quinta-feira, 1 de setembro de 2022

MORDENDO O CINTO DO PAPÁ

O café, que se estendia da mata densa ao vilarejo, dava olhos ao posto administrativo e virava-se de costas ao acampamento dos cipaios onde despontavam Kafebele e Van-Dúnem Mulalu.
O Kisongo dos anos sessenta eram várias aldeias dispersas e perdidas no sertão, administradas por um chefe de Posto, auxiliado por cipaios negros e poucos mestiços, no dizer de hoje, também eles auxiliares de polícias da administração colonial.
Entre Kisongo-vila e Mbang'Wanga, mais à margem do Kwanza, estava Kambaw, aldeia de Nzumba, mãe de Lumbu.
Alto, forte, voz firme, capaz de secar uma árvore desobediente, Van-Dúnem era dos mais pungentes cipaios do Kisongo e a quem o administrador recorria para os assuntos mais bicudos como: pacificar aldeias revoltosas, chamar à razão fazendeiros brancos e ou mestiços faltosos aos impostos, castigar negros reincidentes e recalcitrantes entre outros serviços que demandavam força e imposição de ordem.
Van-Dúnem passava semanas sim e semanas também ocupado pelo Posto. Apenas nos dias que calhassem ia à casa visitar Zumba e os filhos. Era mais ao final de semana que fazia renda com Kafebele, pequeno, lero, altivo e negro da cor da pedra do ferreiro, que havia sido transferido da Munenga ao Kisongo.
Um dos adereços por que Van-Dúnem ganhara afeição era o seu cinto de pele de jiboia, confeccionado por um artesão da Kisama. Na verdade, não era apenas um eram dois cintos. Tanto que ora os tinha no quarto do acampamento, ora os tinha distribuídos pelo acampamento e pela casa familiar em Kambaw.
Num ano, que a memória deixou escapar, havia faltado chuva, apesar de nuvens semi-carregadas que viajavam sem parar, provocando intermitências ao sol que tudo fazia secar. Até rios contavam gotas d'água, pondo em disputa o homem da aldeia, o kyombo do mato e demais bichos sedentos que se tornavam comida do homem caçador.
Lumbu, dois anitos ainda, brincava junto à sanga que distribuía água fresca aos que iam e vinha da lavoura circunscrita às ribeiras. Mais não se colhia senão kizaka, malanga, jihasa, kindombo e alguns grãos.
A fome era total. Até jiphuku escasseavam e os gatos haviam fugido de tanto bocejarem sem nada tragar.
Aproveitando-se do silêncio da madrugada, ausência do gato e da frescura da sanga, uma cobra adentrou a sala de terra batida e enrodilhou-se na base do reservatório refrigerador.
Lumbu viu no animal o adereço com que sempre brincava à chegada do pai. Assistira um dia o pai a punir o irmão mais velho, servindo-se do cinto. Puxou-o, com sua força de monandenge, e procurou mordê-lo com os dentes que tinha por completar.
- Lumbu larga. É perigo! - Gritava a mãe atónita.
- Lumbu dá isso. Tem tutu. - Ajudava o soba chamado às pressas, sem lograr.
Num pestanejar, a casa ficou apinhada e a aldeia em alvoroço.
- Como é possível?
- Cumué ku bicho entrou?
- Como salvar mininu? - Mil vozes, mil perguntas lá fora.
Vieram uns mizangala, dos mais destemidos da aldeia, que enfiavam mãos desprotegidas em tocas para sacar surucucus e jiboias.
- Dá licença! - Disse um deles autoritário.
Abriu-se lhe caminho. O momento era para homens corajosos. Lumbu corria risco.
Kindalá, jovem com apenas dois terços de dentes. Outros perdidos em pelejas e quedas empunhava uma vara terminada em Y. Pôs-se à entrada.
- Passo atrás! - Ordenou que os assistentes recuassem.
Precisava de zona vital para manobras. Um olho em Lumbu que mordiscava a cauda da cobra e outro olho à procura da cabeça do réptil.
- Lumbu, larga é tutu? - Tentou persuadir.
- Hum, né nada. É cinto do papá! - Soltou o infante, engatinhando para o quarto, puxando pelo bicho, forçando-o a mostrar a cabeça.
Num toque mágico, Kindalá, com a sua vara terminada em Y, golpeou-a pela mandíbula, fazendo da serpente um verdadeiro futuro cinto para o cipaio Van-Dúnem Mulalu que se aperceberia do acorrido quinze dias depois.

Estória base: Eduardo Cussendala
Texto pblicado no Jornal de Angola de 4 de Setembro de 2022

quinta-feira, 4 de agosto de 2022

De Saulhimbo a Saurimo: APRESENTAÇÃO NA UEA

Caros confrades (escritores),

Parentes e amigos do Dr. Domingos Kajama,

Minhas senhoras e meus senhores!

Façamos uma vênia especial a todos meninos presentes.

Permitam-me agradecer ao autor, Dr. Domingos Kajama, por me ter confiado a missão de falar aos ilustres presentes sobre o seu livro.

Até hoje ainda me pergunto, por que me terá recaído essa missão, existindo nessa imensa floresta de literatos mentes conhecedoras e criativas que dão vida a penas escorreitas (Soberano Kanyanga é ainda uma criança a tentar engatinhar).

