Era Kasimbu (cacimbo). No Reordenamento do Rangel, Mangololo tinha um descampado que juntava anos, se calhar décadas, sem uma capina sequer.
Nesse espaço LITERÁRIO a sua crítica é muito BEM-VINDA. = ® Reservados todos os direitos ao autor deste Blog =
sábado, 1 de abril de 2023
QUANDO ZEZUS SE JUNTA AO MÚSICO
quarta-feira, 1 de março de 2023
MANGODINHO EM 7 RIOS
Na banda, rio é rio mesmo de verdade, com caudal, margens, lodo preto, algas verdes, peixes com escama e sem escama, água que corre apressada, lenta ou estagnada e meninos que fogem de casa para fimbas desgovernadas. Já antes da viagem, Mangodinho, como é costume dele desde há muito tempo, foi ao seu Kuteka banhar no Longa.
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2023
ATENTADO AO PUDOR NO DESFILADEIRO DO AMOR
O boné policial estava esquecido na ponta de um arbusto cortado para alimentar fogueira e cuja cercania guardava a descarga intestinal de alguém que na véspera se alimentara de milho.
Sa Ufuku caminha à frente dos filhos e sobrinhos, em coluna, apesar de poderem andar aos pares. Cimene-mene, o filho kasula, foi quem viu o chapéu.
_ Apanhar não é roubar gritou, fazendo atenção de se dirigir ao achado, que estava a metro e meio da picada.
_ Xé! Toma cuidado. Não sentes o cheiro que vem da mata? Deve haver aí qualquer azar. Deixa o chapéu e vamos embora. Está a nascer sol. _ Alertou o ancião, tentando despistar o filho de uma desgraça.
_ Deve haver cadáver por perto- _ Pensou sem o dizer.
Traquina, Cimene-mene, fazendo
descaso do aviso do velho, deu um salto e pegou o boné.
_ É meu e ninguém me recebe. _Alertou.
_ É da polícia. _ Disse-lhe o primo
Lwanya.
_ Então deve acontecer qualquer
coisa estranha aqui. Assim o autor dessa pouca-vergonha é polícia?! Vou
apresentar queixa na esquadra. _Desabafou Sa Ufuku, endireitando o cachimbo na
boca.
O desfiladeiro do amor, caminho
que trilhavam, é uma linha longitudinal de 2,5m de largura. Foi assim apelidado
pelos jovens que o frequentam para seus namoricos longe dos pais e dos
incómodos da polícia, que proíbe aventuras amorosas em viaturas nessa zona.
O desfiladeiro parte da Estrada Nacional para sítio incerto. A única certeza que se pode inferir é a de que ele não atravessa o Lwacimu que se apresenta à sua frente, numa distância de três a quatro quilómetros. O rio rosna cansado de tanta caminhada solitária ainda pela frente e de tanto desrespeito que tem de aturar até se afundar no Kasay que o
morre no Nzadi e este no grande Kalunga-Lwiji. Pelo percurso deixa lágrimas e
alegrias. Leva detritos também e aos magotes.
No desfiladeiro do amor, lebres e
humanos revezam-se na permanência e nos actos procriativos. Os primeiros mais
ao estilo e ambiente natural. Os segundos encapuzados pela noite e pela
distância. Estes, trancados em máquinas rolantes, embaciam vidros na noite fria
de Agosto e, mesmo com fome de carne, não se entregam à vontade de caçar
carne tenra de lebre nutrida. Afinal, é carne fresca que levam consigo, nas
viaturas de luxo cedidas pelos patrões. Nessa paz amorosa, lebres e láparos
ainda trôpegos dão azo aos seus zigue-zagues banhados pelas luzes que se perdem
no matagal nordestino.
As orgias são nocturnas, assim
como as lebres são noctívagas, e acontecem longe dos olhares da polícia que só
de vez em quando, ao meio do mês e ao final de semana, quando o pão e a
gasolina se tornam raros, se dirige ao desfiladeiro para surpreender alguns
incautos apaixonados, negociando a soltura daquilo que no dizer dos homens da
farda azul é «motivo de prisão imediata».
