Desde que conheceu o outro lado do muro caseiro Kezito tornou-se um homem de muitos lugares e discotecas chiques. É também homem de bons gostos quando se trate de companhias femininas. Dir-se-ia mesmo, um bom coleccionador de preciosidades. Mulatas, morenas, arménias, nepalesas, xindongas (1), aztecas entre outras que só ele mesmo conhece as origens. Altura acima da média feminina e busto não muito arredondado caem melhor no seu engodo. Homossexualidade é para ele uma depravação, por isso mesmo coisa desprezível. Para Kezito, donzelas, quanto mais difíceis mais apetecíveis.
Fruto das viagens que o serviço lhe vai dando, Jacinto Kakiezo ganhou outros gostos e outras projecções. É na primeira classe dos aviões que frequenta como taxi para os pobres onde se acomodam as madres, freiras, ministras, parlamentares e outras senhoras da primeira fila desta Res Publica. E como bom aluno de Sanjamba que foi Kezito aprendeu a arte de cortejar. O ar de bem-estar que respira, a altura e a barriga algo empinada para frente dão-lhe um charme ímpar que desbarata a resistência de qualquer quarentona. No estrangeiro costuma mesmo gabar-se de ser dono de uma enorme destilaria de petróleo num país africano ao sul do Sahara.
Num Sábado de Novembro, na discoteca Tamankos, Kezito acompanhado de duas musas de Chitembo (3), encontrou o que dizia ser o pior azar da sua vida. O recinto transbordava de gente que até ar para respirar rareava. Apenas o kaxeketela (4) se podia dançar para o anelo da muzangala (5) que desaprendera os toques do antigamente.
De repente, um ser com cara de homem e gestos femininos encostou-se-lhe ao ouvido em tons de cio. Kezito transitava entre o sono e o despertar. Custava-lhe acreditar no que via e ouvia. Foi então que o ousado lhe fez a proposta:
_ O Sr. importa-se ser meu pitchu? (6)
Aflito, Kezito retirou-se aos gritos, lançando intempéries de toda a sorte, deixando para trás, e às expensas de ninguém, as companheiras de ocasião que lhe faziam companhia na mesa de sempre daquele lugar.
Era numa daquelas noites em que saíra de casa de pianinho, sem o seu Patroll, portanto. Servira-se da boleia da Vany que entretanto o apanharia apenas às cinco da manhã para o muzongué (7) da Nova Era. Kezito banhado em fúria nem tempo teve para medir a distância tão menos o destino. Ao primeiro azul-e-branco (8) que se lhe apareceu não hesitou. Estava decidido, desta vez, em regressar a casa.
_ Isso só pode ser pemba (9) da Ia, vociferava prometendo explicações!
Vidrado na coabitação com o pecado, encontrou na sua viagem para Viana, mais uma oportunidade de pôr a arma em haste, numa demonstração de cana para toda pescaria. Kakiezo trocaria olhares íntimos com uma “noviça” perdida na algazarra da noite. Ima, de sua graça, era excepcionalmente linda e o artista não perdeu a oportunidade de desfiar o rosário.
_ A Senhorita pode dizer-me como se chama?
_ Irmã Ima, respondeu ela inquieta.
_ Se não se importa gostaria de ser teu amigo e poder mostrar-te o que há de bom fora dos véus, atirou em jeito de provocação o galanteador-mor.
A religiosa, surpresa, recusou o convite e rapidamente se desfez da incómoda companhia à primeira paragem da carrinha.
Kakiezo ainda não se tinha dado conta que o amigo da Tamankos o seguia a passos e com uma nova indumentária, até que o cobrador, homem a quem horas atrás rejeitara pedido de aproximaçào amorosa, ouviu o diálogo e disse ao caçador de beldades que tinha a receita de como levar a Freira à caçada. Kakiezo encheu-se de curiosidade e não se coibiu em solicitar a benigna receita.
