terça-feira, 21 de julho de 2015

OS MONSTROS QUE AS QUEIMADAS COLOCAM A NÚ


O suprimento da saudade que os sufocava, havia já mês e meio, fê-los sorver aquele momento único em surdina. Era como sugar o tutano na mais profunda intimidade. Ele instalado nela (carrinha) e ela dando gozo ao longo de léguas que separavam o nordeste do centro-oeste para aonde se dirigiam.

- Lembras-te, Soba, quando viemos parecia não haver ferro retorcido ao longo da via. Vês que a paisagem hoje mudou? - Disse ela em ruídos apaixonados.

- Sim, Maria. Temos ainda muitas sobras das guerras. - Respondeu o companheiro, enquanto a afagava com mais uma mudança de força.

Mas, Soba, donde vieram então esses monstros todos, já sem cor nem forma, e que fazem recordar os tempos do tri-tri-tri-buummmm?!

- Estavam escondidos, Maria. Eu também pensava que os catadores de ferro já tivessem recolhido todas essas lembranças das guerras e levadas à siderurgia nacional. Pensava que já estivéssemos a usar arados fabricados com despojos e destroços das guerras. Ainda bem que as queimadas à beira da estrada estão a colocar tudo à mostra dos recolectores de ferro velho. É tempo de obra para os ferreiros. - Explicou o amo.

A travessia de um grupo de adolescentes com pás nos ombros fê-los interromper a prosa oral para reflectirem sobre as pás que sulcam terra em busca de incertezas escondidas no subsolo, numa altura em que a paz permite ter escolas à dimensão dos aglomerados, porém algumas chorando por alunos refractários.

- Esses assim vão à tonga ou à campanha sabatina de limpeza escolar? - Atirou Maria inocente.

- Acorda, filha. Estamos em Xamikelenge. Aqui e na Muxinda as pás, mesmo em tempo de paz, significam ainda a busca de kamanga. As escolas têm ainda as carteiras vazias à espera desses mancebos. - Explicou irónico o dono dela.

- Soba, voltou a interromper Maria, quando falávamos sobre as sucatas acastanhadas de ferrugem e já sem as chaparias que ajudariam a descortinar de que tipo de veículo se tratavam, falavas em sobras das guerras, no plural. Houve por cá muitas guerras? Gostaria que me explicasses tim-tim por tim-tim. - Solicitou Maria quase suplicante e cortado já, a meio, a encosta de Kabatukila, Xinje, onde, por ironia, um camião carregado de ferro velho repousava ad eternum no meio da rodovia, entregando-se também à interminável quantidade de ferro por recuperar país adentro, recortar, transportar, fundir e transformar. - É preciso, afinal de contas, dar vida à agricultura e à construção de infraestruturas, o que passa pela reactivação da indústria siderúrgica, cogitou, sem no entanto o pronunciar.

- Sim Maria. Usei mesmo, e propositadamente, o plural.

Houve a guerra dos movimentos contra o colono, durante 14 anos, em que muita técnica das tropas ocupacionistas foi aniquilada nas emboscadas. Depois foi a guerra civil que também destruiu a técnica militar automóvel e rodo-transportada das partes conflituantes ao longo de 28 anos. Temos ainda a guerra infinita entre a estradas e os veículos, entre os automobilistas e as vias, que parece ser a mais dura e lúgubre. - Explicou seu amo.

Maria aprovou o discurso, solicitando uma mudança de menos força e mais corrida ao que Soba prontamente compreendeu e anuiu.

Prosseguiram a viagem entre silêncios, diálogos e afagos carregados de recordações e afectos. Maria, no auge da força e jovialidade. Ele, Soba, no auge do poder, vigor a paciência em contornar as inúmeras armadilhas e os incautos camionistas que, vezes sem conta, colocavam o traile no eixo da via, submetendo em risco a vida daqueles com quem se cruzam nesta batalha da busca do pão comum para o estômago vazio.

- Esses assim pensam que a estrada é propriedade privada deles ou que os outros não têm vida? - Desatou Maria, que não poupou um estrondoso muxoxu que lhe invadiu a boca. - Vão mazé, seus sacanas de merda, e tenham juízo nas vossas cabeças de gafanhoto, pá! - Concluiu resmungante Maria.

- É isso, Maria. Isso é pão de cada hora. É isso que alimenta os esqueletos metálicos na via. Alguns camionistas só se dão conta disso depois de entrar em prantos, envolvidos num sinistro, ou quando tripulando um veículo menor se depara com semelhante corneada. É essa a luta desigual que mais me preocupa. - Falou- lhe filosófico o amo antes de ser parado para uma fiscalização preventiva dos homens do apito laranja.

- Donde vem, senhor condutor? - Atirou o agente de farda verde e colete laranja.

- Do nordeste, senhor agente. – Respondeu o soba, já com a papelada da Maria e a sua em mãos.

Conferida a papelada, acto que se repetiu outras nove vezes ao longo do trajecto, o agente, caprichosamente aprumado com gravata e luvas, devolveu os documentos e fez o sinal de partida. Aliás, não faltaram as perguntas do costume: como vai a viagem e que notas de realce nos reporta, senhor automobilista­?

Não havendo acidentes ou incidentes graves ao longo de tudo quanto tinha percorrido, preferiu soltar um NADA CONSTA e seguir viagem até à cidade erguida sobre a encosta da montanha das cobras Ndala onde tomou a primeira refeição do dia que se acrescentaria ao meio litro de café que tomara ao longo das oito horas de estrada. Maria também reclamava pela segunda refeição, o que lhe foi servida sem hesitação. Havia ainda perto de duas centenas e meia de quilómetros pela frente. O sol despedia-se a caminho do grande Kalunga-Lwiji, ao ocidente. Sábado da batida e da Ngwenda na capital e arredores, na Catedral do amor católico, bem nas barbas do Kwanza que dá vida e dinheiro aos akwaxi, as devotas pediam dinheiro, maridos, felicidade e tristezas para as concorrentes. À espera de uns incautos desconhecedores das regras de trânsito ou das leis estariam outros akwaxi. É a lei da vida urbana e da selva. É a lei dos opostos. Maria que ouvira até aí os desabafos do seu amo voltou a questionar.

- Mas por que pedem algumas pessoas a morte de rivais, Soba­?

- É a lei dos opostos, filha. O que te faz bem pode não me fazer bem. O que pedes pode ser o oposto do meu desejo. Já vi duas rivais a rezarem para que a consorte desaparecesse do mapa. – Troçou o amo.

- Ai é­? Então leva-me à Muxima. Pretendo pedir que nessa estrada, da Capital aos Kwanzas, passes a andar somente com o António (nome de outra viatura), pois há muito que ando com a coluna sôfrega.

Entre curvas e lombas, sol poente, sombras e penumbra, seguiram seu caminho até à próxima paragem...

 

quarta-feira, 15 de julho de 2015

A CAÇADORA DE HISTÓRIAS PERDIDAS


Ela tem 35 anos e foi sempre seu sonho constatar in loco algumas das coisas que tinha aprendido nos livros do ensino primário do seu tempo.

Apesar de ter nascido depois de Agostinho Neto, Senje ainda estudou nos livros daquele tempo que se seguiu a revolução, onde os manuais escolares levavam o aluno ao pais inteiro.

