sexta-feira, 20 de novembro de 2015

UM CASAMENTO INOVADOR NA KAMUNDA

Conheceram-se no tempo da guerra fria, na República da Kamunda, quando Kapesi se dirigia ao serviço e Boana para a escola. Ao primeiro olhar, parecia visgo, os vulcões até então adormecidos derreteram montanhas, soltaram lavas e perfumes, aproximaram-se e como pessoas que se faziam ideia beijaram-se perdidamente.

- Não precisas de dizer-me agora para aonde vais. Levo-te a qualquer sítio, pois minh'alma diz que és tu o meu destino. - Atirou Kapesi, possuído de romantismo.

As palavras caiam-lhe como chuva de Abril e ela com o ouvido apurado, um planeta de receptividade e atractividade. E foram, caminho fora, falando cada um de si e do tilintar dos seus corações.

- Jovem, preciso de saber se cruzaste a minha vida para um propósito ou apenas para teres mais uma vítima? - Questionou Boana, certa vez, já amarrada às algemas românticas.

Como já disse, decorria a guerra fria daquele tempo que não era um conflito declarado entre as duas principais tribos da República da Kamunda, os vakwombwelo e os vakwonano, que até viviam em paz quase perpétua, interrompida apenas, de forma esparsa, em momentos de cruzamento matrimonial entre os vakwanano, povos do norte da Republica da Kamunda e os vakwombwelo, mais ao centro da Kamunda.

Em questões casamenteiras, os primeiros preferiam o cumprimento de suas tradições em detrimento dos procedimentos moderno-ocidentais ou, na melhor das hipóteses, combinavam a tradição bantu e as inovações alheias trazidas casa adentro pela luz da televisão. Os vakwambwelo habitavam um território plano e alto, irrigado pela natureza, onde abundava gado, cereais e batata do reino de sua Majestade D. Afonso Henriques. Eram também muito apegados à sua cultura e tradições, algo distinta no rigor da aplicação, dos seus vizinhos vakwonano. Os vakwombwelo eram povos muito viajados pelo antigo Reino da Kamunda, queridos por todos os empregadores, devido à sua entrega, elevado grau de comprometimento e alguma mansidão derivado do apego à sacra-palavra. Eram também muito escolarizados pelas missões evangélicas, fazendo-os intermédios entre o conservadorismo e o assimilacionismo a que a sua estrutura organizacional estava exposta. O conservadorismo de ambas tribos que faziam história na República fez com que o namoro de Kapesi e Boana fosse visto com algumas reticências de ambos os lados.

- Mas esse moço que até o irmão kasule já lhe coou com dois filhos, achas mesmo que será bom genro? - Perguntou certa vez o avô Menso Mankala, para acrescentar: Boana, continuadora da minha tribo, alguma vez já ouviste o acusarem de paternidade em algum lugar? Alguma vez já ouviste um zum-zum sobre amigamento dele ou coisa parecida? Desconfia, neta. Homem com estudo, casa própria e boa família, como me contas, não sobra como o jovem de que me falas. - Desconfiou prevencionista Menso Mankala a quem estava confiada a educação de Boana.

- Pai, menos dia menos noite, vou partir. A minha doença é irreversível. Cuida da sua neta até "lhe" entregar "no" marido, assim como cuidará das minhas irmãs. - As palavras de Franque ecoam ainda frescas e de forma insistente nos ouvidos de Menso Mankala, sempre que o assunto é namoro e constituição de lar por parte da neta.

- O que meu filho me pediu tem de se cumprir, custe o que custar. - Dizia para si mesmo, custando-lhe já o epiteto de "O Dificultador".

Do outro lado, as desconfianças e incertezas também faziam morada. Os vakwombwelo encaravam a questão "trabalho e sorriso" por parte de uma nora como primordiais.

- Mulher tem de rir. Tem de conversar. Nora que te mostra dentes é mais do que uma tristonha que te ofereça um banquete. - Costumava desabafar Kasova, a tia mais velha de Kapesi. E, era exactamente, esse sorriso escondido de Boana, embora não ausente, que fazia os da tribo vakwombwelo se posicionarem no NIM no dia em que o jovem reuniu a família para anunciar:

- Pais, mães, manos e manas, já passei a linha dos trinta. Já tive algumas experiências e tentativas de vos apresentar uma nora e cunhada. Acho que com a formação que consegui, casa própria no Kipedro e emprego que já  tenho, é chegada a hora de atar o nó.

Ao inaudito discurso de Kapesi seguiram-se assobios, mais dos sobrinhos e cunhados do que da velha guarda que esperava ver para comemorar.

Os "acorrentados e cercados pelas lavas do vulcão amoroso" tinham combinado abrir o jogo às famílias no mesmo dia.

Boana fez o mesmo com os avós. Menso Mankala não conteve a indignação e teve mesmo um pequeno deslize que só não desembocou em incidente diplomático-familiar porque o amor que juntava Kapesi e Boana não era amarrado com corda. Era mesmo com laço de aço.

Kasova, a tia de Kapesi, e os seus também se interrogaram vezes tantas sobre aquela escolha, exactamente na tribo que se dizia "mandavam a noiva calçar salto alto e juntavam quatro filas de grades até ao tecto da casa".

- É só mesmo já nessa tribo que pedem gerador e terreno com pedreiro chinês que encontraste mulher para casar? Por que não vais ainda lá na embala do avô Kacyopololo ver se sobrou lá uma kafeko da nossa tribo ou de tribo com costumes aparentados? - Questionou Kasova a matriarca da família Kapesi.

No dia A, ou seja, no dia da apresentação, desfilaram adágios de parte a parte.

- A nossa filha está preparada para ser boa esposa e tem de sair daqui só quando eu quiser e com pedido bantu, casamento na igreja e conservatória. - Atirou um dos tios de Boana.

- O Kapessi é um homem preparado e sabemos que cumprirá as suas obrigações para honrar a sua cultura, seus sogros e sua família. - Ripostou JoSa, cunhado mais velho que na ocasião representava o sogro.

O bairro Kipedro, onde viviam Boana e Kapesi, era uma espécie de bairro franco. Lá estavam uns poucos conservadores que se tinham rendido à vida na verticalidade e uns tantos jovens que tinham abdicado da vida quintaleira das aldeias tradicionais da Kamunda. Naquele dia da confirmação do namoro de Boana e Kapesi, Kipedro estava agitada, só faltou o quintal para juntar as famílias vakwonano e vakwombwelo que desfilavam, através de representantes legais dos dois lados, bíblias de adágios e citações.

- Vamos fazer o pedido com os requintes que quiserem mas o casamento só quando o sol mostrar os primeiros raios. - Atirou um dos primos de Kapesi que ignorava o tratamento diplomático em conversas matriciais.

- Raiar do sol? Se vosso filho tentar vai dar multa que vocês não imaginam. - Defendeu-se Menso Mancala.

Com sabedoria, a diplomacia se sobrepôs aos argumentos apenas orgulhosos e despidos de razão. A tarde terminou em festa que adivinhava outra maior no dia P, ou seja, dia do pedido.

Com uma lista recheada aos olhos dos vakwambwelo mas simplificada no dizer dos vakwanano, as partes marcaram a data para o encontro do pedido de noivado que juntaria outros rostos e outro desfilar de rosários.

- Confiamos nas vossas palavras e esperamos que a nossa tradição seja cumprida geometricamente. - Recomendou Menso Mancala à família de Kapesi, ao que JoSa respondeu apenas com um aceno de cabeça, carregando a lista que lhe pesava como pedra.

Chegados à casa, os vakwombwelo, entre a aceitação e a reclamação, começaram por esboçar o plano de resposta.

- Vamos cumprir, mas também queremos ver o sol a raiar antes de nos metermos à estrada. - Aconselhou Phande, outro dos cunhados de Kapesi, ao mesmo tempo que distribuía incumbências para aliviar o peso pecuniário que recaía sobre seu cunhado de eleição. "Eu responsabilizo-me por isso e o fulano por aquilo", continuou Phande, perante a aceitação da família centrista.

O tempo foi juiz e advogado. A lista de incumbências para o pedido tradicional estava fechada. Os fatos, as grades, os vinhos, bijuterias e outros adereços desconhecidos dos infantes desse tempo aguardavam apenas pelo dia P que coincidiria com o casamento civil. À data, o sol já raiava, mas escondido ainda. Era apenas um laranja solar no fundo do ventre. O debate, à distância, via recados levados e trazidos pelos noivos, passou a ser “casar-se-ia antes no civil e depois no tradicional” ou o inverso?

