quarta-feira, 20 de abril de 2016

CAMINHOS EVITÁVEIS

Na áurea das independências, e influenciados pelos ventos revolucionários e ideologia dos países do Leste europeu, dois Estados da conhecida Região do Corno de África decidiram fundir as suas fronteiras num acto que visava aproximar os dois povos que comungavam de culturas e valore muito parecidos.
Essa visão política estendeu-se ao fórum empresarial e económico. Algumas firmas do pais Ericeira estabeleceram parcerias, face a existência de novas oportunidades de mercado e possibilidades de expansão de negócios.
Tonka Incorporated, uma firma que dominava o segmento da prestação de serviços de higiene e segurança em instituições públicas, bem como a gestão e aplicação de políticas de Recursos Humanos, tinha uma considerável quota de mercado em Ericeira e um excesso de liquidez que permitia a empresa explorar a oportunidade criada pela conjuntura exógena, a fusão dos territórios entre Ericeira e Entropia.
Em viagem de serviço a capital de Entropia, que se tornou a segunda cidade mais importante do Estado Unificado, Sir Kato Ndombele, o patrão da firma KatOn Service Incorporated, conheceu Hamed Tonka, o Presidente do Conselho de Administração da firma Tonka Incorporated, e com ele decidiu estabelecer uma parceria, criando uma fusão entre as duas empresas, tempos depois, antecedida de aturadas negociações.
A KatOn era uma empresa com reputação ao nível do continente africano e de alguns países do sul da Europa em termos de gestão de Capital Humano e prestação de serviços. Porém, as transformações políticas no país e as nacionalizações ocorridas em Ericeira não facilitaram uma expansão dos seus negócios, muito menos criar uma almofada financeira que permitisse atacar o novo mercado que surgiu com a fusão dos dois Estados vizinhos. Os quadros da KatOn tinham porém a fama de terem trabalhado em grandes multinacionais, gozando, por isso, de grande reputação junto de outros parceiros empresariais e organizações governamentais.
A Tonka, empresa da Entropia, viu nela uma parceira capaz de agregar valor aos seus recursos financeiros excedentários.
Fundidas as empresas Tonka e KatOn, a nova entidade jurídica passou a designar-se Toka International, sendo grande parte da sua gerência confiada aos executivos procedentes da KatOn, que era minúscula em termos de estrutura, mas robusta em termos de know how e qualidade do seu Capital Humano. A sede da nova entidade empresarial, a operar no território unificado, passou a ser a antiga Base Central da então Tonka Incorporated, o que levou os funcionários mais antigos da Tonka a tratarem os seus novos colegas com os mais variados epítetos depreciativos. Eram tratados como "estrangeiros, invasores, usurpadores de cargos, etc.",  situações que a juventude bem disposta, comprometida e motivada, procedente da KatOn, geria com inteligência e postura institucional.
- O nosso lema é trabalhar, fazer a nova empresa crescer e crescer com ela. - Diziam os jovens executivos saídos da KatOn.
De simples alegações ciumentas, passou-se a confrontos verbais mais acirrados que chegavam, em muito dos casos, a inviabilizar alguns planos de crescimento da Toka International.
Como as lideranças estavam mais focadas na consolidação da fusão e desenvolvimento da nova estratégia de negócios propiciada pelas razões endógenas (excesso de liquidez e domínio de consideravel quota de mercado por parte de Tonka e elevada preparação técnica dos quadros da KatOn) e pelas razões exógenas (fusão dos dois países, crescimento económico e restruturação das instituições públicas), preferiram tocar o negócio para a frente, buscando apenas a participação daqueles que estavam interessados em trabalhar, fossem quais fossem as suas funções hierárquicas nas equipas. As lideranças intermédias rapidamente interpretaram o pensamento estratégico e começaram a trabalhar com os quadros disponíveis, ficando sem trabalho aqueles que, a todo o custo, puxavam a carroça para trás ou usavam a táctica do caranguejo (não permitir que alguém trabalhe ou colabore). O curso dos acontecimentos levou a que os quadros da Tonka que aderiram à nova filosofia de trabalho aprendessem com os outros provenientes da KatOn e se especializassem em distintos ramos do saber. Às cegas ficaram aqueles que desistiram de trabalhar, procurando apenas conspirar contra as novas lideranças da Empresa Unificada e os colegas que tinham aderido à nova filosofia de trabalho.
Vinte anos depois, o Leste europeu conheceu outros desenvolvimentos políticos, com maior realce para a queda do Muro de Berlim, que levaram à desintegração de Estados em alguns continentes desanexações de territórios, efeitos que se estenderam a países que orbitavam na esfera ideológica do Leste europeu. Isso fez com que a integridade do Estado Unificado de Ericeira-Entropia fosse afectada, repercutindo-se também em alguns negócios empresariais, sobretudo os actores que trabalhavam com instituições públicas.
Da Toka International ressurgiram duas novas entidades empresariais que passaram a actuar com a mesma tecnologia e conhecimento nos países (re)emancipados.
- Chegou a nossa hora de governar o país e a empresa, terminada que está a ocupação ilegal dos nossos postos de trabalho e de chefia. - Proclamou a velha guarda resistente da antiga Tonka de Ericeira.
Os jovens competentes, formados no tempo da fusão, foram relegados para planos secundários na organização, sendo catalogados como "produto da colonização empresarial", ocupando a velha guarda os postos de decisão na empresa.
Aqueles que, sendo da mesma geração que a velha guarda tonkanense, tinham aderido às novas formas de trabalho, no tempo da gigante Kato International do Estado Unificado, também foram ostracizados sob a alegação de "se terem juntado ao colonizador".
- Quem se juntou ao opressor que invadiu a nossa empresa e tomou os nossos lugares, agora que nos livramos deles, deve partir ou sujeitar-se à nova ordem. – Apregoavam eufóricos.
O poder de transformar a empresa e seguir o seu percurso de crescimento e expansão tinha-lhes sido entregue. Porém, os vinte anos de defeso, sem trabalho e contacto com as novas ideias e novas tecnologias, fez deles maus líderes e maus obreiros. De uma imponente empresa que foi antes e depois da fusão, a Tonka não passa hoje de um impotente manto de retalhos, com tecnologia e capital humano a reclamarem por uma reforma profunda.
Do outro lado, em Entropia, segue de vento em popa a KatOn International que absorveu da sua antiga parceira o conhecimento de mercado, capitalizou os investimentos herdados com a fusão e conta com os seus quadros cada vez mais qualificados.
Quando se realizam fusões de organizações empresariais, independentemente da procedência, quantidade de quadros indicados para a gestão e do peso que tenham ou venham a ter na organização, é importante que cada uma das partes fundidas ou componentes das partes deem o seu máximo para a consolidação da nova entidade. Todos os integrantes devem absorver as vantagens da fusão e da interação com os outros actores (que se juntam à nova organização).
Ficar na sombra, a reclamar o declínio dos gestores no activo, pode ser perigoso para quem arme este estratagema como forma de reivindicar o poder, pois, uma vez no exercício do poder reclamado, pode ver-se despido de ferramentas para a exercitação das funções que lhe foram confiadas. Ficar na sombra, a torcer pelo descarrilamento do comboio, para depois tomar o lugar do maquinista azarento, poder ser uma estratégia perigosa como se verificou entre os integrantes da firma Tonka de Ericeira que deitaram a baixo até o que de mais valioso tinham conseguido com muito labor: o supervait e considerável quota de mercado ericeiriense no domínio da prestação de serviços de higiene e segurança em instituições públicas, bem como a gestão e e aplicação de políticas de Recursos Humanos.
Nota: a presente reflexão é produto de criatividade aliada ao estudo de casos científicos no curso de MBA realizado na FAAG, não se dirigindo a pessoas e ou instituições concretas de nenhum Estado ou território.

