segunda-feira, 15 de junho de 2015

"ZANZADO" NAS MARGENS DO KWANZA


Desta vez, transportado pelo António (nome do Tucson marron que me transporta), desafiei a distância camuflado na cauda duma coluna com batedores de Luanda ao Dondo. Os buracos evoluíram para crateras em quase toda extensão do troço Zenda-Dondo, assistindo-se um tráfego lento e perigoso. Mas na carona da coluna que levou um dos notáveis do governo central a inaugurar um centro de produção de larvas e tilápia em “Massa Ngana” senti pouco o incómodo dos colegas automobilistas que, fugindo dos buracos, volta e meia aparecem na faixa contrária, repartindo os do sentido ascendente um só via da estrada cujos sentidos estão separados por uma linha de betão armado. A impedir que a coluna do chefe encontrasse dificuldades estavam dezenas ou mesmo centenas de polícias, o que não deixava de criar estranheza a todos os que trafegavam entre Luanda e Dondo num dia de Março.

Enquanto os governantes cuidavam, em Massangano, de assuntos ligados à produção em larga escala de choupas para amanhã, no Dondo, a conversa girava em torno daquela coluna que se supunha ser do comandante geral da polícia nacional, dada a prontidão com que os agentes se fizeram à estrada, e em torno do rio que gera vida e felicidade para muitos.

Numa barraca à marginal da “velha cidade de Dondo, local em que Paulo Dias de Novais não mais pôde navegar, fundando ali mesmo uma cidade, Chiquito que era homem da estrada, conhecedor de quase todas as províncias de Angola, começou por admirar o rio Kwanza, engrandecido ao longo da caminhada e que se entregava ao deleite de centenas de convivas.

- Epá, estão a ver o rio, né? Vocês deviam ir ao Citembu, onde nasce. Lá o Kwanza é apenas um fiozinho. É como um bebé que nem sabe ainda correr. É lento e desajeitado. Sem personalidade. – Contou Chiquito, acompanhado atentamente pelos companheiros de ocasião na barraca da dona Pascoalina.

- É verdade. - Respondeu Rafael, nascido em Kalandula. – Fiz a tropa no Bié e conheço a nascente. Às vezes, os rios se parecem a nós homens. Mais robustos e trungungueiros enquanto jovens e mais calmos já a “vovoitar”. Quem vê o Kwanza no seu médio curso bem imagina na meiguice próximo da nascente e dessa mansidão, a caminho da foz. – Disse mostrando traços filosóficos o antigo estudante da missão de Késwa.

E o Kwanza estendia-se tranquilo, sem o rugir dos rápidos energéticos de Kapanda, Lawka ou Kambambi. Entregava-se aos olhos contemplativos de visitantes e apreciadores de kakusu na marginal do Dondo ou ainda às mãos límpidas dos lavadores de roupa nas suas margens.

O Kwanza é chamariz até para a idosa viet-kong que grita “amicó, amicó, sado, sado. Compla balato, amicó”. E foi aqui que encontrei Pierre. Apenas Pierre, porque disse não interessar outro nome ou sobrenome.

- Eu me chamo Pierre. - Disse o lavadeiro que nasceu em Kibokolu com vivência no Congo Brazzaville onde diz ter aprendido a fazer qualquer coisa que dê dinheiro limpo.

E reforça que o seu dinheiro é limpo como as águas do Kwanza a que junta força e sabão para atender aos notáveis da cidade.

- Comecei a lava roupa depois de ver um negócio igual no programa Jornal África, da TPA. Na altura fazia biscates de malavu (maruvo) mas rendia pouco. – Contou Pierre. – Aqui, o dinheiro só depende da força. Temos banheiras (bacias) de cada dois mil, de mil e setecentos e cinquenta cada. Os clientes são mesmo pessoas daqui da cidade ou pessoas que estão de passagem. Estes, enquanto comem e bebem para repousar, entregam as suas roupas e nós cuidamos.- Diz Pierre, orgulhoso do que faz. E nas águas meio turbinadas pela chuva que cai quase todos os dias Pierre gana a companhia de senhoras e adolescentes. Uns cuidando de roupas de casa e outros levando moedas ao mealheiro.

Na barraca da dona Pascoalina, quatro passos da lavandaria colectiva, Chiquito, Rafael e Pascoalina levam conversa desgovernada a porto nenhum. Falam sobre o rio e seus mitos, sobre os lavadeiros, sobre os visitantes ébrios que se afogam no Kwanza, dando comida aos kakusus que alimentam outros homens e sobre a vida nas estradas.

 - Essa é a minha última viagem. Da maneira como estão as estradas, os custos com molas e pneus a rebentar aumentaram e os acidentes também. – Atirou Chiquito.

- E porque não escolhes uma rota que tenha poucos buracos?- Tentou acudir a dona da barraca, enquanto apetrechava a mesa dos convivas com batata choupas, banana pão, feijão, farinha museke e salada.

- Já estive na rota de Mbanz-a-Kongu, os buracos me fizeram desistir. Aqui, na Estrada Luanda-Huambo tive ganhos nos dois últimos anos, mas agora também piorou. Vou encostar a carrinha para não arriscar nem a minha vida nem a vida da viatura e procurar emprego de motorista na cidade.- Justificou-se Chiquito que aguardava por Rafael aflito com a deposição de resíduos fisiológicos. Estava a uns vinte minutos a bater de porta em porta para encontrar uma latrina para se desanuviar ou, na pior das hipóteses, um esconderijo.

Perante a aflição, Chiquito tentou, junto de Pascoalina encontrar um caminho.

- Mamã grande, assim, se a pessoa depois de comer, ou mesmo antes, quiser esvaziar um pouco a barriga vai aonde? – Atirou em provocação.

- Meu mano, - responde Pascoalina, essa é a maka que estamos come ela.

É mesmo uma grande Katuta. Depois de nos darem esse largo para montar as barracas nos prometeram casas de banho públicas, mas até hoje só tem ainda aí atrás (e mostrava ela uma latrinas escondidas atrás da tribuna que estavam fechadas).

- Kota - prosseguiu Chiquito - isso é azar grande. Já viu comer sem lavar as mãos com esse vosso Kwanza que dizem estar sempre furioso com os visitantes? Já viu o quê partilhar o mesmo prato com a mosca que acabou de visitar o escape do Rafael? Têm de fazer algo, mamã, senão as pessoas deixam de parar na marginal. – Disse provocante Chiquito.

- É verdade Chiquito. Se esta é a tua última viagem por causa da estrada esburacada, também te digo que esta é a última vez que venho cá comer porque o que vi naqueles arbustos (apontava para um sítio não muito distante do local que se estavam postas as mesas e os manjares) não é coisa boa.

Pascoalina apenas abanou a cabeça, em jeito de aprovação, mas aí era o se ganha-pão. Não compactuando com a imundície arrumou as imabambas e dirigiu-se à administração municipal para apresentar uma reclamação que no fundo era a de todos os frequentadores da marginal do Dondo.

_ Camarada administrador, se queremos turismo tem de ser com higiene, senão os turistas deixam de vir, as famílias padecem de fome e a cidade fica sem movimento.