Pela primeira vez, os vakwombwelo ganharam o desafio que os levaria a esquivar possíveis multas pelo alvitre de "ter entrado pela janela".

- Quando chagarmos ao pedido, ela já será tua esposa e nenhum outro pedido de multa terá força ao pé da lei ordinária. Será essa a nossa posição e é consabido que, podíamos até ir de mãos a abanar, sempre nos receberiam e te consagrariam como genro. - O discurso de Phande teve a concordância de JoSa e demais familiares de Kapesi que se manteve obediente às instruções e pouco interventivo.

No dia P, Kapesi que vivia em Kipedro, nova cidade da capital da Kamunda, pegou na sua teó (trotinete rudimentar) e foi ao encontro dos padrinhos que se encontravam na conservatória do registo civil, onde aguardaria pela sua dama. Recebeu aplausos pela inovação e, por fim, Boana como sua prometida Eva. Fizeram juras e trocaram o primeiro beijo público e oficial.

- Juro ter-te na saúde, na doença e na dibinza por todos os dias da minha vida. - Prometeram.

Seguiu-se o preceito tradicional vakwonanwense já sem o peso simbólico doutros eventos. Aqui o ocidente se tinha antecipado, embora tudo quanto tivessem solicitado em carta estivesse literalmente satisfeito. Ao pedido tradicional, Kapesi foi ao lado da mulher, seguindo-se, num mar de alegria contagiante, a cerimónia religiosa de onde Kapesi sairia ao volante do Ferrari decorado ao engodo de Boana.

E cantava-se "kyese vo kakyese ko (alegria ou não)?

- Kyese! - Respondia-se com euforia. E fez-se nova festa!

As mesas estavam caprichosamente marcadas com nomes de aldeias e embalas vakwanano e Vakwombwelo para a alegria dos mais conservadores e petizes que aproveitaram saciar suas sedes com bebidas diversas e geografia de origem.

Fronteira, Kimbele, Damba, Negaji, Zenze, Sasa, Sanza, Kibokolu, Makela, entre outros topónimos nomeavam as mesas que acolheram a familia de Boana. Do outro lado, idosos e infantes viajaram no tempo e na geografia para relerem Kambweyo, Yeyele, Njimba Silili, Ndulu, Katrayo, Kantifla, Cingwali e outros.
E voltou a cantar-se, lado a lado, ensanju e kyese!
...

NSUSU ZAONSO MUBOTE

Na semana que se seguiu ao matrimonio os tios da nubente foram visita-la, a pedido do marido que tinha beneficiado os seus com um repasto-teste executado por Boana ainda com o casamento fresco. Tinham passado apenas 48 horas da cerimonia religiosa e copo d'água. A tradição dos vakwombwelo dita que a casada tem de fazer a sua primeira refeição para os sogros, sob supervisão atenta de uma ou duas tias do marido. Assim foi e no final a nota atribuída pelas tias-júri foi positiva ao que em vez de ser multada acabou prendada.

Kapesi fez o mesmo. Não foi à cozinha mas mandou a mulher à loja e ao mercados dos Zimbos comprar tudo quanto fosse típico e do agrado costumeiro dos sogra. Ele mesmo fez questão de apetrechar a garrafeira com as mais elogiadas adegas e destilados escoceses, não se esquecendo do malavu encomendado a um vini-extractor do Sasa. Em fogo brando, o grelhador abraçava caçadas que apimentavam conversas intercaladas entre o bom Português, apendido na escola e destilado apenas em convívios muito formais, o calão e a língua dominante entre os vakwonano de regiões rurais.
- Esse moço, estávamos só a "lhe" desconfiar pelo casamento tardio, mas parece que é boa pessoa. - Atirou Kindala, tio de Boana que representava Menso Mankala.

Choveram garfadas e estalaram copos. Jorrou uva até noite adentro, quando, a olhar para o volume abdominal de Boana, o tio confidenciou à sobrinha:
- O sobrinho é mesmo bom?
Boana viajou ao passado e lembrou-se de uma expressão ukongo que traduzia e simplificava seus sentimentos e sua análise sobre o marido que escolheu.

- Nsusu zaonso mubote (toda a galinha é boa)! - Respondeu, ganhando do tio a tradução semântica da expressão ora anunciada.
- É verdade, sobrinha. Galinha pode ser careca, sem penas, você "lhe" põe na mwamba, fica sempre bonita na boca da pessoa. Assim também  são as pessoas. Só que se beneficia ou se prejudica com essa pessoa "lhe" faz o justo juízo. Tem mbora razão sobrinha, me desculpa só. Meu neto já está a caminho, almoço com bebidas já nos deu, falta mais o quê? Não liga gente na cidade com mentalidade da selva. - Concluiu o tio já meio canecado.
- Boana deu-lhe o beijo do costume, sinal de que o tio estava já na penúltima ronda da garrafinha alcoólica, ao que reconheceu e acedeu, apelando aos convivas para o discurso de agradecimento e recomendações aos nubentes.
- Já vimos o sol raiar no crepúsculo de Boana. É sinal de que as terras são férteis e dentro em breve teremos herdeiros. Para nós, casamento é isso mesmo. Não se esqueçam de nomear os parentes. Se o fizerem lado a lado fica maia melhor. Na vida a dois não há só sorrisos. Há também tristezas. Há dias que alguém dorme cedo e finge ver bonecos com as crianças só para não se dar encontro com o outro, mas tudo termina no quarto, no leito.
Kindala discursava pedagogicamente e não procurava palavras. Parecia uma lição decorada há anos. E prosseguiu, virando-se ao sobrinho-genro:
- Sobrinho Kapesi, a mulher sempre comeu do não. Fica atento. Às vezes é a mão que lhe dói mas mostra a perna. Saiba ler na escuridão e nunca esqueças a cor da minha porta. Quero muitos netos e um chará. Isso passará por muito tempo de coabitação e equilíbrio. Cada um, à partir de hoje, começam já a conhecer o outro e buscar o meio termo. Tempo de namoro é de mentira. Até diabo vira anjo.
Kindala fez pausa no discurso que já levava tempo apesar de actual, cativante e seguido com muita atenção. Boana e Kapesi seguiam aprovando com a balançar das cabeças.
- Dizia, já para concluir, devem se conhecer de verdade. Vão entrar agora no teate de verdade sobre o marido ou a mulher que cada um escolheu. Também passamos por esses bocados e resistimos. Só uma chamada de atenção à sobrinha Boana: marido não se bate na cara. Bate-se na cama.
Dito isso, e sem deixar margem para comentários à sua expressão final, Kindala marcou o primeiro passo em direcção ao corredor. A garrafa de vinho de 14 anos para combater a pelengwenha do dia seguinte, encontrar-lhe-ia no carro.
Cá em cima, ainda no vigésimo sexto andar de un dos edifícios mais altos da nova cidade de Kipedro, os primos e cunhados fechavam conversas com o habitual e já  quase tradicional "copo da porta".
- A casa está sempre aberta. Venham ver-me e chamem-me para as vossas picadas. Na minha terra é assim: quem casa transita para o convívio e cuidados da outra família. A boana já está entregue, não é isso mor? - Concluiu Kapesi,  abraçando os cunhados Nzuzi, Nasimba e a esposa Boana que não podia estar mais contente do que estava.
Os convivas, de forma espontânea, mas coordenada entornaram goela adentro o "líquido da porta" e comemoraram:
- É isso mesmo nosso 'nhado. Amanhã vamos te arrastar à praça do Sasa para tomar malavu com carne de paca.
E desceram também carregando a encomenda do tio Kindala que se deliciava no carro com a mais nova batida de Socorro, filho querido ukwanano.