Estudou a floresta de Maiombe e "o tronco da árvore", Cacuaco e "a vida na comuna", Lunda e "Cazaji e Mona Quimbundo", Quibala e "as sepulturas em pedras" como monumentos históricos, bem como Mandume ya Ndemufayo e o seu túmulo em Oiole. "Ekuikui II, escola número 80 do Huambo", entre outras histórias e estórias do planalto eram já "pão de cada dia" por ter nascido no planalto do Vye.

Convidada pelo marido e acompanhada pelos filhos, Senje foi surpreendida com uma pequena urbe do Leste de Angola que lhe tinha colado ao ouvido. Fora obrigada a decorar o texto do livro de leitura da terceira classe. Era obrigação, naquele tempo, quer soubesse ou não ler, recitar nas aulas os textos de leitura.

Nessa sua aventura de conhecer as emblemáticas localidades descritas nos livros de leitura escolar já tinha estado em Cacuaco, onde não mais encontrou as salinas e as fábricas, nem os peixes que "brilhavam como prata na areia". Os pescadores que encontrou eram uns biscateiros sem história nem paixão pelo mar. Acto continuo, seguiu no seu jeep à ainda comuna do Úcua, descrita como "a mais pequena, onde vivia a Ana, prima do Dudu, Beto e Tito que eram de Cacuaco". No Úcua, nem os personagens nem as vivências pôde reconhecer. Apenas animais quase vivos, a sagrar, pendurados em espetos e a aguardar por compradores. Desiludida, partiu para Quiculungo onde a "fazenda que o livro apresentava em fogo" era desconhecida de todos.

- Por que nos mentiram tanto? - Perguntara aos jovens que encontrara sem que deles obtivesse resposta. Mas não desistiu e Senje continuou a marcha, procurando dar sentido aos conceitos.

Chegou ao Leste e alimentou o sonho de conhecer "Cazaji e Mona Quimbundo" que ficavam a mais de meia centena de quilómetros de Saurimo. Seria o cumprimento dum velho desejo. Tudo o que aprender, através dos livros eram relatos sobre "um povo bravo na luta e que se dedicava ardentemente à agricultura do arroz, mandioca e outras culturas, à pesca, à caça e ao artesanato" que muita água lhe enche a boca, agora que vai conseguindo alguns kwanzas fruto do seu novo emprego. 

- Aonde vamos, marido?

- À fronteira.

- Com a Zâmbia ou Congo?- Insistiu Senje ao marido que se mostrava pouco dado a conversa. Na verdade queria manter o segredo quanto ao destino.

- Fronteira com o Congo Democrático que é o vizinho com quem mais terreno partilhamos. Vamos comprar "bubús". - Ironizou o marido, sempre atento à condução e pouco dado a falas.

Senje e os dois filhos, rapaz kasula e menina, se deleitavam com as paisagens naturais abundantes naquelas paragens.

- Papá, olha praia. - Atirou o kasula, ao que a irmã corrigiu:

- Não é praia. É rio.

- Também tem árvore, papá. - Voltou a alertar o rapaz encantado.

Senje ainda aproveitou apelar aos filhos para que não distraíssem o papá que estava atento à estrada e aos carros com que cruzavam.

Era tarde chuvosa e com visibilidade reduzida, para além de trafegarem na rodovia uns "kazukuteiros" em velocidade acima do convencional.

- Mas é mesmo para a fronteira que vamos? Quanto tempo levaremos? - Insistiu Senje.

- É sim e estamos quase a chegar. - Garantiu o marido depois de confirmar o contador de distâncias  do veículo  que registava já 51  dos 52 quilómetros que separam Saurimo do antigo posto militar colonial, também tida em alguma literatura histórica como  "a primeira capital da Lunda", antes de Henriques de Carvalho fundar a cidade associada hoje ao brilho dos diamantes.

Não tardou o grito de alegria.

- Eh, eh! Mona Quimbundo do livro da terceira! Obrigado pela surpresa. Era mesmo meu sonho conhecer essa localidade que já tirou muitas lágrimas a meus colegas da terceira.

Percorreram  a comuna, um antigo posto militar na expansão militar que se seguiu à Conferencia de Berlim, quando os portuguese precisavam de mostrar aos parceiros europeus que detinham o domínio sobre as terras de Mwatisenge, a leste da colónia de Ngola, e definirem com os belgas e ingleses as fronteiras das possessões saídas do encontro realizado na Alemanha entre 1884 a 1885.

Adentraram a comuna do "artesanato, pesca e agricultura" que não viram. Da agricultura ressaltavam apenas algumas estacas de mandioqueira que se perfilavam paralelas à estrada, uma produção que indiciava ser mais para auto-suficiência do uma produção direccionada ao mercado. As poucas cantinas estavam repletas de produtos importados e peça artesanal nem mesmo o largo da escola ou o da administração colonial tinha. Nas cantinas ninguém tinha visto ao longo do ano defunto.

- Artesanato ,aqui? - Era só mesmo no tempo de Agostinho Neto. - Atirou um idoso interpelado, acrescentando que "o único ganho que tivemos foi de sermos mais conhecidos do que a própria província e a sua capital. Todos os pioneiros da escola do país inteiro sabiam que existe uma circunscrição em Angola com o nome de "Mwa Cimbundu" e cujo povo pratica a agricultura, a pesca e o artesanato" - Explicou o septuagenário, sorridente.

Passaram pelo hospital comunal que possuíam uma ambulância. A escola tinha uma  placa a indicar "inaugurada por S.Exa. Primeiro-Ministro Nandó". Visitaram o Centro de Acolhimento de Menores e foram ver as antigas instalações da administração colonial: umas em ruínas que reclamam reconstrução ou substituição, para acabar com as "casas de kazumbis", e outras já refeitas do ostracismo a que haviam sido votadas durante os anos de "trungunguismo".

- Papá, quem vive nessa casa dos "cazumbis"? - Perguntou o kasule, atento a cada pormenor da viagem.


