quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

REENCONTROS E DESENCONTROS

Nascia o mês de junho de 2005. Luanda transitava entre o calor do meio-dia e o frio da meia-noite. Viana, Terraço, tinha sido o destino depois de uma semana repleta de trabalho e provaçoes. Três colegas de serviço, em companhia da irmã de uma das co-laboradoras voltavam a Luanda sonolentos e cansados, depois de pé de dança para os dotados nesta vertente lúdica e alguns tragos para outros. O Vemba tinha aproveitado fazer as suas, sempre oportunas, reportagens que alimentavam a sua página cultural nos noticiários nocturnos da estaçao radiofónica LAC. A viagem de ida, numa mini-coluna de duas viaturas e sete pessoas e o convívio até ai corriam à feição.

- Sigamos com calma (vagar)e os condutores, Vemba e Adilson, não devem ultrapar os cem quilómetros horários. - A voz Soberana fazia-se ouvir, apesar de meio turva, dada a madrugada. Reclamava caldo regado para às seis abrir a emissão da 995, também baptizada como Estaçao Azul.

Já a primeira das duas viaturas se tinha afundado no horizonte visual. A cidade sonhava ainda, antes de acordar.  Mal se fizeram anunciar as luzes da Avenida Deolinda Rodrigues, o Kia Avla, em que seguiam os tres mais uma, decidiu ziguezaguear, levando-os à assassina árvore engordava e se pintava de sangue nas barbas do que é hoje o Comando Provincial da Policia de Luanda.

Era ainda no tempo das vias estreitas, entremeadas por um largo e longo "chourição" arborizado que separava os veículos a caminho de Catete e aqueles que visitavam a capital. Do outro lado da via, qual Lucifer vestido de branco, com os braços abertos, aguardava-os a Snt'Ana sepulcral antro com seus lúgubres lençóis.

- Sono? Embriaguez? Imperícia? Outra coisa não verbalizada? - As perguntas gritantes e mudas permanecem. Quem as podia responder já cá não está. Porém, a embriaguez e outras coisas meditadas em surdina posso descartar.

- O rapaz que girava o volante e pedalava a velocidade nao era de trambiquices nem bebedices. Era rapaz de muito juízo na cabeça. Só podia ser sono. Embriaguez nao. Malandrice também nao. – Declararam as velhas e kotas do bairro que o viram nascer e crescer.

De repente, tão rápido quanto o acidente, curiosos, polícias, bombeiros e jornalistas fizeram-se ao local, qual maratona sabática em dias de campanha eleitoral. Choveram apelos na rádio Kyanda para que se mobilizassem meios e homens para salvar os infelizes.

- São jornalistas. Salvem os nossos colegas. - Verberou-se suplicante nos 999 de frequência e nas bocas atónitas dos presentes e ausentes preocupados.

Juntaram-se sinergias para o desencarceramento dos ocupantes do veículo encolhido e abraçado à árvore máscula. Três dos quatro corpos ensardinhados suplicavam socorro às vidas que rapidamente eram sugadas pelo abismo faminto.

Machados, serras, tudo que os bombeiros usam e o povo guarda no escuro para se defender na hora do "dá-me teu suor", pouco servia para cortar o volante, o tejadilho e desfazer as portas. O motor recuado no embate contra a árvore arrastou tudo para trás.

- Por favor, estiquem o carro porque temos os pés longe dos corpos. - A voz Soberana, ainda distante do seu estado físico real, fazia-se suplicante.

Ouvida, o  Avla seria esticado, deppois de amarrado de frente, à mesma árvore que também sangrava, e puxado pelo camião dos bombeiros.

Antes de terminar o desencarceramento, já um dos sinistrados, Vemba,  desfalecia no terreno. Não se ouvira dele sequer um ai.

Chegados ao Maria Pia, levados em duas viagens pela carrinha da patrulha policial, primeiro os ocupantes do lado esquerdo e depois os do lado direito, os companheiros de viagem e desgraça encontrariam Leonardo Inocêncio, jovem chegado das terras de Fidel, mãos afinadas e firmas no infalível bisturi. Sem ordenado ainda, mas com a mente casada com Hipócrates, mostrava aí a sua proeza altruística.

- Doutor será que ainda viverei? - Perguntou-o o Soba preocupado, depois de confirmar o finamento do colega e amigo Vemba.

- Vives, meu amigo. Vives, podes crer! - Respondeu convicto, o cirurgiao, no fim do seu trabalho.

Dez anos depois, sem que as imagens faciais pudessem ser revisitadas, ei-los juntos, a frequentar um mesmo curso destinado a administradores da Função Pública. Em "conversa puxa conversa", médico e paciente revivem o dia do acidente e de imediato se identificam.

- És tu que estavas naquele acidente de jornalistas? – Ingadou Leonardo.

- Sim. Sou eu doutor. Éramos quatro. Morreram duas pessoas e sobreviveram duas. - Explicou o sobrevivo Soba.

- Por favor, quero confirmar. Vamos sair e mostra a cicatriz. - Orientou o cirurgião com a mesma autoridade que usa no Hospital perante os pacientes.

Mostrada a cicatriz abdominal, o "kimbanda kya Putu" voltou a questionar: - E qual dos pés sofreu cirurgia?

- O esquerdo, Doutor  Inocêncio. - Confirmou o Soba, mostrando também a cicatriz na perna que tinha o tornozelo quebrado.

- Pois é. És tu mesmo. - Confirmou o médico. Abraçaram-se aí mesmo, no corredor longo e iluminado do edifício.

- É meu paciente. É verdade. - Disse Leonardo à vintena de colegas que aguardavam pela perícia. - "A ferida é minha". Conheço as minhas impressões. - Ironizou.

Abraçaram-se novamente perante o olhar pasmado da turma e do professor. Choveram agradecimentos e recomendações ao médico anestesista que com Leonardo trabalhou na madrugada daquele primeiro  de junho.

- Obrigado Dr. Leonardo Europeu Inocêncio, por ter, com sua perícia, impedido que o abismo me sugasse ao seu leito negro.

domingo, 20 de novembro de 2016

A SAUDADE QUE BROTA DO EMPENHO

- Por que, quando estamos em gozo de licença,  só a minha irmã recebe chamadas de colegas e do chefe a consultarem algo sobre o trabalho, se somos colegas? Por que só a ela as pessoas dizem "sentimos muito a tua ausência", quando voltamos ao serviço, findas as férias? - As perguntas de Njamba pareciam infinitas.

 Njamba não é uma jovem que sinta inveja da mana, mas a vida profissional, depois de toda a infância e adolescência juntas e recebendo dos pais e comunidade tratamento idêntico, faz delas, hoje, pessoas distintas, embora muito parecidas fisicamente.

Njamba e Ngeve, gémeas verdadeiras, sempre confundiram os colegas nas escolas em que frequentaram o ensino primário, médio e superior. Sendo duas raparigas de pele bronzeada e músculos torneados, as manas faziam-se passar, quando quisessem, uma pela outra sem o mínimo de desconfiança da "vitima". No banco e nos exames de recurso, que o digam os funcionários e os professores?!

- Njamba ou Ngeve? - Questionavam os mestres na academia.

- Sou eu mesma. A minha irmã dispensou o exame  - Defendia-se quem estivesse na condição de examinanda.

