras.
- Aqui, o emprego é só mesmo na fazenda, onde o salário varia entre 10 a 12 mil Kwanzas. - Explica Nhange Manuel, empregado na Fazenda Mbumba-Alunga para acrescentar que, às vezes, uma pessoa com 05 filhos na escola, o dinheiro não chega para comprar os cadernos e os livros. Isso faz com que apesar de a Aldeia possuir uma escola com três salas de aulas que funciona em dois turnos, ministrando aulas a alunos da primeira à sexta classe, haja ainda uns que nao se trajem de batas brancas.
Em Lukala, enquanto uns se ocupam dos trabalhos na fazenda, outros tantos se ocupam da agricultura familiar, de onde provêm excedentes para o comércio. Os "kapuqueiros" também abundam e nao se coibem de o afirmar depois de umas canecadas, esfarrapadamente justificadas pelo excesso de frio julino.
- Nós, aqui, quando a frio aperta, a vida é mesmo essa: você passa num "katrungungo" e o frio bate
recochete. - Exibe-se Nhange, seis horas da manhã, já "katrungungado".
A pesca na albufeira da fazenda e outros biscates como o derrube de árvores para a queima de carvão, estiva de cargas diversas ou fabrico de adobes sao as fontes de rendimento dos lukalenses que optam pela queima da vida no vício alcoólico.
Fruto do surgimento de pequenos empregos agricolas e pequenos "negócios à beira da estrada" ja se vêem alguns sinais de consumismo e modismo. As antenas parabólicas vao substituindo os seroes à batucada e "xirimina" (folguedos com cançoes acompanhadas de guitarras).  Os geradores de electricidade roncam teimosos noite adentro aos fins de semana e os jovens se inspiram nos mesmos herois e vilões das grandes cidades do pais e do mundo. A "lampiagem" também faz morada em Lukala, nao se aonselhando que o visitante se distraia mantendo as portas da viatura abertas ou os pertences expostos aos olhos dos "amigos do alheio".
Quase que a copiar o verde dos talhoes cobertos de  batata do reino, regadas por pivots um campo para os trumunos se apresenta a escassos metros da escola do primeiro ciclo do ensino primário. Os jovens com vivência luandina que para aí se deslocam, chamam-no de "capinzado" em alusão ao capim selecionado para substituir a relva habitual nos campos de futebol. Para as balizas, três paus, sendo dois verticais e um pregado horizontalmente, completam o "imobiliário. Não há demarcação com cal mas os caminhos trilhados para além do "capinzal" fazem as fronteiras entre a área onde a bola é jogável e onde se consodera "bola morta".
Os ngulos, os cabritos e os bovídeos partilham a mesma água da albufeira o que torna vulnerável a saúde dos aldeoes que precisam de percorrer cinco quilómetros até ao Posto médico de Mungango ou os 19 quilómetros que separam Lukala ao Hospital Municial de "Kpala kya Samba".
Mesmo entre o que há e o que ainda falta, o povo sorri, porque afinal de contas há um bem supremo que é um facto.
- A paz que estamos com ela já nos faz viver com tranquilidade e construir nossas casas
sem medo de ser forçado a mudar para outra zona. Agora é só mesmo adobe e chapas que estamos a usar na construção. - Rematou António Katumbila, o soba da aldeia. 


 NOTA- Publicado pelo Semanario Angolense de 11 de Julho de 2015.

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

APRESENTAÇAO DO VOL II "RETRATOS DO LIBOLO" INSERTO NO PROJETO LIBOLO

APRESENTAÇAO DO VOL II "RETRATOS DO LIBOLO" INSERTO NO PROJETO LIBOLO

Quando somos dos últimos a falar, ou acertamos, completando o que não foi ainda dito, ou corremos o risco de ser redundante que deve ser a figura em que mais me enquadro. Porém, é também sabido que "o que ambunda não prejudica".

Senhoras e Senhores,

Excelências

É com grande honra que subo a esse palanque para uma missão difícil que é a de tentar apresentar o segundo volume da Obra Retratos do Libolo, inserida no "Projeto Libolo". Na verdade a obra já foi apresentada pelos autores e tudo o que farei será apontar alguns tópicos para aguçar a curiosidade de quem a vai ler.

Mais difícil ainda se torna a minha missão, por secundar uma figura incontornável da nossa literatura e intelectualidade libolense e nacional, o escritor Jaques Arlindo dos Santos.

Relutante, mas honrado, acedi ao convite e ao desafio, pois sou filho dessa terra e por ela também me tenho esforçado em dar-lhe a visibilidade e o conhecimento que merece na esfera nacional e internacional.

Carlos Filipe Guimarães Figueiredo é um amigo que a Ciência e as redes sociais me apresentaram. O Libolo, nossa terra, é apenas o ponto de partida e de chegada.

Imaginem, prezadas Senhoras e Senhores, ele em Macau ou Brasil e eu num distante Catoca, Lunda Sul, onde prestava Serviço.

A abordagem de temas comuns sobre a angolanidade e o nosso Libolo fez-nos próximos e aqui estamos.

Em Retratos do Libolo, Carlos Figueiredo que de forma destemida e desapaixonada (¿) palmilhou o território que se encontra entre os rios Luinga, Longa e Kwanza bem como a Estrada Nacional 120, apresenta-nos aspectos como a Geografia,  o relevo a Hidrografia e seus recursos, o clima, o solo, a fauna e a flora, o café do Libolo, e até insectos típicos.

No livro, encontramos ainda aspectos sociológicos, e históricos. Foi bom ler, por exemplo, que os nossos ancestrais foram os últimos a ser vencidos (mas não convencidos) pelos colonizadores. E já ia a findar a I Guerra Mundial.

As comunas de Kalulu, Kabuta, Munenga e Kisongu bem como as suas principais aldeias foram todas descritas  e fotografadas constituindo-se esse livro num documento de elevada importância histórica, social, antropológica e cultural.