É assunto ocorrido na mata e tudo
deve ficar resolvido aqui mesmo, concorda-se previamente.
_ Aceito a proposta, senhor polícia. Só discordo da inoportuna visita, quando estava já na hora «H». Pior que tudo é ter-me estorvado e por cima me aplicar multa. Onde é que já se viu isso? _ questiona o desfilador.
_ O senhor atentou à moral
pública...
_ Moral pública?! Como assim?! _ É moral pública sim e o senhor não tem nada que reclamar. Essa é uma via
pública, construída para as pessoas passarem e não um sítio de imoralidade.
_ Namorar é imoralidade?! O
senhor não namora?
_ Ó senhor, haja respeito. Eu
tenho mulher e não sou como o senhor que deve estar com uma miúda que não é sua
senhora.
_ Senhor polícia, respeito-o e exijo o mesmo respeito.
Primeiro, é que a via é privada. É do dono do terreno da quinta que deve existir
lá mais adiante. Segundo, o senhor vai ter de me provar que a menina não tem
compromisso comigo. Terceiro, o senhor mente quando diz que não namora,
porque mesmo com as senhoras lá de casa também se namora.
A equipa do autuante continuava
na viatura de carroça aberta, a espera do produto da caça. Uns aproveitavam
fumar, enquanto um outro se tinha metido na mata, se calhar, para se desfazer
da comida triturada pelo estômago.
E o debate prosseguia entre os
dois homens.
_ À noite, aqui só passam lebres,
senhor polícia. _ Argumentou o desfilador.
_ Então é atentado ao pudor. –
Sentenciou o agente, já com os documentos do autuado no bolso da sua farda
desbotada e a reclamar substituição, para forçar a «gasosa≫
ou o «saldo».
_ Discordo senhor polícia. Pudor
das lebres ou dos colegas frequentadores do desfiladeiro para o mesmo fim que
me trouxe? Isso que está a fazer, senhor agente, é ilegal e sem respaldo na
lei.
-_ Ai é? Queres evocar lei aqui?
Então vamos à esquadra. _ Ameaçou o agente.
_ Como é que vamos à esquadra se fizemos um pré-acordo para resolvermos aqui mesmo o assunto por ter ocorrido
na mata e à escuridão?
_ Então passa a «gasosa» e não se
fala mais no assunto. Olha que somos quatro na patrulha!
Joca pôs a mão debaixo do assento
e sacou um saco com refrigerantes. Por sorte, eram mesmo quatro as latas que
comprara antes de se fazer ao desfiladeiro.
_ Estão aqui, chefe! Como o
senhor pediu, estão aqui as gasosas. São quatro e mais duas águas.
Sem contra-argumentos, Kamosu encaixou o
golpe do espertalhão do autuado (não contava com essa de gasosa de gasosa
mesmo), pegou no saco, abriu uma delas e provou-a. Estava ainda fria e
engoliu-a toda, num só trago. Quase a engasgar-se, bateu-se no peito e soltou
um muxoxo.
_ Porra, pá! Por que é que não me disseste que estava muito gelada? Se a gripe me pegar vais aumentar na multa. _ Voltou a ameaçar, algo sarcástico. Em seguida, jogou o saco à patrulha e, mãos no bolso, devolveu a carta de condução.
_ Boa continuação e volte sempre. _ Despediu-se, engatando marcha inversa até à boca do desfiladeiro.
_ Volte sempre?! Esses gajos pensam que sou o multi-caixa deles? Sacanas, desta vez bateram na rocha: quer gasosa, leva gasosa! _ Disse, algo inchado com a proeza, à companheira, que já tinha largado um mar de lágrimas.
A intrusão policial fora para
Joca e Cajó um balde de água na fogueira.
_ Tudo estragado, possas, pá! _ Atirou o desfilador, furioso com a «mota que (já) não pegava».
