quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

A DIFICULTADORA DO FÁCIL

Em 31º lugar, do Top 100 Grandes Sul-africanos, Oliver Reginald Tambo, nascido em 1917 e Falecido em 1993, foi um político anti-apartheid sul-africano e figura de destaque do Congresso Nacional Africano (ANC) que lidera o país do arco-íris desde a queda dos segregadores de Apartheid. Tambo e Nelson Mandela foram membros fundadores da Liga Juvenil do ANC que em 1943 decidiu passar das simples petições ao governo segregacionista aos boicotes, desobediência civil, greves e a não-cooperação, valendo-lhes várias reprimendas de um governo agressivo, sem compaixão e que pretendia ver o negro sul-africano sempre debaixo da bota da minoria branca.

Mal eu desconfiava que aquela cara tristonha tinha alguma surpresa desagradável e não tardou em mandar-me pôr a mochila na balança.

- Deve ter apenas entre oito a 10 quilos, procurei convencê-la ao que não foi na cantiga.

- Está bem, vamos pesá-la e depois saberás se é para despachar ou levar em mãos.

Dez quilos batidos. Sem mais nem menos gramas. Convencido de que levaria comigo a mochila, a moça corta o ticket de bagagem e manda a mala rolar para o despacho: O voo será pequeno e por isso são permitidos apenas oito quilos. Fiquei bwamado. - Oito quilos é para despachar? Nem já no avião da empresa em que trabalho, que é embraier 145, despacho essa mochila. Será que a SAA vai voar hoje com Kazabula? - Questionei sem que dela obtivesse resposta plausível.

- Moço já disse que é avião pequeno. Se tem computador tira já a mochila vai ser despachada.- disse possuída de poder e arrogância.

 Dei meia volta e comecei a marcar os passos em retirada, procurando sorver um ar fresco que me oxigenasse a alma maltratada. Dentro de mim, à medida que fui pensando na figura cujo aeroporto me receberia quatro horas depois, vieram-me também ideias sobre como seria aquela moça se fosse uma branquela, filha de boers, no país do sol nascente e no tempo em que Mandela, Walter Sisulu e Oliver Tambo desafiavam os cassetetes e as balas dos opressores. Teria sido, com certeza, mais uma que não se cansaria de lavar as mãos de sangue alheio. Preferi, por isso trata-la, nas minhas idas à memória, por “a dificultadora do facilitado”, nome que lhe pode cair a perfeição.

E os Joanesbrguenses, para não falar dos sul-africanos em geral, sabem que é no poupar que está o ganho. Basta ver as luzes, quase sempre de baixo consumo, as barreiras nos jactos das torneiras, o cuidado com os descartados e a proibição, pelo menos nos seus aeroportos, do uso do tabaco. Aqui são poucas as “salas Vip” para fumadores. E é no avião, ainda no ar, que se ouve esse anúncio para os que fazem gosto ao tabaco, não se importando, muitas vezes, com o desconforto dos outros, os fumadores passivos e sem sistema de defesa contra os malefícios do fumo.

Nas suas actividades, sejam bem ou não muito bem remuneradas, demonstram felicidade. Cantam, sem incomodar o utente e o colega, enquanto despacham, dançam enquanto caminham, esboçam sorrisos mesmo para homens e mulheres cujos idiomas não percebem e demonstram que na sua terra vive-se feliz com o que têm e o que ainda lhes falta. Quem me dera se pudesse trazer um pouco dessa felicidade dos que trabalham e disseminá-la pelas nossas empresas e instituições? Quem me dera, eu mesmo, ser um homem sempre sorridente, ante aos entraves da falta de meios de trabalho, mas sempre empenhado, entregando os produtos a tempo e realizando as tarefas nos prazos? Mas será mesmo que a infelicidade estampada nos rostos todos os dias, a lassidão na execução de tarefas que nos são acometidas, o espírito de deixa andar ou “empurra opara trás” levam-no a felicidade quando sabemos que devemos dar a nossa parte para construirmos o Edifício Angola? E vou aprendendo com os joaneburguenses que inspiram, com a sua felicidade qualquer homem trabalhador.

 Já a caminho de Cape Town, outra cidade sul-africana que põe muitas do norte da SADC em sentido, concentrei-me no comportamento e semblante das aeromoças e até “aeroidosas” que se fazem todas passar por moças de verdade, esbanjando sorrisos, boa disposição e contagiando os utentes de seus serviços. Tal sensação de estar bem, atender bem e transmitir confiança a quem se presta serviços levou-me a viajar no pensamento, ao encontro da manas (nem todas) do meus amado país que levam ao serviço e brindam os utentes internos e externos de seus serviços com a indisposição que lhes causou a água que não jorrou o suficiente na torneira, a energia que ameaça descongelar o frango, a carne e o peixe na arca ou mesmo o cantar madrugador dum galo com insónia, quando não é o ladrar intrépido do kambwá do vizinho possuído de medo dos “gatos” pretos que rondam os aposentos do seu amo, noite sim, noite também. E pensei no quanto essas lições de vida podiam ser-me úteis nas difíceis tarefas que me aguardam. Mas não é tudo. A mesma mala e os mesmos quilos despachados em Luanda enfeitou os meus ombros na ida e volta à Cape Town e com a mesma companhia que, para as rotas internas, até opera com aparelhos mais modestos em termos de envergadura. E me pergunto a cada momento. Mana é que então que se passa na tua vida, tão jovem ainda?
 Em Cape, subi a montanha eleita como uma das sete maravilhas do mundo e comparei-a com a beleza da nossa Fenda da Tundavala a reclamar por miradouros que atraiam turistas e lojas de “gifts” para que os turistas nunca se esqueçam da nossa Angola e contem estórias sem fim. Subi ao cume do monte mesa, viajando no cable e imaginei-me na Huila ou em Kabatukila, em Malanje. Por instantes, me distraí e veio-me ao ouvido um som, uma música já muito badalada, cujo refrão gritava alto para o mundo: Angola, tu (também) és capaz!

domingo, 10 de janeiro de 2016

BO-KO-HA-RAM NA NOITE DO TIRA TUDO


Numa dessas raiv´s que os novos fidalgos vão organizando aos fins-de-semana, tentando impor uma vida importada, perante os olhares furtivos dos país que tudo podem e fazem, mas nada movem para os situar na terra de seus ancestrais, dançava-se, fumava-se e bebia-se perdidamente.

As cerca de cem almas que trocavam salivas e sêmenes naquela cave insonorizada pareciam ter recomposto e trazido à terra de Ngola as famigeradas cidades de Sodoma e Gomorra dos imemoriais tempos babilónicos. Beijavam-se aos pares. Homem-mulher, mulher-mulher e homem-homem. Os segregados “extra-terrestres” socorriam-se da táctica da avestruz: cabeça na terra, corpo volumoso à mostra. Eram os homens da penumbra. Os “não faço, não condeno” e deixava-se o barco da raiv navegar até ao nafrágio. 