- Haverá em Angola, nosso país, uma região, um município que tenha merecido tão detalhada radiografia?

Os meus conhecimentos, até agora, dizem que não.

E, ainda bem que somos os primeiros, pois sempre estivemos na fila de frente. Na resistência à ocupação colonial, no desenvolvimento das forças produtivas, na luta pela independência e agora na busca do conhecimento e valorização da Nossa Terra.

- Quem de entre vós conhece a Pedra Escrita de Kasala-Sala, com registo histórico, e outra que fica entre a Munenga e Lususu?

- Quem já visitou Kituma, Kuteka, Kabuta, Kitila, Kambaw, Kakulu-Kabasa, a Missão Católica e seu internato e a nossa Fortaleza da Liberdade?

Kalulenses, Libolenses, Kwanza-Sulinos, Angolanos e porque não os nossos amigos brasileiros que nos ajudam a conhecer o Libolo?!

O Libolo hoje é manchete na media nacional e internacional por causa do Clube Recreativo do Libolo, o que nos orgulha. Porém, há muito mais Libolo para a além do Desporto. Há um carnaval histórico. Há arte e imaginação. Há muluvu no Musende, Wala de Muxiri no Kisongu e carne de paca no Mukongu. Em todo o Libolo há um Kimbundu que flui e ritos de passagem para os rapazes. Há caçadas,  há namoro, o mesmo namoro que encantou Viriato da Cruz na sua carta em papel perfumado... Há casamentos e há divórcios também. Divórcio com o pensamento arcaico e despido de verdade científica.

Excelências,

Tudo o que vos disse não representa sequer um milésimo do que a obra nos proporciona, sendo que o melhor mesmo é adquiri-la e, com ela, imergir no tempo, nas comunidades, no chilrear das aves e farfalhar dos matagais.

Eventualmente alguém me pergunte:

- Será que estamos perante uma Bela sem senão?

Aqui, a minha resposta é peremptória: A minha sensibilidade artística e científica não consegue encontrar espinhos entre a Rosa que me foi dada a ler e a apresentar.

- É um trabalho de todo acabado?

A História, a cultura, as artes e tudo mais que envolvem um povo como o nosso, não se esgotam em dois livros. Os jovens nas suas aventuras e trabalhos académicos, os cientistas sociais do Libolo, no Libolo e na sua diáspora, os intelectuais de outros países como os amigos académicos brasileiro e macaenses que já vêm desvendando o Libolo, devem dar sequência. Devem complementar esses estudos que, repito, são de incomensurável valia e relevância.

Permitam-me fazer uma vênia aos patrocinadores cuja aposta propiciou o arranque deste Projecto. A eles se agradece e se pede coragem e continuidade de apoios para que tenhamos mais e melhores conhecimentos sobre o Libolo. Quem sabe, agora mapear e descrever os locais de interesse turístico e outros locais históricos?
E, despeço-me com uma breve que li recentemente, do meu amigo e também Lubolu-descendente, Drumond Jaime: “Enquanto mais conhecemos a Nossa Terra, maior é o orgulho de a Ela pertencermos”.

Muito obrigado pela vossa atenção.

Soberano Canhanga

Kalulu, Lubolu, 10.07.2016

quarta-feira, 20 de julho de 2016

UMA INCURSÃO À MUXIMA DA KISAMA

As primeiras estórias que ouvi da minha mãe e parentes, eu ainda infante, eram sobre "Kwisama kwete môngwa!" (há sal em Kisama!). Sim. Jazidas de sal gema que era muito procurado pelos africanos do interior do reino do Ndongo de que as terras da Kisama, Kambambi, Lubolu, entre outras, eram partes integrantes. Depois chegaram-me outras estórias sobre um local da Kisama, a beira do grande rio, onde os enviados do rei Tuga mandaram erguer um porto fluvial, uma igreja e outras instalações, dando início a um vilarejo que agora floresce com o surgimento do asfalto. Muxima, pois claro!
O acesso através da estrada asfaltada, EN110, um ramal que também nos conduz à rodovia principal para o Sumbe, faz do vilarejo um local aprazível para turismo interior, facilitado pela existência de instâncias hoteleiras e restauração, bem como por um mercado informal que floresce ao assobio silencioso do Kwanza navegável, o mesmo que levou o donatário Paulo Dias de Novaes ao Ndondo e Ndongo.

Aqui, contam os que frequentam o santuário católico com regularidade, acontecem coisas do arco da velha. Chegou-me ao ouvido que duas esposas de um mesmo homem bafejado pela sorte dos fáceis dólares do passado pegaram ambas em fotos da rival e foram pedir a "mamã coração" que afastasse a adversária do seu caminho.

- Mamã muxima, apareci sozinha, no tempo da pobreza, por que me surge uma intrusa na relação agora que é tempo de colheita, ainda por cima ela de carnes fartas? Ajude-me, mamã, a defuntá-la. Todo o víntimo vou trazer durante ano e meio, se a mamã me ajudar. - Terá suplicado Kadihiba, a primeira das esposas do sô Kitadi Yangu.

- Mamã do coração, já me deste metade do que te pedi nos últimos cinco anos. Só falta aquela cavalona deixar de privatizar o homem, tipo nasceram juntos do mesmo ventre. Outras abrem vaga, menos ela, mamã. Só falta um bocado. Mesmo metade do salário e metade de tudo que ele me dá posso trazer à mamã se ela abrir vaga. -  Implorou Kakinga, a Luanda dois.

O resultado, segundo o meu amigo Katimba, que jura ter visto com seus próprios olhos, foi uma pancadaria daquelas de pôr o padre com o pé no ngimbu, para que não fosse apanhado por um murro perdido na algazarra.

- Foi na hora de levar ao altar as ofertas e a prova (foto) do que se pede. Kadihiba com a cara de Kakinga e essa  com a da concorrente Kadihiba. As duas caralmente, olho no olho sem espaço para esquiva. Ali esmo, nome chama nome, começaram a se dar kibetu. - Narrou o sempre bem humorado Katimba que foi introduzindo, entre os supostos factos, elementos de sua criatividade, dando mais calor à narrativa.

