quinta-feira, 20 de abril de 2017

A ORAÇÃO DO KAPITIA

A amizade que carregam, há mais de meio século, dá-lhe a ousadia para falarem de tudo e sobre tudo. Entre eles, nada é segredo. Apenas há segredos que desvendam só quando a fila ande. Aí sim. Abrem um espaço nos epitáfios e levam ao conhecimento dos parentes mais chegados as extravagâncias inauditas do de cujus.

 
Chegados da Kibala, Kitembo e os amigos Kanhanga, Kilole e Kapitia notaram a ausência de Kandungu. O homem tinha o telefone desligado, não mandava os habituais recados aos manos da sua geração e igualhagem, nem pedia dinheiro para a cura de reumatismo que ardilosamente desviava para as "baixinhas espumosas", como gostava de tratar as cervejas de garrafa curta.

- Compadres, o gajo deve ter ido para a pior ou a caminho disso. Depois do culto, é melhor irmos espreitar, se ainda encontramos o corpo quente. - Kanhanga aos coetâneos que depressa concordaram.

Juntaram moedas, as que haviam sobrado de um domingo de muitos balaios: fundo de construção, acção de graças, dízimo do Senhor (roubará o homem a seu Deus? Questionara o pastor para melhor penetrar-lhe o cérebro e a algibeira), oferta dominical, etc. Tinha sido uma fina peneira, mas, mais-velho é já mais velho, tem sempre reserva estratégica. E foi com o sacudir dos kafokolos, onde normalmente fica enfiada a reserva estratégica, que fizeram a vaquinha com que se meteram a estrada, ao encontro de Kandungu.

Encontraram-no vivo, mas degradado. Isso mesmo degradado e em estado lastimável. Os saltos, provocados pelos buracos na via que separa a capital da sede de Kibala, haviam debilitado a sua coluna de sustentação. Os antibióticos e analgésicos para afugentar as artrites foram substituídos pelas "pequenas espumantes". Encontraram um amigo vivo mas transfigurado. Mais morto do que vivo.

Primeiro entrou Kitembu, amigo e tio, embora dois anos mais novo do que Kandungu. Seguiram-se-lhe Kanhanga e Kilole. Kapitia chegaria meio atrasado, pois fora ver a filha nas cercanias.

- Boa tarde sô Kandungu. Esta hora já estás calibrado? - Saudou, gozão, Kitembu.

- Não brinques assim. Se me encontraram com vida é já sorte. Quanto à bebida com que sempre te embirras, hoje só bebi mesmo uma. Estou mesmo a morrer e nem sei porquê que Deus não me leva já. - Respondeu Kandungu, resmungão e com a voz trémula, como se lhe faltassem apenas instantes para transitar para outra dimensão da vida.

- Mas ó Kandungu, é mesmo morrer que queres, quando pessoas com noventa fogem da morte como satanás foge da cruz? - Indagou Kilole?

- Sim, mano Kilo. Aqui já não está a dar certo. Sofrimento é muito. Morrer é descansar.

Os amigos, algo co condoídos, algo chateados, com o indivíduo que degradou o corpo por livre vontade, decidiram retirar-se e voltar no dia seguinte. Eram todos reformados e Kitembu tinha um bom jeep em que se faziam transportar, quando não fosse na carrinha de dupla cabina que Kanhanga acabara de receber de oferta do filho.

- Vamos. Quando voltarmos trazemos outras ideias e esperamos não te encontrar mais nesse leito e nessa desgraça. - Disse Kitembu a despedir-se e puxando pelos amigos.

Kapitia, que acabara de chegar, tentou ainda convencer Kandungu para se livrar da ideia de se eutanasiar.

- Mas, ó mano Kandungu, ainda a semana passada que choramos o irmão Domingos João, até as lágrimas nos olhos ainda não se secaram, você quer já nos deixar?

- Sim, Kapitia, é melhor eu partir. Se vocês acham que estou a brincar, amanhã mesmo não vão mais me encontrar.- Disse Kandungu com as últimas forças que lhe restavam.

Kapitia, entre sarcasmo e compaixão, decidiu solicitar uma oração, mesmo Kandungu não sendo mais membro da igreja, ao que todos concordaram, até o inferno que se achava sem forças para se pôr em pé.

- Oremos: " Pai nosso, nosso Senhor, Deus que dá a vida é que a retira quando quer, estamos aqui perante nosso irmão que jazz nesse leito, mais pra lá do que cá. A vida que o irmão Kandungu leva é de muito sofrimento e miséria, pai. Já que ele mesmo está a pedir, por que é que o pai não manda essa noite seu anjo busca-lo? Ao menos ele descansa perto ou longe do Senhor, em função das suas obras no mundo. Que assim seja. Ámen!

- Ámen! - Confirmaram os amigos.

Kapitia ainda não tinha ainda terminado a oração é já Kandungu se sacudia de pé, entre os amigos. Afinal, não era a morte que precisava.
 
 
 
 
 

segunda-feira, 10 de abril de 2017

O MUNDANO E O "MONDANO"

Conversavam cinco idosos da Kibala, todos septuagenários. Kitembu e Kanhanga frequentam a igreja desde pequenos. Conheceram-se na Escola Bíblica de Férias, o primeiro levado pelo irmão Domingos João e o segundo por Beto Pequenino. Os tutores eram também amigos desde garotos. 