No dia seguinte, sábado da
lavoura para os funcionários públicos e para os aldeões das redondezas, seria
recomposta a cena em várias versões pelos caminhantes que se deparariam com os
trilhos e o sémen asfixiado nos preservativos espalhados pelo sítio.
_ Isso é que é atentado ao pudor! _ Desabafou Sa Ufuku, dirigindo-se com o boné policial à esquadra da aldeia para
tirar satisfações ao comandante.
_ O povo confia na polícia para
acabar com a pouca-vergonha, mas a própria polícia, afinal, também se mete lá?
Isso é atentado à moral, senhor comandante! - Rematou Sa Ufuku, sem nada mais
dizer.
segunda-feira, 16 de janeiro de 2023
A VIDEIRA E O EUCALIPTO
In "Contos para a Lúcia"
— Ao pé de mim ninguém cresce! — dizia o eucalipto, com voz ameaçadora.
— Com o tempo, irei aonde eu quiser! — respondia a videira, cheia de coragem.
Plantados no mesmo quintal e no mesmo ano pelo tio Mukalakadi, o eucalipto cresceu rápido e assumiu o papel de Árvore Maior. Era quem mais se destacava, abafando as ervas e outras plantas que tentavam firmar-se ao seu lado. Cresceu tanto que, aos cinco anitos, já podia ser visto a dez quilómetros, tamanha era a sua altura.
A videira, lenta e rasteira, seguiu o seu caminho horizontal, deixando pelo percurso saborosas uvas que alimentavam os meninos do quintal, os pássaros e os cágados — os animais de estimação do tio Mukalakadi.
Com o tempo, a videira alcançou o arame farpado que encimava o muro e, sem pressa, foi-se esticando até tocar o eucalipto com um dos seus braços, encostado ao muro do quintal.
— Cá estou eu! Duvidaste que eu chegaria até ti? — disse a videira, entregando-se alegre ao sol.
— Deixa de me sufocar com essas garras! — reclamava o eucalipto, sacudindo-se todos os dias para ver se se livrava da videira.
terça-feira, 3 de janeiro de 2023
SOBRAS DA GUERRA AO OLHO DE SOBERANO KANYANGA
Prefácio a:
Sobras
da guerra – segunda edição - de Ismael Mateus
A História, “relação entre duas
instâncias: o sujeito cognoscente e o objecto a ser conhecido” (Heródoto 484
a.C.-425 a.C.) manda-nos registar os traços e acções marcantes
de cada época das colectividades humanas, podendo esse registo ser feito de
forma directa, usando-se, para o efeito, documentos, metodologia científica e
registo histórico ou ser feito de forma indirecta, usando-se, enquanto fontes
alternativas à narrativa histórica, a crónica, a literatura, a oratura e outras
formas conhecidas e aplicáveis. É ela, a História, que nos faz conhecer o
passado, em suas múltiplas dimensões humanas, compreender o estágio hodierno e
corrigir/melhorar ou repetir o passado.
Em Sobras da guerra, Ismael Mateus faz-nos, por via do traço literário e conhecimento
de imensas realidades do seu tempo, percorrer o último quartel do século XX e as
duas décadas do século XXI, podendo os episódios ser situados em cidades e
vilas angolanas onde a burocracia, o narcisismo, o clientelismo e a subversão
de valores se impuseram, assim como nos subúrbios e campos onde o conflito
armado das distintas guerras angolanas fez dos homens meros objectos. E que
objectos?!