Quando em Maio deste ano, o Dr. Kajama me contactou para prefaciar o livro que temos em presença, dando-me nada mais do que duas semanas, fiz-lhe a seguinte pergunta:

- Porquê eu?

- És tu porque gostas da Lunda, teus escritos trazem a Lunda e és, por essa razão, um mwana Kacokwe!

- Ewa tata, nguna sakwila cinji. Yami nguli kacokwe! – Respondi, aceitando a missão.

À medida que fui lendo, fomos trocando impressões, alertando para pequenas gralhas no texto inicial, ou discutindo, por exemplo, por que razão apresentava o título “O diamante e suas consequências”?

Quando o título evoluiu para “DE SAULIMBO A SAURIMO”, apresentava um acento grave sobre A, o que nos levou a novo debate até à e retirada do sinal diacrítico. Também analisamos por que não escrevia segundo o que dita a Resolução 3/87 de 23 de Maio, do Conselho de Ministros, sobre o alfabeto da Ucokwe e respectivas regras de transcrição (só para particularizar essa língua).

E, tal como eu fui anotando os conhecimentos que o livro acrescentava aos meus dez anos intensos de vida e trabalho na Lunda, o Dr. Kajama também foi tomando notas e respondendo ao que lhe colocava. Encontrei em Kajama um pai, com muito para ensinar e aberto a somar aos seus largos conhecimentos o que é necessário agregar.

O livro está estruturado em dez capítulos em que se aborda, nomeadamente:

1-    O percurso dos colonizadores portugueses, a ocupação do império Lunda e denominação da antiga sede do Distrito da Lunda;

2-    A vida sociocultural, económica e política dos habitantes do antigo Império Lunda;

3-    A chegada dos portugueses a Saulhimbo e impacto na vida política, económica e sociocultural dos nativos;

4-    A descoberta do diamante e suas consequências;

5-    Contribuição da Diamang no desenvolvimento económico e sociocultural do então Distrito da Lunda;

6-    A elevação da vila Henrique de Carvalho à categoria de cidade;

7-    O papel determinante dos Movimentos de Libertação Nacional;

8-    A independência de Angola e as transformações políticas, económicas e socioculturais;

9-    Notas Conclusivas

10-                      Provérbios, parábolas e anedotário (Cokwe).

Em todo o livro, Domingos Kajama pregoa o despertar do homem do Leste angolano, cuja aculturação, subjugação psico-social e política do então colonizador adormeceu o seu “eu”. Esse livro é um despertador que o leva ao passado histórico (pré-colonial), recordando-lhe a essência angolana e africana do povo que habita a região da Lunda. Em todas as páginas do “De Saulhimbo a Saurimo: Contributos para a história social, cultural e política da Lunda”, Kajama parece falar em vez de escrever, ou melhor, escreve como se estivesse a contar as suas memórias/vivências: o que ouviu, o que leu, o que viveu e o que pensa, apresentando-nos um texto escorreito e convidativo, repleto de imagens, sons e ruídos (das águas, folhas e do vento) que também nos trazem mensagens.

Bem, não falarei mais sobre o prefácio que muitos já terão lido e outros vão ler. Vou reforçar o pedido que tenho feito aos mais velhos: registem os vossos conhecimentos, as vossas experiências, tirem da cabeça e passem ao papel. Mesmo quando a mão não obedece, há sempre um sobrinho ou neto para gravar e converter em texto. O resto vem por arrasto.

Quanto a isso, o Dr. Domingos Kajama fez, e com a mestria e qualidade requeridas, a sua parte.  Cumpriu com um dever de homem do seu tempo e de sua dimensão política e intelectual. Muito obrigado, Dr. Kajama, e parabéns!

É, em suma, um livro que nos faz viajar no espaço e no tempo, apontando-nos caminhos lestos para um reencontro com a nossa identidade.

Muito obrigado!


Soberano Kanyanga, UEA, 04.08.2022

sexta-feira, 1 de julho de 2022

O BÊBADO QUE NÃO BEBEU


Osábado tinha sido de revista habitual às infraestruturas. Aliás, em sua casa é assim. Sábado é dia de ver paredes com
fissuras, árvores por podar ou a secar, torneiras avariadas, tomadas deslocadas, lâmpadas fundidas e chapas furadas. Feito isso, sai-se para visita às casas da mãe e da sogra que são, na verdade, obras inacabadas, a que se junta a Kam&mesa. É por isso que o dia de descanso bíblico foi baptizado como o dia das infras.
Para piorar o cansaço, Katemo tinha trabalho com o patrão ao
domingo, numa jornada que tinha princípio mas sem data do fim.
Era já duas da tarde. Corpo a doer e estômago com martelos a bater-se entre si, quando Katemo foi liberado do trabalho, na baixa de Luanda.

Até à casa, levava hora e meia. Pelo caminho deu boleia a um convidado que estava sem carro e foi ver um dikota que lhe prometera katula mbinza.