Contaram-me também que as moças, aconselhadas por tias mais experimentadas, e algumas tias na idade entre " a sobra e o salda negócio" são as que mais preces dedicam à mamã para que mande no seu caminho um homem que tenha "quatro cês sem efe-a". Vou explicar melhor essa dos cês e sem efe-a. É tudo da lavra do Man Didas que nasceu na Kisama ao tempo em que os kisamistas se diziam ainda kwanza-sulinos: "casamento, casa, carro e conta farta sem filhos anteriores", reportou-me o Didi Segundo​ com a seriedade que lhe é característica.

Pois, essas estórias todas acrescidas ao discurso de um idoso do município biodiverso da Kisama que numa das barracas de Katete narrou a célebre frase "uxa dikongo, kuxê kitadi. Andodijiba (deves deixar dívida e não dinheiro como herança vão matar-se)!", levou-me a espreitar o outro lado do Kwanza, atravessando pela segunda ponte, da foz à nascente, a que se estende sobre os terrenos pantanosos da Kabala. Quem não se lembra da Kabala, reportada no antigo livro de leitura da segunda classe, ensino do tempo de Agostinho Neto, onde se lia: "na Kabala, uma pequena aldeia perto do rio Kwanza vive a família do Viti. O pai trabalha na loja do povo. A mãe trabalha na lavra. O Viti e os irmãos andam na escola".

Pois é. Transpus a Kabala instalado num FIAT Punto que ensaiava o motor, acompanhado da mulher, que ignorava o destino, e lá nos fizemos Kisama adentro, ou melhor, coração adentro. MUXIMA! A Entrada é de cortar a respiração. A estrada é um sulco sobre a montanha lamacenta nos dias de fúria de São Pedro. As habitações e outras construções melhor apresentadas, construídas em alvenaria para longa vida, acham-se em topos de colinas, fazendo as águas pluviais deslizarem até à curta zona plana que se estende longitudinalmente como faixa de lençol, entregando-se lateralmente ao Kwanza milenar.

As devotas peregrinas, sem chuva nem distâncias que as detêm, marcam presença no terreiro contiguo à capela ou nas instalações vizinhas, erguendo tendas de campismo. A capitania do Porto de Luanda, a polícia e outras instituições como o Partido MPLA mostram-se também aos residentes e aos visitantes com suas representações. E aqueles que exploram o turismo interior encontram a "senhora Ritz" ocupando a parte da zona baixa com módulos contentorizados a preço concorrencial.

- O kakusu tem de encomendar com antecedência. É preciso pedir "nos" pescadores para trazerem na faina da manhã. - Explicou a garçonete caprichosamente vestida. Uma saia chitada, neve branca da cintura acima e negro na batina a combinar com cabelos reais.

Quanto aos quartos, lá estão, branquinhos e arrumadinhos,  "mas se vier em tempo de maior peregrinação, tem de fazer reserva" para não lerpar. - Aconselha o gerente tuga, para quem "há quem até encomende o quarto com um ano de antecedência". Verdade ou não, foi a boca dele que cumpriu com o papel da fala. Quartos havia e de sobra num dia de chuva miúda, farta e continuada, com muximeiros escassos quando contados e comparados aos números milhentos das televisões em períodos de romarias sagradas.

- E a catedral mostrada ao papa Bento XVI, marido? Será que está noutro lugar fora daqui?! - Quis saber a mulher a quem sosseguei com um "está no Vaticano. Come e relaxa porque ainda temos 118 quilómetros até a casa!"

E partimos com a sensação de uma tarde bem passada e uma vivência curta que se recomenda à repetição da dose. Bem haja Muxima no coração do Município da Kisama que acolhe o Parque Nacional com a mesma designação.