Nota: texto publicado no Semanário Angolense de 14.03.2015

quarta-feira, 1 de julho de 2015

QUARTA CLASSE DO TEMPO COLONIAL

- Papá, papá!
O rapaz, cinco anos, mochila vermelha às costas, calças enlameadas nos joelhos, irrompeu, sem licença, no aposento privado dos progenitores que procuravam a lua num dia combinado para ambos atrasarem aos locais de serviço e pagar o dízimo a quem de direito. A correria da capital faz, ultimamente com que algumas pessoas usem os aposentos apenas para descontar no sono.
- Há pessoas que nascem já com quarta classe? – Questionou Arcádio, aparentemente aborrecido e, a soltar vapor por todos os poros.
Nza Kutimbe ficou ainda a meditar, antes de fornecer uma resposta que não deixasse ainda mais confuso o filho “kasula”.
- Papá, e por que eu não nasci com quarta classe? Não quero mais estudar a pré-kabunga-come-pão-com-salada! – Sentenciou já com um dos pés fora do quarto.
- Arcádio, vem cá, filho. Vamos conversar. Tudo tem uma explicação. – Nza Kutimbe tinha já ideias, ainda retalhos mas davam para acalmar o puto que estava “fox” com aquela conversa dos contínuos da Escola Cinco que, no dizer deles, tinham “nascido já com a quarta classe” e, ainda por cima, do “tempo colonial”.
- Sim filho, há pessoas que dizem que nasceram com a quarta classe mas isso tem uma explicação.
- Quer dizer, papá, nasceram já a ler a fazer contas? E porquê que não me ensinaram já a fazer a-e-i-o-u e ba-be-bi-bo-bu na barriga da mamã? – Voltou a disparar o infante.
Carlota estava cansada. Também aborrecida, embora não o demonstrasse. Terça-feira era seu “dia da mãe”, o dia de dispensa mensal para levar os filhos à consulta médica e vacinação. Era também o dia em que Nza Kutimbe tinha de “fazer a manutenção” e partir mais tarde para o serviço. A “borla” dada pelo professor, devido à chuva daquela madrugada, tinha estragado tudo. O “kasula” chegou num momento inesperado e tudo tinha sido abortado. Consertava as extensões de cabelo e teria de partir, assim mesmo para a clínica.
Perante as intermináveis perguntas do filho “kasula” Nza Kutimbe teve de buscar por outra estratégia:
- Arcádio, ouve bem o que o papá te vai dizer. Antigamente, quando o papá ainda era criança, não havia muitas escolas públicas, essas do Estado. Também não havia muitos colégios privados, nem os africanos, os negros, tinham dinheiro suficiente para levar os filhos às escolas privadas. Então, as pessoas do bairro que já sabiam ler e escrever ensinavam os filhos daqueles que não tinham dinheiro suficiente para matricular os filhos nas escolas públicas. Quando chegassem à quarta classe iam à escola oficial apenas fazer o exame final. Como iam à escola só para fazer o exame final da quarta classe, é por isso que ficaram conhecidos como pessoas que nasceram com a quarta. Havia casas onde se davam essas aulas e eram chamadas por “Explicação”. Aqui ao lado no “Ngongo”, no bairro Kaputu havia a explicação do Senhor António, ainda nos anos noventa restavam esses exemplos. No antigo Comité Njinga, alí, naquela curva da rua que vai à tua escola, havia uma “explicação” muito concorrida e que já fez outros alunos da quarta classe do tempo actual.
- E se o papá e a mamã sabem ler e fazer e fazer contas por que não me ensinam aqui em casa para eu ir à escola apenas fazer o tal exame da quarta classe?
- Filho, hoje há escola para todos e algum dinheiro para você estudar na escola do povo ou no colégio. Em casa vamos apenas acrescentar aquilo em que os professores tenham dificuldade ou mostrar o método mais simples para conhecer as coisas.
- Papá eu não quero mais ir à escola. Quero também ter a quarta classe do tempo colonial!
A pergunta inocente do rapaz fez Carlota intervir pela primeira vez naquela conversa de pai e filho, frente-a-frente.
- Arcádio, já não temos colonos. Tempo colonial é o tempo dos teus avós quando os brancos é quem mandavam e os pretos só cumpriam sem refilar.
- E hoje quando vos mandam “nos” vossos chefes que são negros, a mamã refila? – Atirou Arcádio que já tinha ouvido a mãe a reclamar variadíssimas vezes da forma menos urbana e cordata dos seus superiores.
- Nza, termina a conversa com o Arcádio que já tem o lanche a esfriar… - Despachou-se do rapaz.
- Papá, explica-me então o tempo colonial e a quarta classe deles.
- Pois filho, no tempo em que Angola era colónia quem mandavam, o presidente, os ministros, os directores, eram todos portugueses que tinham saído de longe para nos dominarem ou mandarem na nossa terra. As pessoas que fizeram a quarta classe naquele tempo gabam-se de ter estudado bem. Sabiam mais coisas do que sabem hoje os nossos alunos. Há mesmo doutores que sabem menos, sobretudo fazer as contas e resolver os problemas matemáticos.
- Papá, a matemática é boa?
- Sim filho. É excelente.
- E porque não começa com “boa” temática? Como é que uma coisa que já começa com “má” pode ser boa? O papá nem precisa de me explicar essa parte. Eu já sei.
Sabes o quê, Arcádio? Sabes fazer contas? Os teus manos fazem contas?
- Sim papá. Eles usam o telefone e o computador.
- E a cabeça serve para quê, filho?
- Para se lembrar do computador e do telefone onde já têm tudo.
Nza Kutimbe sentiu que estava a perder batalhas perante o filho que já se tinha apossado do seu ipad. Mas preferiu rematar.
- Nenhuma máquina é mais inteligente que o ser humano, filho. Você pode se encontrar numa situação em que não tenha de fazer recurso a computador ou telefone. Há contas que temos de fazer de forma mental. Pensar e dar resposta. O papá quando conduz faz contas das distâncias para travar, para ultrapassar, do combustível que tem para chegar à lavra da avó, etc. Se a avó der uma caixa com vinte abacates e tiver de distribui-los pelas tuas três tias, o papá não precisa de máquina para achar quantos cada uma das titis receberá.
- Ai é papá? Então ensina-me matemática para ter também a quarta classe do tempo colonial!
E saíram abraçados para o pequeno-almoço que já estava morno.
 Já fim da tarde, ao sair do serviço, Nza Kutimbe comprou um quadro branco, canetas de feltro e um apagador. As manhãs de sábado passaram a ser “sagradas”. Tornaram-se dias de exercitação. Com a ajuda de alguns amigos mais velhos, Nza recuperou alguns livros já carcomidos pelo tempo. Manual de aritmética, da quarta classe do tempo colonial, e livros de leitura e exercícios gramaticais. Aos poucos, as novelas foram cedendo espaço à leitura e redacção e apenas as principais novelas eram visionadas quer pela mãe quer pelos filhos que preferiam as da disney. A má (temática) passou para “boa” temática de conversas diárias com os primos e os colegas de Arcádio e irmãos mais velhos. Até “noves fora” Arcádio já calcula de cor. Aconteceu mesmo.

segunda-feira, 15 de junho de 2015

"ZANZADO" NAS MARGENS DO KWANZA


Desta vez, transportado pelo António (nome do Tucson marron que me transporta), desafiei a distância camuflado na cauda duma coluna com batedores de Luanda ao Dondo. Os buracos evoluíram para crateras em quase toda extensão do troço Zenda-Dondo, assistindo-se um tráfego lento e perigoso. Mas na carona da coluna que levou um dos notáveis do governo central a inaugurar um centro de produção de larvas e tilápia em “Massa Ngana” senti pouco o incómodo dos colegas automobilistas que, fugindo dos buracos, volta e meia aparecem na faixa contrária, repartindo os do sentido ascendente um só via da estrada cujos sentidos estão separados por uma linha de betão armado. A impedir que a coluna do chefe encontrasse dificuldades estavam dezenas ou mesmo centenas de polícias, o que não deixava de criar estranheza a todos os que trafegavam entre Luanda e Dondo num dia de Março.

Enquanto os governantes cuidavam, em Massangano, de assuntos ligados à produção em larga escala de choupas para amanhã, no Dondo, a conversa girava em torno daquela coluna que se supunha ser do comandante geral da polícia nacional, dada a prontidão com que os agentes se fizeram à estrada, e em torno do rio que gera vida e felicidade para muitos.

Numa barraca à marginal da “velha cidade de Dondo, local em que Paulo Dias de Novais não mais pôde navegar, fundando ali mesmo uma cidade, Chiquito que era homem da estrada, conhecedor de quase todas as províncias de Angola, começou por admirar o rio Kwanza, engrandecido ao longo da caminhada e que se entregava ao deleite de centenas de convivas.

- Epá, estão a ver o rio, né? Vocês deviam ir ao Citembu, onde nasce. Lá o Kwanza é apenas um fiozinho. É como um bebé que nem sabe ainda correr. É lento e desajeitado. Sem personalidade. – Contou Chiquito, acompanhado atentamente pelos companheiros de ocasião na barraca da dona Pascoalina.