Nota> texto publicado no Semanário Angolense de 05.09.2015

terça-feira, 10 de novembro de 2015

AI WÉ?! ME TRAMANKARAM MÔS DODÓS…


Embora não se saiba quando, precisamente, aconteceu essa estória do tramankanso dos dodós, o “fala que fala” apimentado à moda angolense já leva tempo. Ano e meio, mais ou menos.
A cena deu-se entre dois homens e duas senhoras que desenvolveram uma amizade quase parental. Os homens tratam-se por pai e filho, mesmo vivendo, o mais velho, kota Agê, na Tuga e o mais novo, ndenge Dimuka, originário e residente nas terras de Ngola, junto ao maior ribeiro que empresta o nome ao papel moeda. As senhoras, uma, a Kaxinda, diz-se filha de Dimuka, embora se tenham conhecido virtualmente e nunca se tenham avistado "caralmente" como diz o pretenso mas assumido pai. A outra, Dina, também conhecida como “tia dos dodós”, é tuguesa que faz vai e vem, levando umas imbambas trocadas entre o também tuguês Agê, o filho Dimuka e a neta Kaxinda.
Certo dia, Dimuka precisou de livros e pediu-os ao pai que os custeou e os enviou por correio da Tuga às terras de Ngola. Embora sobrevivendo da reforma, Agê, na sua mania da geração dos valores e desprimor às moedas, acabaria por relutar em passar a factura ao filho.
- Olha filho, já tens os dois volumes no correio. Pena é que o custo da transportação é tão alto quanto o da aquisição, mas vais gostar. _ Agê  recomendou a atenção de Dimuka ao post box nos dias subsequentes.
- E quanto te devo, ó pai? É preciso que as contas batam certo para que me possas voltar a ajudar, apelou o filho mesmo sabendo que só muito dificilmente receberia a factura com todos os cêntimos.
- Ó filho, não te preocupes com o dinheiro. Já tive algum e fugiu todo. Os meus amigos e os filhos, biológicos e afectivos, é que me dão a graça de viver, mesmo sem as coroas doutro tempo. _ Escapou Agê.
Dimuka, sabendo do custo dos dois livros, multiplicou-o por dois e cuidou de arranjar os dodós equivalentes na moeda tuguesa. E quase conseguia fazer a operação de envio digital se não fosse o aperto que os banqueiros afinaram às remessas para fora. A crise do ouro negro tinha transformado os dodós em moeda rara quer nas terras de Ngola quer nas de Camões e arredores. Dimuka teve de procurar por Dina dos dodós, que estava de malas aviadas para a antiga metrópole, a fim de levar as apetecíveis verdinhas embrulhadas num lencito de seda perfumado a preceito e as entregar ao seu benquisto pai.
- Coisa que vai à estranja tem de chegar bem cheirosinha. _ Disse para si mesmo Dimuka, antes de entregar a encomenda.
- Podes confiar, Sô Tor., Tão logo baixe o pé no Figo Maduro (nome aeroporto) eu ligo ao teu papai a informar e a combinar o encontro. _ Disse a mulher banhada de satisfação.
Trocaram cortesia e sorrisos. Tudo caminhava a preceito. No dia seguinte, Dimuka recebeu uma chamada a confirmar que Dina tinha chegado bem e falado já com Agê. Dimuka esfregou as mãos de contente. Mais ainda quando recebeu os agradecimentos do pai, embora tivesse terminado com a sua célebre frase, já canção, "o dinheiro faz pouco na minha vida". Tanto de um lado quanto do outro reinou a sensação de confiança.
- O infante é de palavra. Meninos assim é que dava para adotar na juventude. _ Terá desabafado Agê ao desenrolar o lencito de seda carregando umas folhinhas que valem ouro.
- Esse kota é mesmo um tuga mwangolizado. Quem me dera que tivesse ficado connosco quando se deram as vundas do tunda mindele? _ Desabafou Dimuka que me contou presencialmente a sua versao dos factos.
Mas não era tudo. Kaxinda, candidata a escritora, tinha contas por pagar numa editora livreira da estranja e debatia-se com a carência de folhas verdes decoradas com bandeira do tio Sam. Já o tinha comunicado ao pai adoptivo Dimuka e ao vovô Agê que prometeram "ajudar na medida do possível", mas num tempo que não se encurtava.
Numa altura em que Kaxinda desesperava, Agê deu ar de sua Graça. Ligou à Dina pedindo-lhe se podia levar os dodós de volta às terras de Ngola e, desta vez, os entregar à Kaxinda. Conseguido o agrément, telefonou à neta:
- Ove lá, minha neta, teu pai pagou-me os livros mas vou te enviar o dinheiro para ajudar no teu livro. São três folhinhas que valem pouco mas que ja dão um pequeno impulso. Guarda sigilo e não lhe digas nada, está bem? Boa sorte. Uma dona, a Dina, mulher linda séria e inteligente, vai te contactar quando chegar por aí. _ Segredou Agê, ao que mantiveram, neta e avô, a conversa longe de Dimuka que continuou a sua vida e a  sua interação ora com o pai na estranja ora com a filha incógnita que reside a 1200km de distância.
Terminada a transumância invernal, Dina regressou ao antigo ultramar onde decidiu juntar patacas, sendo surpreendida, ao que se conta, com a subida vertiginosa do custo de vida e cada vez mais difícil acesso às verdinhas.
- Estou nas margens do Kwanza onde é esse rio quem todas as contas paga, vou levar à neta do Agê alguns litros dessa água milagrosa e fico com as folhas verdes, verdinhas como o café ribeirinho do Kwanza. _ Filosofou Dina dos dodós.
Na manhã do dia seguinte, Kaxinda, que já sonhara com os dodós vindos da Tuga, receberia os litros do Kwanza.
- Ei-los, filha. Foi teu avô q'os mandou p’ros netos, os teus filhos. _ Atirou Dina esboçando um sorriso matreiro.
- Kwaaanzas, mô Deuju?! E os môs dodós que o vovô me segredou? Ai wé, Ngana Nzambi, me tramankaram mbora môs dodós do livro na Tuga...
E foi esse o grito que se ouviu de Kabinda ao Kunene e da Matamba a Galiza. Já correu muito tempo mas o “conta que conta” vai avivando a cena e com novos detalhes e mais ajindungados.
NB: publicado pelo Semanário Angolense a 09.05.2015.

domingo, 1 de novembro de 2015

O FEIJÃO “ENXOTA CLIENTE”



Já tinha ouvido falar e visto nos seus tempos de criança o “peixe catana” ou “cikolamwenho”. Tão duro, tão duro que precisava de uma afiadíssima catana ou machado para o desfazer em bocados, nem sempre ao gosto do retalhista/cozinheiro. Era o peixe que, em Kalulu, nos anos oitenta do século XX, era vendido nas empresas cafeícolas Libolo I, II e Libolo III. Tempos depois, com a fome que se seguiu aos dias do conflito pós-eleitoral de 1992, surgiram dois tipos de feijão. Um era o “espera cunhado” e outro o ”afugenta sogra”. O primeiro era de fácil cozedura, não demorando mais do que quarenta e cinco minutos. O segundo era de uma dureza nunca vista e que, naqueles tempos de fome e penúria, muito servia a algumas noras mal-educadas para afugentar as sogras.

- Mamã almoço hoje é feijão. Só que está já há duas horas e meia e não está a cozer. O gás, essa é segunda botija, e nada! - Diziam.

Quando pensava ter já ouvido e assistido a muita coisa, Kitomangombe foi surpreendido com o feijão “afugenta cliente”. Isso mesmo, “Afugenta cliente”. Não é beff.

Com antecipação de 24 horas e reconfirmação de 4 horas, encomendou o almoço. Comida em instância turística para o “magnata”, a digníssima e dois herdeiros do “trono sobático”. Gentil, como sempre, a gestora, parecia encaminhar o assunto em boa praia. Trocaram mensagens com as devidas cordialidades e formalidades. Drº Kitomangombe por lá, seguido de um agradecimento, e Drª Beltrana, por cá, seguido igualmente de agradecimento da praxe.

- Papá, onde é hoje o almoço? - Perguntou Renato já acossado pela fome, ainda a meio do culto Metodista.

- Filho, ainda é cedo. Respondeu-lhe com um vinco no rosto, dada a sua forma desconcertada de estar perante um local de adoração.

-Mamã, o papá não está a falar onde vamos comer. – Resmungou o rapaz, em busca de auxílio.

- Eu já disse que vamos almoçar num lugar turístico. Por agora devem prestar atenção ao culto e depois partimos para o almoço. – Emendou Kitomangombe, olhando para o filho no colo da mãe.

- Papá! Vamos comer “papuço”? - Voltou a questionar, já mais alegre pela resposta recebida do progenitor.

- Sim. Vamos comer kakusu, se te portares bem.

O sol corria para o meio centro. As chapas que cobriam o local de cultos pareciam gritar. Estavam sendo esticadas pela temperatura que atingia o seu ponto mais alto. No estômago, as lombrigas brigavam descontentes e tudo fazia adivinhar outras perguntas sobre o local e a hora do almoço.