Em termos de frequência da antiga Missão Evangélica Americana, hoje Igreja Metodista Unida, Kitembu nasceu mesmo na igreja, pois, quando ele veio ao mundo, seu pai já ocupava cargos na Metodista. Kanhanga começou mais tarde, aos sete anos. Iniciou-se na "Cheia", aonde fora levado por um primo, ainda no Kwanza-Sul. Chegado a Luanda, foi levado pelo tio que era da "Protestante" como também era conhecida a confissão cristã trazida pelo americano Willian Taylor. 


Kapitia e Kilole, outros dois amigos, converteram-se ao cristianismo já jovens e foram levados pelos primeiros de quem são amigos desde tenra idade. Kandungu é o único entre os cinco que, ao contrário dos quatro contemporâneos, aos domingos, troca a bíblia e o hinário pelo copo de cerveja.

Cruzaram num óbito, na Kibala, terra de origem comum. Uns nasceram em Luanda mas são de filhos Kwanza-sulinos. Outros foram a Luanda em busca de estudos e profissões e acabaram por lá ficar até aos seus dias de cabelo branco. 

Kitembu tinha perdido o irmãos mais velho e os amigos foram levar consolo. Depois do funeral, e para enfrentar um tempo friorento, os cinco amigos falavam sobre as coisas boas do mundo, aquelas que Kandungu ainda persegue cegamente, e as coisas excelentes dos Céus ou a vida ultra-tumba, que Kitembu, Kanhanga, Kilole e Kapitia procuram atingir com a sua entrega abnegada à causa de Cristo.

- Ó Kandungu, você sabe qual é a duração da vida do homem na terra? - Indagou Kitembu. Kandungu, meio surpreendido, procurava buscar uma resposta que fosse de encontro à sua idade e experiência.

Como um carro sem arranque, começou a resposta pelos soluços, enquanto coçava a barba, toda ela algodoada. - Já viu o quê que os copos faz no homem? O "ngajo" parece já esqueceu tudo. Setenta anos, que vem na Bíblia, já não sabes? - Atirou Kilole, provocante.

- Sim. São setenta anos para que o homem se sinta com força e saúde. Fora disso, a pessoa volta a ser como criança. Mesmo uma vala de metro e meio, que a gente pulava sem recuar atrás para apanhar balanço, você já não pula mais. - Complementou Kanhanga.

 - É verdade compadres. - Kitembu voltou à conversa. - E parece que aqui o mano Kandungu, que é também meu sobrinho, apesar da idade dele ser mais do que a minha, já não consegue pular nem meio metro. No sangue dele só lhe corre já espuma de cerveja!

- Ei, ó Kitembu, atenção ao respeito. Tio é tio, mas quem nasceu primeiro também merece respeito. - Reclamou Kandungu, em jeito de brincadeira. Na verdade, os cinco galhofavam.

Kapitia que até aí se mantivera apenas a seguir a conversa, ora abanando a cabeça para a frente, em jeito de aprovação do que se ia dizendo, ora fazendo-os companhia nas rizadas de mostrar o espaço deixado pelo último molar, colocou um subtema novo. - Vocês sabem qual é a diferença entre o Kandungu e nós?

- Ele bebe, nós não. No domingo, ele abraça a caneca e nós a Bíblia e o Hinário. - Responderam quase em uníssono Kitembu, Kanhanga e Kilole. Só Kandungu se manteve na defensiva. - Vocês "num" disse tudo. - Corrigiu Kapitia, 77 anos no lombo.

- Nós todos que vai "no ingreja" é mundano. Mas ele não. Ele é "mondano". Uma estupefação se apossou dos quatro, Kandungu incluído, que pretendiam saber o significado da nova palavra enunciada pelo amigo que era o mais velho do grupo.

- Ó mano Kapitia, você pode explicar "no" Kandungu o significado de mundano e "mondano"? Eu também só sei que ele é mundano porque deixou de ir "na" igreja. Tanto que lhe ando a dar conselhos, mas não me está a dar ouvidos. - Disse Kitembu solícito.

- Pois, então, oiçam bem: todos que vivem no mundo, se vai "na" igreja ou não, são mundanos. Pessoa como o irmão Kandungu, que "num" vai "na" igreja, que pecado dele se amontoa, é "mondano". O termo "mondano" vem de "mondanha" (montanha). Pecado dele é como uma "mondanha" porque ele não vai à igreja diminuir. - Kapitia terminou o seu sermão com assobios e rajadas estridentes de palmas doadas pelos amigos. 

 Assim fizeram o seu segundo serrão, em homenagem a Domingos João António, até que o último galo se aposentou de cantar.

sábado, 1 de abril de 2017

OS MONSTROS QUE AS QUEIMADAS POEM A NU

O suprimento da saudade que os sufocava, havia já mês e meio, fê-los sorver aquele momento único em surdina. Era como sugar o tutano na mais profunda intimidade. Ele instalado nela (carrinha) e ela dando gozo ao longo de léguas que separavam o nordeste do centro-oeste para aonde se dirigiam.

- Lembras-te, Soba, quando viemos parecia não haver ferro retorcido ao longo da via. Vês que a paisagem hoje mudou? - Disse ela em ruídos apaixonados.

- Sim, Maria. Temos ainda muitas sobras das guerras. - Respondeu o companheiro, enquanto a afagava com mais uma mudança de força.

