domingo, 1 de dezembro de 2013

NOVA GAZZETA PERGUNTA E SOBERANO CANHANGA RESPONDE

Entrevista reaçlizada a 22 de Agosto de 2013 

·        Depois de “Sonho de Kawia” e “Manongo Nongo”, o que  traz com os “10encantos” ?

·        Com o “10encantos” trago o lado e o grito poético que reside em mim. A fonte de inspiração continua  a ser a mesma: a sociedade e os seus contrastes. Porém, a forma de sentir e de narrar os factos é que mudaram.

·        Quando vai ser lançado e onde?

·        Em princípio, penso em lançar o livro na Lunda Sul, durante a semana do Heroi Nacional, por uma razão muito especial.  A minha produção literária é feita neste território que,  aos poucos, vai também ganhando leitores, sobretudo nas instituições de ensino superior em que colaboro. Temos feito um grande trabalho que visa incutir na juventude o gosto pela leitura e quero reconhecer este esforço e entrega da juventude com o lançamento, em primeira mão, de um dos meus livros.

·        Foi o jornalismo que o levou à escrita?

·        A escrita é anterior ao jornalismo como tal. Porém tenho dúvidas em aferir se seria capaz de chegar aonde consigo enchergar se não tivesse o jornalismo como profissão e vício. Continuo a dizer que a literatura é, em mim, uma extensão do jornalismo.

·        Quanto tempo leva para  escrever um livro?

·        Depende. É variável. Tudo começa como pequenos textos que vão ganhando forma ou que ficam na gaveta. Dos três livros já editados, “10encantos” foi o que durou mais tempo a escrever já que tem poemas do tempo do IMEL, 1993, e outros ainda do Ngola Mbandy, 1990. Sempre que publico um livro começo a escrever enquanto outro livro entra em revisão ortográfica. Isso permite-me ter sempre um em prontidão para entrar em produção, em caso de necessidade.

·        Geralmante onde é que busca inspiração para escerever? Qual é o momento do dia que mais o inspira? E onde é que escreve? Na praia, em casa, no escritório?

·        Todas as manhãs, encho a banheira e fico a meditar 20 a 30 minutos, em silêncio, pensando sempre em um tema do passado, do presente ou do futuro (imaginário). Depois traço os esboços ou as ideias chaves. À noite, depois dos compromissos profissionais com Catoca e com as Universidades em que colaboro, passo os esboços a limpo. Luanda é um território fecundo mas a redacção acontece normalmengte em Catoca, na Lunda Sul. 

·        É um homem de múltiplas actividades. A literatura para si é apenas um hobby?

·        Sim. Ainda não me sinto escritor, embora me sinta preocupado sempre que fique uma ou duas semansas sem escrever uma crónica. Também não tenho obcessão pelas coisas. A escrita acontece de forma espontânea e natural… Sem forçar e sem me sentir pressionado.

·        O que é ser escritor para si?

·        Ser escritor é, para mim, sentir de forma diferente o que sinto. Isto é, viver da escrita ou levar a arte muito mais a sério. Por isso, prefiro considerar-me apenas um contador de cenas.

·        Actualmente, o que o preocupa mais na literatura angolana?

·        Preocupa-me a falta de correcção no uso da língua pelos escritores emergentes, a falta de humildade em reconhecer que pouco se sabe da artes da escrita e do domínio das línguas e noto também a ausência dos mais experimentados para auxiliar os mais novos. Felizmente, não é o meu caso, pois tenho o José Caetano, Armando Graça e o Manuel Ruivo que sempre se mostraram disponíveis em me “puxar à orelha”. 

·        Hoje vão-se colocando alguns receios resultantes de uma aparente ausência de renovação geracional, entre os escritores angolanos. É uma questão real? Preocupa-o?

·        Considero que tudo acontece no tempo próprio. É obvio que se a minha geração estiver mais virada para a fama do que para a transpiração, os mais velhos a considerarão sempre como uma geraçãpo incipiente. Temos de nos aplicar mais naquilo em que nos propomos. Temos de mostrar que somos capazes de fazer a viragem, de continuar e aumentar o respeito que a literatura angolana já alcançou.  A questão que hoje me coloco é como fazer novos Aires de Almeida Santos, novos Agostinho Neto, novos Uanhenga Xitu, novos Viriatos, etc. É essa a questão que me persegue.

·        E o que pensa sobre a ideia comum de que os jovens escritores angolanos não sabem escrever?

