domingo, 1 de julho de 2018

SONHO DE MARINHEIRO

O desabafo bruto e cru daquele homem de meia idade tinha deixado meio mundo boquiaberto. Melhor porque foi em mar abeto. Na terra, uma tirada como aquela e saída da boca de quem saiu teria um imediato catálogo herege.

O barco em que seguiam andava à deriva havia já muitos pares de anos. Todos os avisos das cercanias e de radares externos tinham sido pura e simplesmente ignorados. Embarcações em situações análogas há muito tinham afundado ou mudado de comandante. Navio como aquele e tripulação como aquela já se contavam aos dedos de uma mão pelo mundo oceânico, onde os ventos turbulentos coligavam com os tubarões de todos os dia.
Martins, o homem do desabafo, era marinheiro há já três décadas. O seu apego pelo mar é natural. Nasceu à beira duma ria e cedo seus pais se mudaram para uma ilhota do Índico, até que, numa noite de poucas estrelas, o mar rugiu e fez juntar as águas de todos os lados. A casota de palhas de palmeiras e mafumeiras foi abraçada pela água furiosa. Martins perdeu o irmão das brincadeiras e a mãe dos fervidos e assados. Viu-se apenas ele e o pai flutuando sobre o mar deserto, apoiados em velhos destroços duma antiga piroga.
- Papá, o mar atingiu-nos. – Disse Martins tão logo se deu conta da situação calamitosa em que se encontravam.
- Sim meu filho. O mar atingiu indelevelmente nossas vidas. Comparado a isso foi apenas o fascismo do início do século. - Respondeu José, o pai.

Vivia-se o século vinte. Bem no começo da segunda metade. Os náufragos lutaram contra as águas raivosas e o vento furioso e um sol assador, até que ao cabo de sete horas sobre aquele dilúvio fizeram-se à terra firme. Eram heróis aos olhos do povo que perfilava a costa e que já tinha preparado oferendas à Kianda, mãe de todas as sereias  daquele mar agitado.  Era a forma habitual de impedir que mais mortes acontecessem.
Lukinda, de seu nome de nascimento, viu-se apelidado por Martins, uma corruptela de “mar tingiu-nos”. E assim ficou conhecido e reconhecido agora como marinheiro de incontáveis milhas.

O navio já levava anos à deriva no Índico. Martins era capitão. O comandante era Sam Téh. Homem hábil nos tempos que já lá se foram, mas que se apresenta agora com o cérebro calvo e fragilizada pelas calemas que sempre o apoquentaram durante os dois séculos cruzados pela sua vida. Embora Martins fosse pessoa influente e homem de argumentos que incentivavam os co-viajantes a se manterem no barco até às últimas calemas, era Sam Téh que tomava as decisões e a quem todos deviam obediência.
Sam era duma crueldade que alimentava os tubarões com os seus marinheiros revoltosos. Em terra firme a capitania já o teria apeado do leme. Mas em alto mar, e com o navio sem bússola e sem terra à vita, a ninguém mais Sam prestava atenção senão ao seu próprio ego. E não foram poucos os capitães promovidos e despromovidos por erros do Comandante mas sempre imputados a Martins e pares.
Na sua vida de marinheiro, Martins já fora herói e vilão. Soube sempre coabitar com o mel e fel naquele navio. Em tempos de bom vento, fora inclusive elevado à categoria de Vice-Comandante. Foi descendo, descendo, devagar, devagarinho até se deparar com a condição de simples passageiros. Era isso que não entendia por mais esforço que fizesse.
- Está difícil manter o Estado neste barco. – Desabafou Martins perante a multidão que planejava a destituição do Comandante e encontrar um comandante que os levasse a porto algum.
- Mas ó camarada Martins, você não faz parte da tripulação? - Questionou  Taci, um crónico insatisfeito.
- Não meu senhor. Já fiz o que pude fazer enquanto achei que alguma terra nos pudesse acolher. Com o actual estado de coisas, tudo o que pretendo é que passe por cá um barco ou helicóptero que nos socorra e nos salve desta aventura samtsetiana, disse entre dentes, antes de se retirar.
Mal tinha colocado o pé na porta do seu aposento, o seu desabafo já se tinha convertido em assunto para reflexão e debate.
Primeiro perguntou-se a autoria do seu nome e depois o significado daquele “está difícil manter o Estado neste barco”. Ninguém conseguia perceber o alcance daquelas palavras tão simples quanto profundas como o Índico que os mantinha cativos entre a vida e a morte.
Sá Lutenda, um vidente, sabia do que lhes esperava. Sabia também que caminhos tinha trilhado Martins e que ideias lhe invadiam a alma. Mas não o disse de imediato. Deixou que a discussão atingisse o auge.
- Eu sou contra o Martins e deve ser levado à razão. – Defendiam os aduladores do Comandante.
- Acho que o Martins está cheio de razão. Embora ache que não seja ele a quem de deva confiar o comando do Navio é importante que se dê oportunidade a pessoas do mar ou que ,no mínimo, se deixe os marinheiros trocar ideias. - Defendeu Lamba, o mais idoso da tripulação.
Lamba, talvez devido ao peso dos seus anos, costuma dizer que já foi árvore, já foi lenha, já foi carvão e agora é cinza. Diz as coisas sem peneira e de acordo ao seu conhecimento e experiência. Goza por isso de aceitação e é reconhecido como grande marinheiro, embora nunca tenha chegado ao leme.
- O mar é complexo e cada um tem uma experiência que pode ser partilhada. - Continuou Lamba que foi molhado com assobios elogiosos.
 - Mas, ó kota Lamba, você que tem mais idade do que este navio, você que conhece todos os comandantes, capitães e marinheiros, pode nos explicar quem na verdade é o Martins? - Questionou Lunga Mana, o mais jovem dos passageiros.
- Olha, meu jovem marujo, podes anotar na tua caderneta mental. O chefe Martins é um homem que já esteve próximo daquele leme. Alguém que já fez muito para que o navio continuasse flutuante, embora à deriva. Martins é um jovem que entrou no navio cheio de vida como tu. Que foi subindo e acertando as velas ou colocando lenha na caldeira. Já puxou demasiado cabo e descamou demasiado peixe até chegar à direita do Comandante. Também desencalhou o navio por diversas vezes. E por diversas vezes prejudicou a si e aos seus para manter a reputação do Comandante que, apesar de tudo… - Lamba puxou da mutopha carregada de kangonha de Kalandula para pôr mais ar no peito que já lhe ia rareando vezes sim, vezes sempre. E continuou: - O Martins é um homem que se deu conta que a seguir o Comandante como às vezes se segue, aplaudindo e remendando os seus erros de miopia, morremos todos e ninguém encontrará sequer os destroços da embarcação.
Mais palavras não houve. Apenas um forte ruído motivado pelo casamento entre o mar, o navio e a rocha. Bummmmmm!!!!
O choque do incauto motorista de Hiace contra uma árvore que repousava já meio século no passeio da rua da Missão, acordou Benedito que seguia embalado no seu sonho de marinheiro.
 