domingo, 10 de julho de 2016

MATEUS 5:25

Era domingo. Segundo domingo do mês terceiro. O edifício de cultos, também conhecido como templo, pertencente à Igreja Pastor Murras -IPM- estava em reabilitação física. Era tempo de carências sociais. Faltava dinheiro às famílias para atender problemas de saúde, falta de empregos, pagamento ou construção de moradias, etc. Na IPM aonde as pessoas se entregavam a granel e levavam os poucos proventos, esperando pela repetição do milagre multiplicador ensaiado com os peixitos e pãezitos, era tempo propicio para boas colheitas em oferendas. a alta hierarquia da IPM, à semelhança Nodos agentes comerciais, publicitavam a sua crença nas rádios, nos jornais, em outdoors e espalhavam-se fliers pelas artérias das grandes cidades buscando a adesão máxima de pessoas. Os que estavam à rasca posicionavam-se nas filas dianteiras, os mais ou menos, iam titubeantes e os ricaços só iam se para ajudar a lav(r)ar o dinheiro. Naquele domingo de chuva e sol, era no alto do seu púlpito que o eloquente pregador Kabwiza cantava, como ninguém o fizera até à data, fazendo lembrar os textos sobre os anjos dos céus que faziam louvores ao seu criador com as suas arpas melodiosas.
Kabwiza puxava no canto enfático os seus acólitos: O coro central, a máquina melódica da igreja ou coro de mulheres e a máquina reformada que eram os homens de vozes toscas. E todos entoavam alegres "o tempos de colheitas". O piano soluçava as pausas e os tons mais elevados que até os mudos cantavam no seu intimo. Os surdos pareciam ouvir e cantavam na mesma cadência "messes abundantes havemos de trazer". Os balaios se revezavam sem contas. Era o espremer das carteiras e o sacudir das algibeiras até o último centil. Cantou-se para a recolha da accão de graças. Depois para o fundo de construção da igreja. Depois para a oferta normal dominical, depois o dízimo devido ao Senhor.
- Roubará o homem ao seu Senhor a décima parte, apenas a décima, que lhe é devida? - Questionou provocador o pregador Kabwiza, esperando, como sempre, um NÃO massivo. E assim foi.
- NÃO!
- Cantemos então o "madibesa kala nvula". Ordenou o pastor.
Na verdade, esse cântico "roubado" do livro de hinos de uma outra congregação religiosa já secular no país era a versão em Kimbundu (uma língua bantu daquele território africano) do primeiro hino cantado na versão lusófona. Para os crentes da Centenária, a IPM era uma "roubadora de hinos alheios e quase sempre mal cantados ou usados apenas para direccionar o povo ao balaio".
Madibesa kala nvula era um trunfo. Todos o cantavam até os que não percebiam a letra ou que não o relacionavam ao "Tempos de colheita" também gatunado à Centenária que tinha grande parte dos seus crente ambundu ou descendente destes.
Cantou-se "twabingi nvula kokwe" e caíram dízimos, vintemos e outras partes emotivas.
No fim da cerimónia, o pregador e o tesoureiro iam pesados numa viatura que os rapazes apelidaram de "agarra esse bebé", já roçada em todos os cantos por causa da imperícia inicial de quem ganhou o seu primeiro carro sem experiência de estrada. Faziam-se a caminho de casa suorentos, sedentos e apertados. Eram cinco no minúsculo "bebé".
Na derradeira curva, antes da casa, lembraram-se de comprar água para minorar o calor e a sede que os apoquentava. Os homens da farda que trabalhavam para manter a segurança regularidade do tráfego tanto pensavam nas tarefas que lhes foram acometidas como também banzelavam nos dois feriados que se avizinhavam e que calhavam nos seus dias de folga. Entretanto, foram as mazelas no "bebêzinho", quase a perder a brancura da tinta inicial, que despertou a atenção da patrulha.
- Quem vai à loja tem dinheiro. - Disse um dos homens de farda.
A quintilha esperou-os num largo de pouco movimento e passagem incontornável a quem trafegava naquela rodovia. E não tardou manda-los encostar o SUZUKI Alto no espaço desocupado que se achava num antigo largo.
- Bom dia Senhores!, saudou um dos homens, solicitando de imediato os documentos da viatura e os do condutor que levou ao bolso sem os consultar.
- Cinco pessoas nesse carro é muita gente. De onde vêm e para aonde vão, mais velhos? - Indagou o fardado ao condutor.
- Vimos da igreja e vamos para casa, chefe. Respondeu o pastor Kabwiza.
- Alguém é pastor entre os irmãos no carro? - Questionou homem fardado que se achava mais afastado do carro interceptado e cuidando da viatura em que se faziam transportar os homens fardados.
- Sim chefe. Eu mesmo sou o pastor. Por isso aproveito já pedir ao chefe para ler os documentos e nos dizer se podemos ir para casa. Há ameaça de chuva, como o chefe está a ver o céu escurecido, e com esse carro não dá jeito andar no bairro. - Informou quase suplicante, Kabwiza.
- Esse saco aí, apontava para o embrulho, tem lá o quê? Pode mostrar? - Inquiriu o terceiro agente que se fazia à direita da viatura abordada.
- É oferta, irmão. É dinheiro sagrado de Deus. - Respondeu o tesoureiro que ocupava um acento no banco traseiro.
- Ora bem. Vocês são cinco e nós também somos cinco. - Atirou provocador o agente principal, o que tinha os documentos no bolso, a olhar para o pastor Kabwiza. O irmão pode ajudar-nos a tirar uma dúvida que vem na Bíblia? É somente isso e já lhe devolvo seus documentos, pois tenho certeza que fará a mais fiel interpretação do santo livro.
- Está bem filho. Qual o capítulo? - Buscou Kabwiza que procurava desfazer-se daquela situação ardilosa.
- É Mateus 5:25, irmão pastor. - Recitou o fardado expectante.
Kabwiza folheou rápido o sacro-livro e foi ter com o texto "Concilia-te depressa com o teu adversário, enquanto estas no caminho com ele; para que não aconteça que o adversário te entregue ao guarda, e sejas lançado na prisão. Em verdade te digo que de maneira nenhuma sairás dali enquanto não pagares o ultimo ceitil". Confirmou logo as intenções dos homens de farda que tinham a lição estudada e não precisou de interpretar-lhes o que lera em voz alta. Desceu do carro para poder enviar as mãos ao bolso e, num gesto inoculável para muitos, trocou os centis que lhe restavam na algibeira pelos documentos que aqueciam a mão despida do homem da farta de caqui.

sexta-feira, 1 de julho de 2016

LUZ ENCANDEIA COLÓNIA PRISIONAL

Já foi um local inóspito para desterro de gente que desafiou a máquina repressiva de Salazar e, depois,  Marcelo Caetano nos anos sessenta e setenta do século vinte. Na colónia prisional de Missombo, Cuando-Cubango, amputaram-se vidas mas realizou-se um sonho. O sonho da liuta pela liberdade e pela identidade angolana.

As palavras são de um antigo preso de delito comum mas que viveu na pele as sevícias a que eram submetidos os presos de delito político.

Artur, único antropónimo no bilhete de identidade, mostra um a um os antigos edifícios e recorda-se dos seus ocupantes ou das tarefas nelas executadas.

- Ali era o posto médico, aponta. Este era a oficina geral e ali, ao lado, a ficavam as cozinhas. Hoje tudo se foi com o tempo. – Recorda saudoso, apesar do sofrimento daquele tempo que a memória teima em conservar.


Os edifícios que configuravam a colónia prisional estão hoje todos em ruínas, restando uns poucos como o que acolhia os serviços administrativos, no piso superior, e as minúsculas celas na cave. O edifício principal foi reabilitado e serve hoje a Administração Comunal do Missombo, que dista perto de cvatorze  quilómetros de Menongue, a capital da província.

Apesar do estado em escombros em que se encontra o local, o administrador comunal diz que melhores dias estão por chegar e vai mais longe na sua premonição.