·        Acho que não devemos generalizar em demasia. Reconheço que há alguma relutância de uns em se aprimorarem no domínio das línguas e da exposição artística das ideias.  Um texto literário ou para literário não é a mesma coisa que um texto não literário. Os primeiros têm de possuir elementos estilísticos que lhes conferem beleza e arte.

·        Já agora, o Prémio António Jacinto não teve vencedor pelo segundo ano consecutivo, e o argumento evocado pelo júri foi exactamente a falta de qualidade dos candidatos. Como olha para essa questão?

·        É uma pena que estando poucas vezes em Luanda ainda não tive a oportunidade de me candidatar. Vou no terceiro livro e nunca participei de tal prémio. Quero tentar para depois poder fazer um melhor juizo. Pode ser que os juízes tenham razão. A recíproca também pode ser verdadeira.

·        Que escritores angolanos tem como referência? Por quê?

·        Rodferick Neone, Isaqueil Cori, o incontornável Uanhenga Xitu, Jacinto de Lemos, Pepetela, Jofre Rocha, etc. São autores cujos escritos influenciaram a minha forma de encarar o mundo e a realidade. Já os li muito nos tempos do IMEL (curso de jornalismo) e continuo a lê-los.

·        Os angolanos não têm hábitos de leitura. Concorda? Há quem diga ser um falso problema.

·        Faltam hábitos de leitura, sim senhor! Houve um tempo em que os país se tinham demitido da missão de educar os filhos a ler. Já vi livros a serem rasgados para empacotar ginguba… Por outro lado, a carestia dos livros também afugenta quem quer ler mas não tenha dinheiro. No ensino médio, costumávamos emprestar os livros e em finais de anos oferecíamos e recebíamos livros. Também era obrigatório frequentar a União dos Escritores Angolanos. Não sei se a União ainda enche como nos anos noventa.

·        Que mecanismos devem ser usados para incentivar o hábito de leitura nos jovens?

·        Criar bibliotecas infantis é um bom caminho. Os pais devem ler para os filhos e diante dos filhos para que estes se orgulhem e lhes sigam o exemplo.

·        É fácil editar um livro em Angola?

·        Não. Ou se tem dinheiro para pagar ou se arranja patrocínio ou você é excelente e cai nas boas graças de uma editora que assume os custos na totalidade. A última vertente é a mais difícil.

·        Literatura na política, literatura politizada. Estas expressões existem, no contexto angolano? Que lhe dizem?

·        Já li alguns livros evocativos que me deixaram confuso se aquilo era literatura ou propaganda… Sendo apenas um amante da literatura e não um crítico, deixo essa tarefa aos especialistas para julgarem.

·        Que conselhos deixa a quem está à busca de uma oportunidade para mostrar o seu talento e entrar no mercado literário?

·        Que domine antes a língua em que vai trabalhar e leia muitos autores e diversificados estilos. É o que estou a fazer.

·        Tem projectos literários para o futuro?

·        Muitos. Tenho um livro em revisão ortográfica (“Predestinados” que já tinha anunciado com o título “Relógio do velho Trinta). Tenho ainda “As travessuras do Jacinto” e escrevo outras coisas que podem evoluir para esboços de livros. Não paro de escrever uma coisa ou outra.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