Publicado pelo Jornal de Angola, caderno Fim-de-semana, de 8/4/18, pg.10.

sexta-feira, 1 de junho de 2018

O TIO E O FEITIÇO

Discutia-se algures, no nordeste angolano. Dois amigos. Um citadino e outro cujas vivências se restringiam àquilo que o seu horizonte visual permitia ver entre o nascer e morrer do sol.
Mulelenu e Mwecenu eram porém coetâneos e com os dez primeiros anos de vida feitos em comum: caçadas, armadilhas para todos os animais menores, pescarias, iniciação em trabalho com a madeira, ferro e até cestaria e olaria, ofícios que aprenderam antes da mukanda (escola de iniciação masculina) e que aperfeiçoaram nela e depois dela. Os mores, as tradições, os ritos, os contos, os temores aos mais velhos, ao tio, a valentia perante os perigos na selva, tudo isso foram lições aprendidas até que a cidade chamou Mulelenu que foi viver com um tio.
Tempos depois se reencontraram. Mwecenu parecendo mais velho do que Mulelenu, agruras da vida no campo. Mulelenu parecendo um infante, instalado no seu jeep todo-o-terreno. Viram-se e se abraçaram. Ali mesmo, sem mais demora, aliás, depois de Mwecenu ter tragado o pão com chouriço e bebido a cerveja que o amigo lhe oferecerá, começaram as perguntas.
- Sepha (amigo), você não têm medo de tio?
- Medo de tio? Como assim?
- Vocês que vivem nas cidades esqueceram as nossas vivências. Já te esqueceste que tio te pode vender?
- Sim. Isso nos ensinaram quando éramos crianças. Mas vendas de sobrinhos já terminaram há mais de um século, ou seja, cem anos. Tu ainda pensas assim? Apressa-te. Estás parado no tempo.
- Ai é? Eu que te quero ajudar a abrir o olho é que estou parado só porque você está a andar no carro e eu a pé? Já deste mota ou kinga (bicicleta) ao tio daqui?
- Olha, Mwecenu, para mim essas coisas ficaram no passado, são estórias para ensinar as crianças a reverenciar os mais velhos e especialmente os tios. Nada mais do que isso.
- Ó rapaz, você conhece botânica? Os tios todos têm botânica (feitiço). Se os tios de Luanda já não vendem os sobrinhos é porque têm possibilidades. Os do mato te põem mesmo na botânica, não brinca meu irmão. Não passa a vir só com as mãos a abanar. Se compras moto, primeiro dá uma longa ao tio. Se compras carro primeiro uma moto ao tio. Se compras casa boa, manda umas chapas de zinco ao tio. Assim, se ele te manda vender na botânica, o teu espírito fica protegido (coberto de razão) e nada te acontece. Os espíritos lá nos céus te defendem e o próprio teu tio ou filho dele que que entra em desgraça porque a tua parte foi feita com antecedência.
Mulelenu, mão no queixo, a ouvir o amigo de infância a discorrer conversas que, para ele, são para boi roncar, preferiu deixá-lo exorcizar todos os seus temores.
- Terminaste, Mwecenu?
- Sim. Até aqui, esse kabucado, já depois vou te explicar outras coisas porque tu és meu amigo desde há muito tempo. É para teres sempre cuidado que aqui o feitiço é mais forte do que a bala de uma arma.
- Pois é. Agradeço-te pelo facto de teres conservado todos esses valores. São eles que regulam a vida aqui na aldeia. Que fazem com que os jovens depois de se "palharem" não vilipendiem os mais velhos. Mas repito é tudo conversa da treta. Tens problema com o vizinho? Vai à polícia. Tens dinheiro, investe em coisas que ajudam a comunidade. Compra mota, compra boi, compra carro, constrói boa casa. Hoje já não herdas do tio nem ele te vende em lado sítio nenhum. E se tens tempo para estudar, estuda um pouco abre os olhos. O mundo está a avançar rápido. Hoje o neto do branco que comprava escravos e neto do antigo escravo comem à mesma mesa. Feitiço é atraso.
Mwecenu acenou a cabeça em jeito de aprovação mas não o confirmou oralmente. Continuou pensativo. Deu apenas um abraço ao seu amigo da cidade e ambos continuaram, já em surdina, a reflexão sobre o que deve ser mantido e o que deve ser extirpado dos contos e lendas do antigamente.
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Texto publicado pelo jornal Nova Gazeta/2018