“Me esfrega, me possui toda.” Gritava a música, ao que as miúdas e os miúdos de pensamento importado acompanhavam em gestos grotescos e animalescos, ora com os pares que podiam ser de qualquer sexo, ora com o pilar másculo de betão que suportava a laje do edifício de catorze andares, pós-chão.

Tocou-se depois o “me lambe” e trocaram efusivas salivas. Corrias rios boca-adentro, literalmente.

Seguiu-se a dança do cachorrinho, também apelidada por “do kambwá”. O erotismo e a devassidão inundaram o recinto, qual tourno fecundo largado em manada de vacas ciciosas. Fez-se “por-nu-e-grafia”. Os celulares registaram os momentos. No dia seguinte, os lugares de relacionamento digital estaria repletos dessas imagens que se multiplicam à moda chomskiana.

- Mamá cultura alguém te vê? – Gritou fosca uma voz de fora que assistia por uma fresta  àquelas cenas de encher a tenda do soba nos dias em que se respeitava a idiossincrasia dos Ngola. Feliz ou infelizmente, foi apenas uma voz isolada e, pior ainda vinda de fora daquele mundo moderno.  

Quando a festa parecia ter atingido o apogeu, já na habitual hora do banho e da eleição da “mais recortada”, o organizador lembrou-se da ausência do trio convidado para júri.

Já meio mundo estava em peças minúsculas. Era, afinal de contas, a noite do tira tudo. A festa estava repleta de filhos de quem conjugava os verbos ter e poder.

- DJ, pára a música, por favor. Só meio minuto. – Falou alto ao microfone, o organizador da raiv.

- Alguém viu os membros do júri? – Questionou, meio preocupado.

O tom, meio aflito teve interpretações várias. Uns pensaram que não haveria o desfile da mais recortada que habitualmente é posta a leilão quando não é a própria que sobre à montra para a “noite do forever”. Outros pensaram ser mais uma brincadeira do Man-Nelito, o organizador que voltou a servir-se do microfone.

- Cadê o júri, people?

- Bokwaram.- Respondeu um dos assistentes escondido à porta de escape.

O som "bo-kw-a-ram", ressonado em eco, trouxe-lhes á memória um grupo que espalha terror por um apaís da África Subsariana, exportador de petróleo.

- Bo-Ku-A-RAN?!- Foda-se!- Lengweno!

E foi debandada. Ninguém mais se lembrou das roupas, inicialmente curtas, curtinhas, íntimas e posteriormente inexistentes nos corpos ciciosos. O entornar dos candelabros e copos de whisky fez do espaço um autêntico campo de pólvora. Tudo foi aos ares.

Quando a polícia e os bombeiros chegaram ao local para confirmar o mujimbo e apagar as cinzas, só encontraram gente nua, cá fora, e fogo consumindo odores orgiásticos, lá dentro.

- Quê que foi então?- Indagou o chefe da patrulha, perante aquele estranho ambiente encontrado ao redor do edifício em chamas.

- Bokwaram, kota. Bokwaram! - Respondeu Man-Nelito, assustado e desolado.

- Boko Haram? Merda, pá! Cava daqui! - Ordenou o intendente à sua tropa.

O wion, wion, das patrulhas bateu em retirada, enquanto as chamas lavravam a cave e o edifício acima.

Durante meses, não se falou sobre outro assunto que não esse. Até as conversas entre apaixonados acabavam sempre na estória da noite do tira tudo.

- Oh compadre, Joaquim Luzento tinha lido o debate num jornal de fim de semana, você aceita o sobrinho Zenito aparecer aqui com um gaja?

- Um gaja como assim?  Uma gaja ou um gajo?- Inquiriu e Manuel Kambuta que procurara o amigo para falar sobre os “avanços culturais” dos últimos tempos.

- Porra, pá! Compadre, até agora não me conhece? Eu quero netos, sangue passado para sangue e não netos de doação. – Atirou, sempre no seu jeito trocista.

- Pois é, Luzento, folgou a gravata que quase o enforcava, e prosseguiu. O assunto da semana é então esse Apontando para o jornal).

Os amigos, já cinquentões, dividiram as páginas e fez-se silêncio na capital inteira naquele ano de 2015 que corria apressadamente para o século XXIII!

 

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

O GENERAL PAPA LEITE


Apesar de ser moda, os nomes dos personagens das telenovelas influenciarem os antropónimos dos que nascem, dos que estão por nascer e daqueles que ainda estão no mundo das ideias reprodutoras, o caso dele foi sui generis nos dias que correm. Os mais brincalhões já tinham inventado nomes como Kamutumbulé, Kecijina, Contranatura, etc.,  só para levar Yani e o esposo Matoso a desvendarem o nome do futuro rebento que todos os dias fazia evoluir a barriga da jovem.

Mesmo no dia D, dia do “ó moço, num estás a ver a barriga já subiu e já desceu, começa a se mexer” os futuros pais  mantiveram o segredo do nome da criança, o que deixava a vizinhança e parentela expectantes.

- Tens que te mexer, senão o filho vai te nascer em casa. - Aconselhou Xica Pinto, buscando aproximação ao jovem Matosos.

As vizinhas que gostam de procurar conversas para irem bwatar ou simplesmente enfeitar a boca e fazer comparações novelísticas, tentaram ainda procurar pelo jovem Matoso, marido bem casado da moça em estado terminal de gestação, insinuar, como se para se atribuir o nome à criança fosse necessário reunir o quarteirão ou os moradores todos daquele beco longo e apertado do bairro da Pedra Escrita.

- Bom dia vizinho Matoso, ainda bem que já chamaste o teu primo da ambulância. Assim, quando chegar a hora do bebé nascer, vai ser mais fácil levar a vizinha ao hospital. – Elogiou Dona Magda, outra vizinha, para indagar:  o vizinho já tem o nome do filho ou quer que lhe traga revistas chinesas e brasileiras para escolher o nome antes mesmo da criança nascer?

Matoso, bwamado por causa daquela inesperada e inusitada oferta, olhos e coração mais voltados para a mulher que dava indícios de estar a perder ar e sem força para o ”ai meu Deus, me ajuda só”, fingiu não ouvir a colocação da Vizinha Xica Pinto que se mostrava, entretanto, pronta a ganhar o desafio do nome.

Magda, cujo atrevimento era já conhecido de todos no bairro, deu dois pulos atá à casa dela, que era a última do beco, em busca das anunciadas revistas, mesmo sem que de Matoso tivesse recebido anuência. Foram quase trinta segundos, o que só podia ser conseguido por uma voadora ou então usava revistas debaixo das vestimentas para alinhar as carnes volumosas que lhe fugiam das roupas apertadas, fazendo dela uma ”senhora em rodelas”, como também era conhecida no bairro, fruto das estigas das moças que se achavam melhor alinhadas corporalmente.

- Mano Matoso, estão aqui os nomes. São todos bonitos. Tens nomes de várias origens. São todos bonitos e nomes de moda que passam nos filmes e nas telenovelas da actualidade. Se for menina é nas páginas ímpares. Se for rapaz é nas pares. – Anunciou Magda Ferreira, também conhecida como a ”dama das rodelas”, esperando que a sua sugestão fosse tida em conta.