Houve vezes que que cada assumia seus actos singulares sem usar a falsa identidade. Porém, a pergunta "Njamba ou Ngeve?", só para confirmar, nunca se fazia ausente. Elas, com o "maior a vontade", sempre no ataque: sou eu mesma (Njamba ou Ngeve que escolhesse o questionador).

Depois de formadas, com sucesso académico, em Administração de empresas, as "manas parecidas", como também eram conhecidas concorreram à Função Pública tendo, novamente, a sorte as acolhido. Ficaram aprovadas e, mais uma vez, ficaram juntas no Departamento de Intercâmbio onde Ngeve se destacava com a sua entrega abnegada e criatividade, enquanto a irmã Njamba era mais dada à lide caseira e a pequenos negócios. O emprego para Njamba era apenas uma forma de não se distanciar da irmã e uma questão de estatuto social.

- Mulher que trabalha tem outra respeitabilidade no bairro e mesmo os cavalheiros que se atrevam a perder vergonha, na hora de desfilar a prosa, pensam duas a três vezes . - Dizia-se no bairro das Acácias onde residiam. Isso envaidecia as manas e outras jovens da urbanidade e fazia com que Njamba seguisse as pegadas de Ngeve que, por sua vez, coleccionava distinção atrás de distinção por causa do seu inconformismo com o status quo e a sua capacidade inventiva. Em termos de resultados práticos, Ngeve era das que mais produziam e estava sempre a inovar nos procedimentos, procurando poupar desperdício de tempo e material.

- O cérebro é a mais útil das ferramentas de trabalho do homem e não pode ser aposentado antes da morte. - Recitava incansavelmente Ngeve.

 Essa sua entrega e prontidão, que contagiava o resto da equipa e a liderança, faziam dela uma mascote. As suas ausências eram rapidamente percebidas até pela alta hierarquia da organização. Não pelo seu brilho corporal que, embora dotado de um arranjo escultural, tinha uma exposição situada na penumbra. Era pelo seu bem fazer e sempre com alegria no rosto, mesmo quando a tarefa fosse penosa.

Njamba era diferente. Mais vistosa e mais exposta à luz e aos megafones do que à actividade trabalhista. Se faltasse, ninguém na equipa dava por ela. Porém, quando fosse o inverso, se por uma razão bem ponderada Ngeve se ausentasse, Njamba era bombardeada com a pergunta "que se passou com a sua mana do sorriso aberto?" a quem disfarçadamente a liderança mostrava empatia e saudades.

- Mas nós somos gémeas verdadeiras e vocês apenas se lembram dela? - Reclamou certa vez meio aborrecida, depois de ter gozado férias sem que ninguém tivesse sentido a sua falta.

Pascoalina, uma idosa já reformada que havia sido recontratada para formar os novos agentes administrativos e contribuir para a  moralização e comprometimento dos funcionários públicos daquele Ministério, puxou da sua experiência e sabedoria para uma lição de vida que Njamba afirma jamais se esquecerá. E a anciã, nos seus sessenta e cinco anos, começou assim:

- Filha, beleza acaba. Olha pra mim e diz se encontras nesses retalhos um corpo de miss? Já fui, entretanto, miss distrito, miss província ultramarina e primeira dama do concurso metropolitano no tempo doutra senhora. A Única faixa de miss que não se desfez com o tempo foi o meu empenho e responsabilidade profissional. É isso que motivou a minha recontratação quando já estava a cuidar dos netinhos e dos reumatismos. Queres ser bem lembrada e valorizada, filha? Trabalha!  - Recomendou Pascoalina.

A anciã fez pausa para buscar outro exemplo e prosseguiu:

- Nos tempos em que tínhamos a vossa idade, trabalho de escritório era maioritariamente para homens, as mulheres eram poucas, pois éramos mais direccionadas para donas de casa. É isso que você anseia? É para isso que queimaste pestanas na faculdade? Olha, Njamba, o patrão apenas se lembra de quem faz falta. Um dia, e não falta muito, a Administração Pública será gerida como são geridas as empresas. Estará ficada para os resultados e não mais para as simples presenças físicas e desfiles de meninas de cintura fina. Aí é que se verá quem merecerá ficar e quem deverá ser mandado para casa cuidar da roupa e da loiça. - Explicou a instrutora.

Njamba acompanhava atenta a explanação de Pascoalina que pausava apenas para regar os pulmões com  ar puro.

Ngeve, a gémea de Njamba, também apelidada de génia, estava em missão de serviço no exterior do país.

Pedagógica, dona Pascoalina prosseguiu:

- Queres marcar teus colegas e teus chefes para toda a vida, filha? Trabalha! Inova. Pensa todos os dias em coisas novas ou em como simplificar as tarefas, tornando os procedimentos menos burocráticos e menos dispendiosos em termos de tempo e de custos.

Do simples abanar da cabeça, em gesto de aprovação de tudo quanto ouvia, Njamba passou à anotação na sua agenda.

- Obrigada, 'vó' pelos conselhos. Reconheço que não tenho estado ao nível da Ngeve e compreendo hoje por que perguntam por ela quando não vem e por que razão de mim quase ninguém se lembra quando falto.- Confirmou Njamba.

- Pois minha filha, rematou Dona Pascoalina, apenas os que fazem falta são lembrados. E não te esqueças que todos os patrões, quer sejam privados ou estatais, são da "mesma escola". Se se apercebem que você não faz diferença mandam-te para casa na primeira oportunidade ou necessidade que tiverem de reduzir pessoal. Pensa nisso, filha. O país tem rumo e os tempos são de mudança de comportamento e mais atitude! - Concluiu Pascoalina sempre pedagógica e com ar maternal.

A conversa já ia longa quando o director chamou a equipa para comunicar que da avaliação de desempenho em curso resultaria na dispensa e transferência para unidades periféricas de agentes e funcionários que ainda não tinham encarnado a nova filosofia de trabalho. Njamba foi para casa pensativa ao passo que Pascoalina continuou as suas preleções, desta vez com Weza, um jovem que apresentava dificuldades de integração em equipas composta por diferentes grupos etários.
NOTA: PUBLICADO A 02.10.2015 NO SEMANÁRIO ANGOLENSE

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

À VOLTA DA LAGOA

Dizem que se pesca na lagoa pluvial que fica em Viana, entre a Avenida Deolinda Rodrigues e as traseiras da Comarca. Contam-se estórias sobre "abundantes fainas" diurnas e nocturnas e capturas de jingwingi de quilos abastados.

Eu, o narrador, embora viva ao pé da lagoa, não vi ainda, não. É só mesmo conversa de ouvir dizer e ver os anandenge a andar de cima para baixo, ora com canas de pesca e minhoca, ora ximbikando, ora com as redes de apanhar peixinhos que vêm cá acima apanhar água com um pouco ainda de oxigênio, por causa do lixo e podridão que as vizinhas cavalonas põem, dias sem fim, no lago que lhes cerca as mabata.

Verdade verdadeira, peixe grande não vi ainda, não senhor. Mas peixe pequeno, piquinino, de pôr no aquário, que os brancos e os sô doutore "lhe chamam cuele" alevinos, esse, pessoa não precisa ter olho de águia. Vê sem precisar de mawanas.

Até mesmo a vizinha Rosa, uma cavelhota já de bengala, faz muitos anos e que diz não vê mais nem vulto, certo dia se abeirou da lagoa na companhia de um mona lá do quintal de Sá Josefa, sua filha do meio, e gritou:

- Buereré de "scapexinho ansim"?!