sexta-feira, 25 de maio de 2018

"AMOR SEM PUDOR" DE KANYANGA E CRÍTICA DE CABOMBO

A  Evidência de um dos Vértices da Tríplice Estrutura da Conduta amorosa do Homem em “amor Sem Pudor” de Soberano Canyanga
Tazuari Keitá, S. Kanyanga, C. Cabombo e António Pinto (esq-dir)
 No ofício de descortinar o enigma, em torno da obra em análise, apesar de alguma aproximação afectiva, entre o autor do texto literário e do texto crítico, pelo facto de termos nascido no mesmo município (Libolo), sermos coetâneos, termos feito a graduação na mesma Instituição académica (ISCED/Luanda) ele em História e eu em Letras, pertencermos à mesma matriz religiosa e termos uma paixão comum, a saber a Literatura. Procuramos ver a crítica não como um veículo de enaltecimento de um “kamba” que publica mais um livro, mas comprometer-nos com a obra literária, enquanto escopo da nossa análise, com um olhar desapaixonado, colocando de parte qualquer malícia ou premeditação danosa, buscando evidências textuais, e quando necessário revisitarmos o autor, na senda do biografismo, para ajudar a desnublar  alguns espaços da sua tecitura poética. Embora docentes, procuraremos não utilizar, com frequência termos técnicos, tendo em conta a heterogeneidade do público a que nos dirigimos.
Sobre a trajectória literária do autor: no tocante ao conjunto da sua obra, Soberano Canyanga, de nome próprio Luciano Canhanga, estreiou-se no mosaico literário angolano com Sonho de Kaúia (romance, 2010); em 2012, publicou Manongo-Nongo (contos infanto-juvenis); em 2013, estreia-se na poesia com 10 encantos; em 2014, O Relógio do Velho Trinta (romance); ainda em 2014, O Coleccionador de Pirilâmpos (contos); 2015, Canções ao Vento (poesia), o autor é colaborador do Jornal A Nova Gazeta onde mantem acesas publicações de crónicas.
Do ponto de vista periodológico, mesmo sem lhe dar um rosto definido, situamos o autor no grupo de escritores que emergiram entre 2000 a 2010.  O autor faz parte de uma época caracterizada por um conjunto de ilhas literárias, algumas das quais gravitando em torno de projectos comuns como o Lev’arte e o Literagris, que se têm assumido como novos espaços legitimadores do fazer literário de jovens poetas que se pretendem afirmar no mosaico literário e cultural angolano. Estas plataformas literárias têm procurado, com dinâmicas continuadoras da literatura angolana, propiciar momentos de pulsação da mesma. Devendo, por isso, a História e a Crítica Literária angolanas trazê-las no centro da abordagem. O “resto” é apelo estimulador para o aperfeiçoamento contínuo na concepção e parto do fenómeno literário.
Procurando manter uma produção literária regular, em 2018, a cargo da Creative by Arp, da qual estimamos o esforço e dedicação, brinda-nos com a  obra poética amor Sem Pudor, numa tiragem de 1000 exemplares, que temos o ensejo de apresentar aqui no CEFOJOR.
Considerando que toda a produção literária é precedida da experiência previa da leitura, pois a “literatura alimenta-se da literatura”, assim ao indagar sobre as influências literárias de Soberano Canyanga em amor Sem Pudor verificamos, na superfície textual da obra em apreço vestígios, as vezes implícitos outras vezes explícitos, de construtos literários quer no contexto angolano e não só cujo dialogismo textual será demonstrado no decorrer da nossa abordagem.
Em amor Sem Pudor, não é de admirar que as influências literárias de Canyanga tenham como núcleo a Geração de 80, Geração-indepedência (cf. FEIJOÓ, 1994:18) ou ‘‘Geração das Incertezas’’, segundo Luís Kandjimbo. Essa Geração produziu textos, alguns dos quais, se podem aplicar, hoje, como referentes no estudo do erotismo literário na Literatura Angolana, sobretudo na poesia, pois olhando para a juventude do autor, temperada na cidade de Luanda entre as dinâmicas de sobrevivência como explicador de Língua Portuguesa no Bairro Caputo, a Jornalista, bem como pela sua formação em História serão ingredientes a considerar para que, no contexto angolano, pudesse entrar em contacto com obras de escritores, de cuja pena “brotam versos de intenso deleite” (FEIJOÓK, 1994:11), como António Panguila, Amor Mendigo; Paula Tavares, Ritos de Passagem; Luís Elias Queta, Binómio de Cacimbo; Lopito Feijoó, Entre o Écran e o Esperma, João Melo, Amor, etc.
A obra, que se construiu, em nosso entender, inteligentemente sob o signo do erotismo literário, vai-se desenrolando em torno desta atmosfera, porém a dado momento é assaltada por textos cujo construto se desenlança da atmosfera que a preside, numa espécie de ruptura temática, como se pode verificar nos poemas “Fuka Yami/Minha Terra” (33); “A Meio do Kasimbu” (p. 34); “Pesadelo” (p.41); “Desafio” (p.42); “Dias que Correm” (p. 43). Olhando para os acabamentos estéticos da maioria desses textos “intrusos” constata-se, na nossa visão de leitor, a inexistência de alguma oficina da palavra. como exemplo podemos citar “Dias que Correm” (p.43) Gosto de trabalhar/adapo-me a ambientes quaisquer/climas organizacionais quaisquer...essa prosa comum, efemeramente popular, ou “poesia do desabafo” faz lembrar  a obra Nem Tudo é Poesia de David Mestre.
Afinal, que amor é esse que o autor se propõe apresentar “sem pudor”. Será o ágape? – que é uma forma especial de amor? Enfatizado na perspectiva teológica como amor de Deus pelo Homem, esse amor apresentado no Novo Testamento por Cristo, através do qual Deus manifesta-o descendente e transformador da Humanidade, fazendo com que o Homem fosse capaz de amar o seu semelhante, “não por sua beleza ou valores atractivos, mas por si mesmo” (IBOR et al, 1977:6). Se fosse tal amor, porque teria, então sentimento de vergonha que Soberano Canyanga se propõe desmistificar na sua poética? Ao apresentá-lo “sem pudor”. Talvez, Nygren nos aponte uma saída ao contrapor o ágape ao eros “como dinámica erótica que impele para o «objecto» amado, desejável” (idem, ibidem) que para os gregos pressupõe a “força natural que impele os animais e o Homem à reprodução”. No plano humano, eros assenta nas raízes psicológicas enquanto o sexo nas raízes biológicas.
Portanto, sexo, eros e ágape são três vértices da conduta amorosa do Homem. Se por um lado existe a “atracção sexual” entre o homem e a mulher, por outro a “atracção erótica” na qual se digladiam simpatias e antipatias, desejos e aversões, vitalidades e fadigas, interesses e desinteresses, é esse complexo diná
mico que leva o homem e a mulher a apaixonarem-se e a desiludirem-se um pelo outro. No final de tudo, essa tríplice manter-se-á, se ligada ao vértice do reino do ágape, do amor perene.
Depois desse intróito, pode perceber-se que em amor Sem Pudor Canyanga evidencia o vértice eros – sua dimensão psicológica – que remete o Homem “não só a apropriação da beleza do outro corpo, mas a alcançar o mundo das imagens e das ideias”. (idem, ibidem)
Ora vejamos. Para além do sugestivo título amor Sem Pudor, na capa, vê-se uma imagem translúcida, cenografia típica: de pé, com a parte superior dos corpos desnudos, pelas feições físicas, aparenta um par de jovens em beijos que adoptou a posição mais cómoda para os seus objectivos.  As mãos do rapaz debaixo dos ombros dela mostram uma excessiva intimidade sexual. Na imagem, chama atenção o cabelo corrido da rapariga, apelando para a matriz estética feminina ocidental em oposição à carapinha ou jimi africano. E aqui, talvez, ocorra questionar que critérios estéticos ou soció-culturais puderão estar na base dessa proposta? Quando o contexto de que imana a obra é angolano/africano, em primeira instância a contar pelos referentes culturais predominantes no texto.
A obra é inaugurada pelo poema “Faixa de Gaja” (p.7), constituído por três estrofes, sendo todas quadras. O título, para os atentos ao que se passa no Médio-Oriente, sugere, convoca, ventila, o espaço físico conhecido por Faixa de Gaza. A alteração da consoante /z/ de Gaza para /j/ Gaja propõe, sob os auspícios da plurissignificação, duas ou mais leituras possíveis: a primeira, que chamaremos de “geografia feminina” começa por convocar dois elementos da natureza: montanhas e praia, olhe-se que diz montanhas, no mínimo duas e praia, uma, sobre as quais um túnel já sem distância/ ajuda quem por lá relaxa (v. 3, 1.ª estrofe), uma imagética  que alude a geografia feminina como fonte de prazer, afinal só é relaxante o que é prazeiroso. Mais abaixo, e mantendo a tendência metafórica acentua, um bebedouro sedes aguça, (v. 4, 2.ªestrofe) intertecendo diálogo com o trecho de Provérbios, 5:15 (não do ponto de vista da intencionalidade do sujeito poético, mas do barro usado pelos oleiros nos construtos textuais) bebe água da tua cisterna, e das correntes do teu poço, a relação entre as palavras bebedouro/cisterna/poço, sedes/água mostra a “faixa da gaja”, alusão a “perenidade” da geografia feminina, nas palavras do poeta entre montes e gémeos e terra prometida (v. 2, 3.ª estrofe) em alusão península perene.