Mas, Soba, donde vieram então esses monstros todos, já sem cor nem forma, e que fazem recordar os tempos do tri-tri-tri-buummmm?!

- Estavam escondidos, Maria. Eu também pensava que os catadores de ferro já tivessem recolhido todas essas lembranças das guerras e levadas à siderurgia nacional. Pensava que já estivéssemos a usar arados fabricados com despojos e destroços das guerras. Ainda bem que as queimadas à beira da estrada estão a colocar tudo à mostra dos recolectores de ferro velho. É tempo de obra para os ferreiros. - Explicou o amo.

A travessia de um grupo de adolescentes com pás nos ombros fê-los interromper a prosa oral para reflectirem sobre as pás que sulcam terra em busca de incertezas escondidas no subsolo, numa altura em que a paz permite ter escolas à dimensão dos aglomerados, porém algumas chorando por alunos refractários.

- Esses assim vão à tonga ou à campanha sabatina de limpeza escolar? - Atirou Maria inocente.

- Acorda, filha. Estamos em Xamikelenge. Aqui e na Muxinda as pás, mesmo em tempo de paz, significam ainda a busca de kamanga. As escolas têm ainda as carteiras vazias à espera desses mancebos. - Explicou irónico o dono dela.

- Soba, voltou a interromper Maria, quando falávamos sobre as sucatas acastanhadas de ferrugem e já sem as chaparias que ajudariam a descortinar de que tipo de veículo se tratavam, falavas em sobras das guerras, no plural. Houve por cá muitas guerras? Gostaria que me explicasses tim-tim por tim-tim. - Solicitou Maria quase suplicante e cortado já, a meio, a encosta de Kabatukila, Xinje, onde, por ironia, um camião carregado de ferro velho repousava ad eternum no meio da rodovia, entregando-se também à interminável quantidade de ferro por recuperar país adentro, recortar, transportar, fundir e transformar. - É preciso, afinal de contas, dar vida à agricultura e à construção de infraestruturas, o que passa pela reactivação da indústria siderúrgica, cogitou, sem no entanto o pronunciar.

- Sim Maria. Usei mesmo, e propositadamente, o plural.

Houve a guerra dos movimentos contra o colono, durante 14 anos, em que muita técnica das tropas ocupacionistas foi aniquilada nas emboscadas. Depois foi a guerra civil que também destruiu a técnica militar automóvel e rodo-transportada das partes conflituantes ao longo de 28 anos. Temos ainda a guerra infinita entre a estradas e os veículos, entre os automobilistas e as vias, que parece ser a mais dura e lúgubre. - Explicou seu amo.

Maria aprovou o discurso, solicitando uma mudança de menos força e mais corrida ao que Soba prontamente compreendeu e anuiu.

Prosseguiram a viagem entre silêncios, diálogos e afagos carregados de recordações e afectos. Maria, no auge da força e jovialidade. Ele, Soba, no auge do poder, vigor a paciência em contornar as inúmeras armadilhas e os incautos camionistas que, vezes sem conta, colocavam o traile no eixo da via, submetendo em risco a vida daqueles com quem se cruzam nesta batalha da busca do pão comum para o estômago vazio.

- Esses assim pensam que a estrada é propriedade privada deles ou que os outros não têm vida? - Desatou Maria, que não poupou um estrondoso muxoxu que lhe invadiu a boca. - Vão mazé, seus sacanas de merda, e tenham juízo nas vossas cabeças de gafanhoto, pá! - Concluiu resmungante Maria.

- É isso, Maria. Isso é pão de cada hora. É isso que alimenta os esqueletos metálicos na via. Alguns camionistas só se dão conta disso depois de entrar em prantos, envolvidos num sinistro, ou quando tripulando um veículo menor se depara com semelhante corneada. É essa a luta desigual que mais me preocupa. - Falou- lhe filosófico o amo antes de ser parado para uma fiscalização preventiva dos homens do apito laranja.

- Donde vem, senhor condutor? - Atirou o agente de farda verde e colete laranja.

- Do nordeste, senhor agente. – Respondeu o soba, já com a papelada da Maria e a sua em mãos.

Conferida a papelada, acto que se repetiu outras nove vezes ao longo do trajecto, o agente, caprichosamente aprumado com gravata e luvas, devolveu os documentos e fez o sinal de partida. Aliás, não faltaram as perguntas do costume: como vai a viagem e que notas de realce nos reporta, senhor automobilista­?

Não havendo acidentes ou incidentes graves ao longo de tudo quanto tinha percorrido, preferiu soltar um NADA CONSTA e seguir viagem até à cidade erguida sobre a encosta da montanha das cobras Ndala onde tomou a primeira refeição do dia que se acrescentaria ao meio litro de café que tomara ao longo das oito horas de estrada. Maria também reclamava pela segunda refeição, o que lhe foi servida sem hesitação. Havia ainda perto de duas centenas e meia de quilómetros pela frente. O sol despedia-se a caminho do grande Kalunga-Lwiji, ao ocidente. Sábado da batida e da Ngwenda na capital e arredores, na Catedral do amor católico, bem nas barbas do Kwanza que dá vida e dinheiro aos akwaxi, as devotas pediam dinheiro, maridos, felicidade e tristezas para as concorrentes. À espera de uns incautos desconhecedores das regras de trânsito ou das leis estariam outros akwaxi. É a lei da vida urbana e da selva. É a lei dos opostos. Maria que ouvira até aí os desabafos do seu amo voltou a questionar.

