domingo, 21 de fevereiro de 2016

ENTRE (IN)VERDADES INCÓGNITAS E FICÇÃO ORAL

Antes da invenção da escrita, as artes já existiam, pois elas evoluíram com o homem enquanto ser pensante, livre e transcendental. O que é hoje literatura já teve outras formas de expressão, nomeadamente, a oralidade que conservava e ainda conserva a História e as estórias dos povos e das civilizações.

Entre nós, angolanos, a oralidade vai coexistindo com a literatura e vezes há em que se confundem. Abundam entre nós relatos da Oralidade levada aos livros e livros grafados como se fossem relatos orais sobre estórias e lendas milenares dos povos bantu e pre-bantu do nosso espaço geográfico.

Não poucas vezes, esses contos viajam nos autocarros públicos, comboios e candongueiros e, tantas outras vezes, os contos ficcionados ou verdades incógnitas almoçam nas barracas de kakusu (tilápia) e carne de caça ou mesmo nos quintais de adyakime já de cabelo algodoado e dentes cariados.
Ngaxi, Nga Madya, Manda e Isabele Gaspara são comadres desde os tempos da Kitanda do Xamavu e partilham hoje o sombreiro no mercado municipal de São Paulo. Numa de suas saídas em busca de negócios, as idosas, caprichosamente vestidas a bêssangana, pões conversa em dia, não se coibindo ante a presença de jovens com idades de filhos e netos.
- Xê, Nga Madya, sabes duma! - Atirou Isabele, meio escondida na cadeira do motorista do autocarro que geme na subida da Mutamba.
- Nada, comadre, conta. ; Respondeu Nga Madya, buscando conversa.
- Estás e ver, no Panguila, Sector quarenta e sete! Uma velhota, assim na nossa idade, mais ou menos, vivia já viúva cerca de vinte ou trinta anos. Não é que um dia desses se combina com um dikwenze daqueles trungungeros e começa já as conversa à noite?!
- Sim, mana, avança. Estamos atentas. – Intrometeu-se Manda, também ela expectante.
- Pois é comadre. - Continuou Isabele. As coisas quando aqueceram, a velhota começou a gritar “me larga vai me furar, me larga vai me furar”.
- E depois, mana, aconteceu mais o quê! - Interpôs Ngaxi que se manteve calada até aí, ante a expectativa da juventude que se continha para não rir e despertar as idosas que ficcionavam descontraidamente.
- Pois, então, prestem atenção. - Apelou a narradora. O vizinho da porta frontal, sabendo que a vizinha era viúva e vivia sozinha, julgou ser bandido que se introduziu em casa da vizinha e chamou a polícia, dando o nome da rua e número da casa. Nao é que posta a polícia no local, a velha não abria a porta?! – Isabela fez pausa para inspirar a brisa que espalhava ar fresco para dentro do automóvel.
- E ficou tudo por aí ou houve mais cena com a polícia, o intruso e a mutudi? – Indagou  Ngaxi.
_ Ouve então comadre. – Prosseguiu a narradora. A polícia, pum, pum, pum, na porta e a velhota nada! Não abria a porta, nem sequer atendia. Mas os gemidos continuavam. Afinal a conversa lá dentro entre a viúva e o muzangala já ia no ritmo do carrecto dezoito. O polícia mais corajoso deu um pontapé na porta e foram ter com os dois em flagrante delícia.
- Sukwama, Kima kyabambuka! Pegou fogo! – Atirou Ngaxi no outro canto do pesado que deslizava já em direcçao ao Zé Pirão, procurando fazer o contorno para dobrar a Cónego das Neves, em direcção ao antigo Xamavo.
- Os polícias, cordas no atrevido e mamã na cabine da Toyota para ir apresentar queixa na esquadra. - Acrescentou Isabele Gaspara.
- Mas é mesmo tua verdade, mana Isabele, ou é tua invenção! – Procurou confirmar Ngaxi que se preparava para abrir também o seu livro oral acabado de produzir.
- É verdade comadres. - Confirmou Isabele que prosseguiu a narrativa. Postos na esquadra, em vez de o muzangala explicar o que sucedeu, a própria mutudi é que foi pedir ao chefe da esquadra: filho, o jovem não me fez nada. O vizinho é que é invejoso e fofoqueiro. Ele queixou à toa, não viu nada nem ouviu sequer um gemido! Os polícias: Haka! Boca a tocar na nuca de tanta estupefação.
- E o que nós vimos então foi o quê, ó mãezinha?! - Procurou ainda saber um dos agentes policiais que foi prestar o socorro requerido pela vizinhança.
- Foi só mesmo o que viram. Não me fez violação. Foi só manutenção!
Mamãs e a juventude toda no autocarro entraram em transe. Gargalhadas de mostrar o último molar ou apenas os terreiros vazios. Ngaxi, Engrácia de registo, nascida no distante ano de trinta e cinco do século vinte, como fez vénia de se apresentar, entrou também no círculo e sacou da sua prosa.
- No meu bairro, no Kifica, a cena, que não é de mentira como essa da mana Isabele, é mesmo de verdade verdadeira. A Senhora até é minha amiga e está também já assim, sem manutenção desde que o vizinho Gasparito apanhou kikonha. Com os negócios dela de Kisângwa, banana pão, jinguma e bombó assados, arranjou dinheiro e inventou uma fórmula.
- Fórmula de quê, mana Ngaxi? Pessoa que começa cena de arranhar cabelo tem de terminar. – Apelou novamente Manda, procurando pôr mais lenha na fervura.
- Pois é, manas. Estava só a limpar o suor. – Prosseguiu dona Engrácia ou simplesmente Ngaxi. – A vizinha, certo dia, a doença de comichão lhe tocou. Bebeu água fresca e nada. Tomou banho de água natural, de água morna e de água gelada e também nada! Fazer o quê? Chamou um daqueles meninos que transportam água em troco de bebida. Xê muzangala, não queres birra? Perguntou a “kaveia” toda sacudida. Até o Português dela parecia duma mocita do colégio.
- E o moço, mana Ngaxi? - Perguntaram expectantes as amigas.
- Esperem que já lá chego. – Acalmou Ngaxi. O moço trouxe um, dois, três bidons de água. Na hora já de cobrar o que era seu, portanto as cervejas, a velhota lhe diz: só queres mesmo beber, não queres te lavar? O moço fez sinal de mais ou menos. Na verdade ele queria mesmo é só beber cerveja dele e ir fazer mais outros kadyenges mas aceitou já tomar banho por causa do respeito e dos sabonetes caros que a velha lhe mostrou com ele.
- É verdade mesmo, dia de sol negócio de água é que bate. - Interrompeu  Isabele Gaspara. Mas foi Ngaxi quem prosseguiu, depois de mais uma pequena pausa na narrativa.
- O  moço bebeu a primeira e a segunda. A tia fez pausa e sugeriu: queres mais duas? Vai tomar banho e depois a avô acaba de te pagar. Não é que o moço aceitou a proposta?!
- E depois? - Interrogaram, quase em coro, todas as senhoras vendedeiras do mercado de São Paulo que se faziam transportar naquele pesado.
- Enquanto o dikwenze se lavava, usando os sabonetes e cremes da anfitriã, a minha amiga, que não vos digo o nome dela, fez-lhe uma comida leve e meteu na mesa, ao lado de uma ngala de vinho. O rapaz também parece já estava a sentir o cheiro a sair da cozinha e, vendo que não estava aí mais ninguém, atacou e quase mordia a língua. Zás. Piteu foi-se todo na barriga que começava a ganhar volume.
- E se foi embora, mana Ngaxi, ou houve mais? – As comadres pareciam adivinhar o fim da odisseia mas preferiram devolver a palavra à narradora que contava com mais retoques e acepipes.
- Não é que o moço depois de comer queria já sair voado? A velhota lhe perguntou: não queres enxaguar a boca com uma birra?
- E ele? - Atirou  Nga Madya procurando precipitar o final.
- Ele aceitou, mas a vizinha Inês, já com a birra na mão, fez a última proposta: Agora bebe a avô e depois bebe a birra da porta!
- E bebeu ou saiu voado? – A pergunta, meio descontrolada fez-se ouvir por todo o autocarro.
- O jovem ainda a gaguejar, pois procurava digerir aquelas palavras e tomar uma decisão, rcebeu da idosa a sentença final: acaba de me matar!..
Não houve tempo para mais perguntas. Só gargalhadas.