Matoso folheou as duas revistas, esboçou um sorriso matreiro, apenas para iludir a impertinente vizinha e faze-la entrar no quarto onde Yani aguardava pela hora dos toques vibratórios.

- Muito obrigado, vizinha Magda. Quando o bebé nascer vamos escolher o que nos parecer melhor. – Disse-lhe Matoso que continuou a sua lida caseira.

Não tardou para que outra senhora, também vizinha, e por sinal tia de Yani, que acompanhava o desenrolar dos acontecimentos, saísse para anunciar a partida para a maternidade:

- Sobrinhos, ponham já a trabalhar o carro. Parece que já é hora de irmos andando, antes que a bolsa do líquido amniótico rebente. – Anunciou dona Irlanda.

As imbambas da kivwadi e da criança  estavam já acondicionados numa mochila bicolor, azul e rosada. Tudo meticulosamente preparado para iludir, pois eles, Matoso e Yani, já sabiam o sexo da criança mas queriam manter as pessoas na espectativa.

Na maternidade, a conversa das tias e avós, que foram emprestar seus corpos para fazer frente ao frio estremecedor e aos mosquitos sanguessuga, era somente sobre o sexo oculto da criança (já se parecia uma discussão sobre o sexo de um anjo) e seu nome incógnito.

Já tinham sido feitas várias cogitações e sugestões, mas o casal, pais de primeira viagem, mantinha a chave fechada aos caprichos dos parentes e amigos.

- Esses jovens são duros, yá?! Até me fazem recordar o nosso tempo de Kivwadi, quando só os homens é que davam os nomes e, para te  abonarem com a nomeação de um familiar tinhas que lhe  encher a casa de filhos saudáveis. – Desabafou a Velha Nzumba, avó materna de Yani.

Em casa, no bairro Pedra Escrita, a ngoma já estava encostada ao lume brando e as bebidas ganhavam forma nas caixas térmicas. A moçada toda, rapazes e raparigas, amigas, primos  e amigos do casal, estavam literalmente de telefone em punho, aguardando pela mensagem de confirmação do  nascimento. Todos queriam ser os primeiros a receber a benquista mensagem. Cogitavam também nomes e simulavam junções de iniciais de Judith, a Yani, e de Necas Matoso. Ora juntavam as iniciais dos avôs do bebé, sogros do casal, e até dos amigos e amigas mais chegadas. As mulheres faziam passear a imaginação pelas novelas e big brothers angolanos, mexicanos, chineses e brasileiros, procurando pelos actores galãs e atrizes de beleza invulgar conhecidos até à data.

Estava já estampada na parede, em letras garrafais,  uma enorme lista de nomes inventados.  Era a surpresa que os amigos tinham preparado para Yani e Matoso. Quando Josina, da parte do marido, e Masoxi, da parte da esposa, receberam as mensagens nos telemóveis, confirmando o nascimento do bebé e pedindo-lhes que difundissem a boa nova aos convivas, a lista foi refeita e a festa teve oficialmente o seu início.

Tocou-se música sacra de recepção ao menino. Coros afinados de distintas igrejas cristãs, mas convergentes na hinologia, entoaram o ”Vinde meninos, vinde a Jesus”. E a criança era menino! Depois foi a vez da música profana acompanhada de doses imodestas de bebidas fermentadas e destiladas. À chegada dos pais e avós, acompanhados do bebé, já latas e garrafas pulverizavam o quintal que recebia gente atrás de gente. Os que chegavam traziam consigo manjares e lubrificadores para as gargantas ressequidas por canções adventistas. Eram já nove horas da manhã do dia seguinte.

- E como se chama o rapaz? - Perguntou a tia Irlanda que acabara de chegar, também curiosa.

- Tia, por enquanto vamos tratá-lo por Papa. – Respondeu a parturiente.

- Papa ou Papá! – Voltou a questionar a senhora, nada satisfeita com a resposta recebida, e ajuntou: Se vier a ser Papá será chará da parte materna ou paterna!

- Tia, ainda vamos acertar. Temos de esperar até que as minhas feridas sarem. – Yani respondia olhando para Matoso que parecia ter perdido a fala de tanta alegria.

- E o sobrinho não diz nada! – Atirou novamente Irlanda, de forma provocadora.

- Titi, por mim é Leite. Papa & Leite. Isso é a preocupação do momento. Quando conseguirmos esses indispensáveis alimentos para o bebé conseguiremos definir o nome dele.  – Explicou Matoso irónico.

A festa e a conversa prosseguiram noutra dimensão. Já  não era sobre o nome que se falava. Era sobre o homónimo real. Uns tratavam o menino por Papa ou Papá e outros por Leite ou Leitinho. Assim foi por uma semana até que o casal recebeu a visita do Tio Soba que, olhando para o netinho, exclamou:

- Cara do Comissário! Que nome atribuíram ao rapaz!

- Na ausência do nome definitivo estamos a tratá-lo por Papa e Leite. – Explicou Matoso, acompanhado pela esposa, que é sobrinha do Soba.

- Lembram-se daquela crónica ”O Comissário Papa Galinhas” que publiquei no Angolense, em homenagem ao pai da Yani? Então, podem anotar: Comissário Papa Leite fica bem, só para começar.

O casal que ja vinha alinhando ideias naquela direcção não rejeitou a sugestão e o bebé ganhou o registo oficial com o nome do avô materno que é oficial comissário.

 Obs: texto publicado pelo Semanário Angolense a 13.11.2015

domingo, 20 de dezembro de 2015

A POBREZA QUE O TUGA FINGE NÃO VER


Nos meses de Março, Abril e Maio, Portugal, e concretamente Lisboa, é uma cidade muito iluminada. Não porque noutras estações do ano falte luz ou energia eléctrica como aqui (Angola). Não. É o sol que se prolonga, para além do raiar que é madrugador. E quando o sol não se põe ao Atlântico, o angolano ou africano recém-chegado às terras de Vaz de Camões tem dificuldades em buscar a quentura dos colchões e lençóis que o aguardam no hotel ou noutra albergaria.

No centro da cidade de Lisboa, o El corte Inglês, a Praça de Espanha, a Fundação Gulbenkian e outras paragens que incluem restaurantes, bares e tascas para “frascos” (imperiais e pomadas) e cafés são referências quase que obrigatórias para visitas periódicas e diárias.

Há porém quem pretenda viver um feriado, visitando os enormes centros de compras ou mesmo, vestido à paisana, enfrentar a enchente na Praça do Relógio (uma espécie de Roque Santeiro organizado). Só que não tarda, a repetição mata o espanto e a preferência começa a ser a cidade subterrânea, o metropolitano de Lisboa, com a sua grandiosidade crescente, que nos remete há alguns séculos de atraso se não corrermos a bom passo e com qualidade.

