quinta-feira, 13 de junho de 2019

VULAMA DE 5 ANOS

 O frio de kasimbu (cacimbo) e o vento oeste-leste a quebrar o capim denso da savana e a recolher as folhas secas dos arbustos faziam, naquela manha de sol envergonhado, as pessoas se "amontoarem em grupinhos para se emprestarem calor. Alguns homens, sobretudo os fumadores, encontravam no cigarro autênticos elevadores térmicos. As mulheres sem samarras ou casacos elevavam acima das vestimentas os panos que, normalmente, usam como reserva facilitadora para manobras de satisfação de necessidades fisiológicas em terrenos sem os necessários lavabos.
Nas casas de "ciwnda", nos bairros da cidade e nas repartições publicas ou das poucas empresas privadas o ambiente friorento e de aproximação, quase que íntima, entre as pessoas, indistintamente do sexo, era o mesmo.
No aeroporto Deolinda Rodrigues, a conversa entre Lawa, Lamba e Walya, colegas de serviços distintos, era sobre pessoas que se instalavam na cidade fundada por Henrique Carvalho, sobre os emigrantes e sobre aqueles que, sendo "akwakwiza", findavam as suas missões de serviço àquela terra.
- Mwata Kamanga kaneza. - Disse Walya.
(O senhor Kamanga está a chegar)
- Sério? - Perguntou Lamba, quase admirada pelo que ouvira da amiga, pois o dito cujo era conhecido de ambas e se fazia ausente do seu convívio havia perto de cinco anos.
- Yá. Lhe vi mesmo com aquele chapéu dele que tem marca dele de fumar cachimbo.
- Mas veio, então pra voltar de novo e ficar ou veio só de visita?
A conversa entre Walya e Lamba ganhou o apimento de Lawa que entre elas fora a mais próxima do dito cujo com quem partilhava experiência profissional.
- Vocês sabiam que há "vulamisa" que actua de imediato, outro que faz um ano e ainda o que actua só depois de cinco? Há quanto tempo o mwata Kamanga deixou Sawlimbu? - Questionou Lamba às amigas.
- Quatro ou cinco anos. - Respondeu Lamba.
- Viram a kamala dele? Pessoa que viaja e que não tem mais casa aqui vem assim, só kamalita de mão? - Atirou novamente, provocadora, Walya.
- Também estou a achar um pouco estranho. Retorquiu Lamba Lyeza, acompanhada gestualmente por Walya.
- Pois é. Apontem só nos vossos corações. - Acresceu Lawa. - Assim mesmo que veio com essa kamalita é para ficar. Homem que lhe dão vulamisa de 5 anos, manda já comprar as coisas, e quando vem de volta ao sitio em que lhe amarraram o coração é tipo rapaz que sai de casa para ir jogar à bola. É só quedes nos pés e mais nada. Controlem agora em que casa vai entrar.
Lamba Lyeza e Walya Zoloka ficaram ainda a pensar no alcance da última tirada da amiga dos serviços de informação enquanto essa, cultora de conversas cabeludas, montou a sua mota-rápida, fazendo-se à cidade para seguir a viatura que transportava o tão famoso mwata. Pelo trajecto, Lawa ia anunciando às outras amigas, via sms, a notícia do dia.
- Mwata Kamanga kaneza. Lhe deram vulamisa de cinco anos. Lhe controlem onde vai entrar!
Notas:
- Vulama ou vulamisa é a expressão atribuída, no nordeste angolano, a supostos remédios que, uma vez administrados por uma concubina a um forasteiro, fazem-no esquecer a procedência e família.
- Ciwnda=aldeia rural; akwakwiza=forasteiros; mwata=senhor; kamala/kamalita=diminutivo de mala.
- Qualquer semelhança com facto ou nome real é, neste caso, mera coincidência.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

PESSOA MON'ADYALA Ô 'AMUHATU?

Conta-se, geralmente entre os mais velhos, iminentes bibliotecas vivas, que: Certa vez, ao tempo em que as autoridades tradicionais eram obrigadas a recrutar, entre os seus, pessoal activo (jovens e adolescentes de ambos sexos) para os levar ao posto colonial (administração), de onde os fazendeiros e serviços públicos iriam escolher "mão-de-obra" semi-escrava (pesudo-contratos) para as suas empreitadas, um soba, cumprindo a orientação que recebera do Posto levou os seus (filhos e sobrinhos incluídos) ao administrador comunal para evitar represálias. Chegado ao local, o administrador, um semi-analfabeto, barbudo e barrigundo, vira-se ao régulo e pergunta:
- Ove lá, ó preto! Quantas pessoas trouxeste?
Atónito, velho Kikundu, olhos apenas na palmatória com se se esborrachava as mãos dos sobas faltosos, nem mais atenção prestou á pergunta. Pensando ele que "Pessoa" fosse nome de alguém, e que se lhe tivessem perguntado onde estava o Pessoa, meteu-se aos prantos, temendo pela reprimenda.
- Pessoa nãe. Mona a dyala ô mona a muhatu? (Quem é Pessoa? É homem ou mulher?) - Indagou entre os seus, sem que resposta alguma lhe fosse também dada .
Bangão e maldoso, lá veio, de novo, o chefe de Posto.
- Ove lá ó preto! Não me consegues dizer quantos patrícios trouxeste sem que o verdugo do capataz te suba às costas?
E não se fez demorar o "grito" da palmatória para o choro inocente daquele homo angolensis.
Velho Kikundu foi devolvido à sua aldeia com as mãos inflamadas, enquanto os desafortunados aldeões levados à renda dos que já lá sofriam ano e meio seria recolhidos para uma "tonga" onde o chicote assobiava de hora em hora em costas nuas, onde a sede se escondia medrosa no suor do labor e onde o peixe e fuba podres eram luxo na hora da fome.
Noutro dia, já na tonga, a empreitada era escavar uma montanha para nela fazer passar o tractor. Homens "destratados" foram mobilizados. A fila chegava a meio quilômetro. Maior mobilização, para uma só tarefa não havia, registo. Sete dias era o tempo expectado pelo patrão-aldrabão. Fuba: um saco. Feijão, meio saco. Peixe seco do Tômbwa: Meia caixa.
Capataz recebeu sem reclamar. No terreno, dia e meio, racção minguou... Quem vai pedir reforço?
- Vai o capataz. - Disseram todos.
- Nem que me matem.- Retorquiu ele receoso da brutamontisse daquele colono branco.
Um jovem, dezanove anos na imaginação do narrador. Saiu do fundo e colocou-se a diante.
- Ki kapataji ketele, eme ngyako (se o capataz não quer eu vou falar com o branco)!
- Eye, wiñana iki (você, um simples macaco no entendimento do branco?)
- Ngyako.- Insistiu disposto.
Uns já afiavam catanas e flechas para suprir a carência com recolecção. Vida humana emprestada a meros viventes, abaixo de javali.
Katako, de sua graça, lá se meteu a caminho da residência senhoril.
- Ses(s)a, phatalá! Nzangi yeli eji njila ijikuka mas subha é pocu!
(Dê-me licença patrão. A malta mandou transmitir que o caminho será aberto mais a fuba é pouca).
O patrão, nem uma nem duas. ficou-se pelo "diga-lá/repita-lá".
Katako, letra a letra, a mesma mensagem com a mesma entoação e vigor.
- Ó criado?! - Chamou Costa Curta ao doméstico embrenhado em tarefas domiciliares para interpretar e traduzir no seu "Pretuguês".
- Faló assi: caminho estó abrir, mas fuba co pexi nú chegó.
Hora depois, voltava Katako acompanhado de um serviçal, carregando reforço alimentar. Foi alí mesmo, e sem mais anuência do patrão, elevado à categoria de capataz. O medrica teve de se entregar à fúria dos jacarés no rio Longa.