NB: Texto publicado pelo Semanário Angolense a 06.11.2015

sábado, 9 de abril de 2016

OS TRÊS RELÓGIOS

Discutiam três colegas de serviço sobre quem delas era mais útil à organização em que laboravam.

Suraya, esbelta de parar o transito, gabava-se de ser a mais elogiada e que tudo fazia para impressionar os colegas e a chefia todos os dias. Atendendo que os chefes tinham decidido ser madrugadores, ela, catadora de elogios, começou também a chegar cedo ao serviço, gingando de um lado para sitio incerto. Porém, mal começassem a chegar os colegas sem olhos para a sua montra, ela se retirava para o andar em que se situava o secretariado onde se ocupava mais em buscar actualidade do mundo da moda, através das redes sociais, do que do seu trabalho que até estava clarificado no descritivo de funções. E gabava-se de sol a sol que era pontual.

- Nessa organização não há quem chegue mais cedo do que eu, por isso mereço promoção e uma gala para me homenagearem. - Atirou, certa vez numa actividade social da organização.

- Você, Suraya? Nunca. Nem pensar. Nem que a vaca fale. Chegas cedo mas não és assidua. És uma pisca-pisca (dia sim, dia não vens) e quando se olham para os teus resultados parece que só são borboletas que caiem no teu cesto. - Zombou Tina, outra colega que tinha a má fama de trabalhar apenas quando a lua estivesse no centro da circunferência celeste.

A discussão, aparentemente sem nexo, ganharia força quando chegou Rita. Rita era uma senhora "Baby boom" que fora já reformada e recontratada devido ao seu apego ao trabalho e seu perfeccionismo naquilo que fazia. Não precisou de fazer parte daquela histérica algazarra, pois era exemplo de dedicação, bom desempenho e comprometimento. Vestia a camisola, via-se. Entretanto, não era tão pontual, nem muito assídua devido aos compromissos familiares. Era do conhecimento da chefia que dela cobrava resultados e não presença física obrigatória. Dona Rita, ou mesmo vovô para os mais brincalhões, tinha entretanto uma agenda de encontros presenciais bem arrumada e não se atrasava às suas reuniões. Das suas poupanças tinha conseguido instalar telefone fixo e internet em casa, um computador, impressora e um scanner que lhe permitiam trabalhar "at home" e apresentar resultados surpreendentes.

Quando a senhora se fez presente naquela sala em que se comemorava o aniversario da organização, dois grupos miravam para ela toda a atenção: uns, sobretudo aqueles que enxergavam qualidades e que com ela procuravam aprender, seguindo os seus bons exemplos, a aplaudiam e apontavam como a mais provável homenageada da noite. Era já habito do titular de direcção daquela organização homenagear o trabalhador mais produtivo do ano. Outro grupo, composto maioritariamente pelas gerações Y e Z cochichavam que a "velha" já estava fora de tempo e que naquele ano não levaria sequer um elogio do chefe. Apostavam mesmo que a "senhora dos mil prémios" como também era conhecida sairia dai banhada de lágrimas porque o tempo dela já tinha passado.

- Essa tia que chega quando quer, até o chefe já sabe que ela é uma cansada e chata, o que que veio fazer? Acha que leva daqui alguma coisa? Atirou Gina, uma jovem que ainda nem era do quadro permanente de funcionários.

Quando o titular chegou, mal se dirigiu ao presidiu para cortar o bolo, chamou dois nomes: Dona Rosa, a mais idosa da organização, e Dra. Suraya, uma das mais novas e mais extravagantes, para junto dele.

A Suraya já tinha distribuído beijinhos e abraços a todos os colegas, contando que seria a estrela iluminante da noite.

- Chamei as duas funcionárias que refletem dois exemplos de na nossa organização. - Disse o titular, prosseguindo. - A dona Rita é quase invisível. Chega numa altura em que todos já estão nos seus gabinetes e muitas vezes sai quando todos estão já nos seus aposentos. Até seus encontros com clientes e fornecedores acontecem sempre depois das 8h30. Faz tudo ao detalhe e não deixa nada para o dia seguinte. A Dra. Suraya, continuou, é das que mais cedo chega, das mais vista pelos gabinetes e corredores. Porém, a medição que temos vindo a fazer é por resultados. A Dra. Suraya produziu durante o ano findo que hoje comemoramos, dois terços do que ganha e a Dona Rosa foi, directa e indirectamente, responsável, por um terço do resultado da nossa organização. Peço uma salva de palmas à nossa estrela da noite que ganha uma bolsa familiar para licenciatura. – Concluiu o boss.

Pasmos, os mais jovens não perceberam por que razão a sexagenária iria estudar quando eles que se gabavam ter "toda a vida e todo o sangue para derramarem em prol da organização" ficariam em terra. Jaja, outra das colegas, e Suraya chegaram mesmo a questionar os critérios usados pela administração para encontrar o vencedor do prémio de e por que razão iria Vovô Rita à formação, estando já sem força. Suraya alcandorou-se do facto de ser regular e por isso merecedora da distinção. Outra, a Jaja, apregoou a sua pontualidade. Mas o presidente, astuto, contou-lhes a estória sobre os três relógios: um é de prata, toca o despertador à hora certa mas não tem o ponteiro dos minutos. Outro é banhado em ouro e não funciona. O terceiro é de plástico metalizado e tem os ponteiros completos, marcando correctamente as horas e o despertador.

- Qual dos três me faz falta? Questionou o titular.

A geração Z optou pelo de ouro, alegando ser um adereço moderno e vistoso. A geração Y optou pelo de prata pois, dizia, embora mais modesto do que o primeiro, tinha algo funcional, o despertador, que permitia o titular não se atrasar nos seus encontros. As gerações M e X optaram pelo relógio de plástico banhado em metal por ser o que funcionava em pleno.

- Pois é, todos parecem ter razão, mas o relógio que me apresenta resultados é aquele que funciona. Assim também são os funcionários, prosseguiu. Não basta chegar cedo, quando se vem, ou vir todos os dias em horários distintos. Pontualidade e assiduidade devem ser regulares, estando acima de tudo a produção. As organizações são talhadas para os resultados e não apenas para as presenças físicas dos funcionários. -Deixou explícito o titular.

Todos compreenderam a mensagem e ouviu-se uma estrondosa salva de palmas em homenagem à sexagenária Rita.

Texto Publicado pelo Semanário Angolense a 21 de Julho de 2015

sexta-feira, 1 de abril de 2016

CANÇÕES DE ESTRADA


No mercado espontâneo surgido à beira da estrada, no local em que os carros que se fazem às províncias, atestam os depósitos de combustível e o estomago, o pregão dele é único. Samy corre de carro em carro com um leitor de CD e uma caixa repleta de discos pirateados na mão.

- É cê-dê origon, kota. Música de qualidade que não te deixa mal durante toda a viagem. Quem "me" compra "vorta" sempre a me procurar na próxima viagem. – Apregoa Samy.

Cabelo comprido a fazer sair uma crista que lhe percorre o ngwimbu à testa, Samy vive desse negócio há já cinco anos e com os frutos sustenta a mulher e três filhos.

- Kota - voltou a chamar-me – já ouviste esse disco (apontava para um que tinha a inscrição "rir até mostrar o último molar"?!