Obs: texto publicado no Semanário Angolense de 27.11.2016

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

A REFORMA TERRITORIAL E A BUSCA DE NOVAS OPORTUNIDADES


Fazia tempo que a sua vida era matar kasumunas enquanto a mulher treinava atletismo nas ruas da zunga com os fiscais administrativos. Embora não os lesse, Ndinha comprava sempre, no fim da sua jornada, um exemplar do jornal diário que oferecia ao marido que viajava de imediato as paginas de necrologia e anúncios sobre empregos.

No dia em que se anunciou a possibilidade de se aumentar o número de províncias e municípios, a cidade toda, as rádios, jornais e televisões não falaram de outra coisa senão a possibilidade de os maridos terem mais empregos e as senhoras da zunga mais espaço e territórios para vender. Ndinha que estava cansada das corridas nas ruas da Grande Capital já tinha esboçado o seu plano e cochichou mesmo às amigas que não perderia a oportunidade de se mudar daquela cidade, caso o assunto fosse levado a sério pelas instâncias superiores e pelo marido que matava kasumunas há já três anos, desde a desmobilização da vida kwemba.

Posta em casa, antes mesmo de contar as receitas do dia, Ndinha passou o jornal a Jota que consertava o fofandó que parara de gritar a sua dor de tanto uso por falta da energia da rede pública.

Pelos fundos do quintal, onde Jota se encontrava, não tardou surgir o grito de alegria:

- Ndinha, minha mboa, amarra o cabrito e as galinhas que estão na capoeira. Vamos procurar chefe Kapwete.

- Quem é esse Kapwete, Jota?

- Mulher, não esquenta. É irmão do chefe Kamundanda. Vamos. Há novos cargos na Libaju. Não ouviste que país vai aumentar? Temos de nos apressar se não vamos “lerapiar”.
- Mas, cargo então aonde, Jota. Coisas que explicas nunca só ficam esclarecidas. -Resmungou Ndinha.

- Vamos. Prepara as crianças e podes também avisar as tuas colegas que queiram singrar longe de Luanda. Vão criar 3 novas províncias, 75 municípios e sei lá quantas comunas. Já imaginaste quantos vão subir? É vida!

- Jota, é mesmo já você que vai subir?- Tentou contrariar Ndinha, na sua manina de “só para contrariar”.

- Eu não porquê? Eh? Não porquê?! Já não sou secretário executivo da Libaju? Aponta aí. “Se tenta” e oito novas circunscrições, vezes 17 comissários eleitorais, sem contar os departamentos e secções, administradores comunais, os “lima-unha”, os “joga-cartas de baralho” e os “leva-mala” do boss. Três províncias, vezes trinta directores, três vice, o staff e dependentes, os assessores… Jota fez pausa para levar ar fresco ao peito que reclamava água fria, devido à ressaca do dia anterior. E prosseguiu: “se tenta” e cinco administradores municipais e seus adjuntos, mais o staff das repartições... Dizem que até os deputados vão subir para 135. Vamos, não me faz perder mais tempo e oportunidade. Temos que levar o cabrito e as galinhas ao chefe Kapwete que está a fazer a lista. O período de recrutamento é curto e temos que aproveitar agora que os tubarões estão ainda na distração das festas e a engordarem com os cabazes. Vamos!

- É verdade mô Jota, mô amori. É mesmo muita vaga, Jojó. Vou também avisar a mana Miquilina, minha chefa-adjunta na Anazunga. Ela também estudou até à quarta classe do tempo de Agostinho Neto. Sabe ler, escrever e fazer contas de dinheiro. Ninguém lhe aldraba na tabuada!

- Sim dama. É muita vaga mas também muitos dos môs avilos ainda sem função, vivendo de “mixas” ou das damas como tu. Essa é a oportunidade da nossa salvação.- Respondeu Jota.

- Sim amor. Haja o que hajar, dessa vez ninguém mais nos kasumbula. Vamos, antes que as vagas dos municípios acabem. Nas províncias assim já se tombwelaram, mas nos municípios e comunas ainda deve sobrar. – Respondeu Ndinha com o kasula às costas, o filho mais velho agarrado à saia e puxando o cabrito pela corda. A galinha, o pato e um casal de pombos estavam na quinda que seria ofertada ao boss das listas.

- Vamos aproveitar o período festivo de natal e ano como motivo da oferta. Assim, o chefe Kapwete não alega “motivos de ordem moral” para recusar as ofertas em troca de umas vagas num dos novos municípios ou comunas que estão na forja.

- Vamos Mô Jota, homem vijú.- Respondeu Ndinha entusiasmada.

A família partiu, deixando para trás a casa arrendada na Fubu, e as dívidas das birras por saldar. Se vai dar certo ou errado ainda ninguém sabe porque o tal anúncio no jornal não passou de uma antecipação do dia das mentiras, 01 de Abril. Como não se despediram dos vizinhos nem levaram a pouca mobília, que Ndinha foi juntando com o dinheiro da zunga, ainda podem voltar a casa na maior tranquilidade. Há porém um mujimbo que corre e que aumenta a expectativa do casal.