O transito até estava bom. A abertura das praias, na pausa da
covid-19, tinha levado meio mundo ao mar, em semana de água rara e sol ardente. A chuva só ameaçava mas cair de verdade, nada!
Katemo, dirigido pelo google, chegou ao destino indicado pelo kota do katula mbinza. Encontrou a família, um amigo comum e fez nova amizade. Afinal kapuka das ponteiras sempre arrastou amigos ao alambique e continua a fazer novos amigos até mesmo em cidades grandes como a capitalíssima.
Entre um dedo de conversa e uma pinga, aproveitou comer. Estava a paz feita com a moagem estomacal que o empurrava ao encontro do funji domingueiro. Contou-se a cena de um bêbado que não estava bêbado e os seis convivas entraram em gargalhadas. O campo, as relações de proximidade e benfeitorias, bem como o descaso dos endinheirados também desfilaram entre garfadas e goles fortes de vinho da estranja e kapuka canelada da banda.
Quando o sol já se curvava, em vênia ao Atlântico, Katemo despediu-se, saindo zunado. Na corrida do Suv, as duas garrafas de katula mbinza tilintavam ruidosas no assento traseiro, fazendo temer um desastre. Olhou à frente. Havia ainda muito xingilamento. Acostou, diante de uma propriedade bem cuidada e guarnecida, para separar as garrafas se se digladiavam violentamente, agitadas pelos saltos que se revezavam intensos.
Sem saber que as litigantes se haviam separado, abriu a porta, escapando-lhe a que abandonara o assento.
- Buá! - Lá se foi, para a sua tristeza, a garrafa de um litro de primeira gota, destilada em Kambaw e envelhecida no Nova Vida.
Veio-lhe à memória a estória do "magnata" que, portando uma
vasilha semelhante de katula mbinza, envolveu-se em um acidente que levou à destruição da garrafa. Os primeiros que o socorreram deram-no por bêbado, mesmo não tendo tomado naquele dia, pois, chamados pela curiosidade, foram brindados com um altivo e gostoso odor que saia libertado do carro danificado.
Posto na polícia de trânsito, onde o proprietário da outra
viatura fez questão de exigir que fosse soprar o bafômetro, ficou conhecido como o bêbado que não bebeu.
- Como xtá, senhor Doutor bêbado que não bebe?! - Saudam-no
hoje assim.
Obs: publicado pelo Jornal Cultura de 13.04.2022

quarta-feira, 1 de junho de 2022

O KISONGO DAQUELE TEMPO

O Kisongo daquele tempo era um conglomerado de aldeias e aldeolas familiares que, juntas, chegavam a 50 mil pessoas.

No dizer dos mais velhos de hoje, que viveram com o colono, ainda anandenge ou já mizangala, nunca, jamais nesse século XXI o Kisongo de hoje, com mais ou menos 5 mil indivíduos que se remedeiam na agricultura e nas poucas fazendas que chegam tímidas, chega à áurea dos anos sessenta (sec. XX).
No vilarejo perdido na selva libolense, a caminho do Kwanza distante, a que chamavam Posto Administrativo, Mulalo, metro e noventa e cinco de altura, corpo de três homens médios, mão grossa e força de ngufu, era cipaio ao serviço da administração. Kambambi, amigo do pai, dos cipaios do acampamento e dos tios que choravam lágrimas e suor sugados pelo sol e palmatória, era o filho derradeiro de Mulalo.
O Phalanga e o Lumbu, irmão dele que lhe puxa, já tinham força para trabalhar, na lavra ou no kalyenge, e frequentavam também o "mbe e â? - Mba!" Por tudo isso, sendo os ajudantes permanentes da mamã, estavam isentados de levar comida ao papá que punha ordem no Posto e nas aldeias aos devassos e fugitivos ao imposto indígena.
Certo dia, tarde de futebol para os adolescentes, sol ardente lá fora e chuva a prometer açoitar os telhados de colmo. Phalanga e Lumbu estavam na bola. Em casa, Nzumba olha para os céus a profecia: Vai cair nvula de encher rios e marido vai dormir no trabalho.
- Kambambi!
- Mamã!
- Vem. Prepara os quedes. Num demora. Vai levar comida no papá. Vi, chegaram do Mbang'wanga pessoas na carrinha do sô 'diministrador. Deve ter trabalho grande. Chuva vai chegar sem escurecer.
Previsão de quem vive o comportamento do tempo é palmatória na mão de Mulalu ou tiro de caçador temperado. Não falha.
Nzumba arrumou a comida para o marido. numa marmita o funji e noutra o conduto: carne de paca apanhada da armadilha do Lumbu. O Phalanga era mais dado à pesca e tinha conseguido uns peixinhos que Nzumba preparou também para o marido. Estavam, com a Kizaka noutra marmita, a terceira e mais pequena de todas.
Era já hábito. Mulher e os filhos sabiam e disso não reclamavam. Quando o trabalho apertasse ou fosse noite de chuva, Mulalu não voltava à casa, preferindo dormitar no acampamento que distava cinco quilómetros da aldeia.
Kambambi meteu-se a caminho, cantarolando como rola ao nascer do sol. Transpôs um riacho e mais dois quando começou a gotejar. Chuva ainda miúda, criança como ele, caindo sobre as folhas das grandes árvores que se faziam paralelas à picada. Acelerou o passo para evitar chegar ensopado. A comida não. Estava segura, com as marmitas embrulhada em um saco de plástico.

Chegou molhado, numa mistura de gotejos pluviais e suor, mas alegre. Entregue a encomenda, passeou os olhos pela sala que se achava enorme, com uma mesa grande e duas cadeiras lado a lado. Era nela que o pai recebia os interrogados, antes de os sovar com a Maria da dores. No canto esquerdo estava um armário adornado com diversas palmatórias, todas elas nomeadas.
- É isso que faz os tios chorar como crianças?! - Interrogou-se sem o verbalizar, ante a presença de um "urso polar", cujo corpaço a todos intimidava e fazia descobrir o que houvesse de mais oculto.