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

NGOMA E KISAKA

Nasceu Xoxombo. A escola nomeou-o António Silva. Sabe-se lá, por que carga d'água, na adolescência e toda juventude que não viveu completa, ficou mais conhecido pelo nome de nascença. Xoxombo na escola, na aldeia e até n’outras andança pouco conseguidas.

Desde pequeno se revelou inteligente, regatado e pouco dado a traquinices. Não era como o seu puto Sabalu-a-Soba, galão galanteador. Os atributos de XOXOMBO fizeram com que, a entrar para os "meses do acordo de Alvor", que se seguiu ao golpe militar na ‘metroia’, tivesse já a sua quarta classe, do tempo colonial e não doutro tempo qualquer, bem feitinha. Contava uns doze ou treze anos, algo incomum, naquele tempo, sobretudo para um filho de negro contratado, ainda mais filho de um simples tractorista que evoluiu para camionista de patrão alemão.

 Xoxombo estudou mais. Mas, mais e mais, a vida lhe foi agreste. Chegou a guerra pós-independência e teve de empregar-se como professor brigadista da "Comandante Dangereux", ‘combatente da linha de frente’, isento, por dois anos, do serviço militar obrigatório. Aos vinte anos, estava em Luanda, capital de sonho de todo jovem do interior. Era a forma de evitar a farda militar.

No ano em que não lhe foi renovada a licença professoral, teve de voltar à aldeia de Munenga, onde a ausência de "quadros" permitia o ingresso imediato na educação. Contava já uns anitos acima do vigésimo. Sempre jovem polido, trato fino, modos requintados e um português com sotaque saxônico, aprendido dos alemães em cuja casa o pai trabalhava e ele crescera. Xoxombo era, aos olhos das mocitas ardentes de desejos pecaminosos um ‘virgem por deflorar’.

- Mano Xoxombo num me paquera só por cá di quiê?- Questionavam-se sedentas e sedutoras aos olhos cegos de Xoxombo. Só livros. Só debates, só prosa. Xoxombo para as moças, um invisual.

 À roda, no folclore do bairro, à sexta à noite ou noutro dia qualquer luarento, a música era vezeira:

 - Wombela, Wombela, Xoxombo wombela; Xoxombo nange, nange kate okyo wombela.
- Nange, nange, kate okyo wombela; Xoxombo nange, nange kate okyo Wombela!

 Felicidade alheia, tristeza sua. António Silva, o mais culto do vilarejo, afogava as mágoas em destilados etílicos que o levavam a fermentar força de rinoceronte na profundidade das águas do Longa, rio de sua natalidade umbilical. E Xoxombo, já sem o pudor da educação do berço, sem mais o comedimento urbano que muito cultivou, sem mais a paciência que aprendera com os missionários, saia em defesa de sua "dama desonrada". Chamava uns tantos impropérios aos que com gargantas ressequidas continuavam cantarolando. Até que que rouco, como as que o insultavam procurando por uma reacção mais erótica, se cansava e ao quarto, no silêncio da cama solitária, se escondia meio satisfeito e meio envergonhado, ouvindo aquele coro que com o tempo deixaria de ser chacota.

 - Nange, nange, Xoxombo wombela; Xoxombo nange, nange kate kyo wombela!

 (de tanto "secar", Xoxombo-nome masculino- teve de infiltrar-se de soslaio na "kandumba" ou caserna, onde os rapazes mais espevitados de sua idade costumam deleitar-se, à calada da noite, da quentura prazerosa de suas musas).

O terreiro em que se canta é um espaço mais largo, entre várias casotas que variam entre o adobe cru e pau-a-pique, cobertas umas de zinco já acastanhado pelas incontáveis chuvas e calor, outras com colmos de capim que fumegam as nascer e por do sol ofuscado pelo nevoeiro. O chão parece cimentado, de tanto rebatido que está o solo másculo. O folclore é de sempre e já vai na quinta geração. Apenas os executantes é que se revelam de década em década ou mesmo, nos dias que correm, de quinquénio em quinquénio.

Machos, de mostrar o punho e medricas de esconder a espada sempre houve na vida das comunidades. Canções que mantêm a melodia e inovam a letra também. Essa é apenas mais uma. E o sortudo(?) é António Silva, Xoxombo, o professor de feliz memória.

- Wombela, wombela, Xoxombo wombela; Xoxombo nange, nange kate okyo Wombela.
- Nange, nange, kate okyo wombela; Xoxombo nange, nange kate okyo wombela!

A roda progressiva em que dançavam tinha no centro o tocador de ngoma e, à cabeça, a tocadora de kisaka "chocalho". De tão exímios que eram, os maestros  pareciam apenas transmitir aos instrumentos, ngoma e kisaka, sinais recebidos do além. Dizia-se que “tocavam com a sabedoria de seus avoengos já há muito nos ‘malombe’”. Era ritmo e cadência nunca vistos antes.

De repente, o círculo pequeno, no início, abriu-se. Cinco metros de raio e dez de diâmetro a engolir a aldeia toda. Man-Kibyona, afamado trapaceiro, diferente do comedido Xoxombo, meteu-se na dança. Antes, tinha ficado encostado a uma parede a apreciar as dançantes, a comê-las com os olhos. Quando se meteu na roda, as mulheres mais avisadas endireitaram o pudor. A cada aproximação do Man-Kibyona as damas aceleravam o passo para deixar distância à recta-guarda ou davam passo à direita. Isso contribuía também para o alargamento do círculo e a entrada na roda de mais rapazes e raparigas, todos acordadas pelo roncar da ngoma, farfalhar íntimo da kisaka e vozes melodiosas espalhadas pelo vento.

Os passos eram cadenciados, curtos e rápidos, às vezes. Dois ou três à frente e menor número para trás. Não se atropelavam. Os pés estavam poeirentos mas não eram pisadelas. Era a participação do solo naquele convívio dançante e repleto de emoção. E, em solilóquio, Xoxombo tudo ouvia e tudo consentia. Os galanteios e os desvaneios.
 -Wombela, Wombela, Xoxombo wombele; Xoxombo nange, nange kate okyo wombela!

Um dia sentiu vontade. A coragem terá sido mais forte do que ele fora até à data. Imaginou um quimone apertado, desenhando a mamália. Uns panos riscados e lindos mal amarrados à mbunda que se desprendem do corpo no caminho da dança em que ele era o tocador único de ngoma e ela a tocadora e cantora única de kisaka. Fez do sonho verdade. Ao quinto mês, Kamone era já mulher feita. Nos folguedos com ngoma já o seu dançar era com requinte e discrição. E a chacota encontrou outro personagem.