- Não, puto. Ainda não tenho. Mas de quem é o disco?

- É teu, kota. Passa só duzentos paus. Com cento e noventa também bate. - Regateou.

Meti a mão na algibeira e de lá saquei os Kwanzas necessários. Porém, a contra gosto, tratando-se de produto aparentemente contra feito embora o disco estivesse forrado em plástico.

- Kota, experimenta a faixa quatro. - Ordenou Samy, sorridente, enquanto ajeitava o kitadi na carteira. Liguei o rádio e fui, aos pulos, conferindo as músicas inscritas na capa, para depois as ouvir na íntegra ao longo do percurso que me leva de Luanda a Menongue.

"Se vais na província tenha cuidado. Na via do Dondo tem lá buraco. Buraco bué", soltou o rádio.

- Epá, grand´a queta. Está mesmo a condizer com o estado "caprichado" da via. Será que o cantor tem circulado por aqui todos os dias? - Interrogou um dos meus dois passageiros, sem que obtivesse de minha parte uma pronta resposta.

Eu saboreava a alegria de ter acertado na escolha do disco e o ocupante do banco de trás conferia as últimas novidades do facebook. Apenas o mais velho colocava perguntas ao longo do percurso, ou para explicar algo que tenha vivenciado no seu tempo de juventude ou perguntando sobre coisas novas com que se vai deparando pela primeira vez.

E a letra da música, que parecia ter sido feita à medida, prosseguia nos apelos à prudência: via do Dondo tem la buraco; na do Libolo tem lá buraco; da kibala bue de buraco; no Bailundo vão já cavar; toda angola está um buraco; mas a taxa já está no pontoé! – Terminava de forma satírica a canção.

Até concluir os primeiros 750quilómetros que separam Luanda das terras planálticas do “olongombe Vye”, não se ouviu outra balada que não fosse essa, do grupo humorístico "Estamos a vir" que é um retrato fiel de muitos troços das nossas estradas aí aonde a incúria de "quem de direito" ainda se faz sentir.


Do Kuito a Menongue, viajo sozinho sobre as estradas largas, rectilíneas e bem conservadas do centro e sudeste de Angola, acomodado ao volante da minha Maria Canhanga (viatura em que me faço circular). Ela comporta-se como mãe que nunca deseja que o mal se acapare do filho. Aliás, vou acompanhado do Justino Handanga instalado no leitor do meu rádio, cantando os benefícios da paz. E diz, o bom do Handanga, no seu sempre bem pronunciado umbundu "a Suku lombembwa, ndapandula avoyo!
Ndakulihile ño o misäwu yo Ndondi. Vavayela vo Mbongo. Elende vo Cipeyo. Ndamosiwila vemi lyomunda vo Hanga" (Agradeço, Senhor, pela paz que me permitiu conhecer a missão de Dondi, Vavayela/Babaera no Mbongo, Elende no Cipeyo e a montanha do Hanga…).
Embora o administrador “Andonho Kotingo tenha chorado ao ver a missão destruída e os eucaliptos secos", canta ainda Handanga,  a paz permite ter esperança de que o quadro seja revertido. E observei que aquilo que se passa no oeste (reconstrução e construção) está também a acontecer no centro de Angola onde Cachingues é u exemplo do que é começar do zero uma vila completamente arrasada pelas inúmeras refregas militares.

Em relação à agricultura, fiquei sem saber se as casas tinham sido implantadas no meio de milheiro ou este fora semeado nos espaços entre casas.

Chegado ao sudeste, o mesmo cenário inovador. Também verifiquei que ou o velo, destruído pela guerra havia sido reabilitado ou entre os escombros e próximo deles nasceram novos edifícios que conferem alegria às circunscrições. Notei que as margens das estradas estavam literalmente agricultadas de mandioca, milho, massango e massambala. Sendo milhares de hectares lavrados, desafiando a tenacidade da floresta húmida e densa.

E fiquei a pensar nos machados, buldozers e outros meios empregues para derrubar tanta árvore e fazer do bosque campos produtores de alimentos. Bons exemplos desses povos, ovimbundu e ovingangela.
Com tanta floresta, fiquei também a pensar por que razão a guerra terá sido muito renhida no Sudeste angolano, não tardando a resposta que veio logo a seguir.

- Muita mata. Muito esconderijo, até da aviação. E como se não bastasse, muita comida produzida pelos coitados dos populares que eram assaltados dias sim, semanas também pelos insurrectos sem logística militar.
Ainda bem que os tempos são outros. As florestas que serviam para o esconderijo de malfeitores dão hoje sustento a gente que trabalha, proporcionando madeira, carne de caça e mel.

Estou no sudeste, em Menongue (ex-Serpa Pinto), Cuando-Cubango, faltando-me apenas conhecer a antiga Carmona. Já vi o rio Cuebe que trespassa a cidade construída sobre as terras do Mwene Vunonge e recebi o forte abraço do simpático Carlos Bequengue da Rádio KK.
De Luanda-Dondo- Huambo-Cuito e Cuito-Menongue, a EN 140, último trajecto, me pareceu ser das melhores estradas que há em termos de transitabilidade. Tive o mesmo gozo nos trajectos Alto Hama-Huambo ou ainda Alto Hama-Cachungo-Cuito. Fiz gosto ao pé e testei a Maria (nome da Hilux vermelha que me carrega) que correspondeu em velocidade, consumo e estabilidade, fazendo-me esquecer o António (Tucson marron) que é automático.

Tri-ti-ti (alusão à guerra, música cantada por Viñi Viñi), nunca mais, nem haverá mais gente a “partir londango por causa do lukangu”, como acrescenta Kapenda Salongue.

Publicado pelo jornal de Angola de 21.04.2019

 

domingo, 20 de março de 2016

JUST LOOKING ON JOHANESBURG


Mesmo com o termómetro a apontar nove graus centígrados, de um inverno Julinho da África do Sul, a moça vinha xuxuada em direcção ao Nelson Mandela Square, local onde convergem ruas, crenças e nacionalidades para as compras do dia-a-dia para os joaneburguenses e a indispensãvel mwamba e sovenirs para os visitantes. Tita (nome que decidi atribuir-lhe) ia de mãos dadas com o seu homem de companhia, marchando pelo passeio rigorosamente asseado da rua que se estende dde longe ao centro de convergência política e social. Bob, o seu companheiro, treinava os dentes com umas baumilhas compçradas metros atrás, enquanto Tita, vaidosamente vestida e com os postiços a encobrirem-lhe os ombros, terminava a degustação de uma banana comprada na feira de artesanato.
O collant xuxuado que lhe visitava o diafragma e a marcar os desenhos apelativos e as letras esculpidas no seu corpo juvenil, a lembrarem uma marca automóvel alemã, fazia adivinhar uma jovem com o miolo ainda em estruturação ou uma alma perdida.
- Deve ser uma angolana ou uma southafrican alienada. - Disse para os meus botões. E não tardou para que ela confirmasse o meu pensamento pessimista, sem mesmo que fosse necessário abrir a boca.

Como remoinho de vento que se organiza para, em força, atacar e derrubar tudo que lhe faça barreira, a jovem começou a rodopiar sobre si mesma. Desfez-se do damo com quem caminhava de dedos quase cafricados e abrandou a marcha. Olhou umas tantas vezes à direita  e outras tantas à esquerda. Virou a locomotiva para atrás e explorou tudo o que se aporesentava a frente dela. No meu imaginário rural, Tita fez-me lembrar uma galinha pronta a ovar mas que se certifica do lugar em que alojará a génese da nova vida.
- Será que a gostosa quer urinar ou quê? – Voltaram a cochicharam os meus atentos botões.