 A segunda: chamaremos de “o dilema do Médio-Oriente” como referência à situação entre Israel e Palestina. A palavra “secura” como referente do deserto onde morre quem paus arremessa (v. 2, 2.ª estrofe) nesse deserto onde um bebedouro sedes aguça, a disputa pelo ente reclamado por uns e por outros, montes gémeos e terra prometida (v.2, 3.ª estrofe), em alusão à Terra Prometida, segundo o Antigo Testamento (mencionar). Parece-nos, portanto, vingar a primeira leitura, pois, na segunda há como que um esquivar do ‘engajamento’, um deluir da perspectiva Sartreana, como disse Antero de Quental (1988:29) “a poesia deixou de ter missão social. Os raros poetas, que ainda existem, são apenas os restos destroçados duma raça de outras idades e que breve terá desaparecido” e conclui o vate que  “a poesia conservar-se-á, mas perdeu o antigo carácter de uma das grandes forças sociais e espirituais da Humanidade, de agente poderoso de civilização”. (idem, p. 30) para Friedrich Schiller a chave para a solução das questões do «mundo político» teria de ser forjada precisamente no «mundo estético» como bem defendeu: “não se trata aqui do que a arte é para mim, e sim de como ela se comporta diante do espírito humano”. (BARBOSA apud Schiller, 2004:19).
Contudo, em nosso entender, a cadência esteticista, neste poema, destoa quando o oleiro da palavra, na circunstância de pôr a mão na argila para dar o toque final ao artefacto, denuncia com objectividade a urdidura poética, como se pode ler no último verso do poema é entre saia e blusam referentes dos territórios fronteiriços do bebedouro ( Primeira leitura). Pois, aqui, e como aponta David Mestre, denota-se uma ausência da “elevação da capacidade autocrítica e da afinação estética” (MESTRE apud FEIJOÓ, 1994:15). Pois, se o facto social já é demasiadamente obvio, o literário deve demarcar-se do obvio.
Em “Repada de Galo” (p. 19), a palavra repada afigura-se-nos uma (re)invenção do poeta, em lugar de (ripada de galo); dar ripas, que no sentido sexual, contexto a mwangolé, é fazer sexo com frenesim, toda a força possível. O texto é  marcado pela aliteração como se pode ler:  corre o cabrito, corre a vaca malhada/correm homens, corre o gado/corre água, corre leite com brio (...)/na curta relva relincha o cavalo..., ou se considerarmos omissão do /m/ na primeira palavra e atentando para a semântica no contexto, teriamos (remada de galo), quererá o sujeito poético, com essa omissão, ou no dizer de Martin Hedegger ocultação ou dissimulação, iludir para que nos possamos enganar? Então, a arte é um angano? esquivar-se para não denunciar o caminho conhecido? Ou sentiu-se atrapalhado, incomodado para apresentar, aqui, o “amor com pudor?” já que entre rochedos, no meio a cascata/ zurra a burra, descansa a vitela sensata (v.7-8, 1.ª estrofe ), depois do sobe, desce pêndulo guiado a martelo (v. 9, 1.ª estrofe), nestes versos, a primeira ilação que nos ocorreu é que o pulsar poético de Canyanga “mediatiza uma relação em que o leitor capta através da representação textual, um saber sobre o prazer” (DURIGAN, 1985:38), a segunda ilação, aponta para o dialogismo entre os textos, tendo “Repada de Galo” como intertexto o  “O que se Passa na Cama” (p. 282) de Drumond de Andrade. Aquilo que Canyanga poetiza nos termos zurra a burra, descansa a vitela sensata, em Drummond é dorme, menina, nanana/dorme a onça suçuarana/dorme a cândida vagina/dorme a última sirene.(v. 2-5, 2.ª estrofe), concretizando-se assim a função corroboradora da intertextualidade que permite que a imitação, a citação do texto modelar, a reiteração,  numa espécie de continuidade. A par da função corroboradora, o texto de Canyanga apresenta, em relação ao de Drummond, o grau médio da intertextualidade pelo facto de pôr em relevo alusões próximas, ou reflexos discretos e por continuidade, configurando  o espaço intertextual.
Em “Carga Pesada” (p.16) o poeta, sentado algures, constroi o inusitado, o “locus horrendus”: na imaginação/teus fluídos me invadem o rosto/e, como ganancioso cão/lambuzo-me no teu entreposto/vácuo, tormento e torneira de desgosto/ sinto quando de ti me desencosto/sukwama! Se há nela tormento e desgosto, por que é que se lambuza nela como ganacioso cão? Só pode ser um sádico que busca na dor e humilhação, a que se sujeita, o prazer sexual ou em eu, um leão faminto/ela, um vitelo perdido (p.17) ou ainda em vem firme/com toda tua força/toda tua ira/toda tua pressa/toda tua te(n)são (...)/asfixia-me no teu beijo metal/agarra-me num braço letal/adentra-me pelo bolso/assalta-me amor maldoso (p. 9). Como se pode ver na representação da representação, esclarecendo contornos do espetáculo amoroso de que o sujeito poético é actor: grito sufocado pelo prazer do fogo/ e, grito: coma-me logo! (p.16) Finalmente, o espetáculo erótico-amoroso ganha corpo, acção e qualidade. A descrição da geografia feminina, nesta floresta húmida, com ramagens, na visão erótica-amorosa do Canyanga. É de facto, aqui, “carga pesada”, esse poeta que em 10encantos se antecipa eroticamente suave “no teu colo frágil de mulher/com quentura de ovelha/minh´alma quer descanso...
O estado poético pode ser propiciado pela dança, pelo canto, pelo culto, pelas cerimónias e pelo poema, como dizia Fernando Pessoa o poeta é um fingidor, esse poeta fingidor em amor Sem Pudor esquivou-se ao longo da escrituração, fingindo que .a sua abelha não gravita sobre as flores, mas no final assumiu, confessou: dormi contigo, Rosa/sim, dormi contigo/ não resisti ao teu corpo esguio de mulher madura ... corremos e trepamos montanhas e colhi maboque/doces, ímpares maboques e tu.../ apenas tomates e cenoura mas onde aconteceu isso na imaginação de um sussuro ousado, “Entre Dunas e Lençois”, (p.45).
Na obra, é recorrente a anáfora. Enquanto recurso estilístico que reforça uma ideia, numa insistência quase sempre intencional como em “Às Vezes” (10) (...) quantas voltas dei para abraçar/quantas lágrimas derramei para sorrir/quantas lutas travei para me afirmar/quantas solas consertei para beijar/quantos passos recuei para pular. (v.2-6), 1.ª estrofe, ainda em “Cruzes de Fevereiro” (27) que chova dilúvios de críticas/que se quebrem os telhados/que se esvoace a folhagem arbórea ... ou em “Sentindo-me Assim” (p. 13) apresenta-nos um texto panafórico  começando todas as estrofes e versos com o verbo haver no impessoal ‘há’ como uma seta apontando para o sujeito poético que sente em si tanta coisa boa e má. E ao apontar as múltiplas existências em si que podem ser experimentadas pelos sentidos humanos, como tacto, calafrios; visão chuva; audição, trovões. Deixou de convocar ou reconhecer, em si, o paladar e o olfato será porque os terá reservado para outras coisas boas? 
A nossa impressão final é que o amor Sem Pudor de Soberano Canyanga constitui, do ponto de vista do erotismo literário, objecto de estudo onde se poderá dissecar aspectos como: a representação do corpo feminino; o erotismo e a natureza; o texto erótico como máscara entre o autor e o sujeito poético, a descrição das perversões: sadismo, etc. Fica-nos também o gosto com que o poeta trabalhou os textos, com excepção dos aspectos pontuais apontados.
Assim, para terminar o percurso do nosso diálogo com o enigma que é a arte, vamos convocar Martin Heidegger para o último questionamento: “mas por meio e a partir de quê é que o artista é o que é? através da obra; pois é pela obra que se conhece o artista” (HEIDEGGER, 2017:9), boa leitura!
 Luanda, CEFOJOR aos 25 de Maio de 2018
Carlos Cabombo
Referências Bibliográficas
BARBOSA. R. Schiller e a Cultura Estética. Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 2004.
BIBLÍA SAGRADA, tradução de João Ferreira de Almeida. Lisboa