Nota: Texto publicado pelo Semanário Angolense a 02 de Maio de 2015.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

A ÁRVORE DAS BANDEIRAS


Debaixo dum sol abrasador, 12 horas dum verão equatorial, Mariano e André digladiavam-se com duros palavrões inauditos na aldeia de Kasanji. O terreiro, local para os encontros da aldeia, estava cheio de homens adultos, mulheres que reclamavam “mais pudor” por parte dos contendores e crianças, algumas tapando os ouvidos para que aquelas palavras carregadas de lixo verbal não atingissem seus cérebros, afectando negativamente a ainda compacta educação que haviam recebido.
- A árvore é minha. Eu é que subo.
- Não pode ser. Cheguei primeiro. Eu é que a ocupei primeiro.
André e Mariano eram enviados políticos saídos da pequena cidade, sede do município, para missões de "caça ao voto" na região que abrangia 20 outras aldeias, até então ainda virgens do ponto de vista politico-doutrinário. Nem os da situação nem os da oposição tinham explorado aquele território que vivia a sua paz com a naturalidade e a pureza dos tempos em que não se apelava ao viva nem ao abaixo. Em Kasanji, apenas o soba fazia a sua política da administração comunitária e sempre servindo-se da democracia participativa.


- Meus senhores, ponto de ordem. - Interrompeu ngana Muryangu, o soba, recém-chegado de uma diligência fora da aldeia. - O que é que se passa aqui, nas minhas barbas, sem o meu conhecimento. Será que já me golpearam e o povo me escondeu o sucedido?

- Nada, ngana soba. São esses manos que vieram do município que estão quase a se “porradar”. - Explicou a secretária da aldeia que acompanhara o "faço não faz e meto não mete" entre Mariano e André.

- Ei, meus senhores, por favor. Parem ainda de se "pocalizar" e venham cá. Entrem e vamos saber o quê que se passa. A minha aldeia é de paz e aqui tudo se resolve debaixo da árvore, à sombra, e não aos gritos sob o sol ardente. - Convidou ngana Muryangu.

Mariano e André marcaram, em simultâneo, três passos à frente, disputando a estreita porta da "zemba" do soba.

- Eu é que entro primeiro. - Atirou Mariano que era do Partido.

- Isso não pode ser, senhor Mariano. Eu chego sempre primeiro e o senhor quer tomar a dianteira? - Ripostou André que procurava, a custo, introduzir o seu pesado corpo na "libata" do régulo. Este, por sua vez, endireitava os assentos para os contendores encalhados ainda na portinhola.

- Por favor, podem entrar. - Chamou Kaxinda, a secretária, que tinha já a "wala de muxiri" e dois copos na bandeja.

André fez força e entrou, a contra gosto do seu oponente que tentou ainda aplicar-lhe uma “bassula” mas sem sucesso, pois os aldeões estavam de olhos neles.

- Pois é, manos, bom dia e bom assento. - Saudou o régulo.

- Obrigado paizinho. - Responderam em coro, numa harmonia que contrastava com os minutos derradeiros.

- Manos, bebam ainda um pouco de garapa antes de se explicarem. Aqui faz muito sol e a pessoa com sede até palavra não sai bem da boca. - Kaxinda serviu a bebida, uma espécie de sumo, feito a base de farinha de milho e adocicado com a seiva de uma raiz, o dito "muxiri".

Enquanto os homens aliviavam as gargantas ressequidas, ngana Muryangu manipulava as cinco "pedrinhas da sabedoria", amuletos herdados dos seus ancestrais a quem sempre evocava antes da resolução de qualquer querela na comunidade.

- Pronto, filhos. Bom assento, outra vez. - Voltou a saudar o soba, ao que Mariano e André, agora mais pacificados, quase irmanados, responderam com curta rajada de palmas.

- Filhos, vamos então saber o que se meteu no meio dos irmãos. Kaxinda, escreve no livro o que eles disserem para depois transmitir ao povo. - Ordenou a autoridade tradicional da aldeia.

A secretária, diligente como sempre, dirigiu-se à escrevaninha e começou a acta sem mais questionamentos. Era já “pão de cada dia” para ela, embora tivesse apenas a quarta classe do tempo de Agostinho Neto.

- Nosso pai, peço desculpas pelo atrevimento. Sou do partido e vim aqui para falar ao povo sobre os esforços da nossa formação que quer saber o que falta ao povo e tentar procurar resolver os problemas. Mas quando queria colocar as nossas três bandeiras na árvore, o André disse que não podia ser porque ele chegou primeiro e também tinha três bandeiras da formação dele. - Explicou Mariano.

O soba apenas abanou a cabeça, dirigindo o olhar para Kaxinda que, seguindo a velocidade do discurso de Mariano, alimentava manualmente a acta.

- Aqui, o filho, pode também se explicar. - Ngana Muryangu passou a palavra a André que rangia os dentes de tanta vontade de falar.

- Sim pai. Obrigado pela palavra. Conforme o pai ouviu, aqui o caso é só mesmo desentendimento mas acho que está já a passar, não é isso irmão angolano? Eu cheguei às dez horas. Vim aqui mesmo e não encontrei o pai. “Me” disseram que saiu um “kabocado”. Então, falei com a mana Kaxinda que estava prestes a abordar o povo se concordava ou não que eu deixasse nesta árvore, ao lado da escola, umas bandeiras da nossa formação. O irmão aqui chegou às 11 horas e quando me viu a me preparar para colocar as bandeiras disse que não pode ser porque ele já tinha ocupado a árvore. Foi assim que os nervos se descontrolaram e começamos a "se" desrespeitar. - Explicou-se André representante do Desunido.

O soba voltou a menear a cabeça e, novamente, enviou o olhar à secretária que "actava" os pronunciamentos.

- Ok, filhos. Já ouvimos e registamos. Agora que estamos mais tranquilos, o que vocês fizeram em frente dos jovens e das crianças, acham mesmo que está bem? - Atirou o régulo, procurando uma autocritica dos até então desavindos que, se ficou a saber mais tarde, até eram parentes próximos.

Mariano e André que eram conhecedores dos costumes da região colocaram-se em pé, marcharam em direcção ao soba, ajoelharam-se e se abraçaram de seguida.

Ngana Muryangu reconheceu o arrependimento dos dois e prosseguiu a inquirição.

- Mostrem ainda as bandeiras. Se forem aquelas que juntam o povo podemos coloca-las todas na mesma árvore.

André apressou-se na entrega. Mariano fê-lo também. Ngana Muryangu passou-as à secretária para as conferir.

- São partidárias, papá. - Disse Kaxinda. - Cada lado tem uma do partido, uma da juventude e outra das mamãs. – Concluiu a secretária.

- Meus filhos, Mariano e André, já viram o mastro da escola? Parece que a bandeira que estava lá já não está. Rasgou-se há já muito tempo com o vento e nunca foi substituída. Vocês podem voltar à vila pegar cada três unidades daquela bandeira que une o bairro e aumenta o patriotismo das crianças? Quem chegar primeiro com a bandeira da Republica e a colocar no mastro da escola pode ficar com parte da árvore. - Ditou o soba pedagógico.

Mariano e André arrumaram as suas “imbambas” e regressaram à procedência. Ainda não anunciaram à Kaxinda, a quem deixaram os seus contactos telefónicos, quando voltam a Kasanji com a bandeira da República solicitada pelo soba.


Obs: Publicado pelo Semanário Angolense 11.04.2015

sexta-feira, 15 de maio de 2015

O BENGO AOS OLHOS DE SPINA

Nunca é tarde para se conhecer uma terra, uma cidade ou vila, mesmo tratando-se das que se situam nas proximidades das nossas barbas mas que a falta de oportunidade ou interesse imediato impediam. Aliás, há gente que não passa do costumeiro café da esquina mesmo sabendo da existência do amplo mundo por explorar.