Aqui, no metrô, surge então a importância do mapa de Lisboa, ou seja, dos transportes públicos da cidade. O Metrô, com as suas quatro linhas: a vermelha-Alameda/Oriente; a verde -Cais do Sodré/Telheiras; a azul -Baixa-Chiado/Amadora Este e a linha Amarela que vai do Rato a Odivelas é meio de transporte público mais procurado, quer por nacionais quer pelos turistas, levando-os aos mais recônditos sítios da capital lusa, às vezes, com os préstimos do comboio de superfície, das carreiras, do táxi e até de amigos. É para tal que existem os amigos, quanto mais não seja para pôr a "fofoca" em dia.

- Comué na banda, tá-se? - Pergunta o Pedro, 20 anos na tuga e sem meios ainda para regressar. Finge um sotaque lisboeta mas nota-se no encadeamento das palavras a fraqueza do vocabulário e a mistura entre português lusitano e um calão já arcaico deixado no auge da sua criação em Luanda.

- Yá! vive-se. Há crescimento.  - Responde-lhe o amigo João Manuel, turista de ocasião que frequenta uma formação profissional de duração intermédia.

E o teu regresso? – Ataca João Manuel, procurando encontrar uma resposta convincente sobre a sua estada na antiga metrópole, numa altura que até os tugas se colocam na fila da frente para atacar as terras deixadas em 1975.

- A minha volta? Daqui há nada. É só tempo de reunir uns farrapos e completar a mobília. – Justifica-se, enroladamente, Pedro que, ao que se diz, já dormita debaixo duma ponte quando não é a sobra da estátua dos heróis que o abrigam em tardes de sol abrasador.

São essas as conversas nos cafés e noutras andanças entre os que vão a Portugal em missão turística, estudos ou de trabalho e os que lá ainda estão nas bumbas precárias, nas pedreiras ou nos bares.

Pedro, um jovem nascido no Cazenga e que nas refregas de 1992 entendeu vender à socapa a cubata da mãe e emigrar para a tuga, que na altura “batia” é um dos que, envergonhados por nada terem amealhado durante o tempo de vacas gordas por lá e balázios por cá, enterraram a vida na copofonia para enfrentar o frio. Erguem hoje terras alheias a troco de migalhas, que dizem ser bem maiores do que aquilo que nos vai ao prato aqui no país, algo que até o pior dos cegos já vê e desmente.

Ainda na Tuga, é no metropolitano de Lisboa que a África se casa com a Europa civilizada. Em cada paragem, o modo poético de estar europeu é sempre cortado ou pela brutalidade de um homem do leste europeu que ignora a leitura dum jornal, preferindo a fala, ou pela harmónica de um pedinte qualquer. E os pedintes que aumentam dia após dia, são homens de todas as idades e sexos.

Na linha azul do metropolitano, por exemplo, é presença obrigatória a de um cão kabiri, aparentando apenas dez semanas, viajando em ombro forte dum rapaz também nos seus dez anitos que chama a atenção de quem é atento a essas coisas. O silêncio corta até os murmúrios dos africanos sempre dispostos a debates. O rapaz faz chorar a harmónica com o farfalho de seus dedos. Não tarda, chovem moedas no copo descartável amarrado ao instrumento musical. A cena se transfere para a carruagem seguinte, e a pobreza ruma até à morte.

Os africanos mudam de linha mas a estória continua. A peça seguinte é executada por dois adultos de grande compleição física. Dir-se-iam, no nosso linguajar, “caenches” de primeira hora. Um leva no colo uma guitarra e o outro uma harmónica. Soa um fado e os portugueses são os primeiros a aliena-los com moedas. De repente, irrompe uma voz incómoda entre os africanos.

- Não há por cá subsídio de desemprego?

À pergunta se segue o silêncio e só as moedas falam no copo. A moda antiga de dar pão ao pobre ou uma sopa morreu. Era uma vez. Passou à história. Ao menino que se devia dar uma escola, pois o pepino ainda pode ser torcido, dão-se moedas e todos aderem até os Padres que se fazem transportar na carruagem. A formação profissional é negada aos jovens desempregados a troco de um fado barato e ainda dizem que problemas como estes só estão em África. Todos vêm, mas fingem não estar atentos ao que lhes queima a barba, porque só o Marburg em Angola é preocupação, só a Dengue em Timor ou cólera em São Tomé matam. Ninguém quer ver. E lá se vai o metropolitano com uma estória que já virou história.

Todos os dias em todas as paragens, o mesmo cão no ombro do mesmo rapaz, o mesmo fado na mesma carruagem e o mesmo dinheiro.
NB: Crónica (ainda actual) escrita em Lisboa, a 4 de Maio 2005. Publicada a 18 de Abril de 2015 no Semanário Angolense.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

REVISITANDO A HISTÓRIA E A TRADIÇÃO ORAL

Nkidyafuka: é o vocábulo bakongo que designa quem tem dívida há muito por pagar ou impagável. Essa condição em que se encontrava o meu primo Segunda João, a quem que ajudei a criar, levou-me a Mbanza Kongo, percurso de mais de 450 Km por terra, em estrada ainda bem cuidada, para o seu pedido de noivado, transformado em "casamento" na tradição bakongo.
- Na conservatória podem ir apenas os dois que se casam e os amigos, como também nunca se nega a separação. Para nós bacongo, esse é o nosso casamento. Envolvemos os familiares no acto e quando nos vêm comunicar separação, nós dizemos sentam ainda aqui, vamos conversar. É esse o casamento seguro, o que envolve as famílias. - Declarou o tio-sogro, no momento dos conselhos e recomendações.

Entre colinas que escoam abundante água pluvial para riachos e canais temporários, cresce o mosaico habitacional, destacando-se o tijolo (cor do adobe queimado e) que confere resistência e longevidade aos imóveis.
Para quem como eu não ia a Mbanza Kongo há dez ou mais anos, a cidade cresceu em tamanho e qualidade de vida dos seus habitantes: há mais casas e edifícios erguidos na vertical, há mais asfalto, largos e novos monumentos e, acima de tudo, mais sorrisos nos rostos das pessoas, longe do que um jornalista gozão tratou, em Abril de 2005, por "cidade de rua e meia".

A receber quem chega de Luanda está um monumento que representa o topónimo do antigo reino: um caçador (nkongo), munido de kanyangulu, outros instrumentos menores de caça, um valente cão (também necessário ao caçador) e acompanhado por uma senhora que leva os víveres e que, com certeza, confecciona a jinginga servida ao jantar.
Mas estou ainda no Ambriz, norte do Bengo, a caminho do Zaire, parado num posto de abastecimento de combustíveis, aproveito prosear:
- Mana, boa tarde!
- Boa tarde mano. Quer "arguma" coisa para consumir ou para levar?
- Para consumir. Um café, por favor. Pode ser com açúcar, mas tem de estar quente e forte.
Enquanto a jovem ligava a máquina aproveito provocá-la:
- Mana, como se chama quem nasceu no Zaire?
A senhora faz passear a mente que navega nos conhecimentos acumulados ao longo do tempo e da instrução e quase naufraga.

- Mano, nasci "mborra" em Luanda. Minha mãe é que é daqui do Ambriz e o meu pai é que é de Mbanza (Kongo).
Mariana desviou a resposta que eu esperava, sendo, porém, fornecida por um seu colega que me a transmitiria em voz meio muda:
-  A resposta é "zairiense", kota. E justificou-se: zairense é do Congo Democrático. Nós aqui "samo" mesmo de Ambriz, ambrizetano (do Nzeto) ou mbanza-konguense que também se chama "zairiense".

