segunda-feira, 27 de julho de 2020

CONVERSAS EM TEREMBEMBE

O Sol já não era criança. Era muzangala. Pareciam dez e tal. O frio já estava a se esconder e os kangonyeros já tinham se sacudido, preparando-se para ir embora. Antes, partiram mais umas folhas frescas do "marley" que, com certeza, vão fumar amanhã ou logo mais, ao pôr-do-sol.
As mamãs que procedem à rega das hortaliças à volta da lagoa começavam a substituí-los no campo agricultado à volta do depósito natural e artificial de água que a chuva e vianenses mandam ao Terembembe.
Desta vez, se calhar, com medo da serpente que viu ontem, Madó estava bem fardada. Botas mata-cobra, calças jeans, camisola "mamã-me-larga" e casaco pesado por cima. Numa mão um balde regador e noutra a catana e o sacho. Ao avistar a amiga de adolescência, Madalena abriu o rosário:
- Mãezinha, lebras aquela nossa vizinha que era muito amiga da Joaninha?
- Sim, lembro. É o quê então, Madó?
- Eh, miga! S'ncontrei com ela. Ewa! Num te falo!
- É o quê? Xuxa dela já caiu?
- É isso mesmo que iu te falá. Vinte anos, xuxa tipo nenê de doze? Acho lhe atiraram uma merda.
- Também acho. Rabugisse é demais. Pessoa mesmo que num lhe conheces, nem de cima, nem de baixo, lhe acusas te roubou dinheiro, só porque namoras com polícia?
- Assim lhe atiraram mesmo uma merda. Só falta já ter barriga de água.
- Madó, mi fala. Barriga d'água mais é o quê?
- Estás a ver quando as tias falam está gravida mas nenê num se mexe, nem nada, né? Na barriga é só água. Acho que bruxaria que atiraram na Leninha pode ir nesse caminho. Por isso nessa vida é preciso ter cuidado, Mãezinha.
- E assim estás a ir aonde?
- Estou a ir na Estalagem comprar máscaras. Aquele filadaputa do tô cunhado se embebedou ontem e na minha máscara atirou lá molho de frango. Cão comeu os ossos com o pano que ficou todo roído. Mas vai me sentir, só se não só eu Madó da Carreira-de Tiro.
- Não lhe faz mais confusão. Pára já, Madó. Homem de uma só mulher está difícil. As vezes nós mesmas é que provocamos homem te sengar ou te arranjar ajudante.
- Num me fala mais assim Mãezinha. Ele me acordou os kalundús na cabeça. Mas pronto já. Com o teu conselho, vou só comprar máscara e lhe aprontar o almoço.
À moda de Malanje, Madó e Mãezinha deram-se um "kwata-kwata" e partiram cada uma para o seu caminho.
Mãezinha fez gosto ao pé, em direcção à estrada que conduz carros apressados e homens e mulheres andrajosos na preguiça trazida pelo cansaço das pernas empoeiradas. Madó enfiou o corpo no milheiral que cresce e enverdece com a força do estrume fecal levado pela água urbana à Lagoa do Terembembe.

sexta-feira, 26 de junho de 2020

ESCAPOU SER NOMEADO


Quando o amigo que trabalha e trafica informações do gabinete do chefe lhe fwefenhou "vi teu nome, vão te nomear", Ngolombole, contente, como nunca se lhe viu antes, foi à vizinha fazer kilapi de cerveja, cinco caixas; gasosas, três caixas - crianças e mulheres bebem pouco; vinho, um barril de cinquenta; porco, leitão de trinta e cinco quilos; frango e costeletas, duas caixas cada.
- Porra, chegou a vez de quem sempre trabalhou e muito esperou. Disse aos amigos convivas, mesmo com a Covid-19 a colocar-lhes entraves e com a polícia a rondar.
- São invejosos. - Proclamou outro, já encopado.
Na segunda-feira imediata, dia em que a vitrine do organismo público em que labuta estaria prenhe de Editais, foi à boutique "Preto-e-fino" e fez "vale" de um fato escuro, como é quase preceito usá-los em cerimónias de empossamento ou outros de equivalente magnitude. A vestimenta estava completa: casaco de dois botões e duas fendas, colete, gravata, abotoadeiras, calças, camisa branca, sapatos pretos, cinto de cabedal, peúgas, lenço de algibeira e graxa.
Ao lado da boutique, o ourives, que era seu conhecido, não ficou atrás e adiantou-lhe a crédito uma grossa mascote e uma forte corrente d'Ouro. Daí para a barbearia foi meio-caminho. Felizmente, esse foi pago a pronto, pois, antes de empunhar a tesoura confirmava sempre o "mbongo na maboko".
No dia do anúncio dos despachos de nomeação, duas semanas depois, viu-se a preto e branco que, afinal, o seu amigo e informante vira mal.
O nomeado foi Manuel Ngolombole Adão Kambundu e não ele, Adão Ngolombole.
Como pagar as despesas à vizinhança que já cobra de 12 em 12 horas?