Ao folhear o livro, o leitor sentir-se-á como se tivesse
adentrado uma sala de cinema a oferecer-lhe conteúdos multitemáticos que se
estendem do:
a. libido-amoroso:
“Chamava-se Zaida Ferreira Dala e ninguém sabia donde era, nem como de um dia
para o outro ocupara aquela casa de quintal e muros altos …. Era uma mulher
carnuda, de grandes peitos de almofada e uma bunda fora do comum. Ao andar, as
suas fartas nádegas dialogavam uma com a outra… Nós, os miúdos do bairro,
esperávamos pelas suas aparições matinais e ao entardecer para apreciar o canto
do seu andar…”
b. policial:
“Ao longo da intensa formação de três anos ao lado do chefe Sousa, tinha andado
pelos becos e estradas mais perigosas da cidade. Tinha enfrentado gatunos,
bandidos armados e fechado bares nocturnos de má fama. Tinha conquistado também
o meu quinhão na fama de incorruptível, ganha pelo chefe Sousa… recebi com
naturalidade a indicação para um caso tão importante, que envolvia dinheiros e
a possibilidade real de suborno dos investigadores.
Ismael Mateus, conta-nos ainda como alguns se foram “safando”, com esquemas
e compadrios, fugindo disso e conseguindo aquilo, numa aversão ao que a lei de
então e a consciência colectiva demandavam indistintamente dos cidadãos.
·
Mas o pai sabe que não posso
trabalhar sem o documento militar!
·
Não te preocupes, o meu amigo
sabe. Lá não é preciso. Vai lá amanhã e fala com o inspetor Jacinto…
c.
Acção
pura: O livro traz-nos também recortes que nos fazem reviver a história militar
recente de Angola, com os ardilosos “comandantes de Lembá” e de outras bases
tantas a ceifarem vidas inocentes, na ânsia de juntar patacas fáceis. Sem
olvidar a festa pela morte alheia, como se viveu num ano não muito recuado, trago
Erich Hartman que atesta que “a guerra é um lugar onde jovens, que não se conhecem
e não se odeiam, se matam, por decisões de velhos que se conhecem e se odeiam,
mas não se matam.” Com certeza, tivemo-la e vamos tendo outras guerras
silenciosas, também violentas e mortíferas.
Em Sobras da guerra, o autor serve-nos o grito de um pai, Abel Puri,
que, como muitos, perdeu os seus e a esperança, gritando de vento em vento “…
Quem vai-me enterrar?” ou um afoito JP que, em busca de justiça açaimada, ganha
o cognome de “inimigo do Estado”.
Quem, afinal de contas,
leva o Estado a castigar os “poderosos” de ocasião e defender os injustiçados,
devolvendo-lhes uma nesga de luz e de esperança, enquanto integrantes de uma
mesma sociedade e terra em que nascemos e nos há de receber?
A inquietude do cidadão e escritor é recorrente e vem desde o “Bué
de Bocas” e ou “Recados ao (seu) chefe” que desfilaram em ondas hertzianas e
“papiro”. Ismael Mateus é, por natureza,
um denunciante de anormalidades sociais e, neste livro, lança um desarrimo
a comandantes e responsáveis pirrescos, à acomodação criminosa de gente de má índole
nas estruturas do Estado, órgãos de defesa e segurança e nos distintos escalões
da administração pública, aniquilando, subjugando as vítimas (das opressões
modernas), promovendo e endeusando os carrascos.
Numa altura em que o supérfluo e periférico ganham o altar e os media
nos brindam, dias sim e semanas também, com a execrável sacralização de
atentados à moral pública e a exaltação de polícia-político-predador, em
detrimento do trabalho e do mérito, pouco mais nos resta senão buscar o consolo
que, a mim, Ismael Mateus dá, ao apresentar-nos Sobras da guerra, e encontrar nela a inspiração em exemplos encorajadores fundados no
profissionalismo de Sérgio Romão, na grandeza e fineza de Rita ou ainda na honradez
de António Costa, como sinal de que nem tudo anda perdido. A moralização, a
punição e a administração de uma justiça que não olhe a castas impõem-se e pedem
luta tenaz de todos os cidadãos
dignos desse tratamento.
É por estas e muitas outras razões que - vai, certamente, descobrir no
livro – recomendo, vivamente, a leitura desta obra e a sua elevação a documento de consulta complementar
sobre a História recente de Angola.