João Nevumba, como se apresentaria já na hora de despedida, não se ficaria por aí na sua explicação e acrescentaria:
- Estou a ver que o mano está perguntar porque gosta mesmo de saber e parece que está mesmo a ir "na" capital. Mano, as pessoas de Mbanza não gostam muito "lhes" chamar "zairiense". Quando o mano chegar, se precisar referir, fala só mukongo que abrange todos do norte.

Acatei o conselho, joguei o café, meio frio, garganta abaixo. Engatei a mudança automática de progressão e rumei à cidade cujo símbolo apresenta cinco espadas que simbolizam igualmente número de topónimos por que já foi designada: Mpemba, Nkumba Ungudi, Kongo dya Ngunga, S. Salvador do Congo (depois do baptismo do Rei, tornando-se cristão) e  Mbanza a Kongo.

Nkongo, contam os guias do museu, é caçador na língua local. Terão os enviados de Diogo Cão, aportado em Matadi, perguntado como se chamavam aquelas terras, ao que os nativos vindos da caça entenderam que se lhes tivesse sido questionado "o que eram", tendo respondido "nkongo" (caçadores). O reino que possuía seis províncias geridas por "Manis" (titulo de governadores) tomou a designação de Congo, sendo Mbanza (capital) a Congo, na pronúncia e escrita dos comerciantes de bugingangas e anunciantes de Cristo,  o centro político para aonde os "manis" levavam os impostos recolhidos para custear a máquina administrativa. O detentor do poder supremo é Ntotila, em cujo Palácio repousa(va) uma frondosa árvore de três grandes ramos (são dois na actualidade) e uma fronde de folhas permanentes, sob cuja sombra eram efectuadas as audiências e os julgamentos. Perdeu-se na memória o nome da árvore (tipo). Porém, o facto de ter acolhido vários "kuhu" (boas vindas ou conversas introdutórias que para os ambundu equivale a mahezu) ela ganhou o registo de yala kuhu.
O residência real possuía ainda um espaço muito restrito para a lavagem e  tratamento do cadáver do rei finado (sungilu) para que fosse possível conservá-lo intacto até ao acto fúnebre que era procrastinado até à chegada do Mani que vivesse mais distante, chamados todos pelo som do tantã.

A casa mortuária real (mpindi a tadi) ficava a umas centenas de metros do Palácio, distância aproximada a que nos leva ao campo santo real, colado ao nkulu mbimbi (igreja antiga, a Sé com mais tempo a sul do Sahara).
Mas sobre Mbanza Kongo não é tudo. Sobre o desrespeito à mítica Yala Kuhu, contam-se estórias associadas à queda, nos anos 90 do sec. XX , de um elicóptero que, entre outros, vitimou o bispo da diocese local e também o despiste de um avião da companhia de bandeira, já no início do séc. XXI, que levou à morte o administrador municipal, para além do "sangue que a árvore jorrou, estendendo-se do espaço em que está o pavilhão desportivo até ao cemitério real, quando os brancos construíram a estrada, cortando o terceiro galho".

Mas o guia do museu, formado no Benin, em preservação de espaços históricos, a luz da candidatura da cidade de Mbanza Kongo a património da humanidade, não se fica por aqui e vai mais adiante nos detalhes da sua apresentação. Fala também do "Mbanda Mbanda, do clã Nenzako, de Maquela", uma espécie de Presidente do Tribunal Constitucional, a quem cabia entronizar o rei, e informa que "Mbanda Mbanda e o rei no trono nunca se podiam reencontrar. Se o rei fosse à terra dele, ele se ausentava. Se Mbanda Mbanda viesse à capital, também o rei se ausentava. Ele só se via com o Ntotila uma vez e para o entronizar", concluiu.
Entre História confrontável nos livros já abundantes e estórias de ouvir contar e entreter o visitante/turista, muito há ainda por ouvir e desvendar. O melhor mesmo é percorrer os cerca de 450km que separam Luanda de Mbanza a Kongo para ver ouvir e reter. E quiçá recontar também?!