- Mas por que pedem algumas pessoas a morte de rivais, Soba­?

- É a lei dos opostos, filha. O que te faz bem pode não me fazer bem. O que pedes pode ser o oposto do meu desejo. Já vi duas rivais a rezarem para que a consorte desaparecesse do mapa. – Troçou o amo.

- Ai é­? Então leva-me à Muxima. Pretendo pedir que nessa estrada, da Capital aos Kwanzas, passes a andar somente com o António (nome de outra viatura), pois há muito que ando com a coluna sôfrega.

Entre curvas e lombas, sol poente, sombras e penumbra, seguiram seu caminho até à próxima paragem...

Obs: Texto publicado pelo Semanário Angolense a 09.10.2015

MANGODINHO

Nome dele, do bairro e das amizades, é Man Zequeno, um diminutivo de José Pequeno. Mas apelido dele é mesmo Godinho, nome por que passou a ser chamado nos últimos tempos. Quando nasceu? Não se sabe. Calcula-se apenas, rebuscando as idades de seus coetâneos e daqueles que levou às costas como eu.
 

Sonho dele, de muito tempo, Man Godinho, era conhecer Luanda e fê-lo por uma razão de tristeza. As vezes em que podia vir, passear, respirar ar fresco da brisa do mar, visitar largos com jardins e repuxos, essas vezes lhe passaram. Ora era falta de passagem, ora era a ferida no pé, ora era sei-lá-o-quê.

 
Óbito na família chegada. Menina crescida desapareceu tragicamente numa sexta de praia na Ilha. Luto anunciado ao telefone da tia, no Libolo, Man Godinho veio junto. Calças: um par. Camisa, idem. Um casaco e um par de sapatos. Relógio, já sem ponteiros, no pulso, Man Godinho tipo é homem de verdade. Fez-se à estrada na carrinha enviada para os resgatar.

 
Na ngwimbi, como dizem as gentes do “nosso mato”, Man Godinho foi contemplando a grandeza das casas à volta, o falar refinado, até das zungueiras, e o andar estiloso, até dos vendedores de Kangonya. Cigarro na boca, sem estilo na mão, um fumar apressado, correndo com o cilindro que fumegava incêndio, posicionou-se num canto da rua. Ao lado, o esposo da tia com quem viajara.

 
O telefone do tio tocou. Do outro lado, dita-se um número. O tio, sem saber como anotar no aparelho, desenha os números do solo arenoso. Enquanto corre à casa, para sacar a agenda e a lapiseira, o tio incumbe:

 
- Sobrinho Zequeno, não sai daqui, eu volto já. Controla o número para que não passe carro por cima dele...

 
Man Godinho fez-se estátua. Pessoas passavam, cumprimentavam-no, ele sempre de cara para
o chão dos algarismos. Veio o vento, soprou forte. Man Godinho lágrimas nos olhos é água. Chorava a prima finada aos vinte e dois anos, quinto ano de medicina. Mas chorava também o número do telefone que o vento levou.

 
Caneta partida pela enxada, corrida às pacas e pescarias no Longa. Do chicote do professor Kakonda, herdado pelo mestre Faustino, Man Godinho apenas ténues lembranças do Bê com Â: BÂ. Técnica de redesenhar algarismos na areia movediça não tinha.

 
- Que direi quando o tio chegar?!
...