- Mor, já confirmaste o almoço? - Desta vez foi a esposa preocupada com a fome dos filhos (as mulheres têm essa “mania” de pressentir a fome dos filhos) ou mesmo reclamando o seu quinhão.

- Sim, já enviei mensagem a confirmar a nossa ida ao local e obtive a resposta, garantindo que tudo estaria a ser preparado e pronto ao meio dia e trinta minutos.

Não tardou, o coro principal da igreja entoou o hino derradeiro: “teu culto finda aqui. Despede-nos Senhor. Dirija-nos até ao fim. Por teu excelso amor”! – Entoaram sorridentes os jovens de becas esverdeadas.

Fez-se fila para saudar o pastor, o liturgista e os coristas perfilados à saída do templo físico. Renato, o filho, corria de lado a outro. Se tinha apossado da igreja, depois de duas horas e meia de “prisão” no seu imaginário traquina. Os apressados dirigiram-se aos veículos e motociclos e foram “rezar noutras freguesias”. Kitomangombe, a mulher e os dois filhos seguiram-lhes o exemplo e procuraram por um ATM que encontraram sem muita demora. – - Tem dinheiro! – Disse festivo aos que se encontravam na viatura encostada à beira da estrada.

Fizeram-se a caminho do Centro Turístico Kulikwasa que distava cerca de treze quilómetros da urbe.

- Papá olha praia! – Gritaram as crianças.

- Mamã, não trouxeste o meu fato-de-banho.- Reclamou a menina que obteve a pronta resposta da progenitora.

- Teu papá não nos avisou que viríamos aqui. Fica para a próxima filha. Também o clima está a ameaçar chuva. – Rematou para consolar a filha que trançava a boneca.

- Não é praia, filhos. É lagoa natural. Aí não se nada. É perigoso.- Emendou Kitomangombe que, até aí, se limitara a ouvir a conversa entre a mãe e os filhos.

- Papá, e só vamos comer mais nada?- Insistiu a menina.

- Sim, Mara. Vamos comer e ir descansar em casa. Amanhã é dia de trabalho.  

Estacionada a viatura, a família Kitomangombe passou pela cozinha que estava entregue às moscas.

- Nem uma brasa acesa. - Observou o patriarca que começou a desconfiar das palavras amorosas da gestora que lhe garantira, de pés quase juntos, “encontrarás tudo pronto”.

-Será que já está mesmo pronto e só a espera que chegássemos?- Indagou desat vez em voz alta á mulher, por instantes, se tinha distraído com a exuberância da lagoa.

- Boa tarde, jovens, podem mostrar-me o “gerente”?- Indagou Kitomangombe.

- Os três moços, que jogavam à dama, entreolharam-se e apontaram-lhe o caminho da sala onde estaria o responsável.

- Boa tarde, jovem. É o gerente?

- Sim. Sou eu mesmo. – Respondeu meio tímido o jovem que aparentava 22 anos e mal trajado para um serviço de atendimento a clientes.

- A Drª Beltrana falou-lhe sobre quatro pessoas que viriam cá almoçar? O prato é kakusu – Lembrou-lhe.

- Sim, boa tarde, mano. Ela falou. Podem dirigir-se à mesa. Querem ficar na sala ou junto à lagoa? Também há sombra e cadeiras.- Aconselhou o atendedor.

Kitomangombe, aconselhado pela filha, escolheu o espaço aberto, com uma visão mais ampla para a nascente natural barrada pela acção humana e que resulta numa majestosa lagoa com margem betonada num dos lados. Os filhos andavam de um lado ao outro como felino que demarca o seu espaço vital.

- Papá! Quero andar de canoa. – Interrompeu Renato.

Antes mesmo que se preparasse para ensaiar a resposta negativa, Renato voltou a disparar: - papá! Quero nadar nessa piscina bem grande.

As águas estavam proibidas a mergulho por causa da lama e de uns bichos que se pareciam a alforrecas. E, não tardou a explicação de Mara, que já sabia ler, ao irmão que via no papá um empecilho à sua vontade de mergulho.

- Mano, o papá tem razão. Aí está escrito: “proibido tomar banho nesta lagoa”. É por isso que o papá não nos quer deixar tomar banho nessa. – Explicou, recebendo aprovação dos pais que se rejubilavam a cada vez que lesse um aviso ou outdoor e explicasse ao irmão mais novo.

Sem nado, as atenções voltaram à comida que demorava. A mulher, já impaciente, estava de pé, pronta a ir tirar esclarecimentos, quando o “gerente” se apresentou para o que chamou de uma pequena desculpa.

- Já está tudo pronto. Só falta o feijão!

- Só falta o feijão? Preferia que faltasse o kakusu, que pode ser pescado por mim, do que o feijão. Queres que aguarde aqui três horas a espera do feijão? – Questionou Kitomangimbe, já com um vinco visível no rosto.

- Não chefe. Já está a ferver, mas vai levar ainda algum tempo. É só mesmo o feijão que está a faltar.- Justificou-se, esfarrapado, o rapaz.

- Traz já o que tens e o feijão vem mais tarde. - Ordenou a Senhora Kitomangombe, algo aborrecida.

Quatro peixes enxutos, bocadinho de mandioca e batata-doce, um molheco de tomate e cebola picada e nada mais. Os peixes pareciam ter sido conservados em geleira, depois de grelhados, e aquecidos. Estavam secos e sem temperatura interior. O resto foram só reclamações.

O feijão, ainda fervente, serviu mesmo o seu papel de afugentar os clientes que reclamavam de mesa em mesa.

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

O COMISSÁRIO “PAPA-GALINHAS


Nasceu num sábado distante na memória, numa aldeia enfiada na sombra da cordilheira que separa a região plana e majestosamente servida de florestas entrecortadas por rios serpenteantes e a outra, a plana e alta, prenhe de fontes d’água e onde a relva faz festa entre árvores e arbustos preguiçosos. O dia de semana serviu-lhe de nome de baptismo. Como havia tantos outros Sabalo, acrescentaram-lhe o apelido Soba, dado o facto de ser filho de soba e passou a ser conhecido por Sabalo-a-Soba (Sabalo, o filho do soba).

Kambondondo, seu pai, era numa aldeia ribeirinha, ali nas encostas do Longa, uma das cinco pessoas mais influentes, de onde despontavam, para além do regedor e soba, o soba o catequista, o comerciante e o “sô kifiormeiro”. Professor ainda não havia e os que podiam soletrar uma convocatória do chefe de posto do poder colonial contavam-se entre dezenas de aldeias aos dedos de uma das mãos.

 Kambondondo já tinha contactado o catequista para alfabetiza-lo a fim de poder descodificar as convocatórias do Soba e apresentar-se ao posto da data e hora certas ou mesmo se escapulir quando a convocatória fosse simplesmente para as desprezíveis palmatoadas desferidas impiedosamente pelos serventes cipaios.

- Nessa terra de ignorantes tenho de fazer da minha prole a diferença. O Kakonda tem de ir estudar no Posto e ficar professor. O Ngunza tem de seguir profissão de “karfaiate” e o Sabalo, quando idade chegar, vai também no posto aprender com os irmãos que estão a subir na escola. – Confidenciou kambondondo certa vez à mulher Nzumba Kanzenza.

E assim procedeu. Kakonda segui primeiro, já na casa dos treze anos. O irmão do pai que oferecia força na roça do alemão de origem judia recebeu-o como filho e com ele ficou até completar a quarta classe e o curso de professor de posto. Kakonda voltaria à aldeia natal apenas para se casar e fundar a primeira escola de Kuteka.

Seguiu-se Ngunza. Esse foi para a grande cidade aprender a juntar e descodificar letras e alfaiataria que se tornara profissão de eleição no tempo das camisas cintadas e calças boca-de-sino.

Mais dado ao segundo oficio do que ao primeiro, Ngunza se governou até aos dias da tropa obrigatória instituídos no pós-revolução. Regressou à aldeia de mãos preenchidas pela mulher, uma jovem ambaquistas que transbordava beleza, e dois filhos. Ainda foi a tempo de fechar umas classes e cumprir o sonho do pai “ser professor” também.