 Obs: texto publicado pelo Semanário Angolense em 2015.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

CONTÍNUOS DO ANTIGAMENTE


Durante o meu percurso académico conheci na escola Ngola Mbandi, ex. Liceu Emídio Navarro, dois homens, dois contínuos sem precedentes. Um atendia pelo nome de Ti Pacheco, Domingos de nome próprio, e outro era o Ti Luís. Eram, na verdade, idosos que atendiam ao papel de pai ou de tio para todos os alunos da Escola do II e III níveis a que me reporto.
Depois de longos anos a trabalhar na Secretaria da instituição, Domingos Pacheco, que morava na Rua de Ambaka, no Rangel, entendeu viver a pré-reforma, servindo de contínuo, zelador do património escolar e conselheiro de toda a comunidade escolar (direcção, professores e alunos).
Era a ele que os novos directores se dirigiam para conhecer os cantos da escola, a cultura organizacional reinante e os trabalhadores, desde os mais antigos aos neófitos. O Ti Pacheco também conhecia os alunos, quase que nominalmente. Aos mais inteligentes costumava catalogar em nome, morada, classe a frequentar e disciplinas em que era melhor dotado. Na secretaria, contaram-me, o Ti Pacheco conhecia os livros de cor, desde o tempo do colono aos anos 90 do século XX. Bastava dizer-se o nome e ano de matrícula para que ele encontrasse o livro, extraísse os dados e passasse, em tempo record, o documento solicitado.
Quando as forças para subir e descer o escadote que o levava aos livros mais antigos da escola começaram a fraquejar, o Ti Pacheco decidiu ser zelador ou contínuo. E foi já nessa sua nova e importante função para a harmonia do clima escolar que o conheci. Tocava o sino pontualmente que até os homens que viviam na periferia da escola acertavam os seus relógios ao som do toque do sino. Recebia e encaminhava os encarregados de educação e visitantes à direcção, secretaria, e aos professores. Na sua cadeira, em frente à porta da instituição ou no jardim escolar, recebia os alunos com dificuldades em fazer as tarefas ou até aqueles que buscavam por outros conselhos. O Ti Pacheco, que tinha um domínio de Aritmética e Língua Portuguesa, dirigia--os, quando a questão estivesse longe do seu alcance, aos alunos brilhantes da sua lista ou indicava os livros para consulta. Foi nessas circunstâncias que fiz muitas amizades com rapazes e raparigas que já arrotavam bacalhau e bife, numa altura que boa parte dos “rangelistas” não passava do "revolucionário" arroz com peixe frito ou “ngongwenya” ao mata-bicho. A ele se deveu a difusão do meu epíteto de “o menino que corrigiu o livro de matemática”.
- Ó pioneiro, toma cuidado. Você que é esperto na escola não se deve meter com esses kazukuteiros que só vêm por obrigação dos pais.- Aconselhava. O ancião servia também de conselheiro para aqueles que estavam já na fase dos engates.
- Você que estuda bem tem que ficar com uma miúda também com juízo. Dois a se formarem e a trabalharem sustentam bem os “môs” netos.- Dizia, meio sério, meio a brincar. E não é que os seus bons conselhos resultaram em muitos casamentos, sendo ele, muitas vezes, padrinho?
Uma vez, depois de uma tertúlia sobre História, no jardim interior do Ngola Mbandi, o tio Pacheco passou ao ataque:
- Ó pioneiro, Você mora aonde?
- Moro no Rangel, tio Pacheco. Moro mesmo na sua rua.- Respondi-lhe receoso do que teria de ouvir. Na “trambiquice” da adolescência, nem sempre nossas acções satisfazem os mais velhos.
- Você é filo de quem?- Voltou a questionar, aumentando mais ainda o meu receio, levando-me a pedir uma licença para fazer xixi.
- Responde ainda filho, depois vais para o teu recreio.
- Sou filho da dona Maria que vive ao lado da pracinha do Kalisange.- Respondi, já com as mãos a apertar a “kimeta”.
- Ah, pois é. Então você é da Kibala, não é?
- Sim. Não, ti Pacheco.  Somos do Libolo.
O mais velho que se apercebera da minha “kagunfa” esboçou um pequeno sorriso e passou sua mão pela minha cabeça para me acalmar.
- Boa gente, os de kalulu. “Akwa Lubolu adya Jinyoka (os libolenses comem carne de jiboia). É ou não é?
- Sim, tio Pacheco, mas eu nunca comi ainda.
O Idoso puxou da sua pasta uma esferográfica e deu-ma de presente.
- Você é bom rapaz. Pioneiro esperto, estuda muito para ajudar a mamã. Está bem?
- Sim, Tio Pacheco. E despedimo-nos. Estava a terminar o ano lectivo e a minha sétima classe.
Tempos mais tarde, quando foi reformado, o Ti Luís, outro morador do Rangel, Rua 24 da Comissão, que trabalhara até então na Secretaria da escola com a mesma perícia do Ti Pacheco, tomou-lhe o lugar de contínuo da escola. Luís e Pacheco, ambos de Katete, pareciam ser da mesma escola e com o mesmo aproveitamento. Depois de reformado, o Ti Luís montou uma papelaria em sua casa onde o visitei várias vezes com o pretexto de comprar material escolar (cadernos, esferográficas, cola, etc.). Era a forma encontrada para uma conversa com o avô que não tinha e obter os seus conselhos de graça.
Quanto ao Tio Pacheco, vivia humildemente na sua casa, na curva da Rua de Ambaka onde muitas vezes o provoquei amistosamente.
- Como está Tio Pacheco de Katete?
- Ó, meu filho! Estás bem? Sempre com juízo?
- Com os vossos sábios conselhos e na Graça de Deus. - Respondia-lhe descontraído.
Domingos Pacheco chegou mesmo um dia, já aposentado, a chamar-me para uma outra conversa. Já à entrada de sua casa. Apanhou-me num dia de fome, procedente do Instituto, mas inclinei-lhe o ouvido e bebi de sua sabedoria.
- Estás a ver aqueles miúdos?- Indicava ele para uma quadrilha que passava cantarolando e fumando. Ninguém precisava de mais dados para automaticamente os catalogar de amigos do alheio. 
- Sim Ti Pacheco. vi-os saírem, da casa da vida, aí no "Beco um". Ajudei.
- Pois é. É isso que está a estragar a miudagem, meu filho. Toma Juízo. Se quereres mulher, pega uma e apresenta-te aos país da "kalumba". Essas casas da vida são desgraça. É kangonha, é doença, é tudo de mau. Estás a ouvir bem?
- Sim, Tio Pacheco. Estou atento e a anotar na cabeça os seus conselhos. - Emendei a seu contento. 
- Então vai com Deus e continua com o juízo que te conheci com ele no Emídio Navarro ( o ancião, dificilmente pronunciava o novo baptismo do liceu que se passou a chamar Escola do II e III níveis Ngola Mbandi em homenagem a um "grande homem" da nossa luta de resistência anti-colonial).  
Soube de um neto que se tornara também meu amigo que o Tio de todos os alunos do Ngola Mbandi já não vive. Nos últimos tempos da sua vida de reformado decidiu ocupar-se da pequena agricultura. Numa noite de infortúnio, uma parede desabou e causou-lhe ferimentos de que não resistiu.
- Meu avô morreu de parede. Disse, sarcástico, o “sacana” do Milton, como diria o tio Pacheco.
Haverá ainda nas nossas escolas contínuos como o tio Luís e o tio Pacheco?
Me parece que a fábrica fechou!
 