terça-feira, 14 de março de 2017

O ÚLTIMO CACHORRO DE TURBINA

Nasceu Luzia, nas imediações da Pedra Santa, no Musafu. Cedo mostrou ao mundo que veio bem prendada fisicamente, atributos que lhe valeram, ainda lactente, o epíteto de Kimbundaria. Com o andar do tempo, Luzia, nome de baptismo e bilhete, foi esquecido, sendo Turbina ou Kimbundaria os nomes por quem mais ficou famosa em Kalulu e em Luanda.
Seus pais, católicos praticantes, sempre sonharam a filha vir a vestir-se de véu e grinalda, subindo a calçada e o altar da missão. Mas, sendo ela apóstata, não foi o que receberam seus pais de presente, até ao pó retornarem. Turbina foi, durante muito tempo, mulher da vida. Na vida ganhou tudo: casa, carro, mais tarde filhos e fama de mulher-produto.
Um pouco desencoraja pela idade e pelos filhos que já colocavam questionamentos sobre os vários rostos que se faziam à casa, Turbina foi trocando a casa-loja por outras formas de vender o corpo-produto, até que os revezes económicos que o país viveu fizeram o seu negócio minguar.
Os dias de fome chegaram, os arranjos que conferiam beleza onde a idade fez razia escasseavam. As picanhas, antes recauchutadas e confortavelmente guardadas em roupas justas, entregavam-se baloiçantes ao léu como cão sem dono. Só a carroça se mantinha avantajada, embora desmazelada. No seu imaginário, a solução passaria por arranjar marido. Só que àquelas que já sobravam no tempo das vacas gordas se juntaram outras que, empurradas pela crise, acabariam demitidas da missão de concubinas ou simplesmente kapurenquanto.
- O mercado marital está agressivo. Umas coladas aos maridos que nem nesgas, umas a ser desmobilizadas e outras com vida de pedra. Como vou conseguir meu homem? Como manter cama quente? - Interrogou-se Turbina, antes de seguir à reza.
Ao voltar da igreja, daquelas que prometem o mundo e todo o recheio, apercebeu-se de um movimento estranho no segundo quarteirão do bairro. Turbina ligou as antenas e depressa se informou. Na aldeia, as notícias, boas e más, correm a passo de vento.
- A fila andou na rua de baixo.- Disse a informante, também uma coleccionadora de tesouros.
- Aquela mana de cabelo longo morreu? Aí meu Senhor?! Como fica o mano Jordão? Quem vai cuidar dos filhos pequenos? Ai sofrimento! - Turbina soltou o grito de inundar o bairro e convocar a vizinhança que chagava ainda tímida dos afazeres patronais, naquela quinta de sol ardente.
No bairro, Jordão e Turbina ou Kimbundaria já tinham trocado muitos olhares e alguns prazeres. Fora cliente dela e naquele descompasso que o êxtase provoca, chegara a propô-la casa e lar. Com dona Eunice adoentada de morte, Turbina passou a espiar a casa de Jordão, com a artimanha de visitar a vizinha, ao mesmo tempo que engolia hectolitros de cuspo, na espectativa de se acaparar do homem alheio.
Na noite de velório, Turbina, baloiçando a Kimbundaria, parecia mais preocupada com a hora do funeral, ainda incógnita, do que com a dor de Jordão que até aí fingia com destreza os seus apetites kimbundásticos.
Fingindo muita dor no peito, volta e meia distribuía perguntas dobre quanto tempo deveriam esperar para despachar Eunice à última morada e consumar-se a passagem sagrada que dita "até que a morte os separe".
O funeral foi na tarde do terceiro dia. Ao sétimo, Jordão estava mais descontraído ao passo que Turbina aumentara o cerco e com as armas em riste: um ousado decote e o arsenal turbinado de que era detentora desde menina.
A mulher conhecia os hábitos alimentares de Jordão: funji de bombó, verduras, pevide, e boa pomada. Mesmo sem delegação, e perante a passividade da parentela, Turbina fez-se comandante, dirigindo a cozinha e levando os parentes que iam chegando ao quarto em que Jordão recebia condolências.
Quando os familiares mais distantes, começavam a se dispersar, e antes mesmo de acontecer a missa do sétimo dia, aprazada pera aquela noite, cumprido o ritual mínimo de confinamento do viúvo, Kimbundaria que via a "migaçao" quase confirmada, planeou o ataque final
Começou por se enfrascar até tropeçar na próxima sombra. Fazendo-se passar por una espécie de protocolo, anunciando a chegada e a saída de visitantes, a mulher de nádegas e lágrimas fartas, como era conhecida, encostou-se ao viúvo e soltou o último cachorro:
- Ó mano Jordão, as visitas para a missa de logo já estão a chegar. Não acha que já é tempo para me "amigares"? Me faz só esse favor, hoko?!

quarta-feira, 1 de março de 2017

O SAPO E O SALALÉ

 
(A propósito de um post inspirador que acabei de ler no mural do confrade Gociante Patissa)
 
O sapo, borbulhento e nojento, e o salalé, que ao sair da terra húmida se sente muito gingonçoso e importante, sempre se desafiaram. O sapo sempre faminto e salalé ou térmita gordinho, fresquinho e proteico.
O sapo aguarda pelo salalé que sai do buraco. Tem-no no olho e com os dentes e saliva preparados. Lá dentro, na cavidade abdominal, ronca o estômago como moageira sem milho para moer. São as peças que se roçam barulhentas. Mas, o salalé, mesmo talhado para morrer, sai protegido pelos guerreiros soldados de sua brigada munidos de tesouras frontais e acaba voando.
No ar, espalha-se diante de majestosa beleza e grandiosidade do céu azul ou acinzentado do pôr-do-sol, quando não é dia e não é surpreendido pelos mochos de lâmpadas largas e redondas.
Mesmo escapando das aves,  acaba-se-lhe o combustível, ou melhor, caem-lhe as asas, sem muito tempo de desfrute no espaço em que se perde, caindo como objecto sem vida directinho a frente do sapo que o degusta com prazer.
Quanto mais sofrível for a caçada mais saborosa é a carne. Não será?
Cuidado senhor(a), não te importantes tanto por estares naquela posição. Não tenhas asas de salalé.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