Chegou a vez de Sabalo. A idade escolar coincidiu com os dias da revolução. O horizonte começava a abrir-se. Kuteka começou a encolher, ante a migração para as grandes cidades que ofereciam empregos e aprendizagem de profissões. Estava na moda “ir à capital trabalhar para juntar a cama, a bicicleta, a louça, o rádio e a roupa para os dias de noivado”. Os primeiros regressados da capital eram donos de estórias e histórias inauditas e carregadas de curiosidades. Todos os jovens daquele tempo pretendiam conhecer a capital e lá se “empregarem” em casa de gente da baixa onde pudesse aprender a ler e escrever com os pioneiros de casa e amealhar uns tostões para a roupa, o rádio, os talheres, e o vestuário que diferencia na bwala o morador permanente e o regressado da cidade. Sabalo ainda sem idade para trabalho, foi substituir o irmão Kakonda na casa do tio Kapitia e lá ficou até completar a quarta classe. Era já tempo da “ditadura do proletariado” e o diabólico chefe de posto tinha sido substituído pelo comissário comunal. Os serventes cipaios, agora em desgraça e alguns a pagar pelos males que infringiram a seus irmãos de pele, enfrentavam discriminação ou se refugiavam em áreas longínquas onde o eco de suas acções tenebrosas no tempo doutra senhora não tinha chegado. Os ce-pe-pe-as eram agora os auxiliares do comissário na manutenção da ordem e caça aos contra-revolucionários. Os o-de-pés e be-pe-vês, diferentes dos cipaios, fiscalizavam nas aldeias e informavam aos ce-pe-pe-as quando não fossem os próprios a cuidar da manutenção da nova ordem instituída.

Sabalo foi crescendo em paralelo com o poder do comissário que não era como o chefe de posto que mandava capturar à força da caçadeira trabalhadores para a construção das rodovias, mas era em quem repousava a autoridade do Estado. O comissário era um mwata. Pessoa de muito respeito, na comunidade e que tinha acima dele outros dois comissários, antes do Ministro: o comissário municipal e o comissário provincial.

- Sabalo, agora que o kaputo já foi na sua terra, estuda para chegar também na categoria de comissário. Fica na organização e se entrega no estudo para ajudar os teus irmãos da aldeia. - Orientou Kambondondo já na curva da vida.

Sabalo completou a quarta na comuna. Foi ao município e fez a oitava. Os confrontos que se seguiram aos desentendimentos do Alvor fizeram-no seguir à capital. Antes passou pelo “brigadismo professoral” e foi destacado na Comandante Dangereux. Seguiu à capital onde para esquivar a “vida kwemba” se alistou nas ce-pe-pe-as que o enviaram para fora. Quando os ventos do Lesta derrubaram os muros foi devolvido à terra e cá à profissão o estudo. Foi subindo. De grau a degrau como a galinha enche o papo grão a grão até chegar a subcomissário.

Passava uma trintena de anos que o Kuteka não se lembrava dele. Sabia-se ainda apenas que era homem grande em idade, corpulência e estudos.

- Eh, o mano Sabalo agora é homem grande. Pessoas que se vergam quando lhe cumprimentam são chefes do governo na capital. - Comentavam os mais iluminados de Kuteka.

A sua fama já corria toda a savana e o planalto. Os mais novos queriam conhecê-lo e os mais velhos revê-lo. Sua ida à terra do cordão umbilical tardava. Todas as cartas que recebia apontavam a saudade do seu povo: contemporâneos e conterrâneos que se tinham preparado para recebê-lo como os súbditos da idade clássica recebiam seus imperadores, mas a visita de Sabalo tardava. Falhava por falta de tempo. Ora por missões de serviço que se sobrepunham às suas promessas, ora por razões climatéricas. A picada que corta aquela serra montanhosa só permite circulação até de um jeep em tempo seco.

Correram ansiedades e promessas durante cinco anos, até que mãe de Sabalo adoeceu. A questão era emergencial. Levar a mãe para um hospital de referência era uma obrigação. Já tinha construído na capital uma casa para a progenitora, mas ela se recusara redondamente a deixar o seu kikelé, apetecível peixe do Longa, e suas gentes que a tinham como matriarca da aldeia.

Sabalo fez-se à estrada. Onde terminou o asfalto, fez-se à picada. Para trás deixou a comodidade da cidade, os rios caudalosos em tempo chuvoso, as montanhas cobertas de neve madrugadora, os zigue-zagues da estrada escorregadia e chegou ao Kuteka. Fez-se festa em casa, mesmo com a mae enferma. A alegria do povo era tanta enão se pôde proibir a festa espontânea que assinalava o reencontro com o “homem grande” nascido na aldeia de Kuteka.

- Mano Sabalo, desculpa, kota Naldo, assim agora o mano lá no serviço é quê? – Indagou Kaphele, jovem iluminado para os limites académicos da aldeia.

- Sou Comissário. - Respondeu.

- Comissário? Só comissário, tipo o chefe “papa-galinhas”?

- Sim, sou comissário da polícia nacional. Mas explica-me ainda isso de “chefe papa-galinhas”.- Solicitou o polícia.

Sentiu-se um calar que levava quase desolação dos jovens. Sabalo não percebeu e insistiu na pergunta: “vai jovem, explica-me por favor, também quero aprender convosco”. Toda a volúpia inicial ase tinha evaporado. “Come galinhas ou papa-galinhas” era o epíteto atribuído ao comissário comunal, cuja regalia não passava de oferta de cabritos e galinhas quando visitasse as aldeias. A frase “Sou comissário” levou-os a se lembrarem das visitas do carente comissário comunal que mais não tinha senão galinhas no seu quintal.

 - Sim Kaphele, sou comissário da polícia nacional. Um grau que se equipara ao general de duas estrelas e café no ombro. – Voltou a explicou o para-militar, desta vez mais elucidativo.

- Ah, assim é que está bem. Afinal, o nosso mano não é “papa- galinhas”, é general da cê-pê-pê-â. Manda em todo o país e está acima dos dois comissários da comuna e do município. - Rematou convencido Kaphele que, de imediato, ordenou mais lenha na fogueira e força nos batuques.
E a festa prosseguiu noite adentro.

Obs: texto publicado pelo Semanário Angolense, 31.01.2015.  

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

A CAPITAL ESCOLHIDA POR NGANA NGUXI

Nunca entendi por que razão Agostinho Neto escolhera Lucapa como então "futura" capital da novel província criada em 1978 e por que a nova centralidade foi erguida no Dundo, mais distante de Luanda, do que Lucapa. Nem cheguei a descobri-lo nessa primeira entrada na "penúltima cidade do nordeste". Apenas pude contemplar a exuberância da planura do espaço que "mano António" quis como capital da "Lunda wa kusangu". Um espaço que se estende de norte a sul e do leste a oeste afundando-se em ribeiros que tanto supririam a cidade de água potável, como conduziriam as descargas pluviais aos afluentes do Nzadi até chegarem ao grande "kalunga lwiji".

- Bom dia, mano. A viagem está a correr bem? - Interpelou o polícia de viação e trânsito ladeado por colegas da ordem pública e dos Serviços de Migração e Estrangeiros.

- Bom dia chefia. A viagem corre sem sobressaltos e o asfalto, tirando o troço do Luó, corresponde aos anseios do automobilista.  -Respondi-lhe com atenção, mas ele se dirige ao lado oposto e coloca as mesmas perguntas aos meus dois passageiros.

- O mano não abre a boca? Questionou o policia ao meu acompanhante que ocupava o assento traseiro.

Lembrei-me que era um teste para se certificar se éramos nacionais ou não, sem que fosse necessária a apresentação dos nossos bilhetes de identidade. Provoquei uns gracejos e os meus dois passageiros abriram as bocas, ensaiando um português sem sotaque afrancesado.

- Podem seguir. Boa viagem. -  Ordenou o polícia, três riscos em cada ombro, ao que obedeci.

Minutos depois atingiamos Lucapa. A presença de motorizadas em serviço de táxi e um prédio alto, ainda em construção, indicia, a existência de uma cidade lá adiante. Um cidadão, nos seus 30 anos faz da estrada seu pousio e enfrenta os mototaxiastas e automobilistas. Afouxei a marcha. Buzinei. Mas ele sempre no mesmo lugar. Nem pra frente nem pra trás. Contornei-o e imobilizei a viatura mais adiante para perguntar aos que faziam o seu “kadienge” junto à estrada se se tratava de um demente ou de alguém doente a precisar de ajuda.

- Mano, é das pessoas que ficam a procura de azar na estrada para dificultar a vida dos outros.- Respondeu-me a Dona Upite. Assim, mesmo, se o mano lhe batesse só um kabucado, as famílias dele viriam para receber-lhe o carro ou pedir multa para lhe tratar. O mano fez mbora bem de lhe esquivar. – Acrescentou a Senhora que, ao que soube, não é daquelas paragens, estando aí apenas em negócios e tendo, ela mesmo, enfrentado semelhantes provocações que resultaram em prejuízos para a sua conta.