Publicado pelo Jornal Cultura a 08 de Outubro de 2018

sábado, 1 de dezembro de 2018

ÓBITO NO EKOVONGO

- Mano André, "nó" serve "ansim". Todas as partes boas da galinha é p'ra ti e os outros, que até contribuíram no óbito, vão se lamber só nos dedos e partir ossos? Na hora da contribuição ainda o mano estava a se esconder entre as mulheres, a fingir lágrimas que não vimos. - Desabafou audível a prima Miquilina que fora avisada por uma sobrinha sobre o comportamento incivilizado de um tio.
Ekovongo é a aldeia mãe do Kwitu, capital do Vye (olongombe vye). Dizem que "o branco, quando veio do Putu, com Silva (do) Porto à cabeça, primeiro ficou no Ekovongo e depois é que foi para a urbanidade criada pelo Silva".
A embala estava em óbito. Pessoa grande, de respeito na aldeia, na "kacidade" de Kwitu e na "kicidade" de Loanda, onde quem lá brilha, na embala é tipo sol.

O finado Ekofika fez-se homem entre Ekovongo, missão de Kamundongo onde estudou bem, Kwitu onde trabalhou e Loanda onde se reformou a constituiu bens. Mas o óbito foi levado mesmo (pela menos na imaginação) à aldeia natal.
Partiu numa terça-feira de sol envergonhado, depois de muito bregar para adiar a morte. Filhos, sobrinhos, primos, amigos de todos os tempos, todos procuraram tê-lo mais tempo em vida e, por isso, ajudaram nas contribuições. Ekofika foi buscar saúde ao estrangeiro, à faca se submeteu, mas, em vão. Pariu mesmo.

- Quando Jesus te chama, você pode mesmo ir "no" melhor professor dos médicos, os anjos não te largam. - Dizia-se eufemisticamente para aliviar a dor dos filhos e da família próxima.
- Mas o mano Ekofika combateu um bom combate. Assim, a oração "venha agora o teu reino e seja feita a tua vontade", que temos orando na IECA, foi mesmo cumprida. - Desabafou outro presente também condoído.
Mano André, do prato cheio, estava ainda calado, quando essas cenas todas começaram a ser narradas. Para ele, trabalho no óbito era apenas controlar a logística e encher a pança de boa cabidela e bom vinho.
- Comigo, é médico mesmo que me disse, vinho só tinto de garrafa. Pacote "nó" entra, nem "ngalinha" da loja. - Dizia, a mostrar os dentes todos na boca.

 Se cá fora eram tertúlias, contribuições para alimentar e dar de beber às visitas, lá dentro, com a coitada da viúva, também havia trabalho. As civendji (tchivendji), senhoras que fazem companhia à viúva, tinham a missão de a distrair e com ela chorarem à chegada de um familiar próximo ou amigo importante do de cujus. Imaginavam momentos passados com o falecido Ekofika, para puxar compaixão e lágrimas, e atiravam uma expressão de todos conhecida.
- E agora, mano fulano, o Ekofika nos deixou. Twasala ulika!
 
Outras civendji que não tinham convivido o suficiente com o finado recordavam seus entes partidos há muito e soltavam, à memória, choros acompanhados, às vezes, de lágrimas fartas. Ser civendji não é "fácii", diria a minha sogra Buenos Aires.
Ao sétimo dia, as civendji são libertadas, em parte. Confinadas ao quarto da viúva, durante aquele período, são finalmente alimentadas abundantemente. Servem-lhes, por isso, bebidas e carne (aquela que sobra dos comensais, não restos, não senhor!), dão-se-lhes passagem e se dispersam, ficando apenas duas ou três, as mais chegadas à viúva, para fazer-lhe companhia nos dias vindouros, até se colocar perante facto consumado e se reerguer para a nova vida sem o companheiro.
Segue-se a reunião familiar. Filhos de todas as "cavalarias" são chamados a participar. Quem não estiver, "ngongo yaye". Descreve-se aos participantes o ambiente que circunscreveu e levou à morte o finado, no caso o mano Ekofika. Contam-se os bens materiais e imateriais produzidos (com sua ndona) e deixados pelo de cujus. Enumeram-se as dívidas contraídas e por saldar. Os credores são chamados para se pronunciarem e reclamarem dos haveres. Uns preferem perdoar os valores ou bens por receber. Às vezes, até mesmo o adversário inveterado faz-se amigo. Acabou o campeonato! Apresentam-se as contribuições recebidas para os gastos durante o nojo, sobras, etc. É assim no Ekovongo. É assim entre os ovimbundu.

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

CORRIDA DE JANTE


Enquanto a idade de montar numa Belita ou Caloy 28 não chegava, o sonho circunscrevia-se a ver a "bina" decomposta e herdar uma ou senão mesmo as duas jantes. A jante personificava tudo: a bicicleta, a motorizada e até mesmo o tractor ou o carro. Por isso, enquanto corríamos atrás da jante verbalizávamos um som onomatopeico de equipamento a motor movido a combustível. E correr atrás de jante, com um caniço como volante que empurrava o meio, tanto podia dar alegria nos concursos realizados com os amigos da aldeia como podia custar dolorosas reprimendas das mães de mãos leves às queixas da vizinhança.
- Andar a correr pela estrada, com tantos carros, é perigoso. Você já não ouve por quê, kokolo dyami?
Seguia-se o puxão de orelhas e o choro só para pedir clemência e sair a correr na próxima oportunidade.
- Mana Maria, esse miúdo parece é borracha ou carne do mataku. Você fala não ouve. Pessoa com raiva bate e menino nem chora. Assim "lhe" faço ainda "comué"? mana me dá ideia.
- Joaninha, "lhe" deixa só assim. Um dia vais "lhe" matar por engano, na hora da porrada. Se não estás a "lhe" conseguir, "lhe" leva no pai dele.
- É, mana. Vou mesmo seguir teu conselho. Kimbito lhe "desconsegui". Vai só me trazer azar.
Enquanto as mamãs punham conversa em dia, para a garotada era corrida de jantes ou pneus e ir à caça de kiberra, uns gafanhotos verdes e compridos, que eram amarrados a linhas finas e longas, deleitando a criançada com os seus voos rápidos e curtos.
A jante, porém, tanto fazia sofrer como servia de mimo "na hora de filho querido", sobretudo naqueles dias em que se devia levar um recado urgente à tia próxima ou mesmo ir ao mercado comprar o emergencial em falta.
- Kimbito, meu filho de homem, vem cá kasule!
- Mamã!
- Vem. Vai "na" tia fulana, "lhe" fala mamã vai trançar o cabelo às cinco e meia da tarde. Vai, filho corre e não demora. Leva a jante.
- Mamã "num mi" bateu há pouco por causa da jante?
- Filho vai só. Quando a mamã te bate é para cresceres.
Será? Mas íamos empolgados. Correr autorizado atrás da jante sabia à dádiva.
Grande esperteza das mães daquele tempo. Para realizar tarefas urgentes davam a jante. Para brincar com os amigos era perigoso!
Mas lá estávamos nós. Uns com as suas jantes e outros com os pneus recuperados de recauchutagens.
Sempre correndo até que a puberdade rendeu os tempos de undenge. Para novas corridas, surgiram as ilumba.
- Moça, quero falar contigo uma coisa muito séria. Vou procurar-te às vinte e trinta, na hora em que o teu pai  assiste ao telejornal. Serás assim: tipo estou a passar, vou riscar no vosso portão e tu sais. Combinado?
- Sim, Manelito.
Na hora acordada, Manelito, caderno de improviso na mão. Se aparecer o pai ou a mãe da Kavunji apresenta o caderno.
- Boa note, Tio Martins. Desculpe, pedi o caderno para copiar a matéria de Biologia e vim já devolver.
Quando a Kavunji sai sem ser vista, o truque é uma perna no beco e outra perna no quintal. Para Manelito, os quedes devem estar sempre bem atados e pernas afinadas para a corrida e contornar o beco escuro.
- Manelito fala rápido, assim mesmo, a minha mãe já está a me procurar e pode sair.
Manelito sem jeito, bate uma mão sobre a outra cerrada. Puxa conversa de encher saco: aula de História, Química e Física. Nunca de Biologia e Anatomia que é seu engodo. E o tempo passa. Mais um dia sem a Kavunji que fica apenas para o sonho no escuro do quarto sem lâmpada ou com lâmpada sem energia. E sonha jurando amor a Kavunji.
Chega a juventude. Árdua e responsável com outras pressas. Com ela a vida Kwemba... Melhor foi o tempo da jante!