CANHANGA. S. 10encantos. Edição do autor, Luanda, 2013.

CANHANGA. S. Canções ao Vento. Editor CeD, Luanda, 2015.
DURIGAN. J. A. Erotismo e Literatura. Editora Ática, Série Princípios, são Paulo, 1985.

FEIJOÓ K. J.A.S. L. Meditando. Execução Gráfica SOPOL, SARL, Luanda, 1994.
HEIDEGGER. M. A Origem da Obra de Arte. Tradução de Maria da Conceição Costa, Edições 70, Lisboa, 2017.
IBOR, et al. Livro da Vida Sexual. Vol.I, Edições CELBRASIL, Lisboa, 1977.
MESTRE. D. Nem Tudo é Poesia. 2.ª edição, Edições ASA, Portugal, 1989.
KANYANGA. S. amor SEM PUDOR. Creative by arp, Luanda, 2018.
PIRLOT. G e PEDINIELLI. J-L. as perversões sexuais e narcísicas. CLIMEPSI Editores, Lisboa, 2006.
QUENTAL. A. Antero de Quental, a Poesia na Actualidade. Fenda Edições, Lisboa, 1988.
SARAIVA. A. Carlos Drummond de Andrade 65 Anos de Poesia. Antologia, Edições O Jornal, 2ª edição, Lisboa, 1989.

 

domingo, 1 de abril de 2018

PÁGINAS RASGADAS DA ESTÓRIA

 - É minha, é minha..!
 A disputa  pela "Mina" parecia animada por crianças ainda lactentes. Aos ouvidos de gente sensata não passaria de briga por uma bola ou uma boneca. Mas era mesmo gente de barba rija na jogada e corpos ninfáticos em disputa.
 
- Aquela é minha. Eu já a acompanho desde os ensaios e investi bastante para que tivesse esse formato!
A noite levava horas. Quase madrugada. A gala aprazada para as 21 horas estava atrasada por conta do governante máximo que tivera uns encontros fora da agenda. Todavia, nem o atraso diminuíam o frenesim lá dentro. As meninas, todas "trabalhadas a preceito" afugentavam o fantasma da "inexistência de matéria-prima local e natural com atributos para ganhar os concursos naturais". Esse era o argumento dos organizadores do concurso anual que se viam forçados a pescar na mesma lagoa e a enfeitar com escamas rãs e raias para se parecerem a peixe. Outros defendiam que "nos tempos do make up só existiria feiura onde inexistisse dinheiro. "Tudo se inventa e recria. Até a beleza", argumentavam.
 