- Os mais velhos vão poder conferir os seus processos, rever o Centro com as mesmas feições arquitetónicas antigas e reviver os dias de cárcere e trabalhos forçados na fazenda ou na construção manual do dique. – Diz confiante Francisco Kassemuqueno, para quem "existe já um projecto integrado do Governo que visa manter vivas as páginas longas da luta dos angolanos pela emancipação", conta o administrador com a autoridade de um historiador, embora tenha estudado ciências agrárias.

- É o tempo em que estamos aqui e as tarefas a que somos chamados a executar que nos fazem ter de cor toda a história desse recinto. – Esclarece Kassemuqueno quando elogiado sobre o domínio da História do campo prisional de Missombo.

Uma cidade ergue-se, aos poucos, na cabeceira do antigo campo prisional, sendo que o perímetro irrigado já serve os estudantes do Instituto Médio Agrícola, construído, propositadamente, nas proximidades do antigo campo prisional para fazer parte do pólo urbano e valorização do que resta e do que se há-de construir no Missombo.

A caminho do Missombo estão também os estudantes do curso de agronomia da Escola Superior Politécnica do Cuando-Cubango, dependência orgânica da Universidade Kwito Kwanavale, cuja comissão instaladora foi já apresentada ao governo chefiado por Higino Carneiro e comunidade universitária.

As províncias do Cuando-Cubango e do Cunene "libertam-se assim da dependência da Universidade Mandume ya Ndemufayo que atendia a Huila, o Namibe, o Cuando Cubango e o Cunene, atendendo apenas as duas primeiras". - Explicou a Secretária de Estado para o Ensino Superior Maria Martins que visitou com o cronista o Instituto Médio de Agronomia e outras instalações que vão receber os estudantes de nível superior.

Mas, sobre o Missombo não é tudo. O campo correcional fez parte do triângulo penal repressivo da PIDE-DGS contra os nacionalistas angolanos. As colónias penais do Bié, Missombo e São Nicolau ou Bentiaba (existindo ainda o campo correcional de produção de Quibala, mas em menor escala demográfica), guardam registos sobre quão tenebrosa para os nacionalistas angolanos foi a "defesa" de um Estado que nunca pertenceu a Salazar e seu sucedâneo Marcelo Caetano.

Pelo Missombo passaram nacionalistas como Adriano Sebastião e outros, antes de serem desterrados para S. Nicolau (Namibe) ou Tarrafal (Cabo Verde).

Dos imóveis que ainda estão em pé e com alguma utilidade, contam-se poucos. Apenas os que atendem a administração comunal, a sede comunal do MPLA, a escola (edifício construído no pós-independência) a residência protocolar da administração comunal, a antiga esquadra policial (também erguida no pós independência) e o posto médico. O edifício multi-ofícios, as residências dos carcereiros e pessoal ao serviço da PIDE estão completamente destruídos pela acçao humana e do tempo.

 
O campo já acolheu, nos tempos em que o país era forte e frequentemente fustigado pelas South African Forces, SAF, uma brigada das FAPLA/FAA que defendia a cidade de Menongue contra o avanço dos sul-africanos carcamanos e seus apaniguados nacionais.

- O local vai ser uma espécie de museu com valor hostorico-turistico., Narrou o administrador Francisco Kassemuqueno, para quem os serviços da administração local vão passar para a nova centralidade projectada para a margem oposta da Estrada Nacional 140, onde já despontam, entre vários edifícios, o Instituto Médio Agrário, a Escola de Formação de Professores do Futuro (afecta à ADPP), a Escola Provincial de Turismo que contará com um hotel de trinta quartos, a Escola Nacional de Formação de Fiscais Ambientais (afecta ao projecto transfronteiriço "KASA"), etc.


De baixo do edifício da administração, onde nos encontramos, contou o administrador, estavam as celas subterrâneas para os presos que eram interrogados sucessivamente, numa espécie de tortura psicológica. Os menos perigosos eram usados para trabalhos agrícolas no perímetro irrigado ou levando pedras à represa", ajuntou o agrónomo que dirige a comuna.

-A antiga represa de água sobre o rio Cuebe foi reabilitada e modernizada, pretendendo o governo do Cuando-Cubango, narrou ainda Francisco Kassemuqueno, dar uma dimensão histórica ao Missombo que acolheu muitos dos nossos nacionalistas e obreiros da luta de libertação nacional contra o jugo colonial.

A primeira fase da Nova Centralidade de Menongue, explicou ainda Kassemuqueno, está a ser executada em Missombo. Segundo o "mwata mutolo (assim são tratados os administradores na língua ucokwe, sendo ele também um kacokwe), o antigo edifício de artes e ofícios já foi adjudicado para reabilitação, devendo conservar, à semelhança dos demais, o traçado arquitetónico original.

"A actual administração será transladada para a nova cidade, sendo as instalações do antigo centro prisional um Centro histórico-cultural e turístico, devendo possuir ainda a parte agrária" - Informou. 
O Kassemuqueno avançou também que "os processos dos antigos presos de Missombo ou aqueles que por lá passaram estão a ser negociados pelo Ministério da Cultura com os arquivos coloniais da Torre do Tombo, em Portugal, e, tão logo se tenha êxitos, serão transladados e arquivados na sala que atende hoje as reuniões da administração comunal". As demais casas, prosseguiu, também serão reabilitadas, sendo que já foi feito um levantamento do estado actual e nível de intervenção.

- Acho que não vai demorar muito tempo para dar uma visão mais realística daquilo que foi o centro. - Disse esperançoso, e a concluir, Francisco Kassemuqueno, o administrador comunal do Missombo.

 Nota:texto publicado pelo Semanário Angolense, 29 de Agosto de 2015.

segunda-feira, 20 de junho de 2016

O ESCURINHO DE BOTOMONA



O homem vinha cansado e saudoso dos seus. Marcava o tripper da sua viatura 948 quilómetros percorridos. Havia feito mais de catorze horas ao volante e perto de dez paragens, entre aquelas orientadas para a fiscalização preventiva do veículo e do seu condutor, ele no caso, e outras em que simplesmente abrandou para saudar as autoridades rodoviárias, falar sobre o percurso e reportar o que de importante encontrara ao longo do trajecto.