As filhas, amigas das filhas, as comadres do bairro, as vizinhas e tudo na estupefação.

- Ená! Cega de muito tempo já viu peixinho? Deve ser madiwanu!

- Madiwanu de quê, "vucês" num sabem que quando pessoa num vê o que sai nos olhos se acrescenta "nosovidos"? Stou ouvir bué de filho de peixe andar por cima da água, no meio das folhas daquela árvore de "tambarino" que vizinho Lúcio trouxe da Luanda.

As filhas, noras e tudo de novo bwamadas.

- Como é que mamã vê a árvore e as folhas na água se nem vizinho Lúcio a mamã conhece? - Perguntaram de novo, tipo já é coro na igreja metodista.

- "Intão" pessoa cega já não tem boca? Não tem ouvidos? Não tem contadores? - defendeu-se. Tenho môs netos "qui minformam" tudo que se passa no bairro. Abrem só rádio se todas as makas de Luanda eu não sei. Esses ouvidos é tipo gravador do tempo colonial. O que entra já não sai. Até as cor, os cheiros, tudo eu grava aqui na cabeça. Certos mizangala, aqueles que andam fumar kangonya ali na esquina do Dialó não assaram bagre grande que apanharam mesmo aqui na cacimba quando iam buscar lyamba que andam a guardar naquela ilhota da lagoa?

- Mas mamã então, uma kifofu alheia, quem anda te fwefwenhar essas makas todas do bairro? - Perguntou Mingota dya Kazela, filha mais velha que mora no Dondo e que veio "disminuir" na saudade.

- Dya Kazela (o mesmo que Branquinha em Kimbundu), eu sei tudo. Tudo mesmo passa de boca em boca na frente da ceguinha e se esquecem que "kaveia" tem mbora ouvido dela. Até se polícia desse tempo fosse educada e bem preparada não precisava se dar massada para apanhar os malandros. Os planos deles de "assarto", divisão de dinheiro, quem guarda as armas, os comparsas, as kangonya e tudo, falam mesmo na frente da velhota. Eu sei tudo. Me traz só a rádio e a televisão aqui para me perguntarem sobre as coisa que "ándamos" passar cuele, dia-a-dia na cidade, se Viana não vai pegar fogo? Pega fogo porque eu sei de tudo! - Concluiu a idosa, sem meias palavras.

 

terça-feira, 1 de novembro de 2016

DE REGRESSO AO RANGEL


DE REGRESSO AO RA

Depois de muitos anos ausentes do bairro de nascença e ou criação, a maralha voltou ao Rangel. Foi um reencontro espontâneo, sem que houvesse combina ou telefonemas. Aliás, o tempo encarregou-se de os reduzir de amigos a meros conhecidos. Já ninguém sabia onde vivia o antigo vizinho e amigo dos trumunos de rua. Já ninguém sabia da família do outro, nem possuía o número de telefone do colega das caminhadas ao Ngola Mbandi, Kilwanji, Makarenko, Comercial ou Kanini. Chegaram de distintos caminhos e pronto. Encontraram os velhos que teimam em não sair do bairro e os jovens que no olhar da maralha emigrada "estagnaram no espaço e no tempo".

- O Rangel já era. Já deu o que devia dar. Produziu homens, cérebros iluminados e iluminantes, mas acabou. Sem reformas profundas, sem drenagem das águas pluviais e domésticas, o Rangel virou um lamaçal que só não chega à pocilga porque desapareceram os ngulu que a deviam chafurdar. - Desabafou, desgostoso, o ancião Zeca Martins que costuma fazer leituras correctas da situação, embora ele também, tal como outros da sua idade septuagenária não abdique de seu bairro de uvalukilu. Por isso mesmo é que no dizer do tio Zecave, para os do bairro, “levar um turismo novo ao Rangel, nesse tempo de descargas de São Pedro, seria transforma-lo em ngulu na pocilga”.

- Acabou-se o RA. – Atirou o velho com um misto de desgosto.

A maralha visitante é gente com mais de meia-idade vivida nas ruas do então município do Rangel (e suas comunas do Rangel, Marçal e Zangado, e Nelito Soares). Mesmo à distância, nvão procurando saber como está o velho fulano, a velha beltrana, a rua ípsilon, etc. Uma vez na banda, a maralha entendeu comemorar o momento e, por isso, comprou vinho para os papás, gasosas e sumos para as mamãs e birras para os demais. A habitual kisângwa da tia Chica não faltou e foi mesmo o primeiro líquido a ser consumido. No Rangel impera ainda o hábito antigo de vida comunitária e as pessoas foram participando da festa, também espontânea, à medida que iam chegando. Uns contribuindo com angolares e outros simplesmente com a boca.

No Rangel, os bons papás, aqueles que aconselham para bons caminhos, são benquistos por todos. O mesmo diz-se dos filhos. Os bem comportados também são filhos da comunidade. Apenas os malandros são censurados. As mamãs, essas, espalham a sua bondade e caridade até para os trapaceiros.

- O que saiu da barriga não se nega. - Dizem as mães rangelistas em socorro. Se calhar foi esse mimo que fez alguns encalharem.

O México, os Sêngulas, o Maxinde, o Maria das Crequenhas e etc. estão e continuam aí, mesmo em ruinas. O kimbombo ainda sai por encomenda e o kapuka é mais quantitativo do que a birra. A kangonha brota nos quintais apertados do do México ou nos vasos das plantas sedentas de água abundante nas ruas. Chovia bebedeira, música de intervenção, conversa nostálgica e planos de requalificação. E o Rangel ainda vivia um dos seus belos dias.
Pois é. A maralha, os ditos iluminados ou retornados visitantes tanto falavam sobre os passos que tinham dado em suas vidas como da "necessidade ingente" daqueles que estão mais avançados fazerem algo para fazer do RA um bairro habitável com o mínimo de sanidade e tranquilidade.
Uns malambavam também os seus recuos na vida, como o Joaquim da Brigada que construiu um prédio na zona de passagem de água, vendo tudo ser ofertado ao grande kalunga-lwiji. Mas os que empurravam barrigas para frete e tripulavam anfíbios eram a maioria e eram esses que comandavam as conversas que se parcelavam em função da condição financeira, planos para o Rangel e visão histórico-social e cultural sobre o bairro-município.
- Temos de fazer o que a Vila Nova de Viana está a beneficiar. É um bairro novo e, graças a visão dos dirigentes daquele município que querem alargar o casco urbano, estão a cavar todas as ruas, enterrar tubos enormes para escoarem as águas domésticas e pluviais que são canalizadas para uma lagoa criada para o efeito. Nós até estamos bem servidos pelo declive. - Explicou Man-Tony para prosseguir:

- Vejamos as nossas vantagens para a instalação de drenagem sem grandes engenharias topográficas: a rua que acompanha a linha férrea já tem inclinação e morre na vala das cervejeiras. As partes do Marçal, Zangado, Terra Nova, Bês e Cês despejam as águas na vala Senado da Câmara. Já viram? Temos de passar as ideias a mais rangeliatas que estão lá onde se contam e distribuem as empreitadas e as notas.