Texto publicado pelo Semanário Angolense a 21 de Agosto de 2015.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

A DIFICULTADORA DO FÁCIL

Em 31º lugar, do Top 100 Grandes Sul-africanos, Oliver Reginald Tambo, nascido em 1917 e Falecido em 1993, foi um político anti-apartheid sul-africano e figura de destaque do Congresso Nacional Africano (ANC) que lidera o país do arco-íris desde a queda dos segregadores de Apartheid. Tambo e Nelson Mandela foram membros fundadores da Liga Juvenil do ANC que em 1943 decidiu passar das simples petições ao governo segregacionista aos boicotes, desobediência civil, greves e a não-cooperação, valendo-lhes várias reprimendas de um governo agressivo, sem compaixão e que pretendia ver o negro sul-africano sempre debaixo da bota da minoria branca.

Mal eu desconfiava que aquela cara tristonha tinha alguma surpresa desagradável e não tardou em mandar-me pôr a mochila na balança.

- Deve ter apenas entre oito a 10 quilos, procurei convencê-la ao que não foi na cantiga.

- Está bem, vamos pesá-la e depois saberás se é para despachar ou levar em mãos.

Dez quilos batidos. Sem mais nem menos gramas. Convencido de que levaria comigo a mochila, a moça corta o ticket de bagagem e manda a mala rolar para o despacho: O voo será pequeno e por isso são permitidos apenas oito quilos. Fiquei bwamado. - Oito quilos é para despachar? Nem já no avião da empresa em que trabalho, que é embraier 145, despacho essa mochila. Será que a SAA vai voar hoje com Kazabula? - Questionei sem que dela obtivesse resposta plausível.

- Moço já disse que é avião pequeno. Se tem computador tira já a mochila vai ser despachada.- disse possuída de poder e arrogância.

 Dei meia volta e comecei a marcar os passos em retirada, procurando sorver um ar fresco que me oxigenasse a alma maltratada. Dentro de mim, à medida que fui pensando na figura cujo aeroporto me receberia quatro horas depois, vieram-me também ideias sobre como seria aquela moça se fosse uma branquela, filha de boers, no país do sol nascente e no tempo em que Mandela, Walter Sisulu e Oliver Tambo desafiavam os cassetetes e as balas dos opressores. Teria sido, com certeza, mais uma que não se cansaria de lavar as mãos de sangue alheio. Preferi, por isso trata-la, nas minhas idas à memória, por “a dificultadora do facilitado”, nome que lhe pode cair a perfeição.

E os Joanesbrguenses, para não falar dos sul-africanos em geral, sabem que é no poupar que está o ganho. Basta ver as luzes, quase sempre de baixo consumo, as barreiras nos jactos das torneiras, o cuidado com os descartados e a proibição, pelo menos nos seus aeroportos, do uso do tabaco. Aqui são poucas as “salas Vip” para fumadores. E é no avião, ainda no ar, que se ouve esse anúncio para os que fazem gosto ao tabaco, não se importando, muitas vezes, com o desconforto dos outros, os fumadores passivos e sem sistema de defesa contra os malefícios do fumo.

Nas suas actividades, sejam bem ou não muito bem remuneradas, demonstram felicidade. Cantam, sem incomodar o utente e o colega, enquanto despacham, dançam enquanto caminham, esboçam sorrisos mesmo para homens e mulheres cujos idiomas não percebem e demonstram que na sua terra vive-se feliz com o que têm e o que ainda lhes falta. Quem me dera se pudesse trazer um pouco dessa felicidade dos que trabalham e disseminá-la pelas nossas empresas e instituições? Quem me dera, eu mesmo, ser um homem sempre sorridente, ante aos entraves da falta de meios de trabalho, mas sempre empenhado, entregando os produtos a tempo e realizando as tarefas nos prazos? Mas será mesmo que a infelicidade estampada nos rostos todos os dias, a lassidão na execução de tarefas que nos são acometidas, o espírito de deixa andar ou “empurra opara trás” levam-no a felicidade quando sabemos que devemos dar a nossa parte para construirmos o Edifício Angola? E vou aprendendo com os joaneburguenses que inspiram, com a sua felicidade qualquer homem trabalhador.

 Já a caminho de Cape Town, outra cidade sul-africana que põe muitas do norte da SADC em sentido, concentrei-me no comportamento e semblante das aeromoças e até “aeroidosas” que se fazem todas passar por moças de verdade, esbanjando sorrisos, boa disposição e contagiando os utentes de seus serviços. Tal sensação de estar bem, atender bem e transmitir confiança a quem se presta serviços levou-me a viajar no pensamento, ao encontro da manas (nem todas) do meus amado país que levam ao serviço e brindam os utentes internos e externos de seus serviços com a indisposição que lhes causou a água que não jorrou o suficiente na torneira, a energia que ameaça descongelar o frango, a carne e o peixe na arca ou mesmo o cantar madrugador dum galo com insónia, quando não é o ladrar intrépido do kambwá do vizinho possuído de medo dos “gatos” pretos que rondam os aposentos do seu amo, noite sim, noite também. E pensei no quanto essas lições de vida podiam ser-me úteis nas difíceis tarefas que me aguardam. Mas não é tudo. A mesma mala e os mesmos quilos despachados em Luanda enfeitou os meus ombros na ida e volta à Cape Town e com a mesma companhia que, para as rotas internas, até opera com aparelhos mais modestos em termos de envergadura. E me pergunto a cada momento. Mana é que então que se passa na tua vida, tão jovem ainda?
 Em Cape, subi a montanha eleita como uma das sete maravilhas do mundo e comparei-a com a beleza da nossa Fenda da Tundavala a reclamar por miradouros que atraiam turistas e lojas de “gifts” para que os turistas nunca se esqueçam da nossa Angola e contem estórias sem fim. Subi ao cume do monte mesa, viajando no cable e imaginei-me na Huila ou em Kabatukila, em Malanje. Por instantes, me distraí e veio-me ao ouvido um som, uma música já muito badalada, cujo refrão gritava alto para o mundo: Angola, tu (também) és capaz!

domingo, 10 de janeiro de 2016

BO-KO-HA-RAM NA NOITE DO TIRA TUDO


Numa dessas raiv´s que os novos fidalgos vão organizando aos fins-de-semana, tentando impor uma vida importada, perante os olhares furtivos dos país que tudo podem e fazem, mas nada movem para os situar na terra de seus ancestrais, dançava-se, fumava-se e bebia-se perdidamente.