Botomona, ficava a menos de 70 quilómetros do destino e já sentia o cheiro do peixe banana que a mulher preparara para o seu jantar.

O Escurinho (nome de ocasião), dois riscos no ombro, altura de basquetebolista e negrura de mostrar apenas os olhos e os dentes quando falasse à noite, estava dum lado e do outro o interpelado Mona a Chico, o viajante.

- Boa noite, senhor automobilista. – Saudou Escurinho, depois da devida sinalização para abrandamento e acostamento da Maria (viatura).

- Boa noite chefe. - Respondeu Mona a Chico, esperando pelas perguntas da praxe cujas respostas tinha já decorado.

Do nordesta a Botomona, não se tinha deparado com acidente ou incidente digno de realce. Apenas ferro retorcido já com curva de idade que as queimadas do capim iam destapando à beira da rodovia.

- De onde vem e como está a ser a viagem? – Voltou a questionar o sargento da polícia rodoviária.

- Venho do nordeste e não me deparei, ao longo dos quase mil quilómetros com incidente ou acidente grave. Apenas a estrada é que vai cedendo aos buracos. Os vossos colegas, em todas as províncias por onde passei, também estão com uma atitude preventiva irrepreensivel. - Elogiou o condutor, enquanto juntava a papelada.

- Sim. Por cá, é por causa da peregrinação à Muxima.- Justificou Escurinho.


O interpelado exibiu os documentos da viatura e os dele e ligou-se à rádio desportiva para acompanhar os resultados da ronda do Girabola. Havia já hora e meia que apenas se ouvia música e vinheta sem locutor para anunciar os resultados da ronda ou a hora que corria ao desgosto dos expectantes amantes da bola na relva.
- Alguém vai "mamar pastilha" na rádio Meia Dúzia! - Disse para si mesmo. Se calhar o locutor substituto da tarde desportiva se tinha ausentado sem que o substituto chegasse, acrescentou em suerdina.

Mona a Chico era conhecedor das andanças da Rádio e estava familiarizado com aquilo. Pena foi não ter ninguém no carro para ouvir o seu esperiente desabafo, para além da própria "Maria" (viatura) com quem conversara durante todo o trajecto. E não tardou para que o interlocutor fardado que fiscalizava os documentos aparecesse com outra questão.
- O seu seguro está caducado e isso dá multa. – Disse ele, com o bloco de notificações e esferográfica à mostra, em sinal de força persuasiva.

- Repare bem, senhor sargento. Renovei o seguro contra terceiros em Maio deste ano e vai até 2016. – Disse-lhe Mona a Chico, exibindo o certificado.

O homem da estrada acendeu a lanterna, confirmou e desculpou-se. Mas sacou da cartola outro gato.

- Onde está a taxa de circulação, senhor automobilista?

Já a desconfiar que havia gato escondido com rabo de fora, o interpelado ganhou coragem e decidiu explicar’-se tim-tim por tim-tim.

 - Senhor Sargento, comprei o carro em Fevereiro deste ano e, tanto quanto sei, o seguro obrigatório tem a ver com o ano derradeiro.

- Mas o livrete tem a data de Novembro de 2014. - Voltou a colocar o homem, aparentemente sedento de alguma inconfissão.

Com a paciência já em falta o "amigo da estrada" sacou da factura e da guia de entrega da viatura pela concessionária e juntou aos documentos em posse do fiscalizador.

- Chefe, eis os documentos de compra. Aqui tem a data em que o carro saiu do parque para a estrada...

O homem, farda azul escuro e colecte reflector verde com barras alface, marcou dois passos atrás, acendeu novamente a lanterna, rodopiou sobre si mesmo e voltou a tirar a sua última cartada.

- Tem mala no banco traseiro que em termos do novo código é bagagem. Está em conflito com o artigo 56 e vou ter de multá-lo.
Habituado a tratar a estrada por tu, quer na sua viatura quer em boleias, aquela colocação do fiscalizador, parecia ter caído dum planeta ainda em estudo. Mona-a-Chico teve de sorver ar fresco, daquela brisa que se forma entre o Atlantico e o Kwanza, para ganhar força e continuar o debate que quase lhe ia algibeira adentro.
- Posso ver a letra do artigo? – Solicitou Mona a Chico, já aborrecido mas sem o demonstrar no discurso.  

O polícia titubeou por algum tempo, procurando por uma resposta que soltou segundos depois. Quase um minuto de gagueira.

- Não tenho aqui o codigo, mas o senhor devia saber. – Atirou com alguma rudeza discursiva Escurinho que se mantinha focado no seu "pente". Afinal tinha chegado o "sábado da boda" e todo o grão que se podesse angariar faria bom serviço ao "papo".
 

- Senhor polícia, confesso-lhe que não conheço a letra do artigo que citou pois não trabalho com essa matéria e nunca mo disseram, pois conduzo há já muitos anos e mesmo hoje parei diante de seus colegas mais de dez vezes, sem que me tivessem falado no tal artigo 56. Por ventura, o senhor pode exibi-lo para convencer o cidadão?
O  Senhor deve ter de cor ou exibi-lo em texto documental. Nao é o que diz a constituição? Quando se tiver de multar ou prender o cidadão tem de ser convenientemente esclarecido sobre as razões da sanção. Ou deixou de ser assim?! – Jogou Mona-a-Chico o que lhe parecia ser o último argumento para se livrar daquela isca.

O  Senhor é que deve ter de cor ou exibir em texto documental para convencer o cidadão. Nao é o que diz a constituição? Quando se tiver de multar ou prender o cidadão tem de ser convenientemente esclarecido sobre as razões da sanção. Ou deixou de ser assim?! – Tentou convencê-lo Mona a Chico.
Encostado à estrada (noutras circunstâncias seria à parede daquela antiga igreja em reuínas em Botomona), o homem saltou a linha da força dos argumentos racionais e passou para o lado da razão da força.