Obs: texto publicado pelo Semanário Angolense de 11.12.2015

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

A TRIPLA GPS: D. PAULINA E SEUS DOIS MARIDOS


Nada do que se passava no bairro e arredores era do desconhecimento daquela dupla família. Os filhos andavam todos nas escolas do povo. Gaspar, coveiro na Sant´Ana, trazia dias sim, semanas sempre, as informações mais frescas de quem foi enterrado “congelado ou a quente”. Nomes de finados, biografias, figurantes e até conversas inéditas sobre poligamias e poliandrias praticadas pelos de cujus, ele sabia de cor.
Paulina era enfermeira do Hospital do Prenda e kitandeira em dias de folga. Doentes abastados, com família que conjuga o verbo ter. Doentes pedintes que se alimentavam de restos se sopas de quem podia e tinha. Doentes quase a conjugar o verbo ir, ela sabia de tudo. Na kitanda, outra  praça do ouvir dizer e contar como se estivesse no filme, Paulina era a maior contista. Falava sem tabu nem deontologia sobre as suas experiências hospitalares e sobre coisas que “até mesmo o diabo era capaz de duvidar”.
- Xê, mana Tonha, se mana Paulina está ta e contar cenas do hospital, é melhor ouvir com uma orelha e esquecer com a outra.
Já viste doente que sai de noite para ir assaltar banco e volta de novo na cadeira de roda? Contou que um dia um senhor, você lhe vê tipo coitado. À noite chegam os comparsas dele e lhe levam na cadeira de rodas até um carro.
- Mas assim lhe levam p´ra quê, Yeta? – Indagou Chica.
- É, Yeta, coisas que mana Paulina conta na praça é só já ouvir. Disse que lhe levavam para ir assaltar os bancos. Quando Judiciária chega e colhe já fotografia dos dedos, é mbora dum doente acamado do hospital. Isso mesmo se acredita?
- Hum! Aceita só já quem quer.
Paulina não só era boa falante como era realista. Dizia-se dona do seu destino e que espera “julgamento só de Deus”. Por isso ela fazia a tripla afectiva com Simão. Velho de Ambrizete que foi corrido pelos filhos sob acusação de feiticismo que nunca se comprovou. A lavra de citrinos que tinha decidiu doar ao sobrinho, filho de sua irmã, obrigando os filhos, que dizia ser apenas de sua mulher, irem trabalhar como assalariados do primo, o seu sobrinho. Acusaram-no “nganga”e lhe “kibetaram” até descarregar nojice nas calças. Coitado do velho Miguel saiu daí e encontrou dona Paulina que tinha acabado de chorar o seu homem, Gaspar Kaquarta que foi considerado morto num ataque dos fantoches quando saia dum funeral no Kitexe.
Ali mesmo. Se conheceram na estação dos Caminhos-de-ferro de Malanje. Velho Simão e Mana Paulina, mal se viram, paixão pegou. Amigaram-se. Na casa que Gaspar deixou havia um anexo de pau-a-pique que Velho Gaspar foi reconstruindo com blocos de cimento e areia da rua. Arranjar ripas para zincar o quarto não foi difícil. O emprego de marceneiro permitiu-lhe contacto com uma agência de fazer urnas funerárias e a serração da vila. Fazia os seus caixões e uns “mochos” que vendia às “kintandeiras”, colegas de Paulina nos dias de folga.
Tudo que fosse sobre compra e encomenda de caixões para pessoas vivas, moribundas ou mortas, o velho Simão sabia e contava também à sua dona e os miúdos, pelos “furutos” da casa aproveitavam também captar umas conversas, nem sempre completas que levavam à rua, aos amigos e vezes tantas aos professores também.
Por sua vez, nas horas em que supunham que os miúdos estivessem já dormitando, “hora do vamos se o galo canta”, os miúdos aproveitavam ligar as suas antenas para ouvir os relatórios diários que Paulina e Simão trocavam, antes do cantar do galo que era num silêncio sepulcral.
Ano e meio depois daquela morte chorada do vizinho Gaspar Kaquarta, homem que facilitava todos os enterros dos vizinhos e parentela, com Paulina já amigada e o kota Simão a dar uma de tio Matoso “lundulou”, o dono de casa reapareceu. Tinha sido raptado pela guerrilha e o seu corpo foi confundido com o de um infeliz companheiro de desgraça que era militar da ODP, também mestiço.
No dia em que o vizinho apareceu, com os olhos dele todos rasgados, o bairro todo se pôs em fuga.
- Vizinho coveiro ressuscitou! – A berraria ecoava por todas as ruas da Vila da Mata.
- É quê? Vizinho fez quê?
- Ressuscitou. O “covero” apareceu! “Lengeno”! – Gritava-se.
E todos fugiram, até Paulina e os três filhos, menos o velho Simão que continuou na sua cadeira de fitas a enxotar as moscas que saboreavam o sumo da sua ferida na perna.
Como protagonista e vilão dum filme de acção. Cara-a-cara, olho no olho. Gaspar a dizer com o coração “quero entrar, deixa-me entrar”. Velho Simão, apesar da idade, a dizer também, apenas no coração, “aqui, seja quem for, morto ou vivo, aqui não entra”.
O “bilo” silencioso foi de uns cinco minutos. Ninguém disse nada nem fez nada. Ficaram só a se estudarem até             que cada um tirou a mais acertada ilação.
- Você é o pai dos meninos, não é? É o Senhor Kaquarta. Então saiba que a notícia que chegou na tua família foi de que o senhor foi abatido. A tua família chorou, fizeram um funeral sem corpo  e, depois do luto nossa mulher me admitiu aqui para cuidar dos meninos. O terceiro está já na barriga. – Explicou Simão.
Gaspar deu-lhe um abraço cheio de energia. Os dois foram abraçados à sombra da figueira que espalhava folhas pelo quintal. Gaspar abriu também seu saco de memórias e foi narrando o que se passou durante o tempo todo e o que pretendia fazer com seu regresso.
- Mano, a vida que nos falta viver é pouco. Casa, você aumentou lá “kabucado”. Os filhos, você educou lá “kabucado” e aumentou mais um que está a vir. Se Paulina concordar, podemos viver aqui os três. Ela com os filhos fica na casa grande. O anexo de dois quartos, dividimos, um é teu outro é meu. O resto é conversa de homens crescidos.
O cavalheiros selaram o acordo e quando os ânimos se amainaram, Paulina que fora buscar refúgio em casa de uma colega do hospital regressou com os monas à casa em clima de paz total.
A tripla viveu mais décadas. Paulina ainda pôde dar mais quatro filhos aos maridos que foram se revezando na procriação. Os de Gaspar Kaquarta são clarinhos e com olhos rasgados. Os de Simão Meso ma Nkala são pretinhos como carvão e duma altura que desafia a trepadeira. Juntos os filhos eram seis. Com os pais, a equipa era de nove e tratada carinhosamente por “família GPS”, iniciais de Gaspar, Paulina e Simão, mas também por saberem de tudo o que se passava na Vila da Mata. Os filhos, todos varões, compravam e vendiam informações nas escolas em que estudavam e contavam aos pais. Paulina via e ouvia na Clínica do Prenda e na Praça “Ajuda Marido” e levava para casa, partilhando com os maridos e os filhos. Gaspar que voltara ao seu antigo emprego no campo santo de Sant´Ana, atendia e assistia aos mais diversos funerais e reproduzia as imagens vocais aos de casa.
Simão que fabricava e atendia os compradores de urnas também tinha as informações frescas sobre bairros e ruas onde havia ou haveria “komba” e canjica. Viveram do seu jeito, enfrentando a curiosidade e “mexerequice” duns vizinhos mais inconformados, até que a cova os chamou, um a um.

Obs: texto publicado pelo Semanário Angolense.

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

UM CASAMENTO INOVADOR NA KAMUNDA

Conheceram-se no tempo da guerra fria, na República da Kamunda, quando Kapesi se dirigia ao serviço e Boana para a escola. Ao primeiro olhar, parecia visgo, os vulcões até então adormecidos derreteram montanhas, soltaram lavas e perfumes, aproximaram-se e como pessoas que se faziam ideia beijaram-se perdidamente.

- Não precisas de dizer-me agora para aonde vais. Levo-te a qualquer sítio, pois minh'alma diz que és tu o meu destino. - Atirou Kapesi, possuído de romantismo.

As palavras caiam-lhe como chuva de Abril e ela com o ouvido apurado, um planeta de receptividade e atractividade. E foram, caminho fora, falando cada um de si e do tilintar dos seus corações.

- Jovem, preciso de saber se cruzaste a minha vida para um propósito ou apenas para teres mais uma vítima? - Questionou Boana, certa vez, já amarrada às algemas românticas.

Como já disse, decorria a guerra fria daquele tempo que não era um conflito declarado entre as duas principais tribos da República da Kamunda, os vakwombwelo e os vakwonano, que até viviam em paz quase perpétua, interrompida apenas, de forma esparsa, em momentos de cruzamento matrimonial entre os vakwanano, povos do norte da Republica da Kamunda e os vakwombwelo, mais ao centro da Kamunda.

Em questões casamenteiras, os primeiros preferiam o cumprimento de suas tradições em detrimento dos procedimentos moderno-ocidentais ou, na melhor das hipóteses, combinavam a tradição bantu e as inovações alheias trazidas casa adentro pela luz da televisão. Os vakwambwelo habitavam um território plano e alto, irrigado pela natureza, onde abundava gado, cereais e batata do reino de sua Majestade D. Afonso Henriques. Eram também muito apegados à sua cultura e tradições, algo distinta no rigor da aplicação, dos seus vizinhos vakwonano. Os vakwombwelo eram povos muito viajados pelo antigo Reino da Kamunda, queridos por todos os empregadores, devido à sua entrega, elevado grau de comprometimento e alguma mansidão derivado do apego à sacra-palavra. Eram também muito escolarizados pelas missões evangélicas, fazendo-os intermédios entre o conservadorismo e o assimilacionismo a que a sua estrutura organizacional estava exposta. O conservadorismo de ambas tribos que faziam história na República fez com que o namoro de Kapesi e Boana fosse visto com algumas reticências de ambos os lados.