MENINAS, MINAS E DINHEIRO

- É mentira! É verdade! – A disputa punha jovens na flor da idade em dois campos opostos. Cada grupito puxando a sardinha à sua brasa.
A conversa sobre meninas e minas já levava hora e a aula de economia não ganhava pernas para começar. Professores e alunos passavam em revista os últimos acontecimentos e as últimas noticias divulgadas pela media.
Inspirando-se em Arlindo Barbeitos, Kexijina Lamba, que já estava farto da certas conversas sobre minas, pediu ao professor e aos colegas para ler um texto que tinha escrito na última noite, depois de ouvir mais uma estória cabeluda sobre minas que disputam a maternidade angolana em termos de números.
 E começou:
Há muitos anos houve em tempo em que o pais foi minado pelos militares de diferentes exércitos  que aqui se pleitearam por várias razões e convicções. Minaram os tugas que tudo fizeram para não serem corridos do país que lhes era alheio, minaram os movimentos de libertação nacional que pretendiam acabar com cinco séculos de domínio estrangeiro, minaram os rebeldes do pós-independência, minaram as forças do Governo da República Popular e minaram os exércitos “socorristas” de África, América e Euroásia.
Há muitos anos houve um tempo em que se dizia que havia uma mina para cada um dos angolanos e que restavam umas tantas outras para estropiar quem cá encontrasse poiso…  E o sermão das minas levado de rádio em rádio, de jornal a jornal e de televisão em televisão passou de boca em boca como o passa a palavra das forças armadas em combate contra a verdade das minas.
Mina por cá, mina acolá até que o povo deixou de fazer agricultura com medo delas. As cinturas verdes que noutros países em situações análogas de conflito eram normais e crescentes tinham desaparecido pois  aqui só faltam existir minas voadoras como os aviões de comida importada pelos próprios propagandistas das minas. E os miúdos que nasciam desconheciam a jingubeira e o milheiro, pensando que a jinguba fosse uma invenção fabril ou das lojas dos “governantes mineiros” e o milho procedente duma planta chamada PAM.
Há muitos anos houve um tempo em que, preocupados com as notícias sobre as minas, vieram de todos os cantos ONG´s calejadas em localização e desactivação de engenhos. Desminaram falácias sobre minas à volta das cidades que impediam a horticultura , a avicultura e a pequena pecuária refugiada no medo crescente dos engenhos. De repente as cidades começaram a produzir. Couve-flor, aguardente e frutas também. Tubérculos, ovos e leite também. E os homens dos discursos mineiros cedo se tornaram em novos evangelizadores do verde periurbano, tornando-se donos . Roncaram moto-bombas, desviou-se água da boca para a raiz da hortaliça. Mas as minas continuaram milhares e impossíveis de erradicar no interland, agora com novos donos e vítimas de sempre e como os discursos de sempre.
Há muitos anos houve um tempo em que se apregoou que as minas, mesmo aquelas implantadas em zonas onde nunca houve presença militar precisavam de ser desactivadas, explodidas ou apenas transformadas em outras minas cabíveis em bolsos gordos de verdura americana. E se condicionavam agricultura extensiva, estradas distantes, cidades largas, tudo se condicionava às minas por estancar dando lugar a outras minas.
Há muitos anos que se vai desminando, sempre que se plante uma mandioqueira, um poste de energia periurbana, um prédio urbano, uma cantina agrícola. As minas tornaram-se também minas no decénio da probidade que enfeita discursos repletos de minas que dão transbordo a bolsos de dezenas que se riem ad eternum, a desfavor de milhares de mutilados por falácias e repletos de fome e nudez causado por minas.
Há muitos anos houve um tempo em que os engenhos implantados pariram minas!
Kexijina Lamba terminou, com aplausos, a composição que tinha sido o tema para trabalho caseiro que consistia em reflectir sobre o impacto das minas pessoais na economia do país.
Kexijina Lamba terminou, com aplausos, a composição que tinha sido o tema do trabalho caseiro que consistia em reflectir sobre o impacto das minas pessoais na economia do país.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