Entre os notáveis e os que só iam para comer sem pagar, os números de presenças eram gordos. Enquanto o "povo em geral" se contentava com a bancada, as mesas ocupavam a zona mais baixa do salão, concomitantemente, a mais próxima do espectáculo. Aqui, a visão era tridimensional. Mesmo assim, duas das mesas dianteiras corriam sempre risco: a do júris e a da entidade organizadora que ladeavam a cabeceira da pista, enquanto a dos governante de topo ficava frente-a-frente com o desfiladeiro onde músicos e candidatos iam fazer vénia antes e depois da apresentação. O júris e os organizadores eram, regra geral, gentes do povo que levavam a vida, no seu dia-a-dia, a tratar por chefe e sua excelência um bom punhado de pessoas com os verbos ser e ter.
 -Sabes quem sou eu? - Ameaçou, certa vez, um detentor de café aos ombros.
 - Sim chefe. Peço desculpas a vossa excelência, por ser o presidente do Júri, pois é mesmo para vós que julgareis as qualidades e requisitos inseridos no manual, que foi colocada essa mesa lateral dianteira. - Ironizou o jovem, medroso mas polido.
 O homem da habitual farda com riscos verticais encolheu os ombros que lhe transportam as divisas de café mas não desistiu. Foi tentar a mesma sorte junto da comissão organizadora onde encontrou passividade e ali se acomodou. E não era o único da sua classe. Anos passavam e anos vinham. O cenário sempre o mesmo. Os que podiam lá estar marcavam presença na fila dianteira, numa das mesas que configuravam a cabeceira da pista. Os outros, ausentes ou impossibilitados,  mandavam olheiros. Todos com uma missão. Ser o dono da Miss. Não importava se a vencedora ou a derrotada. Bastava passar pelo palco e desfilar nos três ou quatro trajes: biquínis, tradicional e vestido formal, quando não houvesse o fio-informal.
 
E assim, para muitas raparigas desnorteadas bastava deixar de fazer chichi-na-cama para subir à cama do chefe e se transformar também em "chefa" no gabinete, no quartel, no partido e na praça do arreió-arreió. Felizmente, esses tempos não têm volta porque lugar de criança é na escola e de adultos sem juízo é na cadeia!

Texto publicado no Jornal de Angola/Caderno Fim-de-semana/2018

quinta-feira, 1 de março de 2018

ALDEIA DA JUVENTUDE

 
O tempo histórico é incógnito. Apenas os dizeres que viajam de geração em geração dão ideia de que não terá sido na antiguidade clássica. E conta-se que num plateau, também esquecido dessa imensa Angola, vivia uma enorme comunidade. Homens novos e homens velhos se destacavam nos trabalhos que consistiam em agricultura, pesca, caça e recolecção.

Inicialmente, os mais novos, dada a sua robustez física, executavam as mais penosas tarefas, enquanto aos idosos recaia a tarefa de ensinar e coordenar todas as actividades socio-culturais e culturais.
A investigação e a implementação de novas tecnologias era também tarefas confiadas aos mais novos, chegando, muitos deles, a envaidecer-se e desrespeitar os seus pais e avós a quem tratavam por "caducos".
Certo dia, um grupo de jovens petulantes chegou a propor a separação da aldeia, construindo, num campo que distava dois quilómetros, a aldeia dos jovens que procuravam "libertar-se" da "escuridão" a que diziam estar os velhos votados. Na verdade, a intenção maior era ver a aldeia de Kitumbulu "uma lar de idosos carentes e pedintes".
A nova aldeia, designada Light Youth City foi erguida em tempo recorde. Entre os jovens abundavam arquitectos, engenheiros civis, tecnólogos, informáticos, autómatos, entre outras ciências modernas daquele tempo.
Erguida em zona plana de uma montanha, a iluminação fotovoltaica fazia dela um esplendor. Uns tratavam-na de "cidade celestial", pois havia quase tudo e consumiu apenas meio ano.
Chegou o kasimbu, tempo seco e de caça. Os armazéns de víveres estavam vazios e era preciso pescar e caçar. As mulheres, belas e modernas já não se contentavam apenas com a cidade. Algumas furavam o combinado que era "não se deslocar á aldeia de Kitumbulu onde ficaram os velhos até que se rendessem e se mostrassem abertos ás estravagâncias juvenis". Porém, saudade e fome quando se casam, a lei evapora. Sorrateiramente, uma e outra iam visitar os pais e pedir o que comer.
Lá, em Kitumbulu, mesmo com suas forças diminutas e seus meios artesanais e rudimentares, a pesca e a caça nunca foi problema. A fartura apossou-se das casas e os velhos e velhas doutro tempo pareciam mais jovens que seus filhos desertores que padeciam de fome e má nutrição.
Aflitos, os habitantes da Light Youth City tiveram de reunir-se e nomear uma embaixada que foi se desculpar aos idosos e solicitar que os ensinassem a pescar em lagoas e pântanos e a caçar com artefactos rudimentares entre o capinzal ribeirinho.
Valeu-lhes o facto de "o amor paternal ser imensurável e inesgotável". Foram tolerados e instruídos. Mas, em contrapartida, cada filho teve de levar os seus pais para a nova cidade.

Publicado no Jornal Cultura de 05/12/17, pag. 11

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

BANANA DE 10

A juventude é um estado de espírito. Assim como a senilidade. Uns são velhos na juventude e outros jovens eternos. As novas tecnologias e a prática ou ausência de exercícios físicos têm levado jovens à velhice precoce, como inovado e transformado em quase meninos muitos idosos. E quando ao estado de espírito juvenil se agrega a massa muscular, melhor ainda. É como juntar à fome a vontade de comer.

  Desde os cinquenta anos que decidiu estar na moda e recuperar a juventude que havia congelado com a maternidade e a afirmação profissional. Tudo o que uma mulher normal e culta ansiava ter ela possui: casa própria, emprego bem remunerado, formação universitária com especialização, carros, possibilidade de viagens ao estrangeiro, filhos e até neto tem um. Apenas marido não possui. Aliás já teve, mas dispensou-o.
- Mulher do meu calibre precisa de homem e não de marido. - Justifica-se, sempre que abordada sobre a sua condição de eterna celibatária.
Martínia frequenta o ginásio há já seis meses.
- É preciso torrar a picanha e tonificar os músculos. - Diz ela sempre que questionada por colegas e coetâneas. Aos olhos de quem a vê pela primeira vez, encaixa-se nos trinta ou menos do que isso. Depende das roupas e do penteado. As rugas encontram máscara e a silhueta concorre com a filha mais nova.
No ginásio que frequenta estão homens e mulheres. Uns com idades mais avançadas que regulam o que o tempo trouxe de sobra e outros queimando tempo e ociosidade. Neste grupo, o segundo, estão as meninas que se aprontam para exuberantes "executivas de protocolo" e meninos que aguardam por acenos de mulheres que conjugam o verbo ter. Damos de companhia? Também os deve haver.
Nas conversas de fazer o tempo voar, enquanto trocam de equipamentos de musculação e calibragem, os homens e mulheres adultos falam sobre sumos e frutas naturais. A banana é mais para mulheres, sendo a manga a preferida dos descendentes varões de Adão.
Martínia, não fala. Ela aprecia. As canções desfilam apenas no seu íntimo. Os planos, os olhares disfarçados, os desejos e tédios, tudo um segredo.
Na quarta-feira, saiu mais cedo do que o habitual. Seis e meia da noite. Parou na esquina. Sacou de um cigarro e fingiu que o acendia. Anatólio, jovem de dezanove, ainda a poupar a barba e sem emprego nem universidade, vinha matutinando. Namorava a miúda da rua seguinte e tinham conversa adiada. A miúda pressionava um valor para retoques ao seu cabelo. Pelo caminho, Anatólio ensaiava a saída, ou melhor, a nova desculpa. Já tinha inventado o atraso do ordenado. Depois foi o desemprego, aproveitando-se do fecho de muitas micro. Desta vez nem sabe o que inventar.
Ao vê-lo passar, Martínia fingiu sentir-se mal, apelando por socorro.
Diligente, mas carente, Anatólio ofereceu o seu corpo-socorro e ajeitou a mulher no banco traseiro, levando-a à clínica mais próxima. Meio quilómetro, porém, Martínia se recompôs e propôs uma recompensa ao jovem diligente. Um jantar a dois regado de Moet Chandon.
O repasto levou tempo. O local era chique. Teve outros detalhes mais pitorescos. No fim, quando já se preparavam para sair, Anatólio procurou confessar que não teria como pagar tamanha e agradável surpresa, recebendo dela uma simples quanto seca provocação.
- Bastará a tua banana de dez!