Irrequieto, como são os kasule, Kambambi, num salto de corsa, desfez-se da sala e foi instalar-se à copa de um cafeeiro que exalava um cheiro ímpar, saído de flores virgens cor de neve. Trabalhavam nele alguns presos, sob o olhar de Xiku Adá, que empunhava uma caçadeira "22 longos". Uns faziam a poda atrasada e outros a adubagem, esperando incrementar a colheita do ano.
- Boa tarde, ti Manel, boa tarde tio Ngana Zando!- Cumprimentou, um a um aqueles que conhecia. Alguns eram de bairros próximos. Outros foi conhecendo à medida que ia levando comida e buscando os pratos vazios, mas eram todos do Kisongu.

Chegou a noite com todo o seu silêncio, interrompido, às vezes, pelo rosnar de um cão medrica ou de uma raposa no cio. O sol cedeu lugar às estrelas ofuscadas pela nuvens cinzentas, que viajam e se revezam sem parar, deixando tudo que é luz à mercê dos pirilampos e dos candeeiros do Posto administrativo.
- Kambambi!
- Papá!
- Vem dormir. - Chamou Mulalu ao filho.
- Papá, já tenho lugar no ti Januário!
- Qual Januário? Aquele terrorista?
- Não papá. Ele não é tractorista. Trabalha mesmo com catana na poda do café!
- Vem cá, pá e não te metas com esses trafulheiros que só sabem transgredir. - Voltou a chamar com uma voz mais enérgica.

Kambambi num canto. Um olho mirado para dentro, a contar as palmatórias e outro olho a contar as estrelas que se afundavam nas nuvens passageiras. Vieram-lhe à mente as lágrimas de mais velhos acossados pelas pancadas dos cipaios. Surgiram-lhe também memórias sobre a ternura daqueles tios e a doçura de suas estórias, contadas enquanto trabalham e ele brincando, ao pôr do sol, com os bagos do café que se desprendem das árvores.
- Papá, deixa-me só hoje dormir com eles. O meu papá é tão forte e invencível que eles nunca me fariam mal para não serem palmatoados.
Na cela e num lwandu, com os detidos, Kambambi passou uma noite inapagável. Soube que aqueles tios eram boas pessoas que não mereciam apanhar palmatórias que tiravam lágrimas, ranho e suor. No seu caderninho de memória rígida registou: tio Januário destilou kapuka que todos gostam de beber. Tio Kabari não pagou imposto porque a lavra dele pegou fogo. Tio Jwá Kindundango discutiu com o branco que lhe aumentou dias na renda. Tio Kindala deu cabeçada no mulato que dormiu com a mulher dele. Tio Nguxi lhe apanharam a ouvir rádio proibida. Tio Wayxi lhe apanharam com arma de matar branco. Tio Kambwiji meteu kalembe no rio para apanhar peixe. Tio Nyanga mulher bebeu kandingolo e lhe deu bofa. Ele lhe meteu dente na testa da tia Hebo. Tio Mbumba-a-Lunga não aceitou vender milho dele no sô Kahungu. Tio Kituji lhe apanharam com carta que disseram é panfleto. Tio Phande-a-Umba e Ngana Zando falaram no sô 'diministrador Kisongo é nosso...
Obs: fição pura baseada em relatos sobre a infância de Eduardo Cussendala)
Texto publicado pelo Jornal Cultura, edição de 6 Julho 2022.

quarta-feira, 25 de maio de 2022

De Saulhimbo a Saurimo: Prefácio

Quão bom é ser leitor primário!

Sabe o autor por que, numa imensa floresta de árvores preciosas e frondosas, como aquelas que a Lunda tem e conserva, escolheu a mais fina e aparentemente frágil. Se calhar, a escolha seja um presente, tal como enuncia numa das páginas finais desse livro -Wakwaha cawana kexi kusopha nenyi! (Não se deve discutir o valor de algo recebido de graça!)

E mais. O autor também ensina (pg. 131) que Wazeya mwe waya nyi nguali (o humilde leva a perdiz). Por isso aceitei o desafio de percorrer as páginas deste livro e mostrar, de forma resumida e convidativa, a riqueza textual e beleza estética que o mesmo encerra.

O primeiro contacto com a capa do presente livro converteu-se num espavento. Isso mesmo. A versão inicial de título apontava para algo relacionado a “Diamante e suas consequências”.

- Quer o Dr. Domingos Kajama que eu prefacie um livro sobre diamantes, mesmo sabendo que não sou perito no assunto, embora vinculado à indústria? - Não o disse, apesar de pensado.

Perscrutei a centena e meia de páginas e fui levado, numa leitura sem paragens, até ao fim, mergulhando na imensidão da Lunda, percorrendo seus caminhos e atalhos, suas ribeiras e correntezas como as do Cassai, Tchicapa e Luachimo ou emprestando o ouvido às vozes ímpares da ngoma contadora de história e estórias.

A história geral ou total de um povo ou região é, para mim, o somatório e síntese de vários relatos de acontecimentos importantes que marcam o povo de um espaço geográfico. Uma história é (ainda para mim) um constructo (inacabado), à medida que o recurso aos distintos métodos de estudo, ciências auxiliares e métodos de (re)descoberta de verdades importantes faz da Ciência Histórica um produto sempre por concluir.