- Sim, Man-Tony. Boa ideia. - Aplaudiu Pedrito, um jovem que ainda não saiu do RA por ser filho kasula, mas já não muito satisfeito com a lástima em que se tornou o bairro. É preciso que os kotas façam algo para o bairro que está a morrer. Alguns kotas, hoje, mesmo para deixar dinheiro ou medicamentos para os idosos que não querem ir viver nos apartamentos com os filhos e netos marcam encontro no Triângulo ou nos Congoleses. Já ninguém que partir o carro no bairro. Isso tem de acabar, kota. – Disse Pedrito

- É isso, meu kandenge, retomou António João, o Man-Tony para os do RA. Mas para isso acabar temos que estar unidos, cada um fazendo a sua parte, por mais ínfima que seja. Criarmos movimentos cívicos que exerçam pressão positiva. Não estou a falar de partidos arruaceiros que destroem monumentos como tivemos num passado recente. Precisamos de ideias que ajudem os governantes a tomarem as melhores medidas em prol do município ou do distrito. - Discursou Man-Tony que já tinha o aval de quase todos para líder da maralha em visita ao bairro da infância e juventude.

Os "estagnados" do bairro ouviam e consentiam calados. Dos lamentos sobre as águas podridas não passavam. Deliciavam-se com os verbos eruditos e do que lhes era posto à mesa periférica que para eles era mais do que uma festança. Tinham aposentado, naquele dia, o kimbombo e o kaporroto do dia-a-dia dos becos.

- Kotas, têm de ver também a questão dos becos que estão a desaparecer. Aliás, já não há mesmo. Você a correr se põe num beco, na bisga, e quando assusta estás num portão ou mesmo já num quintal sem saída. Assim, se a rusga voltar, vamos "esquinar" como? - Afiançou Man-Gasparito, único dos residentes que ousou em interromper a conversa dos "iluminados" da diáspora.

- Sim, filho Gaspar, os becos já ajudaram muito os vossos irmãos para não serem "kangados" para a tropa. Isso desde o tempo das prisões do Poeira. Também nos ajudaram muito a fazer corta-mato para ir à baixa trabalhar. A pessoa entrava num beco e só cruzava a rua para apanhado outro beco. Era assim até chegar ao Zé Pirão onde começava a cidade dos brancos. Hoje, vejo que já não há necessidade de haver becos que só encobertam os "gregos" e reproduzem dibengos e baratas doentias. - Explicou o ancião Branda, ganhando estrondosas salvas de palmas.

- Pois é. Ouviste Gaspar? Precisamos de ruas e ruelas em que possam circular carros. Um bairro em que cada um possa levar o seu popó até ao quintal, sem necessidade de deixa-lo distante. Queremos um Rangel urbanizado, sem becos mas com ruas largas e sem água estagnada. - Emendou Man-Miguel, outro rangelista de sucesso, emprestado ao décimo andar do Kilamba.

Entre pinchos, birras, gasosas e kisângwa (também não faltaram as sempre decorativas kapurenquanto do bairro que iam aproveitando uns goles e uns trocados), a maralha concordou em nomear o velho Branda, da rua Sangue-e-Fúria, para os passar a acolher uma vez por cada mês.

- Vamos realizar os nossos encontros mensais em casa do Papá. Não se preocupe nosso pai. Vamos providenciar toda a logística necessária. Queremos apenas trocar ideias e ver se o bairro avança. - Acalmou o líder da maralha.

Quando bateram em retirada já os galos, os poucos que ainda não tinham sido roubados, se preparavam para cantar.


Nota: Texto publicado pelo Semanário Angolense a 16.05.2015

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

PREFÁCIO ÀS "CONVULSÕES DO MEU PENSAR"


PREFÁCIO

Nesta fase delicada do uso da Língua que nos faz Nação, em que boa parte da nossa juventude vive os dilemas do “Enxaguar ou Ensaboar”; do “através ou por causa” e ainda do “lhe em vez de o-a” (vou lhe visitar ou vou visita-lo?), fiquei positivamente surpreendido ao folhear os textos versificados do Edy Lobo. Parabéns pela forma cuidada com que usas o nosso principal veículo de comunicação e de literacia.

À semelhança dos caminhos que me levaram ao meu padrinho literário, Tazuary Nkeita, Edy e eu conhecemo-nos pela via (através) da rede social Face Book, tendo me sido encaminhado pela amiga comum Luísa Rogério com quem trilho léguas profissionais.

Surpreendeu-me a humildade de um jovem desse tempo em que mais se grita do que se conversa e mais se conjuga o verbo ter do que o ser (valores). Para além de imaginativo e laborioso (a arte da escrita remete o executor à inspiração e transpiração), Edy Lobo é também um bom conversador, recheado de maneiras e polimento. E é também isso o que o leitor encontrará na presente obra: puros diálogos versificados.

Teu amor não me é suficiente...Teu amor não me chega! | Ao mar quero pedir razões para uma só mulher amar. (In: UM SÓ AMOR NÃO ME CHEGA).

É, de facto, o amor, nas suas distintas dimensões, que Edy Lobo apregoa em todas as páginas deste livro.

Para mim, é uma das características da poesia dizer grandes coisas com palavras poucas. E, recriando Arlindo Barbeitos, diria mais. O poeta não grita mas também não emudece perante situações que do quotidiano que despertem o seu olhar crítico.

Nessas “Convulsões do pensamento”, Edy Lobo procura trazer-nos ideias sobre as pessoas, a vida e o amor. O leitor aperceber-se-á disso nas leituras que permitem o texto poético.

À guisa de isco e cônscio da intangibilidade do texto poético, dada a sua acentuada polissemia, convido-o à leitura do poema-título “Nas convulsões do meu pensar”, (pág. __) que confirma as preocupações do autor com o homem, enquanto ser social, gregário e racional, doptado de valores universais que se deviam manter invioláveis.

Edy Lobo lança-nos, nessa sua obra primeira, um alerta para o despertar do sono e da apatia, ante o surgimento de novos fenómenos que ensombram a nossa (co)existência. E, o nosso poeta “convulsiona” ao se debater com “Amores económicos (que) gritam em qualquer esquina|Ventos corruptos (que) incentivam a mais inocente menina| Adultos logros despidos totalmente de juízo...

Lida proposta em presença, encontro em Edy Lobo uma picada aberta (que como qualquer arte e artista deverá ser trabalhada) para uma longa jornada literária. Muito mais reterá, para além destas humildes palavras, depois de percorrer a totalidade das páginas que fazem esse livro, missão para a qual lhe endosso o convite.

Ao terminar, consolo-me com a riqueza da sabedoria bantu que nos orienta: O caminho faz-se caminhando.

Segue o teu caminho, poeta Edy Lobo!

Soberano Canhanga, Luanda, 18 de Janeiro de 2016.

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

MULONDOLO PARA DOR DE COLUNA E "OUTRASCOISA" DOS MAIS VELHOS!