Soberano Kanyanga, Sevilha, Outubro de 2022.
sábado, 24 de dezembro de 2022
KATEMBA KEVALA O "CINCO LITROS"
Nasceu algures. Longe no tempo e na geografia. A Lunda foi terra de desterro, no tempo dos contratos camuflados, pagos com fuba rejeitada, peixe podre e porrada, se refilasse. Kaputu estava no poder e o mumbundu de abaixo da vida de um cão colonial morto de sarna.
Vila Luso e Vila Teixeira de
Sousa são os únicos nomes de terras distantes de que se lembra. A sua embala,
no planalto do Vye, é desconhecida do mapa mundi e por mais que a grite
ninguém dela tem memória. Longe da terra, dos pais e dos folguedos de juventude
mutilada, passeiam-lhe no pensamento apenas os pássaros, as danças à volta da
fogueira com aquelas kafeko de seios encajuados e o cheiro da chuva. Sim, o
cheiro da chuva caída na madrugada do dia da desgraça.
Pelo Luso apenas passou quando fez
a sua primeira viagem naquele comboio movido a brasas de eucaliptos. Pela
Teixeira de Sousa apenas parou para ser acorrentado ao pescoço com outros
vyenos e conduzidos à Bed Ford que os levou à vila Henrique de Carvalho, escala
para Portugália, numa empresa de diamantes.
- Meus akunlu, meus
antepassados, meus espíritos - cantava dia e noite quando folga houvesse – mostrem-me
onde estou e que caminho devo tomar para regressar ao kimbu.
Os amigos, outros contratados mbalundu, alcunharam- -no de «Cinco Litros». Seu nome, Katimba Kevala, há muito tinha caído no esquecimento. Na roça, na mina ou em casa de um patrão ocasional, carregando picaretas ou cascalho, Katimba Kevala levava sempre uma mochila às costas, na qual estava alojado um garrafão de cinco litros repleto de kacipembe ou walende. Uma cortiça evitava a evaporação e o entorno do destilado que lhe chegava à boca através de uma canalização arrojada.
Um dia, quando chamado para
capinar o terreno à volta do posto de socorro da Companhia Kamanga, encontrou
já umas tubagens minúsculas que servem para canalizar o soro fisiológico.
Chegado à casa, juntou a arte ao
engenho e do garrafão alojado na mochila à sua boca foi meio caminho. Qualquer
biscate em casa de gente com dinheiro servia para abastecer o seu garrafão de
cinco litros.
Aguentou os dois anos de
contrato, uma forma de moderna escravatura luz-e-tana, como peça de trabalho
força- do. A dureza do acampamento fê-lo construir uma palhota com duas
divisões: o dormitório e outro que chamava de cozinha. Na verdade, não passava
de quatro paus planta- dos no solo, um tecto de capim e uns ramos barreados que
travavam os bichos acossados pela chuva e os ventos mais violentos do Nordeste.
Resistiu às mulheres mais
adornadas da região e às kaxinakaji carentes de calor. O seu calor era o
conteúdo do seu garrafão de cinco litros. Esse sim, era o seu melhor amigo e
consolo em dias de má memória.
Embora ferido na carne e na
mente, Katimba Kevala guardou sempre o sonho de liberdade, a esperança de ver
os seus semelhantes na posição dos brancos que mandavam, que queixavam à
administração, que batiam de forma indiscriminada, que faziam do corpo do negro
seu saco de treinos. E fez um plano.
-No dia do pagamento. Ekumbi lyo
kufeta ekumbi lyange. (O dia do pagamento é o meu dia). E comprarei
caçadeiras e pólvora. E inverteremos as bandejas. Treparemos montanhas.
Gritaremos alto também. Era sua canção encriptada em língua gentílica. Poucos a
sabiam decifrar.