Nesta senda, conheci, finalmente, Caxito (desconfio que a grafia correcta e fiel ao Kimbundu, língua da região, seja Kaxitu: carne pequena?), capital do Bengo, sede provincial mais próxima de Luanda e que, em termos de infraestruturas, também deve muito (quando comparada) a capital do país ou a outras 17 sedes provinciais.

Por exemplo, Caxito é uma vila rasgada por uma única rodovia, EN 100, que nos conduz ao "Úkwa, Negaje e Wíje".

Aproveitando a extensão para dia seguinte do feriado dedicado ao dia internacional da mulher, 08 de Março, eu e os de casa, acompanhados pelos compadres Spina e Yana, decidimos "explorar" o Bengo, começando por Caxito.

Encontramos uma cidade (?) inundada, aparentemente sem colectores de esgotos, impossibilitando a prestação de alguns serviços como no "banco do imbondeiro" que se encontrava quase submerso, ante a chuva de véspera e outra do dia, cuja água se juntou à anterior.

Água e lama juntaram-se ao famigerado jacaré bangão (que se terá negado a pagar o imposto indígena no tempo do kaputu) como postais de visita aos neófitos excursionistas.

E como se uma cidade (?) construída em zona plana, sem declive para encaminhar as águas pluviais ao sorvedor Atlântico, fosse pouco, assistimos a um trânsito automóvel muito lento e perigoso, de Cacuaco (Luanda) a Caxito. São apenas duas faixas de rodagem, uma em cada sentido, que não facilitam as ultrapassagens aos inúmeros camiões basculantes que trafegam, sem cessar, dia e noite.

Quem entra no mercado do Panguila confirma, através da montra de veículos acidentados, o grau de sinistralidade na EN 100, associado sempre a excessos de velocidade que, diga-se, muito se deve tambem à curta largura da via, fraca sinalizaçao, ausência de iluminaçao,  escapatórias e faixas para acostamento.

Inexistindo roseira espinhosa sem flor encantadora, gostamos de ver os investimentos em bananais, citrinos, videiras e em piscicultura que dão valor acrescentado à  terra e contribuem para a "nacionalizaçao do prato angolano", como defendia o cidadão Robert Adrien, frequentador assíduo do mercado do "Sassa".

Que tal alargar um pouco mais a EN 100, com mangas para acostamento e vias de serviço para paragens de táxis e autocarros? É apenas a sugestão de um leigo em mobilidade e segurança rodoviárias, mas apaixonado por estradas.

Num discurso trocista, o meu compadre Spina que com sua família foi também curtir Caxito, chegou mesmo a sugerir que "Bengo fosse uma província laboratório para estágio de governadores" ou seja, dizia ele, "tendo em conta o muito que têm de mudar e melhorar, partindo da sua capital, os governantes que se estreiam na gestão provincial deviam começar pelo Bengo, seguindo depois a outras províncias".

Quando o questionei sobre o porquê da sua tese, Spina, sem papas na língua, argumentou:

- Normalmente, o estagiário tem muitas ideias e precisa de terreno para as implementar. - Explicou.

Aqueles que conseguissem mudar algumas coisas no Bengo e Caxito ganhariam como promoção, no dizer dele, uma nomeação sucedânea para outra província mais evoluída.

E nao é que a ideia dele, surgida do nada, ganhou adeptos entre os que apreciavam o funje de carne de caça numa das barracas do mercado do "Sassa"?

- Esse camarada é mesmo um ideológo que devia ser convidado como assessor do Governo. - Afirmou Nhanga, ja meio desiquilibrado ante as elevadas doses de maluvu que ingerira, tentando desfazer-se de fibras de "Robert Adrien" (carne de macaco) que lhe ficaram presas entre os dentes.

Nota: Rober Adriens é o nome de um cidadão frequentador das barracas do Bengi e grande apreciador de carne de caça, com preferência à de macaco, e que os miúdos mais gozões do mercado de "Sassa" diziam aparentar feiçoes simiescas.

- Kota Roberto, esse janguto é de quê? - Questionavam em troça, ao que ele respondia e corrigia num sotaque meio afrancesado e arrastado.- Não me chamar kota Roberto. Eu chamar-se mister Robert Adrien e gosta comerr somente ndiba (funji) com carrna de prrimo (macaco). - Dizia de boca cheia, quase feliz, das várias vezes em que foi questionado.

E os rapazes do "Sassa" tanto gozavam com os consumidores de carne de caça, quanto com as cozinheiras dos manjares e com os caçadores de "Robert Adrien", alusão aos símios que são abatidos indiscriminadamente nas matas do Úkwa para pôr as panelas e os estômagos em actividade.

Numa brincadeira que se tornou extensiva, toda a carne de caça passou a designar-se "Robert Adrien".

- Mané, já escolheste o prato do dia?

- Claro: uma fubada a "Robert Adrien"!

sexta-feira, 1 de maio de 2015

A REDACÇÃO DE SANUKA


No Belas, o kasula dos municípios da Ngwimbi, o momento era de festa e trabalho. Festejavam-se os dados do censo que apontavam mais de um milhão de habitantes destronando o Cazenga que afinal não tinha o milhão da fama de muito tempo. Festejava-se com “lambula” e “maluvu” de bordão trazido da Barra do Kwanza, lá pelas bandas onde o bordão e o “cisombe” abundam. Os pescadores vindos da faina distribuíam as kabwenhas para seca e os peixes mais graúdos às tias do “bijeéé-mbijééé” que de “tombwelavam” aí mesmo. As mais espertinhas passavam a perna as caloiras no negócio madrugador do peixe fresco.


Só no bairro Km 30 é que a conversa era outra, embora sobre o censo ainda. Em quase todas as ruas e ruelas havia discussão sobre “roubo” de terrenos. Uns tinham adquirido espaços de 20m x 20m e no dia da última medição para inicio das obras as contas estavam a bater erradas. Só as dos vizinhos madrugadores na construção é que batiam acima do talhão.


- Porra, se “tombwelaste” o meu terreno, assim fica como, vizinho?! – Gaspar não tinha dúvidas. Tinha medido tudo ao pormenor. Até GPS tinha usado.


- Porra não, vizinho. Haja respeito. Eu cheguei primeiro e cuidei do teu terreno. Deixou de ter capim e minhocas. Quarenta centímetros que o meu pedreiro te descontou até foi favor. – Ripostou Kafuxi com a rabujice que lhe é reconhecida no bairro.


Enquanto os kotas trocavam ameaças, mas sem intenção de “gargantear” o pescoço do outro, Sanuka, miúda do bairro que estuda no IGCA apareceu com o relatório do censo, com as makas da extensão geográfica na boca.


- Tios, estão se dar “kibeto” só porquê se ainda o Estado também se “tombwelou” lá terreno dele?


- Que conversa é essa, menina Sanuka, cuidado que num se brinca com assuntos de Estado. - Alertaram, já amigados, Kafuxi e Gaspar, atentos às folhas que Sanuka exibia. E pareciam autênticas, com carimbo e tudo.