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

SINOPSE: MANGODINHO

Luanda e as grandes cidades do litoral de Angola ainda são os polos de atracção da juventude, ávida de "dar avanços na vida".
As assimetrias entre o campo (incluindo pequenas cidades e vilas interiores) e as grandes cidades, com destaque para Luanda, é causa para o êxodo que vamos assistindo quase que inertes.
Mangodinho é apenas mais um jovem, humilde, sem escolaridade, nem possibilidades que vem a Luanda, em situação de óbito, conhecer as vivências em uma grande cidade. Torna-se um sonhador e revolucionador que pretende levar a cidade ao campo, ao contrário de muitos que levam à cidade hábitos campestres.
Mangodinho, na cidade, conhece piscinas, latrinas, escolas e centros médicos. Sonha com a sua aldeia de Pedra escrita, no Libolo, bafejada com tais equipamentos sociais e comunitários. Sonha, organiza e realiza perante um mar de incompreensões. E não são poucos os abrolhos e percalços...
Quem chega ao fim, encontra nessa narrativa a força das ideias que transformam as comunidades e um povo. É exemplo do líder que a nova administração territorial, obviamente, há-de precisar.

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

MANGODINHO NO EMPOSSAMENTO DE JLo

Em Novembro de 1975, criança ainda com 12 anos, Mangodinho era já homem no pensar. Quando ouviu no rádio que a independência estava a chegar, preparou um kaquibuto de macroeira e meteu-se numa BEDFORD a caminho de Luanda. Sorte ou azar, ainda não me contou bem essa parte, encontrou a ponte do rio Zenza suspensa. 
- Ninguém mais passa. Os carcamanos e mobutistas estão a vir para impedir o camarada Neto levantar a bandeira. - Contou que lhe disseram isso e ficou mesmo por ali.
Quando entrou na Ngimbi, encontro o camarada Agostinho Neto já era Presidente e Angola já não era mais de Portugal.
Em 1979, o óbito do camarada Neto apanho-o numa ilhota do rio Longa. Tinha ido tarrafar sem o seu radito e quando voltou, com muitas "salambas" de peixe, encontrou toda aldeia de Kuteka "era só choro". Escapou desmaiar mas fez coragem de se aproximar devagar, devagarinho até se cruzar com rapaz Sabalo que o informou sobre o infortúnio do camarada Neto. Dos mabululos onde ficava a aldeia até chegar a capital levou quatro semanas. Aliás, é já hábito dos homens de Kuteka que, quem vai à capital, mesmo que se hospede em casa de "burguês", tem de levar qualquer coisa. E nessa de preparar a viagem perdeu a investidura do camarada Eduardo dos Santos, que foi a 21 de Setembro.
Também, mesmo que fosse, não O deixariam entrar. A cerimônia parece que foi no Palácio onde até os makota grandes, se não têm convite, não entram. Dizem que no Palácio a segurança é apertada tipo é sandalheta de quem vai caminhar uma grande distância. Por isso mesmo, em 2008 e 212 Mangodinho não se deu massada de ir a Luanda assistir a investidura do Presidente reeleito.
- Se ele é já nosso Presidente desde que o cda Neto se foi para quê só "se dar" massada de ir mais "lhe" ver? Foi assim que Mangodinho tinha parado de tentar. Mas quando ouviu que o camarada dos Santos vai meter o colar da República no pescoço do camarada Lourenço, Mangodinho fez tudo às pressas. O quibuto dele de macroeira já estava preparado. O peixe do rio Longa a e carne de caça também já tinha. Uma semana antes, meteu-se já na estrada. Agora com a paz que temos viagem de trezentos quilómetros é só mesmo em um dia e a pessoa chega mbora bem. E chegou. Ficou na casa do tio dele Sabalo onde a luz não falta para ver televisão.
Quando "lhe disseram no" Bartolomeu que a entrada no Mausoléu é de borla, ou seja sem convite, Mangodinho, cinco da manhã já estava lá com garrafa dele de água mamão e um pouco de bombô assado com jinguba. Ao sair do Benfica ainda estava a cair kawelewele. Nalguns sítios era mesmo irmão pequeno de chuva. Por isso, levou boné, casaco de lona e mais um guarda-chuva que não chegou a usar.
Aliás, antes de sair de casa, penetrou bem o cabelo, escovou o casaco e os sapatos, embora com sola gasta e inclinada, estavam a brilhar. Mangodinho para quem o visse era homem de pôr respeito. Posto na bancada pública da Praça da República, Mangodinho disse para si mesmo "não quero confusão". Foi, por isso, ocupar uma cadeira na penúltima fila, onde esperou, esperou, esperou sem desesperar.
- A viagem do Kuteka a Luanda demora mais do que esperar pelo Cda Presidente das cinco e meia ao meio dia. - Disse para se encorajar.
Mangodinho no lugar dele de visibilidade privilegiada viu todos os presidentes a chegarem, a serem ovacionados, e o "camarada de vestido preto" que falou ao camarada Lourenço que "se abre, a partir de hoje, uma Via Expressa para corrigir o que está mal e melhorar o que está bem". O homem disse mesmo como pai que recomenda o filho que (camarada Presidente), "combata a corrupção, melhore a vida da população, diversifique a economia...". Já a lhe correrem lágrimas de contente, Mangodinho ouviu atentamente o camarada Lourenço a reafirmar que vai cumprir as promessas da campanha e as detalhou uma a uma.
- Não. Esse camarada Lourenço tem cabeça. Não esqueceu nenhuma das promessas e ainda acrescentou lá outras como "Ninguém é tão rico para não ser punido ou tão pobre para não ser protegido". - Mangodinho a baba a cair-lhe tipo é nenê que está a esperar a chegada dos dentes de leite. É alegria ou quê?!
Mangodinho, assim mesmo, está a preparar as malas para regressar à aldeia de Mbangu de Kuteka. Pelo caminho vai fazer a acta detalhada que vai apresentar ao povo já convocado para uma Assembleia. Afinal, ele foi já indicado "Administrador de aldeia", no âmbito do regulamento da Lei da Administração Local.