- Ou o Senhor assinas a notificação (que ainda não tinha passado) ou vou te prender por desacato à ordem. – Ameaçou Escurinho autoritário.

 
-
- Deste jeito, não assinarei a notificação que ameaça preencher e se me prender saiba já que quando o carcereiro abrir a porta para me soltar da cela, você estará entrando nela. - Disse o condutor, já com paciência aos retalhos, o que fez abrandar a postura ameaçadora do fiscal de trânsito.
- O Senhor é polícia ou militar? - Recuou o fiscalizador que aproveitou chamar um colega, um risco em cada ombro, para ir "explicar no senhor" o artigo 56 do codigo de estrada de Angola.

Quando o segundo homem de farda azul, mais polido, se apresentou, o automobilista tinha ao telefone um oficial general da corporação a quem estava a reportar a interpelaçao, a ameaça de multa e a ausência do citado artigo 56 que "proibe o transporte de sequer uma mala de roupa no banco traseiro de uma pick up de cabine dupla".
- Chefe, tenho mala no banco da trás da pick up e o sargento regulador diz-me que me vai multar por transgressão ao artigo 56 do código, chefe, já que ele não tem, pode dizer-me se tal colocação é verdadeira?

O telefone estava em viva voz. Ali mesmo, os homens que cuidam da segurança das pessoas e dos bens trocaram, trocaram cortesias e senhas parta que pudessem certificar-se de que não era um impostor na linha.

Sem mais palavras, o automobilista viu os seus documentos devolvidos pelo sargento de uma risca, o mais polido.
- Será mesmo que não se tem transportado nem um saquinho de compras no banco de trás? - Questionou o automobilista, em jeito de retirada, ao segundo homem, recebendo desse apenas um cordial aperto de mão e um "boa viagem, amigo automobilista".

 
 Texto publicado no Semanário Angolense de 26.09.2015

sexta-feira, 10 de junho de 2016

KISÂNGWA DE GENGIBRE


Há alguns anos., não muitos anos ainda, quando chutávamos despreocupadamente à bola de trapos ou outro objecto qualquer para aliviar a distância de casa à escola do povo, no dizer das crianças, eram as tias das panelas grandes e brilhantes ao sol de Abril e canecas, também de alumínio brilhante como nunca, quem vendiam kisângwa adocicada com que empurrávamos pedaços de bolinho ou galetes estômago adentro. Só elas também eram vistas a comprar e vender aos pedacitos o famigerado gengibre. As kotas e os tios que pegavam em pedaços de cola, carregada de acidez, ou gengibre ajindungado eram rapidamente rotulados de langas ou outro ganhavam outros epítetos menos honrosos.

- Esse kota deve ser retrô! (alusão aos retornados angolanos, depois de exilio em país vizinho) - Dizia-se em surdina ou num canto distante colado ao ouvido do companheiro.

- Xê pioneiro, cuidado com a língua. Se o mano te ouve vai te dar kibetu ou dar parte na tua mãe. Não queremos bandidos no bairro. - Advertiam as senhoras da Kisangwa, sempre maternalistas, mas também policiais, vigiando-nos quase milimetricamente para não descarrilarmos.

Meninos da kangonya e diazepam como hoje quase não havia, tirando aqueles incorrigíveis pela simples censura colectiva, que eram já designados como #os perdidos gregos#, cuja surra do dia a dia era para eles elogio. Esses sim, eram detestados pela comunidade e até mesmo pelas próprias mães cujo amor que diziam sentir era só de fingimento.

Nas caminhadas, o sol, a poeira, as basulas, só para aborrecer o amigo e companheiro quando se estivesse já próximo de casa, vindos da escola, caminhavam connosco abraçados. Era ao abeirar-se da porta do quintal que a basula ao companheiro se fazia presente, sendo mimoseado com um vai pra aquilo ou uma pedra a beijar o ferro duro do portão.

- Amanhã vou te apanhar na escola, vais ver só, seu feio e faquiri duma figa! - Consolava-se o ofendido. Mas tudo ficava por aí. O dia seguinte seria de outras cumplicidades na fila do apinhado depósito de pão, nas trambiquices da bola no pelado, das inconfessáveis praias no Bungo ou Chicala de que as mães raramente desconfiavam e da cooperação na resolução dos problemas matemáticos da tarefa escolar.

Naquele tempo, de pouco ter e muita procura do ser e da honradez, o lixo não era amigo. Não nos visitava tanto a ponto de connosco pretender morar. O consumismo e a descartabilidade estavam ainda noutros dicionários não acessíveis a todos os angolanos do cartão da loja do povo e das filas nos talhos. Pedaços de madeira descartados no serviço atendiam o carpinteiro dos banquinhos para as tias das kitandas e da Kisângwa à porta de casa ou da escola. Latas de leite eram carteiras quando não faziam panelas chiar nas casas em que a palha da serração fazia o papel de gás e carvão. Até as escolas tinham-nas em quantidade e qualidade que se traduzia nas marcas onde o nido se destacava.
- Xê, fila da goda! Vocês tomaram nido no mês passado? Tô pai já gasta nas lojas francas ou viajou pro estrangeiro? - Perguntavam os petizes habituados a ver o colega sentado numa lata de marca corriqueira. A atenção dos rapazes, sobretudo, em relação às novidades dos colegas era tão grande que quem aparecesse com roupa ou sapatos novos era logo brindado com felicitações amistosas.
- Xeye, fulano chamou! São novos ou do Asão? Perguntavam, referindo-se ao mercado do Asa Branca, ao Cazenga, que se tornou célebre por aí ser comercializada muita roupa e calçados usados, doados por organizações não governamentais.