- Sim, vizinhos. Quando chegou a “dipanda” dos africanos, naquela pressa do “tunda mindele”, Angola e seus vizinhos mariscos, zairenses, zambianos e mais tarde os  namibianos eram como o vizinho Gaspar e vizinho Kafuxi. Não tinham colocado muro ainda nos seus quintais e começaram a viver só assim. Filho de vizinho entra na caso do outro e galinha daqui esgravata ali, sem problema nenhum. Até que um dia o vizinho Angola decidiu murar o seu espaço. Assim tipo já o vizinho Kafuxi fez no seu quintal. Levantou o muro e foi fazendo um “kadesconto” aqui, outro acolá. Desbastou a “kamunda” que estava no meio dos dois terrenos e ficou tudo plano. No lado do buraco, meteu lá a terra que era da “kamontanha” e o terreno dele ficou mais largo. Assim fez também o Estado. Como os vizinhos  do mar, do norte, do leste e do sukl estavam a demorar pôr os muros, Angola fez depressa e cresceu mais 5445 km2.


- Boquiabertos os vizinhos, não se deram conta da baba a cair, perante a explicação pitoresca mas documentada da nova intelectual do Km30, ao Belas.


- Mas ó Sanuka, não terá sido o GPS que aumentou o terreno do Estado? Não terá sido o kaputu que se enganou nas contas da nossa geografia antiga? Não terá sido fruto das dragagens no mar? Olha que temos portos e avenidas costeiras em construção... – Gaspar, entendido em assuntos de GPS, acordou do sonho e procurou entender melhor o assunto dos quilómetros de avanço.


- Deixa, vizinho Gaspar, - ripostou Fafuxi - a população passou de sete para vinte e quatro, querias que o terreno encolhesse?


Chamada ao telefone, pelas colegas da escola, Sanuka se desfez dos vizinhos e foi fazer a composição solicitada pelo Professor de cartografia.


 


«Camões que em terra de “cawoyos” é rei escreveu “Os Lusíadas”, poesia épica ou epopeia, em que narra factos notáveis, grandiosos de um povo. A literatura costuma apresentar os factos, geralmente,  atribuídos a um herói. Luis de Camões, atribui a epopeia dos Lusíadas ao povo português, representado por Vasco da Gama, o descobridor das Índias Orientais.


Enquanto povo heróico e generoso, os angolanos têm muitas epopeias. Uma delas, e novíssima, tem a ver com a conquista/resgate/recontagem/reconfirmação(?) da extensão do nosso território nacional, onde estamos a fundar a “Pátria Nostra”. Os dados, ainda fresquinhos, do resultado do censo geral da população e habitação de 16 de Maio de 2014, apontam que a extensão de Angola passou dos então conhecidos 1.246.700Km2 para os nada maus 1.252.145 km2, (pág. 07 do Relatório do censo) mais 5445Km2.


Estranho é que a minha festa continua a solo como se 5.445Km2 fossem nada. Já imaginou um terreno desses para uma auto-construção dirigida? Dava até por ter bois, cabritos, galinhas, gansos, patos, e exploração mineral autorizada caso houvesse recursos no seu subsolo. Os vizinhos Gaspar e Kafuxi deixariam de trocar ameaças de morte e praguejamento à família e descendentes.


E continuo a festejar sozinho o aumento da nossa “geografia” ou a confirmação, via GPS, distinta do metro-a-metro da contagem lus-e-tana do antigamente, porque nos falta gente com olhos lince para nos explicar onde e como se conseguiu tamanha proeza.


 Senhor, professor, atendendo ao facto de a extensão do nosso país estar figurada em relatórios e documentos internacionais e ser objecto de estudo das nossas crianças desde a 4ª classe, qualquer alteração desses números devia ser bem explicada e documentada ,já que os novos dados sujeitarão as instituições de ensino e afins a mudarem os manuais.


E, enquanto festejo, vou também colocando perguntas a mim mesma?


- Como foi mesmo que conseguimos os 5445 quilómetros quadrados?


- Foi devido a dragagem do mar? Temos exemplos claros na baia de Luanda e noutros sítios em que se projectam portos de águas profundas.


- Terá sido por kasumbula a um vizinho distraído ou que se tinha dado de “viju” quando nós engatinhávamos ainda na tomada das chaves da nossa Angola?


- Terão sido os Tugas que nas pelejas com os  Franceses, Belgas, Alemães e Ingleses aceitaram um número que lhes era desproporcional?


Pronto. O angolano é “viju” e, doravante, será assim. Se o meu país cresce, e ainda bem que cresceu em terreno e população (essa duplicou a projecção mais pessimista que havia dos 12 milhões), sempre que endireitar o muro do quintal dou uns “kacentímetros” ao lado do vizinho “kimbonzado”, como fez o vizinho Kafuxi com o terreno do vizinho Gaspar que está quase a lhe “gargantar”.


Como o censo será de dez em dez anos ou distâncias ainda maiores, as contas serão feitas pelos nossos filhos».


Sanuka terminou a redacção e leu-a em voz alta para colocar as pausas correctas. Lá fora Gaspar e Kafuxi que foram pedir copia da página sete do relatório preliminar, ouviram a composição e não perderam terreno, brindando-a com uma estrondosa salva de palmas.



ANGOLA, 20. 10.2014

Obs: texto publicado pelo Semanário Angolense

quarta-feira, 15 de abril de 2015

DEPOIS DA CHUVA, A RUSGA


No dia em que a cidade ficou inundada, de tanta chuva que caiu em cerca de 36 horas, o Governo Provincial de Luanda e os seus parceiros sociais viram-se quase que forçados a estabelecer um “planos de emergência” para o desanuviar o trânsito automóvel e a limpeza das ruas da urbe que estavam apinhadas de lixo e lama.

Os homens da fiscalização (farda verde, banga nos land cruizer da caixa aberta, rebocadores na traseira da patrulha) meteram-se a levar tudo o que fosse carro mal estacionado ou há muito parado na via pública.

Depois dos fiscais, ou simultaneamente, chegava uma outra patrulha de medicina alternativa com ambulância, cordas e anestesiantes. Chamavam a este grupo de "equipa Kitoko".

Naquela tarde de sol preguiçoso, como carvão molhado que patina no fogareiro para assar a lambula do almoço, já cinco viaturas, daquelas que soçobravam pela rua, acolhendo dementes e kangonheiros em horas esquivas, haviam sido removidas pelos homens da administração. No mesmo local, dois dementes recolhidos pela "brigada kitoko" contavam já piadas na ambulância e a caminho do manicómio.

Quando os fiscais se preparavam para remover a sexta viatura, deparam-se com um homem maltrapilho, chaves na mão, cabelo há décadas reclamando por pente, corrente ao pescoço e sem rumo aparente.

- É mais um deles. - Gritaram os três fiscais que inspecionavam visualmente a área a partir do cimo da carrinha de cor branca e riscas amarelas em todas as suas faixas laterais.

- Mais um. Agarrem-no. Matadidi, prepara o calmante. - Ordenou o chefe dos fiscais aos para-médicos tradicionalistas.

De seguida, fiscais e “kitokistas” trocaram olhares sem falas. Apenas gestos a combinar o desenrolar da operação de captura.

Ouviu-se um "agarra, agarra maluco" vindo de todos os lados: fiscais na carrinha de patrulha, para-médicos na ambulância e os monandenges nas cercanias. Agarra maluco para cá, agarra maluco pra lá e o próprio visado, às tantas, sem saber ainda o que se passava, também ajudou a gritar “agarra maluco” até que foi atingido pela corda em forma de laço.