_ Toda a quarta-feira, à noite, ela vai à capela do cemitério rezar. Como você tem barba e cabelo comprido, é só vestir uma túnica e cobrir um pouco o rosto. Ela vai pensar que é Jesus Cristo... e então ordene que ela transe consigo.
A táctica parecia boa demais para que Kezito a submetesse a exame racional. Tal qual a recebeu assim a digeriu não lhe cheirando a amargo. Não era ele uma espécie de cana para toda a pescaria?
Na quarta-feira seguinte, lá estava o caçador esperando a presa. Aparentemente viu Ima nas suas vestes de freira. Transpirou, mas rápido se conteve. Deixou que ela se aprumasse para a habitual romaria. A “mulher” escondia-se num véu que obrigava a respeitabilidade de qualquer crente apostólico, excepto o sedento Kezito que não tardou em fazer a sua anunciação à vítima.
_ Mulher, eu sou Jesus! Ouvi as tuas preces e elas serão logo logo atendidas desde que antes levantes o hábito.
A freira corta a respiração, mostra-se atónita, mas por fim concorda, virando-se e pedindo num murmúrio que a use apenas desse lado do canal das saídas pódridas, pois pretende manter o voto perpétuo de castidade.
_ Meu Senhor, a ordem é Vossa! Eis-me aqui Senhor!
Terminado, porém, o acto, o falso Cristo retira a túnica e, a gabar-se de mais uma das suas, solta uma estrondosa gargalhada.
_ Hahahaha! Eu sou o Kezito, o tal do candongueiro, lembras-te minha freira?
Nisso, a suposta religiosa descobre o rosto e responde:
_ Hahahaha! Meu docinho! E eu sou apenas o simples dançarino de boite e cobrador em horas esquivas. Sou aquela formosa que te pediu namoro na Tamankos e negaste com desdém. Viste que conseguiste com jeitinho?!
Até à morte, carregou Kezito este peso na alma.
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Glossário
1. xindongas: tribo que habita o sudeste de Agola
2. Chitembo: municipio do Bié, centro de Angola
3. kaxeketela: aperto
4. muzangala: juventude
5. pitchu: o mesmo que meu bem
6. muzongué: caldo
7. azul-e-branco: “candongueiro”, Táxi colectivo.
8. pemba: feitiço, praga
Fruto das viagens que o serviço lhe vai dando, Jacinto Kakiezo ganhou outros gostos e outras projecções. É na primeira classe dos aviões que frequenta como taxi para os pobres onde se acomodam as madres, freiras, ministras, parlamentares e outras senhoras da primeira fila desta Res Publica. E como bom aluno de Sanjamba que foi Kezito aprendeu a arte de cortejar. O ar de bem-estar que respira, a altura e a barriga algo empinada para frente dão-lhe um charme ímpar que desbarata a resistência de qualquer quarentona. No estrangeiro costuma mesmo gabar-se de ser dono de uma enorme destilaria de petróleo num país africano ao sul do Sahara.
Num Sábado de Novembro, na discoteca Tamankos, Kezito acompanhado de duas musas de Chitembo (3), encontrou o que dizia ser o pior azar da sua vida. O recinto transbordava de gente que até ar para respirar rareava. Apenas o kaxeketela (4) se podia dançar para o anelo da muzangala (5) que desaprendera os toques do antigamente.
De repente, um ser com cara de homem e gestos femininos encostou-se-lhe ao ouvido em tons de cio. Kezito transitava entre o sono e o despertar. Custava-lhe acreditar no que via e ouvia. Foi então que o ousado lhe fez a proposta:
_ O Sr. importa-se ser meu pitchu? (6)
Aflito, Kezito retirou-se aos gritos, lançando intempéries de toda a sorte, deixando para trás, e às expensas de ninguém, as companheiras de ocasião que lhe faziam companhia na mesa de sempre daquele lugar.