Texto publicado no Jornal de Angola, Jan. 2018

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

E AGORA?

Viram-se crianças. Ele mais adiantado na idade do que ela. Namoraram ao iniciar a juventude plena, ele,  e ela a findar a adolescência. Madó e Loló, naquele tempo assim conhecidos, seus pais e até seus avós nasceram e sempre viveram no Margoso. Estudaram em escolas diferentes, encontraram outros cônjuges com os quais juntaram trapos e formaram famílias. Viveram, porém, e vivem no mesmo bairro. Ele em um edifício de três andares, construído ainda no tempo colonial. Ela em habitação térrea.

             Já a caminho da senilidade, ele pai de menina, a Tininha, prendada por Deus e pela herança biológica. Uma "estraga sapatos" ao passar. Qual homem que se depara com sua carga e não tropeça? Ela, dona Madalena, Madó em tempos de menina, é hoje mãe de rapaz.

As conversas de comadre, entre Madó e amigas de juventude, levaram o Totó a se aperceber que no passado houvera um "affaire" entre a sua mãe e o pai da jovem que ele ardentemente cobiçava. Sentiu-se encorajado ao ouvir aquela conversa e conseguiu cravar o primeiro beijo à Tininha.

Com o tempo, conversas daqui e dacolá, Totó contou à namorada o que foram a adolescência e os factos marcantes entre seus progenitores. Outros factos lhes chegariam aos ouvidos, por meio de tios e tias com que os pais conviviam.
- Teu pai deflorou minha mãe! - Disse um dia Totó, despretensioso e a seco.
Tininha nem sim, nem não. Era ainda uma flor imaculada. Rolaram os tempos, cada vez mais eram vistos de mãos dadas.
- Esses meninos estão mesmo a seguir as peugadas dos pais. - Diziam os mais velhos do bairro que sabiam mas nada diziam.

 
Dias depois. Noite de pouca luz. Depois da telenovela das vinte e trinta, Tininha chegava a casa banhada de lágrimas. Saia, quase a cambalear, do terraço do prédio onde fora vista a conversar com o Totó.


- O que foi, filha? - Questionou o pai preocupado.

- Foi o Totó, pai.  Fez-me o que o papá fez à mãe dele!
 
 Publicado pelo jornal Nova Gazeta de 29/06/17 
 

















 
 












domingo, 1 de outubro de 2017

O CERTIFICADO DE HULE

 Fazia meses que em Nampula fazia calor. Pior, quando El Nino se aproximava, cumprida a sua sazonalidade. Estava um calor de assar sardinhas para um prenúncio de noite. Já se alinhavam estrelas num céu cinzento recortado por nuvens turvas. Ao mesmo tempo que Hule procurava acertar a cor do céu afivelava ideias sobre a janta do dia seguinte e o leite do Diploma que brilhava nas costas. 
Hule fora enviada a Maputo ainda na puberdade aonde o pai pretendia que sua filha do meio se formasse em medicina ou outra ciência afim. Mas cedo conheceu angolanos e outros diplomatas oeste-africanos que exploravam petrodólares. Meticais para que te quero?! Instituto para que me serves?! Hule encontrou vida fácil. Dançarina de primeira hora, conhecedora de noites luxuosas, dama de companhia para eventos se fez. Não escolhia cor da epiderme. Não! Nem idade lhe interessava. Diferenças etárias eram apenas números. Somente uma cor, a do dinheiro americano lhe interessava. O certificado de habilitações literárias que lhe proporcionaria emprego numa instituição do Estado, sonho amputado do pai,  foi substituído pela cria. Foi assim que os mais inconformados com aquela opção da jovem passaram a tratar a filha de Hule por "Certificado".

No dia em que a cena aconteceu, Hule estava à porta da sua mandjungu ou choupana que herdara da avó materna de quem a filha se tornou xará. Abriu a porta, entre duas colunas que se prolongam e se revezam no andar. Deixou entrar um pouco de ar para arrefecer o forno que se achava envolto a kapulanas, como são tratados os tecidos em Moçambique.  O forno, fundo, húmido e já com pouca elasticidade, ante ao uso revezeiro, é a sua indústria, seu banco. Ajeitou os maboques, um par no peito, que se prestavam a fugir do soutien. Jactou o decote. Mamas já flácidas jazem quase quase num amontoado de esponjas suportadas por arcos metálicos. Aos lábios, levou um batom pobre e encarnado. É sangue procurando suor e sangue. À filha, chorona e resmungona, espectou um sambapito na boca. 
- Cala. A mamã vai ganhar pão pra amanhã! 
Hule fez-se a caminho da baixa de Nampula, entre Faina e Mutotope, seu emprego prazeroso. Foi lá que o Manuel, polícia de profissão, já quase noivo, a encontrou em flagrante delícia.
Ali mesmo, no Largo Machel, depois de adentrar o jeep grande de vidros translúcidos, não precisou de vistoriar à volta. 
- São cooperantes, nada os detém! - Pensou.
Imitou o canídeo. Lambeu a sua cria,  afugentando-lhe as maleitas. O bicho respirou fundo e esticou-se ao comprido. Hule, feita canídea de Rafa, simulou caminhada, de quatro, do kambwá como dizem os angolanos na margem atlântica do continente. Sem se aperceberem, a polícia que procurava por marginais foragidos fez-lhes uma surpreendente visita. Manuel estava na patrulha.
- Estão presos, malandros!

Texto publicado no Jornal de Angola do dia 01/10/17