Viajávamos da capital ao interior, minha terra natal. Ao longo do trajecto de 270 Km, revezados entre pavimento selado e buracos que ameaçam os automóveis, é Man Prole, o músico do Kwanza-Sul, quem nos faz companhia com as suas  melhores quetas de todos os tempos.
- Papá, ele está a cantar o quê? - Pergunta o filho derradeiro, algo aborrecido. A queta que me leva aos anos oitenta do século finado nada lhe diz. Pior ainda porque cantada em Kimbundu, língua que só ouve soar quando é visitado ou visita a avó que intercala sempre expressões lusitanas e o seu Kimbundu materno.
- Ele está a cantar que a mãe está a pensar e a chorar o filho desaparecido na tropa. - Traduzi para o infante.
- Papá, na tropa é longe?-  Voltou a indagar o petiz, agora interessado na explicação.
- A tropa não é um lugar. Tropa é o militar. No passado todos os jovens rapazes eram obrigados a ser tropa e muitos morriam na guerra.
- Guerra é o que papá? É como no filme que fazem tiros?
- Sim, filho. Faziam disparos mas eram de verdade e as pessoas morriam mesmo. Morreu muita gente longe de casa e sem que os familiares tomassem conhecimento do óbito. Havia pessoas que eram choradas devido a falta de notícias mas que reapareciam. Quando assim sucedesse, as famílias faziam festa grande. Outros jovens idos ao serviço militar eram esperados e nunca mais vinham. Mas as mães nunca desistiam de procurar por notícias dos filhos ausentes ou de lamentar. É isso que Man Prole canta.
- E o papá também foi tropa como o meu padrinho?
- Sim, filho. Fui tropa mas estive na rectaguarda, a guardar a vila de Kalulu enquanto os tropas mais velhos iam fazer barreira à frente.
- E o papá andava de traz como o carro quando anda de rectaguarda? É por isso é que a casa da avó ficou muito distante, n´é papá?
A conversa entre pai e filho ia animada. O volume da música tinha sido baixado ao máximo. Com o gotejar furioso da chuva só se ouvia mesmo um ruído imperceptível o que parecia agradar o infante que questionava com mestria.
- Papá o meu padrinho me disse que a guerra já acabou. É verdade, papá?
- Sim, filho. Felizmente, já não há guerra. Por isso é que viemos de carro ver a avó e agora vamos visitar a tia. Antes não era possível andar de carro em segurança porque os que estavam nas matas queimavam os carros.
- Eles, assim, eram bandidos, não é papá?
- Sim. Digamos que sim. Era assim que os tratávamos mas agora já são nossos amigos. Paz é perdoar os erros do passado e fazer coisas novas em comum.
O rapaz, seis anos ainda, pareceu ter percebido a explanação sobre os lamentos reproduzidos pelo músico Man Prole: a guerra, as mortes, a paz e a reconciliação e reconstrução nacional. Porém, antes mesmo que adormecesse, o arrastar da blindagem num buraco que se candidatava a cratera, junto à ponte do Longa (EN120), fê-lo despertar e voltar às perguntas.
- O papá disse que guerra já acabou. E porquê que o carro se arrastou?
Fiquei segundos sem responder. Enquanto endireitava o que lhe dizer, preocupei-me em encontrar um sitio seguro, já no lado da Quibala, que não prejudicasse a circulação dos outros automobilistas e parei para ver eventuais danos na viatura e esticar a coluna há muito afectada por uma lombalgia. O rapaz aproveitou desfazer-se da ureia e apreciar outros meninos, alguns de sua idade, que empunhavam umas raízes com um cheiro intenso e seiva branca.
- Papá, olha. Os meninos estão a mostrar ao papá uns paus. É quê?
Antes mesmo que ensaiasse a resposta, um coetâneo do Arlindo passou à frente e atirou:
- É mulondolo. É "midicamento" para dor de coluna e "outrascoisa" dos mais velhos. Tio, compra. É barato e se quiser pode provar na raiz ou no charope (raízes demolhadas num frasco).
Katerça, assim nomeado por nascer numa terça Luarenta, conforme narrou, frequentou a primeira classe na escola de Kikole. Tem nove anos, apesar de aparentar menos. "Me ferraram na altura", explicou-se quando o informei que o meu "kasule" tinha apenas seis. Contou que vende (raízes de) mulondolo (ao que dizem com propriedades analgésicas e afrodisíacas) para juntar dinheiro para a roupa e os cadernos que vai usar no próximo ano lectivo.
- Aqui é assim. Os mais velhos vão redar (pescar com tarrafa) e vendem o peixe que sobra para ter dinheiro. Nós crianças, assim que o rio (Longa) está muito cheio, para não nos arrastar na água, cavamos mulondolo e vendemos "nos" tios que vão a Luanda ou no Huambo. Outros, conforme o tio está a ver, ficam a tapar os buracos na estrada e os motoristas também lhes oferecem dinheiro. - Explicou o petiz, sem gaguejar e acrescentando: se o tio não gosta de mulondolo pode comprar milho fervido "na" minha mana que está ali, na sombra.
Abri a porta moedas da viatura e descobri uma nota de valor modesto que estiquei ao bracito do rapaz.
- Toma Katerça. É para comprar mesmo um caderno. Espero que chegue. É uma pena o tio não ter mais...
- Obrigado tio. Deus te ajude e te faça vir mais vezes aqui. E mulondolo vai deixar? Não quer um "kabucado" de favor? – Retribuiu o rapaz.
Agradeci a oferta desinteressada do Katerça e aconselhei-o que estudasse sempre, não se esquecendo, todos os dias, de fazer os exercícios do livro de matemática, para além de exercitar a leitura.
Na minha terra há um adágio que reza “kayete lya sapo kayoto”! (o que não se exemplifica não convence ou não anima!). Para que ficasse claro, contei-lhe um pouco da minha experiência.
- O tio, quando era pequeno, também vendeu, ajudando a mãe. Hoje tenho emprego graças à escola, exemplifiquei.
Katerça agradeceu e eu parti, debaixo dum teimoso chuvisco, quase a verter a terceira lágrima.
Os instantes seguintes foram novamente do Arlindo que meteu a limpo as dúvidas sobre mulondolo e aquela estória contada ao menino Katerça sobre as vendas do tio enquanto miúdo.
-O papá vendeu o quê? O papá fez o quê com o dinheiro? – Foi um perguntar sucessivo a que se seguiram respostas que já não ouviu. Embalou com os batimentos da chuva sobre o tejadilho da viatura e quando despertou já tínhamos chegado à casa da tia Júlia.

sábado, 1 de outubro de 2016

QUEIXUMES DE MARIA


- Mas, ó Kanyanga, dizem que és Soberano. É verdade?
- Sim Maria. Sou um soberano. Soba grande que é saudado com rajada de palmas e de joelho curvado.

- Hum? Soba ou sopa? - Voltou a questionar Maria.
- Soba. S+o+b+a. Autoridade. Gajo que "mija" de acordo ao legado histórico-cultural do povo bantu, associando o direito costumeiro e o positivo. - Expliquei para que não houvesse mais equívocos.
Maria, porém, parecia não estar satisfeita e intercalava a música suave do seu motor com queixumes, próprios de quem está prenhe e que desliza sobre solo acidentado.

- Conheces o governa a dor Júnior Henry Quê? - Perguntou.
- Sim. Conheço. Já estive com ele algumas vezes no tempo em que andava a chefiar os pesca a dores.

- E o chefe Brita masculina? – Voltou a indagar Maria. 

- Brita masculina? Como assim, Maria? - Retorqui, aproveitando engatar-lhe uma carinhosa quarta farfalhada.

- Sim. É isso mesmo que ouviste. Se brita é feminino como seria o masculino caso houvesse?

- Hum?! Já sei aonde queres chegar. Também conheço, embora seja só de ver na televisão e ler nos jornais.

- Mas, um soberano que conhece tanta gente que manda, com tantos poderes que tens, nada fazes para aliviar o sofrimento da tua dama?