Publicado pelo Jornal Cultura de 24.Out. 2017

sábado, 1 de setembro de 2018

ANTIGAMENTE NO RANGEL

 
O tambor, uma lata de leite de qualquer marca, agredido por um ferro ou uma pedra, gritava ao máximo de sua força. Pá-pá-pá-pá.
Atrás do som, uma, duas ou três senhoras, lábios secos e pés empoeirados de tanto gritar e caminhar, soltavam um coro, alegre para a nossa inocência de tundenge e preocupante para as mamães que podiam estar naquela situação um dia, a contar com as nossas travessuras e o seguidismo ao Mam-Brás, ao cavalo-tica-tica, e, sobretudo no tempo de carnaval. Essas as mamães confirmavam antes a presença dos seus tumbonga é prestavam-se em passar informação e pedir detalhes sobre o garoto ou garota desaparecida.
- Pá-pá-pá... O gritar intrépido da lata já ampliada ia, deixando rasto na rua varrida manhã cedo pelas mamães. Cada uma atacava o seu lado. Lixo tinha lugar, o balde, no quintal, e depois o depósito com ou sem contentor.
Atrás do barulho da lata, ou quase em simultâneo, a manhã aflita e suas companheiras gritavam, quase já sem força. Apenas esperança em reencontrar o filho amado.
- Nanyi wa ngi bongela kambonga Ka dyaléééé? É a lata tambor continuava Batucando.
É esse o Rangel do meu tempo, século passado, quarenta anos.
E o som, as trambiquices, as magoelas na carroça do carro do vizinho ou dum visitante qualquer, as pescarias de "bagudas" na vala Senado da Câmara, junto ao Catetão, as cercanias da DTA para apanhar loiça descartável já descartada, os pinos na Chicala e ou na praia do Mbungu, as castanhas de caju que só o comboio permitia chegar ao quilómetro trinta de Viana, tudo isso ainda no ouvido e na memória.
- Vocês, estão a ouvir n'é? É melhor tomarem cuidado. Se calhar quem se perdeu é vosso amigo da bola ou de brincadeiras. Quando mamã fala não sai é mesmo para não sair.
Qualquer vizinha era tia. Era mamã no aconselhar, repreender se necessário e acarinhar quando injuriado. 
- Filho 'lheio tem 'mbora razão dele. Pra quê só fazer no filho da outra quando você também tem kambonga? - Acudiam.
Hoje, com escolas do povo, colégios privados, ATL e creches para todos os bolsos, media e redes sociais para todos, nem o pregão que procura o filho desaparecido, nem as brincadeiras são as mesmas. Tudo mudou. Até as razões das desaparições dos meninos. Hoje a atenção redobrada é com raptores de menores. Porque a TV os jogos, as escolas e os quintais murados feitos prisões já não as leva tanto a caçar gafas, apanhar peixinhos para guardar em aquário de garrafão cortado, nadar inocente no perigo da Chicala e Mbungu ou pendurar-se ao comboio para chegar à fonte de castanhas de caju. São outros os males e os remédios também!

Texto publicado pelo Jornal Cultura/2018

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

OS DESISTENTES, OS FALTOSOS E OS TRANCADORES

 Mangodinho, crente de sua igreja desde pequeno, dez anos acabados de fazer, naquele ano que precedeu o centenário do "nossa igreja come mbora cem anos cem parar", há bons meses que não pisava o pé no templo, embora se considere e se gabe a todos os ventos "crente confesso". Em andanças profissionais, cruzou com Adão Kalongo de quem recebeu crítica aberta e construtiva de um amigo e coetâneo, embora frequentando outra "paróquia", queixando-se de suas ausências prolongadas aos cultos. Para persuadir o amigo, Adão  exemplificou um caso de "alguém que trocou de confissão religiosa, já em fase avançada de idade, sendo que no funeral apareceram menos de vinte pessoas".
- Já viste, Mangodinho? - Prosseguiu Adão. - Os amigos, contemporâneos e tudo, na igreja, também contam. Se ele não tivesse desistido, teria recebido toda a graça no último dia. Pensa bem.
- Compadre, não sou desistente. Apenas faltoso. Tu que és professor, analisa bem a situação do desiste que pode ou não procurar "outra escola" e do faltoso que tem direito a exame especial ou recurso. Eu nunca saí e jamais sairei. - Defendeu-se prometendo que seria visto no domingo que vem.
Sete dias depois realizou a promessa. Prometido e feito. Mangodinho, para não dar nas vistas e evitar saudações com sabor a cobranças, preferiu o penúltimo banco. Penúltimo porque nem o antepenúltimo e nem o último estavam ocupados. Apenas seria visto na hora do ofertório e de saída.
- Se o indivíduo vem é destaque. Se não vem também é notícia. É preciso ficar na penumbra e executar a retirada estratégica, sem dar nas vistas. Eles vão comentar. Depois tudo se ajusta, naturalmente. Aqui é como nos óbitos, o indivíduo não anuncia que vai. Ao sair também não precisa despedir. - Monologou.
Mas quando fazia a última curva, já hora de saída, as atenções estavam voltadas para ele. Fora, em tempos ainda de juventude plena, um dos incontornáveis daquele templo.
- Irmão Mangodinho, boa tarde e bom regresso à sua casa. Por ventura, veio visitar-nos ou veio, desta vez, para ficar? - Indagou irónico um coetâneo de boa amizade mas poucos reencontros.
- Boa tarde irmão Noé. Nunca desisti. Pense nas quatro condições de estudantes que temos: o que frequenta assídua e pontualmente as aulas, o faltoso intermitente, o desistente que já não virá mais e aquele que trancou a matrícula. Eu, irmão Noé, nunca desisti. Tenho direito a recurso e exame especial!- Defendeu-se argucioso.
Noé, ainda a pensar no que acabara de ouvir, puxou os olhos para outro lugar, momento que o irmão Godinho aproveitou, com destreza, para pôr o ngimbu e o pé a fazerem parelha.

Texto publicado pelo jornal Nova Gazeta, Junho 2018

domingo, 1 de julho de 2018

SONHO DE MARINHEIRO

O desabafo bruto e cru daquele homem de meia idade tinha deixado meio mundo boquiaberto. Melhor porque foi em mar abeto. Na terra, uma tirada como aquela e saída da boca de quem saiu teria um imediato catálogo herege.