A rua estava copiosamente limpa e os jardins estavam molhados de rega. Na mão da "princesa" estavam em sobra as cascas da "benguela" e não se via nos metros dianteiros um contentor ou uma papeleira que a ajudassem a descarta-se do testemunho. Exactamente no momento em que cruzávamos, ouvi pronunciar um "excuse me" dirigido ao acompanhante que se manteve hirto, como quem esperava por uma desgraça.
- A mboa vai mesmo urinar na rua ou fazer coisa pior? - Voltou a questionar o meu íntimo inquisidor, enquanto Bob, o acompanhante dela, magicava, com certeza, outras ideias.
Passado a pente fino, Bob mais se parecia um recrutador de pérolas ou daqueles que só acompanham a dama para entregar a prenda a "quem de poder".
Eu seguia em sentido inverso ao deles, quase pregado à parede longitudinal. A "gostosa", como se achava que era, abeirou-se de mim, metendo o meu já hipertenso coração em cavalgadas.
- Será prenúncio de assalto ou pretensa procura de assunto que em tribunal possa resultar em acusação de assédio? Dizem que por essas terras não  pode olhar duas vezes à mulher alheia, mesmo que esteja em exposição. – Cogitei.

De seguida, cerrei todos os dedos e desviei o olhar, seguindo-a apenas de esguelha. E foi que a barona, fingindo um gesto de saudação a mim, jogou a casca da banana que tinha numa das mãos ao canteiro protegido por duas paredes habitacionais.
Movido pelo espirito organizador e higienicista que de mim se acaparou, ainda soltei um "please, don't do it", mas ela, tal rio que se afoga no mar, coberto de razão, não foi na minha conversa. Não recuou da acção e prosseguiu o seu caminho, preenchendo a mão vazia do seu amo que estava quieto e inseguro do que viria a praticar a sua dama.

Suspirei de alívio, pois não era assalto nem algo que me envolveria em sarilhos gratuitos, mas não tardou para que uma outra interogação, seguida de exclamação, me invadisse o pensamento.
- Ou Tita é mwangolê ou nem tudo são rosas na nação do arco-iris! Aliás, vi miúdas do ANC que nasceram em Angola e ela podia ter uns vinte e coinco anitos... - Ajuntei. Também me lembrei que mesmo na possibilidade do ensino e da  educação familiar produzirem só rosas ou muitas rosas por essas terras, a flor e os espinhos fazem a dupla numa roseira e que quem recebe a flor também se apodera de uma porção de esporões.
Segui o meu caminho até novamente à exposição de arte e artesanato, organizada propositadamente para atender com gifts das terras de Mandela os diplomatas e outros conferencistas internacionais que fizeram do Sundton Conference Center um areópago dos países membros da União Africana, com destaque aos então Países da Linha da Frente que procuravam posições concertadas no âmbito regional.

Na feira, denunciado pelo meu curto shakespear e vestimentas sociais, fui quase forçado a declarar a todos que me queriam vender qualquer coisa um "im just looking". Até a tradução de friend para amigo os mais "vivos" buscaram do google translator para me cativar e trocar os meus parcos rands por umas lembranças duradouras. Não é que alguém conseguiu mesmo? Uma pipa para tabaco que nunca fumo e duas porta-jóias para a "comandante geral" do kubico e sua primogénita fizeram parte do meu espólio de recordações da rainbow nation.
Já no hotel, seria a Sra. da fiscalização dos quartos a me atazanar o juízo com a sua dicção estranha ao meu pobre inglês.

- Can you write what you are saing? - Defendi-me, meio aborrecido, pois me estava a prejudicar a crónica do dia.

E ela, diligentemente, e com letra de uma doutora  emprestada a serviços menores, redigiu: do you need anything in the room?

- Only water. – Respondi. Apenas água que, apesar da sede que me apoquentava a garganta em pleno dia de friorento, nunca me foi servida. Terá sido um código? Se foi, confesso que apanhei do ar. Há já muito tempo que não navego nessas ondas de "mantas que respiram quentura com ajuda de George Washigton debaixo do travesseiro".

Recolhi-me e fiz do PersonalComputer o melhor tradutor das minhas experiências e vivências.
- Can I help you?

- Im just looking!

quinta-feira, 10 de março de 2016

A PROCURA DE NOVAS OPORTUNIDADES


Fazia tempo que a sua vida era matar kasumunas enquanto a mulher treinava atletismo nas ruas da zunga com os fiscais administrativos. Embora não os lesse, Ndinha comprava sempre, no fim da sua jornada, um exemplar do jornal diário que oferecia ao marido que viajava de imediato as paginas de necrologia e anúncios sobre empregos.
No dia em que se anunciou a possibilidade de se aumentar o número de províncias e municípios, a cidade toda, as rádios, jornais e televisões não falaram de outra coisa senão a possibilidade de os maridos terem mais empregos e as senhoras da zunga mais espaço e territórios para vender. Ndinha que estava cansada das corridas nas ruas da Grande Capital já tinha esboçado o seu plano e cochichou mesmo às amigas que não perderia a oportunidade de se mudar daquela cidade, caso o assunto fosse levado a sério pelas instâncias superiores e pelo marido que matava kasumunas há já três anos, desde a desmobilização da vida kwemba.
Posta em casa, antes mesmo de contar as receitas do dia, Ndinha passou o jornal a Jota que consertava o fofandó que parara de gritar a sua dor de tanto uso por falta da energia da rede pública.
Pelos fundos do quintal, onde Jota se encontrava, não tardou surgir o grito de alegria:
- Ndinha, minha mboa, amarra o cabrito e as galinhas que estão na capoeira. Vamos procurar chefe Kapwete.
- Quem é esse Kapwete, Jota?
- Mulher, não esquenta. É irmão do chefe Kamundanda. Vamos. Há novos cargos na Libaju. Não ouviste que país vai aumentar? Temos de nos apressar se não vamos “lerapiar”.
- Mas, cargo então aonde, Jota. Coisas que explicas nunca só ficam esclarecidas. -Resmungou Ndinha.
- Vamos. Prepara as crianças e podes também avisar as tuas colegas que queiram singrar longe de Luanda. Vão criar 3 novas províncias, 75 municípios e sei lá quantas comunas. Já imaginaste quantos vão subir? É vida!
- Jota, é mesmo já você que vai subir?- Tentou contrariar Ndinha, na sua manina de “só para contrariar”.
- Eu não porquê? Eh? Não porquê?! Já não sou secretário executivo da Libaju? Aponta aí. “Se tenta” e oito novas circunscrições, vezes 17 comissários eleitorais, sem contar os departamentos e secções, administradores comunais, os “lima-unha”, os “joga-cartas de baralho” e os “leva-mala” do boss. Três províncias, vezes trinta directores, três vice, o staff e dependentes, os assessores… Jota fez pausa para levar ar fresco ao peito que reclamava água fria, devido à ressaca do dia anterior. E prosseguiu: “se tenta” e cinco administradores municipais e seus adjuntos, mais o staff das repartições... Dizem que até os deputados vão subir para 135. Vamos, não me faz perder mais tempo e oportunidade. Temos que levar o cabrito e as galinhas ao chefe Kapwete que está a fazer a lista. O período de recrutamento é curto e temos que aproveitar agora que os tubarões estão ainda na distração das festas e a engordarem com os cabazes. Vamos!
- É verdade mô Jota, mô amori. É mesmo muita vaga, Jojó. Vou também avisar a mana Miquilina, minha chefa-adjunta na Anazunga. Ela também estudou até à quarta classe do tempo de Agostinho Neto. Sabe ler, escrever e fazer contas de dinheiro. Ninguém lhe aldraba na tabuada!
- Sim dama. É muita vaga mas também muitos dos môs avilos ainda sem função, vivendo de “mixas” ou das damas como tu. Essa é a oportunidade da nossa salvação.- Respondeu Jota.
- Sim amor. Haja o que hajar, dessa vez ninguém mais nos kasumbula. Vamos, antes que as vagas dos municípios acabem. Nas províncias assim já se tombwelaram, mas nos municípios e comunas ainda deve sobrar. – Respondeu Ndinha com o kasule às costas, o filho mais velho agarrado à saia e puxando o cabrito pela corda. A galinha, o pato e um casal de pombos estavam na quinda que seria ofertada ao boss das listas.
- Vamos aproveitar o período festivo de natal e ano como motivo da oferta. Assim, o chefe Kapwete não alega “motivos de ordem moral” para recusar as ofertas em troca de umas vagas num dos novos municípios ou comunas que estão na forja.
- Vamos Mô Jota, homem vijú.- Respondeu Ndinha entusiasmada.
A família partiu, deixando para trás a casa arrendada na Fubu, e as dívidas das birras por saldar. Se vai dar certo ou errado ainda ninguém sabe porque o tal anúncio no jornal não passou de uma antecipação do dia das mentiras, 01 de Abril. Como não se despediram dos vizinhos nem levaram a pouca mobília, que Ndinha foi juntando com o dinheiro da zunga, ainda podem voltar a casa na maior tranquilidade. Há porém um mujimbo que corre e que aumenta a expectativa do casal.