Era numa daquelas noites em que saíra de casa de pianinho, sem o seu Patroll, portanto. Servira-se da boleia da Vany que entretanto o apanharia apenas às cinco da manhã para o muzongué (7) da Nova Era. Kezito banhado em fúria nem tempo teve para medir a distância tão menos o destino. Ao primeiro azul-e-branco (8) que se lhe apareceu não hesitou. Estava decidido, desta vez, em regressar a casa.
_ Isso só pode ser pemba (9) da Ia, vociferava prometendo explicações!
Vidrado na coabitação com o pecado, encontrou na sua viagem para Viana, mais uma oportunidade de pôr a arma em haste, numa demonstração de cana para toda pescaria. Kakiezo trocaria olhares íntimos com uma “noviça” perdida na algazarra da noite. Ima, de sua graça, era excepcionalmente linda e o artista não perdeu a oportunidade de desfiar o rosário.
_ A Senhorita pode dizer-me como se chama?
_ Irmã Ima, respondeu ela inquieta.
_ Se não se importa gostaria de ser teu amigo e poder mostrar-te o que há de bom fora dos véus, atirou em jeito de provocação o galanteador-mor.
A religiosa, surpresa, recusou o convite e rapidamente se desfez da incómoda companhia à primeira paragem da carrinha.
Kakiezo ainda não se tinha dado conta que o amigo da Tamankos o seguia a passos e com uma nova indumentária, até que o cobrador, homem a quem horas atrás rejeitara pedido de aproximaçào amorosa, ouviu o diálogo e disse ao caçador de beldades que tinha a receita de como levar a Freira à caçada. Kakiezo encheu-se de curiosidade e não se coibiu em solicitar a benigna receita.
_ Toda a quarta-feira, à noite, ela vai à capela do cemitério rezar. Como você tem barba e cabelo comprido, é só vestir uma túnica e cobrir um pouco o rosto. Ela vai pensar que é Jesus Cristo... e então ordene que ela transe consigo.
A táctica parecia boa demais para que Kezito a submetesse a exame racional. Tal qual a recebeu assim a digeriu não lhe cheirando a amargo. Não era ele uma espécie de cana para toda a pescaria?
Na quarta-feira seguinte, lá estava o caçador esperando a presa. Aparentemente viu Ima nas suas vestes de freira. Transpirou, mas rápido se conteve. Deixou que ela se aprumasse para a habitual romaria. A “mulher” escondia-se num véu que obrigava a respeitabilidade de qualquer crente apostólico, excepto o sedento Kezito que não tardou em fazer a sua anunciação à vítima.
_ Mulher, eu sou Jesus! Ouvi as tuas preces e elas serão logo logo atendidas desde que antes levantes o hábito.
A freira corta a respiração, mostra-se atónita, mas por fim concorda, virando-se e pedindo num murmúrio que a use apenas desse lado do canal das saídas pódridas, pois pretende manter o voto perpétuo de castidade.
_ Meu Senhor, a ordem é Vossa! Eis-me aqui Senhor!
Terminado, porém, o acto, o falso Cristo retira a túnica e, a gabar-se de mais uma das suas, solta uma estrondosa gargalhada.
_ Hahahaha! Eu sou o Kezito, o tal do candongueiro, lembras-te minha freira?
Nisso, a suposta religiosa descobre o rosto e responde:
_ Hahahaha! Meu docinho! E eu sou apenas o simples dançarino de boite e cobrador em horas esquivas. Sou aquela formosa que te pediu namoro na Tamankos e negaste com desdém. Viste que conseguiste com jeitinho?!
Até à morte, carregou Kezito este peso na alma.
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Glossário
1. xindongas: tribo que habita o sudeste de Agola
2. Chitembo: municipio do Bié, centro de Angola
3. kaxeketela: aperto
4. muzangala: juventude
5. pitchu: o mesmo que meu bem
6. muzongué: caldo
7. azul-e-branco: “candongueiro”, Táxi colectivo.
8. pemba: feitiço, praga