O barco em que seguiam andava à deriva havia já muitos pares de anos. Todos os avisos das cercanias e de radares externos tinham sido pura e simplesmente ignorados. Embarcações em situações análogas há muito tinham afundado ou mudado de comandante. Navio como aquele e tripulação como aquela já se contavam aos dedos de uma mão pelo mundo oceânico, onde os ventos turbulentos coligavam com os tubarões de todos os dia.
Martins, o homem do desabafo, era marinheiro há já três décadas. O seu apego pelo mar é natural. Nasceu à beira duma ria e cedo seus pais se mudaram para uma ilhota do Índico, até que, numa noite de poucas estrelas, o mar rugiu e fez juntar as águas de todos os lados. A casota de palhas de palmeiras e mafumeiras foi abraçada pela água furiosa. Martins perdeu o irmão das brincadeiras e a mãe dos fervidos e assados. Viu-se apenas ele e o pai flutuando sobre o mar deserto, apoiados em velhos destroços duma antiga piroga.
- Papá, o mar atingiu-nos. – Disse Martins tão logo se deu conta da situação calamitosa em que se encontravam.
- Sim meu filho. O mar atingiu indelevelmente nossas vidas. Comparado a isso foi apenas o fascismo do início do século. - Respondeu José, o pai.

Vivia-se o século vinte. Bem no começo da segunda metade. Os náufragos lutaram contra as águas raivosas e o vento furioso e um sol assador, até que ao cabo de sete horas sobre aquele dilúvio fizeram-se à terra firme. Eram heróis aos olhos do povo que perfilava a costa e que já tinha preparado oferendas à Kianda, mãe de todas as sereias  daquele mar agitado.  Era a forma habitual de impedir que mais mortes acontecessem.
Lukinda, de seu nome de nascimento, viu-se apelidado por Martins, uma corruptela de “mar tingiu-nos”. E assim ficou conhecido e reconhecido agora como marinheiro de incontáveis milhas.

O navio já levava anos à deriva no Índico. Martins era capitão. O comandante era Sam Téh. Homem hábil nos tempos que já lá se foram, mas que se apresenta agora com o cérebro calvo e fragilizada pelas calemas que sempre o apoquentaram durante os dois séculos cruzados pela sua vida. Embora Martins fosse pessoa influente e homem de argumentos que incentivavam os co-viajantes a se manterem no barco até às últimas calemas, era Sam Téh que tomava as decisões e a quem todos deviam obediência.
Sam era duma crueldade que alimentava os tubarões com os seus marinheiros revoltosos. Em terra firme a capitania já o teria apeado do leme. Mas em alto mar, e com o navio sem bússola e sem terra à vita, a ninguém mais Sam prestava atenção senão ao seu próprio ego. E não foram poucos os capitães promovidos e despromovidos por erros do Comandante mas sempre imputados a Martins e pares.
Na sua vida de marinheiro, Martins já fora herói e vilão. Soube sempre coabitar com o mel e fel naquele navio. Em tempos de bom vento, fora inclusive elevado à categoria de Vice-Comandante. Foi descendo, descendo, devagar, devagarinho até se deparar com a condição de simples passageiros. Era isso que não entendia por mais esforço que fizesse.
- Está difícil manter o Estado neste barco. – Desabafou Martins perante a multidão que planejava a destituição do Comandante e encontrar um comandante que os levasse a porto algum.
- Mas ó camarada Martins, você não faz parte da tripulação? - Questionou  Taci, um crónico insatisfeito.
- Não meu senhor. Já fiz o que pude fazer enquanto achei que alguma terra nos pudesse acolher. Com o actual estado de coisas, tudo o que pretendo é que passe por cá um barco ou helicóptero que nos socorra e nos salve desta aventura samtsetiana, disse entre dentes, antes de se retirar.
Mal tinha colocado o pé na porta do seu aposento, o seu desabafo já se tinha convertido em assunto para reflexão e debate.
Primeiro perguntou-se a autoria do seu nome e depois o significado daquele “está difícil manter o Estado neste barco”. Ninguém conseguia perceber o alcance daquelas palavras tão simples quanto profundas como o Índico que os mantinha cativos entre a vida e a morte.
Sá Lutenda, um vidente, sabia do que lhes esperava. Sabia também que caminhos tinha trilhado Martins e que ideias lhe invadiam a alma. Mas não o disse de imediato. Deixou que a discussão atingisse o auge.
- Eu sou contra o Martins e deve ser levado à razão. – Defendiam os aduladores do Comandante.
- Acho que o Martins está cheio de razão. Embora ache que não seja ele a quem de deva confiar o comando do Navio é importante que se dê oportunidade a pessoas do mar ou que ,no mínimo, se deixe os marinheiros trocar ideias. - Defendeu Lamba, o mais idoso da tripulação.
Lamba, talvez devido ao peso dos seus anos, costuma dizer que já foi árvore, já foi lenha, já foi carvão e agora é cinza. Diz as coisas sem peneira e de acordo ao seu conhecimento e experiência. Goza por isso de aceitação e é reconhecido como grande marinheiro, embora nunca tenha chegado ao leme.
- O mar é complexo e cada um tem uma experiência que pode ser partilhada. - Continuou Lamba que foi molhado com assobios elogiosos.
 - Mas, ó kota Lamba, você que tem mais idade do que este navio, você que conhece todos os comandantes, capitães e marinheiros, pode nos explicar quem na verdade é o Martins? - Questionou Lunga Mana, o mais jovem dos passageiros.
- Olha, meu jovem marujo, podes anotar na tua caderneta mental. O chefe Martins é um homem que já esteve próximo daquele leme. Alguém que já fez muito para que o navio continuasse flutuante, embora à deriva. Martins é um jovem que entrou no navio cheio de vida como tu. Que foi subindo e acertando as velas ou colocando lenha na caldeira. Já puxou demasiado cabo e descamou demasiado peixe até chegar à direita do Comandante. Também desencalhou o navio por diversas vezes. E por diversas vezes prejudicou a si e aos seus para manter a reputação do Comandante que, apesar de tudo… - Lamba puxou da mutopha carregada de kangonha de Kalandula para pôr mais ar no peito que já lhe ia rareando vezes sim, vezes sempre. E continuou: - O Martins é um homem que se deu conta que a seguir o Comandante como às vezes se segue, aplaudindo e remendando os seus erros de miopia, morremos todos e ninguém encontrará sequer os destroços da embarcação.
Mais palavras não houve. Apenas um forte ruído motivado pelo casamento entre o mar, o navio e a rocha. Bummmmmm!!!!
O choque do incauto motorista de Hiace contra uma árvore que repousava já meio século no passeio da rua da Missão, acordou Benedito que seguia embalado no seu sonho de marinheiro.
 
Publicado pelo Jornal de Angola, caderno Fim-de-semana, de 8/4/18, pg.10.