segunda-feira, 4 de maio de 2020

O CÁGADO E O CARACOL

Havia quatro dias que os dois encarapaçados trocavam mimos, passando pelo meio algumas cajá-mangas que ambos disputavam.
O Cágado, aos meus olhos, chegou primeiro e fez cortes à suculenta e doce fruta que caíra sobre a relva.
Chamado pelo cheiro, o caracol desfez-se da toca e foi também sorver algum melaço.
Quando a fruta acabou, o cágado foi ao encontro do sabor que o caracol escondia por cima e dentro da sua carapaça.
Seguiram-se outros dois dias de brincadeiras de mau gosto. Foi assim:
O cágado queria lamber o melaço de cajá-manga, por cima do caracol e, se lhe fosse possível, comer o caracol.
Esse, já avisado das intenções do vizinho (viviam no mesmo quintal e brincavam no mesmo jardim relvado), procurou esconder-se no mais recôndito espaço, onde a largura e inflexibilidade corporal do cágado não permitia atingi-lo. Assim foram dois dias, ate que:
Chegou o sol. O caracol precisava de aquecer o seu corpo. Saiu da toca e largou o corpo para fora da carapaça. Não tinha visto que o cágado já lá estava à espera de fruta ou de si.
Astuto, o cagado deixou-se confundir com uma pedra, outra toca que bem podia servir de refúgio para o caracol, em caso de perigo redobrado.
Aos poucos, o cágado, já senhor da situação, foi se descompondo. Abriu os olhos, ainda na sua fortaleza corporal. Esticou o pescoço e mediu a distância entre o caracol e a extremidade da relva. Soltou uma perna, depois outra. Largou as membros superiores e foi ao ataque.
Bem que o caracol ainda tentou encolher-se na sua cápsula. Mas uma golpada do atacante abriu-lhe uma fenda a que se seguiram outros ataques.
Hábil a confundir seus predadores, o caracol fingiu-se morto e encolheu-se o máximo que pôde na sua carapaça.
O cágado bem tentou colocá-lo ente as mandíbulas e procurar engoli-lo mas jamais o volume da carapaça do caracol passaria pela sua garganta.
Cansando, o cágado teve de desistir, deixando o caracol ferido, mas vivo!
Lda, 03.05.2020

quinta-feira, 9 de abril de 2020

A ÚLTIMA LUTA DE PAULO KAMBANGELA

Em Kitumbulu (fazenda, algures no Libolo) dos anos setenta, Paulo Kambangela era ainda miúdo que seu padrasto (avô paterno de Matouymorro) mandava correr com os macacos que davam cabo do milho.

O nome Kambangela (cigarra) está ainda por descortinar. Se calhar, quando nenê, gritava que nem uma cigarra estendida ao sol ardente do meio-dia. Quem é do campo já ouviu o grito estridente de uma cigarra.
Matoumorro, nascido depois do 25 de Abril (aquele Abril de setenta-e-quatro) conheceu Kambangela já aos 15 anos, embora soubesse da relação entre seu avô Ngana Muryangu com a velha Lulu, mãe de Kambangela.
Esguio, de altura média e com bom jogo de pernas e truques com as mãos que deixavam embasbacado o adversário da peleja, Kambangela ganhou, nos anos noventa (estamos a falar do século vinte) a fama de melhor lutador da aldeia de Kuteka. Que jovem não o reverenciava?
Kambangela, no dizer dos luandenses daquela época, "fazia ponta". Isto é, numa casa, podia surrar do mais novo ao mais idoso. À astúcia na peleja, juntava aspectos sádicos e virulentos.
- Éh, luta do mano Paulo só acaba quando ele ganhar. Se você lhe bate e foge ele te persegue ou te faz uma emboscada até te tirar sangue. É por isso que toda a gente lhe tem medo.- Diziam os púberes de então.