- É verdade. - Respondeu Rafael, nascido em Kalandula. – Fiz a tropa no Bié e conheço a nascente. Às vezes, os rios se parecem a nós homens. Mais robustos e trungungueiros enquanto jovens e mais calmos já a “vovoitar”. Quem vê o Kwanza no seu médio curso bem imagina na meiguice próximo da nascente e dessa mansidão, a caminho da foz. – Disse mostrando traços filosóficos o antigo estudante da missão de Késwa.

E o Kwanza estendia-se tranquilo, sem o rugir dos rápidos energéticos de Kapanda, Lawka ou Kambambi. Entregava-se aos olhos contemplativos de visitantes e apreciadores de kakusu na marginal do Dondo ou ainda às mãos límpidas dos lavadores de roupa nas suas margens.

O Kwanza é chamariz até para a idosa viet-kong que grita “amicó, amicó, sado, sado. Compla balato, amicó”. E foi aqui que encontrei Pierre. Apenas Pierre, porque disse não interessar outro nome ou sobrenome.

- Eu me chamo Pierre. - Disse o lavadeiro que nasceu em Kibokolu com vivência no Congo Brazzaville onde diz ter aprendido a fazer qualquer coisa que dê dinheiro limpo.

E reforça que o seu dinheiro é limpo como as águas do Kwanza a que junta força e sabão para atender aos notáveis da cidade.

- Comecei a lava roupa depois de ver um negócio igual no programa Jornal África, da TPA. Na altura fazia biscates de malavu (maruvo) mas rendia pouco. – Contou Pierre. – Aqui, o dinheiro só depende da força. Temos banheiras (bacias) de cada dois mil, de mil e setecentos e cinquenta cada. Os clientes são mesmo pessoas daqui da cidade ou pessoas que estão de passagem. Estes, enquanto comem e bebem para repousar, entregam as suas roupas e nós cuidamos.- Diz Pierre, orgulhoso do que faz. E nas águas meio turbinadas pela chuva que cai quase todos os dias Pierre gana a companhia de senhoras e adolescentes. Uns cuidando de roupas de casa e outros levando moedas ao mealheiro.

Na barraca da dona Pascoalina, quatro passos da lavandaria colectiva, Chiquito, Rafael e Pascoalina levam conversa desgovernada a porto nenhum. Falam sobre o rio e seus mitos, sobre os lavadeiros, sobre os visitantes ébrios que se afogam no Kwanza, dando comida aos kakusus que alimentam outros homens e sobre a vida nas estradas.

 - Essa é a minha última viagem. Da maneira como estão as estradas, os custos com molas e pneus a rebentar aumentaram e os acidentes também. – Atirou Chiquito.

- E porque não escolhes uma rota que tenha poucos buracos?- Tentou acudir a dona da barraca, enquanto apetrechava a mesa dos convivas com batata choupas, banana pão, feijão, farinha museke e salada.

- Já estive na rota de Mbanz-a-Kongu, os buracos me fizeram desistir. Aqui, na Estrada Luanda-Huambo tive ganhos nos dois últimos anos, mas agora também piorou. Vou encostar a carrinha para não arriscar nem a minha vida nem a vida da viatura e procurar emprego de motorista na cidade.- Justificou-se Chiquito que aguardava por Rafael aflito com a deposição de resíduos fisiológicos. Estava a uns vinte minutos a bater de porta em porta para encontrar uma latrina para se desanuviar ou, na pior das hipóteses, um esconderijo.

Perante a aflição, Chiquito tentou, junto de Pascoalina encontrar um caminho.

- Mamã grande, assim, se a pessoa depois de comer, ou mesmo antes, quiser esvaziar um pouco a barriga vai aonde? – Atirou em provocação.

- Meu mano, - responde Pascoalina, essa é a maka que estamos come ela.

É mesmo uma grande Katuta. Depois de nos darem esse largo para montar as barracas nos prometeram casas de banho públicas, mas até hoje só tem ainda aí atrás (e mostrava ela uma latrinas escondidas atrás da tribuna que estavam fechadas).

- Kota - prosseguiu Chiquito - isso é azar grande. Já viu comer sem lavar as mãos com esse vosso Kwanza que dizem estar sempre furioso com os visitantes? Já viu o quê partilhar o mesmo prato com a mosca que acabou de visitar o escape do Rafael? Têm de fazer algo, mamã, senão as pessoas deixam de parar na marginal. – Disse provocante Chiquito.

- É verdade Chiquito. Se esta é a tua última viagem por causa da estrada esburacada, também te digo que esta é a última vez que venho cá comer porque o que vi naqueles arbustos (apontava para um sítio não muito distante do local que se estavam postas as mesas e os manjares) não é coisa boa.

Pascoalina apenas abanou a cabeça, em jeito de aprovação, mas aí era o se ganha-pão. Não compactuando com a imundície arrumou as imabambas e dirigiu-se à administração municipal para apresentar uma reclamação que no fundo era a de todos os frequentadores da marginal do Dondo.

_ Camarada administrador, se queremos turismo tem de ser com higiene, senão os turistas deixam de vir, as famílias padecem de fome e a cidade fica sem movimento.


Nota: Texto publicado pelo Semanário Angolense a 02 de Maio de 2015.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

A ÁRVORE DAS BANDEIRAS


Debaixo dum sol abrasador, 12 horas dum verão equatorial, Mariano e André digladiavam-se com duros palavrões inauditos na aldeia de Kasanji. O terreiro, local para os encontros da aldeia, estava cheio de homens adultos, mulheres que reclamavam “mais pudor” por parte dos contendores e crianças, algumas tapando os ouvidos para que aquelas palavras carregadas de lixo verbal não atingissem seus cérebros, afectando negativamente a ainda compacta educação que haviam recebido.
- A árvore é minha. Eu é que subo.
- Não pode ser. Cheguei primeiro. Eu é que a ocupei primeiro.
André e Mariano eram enviados políticos saídos da pequena cidade, sede do município, para missões de "caça ao voto" na região que abrangia 20 outras aldeias, até então ainda virgens do ponto de vista politico-doutrinário. Nem os da situação nem os da oposição tinham explorado aquele território que vivia a sua paz com a naturalidade e a pureza dos tempos em que não se apelava ao viva nem ao abaixo. Em Kasanji, apenas o soba fazia a sua política da administração comunitária e sempre servindo-se da democracia participativa.


- Meus senhores, ponto de ordem. - Interrompeu ngana Muryangu, o soba, recém-chegado de uma diligência fora da aldeia. - O que é que se passa aqui, nas minhas barbas, sem o meu conhecimento. Será que já me golpearam e o povo me escondeu o sucedido?

- Nada, ngana soba. São esses manos que vieram do município que estão quase a se “porradar”. - Explicou a secretária da aldeia que acompanhara o "faço não faz e meto não mete" entre Mariano e André.

- Ei, meus senhores, por favor. Parem ainda de se "pocalizar" e venham cá. Entrem e vamos saber o quê que se passa. A minha aldeia é de paz e aqui tudo se resolve debaixo da árvore, à sombra, e não aos gritos sob o sol ardente. - Convidou ngana Muryangu.

Mariano e André marcaram, em simultâneo, três passos à frente, disputando a estreita porta da "zemba" do soba.

- Eu é que entro primeiro. - Atirou Mariano que era do Partido.