sexta-feira, 1 de junho de 2018

O TIO E O FEITIÇO

Discutia-se algures, no nordeste angolano. Dois amigos. Um citadino e outro cujas vivências se restringiam àquilo que o seu horizonte visual permitia ver entre o nascer e morrer do sol.
Mulelenu e Mwecenu eram porém coetâneos e com os dez primeiros anos de vida feitos em comum: caçadas, armadilhas para todos os animais menores, pescarias, iniciação em trabalho com a madeira, ferro e até cestaria e olaria, ofícios que aprenderam antes da mukanda (escola de iniciação masculina) e que aperfeiçoaram nela e depois dela. Os mores, as tradições, os ritos, os contos, os temores aos mais velhos, ao tio, a valentia perante os perigos na selva, tudo isso foram lições aprendidas até que a cidade chamou Mulelenu que foi viver com um tio.
Tempos depois se reencontraram. Mwecenu parecendo mais velho do que Mulelenu, agruras da vida no campo. Mulelenu parecendo um infante, instalado no seu jeep todo-o-terreno. Viram-se e se abraçaram. Ali mesmo, sem mais demora, aliás, depois de Mwecenu ter tragado o pão com chouriço e bebido a cerveja que o amigo lhe oferecerá, começaram as perguntas.
- Sepha (amigo), você não têm medo de tio?
- Medo de tio? Como assim?
- Vocês que vivem nas cidades esqueceram as nossas vivências. Já te esqueceste que tio te pode vender?
- Sim. Isso nos ensinaram quando éramos crianças. Mas vendas de sobrinhos já terminaram há mais de um século, ou seja, cem anos. Tu ainda pensas assim? Apressa-te. Estás parado no tempo.
- Ai é? Eu que te quero ajudar a abrir o olho é que estou parado só porque você está a andar no carro e eu a pé? Já deste mota ou kinga (bicicleta) ao tio daqui?
- Olha, Mwecenu, para mim essas coisas ficaram no passado, são estórias para ensinar as crianças a reverenciar os mais velhos e especialmente os tios. Nada mais do que isso.
- Ó rapaz, você conhece botânica? Os tios todos têm botânica (feitiço). Se os tios de Luanda já não vendem os sobrinhos é porque têm possibilidades. Os do mato te põem mesmo na botânica, não brinca meu irmão. Não passa a vir só com as mãos a abanar. Se compras moto, primeiro dá uma longa ao tio. Se compras carro primeiro uma moto ao tio. Se compras casa boa, manda umas chapas de zinco ao tio. Assim, se ele te manda vender na botânica, o teu espírito fica protegido (coberto de razão) e nada te acontece. Os espíritos lá nos céus te defendem e o próprio teu tio ou filho dele que que entra em desgraça porque a tua parte foi feita com antecedência.
Mulelenu, mão no queixo, a ouvir o amigo de infância a discorrer conversas que, para ele, são para boi roncar, preferiu deixá-lo exorcizar todos os seus temores.
- Terminaste, Mwecenu?
- Sim. Até aqui, esse kabucado, já depois vou te explicar outras coisas porque tu és meu amigo desde há muito tempo. É para teres sempre cuidado que aqui o feitiço é mais forte do que a bala de uma arma.
- Pois é. Agradeço-te pelo facto de teres conservado todos esses valores. São eles que regulam a vida aqui na aldeia. Que fazem com que os jovens depois de se "palharem" não vilipendiem os mais velhos. Mas repito é tudo conversa da treta. Tens problema com o vizinho? Vai à polícia. Tens dinheiro, investe em coisas que ajudam a comunidade. Compra mota, compra boi, compra carro, constrói boa casa. Hoje já não herdas do tio nem ele te vende em lado sítio nenhum. E se tens tempo para estudar, estuda um pouco abre os olhos. O mundo está a avançar rápido. Hoje o neto do branco que comprava escravos e neto do antigo escravo comem à mesma mesa. Feitiço é atraso.
Mwecenu acenou a cabeça em jeito de aprovação mas não o confirmou oralmente. Continuou pensativo. Deu apenas um abraço ao seu amigo da cidade e ambos continuaram, já em surdina, a reflexão sobre o que deve ser mantido e o que deve ser extirpado dos contos e lendas do antigamente.
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Texto publicado pelo jornal Nova Gazeta/2018