O ABRIDOR DE SALÃO

Nasceu na fronteira entre o asfalto e o museke (musseque). Estudou também no bairro e na industrial onde se fez homem culto e respeitado.
Costa, sua graça de baptismo, soa em muitos   lugares e países da região austral de África.
- Papá Costa, azali bien? - Questionam os franco-lingaleses procurando por conversa.
- How are you, mister Costa? -  Saúdam outros, os vizinhos do leste, sudeste e sul que herdaram a língua de Shakespear.
Depois de anos árduos de trabalhos e negócios, Costa já a caminho da aposentação, tornou-se mascote familiar. Os primos, sobrinhos e até netos querem ficar ao pé dele e aprender um pouco de suas brincadeiras, sempre bafejadas de humor, quando não são verdadeiras lições sobre etiqueta e comportamento familiar ou empresarial.
Sempre que questionado por que entende ele de quase tudo, a resposta sai-lhe curta e peremptória:  estou no meu décimo mestrado.
Em tempos, surgiu alegre como sempre, a informar aos irmãos e cunhadas com quem convivia que durante uma viagem de 24 horas a uma província do litoral angolano aproveitara fazer um mestrado de três horas.
- Três horas? Qual mestrado, mano Costa?! - Questionou a assistência expectante.
Costa era daquelas pessoas que quando começasse a falar a plateia abria-lhe as alas. Era o mais velho da família e a reserva moral a quem todos deviam respeito e obediência.
- Sim, começou ele a explanação a que o mais atrevido da audiência apelidou de “aula magna”, fiz um rápido Mestrado em abertura de festas de salão. - Explicou recebendo uma forte gargalhada, seguida de assobios festivos.
- Abertura de festas de salão? Kota Costa é bué, yá?! - Enfeitou um dos assistentes e admiradores.
- Sim. Até avanço já o preço. Cobro apenas uma ngala de pomada. E, se for pessoa de casa, pode até ser por crédito mas acreditem. Danço muito que até nem me estou a acreditar. Foi um curso muito bom e quero já anunciar que estão abertas as inscrições para interessados nos meus préstimos. Todos que me viram na exibição prática do Mestrado só diziam: esse é o mestre que a cidade esperava há milénios. - Explicou entre sorrisos.
- Mas o kota estava a ser aguardado há milénios ou no Millennium? - Voltou a provocar um dos sobrinhos. Entre os bakongu, sobrinho e tio têm conversa ilimitada. Apesar da diferença de idade podem tratar-se como se fossem contemporâneos, sem tabus nos temas em abordagem.
- Xê, seu sakana de mercadoria. Organiza uma festa e convida o tio para ver se as moscas não se vão alojar na tua boca de tanto a manter aberta e bater palmas. Até as mãos te vão ficar rachadas. - Rechaçou Costa, inclinando as últimas gotas de uma reserva alentejana de 14 graus.
- E então jovens, estão ou não dispostos a contratar? Já conto com vinte inscrições para 2015 - Apelou o mestre Costa.
A plateia fez sinal de aprovação e o debate prosseguiu. Zé da Costa pegou a sua taça de pomada, sorveu dois goles, sentiu a massudez da velhice daquele tinto e o sabor a reserva. Marcou uma dúzia de passos pelo quintal, ensaiou um assobio e retomou a sua publicitação:
- As inscrições estão a decorrer. Faço abertura de festas de aniversário, de casamento, de baptizado e até de amistosos. Não tardem em fazer as vossas reservas nem se esqueçam do pagamento. Uma garrafa de boa pomada é o valor mínimo para familiares e amigos chegados da família!

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

DIALOGAR MAIS E DE FORMA DIRECTA!

 
Quem leu ou ouviu o último discurso do Presidente Eduardo dos Santos, em sede do Partido que suporta o Governo, o MPLA, reteve, entre outras passagens, a orientação estratégica para que as partes, dirigentes e dirigidos falem mais e de forma aberta e inclusiva. Aliás, essa tem sido a postura do Chefe de Estado Angolano desde o início da sua Magistratura. 
 “É necessário mais diálogo, falar com os cidadãos num discurso directo e com palavras simples para os esclarecer sobre as causas das dificuldades que estamos a atravessar e sobre o que devemos fazer para resolver os problemas”, verbalizou o Presidente.
A meu ver, sendo que a informação é para as organizações uma vantagem competitiva, uma vez que um funcionário convenientemente informado reage favoravelmente aos estímulos que recebe, a comunicação sobre as boas práticas a observar nas Instituições e a correcção de atitudes perniciosas que se vão instalando como o absentismo (falta de assiduidade, pontualidade e de comprometimento com o serviço público),devem ser tarefas diárias de todos os Líderes (formais e informais) para que a “Nossa Dama” esteja sempre na fila de frente quando se fale sobre o desempenho dos Departamentos Ministeriais e demais órgãos vinculados à Função Pública.
 
Cada Líder, independentemente das suas atribuições, deve considerar-se um comunicador e um influenciador de seus liderados.
Cada liderado deve conhecer e entender as dificuldades por que passa a nossa economia e cooperar, com a sua entrega e esforço laboral, na busca de soluções. Não reclamar daquilo em que não se coopera é o que nos dita o princípio do bom senso. Só aqueles que ainda se mantêm distraídos não se deram conta das transformações que se estão a operar na nossa Função Pública. Esses colegas devem ser despertados pelos outros que estejam atentos às mudanças e, sobretudo, pelas Lideranças. Um dia, não tarda, deixaremos de ter os livros de ponto descentralizados como acontece até agora. Já falta pouco para que a duplicidade indevida de remunerações deixe de acontecer. Um levantamento e conformação de dados entre os constantes no Bilhete de Identidade e na Folha Salarial está em curso e deve abranger todos os organismos Públicos. Um dia, também não tarda, só aqueles que realmente trabalham com zelo e dedicação terão a correspondente remuneração.
 
É TEMPO PARA DESPERTAR. É TEMPO DE DIALOGAR MAIS, DE FORMA ABERTA, E COOPERAR!