Segui a marcha, sem saber onde começava e terminava a urbe. Era andar apenas para explorar o que podia ou não encontrar mais adiante.

Antes de atingir a urbe erguida pela finada Diamang, três sucatas de pássaros aéreos atraem a nossa atenção.

- É o aeroporto. Viste a aerogare? Se parece a uma garagem de fazenda abandonada embora! – Exclamou o terceiro passageiro que não quis ser citado na crónica. Na verdade, o que diferia uma fazenda abandonada, daquelas que abundavam o nosso país no tempo da guerra, era a avioneta que emprestava a sua brancura à pista de terra batida. Mais adiante, em direcção à urbe, um emaranhado de cabos entrelaçados perigosamente entre postes metálicos desviam o olhar do visitante.

- Como estás, jovem? Perguntou Nelembe, o meu acompanhante, a um cambiador de moeda e, ao que nos apercebemos, também comprador de brilhantes.

- Boa tarde môs kotas. É para cambiar ou brilhar? - Respondeu solícito.

- É apenas para saber se esses cabos são de telefones ou energia. Já houve um debate entre nós, no carro: um acha que, pela quantidade e entrelaçamento, só pode ser de telefones fixos que transportam uma quantidade ínfima de energia eléctrica. O meu colega, que está no banco da trás, entende que são mesmo de energia eléctrica. Podes nos dizer o que é essa “engenharia”? – Explicou-se o Engº Nelembe, procurando obter a confirmação.

- É energia da dona Teresa. Esses fios, o interlocutor apontava para o lado direito da via que tinha postes e linhas de transporte mais organizados, são da Ene mas ainda não dão luz. - Explicou o jovem. A dona Teresa, segundo ainda o interlocutor "é uma mboa visionaria. Uma empresária que sabendo das dificuldades energéticas da cidade montou um gerador potente e vende energia aos moradores. Para evitar que haja ligações "gatosas" todos os cabos partem directamente da central ao domicílio.

Engatei a mudança e prosseguimos. Apenas em viagem exploratória. Um andar sem rumo pois não conhecíamos a urbe. Queríamos apenas saber o que estava adiante. O "largo dos comícios" que dá vida a Avenida 11 de Novembro foi outro ponto de paragem para as fotos de lembrança. As cores da tribuna e do monumento, no meio do jardim, remetem-nos à bandeira nacional. As casas da vila, que devia já ter sido elevada à categoria de cidade, se caputo atrasasse o regresso à metrópole, têm jardins podados e muros baixos, reclamando apenas algum cimento para a correcção das fissuras e corrosões e alguma tinta para restituir a beleza roubada pelo tempo e pelos farfalhos do vento sem barreira às paredes septuagenárias.

As ruas da vila original são bem arrumadas e  já contam com "semaforização", relegando para planos secundários algumas cidades, capitais de províncias, que ainda sonham com um ordenamento virtual do tráfego automóvel. Quem também não se esqueceu de aplicar suas "impressões digitais" à vila de Lucapa é o grupo que constrói os hotéis cor-de-rosa. O prédio mais alto da região e que anuncia a existência de uma cidade naquela paisagem verdejante tem a cor de camarão.

De novo no controlo da polícia, as mesmas perguntas:

- Aonde vão agora?

- Vou levar os camaradas ao Dundo. São novos na região. – Respondi, desta vez acompanhado pelos meus passageiros.

- Gostaram de Lucapa? – Voltou a inquirir o agente.

Sim. Eu, particularmente, gostei. Mas voltarei, um dia, a Lucapa, com mais vagar, para explorar melhor a sede municipal que tem o maior número de agências bancárias e cambiadores de dólares e brilhantes. Procurarei com outros dados para encontrar os caminhos que me mostrem por que o primeiro Presidente de Angola a tinha eleito como o ponto de partida daquilo que viria a ser a capital da Lunda Norte. – Expliquei ao agente que começava a demonstrar maior empatia e engodo para a conversa.

- Sim, meu camarada, vejo que é um camarada. É uma pena que o sonho não tenha passado do sono! – Desabafou o polícia em tom malicioso.

Já a sair, lancei uma pergunta que já foi “palavra de ordem” nos tempos mais apertados da busca desenfreada por kamanga e por dinheiro “fácil” acompanhado de muitas atrocidades:

- Ainda se “amarra" com ou sem razão?!

- Isso já faz parte do passado, meu camarada!

Nota: texto publicado pelo Semanário Angolense na sua edição de 05 de Junho de 2015.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

DOEI MEU CÉREBRO À ARTE

ASSIM PENSEI
"Tudo o que se pareça à arte, mas domesticado pela ideologia
reinante ou emergente, não é arte.
Mesmo sabendo que a rua e a indigência são os lugares mais à
vista de muitos artistas, decidi doar o meu cérebro ao serviço da arte literária".
(Soberano Canhanga)

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

À CONVERSA COM A MARIA


Decididamente. Lugar de idoso não é no Beiral. No campo fica melhor. Numa fazenda, quinta ou lavra, cuidando de plantas, gansos, patos, galinhas, etc.; transformando alevinos em gostosos "ikusu" ou dando a aprazível companhia de bovídeos, caprinos e ovinos aos pastos que abundam nas anharas planálticas; fazendo os ngulu grunhir e os cavalos relincharem ao toque do pastor-ganadeiro.

Provei e comprovei. Cada volta que se dá no canteiro de ananaseiros, laranjeiras, pereiras ou laranjeiras; cada cacho de banana que carrega, cada abacate que se colhe é mais um mês de vida para um idoso.

Longe dessa vitalidade estão aqueles que, depois de aposentados do serviço decidiram-se em "matar kasumuna" na cidade, deixando os pés ociosos acumularem reumatismos e outras doenças derivadas do nada fazer.

- Acordar, comer e dormir é doença. Confidenciou-me um idoso na casa dos oitenta, mas respirando ainda vida abundante que retira na kizaca, galinha da capoeira e fruta que transita da árvore á boca.

Decididamente, um jovem, ainda que urbano, devia pensar em plantar uma árvore para que de sua sombra desfrute a vida senil.

Provei e comprovei isso em Yeyele, um campo agrícola de Sabino Salongue e Argentina Ernesto, casados há 47 anos, ambos enfermeiros aposentados, vivendo no Cuito, mas dando emprego a mais de dez famílias em Yeyele onde fazem os seus vitais "matutinos" agrícolas.

Simpáticos, alegres, sempre bem-educados, os trabalhadores da fazenda recebem com canções e danças os seus visitantes.

- Vakombe, kalé, vakale veya! (os visitantes chegaram!)

- Coros afinados, harmoniosos, desafiando muitos que se fazem ao microfone para tostões, cantam incansavelmente, fazendo o visitante sentir-se um Soma.

Antes da partida, o visitante que ganhou um boi, na hora transformado em vaca, anuncia, não em umbundu que todos cantam, mas em ucokwe:

- Nguna sakwila cinji. Ciseke cinji ngunevu (Estou muito agradecido. É imensa a alegria que sinto). - Soltam-se palmas e assobios. 

Uma senhora que fala ngangela, língua aparentada ao ucokwe traduz para umbundo. Soltam-se novas e estridentes rajadas de palmas e assobios. Ouvem-se novos cânticos, profanos, políticos e religiosos. Faz-se festa.

O visitante vê-se banhado em lágrimas de contente. Recepção única, inédita. Idêntica nunca teve. Emocionado, alegre, anuncia à jovem que trabalha em casa dos sogros-patrões:

- Tens aqui dinheiro para ti, para as tuas gasosas, e outros angolares para a família da fazenda. No fim da jornada, faz a distribuição: Gasosa para aqueles que álcool só usam na ferida, vinho e aguardente para quem tem as entranhas ensanguentadas.

A ngoma junta-se à roda dos dançantes.

- Etali ombebwa yeya. Kapuli vali uyaki (hoje vivemos tempos de paz, não há mais guerra que nos impeça de festejar). – Atirou o gerente que também rege a festa.