sexta-feira, 25 de maio de 2018

"AMOR SEM PUDOR" DE KANYANGA E CRÍTICA DE CABOMBO

A  Evidência de um dos Vértices da Tríplice Estrutura da Conduta amorosa do Homem em “amor Sem Pudor” de Soberano Canyanga
Tazuari Keitá, S. Kanyanga, C. Cabombo e António Pinto (esq-dir)
 No ofício de descortinar o enigma, em torno da obra em análise, apesar de alguma aproximação afectiva, entre o autor do texto literário e do texto crítico, pelo facto de termos nascido no mesmo município (Libolo), sermos coetâneos, termos feito a graduação na mesma Instituição académica (ISCED/Luanda) ele em História e eu em Letras, pertencermos à mesma matriz religiosa e termos uma paixão comum, a saber a Literatura. Procuramos ver a crítica não como um veículo de enaltecimento de um “kamba” que publica mais um livro, mas comprometer-nos com a obra literária, enquanto escopo da nossa análise, com um olhar desapaixonado, colocando de parte qualquer malícia ou premeditação danosa, buscando evidências textuais, e quando necessário revisitarmos o autor, na senda do biografismo, para ajudar a desnublar  alguns espaços da sua tecitura poética. Embora docentes, procuraremos não utilizar, com frequência termos técnicos, tendo em conta a heterogeneidade do público a que nos dirigimos.
Sobre a trajectória literária do autor: no tocante ao conjunto da sua obra, Soberano Canyanga, de nome próprio Luciano Canhanga, estreiou-se no mosaico literário angolano com Sonho de Kaúia (romance, 2010); em 2012, publicou Manongo-Nongo (contos infanto-juvenis); em 2013, estreia-se na poesia com 10 encantos; em 2014, O Relógio do Velho Trinta (romance); ainda em 2014, O Coleccionador de Pirilâmpos (contos); 2015, Canções ao Vento (poesia), o autor é colaborador do Jornal A Nova Gazeta onde mantem acesas publicações de crónicas.
Do ponto de vista periodológico, mesmo sem lhe dar um rosto definido, situamos o autor no grupo de escritores que emergiram entre 2000 a 2010.  O autor faz parte de uma época caracterizada por um conjunto de ilhas literárias, algumas das quais gravitando em torno de projectos comuns como o Lev’arte e o Literagris, que se têm assumido como novos espaços legitimadores do fazer literário de jovens poetas que se pretendem afirmar no mosaico literário e cultural angolano. Estas plataformas literárias têm procurado, com dinâmicas continuadoras da literatura angolana, propiciar momentos de pulsação da mesma. Devendo, por isso, a História e a Crítica Literária angolanas trazê-las no centro da abordagem. O “resto” é apelo estimulador para o aperfeiçoamento contínuo na concepção e parto do fenómeno literário.
Procurando manter uma produção literária regular, em 2018, a cargo da Creative by Arp, da qual estimamos o esforço e dedicação, brinda-nos com a  obra poética amor Sem Pudor, numa tiragem de 1000 exemplares, que temos o ensejo de apresentar aqui no CEFOJOR.
Considerando que toda a produção literária é precedida da experiência previa da leitura, pois a “literatura alimenta-se da literatura”, assim ao indagar sobre as influências literárias de Soberano Canyanga em amor Sem Pudor verificamos, na superfície textual da obra em apreço vestígios, as vezes implícitos outras vezes explícitos, de construtos literários quer no contexto angolano e não só cujo dialogismo textual será demonstrado no decorrer da nossa abordagem.
Em amor Sem Pudor, não é de admirar que as influências literárias de Canyanga tenham como núcleo a Geração de 80, Geração-indepedência (cf. FEIJOÓ, 1994:18) ou ‘‘Geração das Incertezas’’, segundo Luís Kandjimbo. Essa Geração produziu textos, alguns dos quais, se podem aplicar, hoje, como referentes no estudo do erotismo literário na Literatura Angolana, sobretudo na poesia, pois olhando para a juventude do autor, temperada na cidade de Luanda entre as dinâmicas de sobrevivência como explicador de Língua Portuguesa no Bairro Caputo, a Jornalista, bem como pela sua formação em História serão ingredientes a considerar para que, no contexto angolano, pudesse entrar em contacto com obras de escritores, de cuja pena “brotam versos de intenso deleite” (FEIJOÓK, 1994:11), como António Panguila, Amor Mendigo; Paula Tavares, Ritos de Passagem; Luís Elias Queta, Binómio de Cacimbo; Lopito Feijoó, Entre o Écran e o Esperma, João Melo, Amor, etc.
A obra, que se construiu, em nosso entender, inteligentemente sob o signo do erotismo literário, vai-se desenrolando em torno desta atmosfera, porém a dado momento é assaltada por textos cujo construto se desenlança da atmosfera que a preside, numa espécie de ruptura temática, como se pode verificar nos poemas “Fuka Yami/Minha Terra” (33); “A Meio do Kasimbu” (p. 34); “Pesadelo” (p.41); “Desafio” (p.42); “Dias que Correm” (p. 43). Olhando para os acabamentos estéticos da maioria desses textos “intrusos” constata-se, na nossa visão de leitor, a inexistência de alguma oficina da palavra. como exemplo podemos citar “Dias que Correm” (p.43) Gosto de trabalhar/adapo-me a ambientes quaisquer/climas organizacionais quaisquer...essa prosa comum, efemeramente popular, ou “poesia do desabafo” faz lembrar  a obra Nem Tudo é Poesia de David Mestre.
Afinal, que amor é esse que o autor se propõe apresentar “sem pudor”. Será o ágape? – que é uma forma especial de amor? Enfatizado na perspectiva teológica como amor de Deus pelo Homem, esse amor apresentado no Novo Testamento por Cristo, através do qual Deus manifesta-o descendente e transformador da Humanidade, fazendo com que o Homem fosse capaz de amar o seu semelhante, “não por sua beleza ou valores atractivos, mas por si mesmo” (IBOR et al, 1977:6). Se fosse tal amor, porque teria, então sentimento de vergonha que Soberano Canyanga se propõe desmistificar na sua poética? Ao apresentá-lo “sem pudor”. Talvez, Nygren nos aponte uma saída ao contrapor o ágape ao eros “como dinámica erótica que impele para o «objecto» amado, desejável” (idem, ibidem) que para os gregos pressupõe a “força natural que impele os animais e o Homem à reprodução”. No plano humano, eros assenta nas raízes psicológicas enquanto o sexo nas raízes biológicas.
Portanto, sexo, eros e ágape são três vértices da conduta amorosa do Homem. Se por um lado existe a “atracção sexual” entre o homem e a mulher, por outro a “atracção erótica” na qual se digladiam simpatias e antipatias, desejos e aversões, vitalidades e fadigas, interesses e desinteresses, é esse complexo diná
mico que leva o homem e a mulher a apaixonarem-se e a desiludirem-se um pelo outro. No final de tudo, essa tríplice manter-se-á, se ligada ao vértice do reino do ágape, do amor perene.
Depois desse intróito, pode perceber-se que em amor Sem Pudor Canyanga evidencia o vértice eros – sua dimensão psicológica – que remete o Homem “não só a apropriação da beleza do outro corpo, mas a alcançar o mundo das imagens e das ideias”. (idem, ibidem)
Ora vejamos. Para além do sugestivo título amor Sem Pudor, na capa, vê-se uma imagem translúcida, cenografia típica: de pé, com a parte superior dos corpos desnudos, pelas feições físicas, aparenta um par de jovens em beijos que adoptou a posição mais cómoda para os seus objectivos.  As mãos do rapaz debaixo dos ombros dela mostram uma excessiva intimidade sexual. Na imagem, chama atenção o cabelo corrido da rapariga, apelando para a matriz estética feminina ocidental em oposição à carapinha ou jimi africano. E aqui, talvez, ocorra questionar que critérios estéticos ou soció-culturais puderão estar na base dessa proposta? Quando o contexto de que imana a obra é angolano/africano, em primeira instância a contar pelos referentes culturais predominantes no texto.
A obra é inaugurada pelo poema “Faixa de Gaja” (p.7), constituído por três estrofes, sendo todas quadras. O título, para os atentos ao que se passa no Médio-Oriente, sugere, convoca, ventila, o espaço físico conhecido por Faixa de Gaza. A alteração da consoante /z/ de Gaza para /j/ Gaja propõe, sob os auspícios da plurissignificação, duas ou mais leituras possíveis: a primeira, que chamaremos de “geografia feminina” começa por convocar dois elementos da natureza: montanhas e praia, olhe-se que diz montanhas, no mínimo duas e praia, uma, sobre as quais um túnel já sem distância/ ajuda quem por lá relaxa (v. 3, 1.ª estrofe), uma imagética  que alude a geografia feminina como fonte de prazer, afinal só é relaxante o que é prazeiroso. Mais abaixo, e mantendo a tendência metafórica acentua, um bebedouro sedes aguça, (v. 4, 2.ªestrofe) intertecendo diálogo com o trecho de Provérbios, 5:15 (não do ponto de vista da intencionalidade do sujeito poético, mas do barro usado pelos oleiros nos construtos textuais) bebe água da tua cisterna, e das correntes do teu poço, a relação entre as palavras bebedouro/cisterna/poço, sedes/água mostra a “faixa da gaja”, alusão a “perenidade” da geografia feminina, nas palavras do poeta entre montes e gémeos e terra prometida (v. 2, 3.ª estrofe) em alusão península perene.
 A segunda: chamaremos de “o dilema do Médio-Oriente” como referência à situação entre Israel e Palestina. A palavra “secura” como referente do deserto onde morre quem paus arremessa (v. 2, 2.ª estrofe) nesse deserto onde um bebedouro sedes aguça, a disputa pelo ente reclamado por uns e por outros, montes gémeos e terra prometida (v.2, 3.ª estrofe), em alusão à Terra Prometida, segundo o Antigo Testamento (mencionar). Parece-nos, portanto, vingar a primeira leitura, pois, na segunda há como que um esquivar do ‘engajamento’, um deluir da perspectiva Sartreana, como disse Antero de Quental (1988:29) “a poesia deixou de ter missão social. Os raros poetas, que ainda existem, são apenas os restos destroçados duma raça de outras idades e que breve terá desaparecido” e conclui o vate que  “a poesia conservar-se-á, mas perdeu o antigo carácter de uma das grandes forças sociais e espirituais da Humanidade, de agente poderoso de civilização”. (idem, p. 30) para Friedrich Schiller a chave para a solução das questões do «mundo político» teria de ser forjada precisamente no «mundo estético» como bem defendeu: “não se trata aqui do que a arte é para mim, e sim de como ela se comporta diante do espírito humano”. (BARBOSA apud Schiller, 2004:19).
Contudo, em nosso entender, a cadência esteticista, neste poema, destoa quando o oleiro da palavra, na circunstância de pôr a mão na argila para dar o toque final ao artefacto, denuncia com objectividade a urdidura poética, como se pode ler no último verso do poema é entre saia e blusam referentes dos territórios fronteiriços do bebedouro ( Primeira leitura). Pois, aqui, e como aponta David Mestre, denota-se uma ausência da “elevação da capacidade autocrítica e da afinação estética” (MESTRE apud FEIJOÓ, 1994:15). Pois, se o facto social já é demasiadamente obvio, o literário deve demarcar-se do obvio.
Em “Repada de Galo” (p. 19), a palavra repada afigura-se-nos uma (re)invenção do poeta, em lugar de (ripada de galo); dar ripas, que no sentido sexual, contexto a mwangolé, é fazer sexo com frenesim, toda a força possível. O texto é  marcado pela aliteração como se pode ler:  corre o cabrito, corre a vaca malhada/correm homens, corre o gado/corre água, corre leite com brio (...)/na curta relva relincha o cavalo..., ou se considerarmos omissão do /m/ na primeira palavra e atentando para a semântica no contexto, teriamos (remada de galo), quererá o sujeito poético, com essa omissão, ou no dizer de Martin Hedegger ocultação ou dissimulação, iludir para que nos possamos enganar? Então, a arte é um angano? esquivar-se para não denunciar o caminho conhecido? Ou sentiu-se atrapalhado, incomodado para apresentar, aqui, o “amor com pudor?” já que entre rochedos, no meio a cascata/ zurra a burra, descansa a vitela sensata (v.7-8, 1.ª estrofe ), depois do sobe, desce pêndulo guiado a martelo (v. 9, 1.ª estrofe), nestes versos, a primeira ilação que nos ocorreu é que o pulsar poético de Canyanga “mediatiza uma relação em que o leitor capta através da representação textual, um saber sobre o prazer” (DURIGAN, 1985:38), a segunda ilação, aponta para o dialogismo entre os textos, tendo “Repada de Galo” como intertexto o  “O que se Passa na Cama” (p. 282) de Drumond de Andrade. Aquilo que Canyanga poetiza nos termos zurra a burra, descansa a vitela sensata, em Drummond é dorme, menina, nanana/dorme a onça suçuarana/dorme a cândida vagina/dorme a última sirene.(v. 2-5, 2.ª estrofe), concretizando-se assim a função corroboradora da intertextualidade que permite que a imitação, a citação do texto modelar, a reiteração,  numa espécie de continuidade. A par da função corroboradora, o texto de Canyanga apresenta, em relação ao de Drummond, o grau médio da intertextualidade pelo facto de pôr em relevo alusões próximas, ou reflexos discretos e por continuidade, configurando  o espaço intertextual.
Em “Carga Pesada” (p.16) o poeta, sentado algures, constroi o inusitado, o “locus horrendus”: na imaginação/teus fluídos me invadem o rosto/e, como ganancioso cão/lambuzo-me no teu entreposto/vácuo, tormento e torneira de desgosto/ sinto quando de ti me desencosto/sukwama! Se há nela tormento e desgosto, por que é que se lambuza nela como ganacioso cão? Só pode ser um sádico que busca na dor e humilhação, a que se sujeita, o prazer sexual ou em eu, um leão faminto/ela, um vitelo perdido (p.17) ou ainda em vem firme/com toda tua força/toda tua ira/toda tua pressa/toda tua te(n)são (...)/asfixia-me no teu beijo metal/agarra-me num braço letal/adentra-me pelo bolso/assalta-me amor maldoso (p. 9). Como se pode ver na representação da representação, esclarecendo contornos do espetáculo amoroso de que o sujeito poético é actor: grito sufocado pelo prazer do fogo/ e, grito: coma-me logo! (p.16) Finalmente, o espetáculo erótico-amoroso ganha corpo, acção e qualidade. A descrição da geografia feminina, nesta floresta húmida, com ramagens, na visão erótica-amorosa do Canyanga. É de facto, aqui, “carga pesada”, esse poeta que em 10encantos se antecipa eroticamente suave “no teu colo frágil de mulher/com quentura de ovelha/minh´alma quer descanso...
O estado poético pode ser propiciado pela dança, pelo canto, pelo culto, pelas cerimónias e pelo poema, como dizia Fernando Pessoa o poeta é um fingidor, esse poeta fingidor em amor Sem Pudor esquivou-se ao longo da escrituração, fingindo que .a sua abelha não gravita sobre as flores, mas no final assumiu, confessou: dormi contigo, Rosa/sim, dormi contigo/ não resisti ao teu corpo esguio de mulher madura ... corremos e trepamos montanhas e colhi maboque/doces, ímpares maboques e tu.../ apenas tomates e cenoura mas onde aconteceu isso na imaginação de um sussuro ousado, “Entre Dunas e Lençois”, (p.45).
Na obra, é recorrente a anáfora. Enquanto recurso estilístico que reforça uma ideia, numa insistência quase sempre intencional como em “Às Vezes” (10) (...) quantas voltas dei para abraçar/quantas lágrimas derramei para sorrir/quantas lutas travei para me afirmar/quantas solas consertei para beijar/quantos passos recuei para pular. (v.2-6), 1.ª estrofe, ainda em “Cruzes de Fevereiro” (27) que chova dilúvios de críticas/que se quebrem os telhados/que se esvoace a folhagem arbórea ... ou em “Sentindo-me Assim” (p. 13) apresenta-nos um texto panafórico  começando todas as estrofes e versos com o verbo haver no impessoal ‘há’ como uma seta apontando para o sujeito poético que sente em si tanta coisa boa e má. E ao apontar as múltiplas existências em si que podem ser experimentadas pelos sentidos humanos, como tacto, calafrios; visão chuva; audição, trovões. Deixou de convocar ou reconhecer, em si, o paladar e o olfato será porque os terá reservado para outras coisas boas? 
A nossa impressão final é que o amor Sem Pudor de Soberano Canyanga constitui, do ponto de vista do erotismo literário, objecto de estudo onde se poderá dissecar aspectos como: a representação do corpo feminino; o erotismo e a natureza; o texto erótico como máscara entre o autor e o sujeito poético, a descrição das perversões: sadismo, etc. Fica-nos também o gosto com que o poeta trabalhou os textos, com excepção dos aspectos pontuais apontados.
Assim, para terminar o percurso do nosso diálogo com o enigma que é a arte, vamos convocar Martin Heidegger para o último questionamento: “mas por meio e a partir de quê é que o artista é o que é? através da obra; pois é pela obra que se conhece o artista” (HEIDEGGER, 2017:9), boa leitura!
 Luanda, CEFOJOR aos 25 de Maio de 2018
Carlos Cabombo
Referências Bibliográficas
BARBOSA. R. Schiller e a Cultura Estética. Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 2004.
BIBLÍA SAGRADA, tradução de João Ferreira de Almeida. Lisboa