Obs: texto publicado no Semanário Angolense de 08.08.2015
 

terça-feira, 1 de março de 2016

PROCURANDO PELO FUNJE QUE ME CRIOU


Um gajo na terra dos outros, mesmo que saiba falar a língua deles, sofre. Sofre por desconhecer os nomes dos “jangutos”, por desconfiança que se apercebam que és estrangeiro e te armarem uma arapuca, sofre porque viver uma “vida mulata” de curta duração, sofre com o frio ou calor se calha em viajar num período de clima inverso ao deixado na banda, sofre até com a falta de buracos, lixo nas estradas e canos de água rebentados a jorrarem a toa por tudo quanto é canto. Há países em que você vive bem mas sofre com a saudade das coisas boas e más da “matherland”. Passou-se comigo nessa curta escala pela terra do vovô Mandela.

Cansado de peixes, frangos e carnes adocicados e ajindungados servidos nos restaurantes e nos aviões, fui procurar numa esquina próxima ao Sundton Conference Center, zona chique de JOBURG, algo que se parecesse aos nossos pitéus angolanos. Setenta e duas horas sem “funjar” é um record a que só me submeto quando estou mesmo “na estranja”. Em casa não. Lá é o funje, sejam quais forem os molhos, quem mais grita. Aliás, o nosso funje é patriota e revolucionário. Não foi ele que nos aguentou e ainda nos vai aguentando quando o arroz e maça da importação falhavam nas lojas? Por isso, onde quer que eu esteja tenho sempre uma estrofe do célebre poema de Agostinho Neto: “Ao nosso funje, havemos de voltar”!

Nas proximidades de Sundton Conference Center as ruas estavam apinhadas de polícias com carros blindados. Sozinho, naquela rua com magnatas que chegavam minuto a minuto e alguns acompanhados de batedores, senti-me perdido para ir ao Nelson Mandela Square e conseguir os Rands para reforçar os "cheiros à maneira" e procurar um pitéu de verdade.

Verdade se diga, cheguei à conclusão de que o angolano cheira bem e não é a toa que quase todas as “mboas” do Shoping me estavam a colar que nem mosca numa porcaria kimbombada.

- Hello, how are you. I have same thing nice for you. - A mboa, bué ancuda, fez um sorriso interesseiro e começou já, ali mesmo, a me "aproximar" para ver se me kasumbulasse uns dodós, só que ela se enganou mbora com a cara da pessoa. Os dodós que ela queria me tramankaram ‘mbora com eles há três semanas...

- I can´t speak english. - Defendi-me, procurando afastá-la.

A mboa até não era tutu, tutu, quando comparadas com umas aí que conheço, mesmo na “Ngimbi”. Mas ela queria é o meu “kumbú” ou confirmar se eu era estrangeiro “bunfunfado” para mandar me tramakar, sei lá mais quê.

- I can help you with my Google translater sound. - Voltou a atacar, tentando encontrar alguma fraqueza do meu lado. Mas eu, um gajo viju, com trinta anos a viver na Ngimbi não fui na conversa e comecei a fazer ouvidos desinteressados.

- I have no money. - Voltei a defender-me e sondando já por onde sair voado. A kindoza tentou ainda contra-atacar-me com o "but you smell well and dress like a government in a conference". Se era verdade ou mentira é já com ela. O que fiz foi dar uma de às e zarpar dali. Era hora de ponta e o Shop começava a apinhar-se de gente. Já tinha dado umas tantas voltas e não tinha encontrado a casa de câmbio. Também não dava para bandeirar. Os mwadyes podiam ainda pensar que um gajo é “mbalu”. Desculpei-me com o "Sorry, I have to go, mum", ao que acedeu, embora relutante e procurando mais prosa. Bazei.

Mal cheguei à esteira rolante, um outro tipo, que me recordou os “enganadores” do finado Roque Santeiro, abordou-me empunhando uma pasta e um pequeno embrulho que tinha uns mambos tipo anel ou outras joias: "Please brother. I have something very nice foy You". - Disse ele, abrindo a sacola e retirando um pequeno embrulho avermelhado em que se supunha estar o tal "something very nice fou you". - Respondi-lhe com um soletrado "I can not understand you because I no speak english". O “manga” ainda tentou insistir, acompanhando-me até ao fim da escada, mas eu apanhei a outra e continuei a trepar o edifício, somente de abuso. O indivíduo regressaria ao piso inferior para domar outra possível vítima, normalmente estrangeira e desavisada.

- Vai rezar caçar noutra coutada mazé, pá! – Disse para mim mesmo.

Era já a minha quinta volta e no sobe e desce, ora caminhando sobre escadas outra indo na boleia do tapete que, afinal de contas, faz muita falta a quem esteja cansado, a procura do “changing post”. Abro um aparte para questionar por que as nossas poucas instituições com aquele meio de transporte entenderam aposenta-lo antes mesmo da maturidade.

Na tentativa derradeira, encontrei o "changing post" e lá consegui uns poucos “Mandelas” que me levariam a caçar a funjada ou um parente próximo do pitéu que me fez crescermos. E não é que encontrei mesmo uma funjada de carne assada? Até os pólices de JOBURG abandonaram os postos (ou aproveitaram a renda) e foram se lambuzar com as mãos no sítio em que os rastas e outros artesões realizavam a feira de artesanato para os "foreigners se desdolarizarem” e levarem estórias do país do arco-íris para a casa. Só não consegui é fotografar os magalas a pitarem, sem vergonha e nem receio (como acontece por cá, entre as nossas gentes que se faz passar por europeus quando nunca sequer passaram o estreito de Gibraltar), a sua "papa and beef". E o canal entre o prato e a boca eram mesmo os dedos, sem kijila!