- Mas esse moço que até o irmão kasule já lhe coou com dois filhos, achas mesmo que será bom genro? - Perguntou certa vez o avô Menso Mankala, para acrescentar: Boana, continuadora da minha tribo, alguma vez já ouviste o acusarem de paternidade em algum lugar? Alguma vez já ouviste um zum-zum sobre amigamento dele ou coisa parecida? Desconfia, neta. Homem com estudo, casa própria e boa família, como me contas, não sobra como o jovem de que me falas. - Desconfiou prevencionista Menso Mankala a quem estava confiada a educação de Boana.

- Pai, menos dia menos noite, vou partir. A minha doença é irreversível. Cuida da sua neta até "lhe" entregar "no" marido, assim como cuidará das minhas irmãs. - As palavras de Franque ecoam ainda frescas e de forma insistente nos ouvidos de Menso Mankala, sempre que o assunto é namoro e constituição de lar por parte da neta.

- O que meu filho me pediu tem de se cumprir, custe o que custar. - Dizia para si mesmo, custando-lhe já o epiteto de "O Dificultador".

Do outro lado, as desconfianças e incertezas também faziam morada. Os vakwombwelo encaravam a questão "trabalho e sorriso" por parte de uma nora como primordiais.

- Mulher tem de rir. Tem de conversar. Nora que te mostra dentes é mais do que uma tristonha que te ofereça um banquete. - Costumava desabafar Kasova, a tia mais velha de Kapesi. E, era exactamente, esse sorriso escondido de Boana, embora não ausente, que fazia os da tribo vakwombwelo se posicionarem no NIM no dia em que o jovem reuniu a família para anunciar:

- Pais, mães, manos e manas, já passei a linha dos trinta. Já tive algumas experiências e tentativas de vos apresentar uma nora e cunhada. Acho que com a formação que consegui, casa própria no Kipedro e emprego que já  tenho, é chegada a hora de atar o nó.

Ao inaudito discurso de Kapesi seguiram-se assobios, mais dos sobrinhos e cunhados do que da velha guarda que esperava ver para comemorar.

Os "acorrentados e cercados pelas lavas do vulcão amoroso" tinham combinado abrir o jogo às famílias no mesmo dia.

Boana fez o mesmo com os avós. Menso Mankala não conteve a indignação e teve mesmo um pequeno deslize que só não desembocou em incidente diplomático-familiar porque o amor que juntava Kapesi e Boana não era amarrado com corda. Era mesmo com laço de aço.

Kasova, a tia de Kapesi, e os seus também se interrogaram vezes tantas sobre aquela escolha, exactamente na tribo que se dizia "mandavam a noiva calçar salto alto e juntavam quatro filas de grades até ao tecto da casa".

- É só mesmo já nessa tribo que pedem gerador e terreno com pedreiro chinês que encontraste mulher para casar? Por que não vais ainda lá na embala do avô Kacyopololo ver se sobrou lá uma kafeko da nossa tribo ou de tribo com costumes aparentados? - Questionou Kasova a matriarca da família Kapesi.

No dia A, ou seja, no dia da apresentação, desfilaram adágios de parte a parte.

- A nossa filha está preparada para ser boa esposa e tem de sair daqui só quando eu quiser e com pedido bantu, casamento na igreja e conservatória. - Atirou um dos tios de Boana.

- O Kapessi é um homem preparado e sabemos que cumprirá as suas obrigações para honrar a sua cultura, seus sogros e sua família. - Ripostou JoSa, cunhado mais velho que na ocasião representava o sogro.

O bairro Kipedro, onde viviam Boana e Kapesi, era uma espécie de bairro franco. Lá estavam uns poucos conservadores que se tinham rendido à vida na verticalidade e uns tantos jovens que tinham abdicado da vida quintaleira das aldeias tradicionais da Kamunda. Naquele dia da confirmação do namoro de Boana e Kapesi, Kipedro estava agitada, só faltou o quintal para juntar as famílias vakwonano e vakwombwelo que desfilavam, através de representantes legais dos dois lados, bíblias de adágios e citações.

- Vamos fazer o pedido com os requintes que quiserem mas o casamento só quando o sol mostrar os primeiros raios. - Atirou um dos primos de Kapesi que ignorava o tratamento diplomático em conversas matriciais.

- Raiar do sol? Se vosso filho tentar vai dar multa que vocês não imaginam. - Defendeu-se Menso Mancala.

Com sabedoria, a diplomacia se sobrepôs aos argumentos apenas orgulhosos e despidos de razão. A tarde terminou em festa que adivinhava outra maior no dia P, ou seja, dia do pedido.

Com uma lista recheada aos olhos dos vakwambwelo mas simplificada no dizer dos vakwanano, as partes marcaram a data para o encontro do pedido de noivado que juntaria outros rostos e outro desfilar de rosários.

- Confiamos nas vossas palavras e esperamos que a nossa tradição seja cumprida geometricamente. - Recomendou Menso Mancala à família de Kapesi, ao que JoSa respondeu apenas com um aceno de cabeça, carregando a lista que lhe pesava como pedra.

Chegados à casa, os vakwombwelo, entre a aceitação e a reclamação, começaram por esboçar o plano de resposta.

- Vamos cumprir, mas também queremos ver o sol a raiar antes de nos metermos à estrada. - Aconselhou Phande, outro dos cunhados de Kapesi, ao mesmo tempo que distribuía incumbências para aliviar o peso pecuniário que recaía sobre seu cunhado de eleição. "Eu responsabilizo-me por isso e o fulano por aquilo", continuou Phande, perante a aceitação da família centrista.

O tempo foi juiz e advogado. A lista de incumbências para o pedido tradicional estava fechada. Os fatos, as grades, os vinhos, bijuterias e outros adereços desconhecidos dos infantes desse tempo aguardavam apenas pelo dia P que coincidiria com o casamento civil. À data, o sol já raiava, mas escondido ainda. Era apenas um laranja solar no fundo do ventre. O debate, à distância, via recados levados e trazidos pelos noivos, passou a ser “casar-se-ia antes no civil e depois no tradicional” ou o inverso?

Pela primeira vez, os vakwombwelo ganharam o desafio que os levaria a esquivar possíveis multas pelo alvitre de "ter entrado pela janela".

- Quando chagarmos ao pedido, ela já será tua esposa e nenhum outro pedido de multa terá força ao pé da lei ordinária. Será essa a nossa posição e é consabido que, podíamos até ir de mãos a abanar, sempre nos receberiam e te consagrariam como genro. - O discurso de Phande teve a concordância de JoSa e demais familiares de Kapesi que se manteve obediente às instruções e pouco interventivo.