CANHANGA. S. 10encantos. Edição do autor, Luanda, 2013.

CANHANGA. S. Canções ao Vento. Editor CeD, Luanda, 2015.
DURIGAN. J. A. Erotismo e Literatura. Editora Ática, Série Princípios, são Paulo, 1985.

FEIJOÓ K. J.A.S. L. Meditando. Execução Gráfica SOPOL, SARL, Luanda, 1994.
HEIDEGGER. M. A Origem da Obra de Arte. Tradução de Maria da Conceição Costa, Edições 70, Lisboa, 2017.
IBOR, et al. Livro da Vida Sexual. Vol.I, Edições CELBRASIL, Lisboa, 1977.
MESTRE. D. Nem Tudo é Poesia. 2.ª edição, Edições ASA, Portugal, 1989.
KANYANGA. S. amor SEM PUDOR. Creative by arp, Luanda, 2018.
PIRLOT. G e PEDINIELLI. J-L. as perversões sexuais e narcísicas. CLIMEPSI Editores, Lisboa, 2006.
QUENTAL. A. Antero de Quental, a Poesia na Actualidade. Fenda Edições, Lisboa, 1988.
SARAIVA. A. Carlos Drummond de Andrade 65 Anos de Poesia. Antologia, Edições O Jornal, 2ª edição, Lisboa, 1989.