- How much this food? - Indaguei estrategicamente na ignorância do nome real do “janguto”. Porém, como azar não custa, a senhora que me atendeu na roulotte colocada sobre o passeio, lançou-me um "wich one"? Só que o “mwangolê” é vivo e, sendo libolense, um pouco mais ainda.

Encostei-me à roulotte, quase sentindo a sua quentura e engolindo aqueles cheiros que faziam um cão faminto fazer das narinas uma nascente. Fiquei entre um polícia e um kota negro, fininho, que tinha os cabelos penteados para trás e que falava uma língua distinta do inglês. Eles têm perto de dez línguas oficiais, entre as de origem africana e europeias. Reparei rapidamente nos dois pratos que a “mboa” acabara de servir e apontei ao que tinha uma pasta branca feita a base de farinha de milho.

- This one. Estiquei a mão para que mais dúvida não houvesse. E para que a sul-africana não desse conta do meu sotaque e da minha pobreza lexical, lancei de imediato um "how much"?

- Thirty Rands. If you want Coca, must pay fourty one rands.- Fiz as contas rápidas e saquei uma cédula "cabeça grande" que já tinha o “ngimbu” a sair da algibeira.

Levei o marmitex ao hotel, que ficava a vinte metros, onde, também com as mãos, para não ofender Shaka Zulu e seus ancestrais, devorei o conteúdo com o polegar, indicador e o dedo médio da mão direita. E soube a Libolo, nos tempos da minha infância. Só faltou Xxila!

domingo, 21 de fevereiro de 2016

ENTRE (IN)VERDADES INCÓGNITAS E FICÇÃO ORAL

Antes da invenção da escrita, as artes já existiam, pois elas evoluíram com o homem enquanto ser pensante, livre e transcendental. O que é hoje literatura já teve outras formas de expressão, nomeadamente, a oralidade que conservava e ainda conserva a História e as estórias dos povos e das civilizações.

Entre nós, angolanos, a oralidade vai coexistindo com a literatura e vezes há em que se confundem. Abundam entre nós relatos da Oralidade levada aos livros e livros grafados como se fossem relatos orais sobre estórias e lendas milenares dos povos bantu e pre-bantu do nosso espaço geográfico.

Não poucas vezes, esses contos viajam nos autocarros públicos, comboios e candongueiros e, tantas outras vezes, os contos ficcionados ou verdades incógnitas almoçam nas barracas de kakusu (tilápia) e carne de caça ou mesmo nos quintais de adyakime já de cabelo algodoado e dentes cariados.
Ngaxi, Nga Madya, Manda e Isabele Gaspara são comadres desde os tempos da Kitanda do Xamavu e partilham hoje o sombreiro no mercado municipal de São Paulo. Numa de suas saídas em busca de negócios, as idosas, caprichosamente vestidas a bêssangana, pões conversa em dia, não se coibindo ante a presença de jovens com idades de filhos e netos.
- Xê, Nga Madya, sabes duma! - Atirou Isabele, meio escondida na cadeira do motorista do autocarro que geme na subida da Mutamba.
- Nada, comadre, conta. ; Respondeu Nga Madya, buscando conversa.
- Estás e ver, no Panguila, Sector quarenta e sete! Uma velhota, assim na nossa idade, mais ou menos, vivia já viúva cerca de vinte ou trinta anos. Não é que um dia desses se combina com um dikwenze daqueles trungungeros e começa já as conversa à noite?!
- Sim, mana, avança. Estamos atentas. – Intrometeu-se Manda, também ela expectante.
- Pois é comadre. - Continuou Isabele. As coisas quando aqueceram, a velhota começou a gritar “me larga vai me furar, me larga vai me furar”.
- E depois, mana, aconteceu mais o quê! - Interpôs Ngaxi que se manteve calada até aí, ante a expectativa da juventude que se continha para não rir e despertar as idosas que ficcionavam descontraidamente.
- Pois, então, prestem atenção. - Apelou a narradora. O vizinho da porta frontal, sabendo que a vizinha era viúva e vivia sozinha, julgou ser bandido que se introduziu em casa da vizinha e chamou a polícia, dando o nome da rua e número da casa. Nao é que posta a polícia no local, a velha não abria a porta?! – Isabela fez pausa para inspirar a brisa que espalhava ar fresco para dentro do automóvel.
- E ficou tudo por aí ou houve mais cena com a polícia, o intruso e a mutudi? – Indagou  Ngaxi.
_ Ouve então comadre. – Prosseguiu a narradora. A polícia, pum, pum, pum, na porta e a velhota nada! Não abria a porta, nem sequer atendia. Mas os gemidos continuavam. Afinal a conversa lá dentro entre a viúva e o muzangala já ia no ritmo do carrecto dezoito. O polícia mais corajoso deu um pontapé na porta e foram ter com os dois em flagrante delícia.
- Sukwama, Kima kyabambuka! Pegou fogo! – Atirou Ngaxi no outro canto do pesado que deslizava já em direcçao ao Zé Pirão, procurando fazer o contorno para dobrar a Cónego das Neves, em direcção ao antigo Xamavo.
- Os polícias, cordas no atrevido e mamã na cabine da Toyota para ir apresentar queixa na esquadra. - Acrescentou Isabele Gaspara.
- Mas é mesmo tua verdade, mana Isabele, ou é tua invenção! – Procurou confirmar Ngaxi que se preparava para abrir também o seu livro oral acabado de produzir.
- É verdade comadres. - Confirmou Isabele que prosseguiu a narrativa. Postos na esquadra, em vez de o muzangala explicar o que sucedeu, a própria mutudi é que foi pedir ao chefe da esquadra: filho, o jovem não me fez nada. O vizinho é que é invejoso e fofoqueiro. Ele queixou à toa, não viu nada nem ouviu sequer um gemido! Os polícias: Haka! Boca a tocar na nuca de tanta estupefação.
- E o que nós vimos então foi o quê, ó mãezinha?! - Procurou ainda saber um dos agentes policiais que foi prestar o socorro requerido pela vizinhança.
- Foi só mesmo o que viram. Não me fez violação. Foi só manutenção!
Mamãs e a juventude toda no autocarro entraram em transe. Gargalhadas de mostrar o último molar ou apenas os terreiros vazios. Ngaxi, Engrácia de registo, nascida no distante ano de trinta e cinco do século vinte, como fez vénia de se apresentar, entrou também no círculo e sacou da sua prosa.
- No meu bairro, no Kifica, a cena, que não é de mentira como essa da mana Isabele, é mesmo de verdade verdadeira. A Senhora até é minha amiga e está também já assim, sem manutenção desde que o vizinho Gasparito apanhou kikonha. Com os negócios dela de Kisângwa, banana pão, jinguma e bombó assados, arranjou dinheiro e inventou uma fórmula.
- Fórmula de quê, mana Ngaxi? Pessoa que começa cena de arranhar cabelo tem de terminar. – Apelou novamente Manda, procurando pôr mais lenha na fervura.
- Pois é, manas. Estava só a limpar o suor. – Prosseguiu dona Engrácia ou simplesmente Ngaxi. – A vizinha, certo dia, a doença de comichão lhe tocou. Bebeu água fresca e nada. Tomou banho de água natural, de água morna e de água gelada e também nada! Fazer o quê? Chamou um daqueles meninos que transportam água em troco de bebida. Xê muzangala, não queres birra? Perguntou a “kaveia” toda sacudida. Até o Português dela parecia duma mocita do colégio.
- E o moço, mana Ngaxi? - Perguntaram expectantes as amigas.
- Esperem que já lá chego. – Acalmou Ngaxi. O moço trouxe um, dois, três bidons de água. Na hora já de cobrar o que era seu, portanto as cervejas, a velhota lhe diz: só queres mesmo beber, não queres te lavar? O moço fez sinal de mais ou menos. Na verdade ele queria mesmo é só beber cerveja dele e ir fazer mais outros kadyenges mas aceitou já tomar banho por causa do respeito e dos sabonetes caros que a velha lhe mostrou com ele.
- É verdade mesmo, dia de sol negócio de água é que bate. - Interrompeu  Isabele Gaspara. Mas foi Ngaxi quem prosseguiu, depois de mais uma pequena pausa na narrativa.
- O  moço bebeu a primeira e a segunda. A tia fez pausa e sugeriu: queres mais duas? Vai tomar banho e depois a avô acaba de te pagar. Não é que o moço aceitou a proposta?!
- E depois? - Interrogaram, quase em coro, todas as senhoras vendedeiras do mercado de São Paulo que se faziam transportar naquele pesado.
- Enquanto o dikwenze se lavava, usando os sabonetes e cremes da anfitriã, a minha amiga, que não vos digo o nome dela, fez-lhe uma comida leve e meteu na mesa, ao lado de uma ngala de vinho. O rapaz também parece já estava a sentir o cheiro a sair da cozinha e, vendo que não estava aí mais ninguém, atacou e quase mordia a língua. Zás. Piteu foi-se todo na barriga que começava a ganhar volume.
- E se foi embora, mana Ngaxi, ou houve mais? – As comadres pareciam adivinhar o fim da odisseia mas preferiram devolver a palavra à narradora que contava com mais retoques e acepipes.
- Não é que o moço depois de comer queria já sair voado? A velhota lhe perguntou: não queres enxaguar a boca com uma birra?
- E ele? - Atirou  Nga Madya procurando precipitar o final.
- Ele aceitou, mas a vizinha Inês, já com a birra na mão, fez a última proposta: Agora bebe a avô e depois bebe a birra da porta!
- E bebeu ou saiu voado? – A pergunta, meio descontrolada fez-se ouvir por todo o autocarro.
- O jovem ainda a gaguejar, pois procurava digerir aquelas palavras e tomar uma decisão, rcebeu da idosa a sentença final: acaba de me matar!..
Não houve tempo para mais perguntas. Só gargalhadas.