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

BIFAGRANDO

BIFAGRANDO é um novo termo, um pouco modista, do calão mediático dos últimos dias que os rapazes de três localidades de Luanda acabaram de inventar. - Bifagrando tem a ver com bife+bagre+falando. - Explicaram.
Encontrei-os na praia do Km 27, ao Ramiro, e conversavam sobre um novo "invento gastronómico" o bife de bagre.
Dizia Halyeya que "o bagre, por ser um peixe predador e de sangue vermelho, era o mais adequado para ser "bifado" em vez dos outros peixes de carne branca.
- Eu, no Coelho, a minha vida, de sol em sol, é só mesmo pescar e tramankar. É só mesmo do bagre da lagoa que vivo. Uns como e outros vendo frescos ou fumados.- Reforçou, algo vaidoso.
O seu companheiro, Kamaka, residente nas margens da EN230, pelos lados do Kazenga, ripostou que o kakusu da sua lagoa sabia melhor do que os bagres todos que já havia provado ao longo dos seus vinte e seis anos de vida de pescador artesanal no Velho Kimbundu.
- Mas como assim, vida de pescador artesanal se nem uma canoa e redes tens? - Questionou Mbela Yanda que até ali se mantivera calado.
A conversa animada com sumo fermentado de uva libolense já ia longa. Os petiscos eram locais, ou seja, todos kalús: bagres e ikusu capturados das bacias do Coelho, do Táki da Vila Nova e da lagoa do Velho Kimbundu.
Mbela Yanda, Kamaka e Halyeya desfilavam argumentos.
- Quem tem a lagoa mais antiga e mais produtiva?
- Quem tem a lagoa menos suja ou mais bafejada de podridão?
- Quem desfruta de bagres mais colossos ou ikusu mais saborosos?
Eram perguntas cujas respostas voavam à velocidade do eco. Já com o vinho a trespassar-lhe o cérebro e com o bagre fumado nos olhos, Mbela Yanda gritou alto:
- A melhor lagoa não é a do Coelho nem a do Velho Kimbundu. É a do Táki de Viana que tem bagre com osso. Ainda é pouco frquentada e os garimpeiros de peixe alheio têm a cadeia à vista.
Os companheiros ainda contra-arguiram puxando o bife para o seu bagrito mas Mbela Yanda foi mais adiante na defesa:
- É que a minha lagoa recebe água quer chova quer não. Para os deixar mesmo estatelados, Mbela retirou o telefone do bolso para mostrar as fotos das últimas fainas, da fonte de alimentação hídrica permanente (descarregadouro da drenagem urbana da cidade) e ainda as imagens da sua nova invenção gastronómica, um bife de bagre. Olhem!

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

EM TEMPO DE CRISE_IDEIAS VALEM MILHÕES

Dois casais amigos decidem ser inovadores nas célebres trocas de presentes que se verifica no dia dos namorados.

Luó e Mavoyo decidiram não cair nas extravagâncias doutros tempos e, vivendo um período de contenção, acordaram em fazer a troca de presentes na hora do pequeno-almoço. Na verdade, o presente seria um bem alimentar que normalmente se usa na refeição.

Maludi e Cácata, outro casal, sabendo do plano dos amigos pensaram numa maior ousadia: cada levaria ao local combinado para a troca de presentes uma ideia inovadora para gastar menos e arrecadar mais.

Chegados a 14 de Fevereiro, dia dos namorados, Luó, jovem funcionário público, levou à mesa um pão de leite forrado e decorado. Mavoyo, uma estudante de antropologia, abriu a gaveta da mesa e retirou, coincidentemente um pão que havia comprado e guardado de véspera. Era um casal recém-unido e que vivia ainda sem filhos. Ambos apreciaram a coincidência e a simplicidade dos presentes que, de tudo, foram inovadores na nova forma como abordavam a gestão da economia doméstica e a poupança  que se impunha.

Do outro lado da Avenida, Maludi que ainda não se juntara a Cácata combinaram um encontro no jardim da cidade, meio caminho das casas de ambos. Sem dinheiro, Maludi leu um livro “Ideias que valem milhões” e compilou uma com que se decidiu em presentear a namorada.

- Ela estuda economia e sei que mais do que coisas ela vai gostara da ideia que pode dar-lhe variadíssimas coisas no futuro. – Disse para si mesmo.

Cácata tinha participado de uma formação sobre Micro Finanças e Economia doméstica e não teria outro presente a dar ao namorado senão “Como gerir o pouco e fazê-lo crescer”.

Como é próprio de namorados, o encontro, no jardim, foi regado de beijos e abraços. Falaram sobre o presente e sobre o seu futuro. Na hora da despedida que corresponderia a troca de ideias, Cácata, a jovem, pegou num envelope em que estava a sua sugestão para que Maludi gerisse melhor o seu ordenado e o fizesse crescer. Maludi fez o mesmo. Sugeriu que a sua amada “ressuscitasse as valências adormecidas e abrisse um centro de superação de dúvidas já que tinha o sonho de ser professora e já o fazia de graça”.

Luó e Mavoyo trocaram pães e cada ficou com um pão. Maludi e Cácata trocaram ideias e cada ficou com duas ideias. A que preparou para oferecer e a que recebeu de presente. Em tempo de crise é importante trocar ideias.

 Essa nota introdutória remete-me ao meu bloco de notas para rebuscar as principais ideias trocadas na palestra sobre Gestão de Economia Doméstica, realizada no Ministério da Geologia e Minas e que foram oradores os economistas António Kibonda e Lourenço Kibonda. Eis algumas ideias:

A)     CRISE:  para os japoneses e chineses significa PERIGO e OPORTUNIDADE. Logo deve ser aproveitada como oportunidade para fazem melhor.

B)      Fazer a coisa da mesma forma não produz resultados melhores. Hoje, a mesmice produz já resultados menores.   