- Porra! Não sou maluco, pa! Me larguem, seus gatunos de merda! - Tentou ainda defender-se, mas com a perna já no laço.

Suspeitando que se tratasse de assaltantes, o suposto demente agarrou com mais força a mala de chaves, a peça de viatura que havia extraído da sucata e a sua chave 14/15 de boca com que visitara a cabeça do para-médico kitoquista que teve de ser suturado ali mesmo e vacinado contra tétano.

- Me larguem, porra! Sou mecânico. - Gritou o suposto demente perante o espanto da assistência.

- Um mecânico com uma corrente ao pescoço? E por que vives em sucatas abandonadas, coabitando com homens distantes da razão? - Questionou um dos homens da “Brigada Kitoko”.

- Estava apenas a aproveitar umas peças dessas sucatas para o meu "acaba de me matar" que também corre o risco de ser removido da via pública por inoperância prolongada. - Esclareceu.

- E a corrente ao pescoço?- Voltou a perguntar o chefe da brigada de recolha de dementes, já mais calmo.

- Essa corrente também a recuperei na sucata e vai ajudar a acorrentar o gerador ao poste de energia que está mesmo no quintal. – Explicou Manuel Kaferro (como se ficou a saber mais tarde), ainda assutado.

Dada como certa a explanação do homem que até era técnico superior em mecatrónica, porém submetido ao desemprego forçado pela crise dos "dodós" que levaram o antigo patrão, um importador de carros usados, a declarar falência, desfizeram-se os mal-entendidos.

Os homens da farda verde prosseguiram o seu trabalho, removendo tudo o que lhes desse dinheiro na esquina. Rebocando mais veículos estacionados em lugares permitidos do que as sucatas, há muito sem dono, que nunca chegariam a ser reclamadas. Manuel Kaferro, o mecatrônico, teve de ir à casa refazer-se do susto e testar a peça que tinha conseguido antes da chegada da “Brigada Kitokista”. Esses últimos acabariam por receber uma chamada para irem socorrer um demente real em dificuldades numa lixeira automóvel da Quinta Avenida.

Por cima do meu muro, fiquei a ver a lagoa artificial criada pelos homens das obras a encher-se de água que vinha de todas as partes altas dos subúrbios de Viana; os alevinos (filhotes de peixes), na lagoa, em festa por causa da chegada de água mais oxigenada; os putos “pescadores” com as redes e as garrafitas em que guardam os peixinhos que vendem a troco de rebuçados; as mamãs do bairro a muxoxarem por causa da água que lhes invade os quintais e os aposentos, e os papás preguiçosos a aplaudirem “viva a chuva", pois seriam dois dias de folga lá no serviço!


Obs: publicado pelo semanário Angolense a 21.03.2015 

quarta-feira, 1 de abril de 2015

A PRAGA DE MWANGEJI E NDUNDU


Fazia tempo que sua vida eram só lamentos. Mwangeji tinha perdido a vontade de viver. Tamanha era a desgraça e o desprezo a que fora votado, depois de muito ter servido a seus vizinhos e dependentes. Na verdade, a vida miserável que levava era também a que seu primo enfrentava num território distante, embora parte do mesmo país. Nasceram num tempo que a História se encarregou de esquecer. As lendas e as crónicas de gentes que por eles passaram fazem ténues referências ao tempo em que toda a terra estava submersa. Terão sido trazidos à luz, nos dias da separação das águas e surgimento de terra firma.

Vivia cada um confinado ao seu território natural. Embora primos, Ndundu e Muangeji não se conheciam fisicamente. Toda a comunicação era através do avô Kasai que tinha ligações permanentes com seus dois filhos, Lwaximu e Cikapa.
Mwangeji, mais velho e filho de Cikapa vivia a sul do território e Ndundu a norte.
Já velhinhos, sofrendo desprezo de quem deles viveu e se sustentou por muitas décadas, os dois co-irmãos passaram a padecer de doenças várias derivadas do desrespeito com que eram brindados pelos homens à volta e pela podridão em que suas casas se tornaram.
Tinham contado a seus pais, já seculares, o que se passava com eles e estes, aconselharam-nos a trocar experiências a ver se se salvavam da opressão e infra-vida a que estavam votados.
Foi nessas circunstâncias que Mwangeji decidiu escrever uma carta ao Ndundu, contando a sua saga.
- Querido irmão, espero que estejas bem. Embora nunca nos tenhamos visto, julgo oportuno, narrarmos o quanto fomos úteis e a vida que levamos hoje para que nossos filhos e netos prevejam situações anómalas que lhes possam ser impostas pela ganância dos homens capitalistas desse tempo.
Nasci entre colinas. Papá e mamã deixaram-me um vasto território que herdaram de nosso avô. Durante a minha juventude vivi quase solitário. Filhos menores, abundância em peixes, caranguejos, algas, misoji, águas límpidas e solos férteis para irrigar, assim vivi com fartura até à chegada dos homens. Primeiro negros, depois os brancosos. Na luta entre eles, os primeiros correram com os segundos e eu não fui poupado. Meu quintal passou a depósito de tudo que saísse descartado de suas casas: areias transportadas de longe, latas, plásticos e papelões, óleos e pilhas, tudo atiram em minha casa. Já sofri de pneumonia. Já tive sarna. Já chorei e implorei. Nada! Uns, preocupados mas sem poder, já fizeram músicas contando meu presente e passado. Outros retiram de mim pedaços para remendar seus terraços de ferro e aço. Já fiz famílias felizes. Crianças deram suas fimbas em minhas exuberantes piscinas naturais. Jovens apaixonados em minha casa rocaram primeiros beijos e até cenas de procriação assisti. Já fui padrinho, pastor e advogado na hora de divórcio litigioso. Tudo de bom fiz, aos homens, mas eles me remetem aos confins da pocilga…”- Mwangeji pousou a pena no tinteiro e começou a ler o que escreveu, limpando com um pano enxugador os pequenos borrões.
– Irmão do norte, embora este seja o nosso legado, fazer sempre o bem aos homens de todas as raças e credos, temos de alertar aos nossos filhos para procurarem contenção na bondade e viverem o desprezo com maior preparação.- Rematou.
Mwangeji fechou a carta e a colocou numa caixa flutuante que a faria chegar ao pai Cikapa e este para o avô Kasai, de onde seu tio Lwaximu a pegaria para a entregar a Ndundu.
Quando a carta lhe chegou às mãos, Ndundu estava embravecido. A sua casa tinha sido literalmente arrasada por areias enviadas por uma nova cidade. Antes dos homens do cimento e asfalto terem invadido a vizinhança, a sua vida, embora pacata, era de um idoso sadio. Os Pirilampos reproduziam-se em seus cabelos rastejantes e embebidos em águas frias e cristalinas. Suas terras eram guarnecidas e seus quintais murados. À semelhança de seu primo do sul, acolheu casamentos e divórcios. Deu beleza a gente rejeitada pelo amor e em suas águas ganharam vida milhares de vizinhos e transeuntes da cidade do brilho incessante. – Mano, faço de teus prantos minha música.
- Até há pouco ainda respirava saúde. Os miúdos desse tempo já desrespeitavam kabucado com suas manias de estragar tudo que é natural. Mas agora que limparam dezenas de hectares na direcção do sol poente, todo lixo é na minha casa que pára: água de esgoto sem fundo, miram para mim. Areias de ravinas provocadas pelo corte do cabelo vêm cá ter. Lixo das compras exageradas deixam na minha porta. Até combustíveis e óleos dos carros capitalistas vêm cá ter, matando tudo à volta de mim. Já me chamaram de “Velho praia suja”, “colchão de areia”, ribeira morta, desgraça do presente, entre outros nomes que me escapam à memória. À semelhança do que li na tua carta, irmão, também assisto ao choro dos inconformados sem poder, bem como ao desprezo dos poderosos sem zelo e sem pudor. Já ouvi canções de saudades dum tempo que a vizinhança me procurava para se aconselhar na acalmia do meu rasto.
As minhas portas eram autênticas postais para gente próxima e de terras distantes que por cá buscava repouso e sustento. Não havia ser que passasse por mim sem a saudação com a devida vénia. Até o meu nome à sua cidade atribuíram, porém, hoje só recebo desprezo que me cria uma enorme repulsa. Dei água aos homens e dei leite aos seus animais. Levei comida a seus pratos, lavei suas roupas e lágrimas e dei ouvidos a seus prantos. – Escreveu Ndundo, filho de Lwaximu, neto de Kasai e bisneto de Nzadi.
Embora sem força e quase sem vida, Mwangeji ainda leu a carta – resposta de seu primo e, por meio de um sobrinho comum, puderam combinar o castigo aos seus malfeitores.
“Não mais lhes daremos água sempre que suas sedes pretenderem matar em nossas casas. Guardaremos nossas águas debaixo dos colchões de areia com que nos brindam.
Não mais lhes daremos peixe sempre que cozinharem seus pirões e ximas. Guardaremos o resto de nossos cardumes em casa de nossos pais e nosso avô Kasai.
Não mais lhes daremos terras férteis para suas lavouras. Exportaremos nossas terras repletas de húmus e faltarão verduras em seus pratos.
Não mais se banharão em nossos estuários nem se servirão de nossos leitos para utilidade alguma.
Seus animais enfrentarão sede e penúria. Seus filhos jamais conhecerão rios e andarão distâncias para ver cardume.
Seus poemas não mais escreverão, sob o farfalhar de um caudal e sob picada de peixe miúdo em pés adultos”.
E a praga se cumpriu, tempos depois, por longos e infinitos anos.