- Mas, Maria, (fiz pausa para endireitar o discurso) que queres, afinal de contas e que não dizes logo? Aprecio a tua música quando estás embalada. Aprecio também os teus gemidos prazerosos, quando nos encaixamos um na outra. Dizes que gostas de ficar comigo nessa aventura. Que mais está em falta ou que não corre à feição, Maria? - Falei-lhe, quase em súplicas amorosas.
- Estou passada com os administra as dores de cinco municípios. - Atirou ela, sempre em meias-conversas, nunca indo ao concreto. Se calhar, para manter acesa a minha curiosidade e tornar o nosso envolvimento mais profundo, mais íntimo, com mais cumplicidade. Uma conversa com rodeios, mas que chega sempre ao final e ao contento dos dois.
- Pois é, meu Soba - Maria pareceu abrir-se mais para deixar-me aplicar-lhe a quinta farfalhada - se eu fosse você ou se no mínimo tivesse o teu poder, os teus conhecimentos e influências teria procurado o Vida Boa, o Henry Quê e o Brita Masculina para lhes propor uma averiguação aos administra as dores de Kambambi, Lubolu, Kipala, Waku Kungu, e Kwitu. Já viste os buracos na via Zenza-Ndondu?

- Sim, vi, Maria.
- E os buracos do desvio da Munenga ao Longa?

- Sim. Também os vi.

- Viste ainda as crateras do Longa ao Kimone? Parece que esses administra as dores não andam a ver a dor. - Atirou cómica.
- Sim, Maria querida. Passamos por cima deles ou soubeste contorná-los.
- Sim, mas com essa gravi-carga que me meteste, estou com a barriga, as pernas e os braços todos retorcidos. Viste ainda como está o caminho de Katofe ao Keve? Eu que não sou Maria Vagarosa tive de me arrastar devagar, devagarinho, parece dia de parto é hoje?
- Compreendo a tua mágoa, Maria. Vamos diligenciar. Procurar fazer chegar a tua reclamação, através de uma petição aos camaradas governa as dores das provinciais. Só há um senão, Maria. A EN 120, e mesmo aquela que me esqueci o numero, que nos leva do Zenza ao Ndondu, são da responsabilidade do vai (go) ver no central e os administra as dores não se podem meter, senão arranjam doença de se coçar.
- Já viste quantos carros carregados de burgau, pedra intacta ou britada e terra circulam pelas rodovias em que passamos? Já imaginaste se cada um desses administra as dores pedisse aos donos das burgaleiras e donos dos carros para implementarem um projecto de responsabilidade social rodoviária?
- Sim, Maria. Mas como seria essa tal responsabilidade social com pedras, terra e burgau? Essas empresas, calculo, não têm capacidade para arranjarem estradas. E mesmo que tivessem kumbú arranjariam também sarna diante do vai (go) ver no central que é dono das estradas que começam com EN.
- Tu és mesmo um soba distraído. Vou baixar-te de soba para sopa. Estás bwezeza tipo sopa de restos. - Disse gozona, mas cantando alegre.
O nosso quinto round estava quase no auge. O ponto G estava à vista. Maria flexava excitada, mas sempre conversadora.
- Já pensaste se eles, os administra as dores dos municípios, chamassem todos os exploradores de inertes, os carregadores, os construtores e todos os demais beneficentes a se juntarem para, no mínimo, taparem os buracos enquanto o vai ver central leva alcatrão aonde ainda não há? - Propôs Maria, mis assertiva.

- Sim, Maria. Agora te percebo. É uma excelente ideia. Vou propô-la aos camaradas administra as dores municipais e aos governa as dores provinciais dos Kwanzas.

- Se eu fosse você, prosseguiu Maria, com todos os poderes, conhecimentos e influências que dizes ter, mandava as sugestões sobre responsabilidade social rodoviária já com um pedido de inquérito sobre o que os administra as dores não andam a fazer e outra sugestão aos seus chefes para que os que pouco fazem sejam afastados. A dor que sinto é grande e penso que não andam a administrá-la como devia. - Disse, queixosa.
- Está bem, minha pinta vermelhinha. Vou redigir a petição com tudo quanto sugeriste.

- E não te esqueças de notificar o Dr. Vida Boa, por causa do Kunje. Aquelas crateras fizeram-me lembrar o tempo do tri-ti-ti, quando havia mais buracos do que estradas. - Concluiu Maria.
A conversa estava doce. Como sempre, o soar máximo do batuque é prenúncio do fim da festa. Ou acaba o walende e todos se espalham, ou rebenta a pele do ngoma. Com a Maria foi o gasóleo.

Obs: Publicado pelo semanário angolense de 13 de Junho de 2015

terça-feira, 20 de setembro de 2016

JOÃO MARIA E MARIA JOÃO


Conheceram-se crianças ainda de tenra idade. Seus pais eram vizinhos e, naquele tempo da dibinza, andavam e brincavam juntos, improvisavam os mesmos brinquedos, apesar de ele ser rapaz e ela menina.

A casa de uma tanto servia para o outro, refugiando-se do sol intenso ou frio congelante, ou mesmo dormitando, depois de cansativas brincadeiras no morro de terra deixado pelos homens do Ministério da Construção e Habitação. A amizade voluntária e desinteressada acabava por envolver também os pais que gozavam da alegria dos filhos e choravam a dor do filho do vizinho.

Certo dia, quando Maria pisou um caco de garrafa que quase lhe decepava o calcanhar, João foi o primeiro a chorar.

- João! Estás a chorar porquê se ferida é minha. Ninguém vai te bater por estares comigo. Saí com minhas pernas.- Disse Maria. Ela, corajosa como ninguém e apossado de compaixão.

- Maria, tua ferida também dói em mim. É como se esse sangue saísse daqui. E batia ele no seu frágil peito.

Àqueles que assistiram ao diálogo pareceu-lhe que havia envolvimento psico-afectivo que extravasava a simples amizade pura. Mas eles eram crianças. Apenas sete e oito anos. Inocentes naqueles dias em que contar estrelas à volta da lua completava o lugar das telenovelas desse tempo.

E caminharam até à casa de Maria onde as reprimendas e conselhos dos pais da menina serviram para os dois.

Aos olhos dos maldizentes, a menina era Maria rapaz e ele um João maria.

- Esse está perdido. Homem fica a andar com miúda à procura de bonecas quando os outros fazem fisga e carros de lata?

- Hum! Essa está perdida. Mulher, em vez de brincar de cozinha e costura fica a andar com rapazes, tipo homem, a querer ser mecânico e bate-chapa? Vizinha Nela nem só genro vai ter. Alembamento e panos de mabela azul é melhor esquecer!

Os falares das tias, vizinhas no Marçal, sempre afáveis no trato mas atiradoras da primeira pedra, eram constantes sempre que vissem aquela dupla. E as senhoras, na sua liberdade de exteriorizar pensamentos, não guardavam palavras para amanhã.

Maria e João, apesar dos elogios e das críticas, continuaram amigos na adolescência e juventude. Estudara na escola Juventude em Luta e no fim lutaram para bolsas de estudo no estrangeiro.

Em Cuba calharam em ilhas diferentes, João na Ilha da Juventude e Maria em Plaia Girón. Mas as cartas e as visitas se mantiveram intensas.

Em Angola, próximo das férias, os pais de Maria, sabendo do seu desinteresse em dar-lhes genro, decidiram surpreende-la com um presente.

- João! Imagina o que ganhámos?

- Ganhámos o quê, Maria? Bolsa de mestrado?

- Desperta, João. Primeiro é aplicar a licença e depois agregar valor. Te esqueceste?