- Isso não pode ser, senhor Mariano. Eu chego sempre primeiro e o senhor quer tomar a dianteira? - Ripostou André que procurava, a custo, introduzir o seu pesado corpo na "libata" do régulo. Este, por sua vez, endireitava os assentos para os contendores encalhados ainda na portinhola.

- Por favor, podem entrar. - Chamou Kaxinda, a secretária, que tinha já a "wala de muxiri" e dois copos na bandeja.

André fez força e entrou, a contra gosto do seu oponente que tentou ainda aplicar-lhe uma “bassula” mas sem sucesso, pois os aldeões estavam de olhos neles.

- Pois é, manos, bom dia e bom assento. - Saudou o régulo.

- Obrigado paizinho. - Responderam em coro, numa harmonia que contrastava com os minutos derradeiros.

- Manos, bebam ainda um pouco de garapa antes de se explicarem. Aqui faz muito sol e a pessoa com sede até palavra não sai bem da boca. - Kaxinda serviu a bebida, uma espécie de sumo, feito a base de farinha de milho e adocicado com a seiva de uma raiz, o dito "muxiri".

Enquanto os homens aliviavam as gargantas ressequidas, ngana Muryangu manipulava as cinco "pedrinhas da sabedoria", amuletos herdados dos seus ancestrais a quem sempre evocava antes da resolução de qualquer querela na comunidade.

- Pronto, filhos. Bom assento, outra vez. - Voltou a saudar o soba, ao que Mariano e André, agora mais pacificados, quase irmanados, responderam com curta rajada de palmas.

- Filhos, vamos então saber o que se meteu no meio dos irmãos. Kaxinda, escreve no livro o que eles disserem para depois transmitir ao povo. - Ordenou a autoridade tradicional da aldeia.

A secretária, diligente como sempre, dirigiu-se à escrevaninha e começou a acta sem mais questionamentos. Era já “pão de cada dia” para ela, embora tivesse apenas a quarta classe do tempo de Agostinho Neto.

- Nosso pai, peço desculpas pelo atrevimento. Sou do partido e vim aqui para falar ao povo sobre os esforços da nossa formação que quer saber o que falta ao povo e tentar procurar resolver os problemas. Mas quando queria colocar as nossas três bandeiras na árvore, o André disse que não podia ser porque ele chegou primeiro e também tinha três bandeiras da formação dele. - Explicou Mariano.

O soba apenas abanou a cabeça, dirigindo o olhar para Kaxinda que, seguindo a velocidade do discurso de Mariano, alimentava manualmente a acta.

- Aqui, o filho, pode também se explicar. - Ngana Muryangu passou a palavra a André que rangia os dentes de tanta vontade de falar.

- Sim pai. Obrigado pela palavra. Conforme o pai ouviu, aqui o caso é só mesmo desentendimento mas acho que está já a passar, não é isso irmão angolano? Eu cheguei às dez horas. Vim aqui mesmo e não encontrei o pai. “Me” disseram que saiu um “kabocado”. Então, falei com a mana Kaxinda que estava prestes a abordar o povo se concordava ou não que eu deixasse nesta árvore, ao lado da escola, umas bandeiras da nossa formação. O irmão aqui chegou às 11 horas e quando me viu a me preparar para colocar as bandeiras disse que não pode ser porque ele já tinha ocupado a árvore. Foi assim que os nervos se descontrolaram e começamos a "se" desrespeitar. - Explicou-se André representante do Desunido.

O soba voltou a menear a cabeça e, novamente, enviou o olhar à secretária que "actava" os pronunciamentos.

- Ok, filhos. Já ouvimos e registamos. Agora que estamos mais tranquilos, o que vocês fizeram em frente dos jovens e das crianças, acham mesmo que está bem? - Atirou o régulo, procurando uma autocritica dos até então desavindos que, se ficou a saber mais tarde, até eram parentes próximos.

Mariano e André que eram conhecedores dos costumes da região colocaram-se em pé, marcharam em direcção ao soba, ajoelharam-se e se abraçaram de seguida.

Ngana Muryangu reconheceu o arrependimento dos dois e prosseguiu a inquirição.

- Mostrem ainda as bandeiras. Se forem aquelas que juntam o povo podemos coloca-las todas na mesma árvore.

André apressou-se na entrega. Mariano fê-lo também. Ngana Muryangu passou-as à secretária para as conferir.

- São partidárias, papá. - Disse Kaxinda. - Cada lado tem uma do partido, uma da juventude e outra das mamãs. – Concluiu a secretária.

- Meus filhos, Mariano e André, já viram o mastro da escola? Parece que a bandeira que estava lá já não está. Rasgou-se há já muito tempo com o vento e nunca foi substituída. Vocês podem voltar à vila pegar cada três unidades daquela bandeira que une o bairro e aumenta o patriotismo das crianças? Quem chegar primeiro com a bandeira da Republica e a colocar no mastro da escola pode ficar com parte da árvore. - Ditou o soba pedagógico.

Mariano e André arrumaram as suas “imbambas” e regressaram à procedência. Ainda não anunciaram à Kaxinda, a quem deixaram os seus contactos telefónicos, quando voltam a Kasanji com a bandeira da República solicitada pelo soba.


Obs: Publicado pelo Semanário Angolense 11.04.2015

sexta-feira, 15 de maio de 2015

O BENGO AOS OLHOS DE SPINA

Nunca é tarde para se conhecer uma terra, uma cidade ou vila, mesmo tratando-se das que se situam nas proximidades das nossas barbas mas que a falta de oportunidade ou interesse imediato impediam. Aliás, há gente que não passa do costumeiro café da esquina mesmo sabendo da existência do amplo mundo por explorar.

Nesta senda, conheci, finalmente, Caxito (desconfio que a grafia correcta e fiel ao Kimbundu, língua da região, seja Kaxitu: carne pequena?), capital do Bengo, sede provincial mais próxima de Luanda e que, em termos de infraestruturas, também deve muito (quando comparada) a capital do país ou a outras 17 sedes provinciais.

Por exemplo, Caxito é uma vila rasgada por uma única rodovia, EN 100, que nos conduz ao "Úkwa, Negaje e Wíje".

Aproveitando a extensão para dia seguinte do feriado dedicado ao dia internacional da mulher, 08 de Março, eu e os de casa, acompanhados pelos compadres Spina e Yana, decidimos "explorar" o Bengo, começando por Caxito.

Encontramos uma cidade (?) inundada, aparentemente sem colectores de esgotos, impossibilitando a prestação de alguns serviços como no "banco do imbondeiro" que se encontrava quase submerso, ante a chuva de véspera e outra do dia, cuja água se juntou à anterior.

Água e lama juntaram-se ao famigerado jacaré bangão (que se terá negado a pagar o imposto indígena no tempo do kaputu) como postais de visita aos neófitos excursionistas.

E como se uma cidade (?) construída em zona plana, sem declive para encaminhar as águas pluviais ao sorvedor Atlântico, fosse pouco, assistimos a um trânsito automóvel muito lento e perigoso, de Cacuaco (Luanda) a Caxito. São apenas duas faixas de rodagem, uma em cada sentido, que não facilitam as ultrapassagens aos inúmeros camiões basculantes que trafegam, sem cessar, dia e noite.

Quem entra no mercado do Panguila confirma, através da montra de veículos acidentados, o grau de sinistralidade na EN 100, associado sempre a excessos de velocidade que, diga-se, muito se deve tambem à curta largura da via, fraca sinalizaçao, ausência de iluminaçao,  escapatórias e faixas para acostamento.