domingo, 1 de março de 2015

O TIO, O PASTOR E O GREGO DO SETE & MEIO

Depois de a "Classe de Kwanza-Sul" se ter emancipado do cargo de Kalemba, eu era o centro da disputa ao domingo, entre o casal que me adoptara para criação.

Órfão aos oito anos e deslocado de guerra, aliás, “recuados”, era esse o vocábulo dos anos 80 do século XX que designava aqueles que tinham abandonado suas terras de nascimento em busca de protecção nas cidades controladas pelas forças governamentais, no tempo da República popular de Angola, eu era árvore de caule flexível e que não resistia ao vento.

Explicando os termos: Classe é um espaço de culto entre os Metodistas Unidos, onde realizam encontros matutinos ou nocturnos, ao longo da semana. Cada membro da Igreja Metodista Unida frequenta, normalmente a classe do seu bairro.

De Maio de 1972 a Julho de 1983, um grupo numeroso de kwanza-sulinos residentes em Luanda e seus descendentes que tinham frequentado vários templos Metodistas da capital decidiram em fundar a sua classe que anos mais tarde veriam ascender à categoria de cargo ou “Igreja” como designam os locais de culto ao domingo. Entre eles havia também alguns malanjinos, kwanza-nortenhos e outros provenientes do centro norte e centro sul. Porém, os “kikís”, como são designados na intimidade os kibalistas e seus conterrâneos do Kwanza-Sul, eram a maioria. Se calhar, daí o nome “Classe Kwanza-Sul” não ter enfrentado resistência.

A "Classe Kwanza-Sul" subordinava-se à “Igreja”(templo) de Kalemba, que fica nas traseiras do cemitério de Sant’ Ana, ao Kilamba Kyaxi. Em 1983, a Classe emancipou-se, separando em termos de frequência dominical o casal que me tinha como tutores. Ele, também um kwanza-sulino, preferiu continuar na Kalemba onde tinha amigos e próximo da casa da filha. Na “igreja de Kalemba os ovimbundu e ambundu do centro estavam em maioria, embora lá cultuassem também catetenses, como a família da minha contemporânea Luzia Mateus Pedro. Ela, a esposa do meu tio, decidiu frequentar a novel “igreja” que ficou baptizada com o nome do profeta que levou os escravos israelitas do Egipto à terra prometida de Israel, Moisés. Como quem dá de beber e de comer aos filhos é a mãe, tive de segui-la e recorrer ao tio apenas para os conselhos e o dinheiro para o ofertório. Aliás, ele fazia questão de dar-mo todas as manhãs de domingo, antes da nossa separação de casa.

A caminho da igreja eu e a tia seguíamos caminhos distintos. Ela ia com as suas amigas da classe, e eu com os meus kambas da EBF (Escola Bíblica de Férias e do Pavilhão Infantil). O regresso é que era comum, devido as compras, à porta do Supermercado Nzala Ikola ou nas bancadas da Praça das Corridas (hoje conhecida apenas por Praça do Tunga Ngó).

Num domingo em que a tia não fora à Igreja, por razões que a memória se encarregou de apagar, caminhava em direcção à Moisés, com os meus amigos, quando a metros do Nzamba 1 nos deparamos com gente reunida à volta de um homem que falava sem cessar. Havia muita gente. Uns eram devotos e outros meros curiosos como nós que paramos para ver e depois contar aos ausentes. Uns sentados e outros em pé. Era uma nova confissão religiosa e um pastor muito eloquente. Daqueles que o meu amigo Murtala satirizou em música por “pastor murras”. O homem tinha sobre o púlpito um livro “Verbo Divino” que coincidia com a sua verborreia. E todos o ouviam, até os que se dirigiam ou saiam de outras “ngelús” bebiam e comiam um “koxitu” daquele sermão que aos cristãos mais treinados lembrava o Sermão do Monte, proferido pelo nazareno coroado Rei Celestial.

O “pastor murras” falava sobre o comportamento dum bom crente da sua igreja que “deve dar a face esquerda depois de apanhar uma valente galheta na face direita”. E continuava ele:

- Irmãos e irmãs, fui enviado pelo nosso pai, tal qual foram enviados os profetas da antiguidade. Um bom cristão tem de saber perdoar…
Os seus ouvintes seguiam-no atentos e, entre ligeiras pausas, recebia aplausos e assobios dos que se mostravam contentes, até que um “grego” do Sete e Meio irrompeu dentre a multidão com um “é mentira”!

Empolgado, “o pastor murras” esqueceu-se da pregação e soltou um veemente “vai para o carvalho, seu bandido!”

Foi a dispersão total dos que seguiam e se sentiam empolgados com aquele parlatório. Dos aplausos, passou a receber "mixoxu" de meio mundo.

Felizmente chegamos a tempo ao nosso Pavilhão Infantil para cantar o “kasanje-kasanje” do tio Farias, “Margarida Morena” da mana Cândida ou “o elefante que incomoda muita gente”.

De regresso a casa, aguardei pelo tio que chegava às duas da tarde e informei-o sobre os dislates dum pastor, seguido de perguntas “se pastor que é quase deus também ofende”.