Obs: texto publicado no Semanário Angolense de 27.11.2016

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

A REFORMA TERRITORIAL E A BUSCA DE NOVAS OPORTUNIDADES


Fazia tempo que a sua vida era matar kasumunas enquanto a mulher treinava atletismo nas ruas da zunga com os fiscais administrativos. Embora não os lesse, Ndinha comprava sempre, no fim da sua jornada, um exemplar do jornal diário que oferecia ao marido que viajava de imediato as paginas de necrologia e anúncios sobre empregos.

No dia em que se anunciou a possibilidade de se aumentar o número de províncias e municípios, a cidade toda, as rádios, jornais e televisões não falaram de outra coisa senão a possibilidade de os maridos terem mais empregos e as senhoras da zunga mais espaço e territórios para vender. Ndinha que estava cansada das corridas nas ruas da Grande Capital já tinha esboçado o seu plano e cochichou mesmo às amigas que não perderia a oportunidade de se mudar daquela cidade, caso o assunto fosse levado a sério pelas instâncias superiores e pelo marido que matava kasumunas há já três anos, desde a desmobilização da vida kwemba.

Posta em casa, antes mesmo de contar as receitas do dia, Ndinha passou o jornal a Jota que consertava o fofandó que parara de gritar a sua dor de tanto uso por falta da energia da rede pública.

Pelos fundos do quintal, onde Jota se encontrava, não tardou surgir o grito de alegria:

- Ndinha, minha mboa, amarra o cabrito e as galinhas que estão na capoeira. Vamos procurar chefe Kapwete.

- Quem é esse Kapwete, Jota?

- Mulher, não esquenta. É irmão do chefe Kamundanda. Vamos. Há novos cargos na Libaju. Não ouviste que país vai aumentar? Temos de nos apressar se não vamos “lerapiar”.
- Mas, cargo então aonde, Jota. Coisas que explicas nunca só ficam esclarecidas. -Resmungou Ndinha.

- Vamos. Prepara as crianças e podes também avisar as tuas colegas que queiram singrar longe de Luanda. Vão criar 3 novas províncias, 75 municípios e sei lá quantas comunas. Já imaginaste quantos vão subir? É vida!

- Jota, é mesmo já você que vai subir?- Tentou contrariar Ndinha, na sua manina de “só para contrariar”.

- Eu não porquê? Eh? Não porquê?! Já não sou secretário executivo da Libaju? Aponta aí. “Se tenta” e oito novas circunscrições, vezes 17 comissários eleitorais, sem contar os departamentos e secções, administradores comunais, os “lima-unha”, os “joga-cartas de baralho” e os “leva-mala” do boss. Três províncias, vezes trinta directores, três vice, o staff e dependentes, os assessores… Jota fez pausa para levar ar fresco ao peito que reclamava água fria, devido à ressaca do dia anterior. E prosseguiu: “se tenta” e cinco administradores municipais e seus adjuntos, mais o staff das repartições... Dizem que até os deputados vão subir para 135. Vamos, não me faz perder mais tempo e oportunidade. Temos que levar o cabrito e as galinhas ao chefe Kapwete que está a fazer a lista. O período de recrutamento é curto e temos que aproveitar agora que os tubarões estão ainda na distração das festas e a engordarem com os cabazes. Vamos!

- É verdade mô Jota, mô amori. É mesmo muita vaga, Jojó. Vou também avisar a mana Miquilina, minha chefa-adjunta na Anazunga. Ela também estudou até à quarta classe do tempo de Agostinho Neto. Sabe ler, escrever e fazer contas de dinheiro. Ninguém lhe aldraba na tabuada!

- Sim dama. É muita vaga mas também muitos dos môs avilos ainda sem função, vivendo de “mixas” ou das damas como tu. Essa é a oportunidade da nossa salvação.- Respondeu Jota.

- Sim amor. Haja o que hajar, dessa vez ninguém mais nos kasumbula. Vamos, antes que as vagas dos municípios acabem. Nas províncias assim já se tombwelaram, mas nos municípios e comunas ainda deve sobrar. – Respondeu Ndinha com o kasula às costas, o filho mais velho agarrado à saia e puxando o cabrito pela corda. A galinha, o pato e um casal de pombos estavam na quinda que seria ofertada ao boss das listas.

- Vamos aproveitar o período festivo de natal e ano como motivo da oferta. Assim, o chefe Kapwete não alega “motivos de ordem moral” para recusar as ofertas em troca de umas vagas num dos novos municípios ou comunas que estão na forja.

- Vamos Mô Jota, homem vijú.- Respondeu Ndinha entusiasmada.

A família partiu, deixando para trás a casa arrendada na Fubu, e as dívidas das birras por saldar. Se vai dar certo ou errado ainda ninguém sabe porque o tal anúncio no jornal não passou de uma antecipação do dia das mentiras, 01 de Abril. Como não se despediram dos vizinhos nem levaram a pouca mobília, que Ndinha foi juntando com o dinheiro da zunga, ainda podem voltar a casa na maior tranquilidade. Há porém um mujimbo que corre e que aumenta a expectativa do casal.