As cerca de cem almas que trocavam salivas e sêmenes naquela cave insonorizada pareciam ter recomposto e trazido à terra de Ngola as famigeradas cidades de Sodoma e Gomorra dos imemoriais tempos babilónicos. Beijavam-se aos pares. Homem-mulher, mulher-mulher e homem-homem. Os segregados “extra-terrestres” socorriam-se da táctica da avestruz: cabeça na terra, corpo volumoso à mostra. Eram os homens da penumbra. Os “não faço, não condeno” e deixava-se o barco da raiv navegar até ao nafrágio. 

“Me esfrega, me possui toda.” Gritava a música, ao que as miúdas e os miúdos de pensamento importado acompanhavam em gestos grotescos e animalescos, ora com os pares que podiam ser de qualquer sexo, ora com o pilar másculo de betão que suportava a laje do edifício de catorze andares, pós-chão.

Tocou-se depois o “me lambe” e trocaram efusivas salivas. Corrias rios boca-adentro, literalmente.

Seguiu-se a dança do cachorrinho, também apelidada por “do kambwá”. O erotismo e a devassidão inundaram o recinto, qual tourno fecundo largado em manada de vacas ciciosas. Fez-se “por-nu-e-grafia”. Os celulares registaram os momentos. No dia seguinte, os lugares de relacionamento digital estaria repletos dessas imagens que se multiplicam à moda chomskiana.

- Mamá cultura alguém te vê? – Gritou fosca uma voz de fora que assistia por uma fresta  àquelas cenas de encher a tenda do soba nos dias em que se respeitava a idiossincrasia dos Ngola. Feliz ou infelizmente, foi apenas uma voz isolada e, pior ainda vinda de fora daquele mundo moderno.  

Quando a festa parecia ter atingido o apogeu, já na habitual hora do banho e da eleição da “mais recortada”, o organizador lembrou-se da ausência do trio convidado para júri.

Já meio mundo estava em peças minúsculas. Era, afinal de contas, a noite do tira tudo. A festa estava repleta de filhos de quem conjugava os verbos ter e poder.

- DJ, pára a música, por favor. Só meio minuto. – Falou alto ao microfone, o organizador da raiv.

- Alguém viu os membros do júri? – Questionou, meio preocupado.

O tom, meio aflito teve interpretações várias. Uns pensaram que não haveria o desfile da mais recortada que habitualmente é posta a leilão quando não é a própria que sobre à montra para a “noite do forever”. Outros pensaram ser mais uma brincadeira do Man-Nelito, o organizador que voltou a servir-se do microfone.

- Cadê o júri, people?

- Bokwaram.- Respondeu um dos assistentes escondido à porta de escape.

O som "bo-kw-a-ram", ressonado em eco, trouxe-lhes á memória um grupo que espalha terror por um apaís da África Subsariana, exportador de petróleo.

- Bo-Ku-A-RAN?!- Foda-se!- Lengweno!

E foi debandada. Ninguém mais se lembrou das roupas, inicialmente curtas, curtinhas, íntimas e posteriormente inexistentes nos corpos ciciosos. O entornar dos candelabros e copos de whisky fez do espaço um autêntico campo de pólvora. Tudo foi aos ares.

Quando a polícia e os bombeiros chegaram ao local para confirmar o mujimbo e apagar as cinzas, só encontraram gente nua, cá fora, e fogo consumindo odores orgiásticos, lá dentro.

- Quê que foi então?- Indagou o chefe da patrulha, perante aquele estranho ambiente encontrado ao redor do edifício em chamas.

- Bokwaram, kota. Bokwaram! - Respondeu Man-Nelito, assustado e desolado.

- Boko Haram? Merda, pá! Cava daqui! - Ordenou o intendente à sua tropa.

O wion, wion, das patrulhas bateu em retirada, enquanto as chamas lavravam a cave e o edifício acima.

Durante meses, não se falou sobre outro assunto que não esse. Até as conversas entre apaixonados acabavam sempre na estória da noite do tira tudo.

- Oh compadre, Joaquim Luzento tinha lido o debate num jornal de fim de semana, você aceita o sobrinho Zenito aparecer aqui com um gaja?

- Um gaja como assim?  Uma gaja ou um gajo?- Inquiriu e Manuel Kambuta que procurara o amigo para falar sobre os “avanços culturais” dos últimos tempos.

- Porra, pá! Compadre, até agora não me conhece? Eu quero netos, sangue passado para sangue e não netos de doação. – Atirou, sempre no seu jeito trocista.

- Pois é, Luzento, folgou a gravata que quase o enforcava, e prosseguiu. O assunto da semana é então esse Apontando para o jornal).

Os amigos, já cinquentões, dividiram as páginas e fez-se silêncio na capital inteira naquele ano de 2015 que corria apressadamente para o século XXIII!

 

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

O GENERAL PAPA LEITE


Apesar de ser moda, os nomes dos personagens das telenovelas influenciarem os antropónimos dos que nascem, dos que estão por nascer e daqueles que ainda estão no mundo das ideias reprodutoras, o caso dele foi sui generis nos dias que correm. Os mais brincalhões já tinham inventado nomes como Kamutumbulé, Kecijina, Contranatura, etc.,  só para levar Yani e o esposo Matoso a desvendarem o nome do futuro rebento que todos os dias fazia evoluir a barriga da jovem.

Mesmo no dia D, dia do “ó moço, num estás a ver a barriga já subiu e já desceu, começa a se mexer” os futuros pais  mantiveram o segredo do nome da criança, o que deixava a vizinhança e parentela expectantes.

- Tens que te mexer, senão o filho vai te nascer em casa. - Aconselhou Xica Pinto, buscando aproximação ao jovem Matosos.

As vizinhas que gostam de procurar conversas para irem bwatar ou simplesmente enfeitar a boca e fazer comparações novelísticas, tentaram ainda procurar pelo jovem Matoso, marido bem casado da moça em estado terminal de gestação, insinuar, como se para se atribuir o nome à criança fosse necessário reunir o quarteirão ou os moradores todos daquele beco longo e apertado do bairro da Pedra Escrita.