- Então diz o que foi que aconteceu de transcendental que te faz ligar-me à meia-noite.

- Ouve, João. Os meus pais cederam-me um apartamento. Já te disse que é todo nosso. Podes lá ir ler e descansar quando quiseres.

Festejaram, à distância, aquela boa nova plasmada na mukanda recebida ainda fresquinha. Maria passava o papel pelo nariz, a ver se sentia o cheiro do pai misturado entre as letras manuscritas a preceito, Bernardo Kixinga era de pena leve e fácil. Apenas o cheiro da caneta, que se supunha ser uma Bic, resistia ao tempo.

Às cinco da manhã, João chegou com as passagens para Angola. Era mês de férias. As suas viagens eram conjuntas. Embora nunca alguém dos dois tivesse libertado os cachorros, Maria e João, mesmo aos olhos dos companheiros africanos e sul-americanos, viviam uma vida de casal, separado apenas pelo descompromisso.

João tinha outas amigas e até namorada cubana, embora na sua vida nunca chegassem aos calcanhares de Maria. Maria também tinha amizades masculinas. Até experiencia sexual teve. Mas, confessou a João que apesar do momento singular proporcionado por aquela viagem espacial, não era um João na conversa e no à vontade.

Viajaram para Luanda. De mãos dadas como sempre. Ao segundo dia, Maria convidou João para ir conhecer seu apartamento na nova cidade que se erguia pelos lados da Cuca.

- João, querido! Vai sem desconfiança nenhuma. Leva livros e roupas, se quiseres. A chave de reserva, que passa a ser tua, está com a vizinha da porta 21. O nome dela é Bela.

- E por que não te encontrarei em casa?

- Vou arranjar um Habana Club, João. Até amanhã.

No dia combinado, Maria ligou manhã cedo a confirmar a visita enquanto se aprumava como noiva de quem espera o altar.

- Vens, João? Tenho o coração aos pulos. Quero comemorar contigo... Estás bem?

- Estou cansado, Maria. Tive uma noite para esquecer.

- Foste à má vida e não me levaste? Já me deste uma concorrente que vai desistir na primeira paragem? - Questionou brincalhona.

- Oiça, Maria. Ontem fui à tua casa.

- E que aconteceu? Para que não nos víssemos? Conta em detalhes que estou a asfixiar-me de curiosidade.

- Estava eu no teu quarto. Num quinto andar. Quando me viste saltaste por cima de mim e nos amámos perdidamente. Porém, ele chegou. – Fez pausa para ouvir a reacção.

- Ele quem, João? Conta rápido essa cena que se parece ficção.- Pediu autoritária.

Pois é. Constou-me que há já bom tempo que sentia o cheiro da intrusão em tua propriedade. Entrou de rompante. Abri a janela e o chão era muito longe. Não me entreguei ao salto, embora me tivesse passado pela cabeça o suicídio. Acobardei-me e supliquei de joelhos. Tu estavas na cama sem saber a quem dar razão. Pegou-me pela goela até ao rés-do-chão.

- Ela atenta do outro lado da linha, sem poder conter a respiração e o foco daquela conversa, mantinha-se calada, lançando, de vez em quando, uns “e depois”?

- Depois levou-me à rua. Eu sempre quieto. Como uma criança consciente da transgressão e que não reage. Quando ele se aprumava para me esmurrar, peguei-lhe os martelos que balouçavam numas calças de treino e sem protecção interior.

- E daí? – Questionou Maria ainda confusa

- O feitiço virou-se contra o feiticeiro. Inverteram-se os papéis. Ele gritava e eu apertava enquanto procurava por folga e me pôr a fresco. Depois meti-me no carro.

- E ele?

- Ele, recuperado, meteu-se no dele e partiu em minha direcção. E fizemos uma corrida sem vencedor.

- Mas, como assim?- Maria começava a entender e tinha a curiosidade mais cada vez mais aguçada para saber do fim, da trama.

- Pois, Maria. Acordei com a entrada da tua mensagem...

sábado, 10 de setembro de 2016

O IRMÃO PIRIGO


Gabava-se de rua em rua e de sol a sol. Era por todos conhecidos como um grande devoto e nas discussões bíblicas tinha fundamentos até para derrubar alguns clérigos menos preparados. "Foi a guerra que me tirou do ministério. O meu nome já 'encosta ‘na' lista dos 144 mil que vão 'no' céu!” Afirma convicto.

No bairro e na igreja que frequentava, era até então chamado de "irmão Catorze-Quatro", em alusão aos três primeiros algarismos que na numeração árabe ganham, à direita, três zeros para completar o número dos escolhidos, que segundo o livro da bíblia cristã, Apocalipse 14:01, vão governar a terra com Cristo, num executivo que terá o seu palácio no alto dos céus.

Na terra, dizia o irmão Catorze- Quatro, ficariam as mulheres e homens de boas obras, mas que pela sua inconsistência, não chegavam a atingir a excelência cristã. O patamar em que se julgava estar.

Catorze-Quatro tinha todos os versículos de Apocalipse e Salmos 115:16 bem sublinhados e abria-os prontamente para se defender sempre que fosse afrontado por jovens reformistas e inconformados com a maneira como o templo físico era governado pelos “kotas” da velha guarda. Era também o primeiro recurso àqueles que se iniciavam na “pregação da palavra” ou que participassem de debates inter-eclesiais.

Filho de uma camponesa alfabetizada e de um comerciante de fuba e peixe seco, Catorze-Quatro nasceu numa missão evangélica protestante e lá fez toda a sua instrução preparatória, até à chegada da idade militar que lhe “roubou o sonho de se tornar pastor ordenado”, quando já frequentava o curso propedêutico no Seminário Emmanuel Unido do Ndondi, no planalto angolano. Manteve, porém a vocação sacerdotal e fazia questão de se gabar de ser “um dos poucos escolhidos que conhecerão e trabalharão 'caralmente' com o Messias no seu governo vindouro e sem fim".

Já a descrever a curva dos cinquenta e com a berma encefálica apinhada de algodão, Pinto Kwononoka, de sua graça, lutava para ser elevado à categoria de diácono, ao mesmo tempo que se esforçava em ser um “velho-jovem", aderindo a todas as modas físicas ou virtuais que lhe chegavam pelas redes sociais.

Era um “velho actualizado”, diziam os mais novos. Há já anos que as suas roupas se pareciam à pele colada ao animal ainda vivo. Os seus telefones eram todos de último grito e tinha plano infinito de internet que lhe permitia passar a vida a dedilhar, mesmo durante os cultos dominicais. Na igreja, para não dar nas vistas enquanto trocava mensagens, escolheu um lugar estratégico para a sua nova mania: senta-se próximo de um pilar de sustentação com uma saliência que faz um ângulo recto, onde disfarça o aparelho em que palavreia com os amigos durante o culto. E foi levando a sua "santidade de mentira" com a “cipala” semi-lavada até ao dia em que foi chamado para abençoar o ofertório da igreja.

- Irmão Catorze-Quatro, leva-nos a Cristo em oração! - Pediu o reverendo Kabwiza.

O dia era de sol. A subida de temperatura era acompanhada com o vigor das vozes corais dos grupos alfa e ómega e dimatekenu nyi dizubilu. Cantaram garbosamente os coros, um a um, fazendo "descer o céu à terra". Para uns, a arrebatamento estava para segundos. O pastor tomou a palavra para agradecer os coros e os “dizimistas” do primeiro domingo daquele mês de sol e chuvas fartas.