BRUNE DE DINHEIRO

- Lupuka, lupuka! - Kota Matadi acordou às 10 horas, ainda kimbonzado[1]. A noite lhe tinha despedido no alambique do Januário onde se embebedou até desconhecer-se por completo.
Matadi passou água na boca e, ainda cheirando a kaporroto[2], dirigiu-se à casa de Jacinta.
- É quê então, esta hora, cinco da manhã, já estão a se dar kibeto[3]? – Perguntou Kota Matadi, ainda entre a torpez e lucidez.
- Cinco horas, acorda mano Matadi. Já é meio dia. – Respondeu-lhe a menina Joaninha.
Matadi olhou para o sol. Bola de fogo no meio da bola azul.
- Ara possas! Mas é quê então, pá?! Ninguém me responde razão da kavuanza[4]? - Ameaçou.
 - É mano Bernardo que lhe picaram faca no primo Joaquim. As tripas saíram todas da barriga e papá foi chamar o sô 'kifirmero' para lhe cozer. – Explicou Joaninha, filha de Jacinta.
- E a burra da tua mãe foi aonde e onde é que Bernardo lhe meteram?
Enquanto a boca destilava fel, a cabeça de Matadi estava em caldo. O homem gira-girava com a catana à cintura, sem destino.
- Esse gajo do Bernardo, se lhe apanho, vou lhe esquartejar. – Vociferou.
- Ó tio Matadi naquele dia kimbanda[5] falou que o primo Joaquim lhe deram brune[6] de ter dinheiro e está à procura de pessoa para lhe matar com wanga[7] dele mas como não está aparecer… - Joaninha deu-se conta que estava em estrada de adultos e meteu a mão na boca.
- Fala, sua burra. – gritou Matadi. – Quem te explicou essa maka toda?
- E, tio não vê ainda mano Bernardo? - Astuta, Joaninha cortou a conversa do feitiço.
- Não Joaninha. Não. Quando Juízo na cabeça me está a ferver não gosto ver sangue porque quando viro bicho ninguém me aguenta. Mas, vai , corre ainda no caminho da tua mãe ver se 'kifirmero' está chegar.
Na phela do régulo havia motivo para reunião  e o caso não era simples. Havia, há já algum tempo rumores sobre wanga de dinheiro, pedofilia e outras makas que estavam a espera de alguém que fosse encontrado com a boca na botija. Os oficiais de justiça comunitária têm á mesa uma tentativa de homicídio e vão aproveitar a fazer o Estado da Nação. A polícia estava longe e a ordem tinha sido alterada.
Soba Kavuindi, cachimbo na boca era motor a fazer ressonância na subida. Parecia tractor preguiçoso a puxar carroça cheia de milho. Chamou os notáveis para analisar o problema do Joaquim e mandou jovens com pulungunza caçar o Bernardo que estava foragido. Até agora ainda não se sabia ao certo por que razão Joaquim levou a navalha às miudezas de Bernardo.
Kinanvuidi, o enfermeiro, chegou a tempo de remendar a vida de Bernardo. Estava já a caminho do Hospital Grande da Vila que ficava há vinte quilómetros.
- Mas ó Joaquim, seu burro de merda, onde foi que tiraste esse juízo da faca? – Interrogou Kavuindi, o soba.
- Pai lhe encontrei com minha mulher a lhe dar um papel. – Defendeu-se o réu.
Joaquim estava amarrado à borracheira que dava sombra à phela.
- Mas que papel é esse? É 'fodrografia'? - Questionou o régulo, algo impaciente.
- Não, pai.
- É dinheiro?
- Também não.
- Porra, pá?! Então é quê que não te sai dessa boca de porcaria? - Kavuindi demonstrava já muita impaciência e os oficiais de justiça entre olhavam-se a espera de uma ordem emanada pelo soberano.
- É poema, ngana soba. – Respondeu Joaquim entre lágrimas.
- E poema se espeta faca no outro? Ou sexplica ou vais ver diabo a assar sardinha. - Ameaçou o soba.
- Bernardo e eu somos amigos. O pai sabe.
- Sim, continua. Respondeu o conselho do soba.
- Bernardo e eu fomos no kimbanda para receber brune de dinheiro. Cada foi no dia dele. Ninguém se viu. Mas eu sei. Lhe mandaram dar papel de amor na mulher do melhor amigo para depois lhe dormir. Sabendo que eu seria o visado fiquei de olho e no dia do tal poema lhe antecipei com uma baioneta. Foi apenas isso.
- E dizes foi apenas isso como se tirar vida no outro fosse matar galinha? E a mulher vais lhe assumir ou vais lhe sengar? – interrogou Ngana Tandela, responsável pela aplicação da justiça e preservação dos costumes.
- Vou lhe entregar com ele. – Respondeu Joaquim.
- O quê? Fida caixa, pá! Se eles não se serviram você vai sengar a mulher?  Que culpa ela tem? Se tu e teu amigo se meteram nos brune? Eu quero que você laperdoa já, logo logo sai das cordas. – Ditou o ancião.
Sem mais nem menos, Joaquim desamarrado da árvore da phela cumpriu a sentença: custear as despesas de saúde do Bernardo, trabalhar na lavra do ofendido até que melhore e pegar de volta Jacinta, sua esposa, que se refugiara em casa dos tios. Bernardo teria igualmente a sua reprimenda mas só quando sarasse a última ferida.

[1] Ressacado.
[2] Bebida alcoólica destilada.
[3] Porrada.
[4] Confusão.
[5] Adivinho, mágico
[6] Feitiço.
[7] Feitiço.

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

A DIMENSÃO, TEXTUAL, SOCIAL E ESPIRITUAL NOS 10ENCANTOS DE CANHANGA

NOTA PRÉVIA DO AUTOR

O meu Sonho, começado nos anos 90 e retomado com mais vigor com a abertura duma página para publicação de poemas, vê-se realizado com a publicação do livro que traz o mesmo título do Blog 10encantos. Vamos caminhar, buscando agora atingir a forma e perfeição inatingidos no primeiro poemário. Siga-nos atento como o faz Nguimba Ngola.