Apesar de região já bastante etnografada e historiografada, o Leste de Angola é e continuará a ser, por mais tempo ainda, um study case, à medida que os historiadores se forem servindo de documentos textuais (cartas, crônicas, ofícios, diários, relatos), vestígios arqueológicos (objectos de cerâmica, construções, estátuas), representações artísticas/pictóricas (quadros, pinturas, fotos) ou registos orais (testemunhos pessoais transmitidos oralmente), entre outros.

Um dos vários aspectos relevantes, e que você poderá conferir, é o cuidado que Domingos Kajama tem com a língua, enquanto instrumento de trabalho e de comunicação. Kajama diz “conhecer e reconhecer a norma adoptada pelo Estado angolano” mas pretendeu “optar pela representação gráfica a que as pessoas estão mais habituadas” (pg. 14). E fê-lo bem, na medida em que o leitor precisa de perceber a narrativa à primeira leitura.

Outra abordagem ousada e arejada tem a ver com a necessidade de serem valorizados e (eventualmente) repostos os topónimos originais, atendendo ao seu sentido etimológico e semântico nas línguas de que são originários. Mwangeji, Lwavur, Sa Ulhimbo e Soacamombo são exemplos do muito que você vai aprender ou se recordar ao terminar a leitura deste “De Saulhimbo a Saurimo: Contributos para a história social, cultural e política da Lunda” que traz também respostas às perguntas que você terá já várias vezes colocado ou ouvido de outrem:

- Quantas vezes ouviu falar que “o povo Lunda não gosta de trabalhar”?

- Sabe quem trabalha e sempre trabalhou na extracção manual e mecanizada de diamantes?

- Que relação há entre Saurimo e a região portuguesa de Trás-Os-Montes?

- Focando-se na luta dos contrários, já pensou nas vantagens e desvantagens da descoberta e exploração de diamantes na Lunda?

O livro que Domingos Kajama nos apresenta é uma combinação de “oratura” (fonte primária para a historiografia africana) e literatura, baseada em documentos escritos.

Em “De Saulhimbo a Saurimo: Contributos para a história social, cultural e política da Lunda”, Kajama traz-nos, para além de suas vivências de uma vida inteira na Lunda e ao serviço da Lunda, aspectos que nos levam à compreensão etnográfica, geográfica, jurídica e política da região que nos mostra. O “estatuto dos vizinhos” (pg. 50) ou as integrações e disjunções entre a Lunda e Malange é exemplo de narrativa histórico-política que vale apenas ler, conhecer e compreender.

Mas Domingos Kajama escreve mais: pregoa, neste livro, o despertar do homem do Leste angolano, cuja aculturação, subjugação psico-social e política do então colonizador adormeceu o seu “eu”. O livro em suas mãos é um despertador que o leva ao passado histórico (pré-colonial), recordando-lhe a essência angolana e africana do povo e região em causa. E Kajama diz também que “… nem tudo foi mau. A Diamang procurou dedicar a sua atenção em conhecer, divulgar e preservar os valores culturais dos povos” do Leste (pg.92).

Num exercício raro, em que se combina a ciência moderna e a secular, porém sempre actual, o autor fecha o livro com a representação literária da oralidade, trazendo adágios do Leste de Angola que encerram conselhos, e alertas de vária índole e de utilidade transversal. Mais do que esses apontamentos, o meu convite é se encante no brilho deste “De Saulhimbo a Saurimo: Contributos para a história social, cultural e política da Lunda”, e percorra o livro de capa a capa, pois como nos lembra na página 143,“Kexi kwiva nyixenyi kumona!” (quem não se documenta/aconselha limita-se a ver/acatar o que lhe acontece ou dizem).

Quem conhece Domingos Kajama encontrará ainda, neste livro, um dos traços do autor: um falar vagaroso, com pausas, e assertivo.

Aliás, em todas as páginas do “De Saulhimbo a Saurimo: Contributos para a história social, cultural e política da Lunda”, Domingos Kajama parece falar em vez de escrever, ou melhor, escreve como se estivesse a contar as suas memórias/vivências: o que ouviu, o que leu, o que viveu e o que pensa, apresentando-nos um texto escorreito e convidativo, repleto de imagens, sons e ruídos (das águas, folhas e do vento) que também nos trazem mensagens.

É um livro que nos faz viajar no espaço e no tempo, apontando-nos caminhos lestos para um reencontro com a nossa identidade...

Boa leitura!

Soberano Kanyanga, Maio 2022.

 

quinta-feira, 5 de maio de 2022

UM "CARAPAU" NA CONSOLA

Era um dia de distribuição de peixe "fresco" que, na verdade, era congelado e raro em Kalulu. O ano, que quase se perde na memória, era 1988. Para quem fosse em visita, a vila estava cheia e agitada. Para nós era apenas "dia do peixe fresco" que faria diferença no almoço e na janta durante a semana. A kizaka, a kabwenya e outros condutos vezeiros estariam, por dias, em gozo de férias, dando lugar ao peixe "cozinhado", grelhado e assado, até acabar, pois poucos tinham meios de conservação.