 Obs: texto publicado pelo Semanário Angolense em 2015.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

CONTÍNUOS DO ANTIGAMENTE


Durante o meu percurso académico conheci na escola Ngola Mbandi, ex. Liceu Emídio Navarro, dois homens, dois contínuos sem precedentes. Um atendia pelo nome de Ti Pacheco, Domingos de nome próprio, e outro era o Ti Luís. Eram, na verdade, idosos que atendiam ao papel de pai ou de tio para todos os alunos da Escola do II e III níveis a que me reporto.
Depois de longos anos a trabalhar na Secretaria da instituição, Domingos Pacheco, que morava na Rua de Ambaka, no Rangel, entendeu viver a pré-reforma, servindo de contínuo, zelador do património escolar e conselheiro de toda a comunidade escolar (direcção, professores e alunos).
Era a ele que os novos directores se dirigiam para conhecer os cantos da escola, a cultura organizacional reinante e os trabalhadores, desde os mais antigos aos neófitos. O Ti Pacheco também conhecia os alunos, quase que nominalmente. Aos mais inteligentes costumava catalogar em nome, morada, classe a frequentar e disciplinas em que era melhor dotado. Na secretaria, contaram-me, o Ti Pacheco conhecia os livros de cor, desde o tempo do colono aos anos 90 do século XX. Bastava dizer-se o nome e ano de matrícula para que ele encontrasse o livro, extraísse os dados e passasse, em tempo record, o documento solicitado.
Quando as forças para subir e descer o escadote que o levava aos livros mais antigos da escola começaram a fraquejar, o Ti Pacheco decidiu ser zelador ou contínuo. E foi já nessa sua nova e importante função para a harmonia do clima escolar que o conheci. Tocava o sino pontualmente que até os homens que viviam na periferia da escola acertavam os seus relógios ao som do toque do sino. Recebia e encaminhava os encarregados de educação e visitantes à direcção, secretaria, e aos professores. Na sua cadeira, em frente à porta da instituição ou no jardim escolar, recebia os alunos com dificuldades em fazer as tarefas ou até aqueles que buscavam por outros conselhos. O Ti Pacheco, que tinha um domínio de Aritmética e Língua Portuguesa, dirigia--os, quando a questão estivesse longe do seu alcance, aos alunos brilhantes da sua lista ou indicava os livros para consulta. Foi nessas circunstâncias que fiz muitas amizades com rapazes e raparigas que já arrotavam bacalhau e bife, numa altura que boa parte dos “rangelistas” não passava do "revolucionário" arroz com peixe frito ou “ngongwenya” ao mata-bicho. A ele se deveu a difusão do meu epíteto de “o menino que corrigiu o livro de matemática”.
- Ó pioneiro, toma cuidado. Você que é esperto na escola não se deve meter com esses kazukuteiros que só vêm por obrigação dos pais.- Aconselhava. O ancião servia também de conselheiro para aqueles que estavam já na fase dos engates.
- Você que estuda bem tem que ficar com uma miúda também com juízo. Dois a se formarem e a trabalharem sustentam bem os “môs” netos.- Dizia, meio sério, meio a brincar. E não é que os seus bons conselhos resultaram em muitos casamentos, sendo ele, muitas vezes, padrinho?
Uma vez, depois de uma tertúlia sobre História, no jardim interior do Ngola Mbandi, o tio Pacheco passou ao ataque:
- Ó pioneiro, Você mora aonde?
- Moro no Rangel, tio Pacheco. Moro mesmo na sua rua.- Respondi-lhe receoso do que teria de ouvir. Na “trambiquice” da adolescência, nem sempre nossas acções satisfazem os mais velhos.
- Você é filo de quem?- Voltou a questionar, aumentando mais ainda o meu receio, levando-me a pedir uma licença para fazer xixi.
- Responde ainda filho, depois vais para o teu recreio.
- Sou filho da dona Maria que vive ao lado da pracinha do Kalisange.- Respondi, já com as mãos a apertar a “kimeta”.
- Ah, pois é. Então você é da Kibala, não é?
- Sim. Não, ti Pacheco.  Somos do Libolo.
O mais velho que se apercebera da minha “kagunfa” esboçou um pequeno sorriso e passou sua mão pela minha cabeça para me acalmar.
- Boa gente, os de kalulu. “Akwa Lubolu adya Jinyoka (os libolenses comem carne de jiboia). É ou não é?
- Sim, tio Pacheco, mas eu nunca comi ainda.
O Idoso puxou da sua pasta uma esferográfica e deu-ma de presente.
- Você é bom rapaz. Pioneiro esperto, estuda muito para ajudar a mamã. Está bem?
- Sim, Tio Pacheco. E despedimo-nos. Estava a terminar o ano lectivo e a minha sétima classe.
Tempos mais tarde, quando foi reformado, o Ti Luís, outro morador do Rangel, Rua 24 da Comissão, que trabalhara até então na Secretaria da escola com a mesma perícia do Ti Pacheco, tomou-lhe o lugar de contínuo da escola. Luís e Pacheco, ambos de Katete, pareciam ser da mesma escola e com o mesmo aproveitamento. Depois de reformado, o Ti Luís montou uma papelaria em sua casa onde o visitei várias vezes com o pretexto de comprar material escolar (cadernos, esferográficas, cola, etc.). Era a forma encontrada para uma conversa com o avô que não tinha e obter os seus conselhos de graça.
Quanto ao Tio Pacheco, vivia humildemente na sua casa, na curva da Rua de Ambaka onde muitas vezes o provoquei amistosamente.
- Como está Tio Pacheco de Katete?
- Ó, meu filho! Estás bem? Sempre com juízo?
- Com os vossos sábios conselhos e na Graça de Deus. - Respondia-lhe descontraído.
Domingos Pacheco chegou mesmo um dia, já aposentado, a chamar-me para uma outra conversa. Já à entrada de sua casa. Apanhou-me num dia de fome, procedente do Instituto, mas inclinei-lhe o ouvido e bebi de sua sabedoria.
- Estás a ver aqueles miúdos?- Indicava ele para uma quadrilha que passava cantarolando e fumando. Ninguém precisava de mais dados para automaticamente os catalogar de amigos do alheio. 
- Sim Ti Pacheco. vi-os saírem, da casa da vida, aí no "Beco um". Ajudei.
- Pois é. É isso que está a estragar a miudagem, meu filho. Toma Juízo. Se quereres mulher, pega uma e apresenta-te aos país da "kalumba". Essas casas da vida são desgraça. É kangonha, é doença, é tudo de mau. Estás a ouvir bem?
- Sim, Tio Pacheco. Estou atento e a anotar na cabeça os seus conselhos. - Emendei a seu contento. 
- Então vai com Deus e continua com o juízo que te conheci com ele no Emídio Navarro ( o ancião, dificilmente pronunciava o novo baptismo do liceu que se passou a chamar Escola do II e III níveis Ngola Mbandi em homenagem a um "grande homem" da nossa luta de resistência anti-colonial).  
Soube de um neto que se tornara também meu amigo que o Tio de todos os alunos do Ngola Mbandi já não vive. Nos últimos tempos da sua vida de reformado decidiu ocupar-se da pequena agricultura. Numa noite de infortúnio, uma parede desabou e causou-lhe ferimentos de que não resistiu.
- Meu avô morreu de parede. Disse, sarcástico, o “sacana” do Milton, como diria o tio Pacheco.
Haverá ainda nas nossas escolas contínuos como o tio Luís e o tio Pacheco?
Me parece que a fábrica fechou!
 
Texto publicado pelo Semanário Angolense a 21 de Agosto de 2015.