- Bom dia vizinho Matoso, ainda bem que já chamaste o teu primo da ambulância. Assim, quando chegar a hora do bebé nascer, vai ser mais fácil levar a vizinha ao hospital. – Elogiou Dona Magda, outra vizinha, para indagar:  o vizinho já tem o nome do filho ou quer que lhe traga revistas chinesas e brasileiras para escolher o nome antes mesmo da criança nascer?

Matoso, bwamado por causa daquela inesperada e inusitada oferta, olhos e coração mais voltados para a mulher que dava indícios de estar a perder ar e sem força para o ”ai meu Deus, me ajuda só”, fingiu não ouvir a colocação da Vizinha Xica Pinto que se mostrava, entretanto, pronta a ganhar o desafio do nome.

Magda, cujo atrevimento era já conhecido de todos no bairro, deu dois pulos atá à casa dela, que era a última do beco, em busca das anunciadas revistas, mesmo sem que de Matoso tivesse recebido anuência. Foram quase trinta segundos, o que só podia ser conseguido por uma voadora ou então usava revistas debaixo das vestimentas para alinhar as carnes volumosas que lhe fugiam das roupas apertadas, fazendo dela uma ”senhora em rodelas”, como também era conhecida no bairro, fruto das estigas das moças que se achavam melhor alinhadas corporalmente.

- Mano Matoso, estão aqui os nomes. São todos bonitos. Tens nomes de várias origens. São todos bonitos e nomes de moda que passam nos filmes e nas telenovelas da actualidade. Se for menina é nas páginas ímpares. Se for rapaz é nas pares. – Anunciou Magda Ferreira, também conhecida como a ”dama das rodelas”, esperando que a sua sugestão fosse tida em conta.

Matoso folheou as duas revistas, esboçou um sorriso matreiro, apenas para iludir a impertinente vizinha e faze-la entrar no quarto onde Yani aguardava pela hora dos toques vibratórios.

- Muito obrigado, vizinha Magda. Quando o bebé nascer vamos escolher o que nos parecer melhor. – Disse-lhe Matoso que continuou a sua lida caseira.

Não tardou para que outra senhora, também vizinha, e por sinal tia de Yani, que acompanhava o desenrolar dos acontecimentos, saísse para anunciar a partida para a maternidade:

- Sobrinhos, ponham já a trabalhar o carro. Parece que já é hora de irmos andando, antes que a bolsa do líquido amniótico rebente. – Anunciou dona Irlanda.

As imbambas da kivwadi e da criança  estavam já acondicionados numa mochila bicolor, azul e rosada. Tudo meticulosamente preparado para iludir, pois eles, Matoso e Yani, já sabiam o sexo da criança mas queriam manter as pessoas na espectativa.

Na maternidade, a conversa das tias e avós, que foram emprestar seus corpos para fazer frente ao frio estremecedor e aos mosquitos sanguessuga, era somente sobre o sexo oculto da criança (já se parecia uma discussão sobre o sexo de um anjo) e seu nome incógnito.

Já tinham sido feitas várias cogitações e sugestões, mas o casal, pais de primeira viagem, mantinha a chave fechada aos caprichos dos parentes e amigos.

- Esses jovens são duros, yá?! Até me fazem recordar o nosso tempo de Kivwadi, quando só os homens é que davam os nomes e, para te  abonarem com a nomeação de um familiar tinhas que lhe  encher a casa de filhos saudáveis. – Desabafou a Velha Nzumba, avó materna de Yani.

Em casa, no bairro Pedra Escrita, a ngoma já estava encostada ao lume brando e as bebidas ganhavam forma nas caixas térmicas. A moçada toda, rapazes e raparigas, amigas, primos  e amigos do casal, estavam literalmente de telefone em punho, aguardando pela mensagem de confirmação do  nascimento. Todos queriam ser os primeiros a receber a benquista mensagem. Cogitavam também nomes e simulavam junções de iniciais de Judith, a Yani, e de Necas Matoso. Ora juntavam as iniciais dos avôs do bebé, sogros do casal, e até dos amigos e amigas mais chegadas. As mulheres faziam passear a imaginação pelas novelas e big brothers angolanos, mexicanos, chineses e brasileiros, procurando pelos actores galãs e atrizes de beleza invulgar conhecidos até à data.

Estava já estampada na parede, em letras garrafais,  uma enorme lista de nomes inventados.  Era a surpresa que os amigos tinham preparado para Yani e Matoso. Quando Josina, da parte do marido, e Masoxi, da parte da esposa, receberam as mensagens nos telemóveis, confirmando o nascimento do bebé e pedindo-lhes que difundissem a boa nova aos convivas, a lista foi refeita e a festa teve oficialmente o seu início.

Tocou-se música sacra de recepção ao menino. Coros afinados de distintas igrejas cristãs, mas convergentes na hinologia, entoaram o ”Vinde meninos, vinde a Jesus”. E a criança era menino! Depois foi a vez da música profana acompanhada de doses imodestas de bebidas fermentadas e destiladas. À chegada dos pais e avós, acompanhados do bebé, já latas e garrafas pulverizavam o quintal que recebia gente atrás de gente. Os que chegavam traziam consigo manjares e lubrificadores para as gargantas ressequidas por canções adventistas. Eram já nove horas da manhã do dia seguinte.

- E como se chama o rapaz? - Perguntou a tia Irlanda que acabara de chegar, também curiosa.

- Tia, por enquanto vamos tratá-lo por Papa. – Respondeu a parturiente.

- Papa ou Papá! – Voltou a questionar a senhora, nada satisfeita com a resposta recebida, e ajuntou: Se vier a ser Papá será chará da parte materna ou paterna!

- Tia, ainda vamos acertar. Temos de esperar até que as minhas feridas sarem. – Yani respondia olhando para Matoso que parecia ter perdido a fala de tanta alegria.

- E o sobrinho não diz nada! – Atirou novamente Irlanda, de forma provocadora.

- Titi, por mim é Leite. Papa & Leite. Isso é a preocupação do momento. Quando conseguirmos esses indispensáveis alimentos para o bebé conseguiremos definir o nome dele.  – Explicou Matoso irónico.

A festa e a conversa prosseguiram noutra dimensão. Já  não era sobre o nome que se falava. Era sobre o homónimo real. Uns tratavam o menino por Papa ou Papá e outros por Leite ou Leitinho. Assim foi por uma semana até que o casal recebeu a visita do Tio Soba que, olhando para o netinho, exclamou:

- Cara do Comissário! Que nome atribuíram ao rapaz!

- Na ausência do nome definitivo estamos a tratá-lo por Papa e Leite. – Explicou Matoso, acompanhado pela esposa, que é sobrinha do Soba.