AS TRÊS DIMENSÕES DO(s) 10ENCANTOS DE SOBERANO CANHANGA
Por: Nguimba Ngola

Setembro é o mês em que nasceu Agostinho Neto e, no dia 17, o nosso poeta transita. O povo lembra-se dele nas várias dimensões da sua vida, como poeta e político. Na Cidade Diamante, a cidade da Pedra Brilhante, Neto também foi lembrado. Várias foram as actividades.

Na manhã do dia 16, o anfiteatro da Escola Média Politécnica, transbordou literalmente de alunos. Sim. Plateia jovem ouve atentamente a governadora, Cândida Narciso, palestrando sobre Agostinho Neto. Em seguida, vem a apresentação do terceiro (O Sonho de Kaúia, Manongo-Nongo, 10encantos) livro do escritor Soberano Canhanga, jovem de Libolo, onde nasceu há 37 anos.
A mim, coube a missão, desnecessária (?), de apresentar o livro que, depois de alguma relutância, aceitei porquanto tinha sido indicada outra apresentadora que por motivos alheios não se fez presente.

Soberano é um dedicado “bloguista”. Tomei inicial contacto com seu texto poético no seu blog “10encantos” que é o título do mais recente livro publicado. Já na sua forma gráfica, cuja apresentação não deixa a desejar, peguei o “filhinho” do Soberano entre mãos, acariciei-o, senti-lhe o cheiro agradável, passeei brevemente nos textos, para constatar o modo de arrumação. Enquanto isso, a voz no microfone anunciava o nome Nguimba Ngola para tomar o lugar. Um friozinho toma conta de mim, é grande a responsabilidade, câmaras, olhares atentos expectantes da apresentação, “é o tio dos livros do tchilar…” ainda ouvi da plateia. Som e palavra é igual a poder. Ganhei o poder e comecei. Tirei partido da apresentação para o aconselhamento dos jovens sobe a importância da leitura. No final, as palmas. Ah, que alívio! Acabou, não é nada fácil falar ao público.
Já no aconchego dos lençóis, eis que meu anfitrião comunica que lhe foi pedido o texto da apresentação. Não o tinha. Apenas as notas rabiscadas em papel qual esboço orientador do pensamento. Um pequeno lap top foi-me entregue. Agora escreva o texto, disse-me Soberano Canhanga.

10encantos do Soberano

Analiso a poesia desencantada do Soberano em três dimensões: Dimensão textual, dimensão social e dimensão espiritual.

Os textos do Soberano se nos apresentam com uma estrutura externa não tradicional, não encontraremos formas fixas como o soneto. Sim. Os textos são desprovidos de métrica, impera porém o verso livre que deixa margens para maior criatividade e liberdade ao poeta.

Ainda assim, elementos poéticos básicos podem ser observados como a rima “Revejo/ num quarto agora vazio/ esse teu corpo tão esguio// Recrio/ emoções e amores loucos…/ voltam à vida aos poucos// Reencontro/ espalhados pelo chão/ roupas, beijos e paixão!” (in Sem medo, pg 85). O ritmo também confere beleza nos vários textos 10encantados. É sentir, por exemplo, “À fala com os meus botões” onde “tarda o sono/ nos sonhos a traição…” (pg 103), ou ainda “tórrida e sofrida/ minha pátria/ dorida…” (pg 53).

A linguagem poética, em muitos textos, torna-se expressiva pelo recurso de figuras e tropos e é assim que encontraremos “pretinha cor de nuvens”, “espertinha na quilometragem da idade”, “o sol já brinca no quintal”, “fustigai-vos ó ventos/ maltratai-vos ó águas/ façam-se remoinhos”, “no além da curva sanitária/ morre o sémen preguiçoso”.

A dimensão social dos poemas do Soberano Canhanga, reveste-se de textos, alguns dramáticos, porém apontado esperanças, “e sonhos de liberdade”. Sinto isso no poema “Êxodo” (pg 29). Quem não constata hoje, o drama nas vidas de muitos que “ontem/ na sanzala/ gente farta gritando/ canções alegres, intrépidas!”? E “Hoje/ na cidade/ gente magra/ esfarrapada/ entoa baladas tristes”… Profunda para todos, pois o contrário seria como diz o sujeito lírico do Soberano Canhanga apenas “paz podre” (pg 61), “paz sem perdão/ é tentar esquecer/ sem dar o braço a torcer/ não é paz, é podridão”.
Eis então que no que depender de todos nós, devemos buscar sempre a paz.
Sensível, o poeta, ante o drama da transição (morte), pede a que se chore a “mãe-grande”, mãe de seu “grande kota José Caetano”, “com prosa e poesia…// com pintura e escultura/ choremo-la com realidades e ficções/ choremo-la com ARTE!” (pg 33). São os 10encantos do poeta, desabafos e choros, “o mundo enfrentar/ sofrer (?)”.