Calhava vez sim, meses nunca, a chegada da câmara frigoríficas com peixe congelado que era distribuído pelas delegações municipais, empresas públicas, empresas privadas reconhecidas pelo governo e destes para as secções e destas aos trabalhadores.​
O autor desta prosa vivia com um primo professor primário na escola nº 3, na Banza de Kalulu. Por isso, estando ele a ministrar aulas, orientou o "irmão", que já era conhecido dos colegas, para ir à fila e receber as unidades que lhe eram "de direito". Vivia-se ainda o tempo da igualdade entre os iguais, embora havendo já diferença entre os que se mostravam diferentes do "povo em geral".​
Quem vai hoje a Kalululo, encontra, depois da Pensão da Tia Ká uma entrada. Era um largo quintal onde estacionava o camião frigorífico em que eram retiradas as caixas de carapau congelado, distribuído às delegações municipais, administrações comunais e outros organismos públicos e privados. Recebidas as malas, encontravam-se outros espaços para o retalho equitativo pelos
trabalhadores, salvaguardo o estômago largo dos delegados, comissários, chefes de secções e outros que recebiam mais do que a maioria.
Como em todos os tempos, Kalulu já tinha os pequenos "gregos" que andavam com uns artefactos de madeira com um um pico de metal com que "pescavam" nos locais de distribuição.​ Fazia sol e um pouco de poeira. Um dos grupos que procedia a abertura das malas de peixe congelado e distribuição unitária abrigava-se no passeio, debaixo da consola do edifício que comportava a EDIL (foto), hoje Pensão e restaurante. À frente estava o PCU (Posto Comando Unificado), cujas instalações acolhem o comando municipal da polícia.​

Um rapaz desconhecido controlou a desatenção dos distribuidores e receptores de carapau e, sem ser visto, pescou com o seu artefacto um peixe, colocando-se em fuga no meio da multidão.
Um kota, daqueles reguilas que não gostava de perder nenhuma contenda, pôs-se ao encalce do rapaz, desferindo-lhe um veloz pontapé que falhou no menino e acertou no vazio. O sapato, único do dikota, que era funcionário público, voou e encontrou descanso no cimo da laje consola.​ As horas que se seguiram foram para o mwadyakime encontrar uma escada que lhe permitisse reaver o pé direito do sapato castanho.
A rapaziada "pescadora" ficou dividida entre o olho no peixe e a estiga ao kota que perdera o sapato camossim​ por causa de um carapau.​ De lá em diante, os "sapatos de recreio com duas flores", que vinham da Jugoslávia, passaram a ser chamados "carapau".

Texto publicado pelo Jornal de Angola a 14.04.2022

segunda-feira, 18 de abril de 2022

MARROCOS, O SAHARA E A UNIÃO

 

Usei o sábado, 19.03, para participar da minha primeira Assembleia Geral da União dos Escritores Angolanos (admitido a 5.03.22). Enquanto se aguardava pelo quórum, aproveitei, no espaço da União, fazer a dose vacinal de reforço, tendo me sido injectada a AstraZeneca que se comportou bem até ao meu regresso à casa, depois da Assembleia.

Momentos depois, estacionada a viatura, comecei a sentir o corpo todo a entrar em falência. Os membros apresentavam carências e dívidas na relação entre o pensamento fértil e a acção condicionada.


Tal como senti o meu corpo, apercebi-me que assim é o estado da (agora) nossa União: dívidas relativas a salários de colaboradores que chegam a dezenas de milhões de Kwanzas; dívidas com o pagamento de obrigações à segurança social; dívida com uma unidade sanitária, que leva quase década; entre carências e falências várias.
Dos "a receber", anotei: meros kilapis de escritores que levaram livros para vender e que não devolveram a parte institucional por falta de contrato e regulamento. Mais a receber não há no relatório 2019-2021, aprovado, sem voto contra, pela Assembleia.
Olhando do Largo das Escolas para dentro: uma "floresta" e uma estufa que ofuscam a designação, o brio e o brilho da mais antiga instituição associativa intelectual. Quem vê, ao passar, a marca da UEA? E aquela "lavra" de plantas ornamentais, logo à frente de tudo, sombreada por frondosas árvores que desconhecem a têmpera de um machado, catana ou serra eléctrica?!
Adentremos: bambus. Lindos bambus, demandando poda também. Nas dependências do edifício central, velhas mesas, cadeiras e armários que guardam lindas estórias, conhecimentos e reflexões sempre novas. Mas é trôpego o imobiliário, reclamando substituição.
E você que me lê, se calhar se pergunte: o que andou essa malta a fazer durante esse tempo todo? Que fez a equipa do último Secretário Geral?
Pois é. É sobre o último marido da senhora que todos têm os olhos mirados!
1- A UEA é instituição de utilidade pública, merecendo receber dotação orçamental para despesas funcionais, não destinada a pagamento de salários. Entre 2019 e 2021, não pingou na conta da União sequer um vintém de Kwanza.
2- A principal empresa angolana, que era patrocinadora de longa data e com bom caudal, deixou de apoiar, por alegadas dificuldades financeiras.
3- As medidas de prevenção e combate à covid-19 provocaram o fecho de muitas actividades e o  enxutamento das empresas, levando os arrendatários dos imóveis anexos a devolverem-nos. Hoje, demandam obras de reparação para que, com a reabertura dos negócios, se tornem atractivos a novos inquilinos.
3- Pela mesma razão acima evocada (Covid-19), a proibição das actividades sociais, culturais e lúdicas levou à paralisação do café, do njangu e outras dependências da União abertas ao arrendamento pontual.
Em suma, em menos de três anos, "perto de dez fontes de financiamento se fecharam".
Que fazer? Como salvar a União?
A mim, parece que não basta uma voz gritante. São necessárias muitas gargantas estridentes e, acima de tudo, uma combinação de cérebros pensantes que convirjam na solução do mar de dificuldades e manutenção da liberdade e coabitação dos criadores da arte literária e do pensamento evolucionista. É preciso apelar às instituições públicas, privadas e filantrópicas (fundações) a ajudarem a resgatar e preservar o legado histórico-cultural e social da União dos Escritores Angolanos. Todos (membros e sociedade) somos poucos para a empreita.
Se tal não acontecer, mais passa o tempo, mais surgirão "ideias marroquinas com o fito de abocanhar o Sahara Ocidental".
Aí será o fim!
(Membro da UEA)