- Como assim, sobrinho? No Kwanza-Sul o vosso pastor mordeu a língua?

- Não tio. Foi um pastor de rua que respondeu a um grego do Sete e Meio com um duro palavrão.

- Ai é? - O ancião procurou por palavras conciliadoras para “lozar” o seu conselho habitual, sem ter de desprestigiar o homem do verbo fácil, nem desencorajar-me de ouvir a palavra sagrada.

- Meu sobrinho, faz sempre o que te digo, mas nem sempre o que faço. O diabo está sempre á espreita e o tio ou o pastor pode errar. Aliás, não foi o pastor quem ofendeu o grego. Foi diabo quem se serviu de sua boca!

domingo, 1 de fevereiro de 2015

MEMÓRIAS DA LUTA A "14 GRAUS"


Na tropa tuga que os acolheu pela primeira vez, Serpa Pinto era uma cidade demasiado pequena para que dois jovens, educados em missões protestantes, não se reconhecessem.

- Nasci em Ekovongo e cresci em Kamundongo. - Apresentou-se Sabino ao cabo Coimbra.

Corria o ano 66 do século XX. Influenciados pelo fim da Segunda Guerra Mundial e pela Conferência de Bandung, os Movimentos de Libertação Nacional surgiam como cogumelos e os ex-militares, saídos das frentes militares na Europa, Ásia e Norte de África, vomitavam as novas ideias "jikulamesistas" nos países de origem.

- Também sou protestante de Cisamba e tenho a vida académica feita no Ndondi (ex-Vila Nova, hoje Kacyungu). Respondeu Coimbra sorridente.

O aperto que se seguiu à apresentação dos dois cabos bienos, dois anos de diferença, foi como a bala de G-3 alojada na caveira dum insurrecto. Assim eram as orientações salazaristas e thomazistas naqueles tempos do "para Angola e em força", a fim de manter "a joia da coroa lusitana em África", onde enfrentavam, a par da Guiné de Amílcar Cabral, umas das mais duras e desgastantes guerrilhas. "Alojar a bala na caveira dos patrícios e fazê-los temer a nossa autoridade e poder", era a frase de ordem diária dos furriéis à praça formada por nativos e metropolitanos trazidos em aviões e navios para travar o “comboio da liberdade”.

Coimbra e Sabino enfrentaram com valentia e sabedoria os dois anos de "tropa tuga" até chegar a dispensa para a vida civil, cumprindo ou esquivando ordens para que não fossem submetidos a castigos, nem tidos como subversionistas. Por outro lado, evitando também o confronto directo com os seus irmãos que nas matas e nas chanas lutavam com “kanyangulu e mwana-kaxitu” para dar fim ao poder do fascista Salazar e seu presidente-peão, Américo Thomaz, das terras de Ngola, Ya Ndemufayo, Wambu, Ndulu yo lo Sima, Cinyama, etc.

Transcorreram os 48 meses esquivando uns e outros, embora os corações, quer dum quer doutro, fosse revoltoso. Terminada a missão militar, Coimbra acabaria por alistar-se num curso de enfermagem.

- O único caminho que tenho para ajudar a Revolução é curar os populares e os compatriotas deixados feridos pelo calor da refrega. - Disse Coimbra para si mesmo no dia da decisão. E fez o curso geral de enfermagem, ano e meio, em Nova Lisboa. Sendo colocado na delegacia de Kamanonge, distrito de Moxico.

Sabino, desmobilizado, um ano mais tarde, seguiu-lhe no sonho, embora nada houvesse  de acerto entre ambos.

- Agora que já não estou a servir os colonialistas, e com os conhecimentos militares que tenho, vou enquadrar-me no Movimento.

Tentou fazer-se à estrada até atingir a vila Teixeira de Sousa, no extremo Leste. Os espinhos eram muitos e poucos com histórico militar conseguiam transpor as barreiras impostas pela administração colonial até chegar à última estação do Caminho-de-Ferro de Benguela em território angolano. Já um ano tinha voado, depois da dispensa da vida militar e Sabino continuava com o sonho por realizar.

- A revolução também se pode fazer na recta-guarda. - Segredo-lhe o tio Njamba Ya Mina, já há anos com “kudibangela” na mão.

Conselho ouvido, conselho acatado. Sabino enquadrou-se no curso geral de enfermagem e o destino levou-o igualmente a  Kamanonge, onde viria a reencontrar o seu antigo colega e conselheiro Coimbra.

Quando se avistaram pela primeira vez, em Serpa Pinto (hoje Menongue), Coimbra ja era pai de segunda caminhada. Sabino ainda sonhava com a noiva deixada intacta em casa do padre Maurício, irmão de Argentina. Mal tinham começado a garinar o jovem, com o segundo ano do liceu concluído, foi forçado a enquadrar-se na tropa de ocupação colonial.

Em Kamanonge, estavam no epicentro da revolta contra o sistema colonial. A proximidade com a Rodésia independente e permissiva aconselhava o recrudescer dos combates e até facilitou o surgimento do kasula entre os  Movimentos guerrilheiros anti-salazaristas em Angola.  Coimbra, na chefia da delegacia da saúde, recebeu o neófito Sabino, seguindo-se outros anos de companheirismo e cumplicidades entre as duas famílias.

Durante o sol atendiam os colonos e aldeões da circunscrição e, às noites, os "irmaos kambutas" que abundavam nas chanas “trafulhosas” do Leste, até que chegou a Revolução dos Cravos. Salazar já pagava pelos pecados e Caetano, seu substituto na ditadura primo-ministerial, via o diabo a assar "joaquinzinhos" em lume ateado pelo movimento dos capitães.

- A independência chegou! - Gritaram as colónias. Colonizadores e colonizados sentaram-se à mesa de negociações, 14 anos depois do início das “nvundas do tunda mindele". Coimbra voltou a Silva Porto e Sabino enfrentou a traição rasteira de irmãos de sangue e sofrimento perante o chicote colonial.

- É ovimbundu, é colaborador. - Sem mais nem menos, acusaram-nos com sede de lhe tomar a cadeira na chefia da delegacia deixada por Coimbra transferido. “Foi o preço da revolução feita com poucos cérebros encanetados”, diria mais tarde.

Fugido das masmorras “pidescas”, à cadeia “disesca” foi entregue, acusado de traição.

- Nunca estive com eles. Nunca me simpatizei com eles. - Defendeu-se Sabino perante uma acusação que não permitia advogado.

Sabino viu o sol e até estrelas aos quadrados no meio de muita sova. Resistiu, porém, à tortura e à morte. Viu companheiros de desgraça, acusados de colaboracionismo com o terceiro Movimento, partirem para nunca mais se ouvir falar deles. Com o passar do tempo, recebeu outros parceiros de sofrimento, rusgados na refrega inglória do 27 de Maio. Muitos deles seguiram o destino dos primeiros. Desapareceram de dia para noite sem deixar rasto. Quando o sino da liberdade tocou, voltou à urbe nativa, fundada por Silva, o do Porto, onde voltou a encontrar o seu amigo e companheiro de todas as caminhadas. Coimbra dava vida ao confiscado hospital missionário de Kamundongo.

Vivem hoje aposentados, cuidando de netos a quem contam a cada sol um episódio, fazendo-lhes companhia a "pomada", as cicatrizes e as memórias.