Os homens trazidos pelo comboio
estavam visivelmente esgotados e as mortes eram notícia constante. A farmácia
já registava uma gritante carência de antibióticos e, mais dias menos dias,
aquela colónia estaria sem homens. A companhia decidiu chamar o intermediário,
também conhecido como contratante, para pagar os escravos e levá-los de
volta. Em substituição pediu homens fortes. Mbalundu jovens que não tenham
desperdiçado vidas no walende ou kangonha. Lopes da Sé, o funante para seus
conterrâneos, era o homem que percorria as al- deias interiores com cipaios à
caça de nativos, cuja força de trabalho vendia aos belgas e ingleses da
Companhia Kamanga. Foi chamado pela companhia para receber a paga: a sua e a
dos serviçais mbalundu.
Cinco Litros tinha acabado de
chegar do alambique quando foi avisado que o pagamento e o regresso estavam
para dias. Colocou-se junto ao muro do quintal de Lopes da Sé que não demorou
em chamá-lo para arrumar as imbambas que levaria à nova missão de rapina.
«Cinco Litros» atento ao trabalho
e aos detalhes do que ia acontecendo em casa do luz-e-tano Lopes da Sé,
assistiu à chegada da mala de dinheiro que o angariador de escravos modernos
escondeu de baixo da cama. Findo o trabalho, fingiu despedir-se e rumar à sua
palhota. Mas apercebendo-se da saída de Lopes para festejar a mala cheia e
tomar umas imperiais com o primo que chegara da metrópole, Cinco Litros abeirou-se da casa e fez-se cama abaixo, levando para um esconderijo que abrira
na sua cozinha a apetecível mala do pagamento.
A noite foi de rusgas e
interrogatórios. Todos os contratados e empregados livres estavam sob o olho da
pidesca judiciária. As saídas foram suspensas e as compras nas lojas sob o olho
atento do comerciante que tinha um menino pronto para avisar a polícia. Os que
apresentassem notas de cem angolares eram automaticamente despojados do valor e
encaminhados à administração, onde eram recebidos com valentes palmatórias até
descobrirem o que não fizeram.
Cinco Litros manteve-se tranquilo. Foi gastando as no- tas inferiores nos seus alambiques, uma a uma.
As maiores levar-lhe-iam a cumprir o sonho guardado a sete chaves. Fazia o seu
trabalho diário e nunca a polícia desconfiou dele. Viveu à grande, na sua pequenice,
mês e meio, até que as cédulas inferiores se esgotaram. Aos seus consortes
dizia apenas que estava a "gastar o fruto do seu trabalho durante dois
anos de penúria.
-Estou a consumir o meu sangue e
o suor de anos de escuridão.
Ninguém o levava a sério, dado o
seu estado de kacipembado permanente.
Sem dinheiro miúdo, Cinco Litros
levou uma cédula de cem angolares ao alambique de Kexilemba, mulher respeitada
na Lunda. Pediu para que a trocasse em notas miúdas que gastaria inteirinhas na
sua destilaria.
-Vou tentar – Concordou a mulher,
católica praticante e temente ao Deus trazido pelos colonos.
A mulher tentou e acabou detida. Os seus negócios conhecidos pelos brancos da companhia permitiram sus sol tura. Mas a nota retida ficou.
Era sábado. Lopes da Sé e o administrador Xavier Martins estavam insatisfeitos em ver o tempo passar sem
que uma pista sobre a mala do pagamento tivesse sido encontrada. Um padre bufo
foi recrutado sacristia adentro. Kexilemba, domingueira, foi ao
confessionário do padre pide.
- Filha de Deus, como vão seus
negócios? - perguntou o padre pidesco, procurando conversa.
- Os ningócio vai bem, sô padre.
- Então conta-me quantas notas de
cem angolares recebeste nesta última semana.
- Só uma, sô padre.
- E de quem recebestes os ricos
angolares? É voz de Deus que te pergunta, minha filha.
- É do Cingo Litro, sô padre...
Enrolada pelo padre, Kexilemba o
segredo do dinheiro contou. E seu irmão entregou.