Obs: Texto publicado pelo Jornal Cultura a 30.03.2022

sábado, 5 de março de 2022

MEU 1° DISCURSO NA UEA

Ilustres Confrades,

Todo o protocolo observado.

Quis o destino que recebesse o meu cartão de membro da União dos Escritores Angolanos das mãos do confrade F. Tchikondo que, na qualidade de Ministro Francisco Queiroz, me "retirou" da Lunda Sul onde trabalhava, havia dez anos.
Obrigado, Dr. Queiroz!

Feito este à parte, permitam-me agora considerar que não é fácil discursar num evento colectivo, quando se é dos últimos a tomar a palavra.
Subscrevo os confrades que me antecederam, quanto ao cumprimento dos deveres de membro desta casa.

Há muito ando ligado à União dos Escritores Angolanos, sem a ela me ter associado. O primeiro livro que li na minha vida, tirando o Manual de Leituras, foi "Mestre Tamoda e Outros Contos", de Uanhenga Xito. Tinha na capa a inscrição 2K, que me lembram ter sido uma edição da ou para a UEA. Foi em 1981. Aí começou a minha aventura pela leitura, além dos livros escolares.
A estudar em Kalulo, comprava e lia Spunik, Jeune Afrique, JDM (mesmo com meses ou anos de atraso) e outros jornais distribuídos pela EDIL.
Depois, já em Luanda, nos anos da frequência do Curso Médio de Jornalismo, passei a ir (vir) à União. No princípio, vinha trazido pela professora Gaby que fazia, na aula seguinte, perguntas sobre as makas da Maka da semana.
Quando aquilo me entrou no sangue, passei a vir sozinho, sem pressão e nem coação, mas vinha só para ouvir os mais velhos falarem sem tabus e trocarem ideias. Algumas destas ideias eu partilhava/discutia também no bairro com os amigos. Outras ficavam guardadas para a peleja de argumentos com os colegas no instituto e, mais tarde, no trabalho.

Não era para ser escritor, muito menos ser membro da UEA. Portanto, vim trazido pela curiosidade de ver, ouvir e escrevinhar sobre o ontem, o hoje e o que pode ser o amanhã parido pela imaginação.
Se me recebeis, como digno de estar no vosso seio, agradeço a honra. Não pretendo ser o mesmo. No âmbito daquilo que é a vocação da União, "independência do pensamento, investigação permanente, reflexão e apologia do debate", procurarei aprender com os mais velhos e ser melhor.
Muito obrigado!

Soberano Kanyanga, UEA, 5.3.2022

terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

NUM "MATONGÊ DAS ARÁBIAS

Que o indiano é comerciante e emigrante por excelência, você, eventualmente, já sabia. Que os "zazás" não se lhes ficam atrás na kandonga e na exportação da sua cultura alimentar para aonde quer que estejam, também é líquido. A novidade deve ser o "casamento" entre o comerciante indiano e a tia congolaise que confecciona e vende fufu, sakamadeso e makayabu.

O ponto geográfico aponta para Deira, uma zona comercial do tipo São Paulo de Luanda ou Hoji-ya-Henda dos anos 90/2000. Aqui, os indianos, paquistaneses e outros "eses" ficam quase num "chega-chega" à minha lojeca, com produtos sem preço que vendem ao critério da pressa ou desatenção do putativo cliente, sobretudo na hora da pausa para o almoço e ou reza muçulmana em que quase tudo fecha.
Uns até chegam a fechar os clientes na loja para melhor os convencer a comprar e ou desistirem de perguntar/procurar por preços mais convidativos.
Mas deixe-me narrar o "matongê".
A fome daquele dia e hora era intensa e não havia mais tempo a perder. Quando o vendedor de periféricos electrónicos nos abordou, apontámos-lhe apenas a boca e a barriga, o que o levaria a perceber a nossa angústia e desistir, temporariamente, do seu "come in, i'l give you a very good price".
- We want eat. - Falei-lhe.
O homem olhou para nossa tez amelaninada e terá também medido o "volume" da nossa fome.
- Came on. I will show you where you can find what you need", disse, num inglês de tom arranhado e de fácil compreensão para um beginner.
Atravessámos um prédio na diagonal, adentrámos outro, subimos num elevador e no terceiro piso, que se parecia a uma vivenda, adentramos um restaurante(?) sem o cuidado que os asiáticos e europeus conferem a lugares para servir comida. Parecia algures no Palanca e tinha de tudo quanto a foto mostra e muito mais: cabritê, sakamadeso, mfúmbwa, fufu, mKaybu, peit'alto, carne seca e, se calhar, até carne de "primo" e makoso!
Por mais caricato que possa parecer, enquanto levávamos ao estômago as "bolas" de fufu, embrulhadas em folhas de maniôc, o comerciante espreitava de cinco em cinco minutos, apelando que não deixássemos de passar pela sua lojeca de bujingangas e outras modernices de curta duração e serventia.
É como se pretendesse deixar clarificado: mostro-vos a comida de vossa terra mas tendes de deixar moedas no meu mealheiro!

quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

VIAGEM DE SONHO

Realizada num 15 de Setembro, já leva século, quase. Não existia ainda a EN120 ou, para ser mais preciso, sobre o largo e caudaloso Kwanza, o novo atalho, desenhado entre o Alto Dondo e o Fortim da Kibala, não possuía ainda travessia. Pretendia-se encurtar a distância entre a crescente capital e a florescente Nova Lisboa de então. Ao pôr-do-Sol emergia a capital do novo distrito, Benguela Velha.

Saudoso do meu Libolo, fiz-me à estrada, na minha Power Glic "olhos de águia". Luanda-Alto Dongo-São-Pedro foi um mimo, dançando ao som roncaresco da bichona.
Chegado ao Kwanza, enorme e apressado de uma viagem que o leva do Citembo a sul de Luanda, deparei-me com a ponte Filomeno da Câmara. Comprida e majestosa. Alta sobre um rio rápido e pedregoso. Quão engenhosos terão sido os seus obreiros!
- Ei-la! - Gritei para mim mesmo, fazendo-se eco, rio abaixo. E a ponte era longa!
Transpu-la. Era Kalulu o destino e Kabuta, do café negro, forte e quente, o próximo marco sem paragem nem narrativa. À passagem, far-se-ia noite, num atalho curvilíneo, sem alcatrão. E assim foi.
Ao raiar do sol, Kalulu à espreita. Quem não te vê?!
Como tu, apenas a capitalíssima do Distrito de Kwanza-Norte, Golungo Alto, que o elevar do comboio a longínquas terras de Njinga pretende levar ao ostracismo. Maldito comboio de 1917!
- Que não nos venham a nós dias nefastos. Soliloquiei.
- A nós basta a Filomeno da Câmara que nos leva ao Huambo e terras inimagináveis dest'Angol'amada! - Cogitei premonitório.
Cheguei a Kalulu, pois claro! Passei a Kapopa e visitei a Missão e o Musafu inteiro. Espreitei a Mbanze dos Dambos. Retornei, pela Pedra Santa, sempre. Alonguei-me no alcatrão, quase sem a cor inicial que fumegava aos olhos negros de pretos cansados de contratado. Passei pela Fortaleza e o Palácio que se esconde em sua axila abaixo. O posto administrativo do Concelho é à direita, contígua à Fazenda onde exploradores de negros depositam moedas lacrimejantes.
Reparei com minúcia as casas da vila, erguidas por brancos da metrópole ou filhos nascidos cá. Albergam hoje mestiços que se dizem donos disto e d'aquilo, da terra também, mas que se negam, na vergonha mesquinha, negros ou brancos. Preferem um termo intermédio!

Mais adiante é o Cassequel, corruptela de areal, extraído do materno Kimbundu. A Mbanze é mais adiante.

Sem mesmo pousar as malas ou limpar a poeira agarrada à Chevy como parasita faminto em hóspede corpulento, pus-me a conversas exploratórias, de bar em bar e de esquina em esquina.
- Olá, nosso patrício! Aceita café?
- É da Kabuta ou do Lwati? Eu aceito, nem que seja da Kisala!
- Tem o Kisongo ainda a Divisão de Agricultura e Florestas? Tem a Munenga o dendém e o girassol? - Café-palavra-café. Fui intercalando.
E nas conversas, a vila que é pequena, rua e meia, no dizer de nossos asoko¹ kibalenses, parecia grande. Os falares depreciativos denunciavam a existência de quatro blocos: o do Hagâcê, o do Cêcê, o dos nativos autóctones da Mbanza e o dos mulatos herdeiros. E parecia que todos os prosélitos se digladiavam, mesmo sem mando ou complacência dos patronos, tirando os mulahatu² e os descendentes de negroides que regaram cafezais com lágrimas e suor.
- Somos os mais fortes, os donos, os mais poderosos, os que mais fizeram, os que mais fazem, os que sempre aproveitaram a terra, os que dão de comer, os que mijam grosso, os que...
- E tu, forasteiro, em que ala te enquadras? - Provocou-me uma cobiçada rapariga de cor cremosa que sugava para si todos os olhos. Era assim onde passasse, embora tida como sem ala.
- Sou de cá. Dos que defendem o todo como união das partes. Sou dos que pedem alcatrão para São Pedro-Kabuta-Kalulu-Kibala. Dos que se indignam com o porvir que há-de-ser com a nova travessia no Kyamafulu! - Respondi amável. Porém, quando me preparava para acolher o abraço dela, despertei da viagem. Era sonho?!
=
¹- Plural de Kis(s)oko, homólogo.
²- Relativo a mestiços ou mulatos.
Obs: texto sujeito à revisão.