O fenómeno prostituição também é motivo lírico pois pululam ao vento “kitata kuribeka”, que deixam suas tetas moribundas serem sugadas “no leito da morte”. Hoje é intensa a correria ao “álcool barrigudo” e, despudoradamente, vão “xaxatando nádegas flácidas” “mbunda ya kitadi”, “mbolo ya kizwa/ kufwa kidi!” (in Na cama de hotel, pg 18). O falante lírico vive intensamente suas paixões, descrevendo-as com nostalgia, rememorando sonhos e traições, e muitas vezes encantando-se com a beleza da(s) sua(s) amada(s).

Na dimensão espiritual, vejo o poeta convocar-nos para o cultivo. “Vinde e cultivai/ que é próprio o memento!” É o momento de amar verdadeiramente pois “ o nosso amor é a importância que nos atribuímos”. Todos aqueles que se furtarem ao verdadeiro amor devem perceber “que é chegada a ceifa” , “é chegado o julgamento/ do Cefeiro que chega à hora”, eis a infalível reintegração cósmica. O eu lírico confronta-se com a realidade mística “há vezes/ em que não sou eu quem age/ mas o oculto” (pg 44). Sim. É a inteligência universal comunicando.

Saurimo, 16.09.2013.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

NA ENFERMARIA COM NELSON MANDELA

Estou enfermo, na África do Sul, acompanhado pelo Beto Spina e Didi Domingos, meus dois amigos desde a adolescência. O Beto é o meu “canino” confidente e o Didi, enquanto piloto aviador, é conhecedor do país do arco-íris.

O Hospital-Hotel em que estamos alojados é o mesmo que dá tratamento ao ícone maior da tolerância africana, Nelson Mandela. É uma pena que neste momento em que escrevo essas linhas não me lembre do nome e tenho de fazer um esforço para sair e ver o letreiro. Mas, confesso, era inimaginável um hospital onde o paciente pudesse ter também alojados os seus acompanhantes. Por isso trato-o por Hospital-Hotel.

Apesar do requinte e serviços de última geração, o Hospital-Hotel é um equipamento construído e mantido por homens falíveis. Na última noite, o meu quarto-enfermaria teve uma pequena fuga de água e, na aflição, refugiei-me na enfermaria seguinte onde estava um idoso com o cabelo todo esbranquiçado. O quarto-enfermaria era simples como o meu. Havia um grande movimento no corredor. Rezas, espetáculos tradicionais que me fugiam do entendimento e muito mais. Havia também um polícia, mas algo distanciado do corredor, a quem as pessoas se dirigiam em caso de anormalidade no quarto do ancião.

- Imagine o meu espanto quando olhei para a foto que ocupava o espaço-topo da banca de cabeceira do idoso acamado?!

Era a foto de Nelson Mandela. Quase cai de susto.

- Nelson Mandela aqui? - Não quis acreditar e refiz a pergunta colocada a mim mesmo.

- Eu no hospital de Nelson Mandela?

O idoso repousava na sua cama de hospital, já sem a respiração assistida mas muito fragilizado pela idade e pela enfermidade. Tinha os olhos fechados e parecia estar no quinto sono. Mesmo assim, ousei em saudá-lo no meu torpe Inglês.

- Grand Father, good morning!

Uma voz vinda do fundo da alma, tão fraca mas cheia de vida quanto podia, respondeu-me.

- Good morning. Are you from Moza?!

Fiquei mais estupidificado ainda ao receber aquela resposta à minha saudação e, sem demora, tentei refinar o meu pobre Inglês:

- No, grand father, I´m came from Angola.

Pois isto, o ancião ergueu os olhos e respondeu-me com uma voz muito mais nítida.

- Oh, well come and not be afraid.

Engasguei-me. A frase seguinte que me saiu da boca foi em Português

- Sim, avó! - Respondi-lhe alegre.

Minha enfermidade  e minhas preocupações com o quarto que tinha infiltração de água tinham meticulosamente passado. Lembrei-me de que quando voltasse a Angola teria de me gabar do facto e peguei no telefone para gravar o resto da conversa, sem que o mais velho desse conta disso.