- Lembram-se daquela crónica ”O Comissário Papa Galinhas” que publiquei no Angolense, em homenagem ao pai da Yani? Então, podem anotar: Comissário Papa Leite fica bem, só para começar.

O casal que ja vinha alinhando ideias naquela direcção não rejeitou a sugestão e o bebé ganhou o registo oficial com o nome do avô materno que é oficial comissário.

 Obs: texto publicado pelo Semanário Angolense a 13.11.2015

domingo, 20 de dezembro de 2015

A POBREZA QUE O TUGA FINGE NÃO VER


Nos meses de Março, Abril e Maio, Portugal, e concretamente Lisboa, é uma cidade muito iluminada. Não porque noutras estações do ano falte luz ou energia eléctrica como aqui (Angola). Não. É o sol que se prolonga, para além do raiar que é madrugador. E quando o sol não se põe ao Atlântico, o angolano ou africano recém-chegado às terras de Vaz de Camões tem dificuldades em buscar a quentura dos colchões e lençóis que o aguardam no hotel ou noutra albergaria.

No centro da cidade de Lisboa, o El corte Inglês, a Praça de Espanha, a Fundação Gulbenkian e outras paragens que incluem restaurantes, bares e tascas para “frascos” (imperiais e pomadas) e cafés são referências quase que obrigatórias para visitas periódicas e diárias.

Há porém quem pretenda viver um feriado, visitando os enormes centros de compras ou mesmo, vestido à paisana, enfrentar a enchente na Praça do Relógio (uma espécie de Roque Santeiro organizado). Só que não tarda, a repetição mata o espanto e a preferência começa a ser a cidade subterrânea, o metropolitano de Lisboa, com a sua grandiosidade crescente, que nos remete há alguns séculos de atraso se não corrermos a bom passo e com qualidade.

Aqui, no metrô, surge então a importância do mapa de Lisboa, ou seja, dos transportes públicos da cidade. O Metrô, com as suas quatro linhas: a vermelha-Alameda/Oriente; a verde -Cais do Sodré/Telheiras; a azul -Baixa-Chiado/Amadora Este e a linha Amarela que vai do Rato a Odivelas é meio de transporte público mais procurado, quer por nacionais quer pelos turistas, levando-os aos mais recônditos sítios da capital lusa, às vezes, com os préstimos do comboio de superfície, das carreiras, do táxi e até de amigos. É para tal que existem os amigos, quanto mais não seja para pôr a "fofoca" em dia.

- Comué na banda, tá-se? - Pergunta o Pedro, 20 anos na tuga e sem meios ainda para regressar. Finge um sotaque lisboeta mas nota-se no encadeamento das palavras a fraqueza do vocabulário e a mistura entre português lusitano e um calão já arcaico deixado no auge da sua criação em Luanda.

- Yá! vive-se. Há crescimento.  - Responde-lhe o amigo João Manuel, turista de ocasião que frequenta uma formação profissional de duração intermédia.

E o teu regresso? – Ataca João Manuel, procurando encontrar uma resposta convincente sobre a sua estada na antiga metrópole, numa altura que até os tugas se colocam na fila da frente para atacar as terras deixadas em 1975.

- A minha volta? Daqui há nada. É só tempo de reunir uns farrapos e completar a mobília. – Justifica-se, enroladamente, Pedro que, ao que se diz, já dormita debaixo duma ponte quando não é a sobra da estátua dos heróis que o abrigam em tardes de sol abrasador.

São essas as conversas nos cafés e noutras andanças entre os que vão a Portugal em missão turística, estudos ou de trabalho e os que lá ainda estão nas bumbas precárias, nas pedreiras ou nos bares.

Pedro, um jovem nascido no Cazenga e que nas refregas de 1992 entendeu vender à socapa a cubata da mãe e emigrar para a tuga, que na altura “batia” é um dos que, envergonhados por nada terem amealhado durante o tempo de vacas gordas por lá e balázios por cá, enterraram a vida na copofonia para enfrentar o frio. Erguem hoje terras alheias a troco de migalhas, que dizem ser bem maiores do que aquilo que nos vai ao prato aqui no país, algo que até o pior dos cegos já vê e desmente.

Ainda na Tuga, é no metropolitano de Lisboa que a África se casa com a Europa civilizada. Em cada paragem, o modo poético de estar europeu é sempre cortado ou pela brutalidade de um homem do leste europeu que ignora a leitura dum jornal, preferindo a fala, ou pela harmónica de um pedinte qualquer. E os pedintes que aumentam dia após dia, são homens de todas as idades e sexos.

Na linha azul do metropolitano, por exemplo, é presença obrigatória a de um cão kabiri, aparentando apenas dez semanas, viajando em ombro forte dum rapaz também nos seus dez anitos que chama a atenção de quem é atento a essas coisas. O silêncio corta até os murmúrios dos africanos sempre dispostos a debates. O rapaz faz chorar a harmónica com o farfalho de seus dedos. Não tarda, chovem moedas no copo descartável amarrado ao instrumento musical. A cena se transfere para a carruagem seguinte, e a pobreza ruma até à morte.

Os africanos mudam de linha mas a estória continua. A peça seguinte é executada por dois adultos de grande compleição física. Dir-se-iam, no nosso linguajar, “caenches” de primeira hora. Um leva no colo uma guitarra e o outro uma harmónica. Soa um fado e os portugueses são os primeiros a aliena-los com moedas. De repente, irrompe uma voz incómoda entre os africanos.

- Não há por cá subsídio de desemprego?

À pergunta se segue o silêncio e só as moedas falam no copo. A moda antiga de dar pão ao pobre ou uma sopa morreu. Era uma vez. Passou à história. Ao menino que se devia dar uma escola, pois o pepino ainda pode ser torcido, dão-se moedas e todos aderem até os Padres que se fazem transportar na carruagem. A formação profissional é negada aos jovens desempregados a troco de um fado barato e ainda dizem que problemas como estes só estão em África. Todos vêm, mas fingem não estar atentos ao que lhes queima a barba, porque só o Marburg em Angola é preocupação, só a Dengue em Timor ou cólera em São Tomé matam. Ninguém quer ver. E lá se vai o metropolitano com uma estória que já virou história.