Tocou o apito. É hora de partida. O relógio aponta seis e meia da tarde. A circunferência celeste apresenta-se azulada e com a lua à mostra. O terreiro sempre povoado. Nunca esteve vazio desde que Maria, que ia a frente de branquinha, cruzou aquele espaço. Assim foi durante a tarde toda, desde o meio-dia. Cantavam e dançavam com pequenos intervalos para amamentar os filhos ou colher alguma erva para a janta. A carne já estava garantida. Era bovina e fresquinha. Os homens suavam com as mãos ensaguentadas e estômagos cheios de esperança, adivinhando-se boas e longas garfadas. As línguas ensaiavam as pupilas gustativas para o repasto da noite. Até a cadela da fazenda parecia felicíssima.

Albertina, a moça que vive na cidade com os patrões, distribuiu walende. Conhece os acampados nominalmente. Uns já enfrascados e outros ainda com o "produto" na mão, de novo toca a ngoma e soltam-se as vozes, cada vez mais afinadas.

- Álcool é remédio contra o frio, isolamento e até sofrimento (?) – Perguntei a mim mesmo, sem que alguém me fornecesse a fórmula. Mas eles não sofrem. Eles trabalham e ganham. E são felizes no seu mundo.

As carrinhas, Maria e Branquinha, prenhes de carne bovina, bananas, ananases, laranjas, milho e outras oferendas partem carregadas a gemer. Desta vez, Maria atrás e branquinha na dianteira.

- Xalipo ciwa. Cantou-se efusivamente em gesto de despedida. Fez-se carnaval.

 

Posto na cidade que Silva, o do Porto, fundou, acariciei a Maria, cansada e alegre.

Ela sempre linda, simpática e demasiadamente sedutora para a minha sede de aventuras. Cheia de força e vigor em demasia precisava de um macho como eu que a levasse ao orgasmo na quinta velocidade. Fazendo amor na estrada e na mata.
Girei sua cintura, apertando-lhe os seios-buzina, falando-lhe ao ouvido até fechar os olhos ou abri-los de contente.

- Vamos ao Kunje, ver a estação do caminho-de-ferro de Benguela, Maria. - Pedi.

- Chega. Estou cansada. Aceitei o convite de boa vontade para te ajudar e te acompanhar aonde quiseres ir, mas chega. Não quero que me voltes a trepar. - Reclamou contorcendo-se de dores lombares.
- Mas, Maria, o acordo foi me levares. Pretendo chegar ao Kunje e ver a estação do CFB e a estrada do Cunhinga. - Tentei buscar a sua compreensão.
Maria, a vermelha, meneou a cabeça e lá se pós aos muxoxos, mas andando devagar e cada vez com mais vagar.
- Essa vida assim não dá. Uma gaja te leva a bons caminhos. É meu dever. Agora me metes nessas crateras e lamaçal? Vou levar-te, mas ficas já avisado: quando terminar o percurso quero água, pano, escova e sabão.
- Bravo, bravo. Granda Maria! Fiz-lhe umas carícias no círculo condutor, engatei a primeira, equilibrei o acelerador e a embraiagem e lá foi ela. Alegre, novamente, apesar dos solavancos. Chegamos à comuna do Cunje, onde os comboios do caminho-de-ferro de Benguela tangenciam o Cuito, a caminho do Luau.
Com carinho, pedi-lhe ainda que roubasse uns quilómetros à picada do Cunhinga, mas lá estavam os assassinos a mandar-nos saltitar, ao que preferi desistir, antes que a Maria voltasse a reclamar. Invertemos a marcha, contornando cada buraco ou passando por eles, secos ou enlameados, até à cidade fundada por Silva, o do Porto.
- Queres saber duma coisa, Soberano? - Interrogou ela para continuar: gostei da estação ferroviária mas aquelas casas que se situam na margem esquerda já deviam ter o rosto lavado. Será que os maquinistas e pessoal de apoio não precisam delas?

Apenas aprovei com o balancear da cabeça mas ela prosseguiu irónica.
- Aquelas luzes altas, que não sei se acendem ou não, também estão muito giras, mas o estado da rodovia é que não se recomenda mesmo a ninguém. Por acaso, amanhã me podes levar ao administra a dor para saber por que ele gosta tanto de ver os carros partidos?
Engoli mais uma das tiradas de Maria, a minha carrinha, sem que houvesse uma resposta pronta na ponta da língua.

Meia-noite menos um quarto, fomos descansar, porque no dia seguinte a Maria teria de me levar num percurso de 700 quilómetros, entre asfalto e buracos.


Nota: publicado pelo Semanário Angolense a 04 de Abril de 2015.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

JULGAMENTO DE MAKOJI


- Mana me dá só água, por favor. - O moço suava por todos os poros.
- Estás a “coloriar” assim porquê? Não tem água.
- Mana, me dá só água, você “és” minha professora no Mwa Cisenge. – Replicou o jovem pedinte, tentando buscar compaixão.
- Mas estás assim com tantos galos (hematomas) na cabeça porquê? - Voltou a questionar a dona de casa, por sinal, ex-professora do jovem.
- Estamos aqui, no soba, num “makoji” que estão a negar “na” família do indivíduo que lhe apanhamos. Já se experimentamos lá um bocado (lutamos um pouco).

A irmã da professora ainda tentou acudir o diálogo entre o homem acossado pelo fogo da peleja e a ex-professora que não queria ver sua casa inundada de gente atrás do líquido que mata a sede.

- Mana, “lhe dá” só uma caneca. Isso é pecado. – Acudiu, dirigindo-se para a cozinha.
Assisti a luta que decorreu a metros da casa onde me encontrava a petiscar funje com kizaka e kabwenha que para os tucokwe é xima nyi ixi, nyi matamba.

As meninas presentes na festa de aniversário duma lactente tanto dançavam ao “do cotovelo” como se esmeravam na cyanda que é ritmo e dança local, aprimorando os toques e contornos eróticos daquela balada. As que melhor executavam a dança eram agraciadas com elogios da assistência ou mesmo alguma pecúnia. A maralha toda vibrava ao som da música “Moyo” de Xavitu mwana Kakolu.
Perante o sofrimento e as súplicas do jovem, ferido por fora e queimado por dentro, que precisava de enviar algumas gotas de água boca adentro, decidi dar-lhe a minha garrafa que fica de reserva que estava no carro. A água devia ter a temperatura ambiental, a rondar os 33 graus célsius, mas ele tragou-a num piscar de olho.

- Obrigado, meu mano, ngunasakwila cinji. - Replicou na língua que me pareceu dominar melhor. Articulava os fonemas e as construções frásicas como um bagre nadando em águas tropicais turbinadas pela chuva.
O bairro é Terra Nova. O município Saurimo. A numeração indicava: AMS-TN-ZA-14… O falar alto de gente exaltada despertava quem por lá passasse. Eram vozes e músculos a gritarem altos. Enquanto na rua a razão da força imperava entre os partidários do acusado de colheita em ceara alheia e dos acusadores, ao que se dizia, sem provas materiais, lá dentro, na cyota do soba, era a força da razão, fundamentada com adágios seculares da terra, quem mais vociferava.

Apesar de bairro periférico da capital lunda-sulina, muitos habitantes preferem ainda recorrer à autoridade tradicional e ao direito consuetudinário para dirimir as suas querelas. A polícia e os órgãos vocacionados à administração da justiça andam a leste do que se passa no interior do(s) bairro(s), ou melhor, ninguém se lembra deles quando o assunto não atinge proporções irresolúveis no foro tradicional.
Primeiro os músculos, depois o soba e a fixação de indemnizações aos ofendidos. É assim no interior dos bairros e das aldeias nordestinas. Episódios sobre makoji (adultério), ofensas e danos morais e ou materiais, acusações de práticas feiticistas, etc., fazem parte do menu das queixas que chegam ao soba.

Às vezes, os músculos tentam resolver (sem o sucesso esperado) parte do problema ou medir a pulsação familiar. “Assim já, se você lhe dá uma boa surra, pode dizer no soba para ficar já assim”, contou-me o amigo que suplicava por uma gota de água que nem “Lázaro e o Rico”. É que quem não frequenta aqueles lugares, acha que todos têm razão. Vociferam, ensaiam poses para peleja. Mangas normalmente arregaçadas e calças com os joelhos enlameados por causa das “basulas”.
Lá dentro, porém, há ordem. A autoridade e o juízo do soba são incontestáveis. Todos concordam com a eficácia da justiça e justeza da lei e observam silêncio, entrecortado apenas pelo desfilar de adágios não muito acessíveis ao entendimento dum jornalista "mukwakwiza". O soba dita a sentença e todos batem palmas, os da parte do queixoso e os da parte do queixado. Os que estão fora deixam de mandar vozes ao vento e ficam expectantes. Espreitam pela porta de gradeamento mas nada vislumbram. Não tarda, queixado e queixoso saem abraçados, como se de amigos de longa data se tratassem. O soba recomendou paz e cumprimento da sentença para que o mal não se reproduza entre a família.
- Ides em paz e não voltem a lutar! – Terá ordenado a autoridade tradicional.