Inexistindo roseira espinhosa sem flor encantadora, gostamos de ver os investimentos em bananais, citrinos, videiras e em piscicultura que dão valor acrescentado à  terra e contribuem para a "nacionalizaçao do prato angolano", como defendia o cidadão Robert Adrien, frequentador assíduo do mercado do "Sassa".

Que tal alargar um pouco mais a EN 100, com mangas para acostamento e vias de serviço para paragens de táxis e autocarros? É apenas a sugestão de um leigo em mobilidade e segurança rodoviárias, mas apaixonado por estradas.

Num discurso trocista, o meu compadre Spina que com sua família foi também curtir Caxito, chegou mesmo a sugerir que "Bengo fosse uma província laboratório para estágio de governadores" ou seja, dizia ele, "tendo em conta o muito que têm de mudar e melhorar, partindo da sua capital, os governantes que se estreiam na gestão provincial deviam começar pelo Bengo, seguindo depois a outras províncias".

Quando o questionei sobre o porquê da sua tese, Spina, sem papas na língua, argumentou:

- Normalmente, o estagiário tem muitas ideias e precisa de terreno para as implementar. - Explicou.

Aqueles que conseguissem mudar algumas coisas no Bengo e Caxito ganhariam como promoção, no dizer dele, uma nomeação sucedânea para outra província mais evoluída.

E nao é que a ideia dele, surgida do nada, ganhou adeptos entre os que apreciavam o funje de carne de caça numa das barracas do mercado do "Sassa"?

- Esse camarada é mesmo um ideológo que devia ser convidado como assessor do Governo. - Afirmou Nhanga, ja meio desiquilibrado ante as elevadas doses de maluvu que ingerira, tentando desfazer-se de fibras de "Robert Adrien" (carne de macaco) que lhe ficaram presas entre os dentes.

Nota: Rober Adriens é o nome de um cidadão frequentador das barracas do Bengi e grande apreciador de carne de caça, com preferência à de macaco, e que os miúdos mais gozões do mercado de "Sassa" diziam aparentar feiçoes simiescas.

- Kota Roberto, esse janguto é de quê? - Questionavam em troça, ao que ele respondia e corrigia num sotaque meio afrancesado e arrastado.- Não me chamar kota Roberto. Eu chamar-se mister Robert Adrien e gosta comerr somente ndiba (funji) com carrna de prrimo (macaco). - Dizia de boca cheia, quase feliz, das várias vezes em que foi questionado.

E os rapazes do "Sassa" tanto gozavam com os consumidores de carne de caça, quanto com as cozinheiras dos manjares e com os caçadores de "Robert Adrien", alusão aos símios que são abatidos indiscriminadamente nas matas do Úkwa para pôr as panelas e os estômagos em actividade.

Numa brincadeira que se tornou extensiva, toda a carne de caça passou a designar-se "Robert Adrien".

- Mané, já escolheste o prato do dia?

- Claro: uma fubada a "Robert Adrien"!

sexta-feira, 1 de maio de 2015

A REDACÇÃO DE SANUKA


No Belas, o kasula dos municípios da Ngwimbi, o momento era de festa e trabalho. Festejavam-se os dados do censo que apontavam mais de um milhão de habitantes destronando o Cazenga que afinal não tinha o milhão da fama de muito tempo. Festejava-se com “lambula” e “maluvu” de bordão trazido da Barra do Kwanza, lá pelas bandas onde o bordão e o “cisombe” abundam. Os pescadores vindos da faina distribuíam as kabwenhas para seca e os peixes mais graúdos às tias do “bijeéé-mbijééé” que de “tombwelavam” aí mesmo. As mais espertinhas passavam a perna as caloiras no negócio madrugador do peixe fresco.


Só no bairro Km 30 é que a conversa era outra, embora sobre o censo ainda. Em quase todas as ruas e ruelas havia discussão sobre “roubo” de terrenos. Uns tinham adquirido espaços de 20m x 20m e no dia da última medição para inicio das obras as contas estavam a bater erradas. Só as dos vizinhos madrugadores na construção é que batiam acima do talhão.


- Porra, se “tombwelaste” o meu terreno, assim fica como, vizinho?! – Gaspar não tinha dúvidas. Tinha medido tudo ao pormenor. Até GPS tinha usado.


- Porra não, vizinho. Haja respeito. Eu cheguei primeiro e cuidei do teu terreno. Deixou de ter capim e minhocas. Quarenta centímetros que o meu pedreiro te descontou até foi favor. – Ripostou Kafuxi com a rabujice que lhe é reconhecida no bairro.


Enquanto os kotas trocavam ameaças, mas sem intenção de “gargantear” o pescoço do outro, Sanuka, miúda do bairro que estuda no IGCA apareceu com o relatório do censo, com as makas da extensão geográfica na boca.


- Tios, estão se dar “kibeto” só porquê se ainda o Estado também se “tombwelou” lá terreno dele?


- Que conversa é essa, menina Sanuka, cuidado que num se brinca com assuntos de Estado. - Alertaram, já amigados, Kafuxi e Gaspar, atentos às folhas que Sanuka exibia. E pareciam autênticas, com carimbo e tudo.


- Sim, vizinhos. Quando chegou a “dipanda” dos africanos, naquela pressa do “tunda mindele”, Angola e seus vizinhos mariscos, zairenses, zambianos e mais tarde os  namibianos eram como o vizinho Gaspar e vizinho Kafuxi. Não tinham colocado muro ainda nos seus quintais e começaram a viver só assim. Filho de vizinho entra na caso do outro e galinha daqui esgravata ali, sem problema nenhum. Até que um dia o vizinho Angola decidiu murar o seu espaço. Assim tipo já o vizinho Kafuxi fez no seu quintal. Levantou o muro e foi fazendo um “kadesconto” aqui, outro acolá. Desbastou a “kamunda” que estava no meio dos dois terrenos e ficou tudo plano. No lado do buraco, meteu lá a terra que era da “kamontanha” e o terreno dele ficou mais largo. Assim fez também o Estado. Como os vizinhos  do mar, do norte, do leste e do sukl estavam a demorar pôr os muros, Angola fez depressa e cresceu mais 5445 km2.


- Boquiabertos os vizinhos, não se deram conta da baba a cair, perante a explicação pitoresca mas documentada da nova intelectual do Km30, ao Belas.


- Mas ó Sanuka, não terá sido o GPS que aumentou o terreno do Estado? Não terá sido o kaputu que se enganou nas contas da nossa geografia antiga? Não terá sido fruto das dragagens no mar? Olha que temos portos e avenidas costeiras em construção... – Gaspar, entendido em assuntos de GPS, acordou do sonho e procurou entender melhor o assunto dos quilómetros de avanço.


- Deixa, vizinho Gaspar, - ripostou Fafuxi - a população passou de sete para vinte e quatro, querias que o terreno encolhesse?


Chamada ao telefone, pelas colegas da escola, Sanuka se desfez dos vizinhos e foi fazer a composição solicitada pelo Professor de cartografia.


 


«Camões que em terra de “cawoyos” é rei escreveu “Os Lusíadas”, poesia épica ou epopeia, em que narra factos notáveis, grandiosos de um povo. A literatura costuma apresentar os factos, geralmente,  atribuídos a um herói. Luis de Camões, atribui a epopeia dos Lusíadas ao povo português, representado por Vasco da Gama, o descobridor das Índias Orientais.