E, Nelson Mandela pediu-me, num Português melhor do que a minha dicção do seu Inglês, que me sentisse à vontade no seu quarto-enfermaria, indicando-me a cama ao lado que estava vaga.

- Por favor, senta neste cama e deixa mais velho dormir um cabocado.

- Thank you very much, my grand father. – Respondi-lhe felicíssimo.

Momentos depois, lá apareceu o gerente da parte hoteleira da instituição a comunicar-me sobre um novo quarto para onde haviam sido transladados os meus pertences. O homem, alto e calvo, mas de elegância e polimento incontestáveis, começou por desculpar-se pelos transtornos ao que respondi apenas com um “do not worry”.

Já com o Beto, e ao encontro do Didi que estava alojado noutro hotel, o Hill Park, contei o que vivi naquela tarde e fomos espalhando, entre os angolanos com quem cruzávamos, a minha boa nova. Uns estavam crédulos.
- É normal aqui na África do Sul um responsável estar ao lado de gente normal. - Diziam. 

Outros, entretanto, estavam um tanto ou quanto renitentes em acreditar. Foram estes que me fizeram puxar do telefone para reproduzir as últimas palavras que Mandela me dissera no seu quarto-enfermaria, antes do gerente me arranjar outro aposento.
A frase “Por favor, senta neste cama e deixa mais velho dormir um cabocado” ainda ecoava nos meus ouvidos.

Ao procurar pelo arquivo de sons gravados, o meu telefone tocou. Trim, trimmmm, trimmmmm. Era o despertador que me apelava para a hora da higiene matinal.

Afinal foi apenas um sonho.

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

O AMIGO DO CAMARADA ANTÓNIO JACINTO


No meio da floresta densa, Mwata Cikambi e seus parentes ergueram um vilarejo com cerca de quinhentas almas. O átrio estava arreado. Flores silvestres engalanavam a parede que expunha quadros de figuras políticas do contexto estadual e internacional. Olhando para a parede, frontal à vista da população e onde se acomodava a mesa do presidium, Mwa Cikambi, o anfitrião, começou por apresentar ao povo os presentes, depois os ausentes vivos e os ausentes finados.

- Povo, Gi!

- Gi! - Respondeu eufórico e na mesma bitola.

- Este é o nosso novo comissário. O nome dele é Satula Muryanga. Uma salva de palmas para o nosso chefe. - Solicitou.

- Puá, puá, puá! - O povo correspondeu com três salvas sincronizadas.

- Com o comissário veio também a sua camarilha. Peço que se levantem para que o povo vos conheça. – Prosseguiu o regedor na sua apresentação.

- Puá, puá! – Ouviram-se duas salvas de palmas mais brandas.

-Povo! Aqui na parede, sob o olhar silencioso de Lénine que está aqui, - mostrou a foto do pai da Revolução Socialista de Outubro – está o camarada Manguxi. – Mwata Cikambi fez uma pausa mais prolongada para aguardar pelas habituais salvas de palmas.

O povo assobiou de contente e soaram estridentes rajadas de palmas antes inaudíveis.

- Ele é pai grande. – Gritaram alguns jovens mais espevitados, referindo-se ao finado camarada Manguxi.

- Aqui, ao lado do camarada Manguxi - prosseguiu Cikambi – está atento e silenciosamente o camarada António Jacinto do Amaral.

- Puá, puá, puá! - Novamente uma tripla rajada de palmas que serviram como barómetro do auditório.

Cikambi desvia o olhar para a foto seguinte, a de Marx de quem não se recorda o nome, e anuncia:

- Este último, um camarada também importante na história da nossa luta, é o camarada… - tentou buscar o nome ou uma ajuda mas não a obteve e continuou – é o camarada amigo do camarada Jacinto Amaral.

Nisso o povo que até ali se tinha comportado de forma urbana começou a gritar: “o nduko; o nduko yaye?! [1]”.
 
O comissário teve de intervir...