Todos os dias em todas as paragens, o mesmo cão no ombro do mesmo rapaz, o mesmo fado na mesma carruagem e o mesmo dinheiro.
NB: Crónica (ainda actual) escrita em Lisboa, a 4 de Maio 2005. Publicada a 18 de Abril de 2015 no Semanário Angolense.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

REVISITANDO A HISTÓRIA E A TRADIÇÃO ORAL

Nkidyafuka: é o vocábulo bakongo que designa quem tem dívida há muito por pagar ou impagável. Essa condição em que se encontrava o meu primo Segunda João, a quem que ajudei a criar, levou-me a Mbanza Kongo, percurso de mais de 450 Km por terra, em estrada ainda bem cuidada, para o seu pedido de noivado, transformado em "casamento" na tradição bakongo.
- Na conservatória podem ir apenas os dois que se casam e os amigos, como também nunca se nega a separação. Para nós bacongo, esse é o nosso casamento. Envolvemos os familiares no acto e quando nos vêm comunicar separação, nós dizemos sentam ainda aqui, vamos conversar. É esse o casamento seguro, o que envolve as famílias. - Declarou o tio-sogro, no momento dos conselhos e recomendações.

Entre colinas que escoam abundante água pluvial para riachos e canais temporários, cresce o mosaico habitacional, destacando-se o tijolo (cor do adobe queimado e) que confere resistência e longevidade aos imóveis.
Para quem como eu não ia a Mbanza Kongo há dez ou mais anos, a cidade cresceu em tamanho e qualidade de vida dos seus habitantes: há mais casas e edifícios erguidos na vertical, há mais asfalto, largos e novos monumentos e, acima de tudo, mais sorrisos nos rostos das pessoas, longe do que um jornalista gozão tratou, em Abril de 2005, por "cidade de rua e meia".

A receber quem chega de Luanda está um monumento que representa o topónimo do antigo reino: um caçador (nkongo), munido de kanyangulu, outros instrumentos menores de caça, um valente cão (também necessário ao caçador) e acompanhado por uma senhora que leva os víveres e que, com certeza, confecciona a jinginga servida ao jantar.
Mas estou ainda no Ambriz, norte do Bengo, a caminho do Zaire, parado num posto de abastecimento de combustíveis, aproveito prosear:
- Mana, boa tarde!
- Boa tarde mano. Quer "arguma" coisa para consumir ou para levar?
- Para consumir. Um café, por favor. Pode ser com açúcar, mas tem de estar quente e forte.
Enquanto a jovem ligava a máquina aproveito provocá-la:
- Mana, como se chama quem nasceu no Zaire?
A senhora faz passear a mente que navega nos conhecimentos acumulados ao longo do tempo e da instrução e quase naufraga.

- Mano, nasci "mborra" em Luanda. Minha mãe é que é daqui do Ambriz e o meu pai é que é de Mbanza (Kongo).
Mariana desviou a resposta que eu esperava, sendo, porém, fornecida por um seu colega que me a transmitiria em voz meio muda:
-  A resposta é "zairiense", kota. E justificou-se: zairense é do Congo Democrático. Nós aqui "samo" mesmo de Ambriz, ambrizetano (do Nzeto) ou mbanza-konguense que também se chama "zairiense".

João Nevumba, como se apresentaria já na hora de despedida, não se ficaria por aí na sua explicação e acrescentaria:
- Estou a ver que o mano está perguntar porque gosta mesmo de saber e parece que está mesmo a ir "na" capital. Mano, as pessoas de Mbanza não gostam muito "lhes" chamar "zairiense". Quando o mano chegar, se precisar referir, fala só mukongo que abrange todos do norte.

Acatei o conselho, joguei o café, meio frio, garganta abaixo. Engatei a mudança automática de progressão e rumei à cidade cujo símbolo apresenta cinco espadas que simbolizam igualmente número de topónimos por que já foi designada: Mpemba, Nkumba Ungudi, Kongo dya Ngunga, S. Salvador do Congo (depois do baptismo do Rei, tornando-se cristão) e  Mbanza a Kongo.

Nkongo, contam os guias do museu, é caçador na língua local. Terão os enviados de Diogo Cão, aportado em Matadi, perguntado como se chamavam aquelas terras, ao que os nativos vindos da caça entenderam que se lhes tivesse sido questionado "o que eram", tendo respondido "nkongo" (caçadores). O reino que possuía seis províncias geridas por "Manis" (titulo de governadores) tomou a designação de Congo, sendo Mbanza (capital) a Congo, na pronúncia e escrita dos comerciantes de bugingangas e anunciantes de Cristo,  o centro político para aonde os "manis" levavam os impostos recolhidos para custear a máquina administrativa. O detentor do poder supremo é Ntotila, em cujo Palácio repousa(va) uma frondosa árvore de três grandes ramos (são dois na actualidade) e uma fronde de folhas permanentes, sob cuja sombra eram efectuadas as audiências e os julgamentos. Perdeu-se na memória o nome da árvore (tipo). Porém, o facto de ter acolhido vários "kuhu" (boas vindas ou conversas introdutórias que para os ambundu equivale a mahezu) ela ganhou o registo de yala kuhu.
O residência real possuía ainda um espaço muito restrito para a lavagem e  tratamento do cadáver do rei finado (sungilu) para que fosse possível conservá-lo intacto até ao acto fúnebre que era procrastinado até à chegada do Mani que vivesse mais distante, chamados todos pelo som do tantã.

A casa mortuária real (mpindi a tadi) ficava a umas centenas de metros do Palácio, distância aproximada a que nos leva ao campo santo real, colado ao nkulu mbimbi (igreja antiga, a Sé com mais tempo a sul do Sahara).
Mas sobre Mbanza Kongo não é tudo. Sobre o desrespeito à mítica Yala Kuhu, contam-se estórias associadas à queda, nos anos 90 do sec. XX , de um elicóptero que, entre outros, vitimou o bispo da diocese local e também o despiste de um avião da companhia de bandeira, já no início do séc. XXI, que levou à morte o administrador municipal, para além do "sangue que a árvore jorrou, estendendo-se do espaço em que está o pavilhão desportivo até ao cemitério real, quando os brancos construíram a estrada, cortando o terceiro galho".

Mas o guia do museu, formado no Benin, em preservação de espaços históricos, a luz da candidatura da cidade de Mbanza Kongo a património da humanidade, não se fica por aqui e vai mais adiante nos detalhes da sua apresentação. Fala também do "Mbanda Mbanda, do clã Nenzako, de Maquela", uma espécie de Presidente do Tribunal Constitucional, a quem cabia entronizar o rei, e informa que "Mbanda Mbanda e o rei no trono nunca se podiam reencontrar. Se o rei fosse à terra dele, ele se ausentava. Se Mbanda Mbanda viesse à capital, também o rei se ausentava. Ele só se via com o Ntotila uma vez e para o entronizar", concluiu.
Entre História confrontável nos livros já abundantes e estórias de ouvir contar e entreter o visitante/turista, muito há ainda por ouvir e desvendar. O melhor mesmo é percorrer os cerca de 450km que separam Luanda de Mbanza a Kongo para ver ouvir e reter. E quiçá recontar também?!

Obs: texto publicado pelo Semanário Angolense de 11.12.2015