Enquanto povo heróico e generoso, os angolanos têm muitas epopeias. Uma delas, e novíssima, tem a ver com a conquista/resgate/recontagem/reconfirmação(?) da extensão do nosso território nacional, onde estamos a fundar a “Pátria Nostra”. Os dados, ainda fresquinhos, do resultado do censo geral da população e habitação de 16 de Maio de 2014, apontam que a extensão de Angola passou dos então conhecidos 1.246.700Km2 para os nada maus 1.252.145 km2, (pág. 07 do Relatório do censo) mais 5445Km2.


Estranho é que a minha festa continua a solo como se 5.445Km2 fossem nada. Já imaginou um terreno desses para uma auto-construção dirigida? Dava até por ter bois, cabritos, galinhas, gansos, patos, e exploração mineral autorizada caso houvesse recursos no seu subsolo. Os vizinhos Gaspar e Kafuxi deixariam de trocar ameaças de morte e praguejamento à família e descendentes.


E continuo a festejar sozinho o aumento da nossa “geografia” ou a confirmação, via GPS, distinta do metro-a-metro da contagem lus-e-tana do antigamente, porque nos falta gente com olhos lince para nos explicar onde e como se conseguiu tamanha proeza.


 Senhor, professor, atendendo ao facto de a extensão do nosso país estar figurada em relatórios e documentos internacionais e ser objecto de estudo das nossas crianças desde a 4ª classe, qualquer alteração desses números devia ser bem explicada e documentada ,já que os novos dados sujeitarão as instituições de ensino e afins a mudarem os manuais.


E, enquanto festejo, vou também colocando perguntas a mim mesma?


- Como foi mesmo que conseguimos os 5445 quilómetros quadrados?


- Foi devido a dragagem do mar? Temos exemplos claros na baia de Luanda e noutros sítios em que se projectam portos de águas profundas.


- Terá sido por kasumbula a um vizinho distraído ou que se tinha dado de “viju” quando nós engatinhávamos ainda na tomada das chaves da nossa Angola?


- Terão sido os Tugas que nas pelejas com os  Franceses, Belgas, Alemães e Ingleses aceitaram um número que lhes era desproporcional?


Pronto. O angolano é “viju” e, doravante, será assim. Se o meu país cresce, e ainda bem que cresceu em terreno e população (essa duplicou a projecção mais pessimista que havia dos 12 milhões), sempre que endireitar o muro do quintal dou uns “kacentímetros” ao lado do vizinho “kimbonzado”, como fez o vizinho Kafuxi com o terreno do vizinho Gaspar que está quase a lhe “gargantar”.


Como o censo será de dez em dez anos ou distâncias ainda maiores, as contas serão feitas pelos nossos filhos».


Sanuka terminou a redacção e leu-a em voz alta para colocar as pausas correctas. Lá fora Gaspar e Kafuxi que foram pedir copia da página sete do relatório preliminar, ouviram a composição e não perderam terreno, brindando-a com uma estrondosa salva de palmas.



ANGOLA, 20. 10.2014

Obs: texto publicado pelo Semanário Angolense

quarta-feira, 15 de abril de 2015

DEPOIS DA CHUVA, A RUSGA


No dia em que a cidade ficou inundada, de tanta chuva que caiu em cerca de 36 horas, o Governo Provincial de Luanda e os seus parceiros sociais viram-se quase que forçados a estabelecer um “planos de emergência” para o desanuviar o trânsito automóvel e a limpeza das ruas da urbe que estavam apinhadas de lixo e lama.

Os homens da fiscalização (farda verde, banga nos land cruizer da caixa aberta, rebocadores na traseira da patrulha) meteram-se a levar tudo o que fosse carro mal estacionado ou há muito parado na via pública.

Depois dos fiscais, ou simultaneamente, chegava uma outra patrulha de medicina alternativa com ambulância, cordas e anestesiantes. Chamavam a este grupo de "equipa Kitoko".

Naquela tarde de sol preguiçoso, como carvão molhado que patina no fogareiro para assar a lambula do almoço, já cinco viaturas, daquelas que soçobravam pela rua, acolhendo dementes e kangonheiros em horas esquivas, haviam sido removidas pelos homens da administração. No mesmo local, dois dementes recolhidos pela "brigada kitoko" contavam já piadas na ambulância e a caminho do manicómio.

Quando os fiscais se preparavam para remover a sexta viatura, deparam-se com um homem maltrapilho, chaves na mão, cabelo há décadas reclamando por pente, corrente ao pescoço e sem rumo aparente.

- É mais um deles. - Gritaram os três fiscais que inspecionavam visualmente a área a partir do cimo da carrinha de cor branca e riscas amarelas em todas as suas faixas laterais.

- Mais um. Agarrem-no. Matadidi, prepara o calmante. - Ordenou o chefe dos fiscais aos para-médicos tradicionalistas.

De seguida, fiscais e “kitokistas” trocaram olhares sem falas. Apenas gestos a combinar o desenrolar da operação de captura.

Ouviu-se um "agarra, agarra maluco" vindo de todos os lados: fiscais na carrinha de patrulha, para-médicos na ambulância e os monandenges nas cercanias. Agarra maluco para cá, agarra maluco pra lá e o próprio visado, às tantas, sem saber ainda o que se passava, também ajudou a gritar “agarra maluco” até que foi atingido pela corda em forma de laço.

- Porra! Não sou maluco, pa! Me larguem, seus gatunos de merda! - Tentou ainda defender-se, mas com a perna já no laço.

Suspeitando que se tratasse de assaltantes, o suposto demente agarrou com mais força a mala de chaves, a peça de viatura que havia extraído da sucata e a sua chave 14/15 de boca com que visitara a cabeça do para-médico kitoquista que teve de ser suturado ali mesmo e vacinado contra tétano.

- Me larguem, porra! Sou mecânico. - Gritou o suposto demente perante o espanto da assistência.

- Um mecânico com uma corrente ao pescoço? E por que vives em sucatas abandonadas, coabitando com homens distantes da razão? - Questionou um dos homens da “Brigada Kitoko”.

- Estava apenas a aproveitar umas peças dessas sucatas para o meu "acaba de me matar" que também corre o risco de ser removido da via pública por inoperância prolongada. - Esclareceu.

- E a corrente ao pescoço?- Voltou a perguntar o chefe da brigada de recolha de dementes, já mais calmo.

- Essa corrente também a recuperei na sucata e vai ajudar a acorrentar o gerador ao poste de energia que está mesmo no quintal. – Explicou Manuel Kaferro (como se ficou a saber mais tarde), ainda assutado.

Dada como certa a explanação do homem que até era técnico superior em mecatrónica, porém submetido ao desemprego forçado pela crise dos "dodós" que levaram o antigo patrão, um importador de carros usados, a declarar falência, desfizeram-se os mal-entendidos.

Os homens da farda verde prosseguiram o seu trabalho, removendo tudo o que lhes desse dinheiro na esquina. Rebocando mais veículos estacionados em lugares permitidos do que as sucatas, há muito sem dono, que nunca chegariam a ser reclamadas. Manuel Kaferro, o mecatrônico, teve de ir à casa refazer-se do susto e testar a peça que tinha conseguido antes da chegada da “Brigada Kitokista”. Esses últimos acabariam por receber uma chamada para irem socorrer um demente real em dificuldades numa lixeira automóvel da Quinta Avenida.