No dia P, Kapesi que vivia em Kipedro, nova cidade da capital da Kamunda, pegou na sua teó (trotinete rudimentar) e foi ao encontro dos padrinhos que se encontravam na conservatória do registo civil, onde aguardaria pela sua dama. Recebeu aplausos pela inovação e, por fim, Boana como sua prometida Eva. Fizeram juras e trocaram o primeiro beijo público e oficial.

- Juro ter-te na saúde, na doença e na dibinza por todos os dias da minha vida. - Prometeram.

Seguiu-se o preceito tradicional vakwonanwense já sem o peso simbólico doutros eventos. Aqui o ocidente se tinha antecipado, embora tudo quanto tivessem solicitado em carta estivesse literalmente satisfeito. Ao pedido tradicional, Kapesi foi ao lado da mulher, seguindo-se, num mar de alegria contagiante, a cerimónia religiosa de onde Kapesi sairia ao volante do Ferrari decorado ao engodo de Boana.

E cantava-se "kyese vo kakyese ko (alegria ou não)?

- Kyese! - Respondia-se com euforia. E fez-se nova festa!

As mesas estavam caprichosamente marcadas com nomes de aldeias e embalas vakwanano e Vakwombwelo para a alegria dos mais conservadores e petizes que aproveitaram saciar suas sedes com bebidas diversas e geografia de origem.

Fronteira, Kimbele, Damba, Negaji, Zenze, Sasa, Sanza, Kibokolu, Makela, entre outros topónimos nomeavam as mesas que acolheram a familia de Boana. Do outro lado, idosos e infantes viajaram no tempo e na geografia para relerem Kambweyo, Yeyele, Njimba Silili, Ndulu, Katrayo, Kantifla, Cingwali e outros.
E voltou a cantar-se, lado a lado, ensanju e kyese!
...

NSUSU ZAONSO MUBOTE

Na semana que se seguiu ao matrimonio os tios da nubente foram visita-la, a pedido do marido que tinha beneficiado os seus com um repasto-teste executado por Boana ainda com o casamento fresco. Tinham passado apenas 48 horas da cerimonia religiosa e copo d'água. A tradição dos vakwombwelo dita que a casada tem de fazer a sua primeira refeição para os sogros, sob supervisão atenta de uma ou duas tias do marido. Assim foi e no final a nota atribuída pelas tias-júri foi positiva ao que em vez de ser multada acabou prendada.

Kapesi fez o mesmo. Não foi à cozinha mas mandou a mulher à loja e ao mercados dos Zimbos comprar tudo quanto fosse típico e do agrado costumeiro dos sogra. Ele mesmo fez questão de apetrechar a garrafeira com as mais elogiadas adegas e destilados escoceses, não se esquecendo do malavu encomendado a um vini-extractor do Sasa. Em fogo brando, o grelhador abraçava caçadas que apimentavam conversas intercaladas entre o bom Português, apendido na escola e destilado apenas em convívios muito formais, o calão e a língua dominante entre os vakwonano de regiões rurais.
- Esse moço, estávamos só a "lhe" desconfiar pelo casamento tardio, mas parece que é boa pessoa. - Atirou Kindala, tio de Boana que representava Menso Mankala.

Choveram garfadas e estalaram copos. Jorrou uva até noite adentro, quando, a olhar para o volume abdominal de Boana, o tio confidenciou à sobrinha:
- O sobrinho é mesmo bom?
Boana viajou ao passado e lembrou-se de uma expressão ukongo que traduzia e simplificava seus sentimentos e sua análise sobre o marido que escolheu.

- Nsusu zaonso mubote (toda a galinha é boa)! - Respondeu, ganhando do tio a tradução semântica da expressão ora anunciada.
- É verdade, sobrinha. Galinha pode ser careca, sem penas, você "lhe" põe na mwamba, fica sempre bonita na boca da pessoa. Assim também  são as pessoas. Só que se beneficia ou se prejudica com essa pessoa "lhe" faz o justo juízo. Tem mbora razão sobrinha, me desculpa só. Meu neto já está a caminho, almoço com bebidas já nos deu, falta mais o quê? Não liga gente na cidade com mentalidade da selva. - Concluiu o tio já meio canecado.
- Boana deu-lhe o beijo do costume, sinal de que o tio estava já na penúltima ronda da garrafinha alcoólica, ao que reconheceu e acedeu, apelando aos convivas para o discurso de agradecimento e recomendações aos nubentes.
- Já vimos o sol raiar no crepúsculo de Boana. É sinal de que as terras são férteis e dentro em breve teremos herdeiros. Para nós, casamento é isso mesmo. Não se esqueçam de nomear os parentes. Se o fizerem lado a lado fica maia melhor. Na vida a dois não há só sorrisos. Há também tristezas. Há dias que alguém dorme cedo e finge ver bonecos com as crianças só para não se dar encontro com o outro, mas tudo termina no quarto, no leito.
Kindala discursava pedagogicamente e não procurava palavras. Parecia uma lição decorada há anos. E prosseguiu, virando-se ao sobrinho-genro:
- Sobrinho Kapesi, a mulher sempre comeu do não. Fica atento. Às vezes é a mão que lhe dói mas mostra a perna. Saiba ler na escuridão e nunca esqueças a cor da minha porta. Quero muitos netos e um chará. Isso passará por muito tempo de coabitação e equilíbrio. Cada um, à partir de hoje, começam já a conhecer o outro e buscar o meio termo. Tempo de namoro é de mentira. Até diabo vira anjo.
Kindala fez pausa no discurso que já levava tempo apesar de actual, cativante e seguido com muita atenção. Boana e Kapesi seguiam aprovando com a balançar das cabeças.
- Dizia, já para concluir, devem se conhecer de verdade. Vão entrar agora no teate de verdade sobre o marido ou a mulher que cada um escolheu. Também passamos por esses bocados e resistimos. Só uma chamada de atenção à sobrinha Boana: marido não se bate na cara. Bate-se na cama.
Dito isso, e sem deixar margem para comentários à sua expressão final, Kindala marcou o primeiro passo em direcção ao corredor. A garrafa de vinho de 14 anos para combater a pelengwenha do dia seguinte, encontrar-lhe-ia no carro.
Cá em cima, ainda no vigésimo sexto andar de un dos edifícios mais altos da nova cidade de Kipedro, os primos e cunhados fechavam conversas com o habitual e já  quase tradicional "copo da porta".
- A casa está sempre aberta. Venham ver-me e chamem-me para as vossas picadas. Na minha terra é assim: quem casa transita para o convívio e cuidados da outra família. A boana já está entregue, não é isso mor? - Concluiu Kapesi,  abraçando os cunhados Nzuzi, Nasimba e a esposa Boana que não podia estar mais contente do que estava.
Os convivas, de forma espontânea, mas coordenada entornaram goela adentro o "líquido da porta" e comemoraram:
- É isso mesmo nosso 'nhado. Amanhã vamos te arrastar à praça do Sasa para tomar malavu com carne de paca.
E desceram também carregando a encomenda do tio Kindala que se deliciava no carro com a mais nova batida de Socorro, filho querido ukwanano.

Nota> texto publicado no Semanário Angolense de 05.09.2015