Extracto do livro PREDESTINADOS (no prelo)


[1] O nome; o seu nome?! (do umbundu).

segunda-feira, 1 de julho de 2013

CHUMBO NO VULTO

1
Obs: este conto é parte do livro "As Travessuras do Jacinto" no prelo
 
Terminada a 8ª classe, quando já tinha 17 anos, Jacinto decidiu-se mudar para Luanda, cidade com muitos institutos, institutos de imperar a “lei da gasosa” [1]nas instituições. Antes deslocou-se ao Lucusse, onde tinha o irmão mais velho da mão. A sua família estava espalhada, um pouco pelo país. Havia a família da parte materna da mãe que estava no território do Moxico. Os da parte paterna de Naxitula eram do Vye, enquanto os parentes do pai estavam espalhados entre os Kwanza-Sul e Norte, Luanda, Malanje e até no Zaire.
- Eh, pá! – exclamou uma vez na escola, aos amigos que zombavam da sua permanente condição de viajante.- Sou um cidadão nacional de pleno directo e com parentes por toda Angola.
Kumonla- o-Njamba, o tio que vive no Lucusse, era um “kazenze ya ihunda yali” [2]e exímio caçador de antílopes que abundavam o leste. Mal Jacinto se apresentou, o tio incumbiu-lhe, naquele mesmo dia, uma missão a desempenhar durante a semana.
- Sobrinho Jacinto!
- Ti- Njamba! – Respondeu sempre solícito.
- Essa é a tua tia Ndombwa, a primeira tia, estás a ouvir bem?
- Sim ti-Njamba.
- Essa é a Carlota, tua segunda tia – continuou Njamba a apresentação a que se seguiram os filhos, dez no total, apresentados conforma os nomes do registo oficial.
- Esse aqui, o filho mais velho da Ndombwa com teu tio, que sou eu, é o Twayovoka Ekokelo Gbadolite, nasceu no dia daquele acordo que não deu certo. Essa é a Yorque Carmelita, filha da tua tia Carlota, que nasceu no dia dos acordos de Nova York. Esse é fulano aquele é sicrano… - Prosseguiu.
 
Jacinto, sempre atento, foi apertando a mão e dizendo o seu nome. Às tias dizia o nome completo enquanto aos primos dizia apenas JAK.
 
Ao terceiro dia, Kumonla-o Njamba que estava em casa da segunda mulher, mais nova por sinal, decidiu mudar-se para a casa de Ndombwa e aproveitando a presença do seu depositário, chamo-o para uma missão.
- Sobrinho, como vês, o tio aqui é mwata. E mwata tem que ter protecção. Como hoje vou na casa da tia mais velha, ficas com essa caçadeira e não permitas nenhuma intrusão na casa da tua tia pequena. Qualquer vulto à noite que te pareça de homem, fogo!
- Missão dada, missão cumprida!– Respondeu o sobrinho.
As casas eram próximas uma da outra, separadas por escassos dez metros, mais ou menos. A noite era friorenta e Njamba lembrou-se que tinha o casaco na casa onde saíra. Como tinha a chave, não foi difícil entrar sem se fazer perceber pelo sobrinho. Pensou que àquela hora o sobrinho estaria no quinto sonho. Entrou sem acordar os miúdos, pegou o casaco e pós-se a lume. Porém, o barulho da porta alertou Jacinto que não fez mais do que cumprir a ordem recebida: Qualquer vulto à noite que te pareça de homem, fogo!
A caçadeira “22 longos” já estava carregada de dois chumbos e Jacinto não teve muito trabalho. Apenas premiu o gatilho e “chumbou as pernas do que lhe parecia um vulto com feições humanas.
O tiro nocturno acordou a comunidade que, de repente se juntou ao quarteirão do jacinto. Uns já cantavam“amukwata makoji” [3]. Num abrir e fechar de olhos estavam no terreiro adjacente à casa todos os aldeões, excepto o dono da casa, o que suscitou curiosidade. Destapado o ferido verificou-se que Jacinto tinha atirado contra o próprio tio.
Enquanto as mulheres choravam e os intriguistas incriminavam, Jacinto e os primos levaram o Njamba ao hospital do Lucusse onde recebeu tratamento. Felizmente os ferimentos não tinham sido tantos.
As más-línguas que corriam pelo bairro, insinuando a Njamba que era preciso dar uma lição ao sobrinho, fizeram com que Jacinto interrompesse as férias para escapar dos mais acérrimos críticos da aldeia.
Quanto a Njamba, não teve como se queixar da acção de Jacinto porque a ordem tinha partido dele. Tio e sobrinho despediram-se e o destino de Jack foi Luanda.
 


[1]Assim se designavam os actos de corrupção nas instituições públicas.
[2]O mesmo que “grilo com duas tocas” ou homem com duas mulheres (cokwe).
[3]Apanhado em adultério.