- Então, compadre, o que será hoje o almoço? - Perguntou Sabino, na pele de visitante, enquanto ajeitava a sacola em que acomodava o galo trazido da fazenda.

- Catorze graus, com carne e pirão. É tempo de independência, compadre. - Respondeu Coimbra.

Rodeados por filhos kasulas, sobrinhos e netos comuns, Coimbra e Sabino abriram os seus livros de memórias e os descendentes foram anotando com atenção.

- Vovôs, vamos escrever um livro com vossas recordações. - Verbalizou Any Bingo, uma das netas comuns. A cabidela foi regada com vinho tinto de 14 graus, enquanto os mais novos festejavam com kisângwa.


Obs: Texto publicado pelo Semanário Angolense em Fevereiro de 2015.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

TEMPOS DE PHAMBU DYA KALUNGA


Phambu dya kalunga é uma expressão kimbundu que quer dizer, literalmente, encruzilhada da morte. Também se costuma dizer "kanjila kajakata munzonge wa lulu" que significa, na Língua Luz-e-Tana, que o passarinho queimou e o molho amargou.
No tempo da mocidade dos meus tios e da minha meninice era comum ouvir os mais velhos a usarem o "phambu dya kalunga" para se referirem a alguém numa encruzilhada, com apenas dois caminhos.
Lembro-me de um kota que "encheu uma pinta[1]" e foi caçado pelos primos da mboa[2], já que ele esquivava sempre que o chamassem a sentar-se à mesa para falar com urbanidade. O manga[3] era refractário, outra expressão que saiu da moda linguística, e tanto temia assumir a munzúbya[4] quanto ser "kangado"[5] para a vida Kwemba[6].

No dia em que os primos da pura mboa[7] que estava pwã[8] o levaram à força para ir assumir o kizangu[9] da gravidez e fazer "os dever na moça", Tito Rafael estava a preparar-se, manhã cedo, para ir trabalhar na alfaiataria, no Golfe, vivendo ele no México do Rangel, na Ngwimbi, portanto.
O manga quando ouviu o "com licença" do Zezito pensou que fosse o seu colega de profissão e de caminhadas de beco em beco, fugindo dos ODP´s, CPPA´s, FAPLA´s kasimbados, ST's e PCU's[10]. Esses últimos eram os mais "fodidos", porque levavam tanto civis abrangidos para a vida militar, quanto os para-militares, os integrantes de milícias e os militares não dispensados dos quartéis. Eram mesmo quem mais rusgavam.
O kamba[11] do meu tiote, estudado minuciosamente pelos seus captores e enganado pela semelhança da voz anunciante, foi zangulado[12] e arrastado até ao quarteirão seguinte onde o aguardavam os makotas[13] da família da Ratinha, a wi[14] do cabelo longo, que andou a xaxatar de kaxexe[15] durante ano e meio, sem dizer "te quero de verdade ou de mentira". A expressão "namoro de ficar" não existia ainda no vocabulário do Português Luandense.

Tito Rafael, sozinho no meio de mais velhos de respeito, naquele tempo até os malandros eram "filhos de família", ensaiou dois caminhos: arrastar a conversa e não assumir o dikulu[16] antes que seus parentes fossem ao seu encontro, até porque casa, dinheiro e condições para sustentar a "filha alheia" e o mubinganu[17] por nascer eram coisas de que ainda não dispunha. A alternativa era pedir diligentemente licença para ir fazer necessidades menores e pôr-se a lume.
No bairro onde nasceu e cresceu, apesar das traquinices de uns e lyambices de outros, todos se conheciam e se davam ao respeito mútuo. Músculos nos problemas eram chamados somente quando alguém faltasse à palavra sadia e cortês. As galinhas e patos desapareciam de quintais, ainda feitos de tiras de chapas e pedaços de madeira descartada pelas serrações, mas era obra de mizangala[18] de outros bairros distantes. Os mexicanos não roubavam mexicanos. Era palavra de honra desde tempos avoengos.
Passados trinta minutos duma conversa que mais arrefecia do que aquecia e ante a ausência dos parentes e amigos mais chegados que àquela hora já não estariam no bairro, onde as rusgas aos "mata-kasumuna"[19] eram constantes, Rafael decidiu pôr em prática o plano b, o da evasão cobarde.

Pediu licença para se dirigir à latrina de chapas e aduelas que se encontrava a uns dez metros da figueira onde decorria o milonga[20]. A meio do caminho, entre os parentes de Ratinha sentados em círculo e a casota das necessidades, avistou a rua e trocou olhares com Ritinha, sua irmã kasula, escondida num canto e que lhe sinalizou o atraso do tio Joaquim “dos Mahezu”[21]. Rafael acelerou o passo e trocou os olhos e os caminhos.

Da porta do quintal à rua foi já a passo de lebre. Só que, igual a lebre, a sua berrida[22] foi sol de pouca dura. Acabou nas mãos dos PCU's que vasculhavam o bairro como quem procura agulha no palheiro.
Tinha passado o mês das apresentações voluntárias dos abrangidos pela Lei do Serviço Militar Obrigatório e todo civil abrangido, sem isenção ou adiamento, teria o KK como destino. A camioneta UNIMOG serviu de acolhimento durante dia e noite, até ser despachado para o Centro de Recrutamento e Mobilização Militar onde fez a a peritagem médica e despachado para Namakunde[23]. Entretanto foi mesmo no temido KK, área de Kayundu, onde fez os primeiros disparos de um militar e sentiu o assobio mortífero duma bala inimiga.

No Kwandu-Kuvangu, palco da Guerra Fria, onde se travavam encarniçados combates entre forças nacionais antagónicas, apoiadas por exércitos estrangeiros, também antagónicos, Rafael lutou corajoso e valente e teve várias distinções. Mesmo com o lápis desafiado, chegou a primeiro-tenente das FAPLA, antes da desmobilização que se seguiu à paz de Bicesse e, de volta ao kubiku, [24] recuperou Ratinha "Cabeluda", pinta[25] asseada na fala e no estar, com quem fez outros três filhos. Contam já cinco netos.


[1] Mulher; jovem (calão).
[2] Mulher; jovem (calão).
[3] O individuo (calão).
[4] Mulher (calão).
[5] Rusgado, capturado (calão).
[6] Também designada por vida militar ou cumprimento do serviço militar obrigatório; Kwemba representava um palco difícil para os militares (calão).
[7] Mulher (calão).
[8] Grávida (calão).
[9] Problema (calão kimbundu).
[10] Organização de Defesa Popular (milicia); Corpo de Polícia Popular de Angola; Serviço de Tropas (Policía Militar); Posto de Comando Unificado.
[11] Amigo (kimbundu).
[12] Levantado; segurado (calão).
[13] Mais velhos (kimbundu).
[14] A senhora (calão).
[15] Namorar de pianinho; de soslaio (Kimbundu).
[16] Problema (calão).
[17] Substituto; herdeiro (kimbundu).
[18] Jovens (kimbundu).
[19] Mata-formigas; alusão a jovens desempregados; sem ocupação (do kimbundu).
[20] Problemas (kimbundu).
[21] Mahezu é em kimbundu exposição de problema; aquí é o diplomata.
[22] Corrida (calão).
[23] Município do Kunene, Angola (calão).
[24] Casa  (calão).
[25] Mulher (calão).

Publicado pelo Jornal de Angola, Caderno Fim-de-Semana, 29/04/18