Cinco Litros foi amarrado e
deitado sobre a roda da Bed For. A sua sorte estava dependente do resultado do
desbarate que sofreria sua casa.
Homens fortes, provenientes doutra
margem do Luachimo, foram enviados à palhota do infeliz. Arrancaram o colmo e
nada. Desplantaram os troncos e nada. Enxadas, picaretas e pás um metro de
terra removeram.
À primeira picaretada a relva foi
aos ares.
- Fogo! Fogo! Lenge-no!
Correram os menos corajosos e
pasmaram-se os mais destemidos. O contacto entre metais, picareta e mala me-
tálica do pagamento fez estalar uma fagulha. Estava descoberto o segredo.
Lopes da Sé encarregou-se ele
mesmo de desembraiar a Bed Ford e despedaçar -Cinco Litros, cujo corpo foi
alimentar os répteis famintos do Luachimo.
Não se sabe exactamente há quanto
tempo ocorreu isso, mas até hoje sua fama ainda corre o leste e o trecho do rio
em que foram jogados seus pedaços é conhecido como a lagoa do Cinco Litros.
Nota: adaptação de uma estória
contada pelo ancião Jorge Lopes, em Mwono Waha, Saurimo, a 11 de Novembro 2014.
Publicado pelo Jornal Cultura de 15.03.2023
quinta-feira, 1 de dezembro de 2022
O SALÁRIO DO ARLINDO E O CÁGADO DO METRO
Manhã de domingo, seis horas. O meu sono ia ainda à quinta velocidade, mas, sendo tropa antigo (que não dorme) fui a tempo de ouvir o Arlindo (13 anos por completar) a despedir-se:
sexta-feira, 11 de novembro de 2022
ANGOLA, FRELIMO E COINCIDÊNCIAS
A história da colonização portuguesa, com apetites ingleses pelo meio, o mapa cor-de-rosa, as rebeliões nativas, a tomada de consciência nacional, a frequência de mesmas escolas metropolitanas, a passagem pela CEI¹ e a mobilização para a luta armada que levou às independências são comuns. Tirando pequenos laivos de "excessivo apego à estrutura sintática", para os luso-índico-africanos, e refinada dicção, a roçar ao tuga alfacinha, para os luso-afro-tropicais-atlânticos, é tudo, como se diz em Umbundu, walisetahãla²!
¹ Casa de Estudantes do Império.
² Parecidos.
³ Mar, aceno, imensidão.
⁴ Alusão a moçambicanos. Saudação.
⁵ Merecedor de prémio Nobel.
⁶ Alusão ao vinho tinto.
⁷ Garrafa.
sábado, 1 de outubro de 2022
VULAMA LEVA MANGODINHO A TEIXEIRA DE SOUSA
Quando lhe disseram "se prepara, dia 42 vais a Teixeira de Sousa", Mangodinho rir era só rir que deixava à mostra o último dente de siso. Preparou as imbambas, beijou os filhos, um a um. À mulher, deu um selinho só. Antes de meter o pé fora de casa, revisitou as palavras que guardara no ouvido e no caderno de notas.
quinta-feira, 1 de setembro de 2022
MORDENDO O CINTO DO PAPÁ
quinta-feira, 4 de agosto de 2022
De Saulhimbo a Saurimo: APRESENTAÇÃO NA UEA
Caros confrades (escritores),
Parentes e amigos do Dr. Domingos
Kajama,
Minhas senhoras e meus senhores!
Façamos uma vênia especial a
todos meninos presentes.
Permitam-me agradecer ao autor, Dr.
Domingos Kajama, por me ter confiado a missão de falar aos ilustres presentes
sobre o seu livro.
Até hoje ainda me pergunto, por que me terá recaído essa missão,
existindo nessa imensa floresta de literatos mentes conhecedoras e criativas
que dão vida a penas escorreitas (Soberano Kanyanga é ainda uma criança a
tentar engatinhar).
Quando em Maio deste ano, o Dr.