"Convido o nosso querido papá Catorze-Quatro para nos levar a Cristo em oração", anunciou o reverendo.

Catorze-Quatro que, apenas ouvira o peido do pastor mas não percebera, se manteve pregado no acento corrido de madeira e a olhar para a “auto-cipala” que tinha acabado de fazer para brindar a amiga com quem teclava ao telefone, até que o pastor voltou a apelar, num tom mais audível e algo sério. "Irmão Catorze, abençoe a oferta, por favor".

Sem desligar o telefone, o benquisto irmão Catorze, o mais falado da congregação, elevou as mãos ao alto, antes dos habituais dois passos que separam o orador do assento, e começou a sua evocação:

- Meu Deus, mô papá, abre teus olhos e estende a tua mão aos nossos jovens. Cada dia há mais desvios. O "pirigo" está em cada esquina, em cada beco, em cada telefone, meu Jesus. Faz do teu espirito santo um pastor atento, mô papá, para nos proteger dos lobos presenciais e virtuais, mo Dedê (...) Aqui mesmo na ngelú, enquanto oramos, outros se preparam para nos devorar psicologicamente. Uns são nossos irmãos no templo e nossos inimigos na rua. Mô Dedê, sabes o tudo quanto nos falta e nos enfraquece. Derruba grilhões, retira as pedras de tropeço dos nossos caminhos… Em nome do teu filho, nosso irmão na carne, que espero me receba no seu governo celestial, te peço infinitamente. Amem!

Catorze-Quatro baixou as mãos, abriu os olhos, e ao descrever aos 180 graus, deparou-se com uma circunferência formada por jovens no seu canto preferido. Enquanto orava, a loira que do outro lado aguardava pelo "selfie", foi enfeitando o telefone do irmão Catorze-Quatro com mensagens eróticas e imagens, umas em estado animalesco e em poses “kamasutranas”, que divertiram, nos quinze minutos da sua longa petição de “perdão e abertura dos bolsos", os jovens que rápido se abeiraram das suas máquinas: um potente telefone e uma interlocutora da conversa virtual “bem calibrada” fisicamente e com tudo à mostra.

Quando se dirigiu ao assento, foi recebido com um criativo "irmão Catorze, temos de redobrar a vigilância e vergar cada vez mais o joelho, os telefones estão cheios de perigos”, ao que respondeu com um cabisbaixo “sim, irmãos. O mundo é um ‘pirigo’ permanente”, dando-se conta do "cinema sem bilhete” que proporcionou à miudagem, ao mesmo tempo que eliminava, uma após outra, as mensagens eróticas e imagens com a “cipala” e o "peito alto" da “kindoza” que se parecia a uma “kuribeka” barata e caçadora de tesouros.

"Irmão 'Pirigo'", irmão Pirigoéé?! - Zombam hoje os jovens, dentro e fora da igreja, sempre que Catorze-Quatro põe a cara fora do quintal. A sua fama ainda corre o Rangel, pois apesar do acontecimento levar já décadas, os miúdos que se tornam adolescentes e jovens ainda escrevem, e cada vez mais, em todas as ruas onde é conhecido: "por cá também passou o irmão 'Pirigo!'"

Texto publicado pelo Semanário Angolense a 19.09.2015

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

CRIANDO SOBRE A CRISE

Conversavam sobre o futuro da gestão dos seus lares, agora que a economia do país enfrenta dificuldades. Zara e Kuka são comadres e colegas de trabalho.
- Kuka, sabes quais são os princípios que uma boa administradora de casa precisa ter para cuidar bem das finanças pessoais e educar os de casa? -Questionou Zara que frequentara um curso de economia doméstica.
- Não, colega Zara. Podes explicar-me? - Kuka estava expectante, ante as conversas que ouvira durante o percurso de casa ao local de prestaçao de serviços.
- Olha bem – começou Zara. - Mapear  os alvos, as metas e a missão é de extrema importância. A isso se junta a visão que aponta o que queremos ser ou fazer e a disciplina que nos permite estarmos focados naquilo que idealizamos. É preciso também coragem e Generosidade. - Explicou à amiga que seguia com atenção.
Zara, percebi algumas coisas, mas, que tal se me deres mesmo uma lição. Sei que é mais ou menos entendida nessas coisas de economia doméstica. – Solicitou Kuka.
- Planeamento é projectar, tencionar ou elaborar um o plano. Por exemplo, queres diminuir as compras porque a receita ou o que recebes no fim do mês baixou ou o valor nominal se mantém, mas o poder de compra baixou. Nesse caso, tens de fazer um projecto de contenção de custos e eliminação de gorduras e desperdícios. – Zara ainda ai a discorrer mas a curiosidade de Kuka era tanta que voltou a interromper.
- E quê isso de gordura?
- Gordura é tudo o que é a mais e pode ser eliminado nas nossas compras. Se um par de sapatos e respectiva caixa custar mais,  deixamos a caixa e na mesma temos os sapatos. É um exemplo mas temos vários outros. É preciso gastar menos do que se ganha ou ter um equilíbrio entre o que se ganha e o que se deve gastar. Olha que o planejamento financeiro Pessoal é um plano de acção que deve acompanhar a vida das pessoas em tempos como os que se avizinham.
- Já viste, Zara? Estou a compreender aos poucos. Quer dizer que temos de pensar de forma antecipada e pensa melhor no que devemos gastar e como gastar? Devemos ser pessoas organizadas para ter sucesso financeiro na vida? Devemos fazer mais em menos tempo? –O interesse e as perguntas de Cuca pareciam não ter fim.
- Sim. É isso mesmo colega. – Confirmou Zara. - Planear é administrar com excelência. Para começar, precisamos de colocar numa folha de Excel todos os nossos rendimentos mensais e listar todas as nossas necessidades que envolvam dinheiro e distribuir em percentagens, sem nos esquecermos de uma reserva para as imprevisões. Eu já tenho a minha folha e estou a exercitar a sua implementação. - Explicou Zara.
- E qual pode ser o efeito imediato disso, Zara? - Voltou a indagar Kuka já mais familiarizada.
- Você vê, por exemplo, que só tem dez mil Kwanzas ao mês para a formação do seu menino. Com a distribuiçao de parcelas do orçamwento por rubricas, terá de encontrar um serviço compativel com o dinheiro que tem. É mais um exemplo. – Reforçou Zara. –Imagine que em sua casa vivam cinco pessoas e bebem cinco garrafas de gasosa que custam mais do que um pet de litro e meio. Se comprar o pet fica mais em conta. Já viu?
- Olha, colega, não precisas de ir mais longe na explicação. Obrigado pela aula. Vou começar por corta os nossos dois nomes: Irei cada vez menos à Zara e usarei cada vez menos a Kuka. Os apadrinhamentos, as festas, os amistosos do seu compadre ficam todos com rubricas e so acontecerão esporádicamente, caso haja cabimentaçao. Também vou começar a procura produtos alternaticvos para aqueles que estejam muito caros ou que sejam de duraçao muito reduzida. Sabes que barato, às vezes, também sai caro, nê?!  -Ironizou Kuka que estava muito feliz e pronta a transmitir os conhecomentos que obtivera às demais colegas de trabalho e à família.
- É isso mesmo, Kuka, em tempos de crise nada melhor do que criar. É só retirar o S. Comigo é: se há CRISE, CRIE! –Disse Zara, já a entrar para o seu gabinete.