Por razões que nunca explicou, Kambangela nutria nutria um ódio visceral contra o seu antigo padrasto Ngana Muryangu, avô de Matoumorro. Assim foi que ao se terem avistado, em 1990, quando Matoumorro se refugiara na aldeia de Bango-de-Kuteka, fugido do ataque da Unita a Kalulu (25 Dez 1989), o lutador-mor encontrou no neto do antigo padrasto uma oportunidade de vingança.

Matoumorro, nos seus 15 anos, já era costureiro, profissão que aprendera dois anos antes com um primo com quem viveu em Kalulu. Estava, por isso, em casa do Ngunza-a Mbondondo, ajudando-o a colocar bainhas em alguns panos. Quando Kambangela, que era "kiphá" (contemporâneo) de Mbondondo, o viu começou a disparar em jeito de provocação.
- Xê, seu burro de merda, vais estragar a máquina de coser.
- Se o kota não saber, aprendi com o grande mestre Nguza-a-Soba e o kota Nando Mbondondo só me chamou porque sabe que posso ajudá-lo. Defendeu-se Matoumorro.
- Disseste o quê, neto de feiticeiro? Hoje vais me sentir que até o teu avô vai ressuscitar para te acudir.

Matoumorro ainda tentou justificar-se mas os cinco dedos calejados de Kambangela já tinham deixado marcas no seu rosto.

A audiência, conhecedora da malvadez do agressor, se conteve, embora reconhecendo que o rapaz nada fizera de errado para merecer tamanha agressão.
- Não te fiz, nada kota. Se me deres mais vou ter de me defender. - Atirou o rapaz, cujos nervos subiam à epiderme.
Ouvido isso, primeira vez em que Kambangela fora desafiado, o lutador da aldeia queria fazer do rapaz seu batuque.
- Lelo ngumuxika (hoje vou batucá-lo)! - Disse à plateia que aumentava minuto a minuto. Uns tentando acudir mas sem pretender se comprometer e outros com sede de ver sangue e um julgamento posterior na grande árvore do soba Mungongo.

Para o impedir de fugir, Kambangela pressionou Matoumorro pelos ombros, impossibilitando-o de se levantar da cadeira. Jamais tinha imaginado que o seu peso diminuto era vantagem para o adolescente que se pôs em pé com o adversário pendurado às costas.
Kambangela parecia estar lyambadu. Seus olhos eram sangue. Espumava pela boca à medida que rebuscava o mais profundo disparate contra o avô, o pai e a mãe de Matoumorro, por sinal sua parente.
Já fora da sala, levado às costas pelo adolescente, Kambangela tentou usar a sua táctica de sempre. Jogo de pernas, como fazem os pugilistas, e batimentos no peito que terminavam, sempre e certeiramente, com um golpe ao adversário.
Atento e já destemido, Matoumorro agarrou-o pelos ombros e espetou-lhe uma valente cabeçada que atirou o "Golias" ao solo rígido.
- Ewe?! - Gritou a plateia entre júbilo, pela derrota de kambangela, e medo do porvir.
- Corre. Vai. Fecha-te em uma casa. O Kambangela vai te matar. - Aconselharam outros.
A Cena seguinte foi Matoumorro a correr, seguindo os conselhos dos familiares mais directos e Kambangela a correr em direcção à sua casa, como se fosse em busca de algo contundente para se desforrar. Já não foi visto naquela tarde e noite.

No dia seguinte havia uma caçada pelas montanhas de Kitumbulu (junto à fazenda do avô paterno de Motoumorro (ex padrasto de Paulo Kambangela).
Não vai. Quando voltarmos vamos associar carne para ti. O mano Paulo pode te flechar. - Desaconselharam o rapaz a sair de casa.

Sem medo e com o atrevimento da idade, Matoumorro meteu-se a caminho do sertão, mesmo sem zagaia e flechas. Evitaram-se durante a caçada que durou 6 horas. Foi mais Kambangela quem andou distante do infante. De lá para cá nunca mais Paulo Kambangela lutou e ficou desfeito o seu mito de lutador invencível do Kuteka.