Os papelões tinham uma utilidade qualquer. O ferro, mesmo retorcido, servia para as faças fogareiros e outros artefactos. Os pedaços de chumbo também eram reciclados e davam forma a outros objectos como os que davam peso às redes de pescadores da saveia, matona e lambula. As latas de salsichas e de óleo maná (alimentar) serviam para candeeiros que se expunham em lojas de referência e cantinas, depois de passadas pela arte do funileiro. Até as garrafas de vinho e cerveja eram cuidadas para serem devolvidas inteiras ao revendedor e à fábrica quando não recortadas com engenho para servirem de copos.

A mizangala desocupada não se kangonyava ainda como hoje. Apenas se kacilingavam (do umbundu kacilingi cimwe) os kotas sem arcaboiços para convencer as manas mais vistosas do bairro. Outros se kapukavam de reco-reco cinquenta ou búlgaro cem Kwanzas. Algumas manas sobradas, por causa da vida fácil com os cooperas regressados à estranja, se migostavam para prender os kotas regressados ou fugidos da vida Kwemba e que procuravam recuperar a vida perdida. Mas eram poucas as mulheres que se entregavam à vida fácil entretidas nas latarias dos cubilas e grades de cerveja dos francós das lojas francas. As jovens queriam e procuravam mesmo era homem para as manter e formar família.

- Vais me fazer pedido com todos os deveres? - Questionavam ao que o cavalheiro candidato respondia com acções e não com as palavras de hoje que o vento leva.

Fora do acompanhamento à kisângwa, os kotas não se gengibravam como hoje, ao que dizem, para calibrar o divumo (diminuir o tamanho do tanque) e aumentar a potência da torneira. Caminhavam sem esforço e nem reforço. Trepavam montanhas sem tração. Era a força das caminhadas longas, sem táxi nem dinheiro para autocarros que os fazia fortes e valentes. E conseguiam convencer e atender até a Zaida Kimbundaria do romance do Ismael Mateus. 

Hoje, tempos do corre-corre, do tenho e proponho, até ngongwenya de gengibre já há.
- Compra gengibre para não usar táctica do galo, subiu e desceu! – Convidam as vendedeiras espalhadas pelas ruas da urbe.

E lá vamos introduzindo na dieta um novo elemento ajindungado, mas também açucarado. É farinha de gengibre. É sumo de gengibre substituindo a kisângwa. É refogado com gengibre... E quão gostoso ele é?!

quarta-feira, 1 de junho de 2016

CUANDO CUBANGO: TERRA QUENTE




No dia 17 de Fevereiro, a temperatura máxima foi de 34 graus. Há alguns anos eram as bazucas e o tri-tri-tri das kalashenikovs mortíferas que aqueciam as "terras do fim do mundo", hoje rebaptizadas por "terras do progresso" que é visível nos rostos das pessoas e nas margens das estradas onde despontam novos edifícios construídos de raiz e outros coloniais que depois de estropiados, beneficiaram de restauro e ou ampliação.

Onde haja muita utilização de cimento, ferro, pedra, areia e tinta há crescimento. Governo e particulares vão fazendo a sua parte. O primeiro investe na habitação e instalações para prestar serviços básicos como educação, saúde e água, ao passo que os cidadãos com algum capital financeiro vão igualmente investindo em serviços e comércio. As ruas largas de Menongue estão semaforizadas e o Cuebe "assiste" apressado a sua ponte histórica em reparação. O palácio do governador confirmou o nome e uma nova cidade se ergue na saída para a comuna de Caiundo.
Dizia-se no tempo da guerra pós-independência que em Caiundo só havia porta de entrada e não a de saída. Aqui, na província do KK, a rebelião tinha a sua base central, Njamba, e os sul-africanos de aparthaid que apoiavam os insurrectos não se cansavam de despejar bombas, medo e terror sobre os angolanos. Basta ver, aí onde a simples reparação não atende, como ficaram os imóveis bombardeados ou dinamitados.
Um ex-Fapla do Ebo dizia mesmo:
"Em Caiundo, fomos e voltamos. Não brinca. Eu e o comandante Kuluzele (Cruz), AK nas costas e pistola silenciosa na mão, só pólvora e 'candáver'. Vai lá se regressas seu mabeco"...
Felizmente, são estórias do passado que ficam para a história. Hoje, a preocupação é outra. É atrair cérebros enquanto se vão formando homens e mulheres locais nos vários institutos médios e na nova universidade pública criada para Cuando Cubango e Cunene. É trazer tudo o que haja de melhor para essas terras que não devem nada às outras regiões angolanas afastadas do Litoral. A pequena indústria vai engatinhando e com a reabilitação do Caminho-de-Ferro do Namibe, reconstrução e construção de novas rodovias, os turistas e empreendedores vão chegando dia sim, semana também.
Eis-me na continuação da EN 140 que vai de Menongue ao Caiundo.
Redijo este apontamento no espaço em que o governo publicita a construção de mil residências sociais. A empreitada ainda não está terminada mas há já casas concluídas e habitadas, umas em acabamentos e outras em início de construção.

 

 Antes que me esqueça, um puxão às orelhas dos condutores imprudentes. As estradas são para a vida, para delas desfrutarmos os benefícios da paz e não para a morte.

Desafiem as estradas mas nunca a vida que é única. Há muito país por ser descoberto sobre rodas.
Não gostei de ver a forma como ficou o Toyota corolla (nas imagens) que trafegava no trajecto Menongue-Cuito Cuanavale e que ceifou quatro vidas. Contaram-me que "uma camioneta Mitsubish Canter que ia a frente do corolla preparava-se para virar a esquerda, tendo o turismo ido ao seu encontro".

 Ali mesmo, tufas. Nem só um "ai ué". - Contaram os testemunhas oculares que removiam os restos da viatura.
Depois do estrondo, apenas um silêncio total. Foi a 19 de Fevereiro 2015.
E como na estrada nem tudo é tristeza, mostro as imagens do campo relvado da comuna do Longa, município do Cuito Cuanavale, a meio caminho entre a histórica vila e a cidade capital do Kwangu nyi Kuvangu.