Por cima do meu muro, fiquei a ver a lagoa artificial criada pelos homens das obras a encher-se de água que vinha de todas as partes altas dos subúrbios de Viana; os alevinos (filhotes de peixes), na lagoa, em festa por causa da chegada de água mais oxigenada; os putos “pescadores” com as redes e as garrafitas em que guardam os peixinhos que vendem a troco de rebuçados; as mamãs do bairro a muxoxarem por causa da água que lhes invade os quintais e os aposentos, e os papás preguiçosos a aplaudirem “viva a chuva", pois seriam dois dias de folga lá no serviço!


Obs: publicado pelo semanário Angolense a 21.03.2015 

quarta-feira, 1 de abril de 2015

A PRAGA DE MWANGEJI E NDUNDU


Fazia tempo que sua vida eram só lamentos. Mwangeji tinha perdido a vontade de viver. Tamanha era a desgraça e o desprezo a que fora votado, depois de muito ter servido a seus vizinhos e dependentes. Na verdade, a vida miserável que levava era também a que seu primo enfrentava num território distante, embora parte do mesmo país. Nasceram num tempo que a História se encarregou de esquecer. As lendas e as crónicas de gentes que por eles passaram fazem ténues referências ao tempo em que toda a terra estava submersa. Terão sido trazidos à luz, nos dias da separação das águas e surgimento de terra firma.

Vivia cada um confinado ao seu território natural. Embora primos, Ndundu e Muangeji não se conheciam fisicamente. Toda a comunicação era através do avô Kasai que tinha ligações permanentes com seus dois filhos, Lwaximu e Cikapa.
Mwangeji, mais velho e filho de Cikapa vivia a sul do território e Ndundu a norte.
Já velhinhos, sofrendo desprezo de quem deles viveu e se sustentou por muitas décadas, os dois co-irmãos passaram a padecer de doenças várias derivadas do desrespeito com que eram brindados pelos homens à volta e pela podridão em que suas casas se tornaram.
Tinham contado a seus pais, já seculares, o que se passava com eles e estes, aconselharam-nos a trocar experiências a ver se se salvavam da opressão e infra-vida a que estavam votados.
Foi nessas circunstâncias que Mwangeji decidiu escrever uma carta ao Ndundu, contando a sua saga.
- Querido irmão, espero que estejas bem. Embora nunca nos tenhamos visto, julgo oportuno, narrarmos o quanto fomos úteis e a vida que levamos hoje para que nossos filhos e netos prevejam situações anómalas que lhes possam ser impostas pela ganância dos homens capitalistas desse tempo.
Nasci entre colinas. Papá e mamã deixaram-me um vasto território que herdaram de nosso avô. Durante a minha juventude vivi quase solitário. Filhos menores, abundância em peixes, caranguejos, algas, misoji, águas límpidas e solos férteis para irrigar, assim vivi com fartura até à chegada dos homens. Primeiro negros, depois os brancosos. Na luta entre eles, os primeiros correram com os segundos e eu não fui poupado. Meu quintal passou a depósito de tudo que saísse descartado de suas casas: areias transportadas de longe, latas, plásticos e papelões, óleos e pilhas, tudo atiram em minha casa. Já sofri de pneumonia. Já tive sarna. Já chorei e implorei. Nada! Uns, preocupados mas sem poder, já fizeram músicas contando meu presente e passado. Outros retiram de mim pedaços para remendar seus terraços de ferro e aço. Já fiz famílias felizes. Crianças deram suas fimbas em minhas exuberantes piscinas naturais. Jovens apaixonados em minha casa rocaram primeiros beijos e até cenas de procriação assisti. Já fui padrinho, pastor e advogado na hora de divórcio litigioso. Tudo de bom fiz, aos homens, mas eles me remetem aos confins da pocilga…”- Mwangeji pousou a pena no tinteiro e começou a ler o que escreveu, limpando com um pano enxugador os pequenos borrões.
– Irmão do norte, embora este seja o nosso legado, fazer sempre o bem aos homens de todas as raças e credos, temos de alertar aos nossos filhos para procurarem contenção na bondade e viverem o desprezo com maior preparação.- Rematou.
Mwangeji fechou a carta e a colocou numa caixa flutuante que a faria chegar ao pai Cikapa e este para o avô Kasai, de onde seu tio Lwaximu a pegaria para a entregar a Ndundu.
Quando a carta lhe chegou às mãos, Ndundu estava embravecido. A sua casa tinha sido literalmente arrasada por areias enviadas por uma nova cidade. Antes dos homens do cimento e asfalto terem invadido a vizinhança, a sua vida, embora pacata, era de um idoso sadio. Os Pirilampos reproduziam-se em seus cabelos rastejantes e embebidos em águas frias e cristalinas. Suas terras eram guarnecidas e seus quintais murados. À semelhança de seu primo do sul, acolheu casamentos e divórcios. Deu beleza a gente rejeitada pelo amor e em suas águas ganharam vida milhares de vizinhos e transeuntes da cidade do brilho incessante. – Mano, faço de teus prantos minha música.
- Até há pouco ainda respirava saúde. Os miúdos desse tempo já desrespeitavam kabucado com suas manias de estragar tudo que é natural. Mas agora que limparam dezenas de hectares na direcção do sol poente, todo lixo é na minha casa que pára: água de esgoto sem fundo, miram para mim. Areias de ravinas provocadas pelo corte do cabelo vêm cá ter. Lixo das compras exageradas deixam na minha porta. Até combustíveis e óleos dos carros capitalistas vêm cá ter, matando tudo à volta de mim. Já me chamaram de “Velho praia suja”, “colchão de areia”, ribeira morta, desgraça do presente, entre outros nomes que me escapam à memória. À semelhança do que li na tua carta, irmão, também assisto ao choro dos inconformados sem poder, bem como ao desprezo dos poderosos sem zelo e sem pudor. Já ouvi canções de saudades dum tempo que a vizinhança me procurava para se aconselhar na acalmia do meu rasto.
As minhas portas eram autênticas postais para gente próxima e de terras distantes que por cá buscava repouso e sustento. Não havia ser que passasse por mim sem a saudação com a devida vénia. Até o meu nome à sua cidade atribuíram, porém, hoje só recebo desprezo que me cria uma enorme repulsa. Dei água aos homens e dei leite aos seus animais. Levei comida a seus pratos, lavei suas roupas e lágrimas e dei ouvidos a seus prantos. – Escreveu Ndundo, filho de Lwaximu, neto de Kasai e bisneto de Nzadi.
Embora sem força e quase sem vida, Mwangeji ainda leu a carta – resposta de seu primo e, por meio de um sobrinho comum, puderam combinar o castigo aos seus malfeitores.
“Não mais lhes daremos água sempre que suas sedes pretenderem matar em nossas casas. Guardaremos nossas águas debaixo dos colchões de areia com que nos brindam.
Não mais lhes daremos peixe sempre que cozinharem seus pirões e ximas. Guardaremos o resto de nossos cardumes em casa de nossos pais e nosso avô Kasai.
Não mais lhes daremos terras férteis para suas lavouras. Exportaremos nossas terras repletas de húmus e faltarão verduras em seus pratos.
Não mais se banharão em nossos estuários nem se servirão de nossos leitos para utilidade alguma.
Seus animais enfrentarão sede e penúria. Seus filhos jamais conhecerão rios e andarão distâncias para ver cardume.
Seus poemas não mais escreverão, sob o farfalhar de um caudal e sob picada de peixe miúdo em pés adultos”.
E a praga se cumpriu, tempos depois, por longos e infinitos anos.