Kajama me contactou para prefaciar o livro que temos em presença, dando-me nada mais do que duas semanas, fiz-lhe
a seguinte pergunta:
- Porquê eu?
- És tu porque gostas da Lunda,
teus escritos trazem a Lunda e és, por essa razão, um mwana Kacokwe!
- Ewa tata, nguna sakwila cinji. Yami nguli kacokwe! – Respondi,
aceitando a missão.
À medida que fui lendo, fomos trocando
impressões, alertando para pequenas gralhas no texto inicial, ou discutindo,
por exemplo, por que razão apresentava o título “O diamante e suas
consequências”?
Quando o título evoluiu para “DE
SAULIMBO A SAURIMO”, apresentava um acento grave sobre A, o que nos levou a novo
debate até à e retirada do sinal diacrítico. Também analisamos por que não escrevia segundo o que dita a Resolução 3/87 de 23 de Maio,
do Conselho de Ministros, sobre o alfabeto da Ucokwe e respectivas regras de
transcrição (só para particularizar essa língua).
E, tal como eu fui anotando os
conhecimentos que o livro acrescentava aos meus dez anos intensos de vida e
trabalho na Lunda, o Dr. Kajama também foi tomando notas e respondendo ao que
lhe colocava. Encontrei em Kajama um pai, com muito para ensinar e aberto a
somar aos seus largos conhecimentos o que é necessário agregar.
O livro está estruturado em dez
capítulos em que se aborda, nomeadamente:
1- O
percurso dos colonizadores portugueses, a ocupação do império Lunda e
denominação da antiga sede do Distrito da Lunda;
2- A vida
sociocultural, económica e política dos habitantes do antigo Império Lunda;
3- A chegada
dos portugueses a Saulhimbo e impacto na vida política, económica e
sociocultural dos nativos;
4- A
descoberta do diamante e suas consequências;
5- Contribuição
da Diamang no desenvolvimento económico e sociocultural do então Distrito da
Lunda;
6- A elevação
da vila Henrique de Carvalho à categoria de cidade;
7- O papel
determinante dos Movimentos de Libertação Nacional;
8- A
independência de Angola e as transformações políticas, económicas e
socioculturais;
9- Notas
Conclusivas
10-
Provérbios, parábolas e anedotário (Cokwe).
Em
todo o livro, Domingos Kajama pregoa o despertar do homem do Leste angolano,
cuja aculturação, subjugação psico-social e política do então colonizador
adormeceu o seu “eu”. Esse livro é um despertador que o leva ao passado
histórico (pré-colonial), recordando-lhe a essência angolana e africana do povo
que habita a região da Lunda. Em todas as páginas do “De
Saulhimbo a Saurimo: Contributos para a história social, cultural e política da
Lunda”, Kajama parece falar em vez de escrever, ou
melhor, escreve como se estivesse a contar as suas memórias/vivências: o que
ouviu, o que leu, o que viveu e o que pensa, apresentando-nos um texto
escorreito e convidativo, repleto de imagens, sons e ruídos (das águas, folhas
e do vento) que também nos trazem mensagens.
Bem, não falarei mais sobre o
prefácio que muitos já terão lido e outros vão ler. Vou reforçar o pedido que
tenho feito aos mais velhos: registem os
vossos conhecimentos, as vossas experiências, tirem da cabeça e passem ao
papel. Mesmo quando a mão não obedece, há sempre um sobrinho ou neto para
gravar e converter em texto. O resto vem por arrasto.
Quanto a isso, o Dr. Domingos Kajama
fez, e com a mestria e qualidade requeridas, a sua parte. Cumpriu com um dever de homem do seu tempo e
de sua dimensão política e intelectual. Muito obrigado, Dr. Kajama, e parabéns!
É, em suma,
um livro que nos faz viajar no espaço e no tempo, apontando-nos caminhos lestos
para um reencontro com a nossa identidade.
Muito obrigado!
Soberano Kanyanga, UEA, 04.08.2022