Quanto a mim, que precisava de matar toda minha a curiosidade e ouvir as partes, recebi apenas um consolo do meu primeiro interlocutor:
- Mano, obrigado pela água, mas o soba disse que você não pode entrar para falar com ele. Tinha que ser família das pessoas que se deram “mulambeno”!

O queixado promete cumprir a indemnização para o makoji que entretanto jura não ter cometido. Mas cumpre. Makoji não é só quando se chaga a vias de facto. Ter a intenção de passar o outro pelas costelas dá, em termos de interpretação do direito consuetudinário, no mesmo que adultério.

- É “catoqueiro”? Um milhão de kwanzas! - Dizem que para esses o valor baixou, dado que trabalhar numa empresa de “kamanga” já não rende tanto quando rendia há dez anos.
- É bancário? Um milhão e meio. - Ninguém explica porquê, mas cogita-se que seja pela facilidade com que alguns se fazem aos empréstimos ou juntam os cêntimos alheios.

Mas o “lavrador” era camponês e ficou-se pelo cabrito, galinhas e kibutos de bombô. A garina permaneceu com o esposo que viu sua “honra lavada”?!


Nota: Texto publicado no Semanário Angolense, edição de 07.03.2015.

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

HOMENAGEM ÀS MULEMBAS


Nzuzi nasceu em Alfândega, um pequeno vilarejo do norte de Angola. Chegado a Luanda, em meados dos anos noventa do século finado, ainda criança, viu o mundo da escola a fugir-se dele por não lhe terem dado a oportunidade de deslizar persistentemente o lápis sobre o papel até dar forma às figuras geométricas, às letras e aos números. Nzuzi passa hoje grande parte do seu tempo refugiado em sombras de mulembeiras ou mulembas, numa das ruas da zona urbana de Luanda, onde faz da lavagem de carros o seu ganha-pão.

Xavitu, outros dos jovens que frequentam as sombras das mulembas de Luanda, nasceu em Namacunde, no Cunene. Xavitu abandonou a sua terra natal forçado pela guerra. Os ovambu, embora tenham a vocação natural de pastores e gostem de fazer transumância do seu gado, não são muito dados a emigrar para terras distantes e desconhecidas, ainda mais, sem o gado, uma de suas principais ocupaçoes. Mas Xavitu, aconselhado por um parente do exército que pesquisara o "salve-se quem puder" na grande cidade, acabou aceitando a ideia de refugir-se em Luanda onde se dizia ser tudo possível. Meteu-se em cima dum camião de carga procedente da Damaralândia e aportou na cidade dos sonhos com dezasseis anos apenas. Dias depois, escolheu a rua que liga a antiga escola de oficiais do Gika à Maianga, abundante em mulembas, onde passou a viver das propinas que cobra aos automobilistas afoitos em encontrar um lugar para estacionar suas viaturas. Tal como Nzuzi, Xavitu faz-se também passar por dono de um parque público, lava carros, cobra dinheiro pelo uso do pedaço de estrada morta, rouba aos incautos, danifica viaturas de quem não pague o que não deve e faz das mulembas da Martal o seu refugio sempre que o grito do sol fale mais do que a sua resistência. As mulembas passaram também a seu restaurante, seu contentor de lixo e, pior ainda, também lugar para urinar e até mesmo defecar.

- Kota, aqui é só mesmo se desenrascar. Quando cheguei, era ainda um "camenino" e comecei mesmo a viver no elevador estragado dum prédio e a lavar os carros e carregar as coisas dos chefes. Quando tenho vontade de tirar água do joelho ou comida da barriga vou mesmo debaixo das mulembeiras. É mesmo já nosso hábito. Não temos outros lugares. Numas mulembas ficamos só para apanhar a sombra, noutras é que fazemos já o que o kota está a ver. - Narrou Xavitu, meio envergonhado.

Lembinha é zungueira e percorre a cidade de lés-a-lés. Na sua bacia, já quase sem cor, transporta "magoga" (sandes de frango frito), "paracuca" (jinguba ou amendoim açucarado), kisângwa (refrigerante caseiro) e outros "mata-fome" bastante solicitados por funcionários públicos e outros frequentadores da cidade, em negócios de rua ou trabalho formal. Apesar de a condição feminina não ajudar muito para a frequência das mulembas, vezes tantas Lembinha teve de imitar os colegas masculinos das ruas de Luanda para aliviar-se debaixo de uma árvore.

- A pessoa se amarra um pano e faz só já debaixo da árvore. Não temos sítios para fazer as "centinas" e quando você bate porta do quintal para pedir licença na casa de banho, ninguém te aceita. - Argumentou com uma ponta de vergonha e tristeza.

Lembinha que é de Tunda Sanji, Ngulungu Alto, tem a consciência do mal que provoca às mulembas e à sanidade urbana, pois reconhece que "não devia ser assim, porque a cidade cheira mal e muitas árvore acabam por secar", mas também se justifica sarcástica que "quando, na barriga ou na bexiga, a revolução chega não há como travá-la", informa a vendedeira.

Na Petrangol, as mulembas que ladeavam a estrada que nos leva a Cacuaco, e Caxito e que desenhavam um "túnel verde" não resistiram à força do machado construtor, que propicionou o alargamento da rodovia, mas ainda resta a Mulemba Waxa Ngola. Apesar de local histórico, de veneração e culto ao soberano Ngola Kilwanji Kya Samba a quem se deve o nome do nosso país, a árvore vai recebendo urina e vários detritos produzidos pelo homem.

 Nga Ximinha, uma senhora que vende bombó assado com jinguba torrada, refugia-se sobre a sombra da árvore secular, não se coibindo de oferecer-lhe, vezes tantas, alguns litros de urina e adubá-la com os restos do seu comércio de rua. Ximinha é também testemunha de outras cenas que se desenvolvem debaixo da mulemba mais famosa da Petrangol.

- Aqui quando é noite, os moços vêm cá namorar e se encostam mesmo na árvore. Já encontramos aqui latex usado na pouca vergonha desses meninos do bairro. Outros, quando o xixi lhes aperta, não se escondem mais. Até homens de fato e gravata é mesmo aqui que descarregam o seu mijo de kimbombo e kapuka que cheira como cheira. - Desabafa Ximinha, entre um misto de culpa pelo que também faz contra a árvore e algum desgosto pela imundície à volta.

Quando se lhe pergunta por que faz ela parte dos que jogam lixo na mulemba, Ximinha coça a cabeça e balbucia:

- É mesmo falta de educação e respeito pelas coisas sagradas. Uma árvore dessas devia ser melhor tratada. - Reconhece a senhora, nos seus aparentes quarenta e picos anos de idade.

Assim segue a vida das mulembas e daqueles que na cidade ganham a vida debaixo das árvores, não sendo poupada nenhuma espécie que se mostre à rua: acácias, coqueiros, tamarineiros, espinheiras, macieiras da India, imbondeiros, etc.

Resilientes, mesmo maltratadas, apresentando-se feridas com os troncos rasgados ou amputados, as nossas mulembas estão sempre dispostas a transformar hidrogênio em oxigênio puro e incontornável à respiração humana. Mesmo sendo insistentemente regadas a mijo humano e adubadas com dejectos, lá estão elas, enfeitando calçadas, ladeando as ruas e avenidas da nossa capital, lançando ainda o seu perfume que só a barbaridade de quem se esperava pensante elimina com o fedor de suas descargas biológicas.

As nossas mulembas de Luanda são símbolos de resistência contra o mal, sem falecer. Continuam hirtas, desempenhando seu papel social e vital.

Plantemos mulembas e demais árvores nas nossas ruas, largos e quintais, a fim de ganharmos oxigénio reciclado e uma vida mais verde e alegre. Reguemos as árvores apenas com água natural e adubemo-las com fertilizantes naturais e químicos recomendados por especialistas. Respeitemos os locais de culto secular e de memória colectiva, como a Mulemba Waxa Ngola e outros locais como salvaguarda da nossa herança histórica e cultural. E gritemos todos: vivam as nossas mulembas!

Texto publicado a 15 de Agosto de 2015 pelo Semanário Angolense.