C)      Ao gastar é preciso definir prioridades.

D)     Para definir prioridades é importante Planificar, Disciplina no cumprimento do planificado e Determinação que se pode traduzir em resiliência ante a tentações de adquirir o que não esteja no plano.

E)      É importante ir às compras com uma lista de necessidades e valores para cada item, resistindo à compra de produtos periféricos que podem desestruturar o plano de compras.

F)      O crédito e o parcelamento são as melhores formas de pagamento numa economia devidamente estruturada.

G)     Antes de comprar deve colocar-se as perguntas: (i) - preciso realmente disso? (ii) - posso comprar? (iii) - tem de ser agora? (iv) – a compra tem de ser agora? (v) – existe um produto alternativo mais barato?, (vi) – a despesa está planificada?

H)     Em tempo de crise, CRIE. Altere as prioridades e mantenha os valores (princípios). Priorize as aptidões adormecidas. Saia da área de conforto, pois,

I)        Quem não estabelece prioridades desperdiça oportunidades.

J)       Para medir o grau de prioridade, avalie o grau de Importância e de Urgência.

Faça como Maludi e Cácata. trocaram ideias e cada ficou com duas ideias em vez de um presente apenas. Cultive-se e circule informação.

domingo, 1 de janeiro de 2017

A CORVINA E O PUNGO

Era manhã quando se conheceram. Jacinto na fase área da masculinidade e Cármen no auge da beleza e da cobiça masculina

Jack era extrovertido e não se continha aos encantos que ela exalava. Estava ricamente prendada de atributos que punham meio mundo amedrontado, incluindo os garanhões dos bairros mais chique da urbe. Apesar dos seus milhentos atributos, Cármen era do estilo tímido. Aparentava isso nos seus poucos convívios e brincadeiras no recreio da escola. Se calhar os elogios e galanteios a coibiam de se expor. Mas era o que se via e ouvia. Tímida e abundantemente prendada, desde a rectaguarda que nunca acompanhava a cabine na mudança de direcção, aos cabelos negros e longos e uma cor entre o branco e o chocolate.

Para Jack, sempre sem papas na língua, Cármen era uma cobra. Aparente mente resguardada mas perigosa no seu dia-a-dia privativo. A história bíblica do Éden entre Eva, a  serpente e o diabo era o argumento de Jack para descrever a musa dos seus sonhos.

Benguela era a cidade dos sonhos. Conheceram-se numa formação para hospedeiros que Jacinto não terminou por gostar mais de aviação militar do que a civil.

- Jack, gostaria que me ajudasses. Posso contar contigo ou te vais comportar como os outros que não passam da lata? - Advertiu a jovem de forma insinuadora, esperando que Jack engolisse a gajaja.
- Que queres de mim gata?
- Quero quinhentos dólares emprestados. Quando receber o meu ordenado tos devolvo. – Justificou Cármen, exibindo todo o charme atrelado à voz.
- Sabes Carmen, não tenho esse valor de momento mas, se procurares por mim, sábado em casa, sou capaz de te arranjar algum.

Passaram-se dois dias. Jack na defensiva quando o assunto fossem dólares e ela no ataque até que o rapaz cedeu. Puxou tês notas americanas de maior valor facial e as entregou na curva dum corredor, esperando por um beijo em sinal de gratidão.
- Não nos podemos beijar na rua, Jack. Sabes que isso é perigoso, numa instituição. - Atirou , com um dos pés fora do edifício.
O cheiro à maresia daquele parque encaixou-se na mente de Jack.
- Não vou engolir isso em seco. Não sou homem de perder guerras. Vou até ao fim. Tenho de recuperar o meu anzol, com uma grande corvina. Pungo é que não!- falou alto para si mesmo, como quem prepara a apresentação de uma dissertação.

Chegou a noite e dormiu leve. Sonhou com a cama quente, os dólares, os beijos e todos complementos…

In: As travessuras do Jack (no prelo).

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

EXODO NA ENHANLA


Enhãnla, Estado ribeirinho, cercado pelo reino de Kamunda, é um território do continente Acirfa de Júpiter. O povo de Enhãnla, modesto nas posses e excessivo na ostentação, vive de pequenos plantios nos seus solos ricamente abençoados e cravados por ribeiros caudalosos e de águas lúcidas que permanecem durante as duas estações do ano jupteriano. A indústria, ainda nascente, se reporta à abundante mineração carboniana, material pedregoso, ouro e outros que enfeitam as lendas que trespassam gerações e gerações sem nunca os habitantes aplicarem a força dos cérebros e das máquinas ao solo cravejado de riquezas improvadas e incalculadas.

Próximo de Enhãnla, no reino da Kamunda, vivia um rei, já velho e de respeito incomensurável, Ngan’Ebata, o Senhor da Casa ou Senhor do território, cujo poder, às vezes, escapava as suas fronteiras e adentrava a Enhãnla do presidente Ndvumba, ainda jovem  e muito apegado às civilizações terrenas, um planeta com o qual a Enhãnla pleiteava a órbitra solar. Na Kamunda, território que aos olhos dos seus habitantes parecia sem fim, o povo era monoteísta. Ngan’Ebata era a razão de ser e o fim último dos seus súbditos que o adoravam de sol em sol e de chuva em chuva. Os agnósticos e hereges há muito tinham sido convidados a abandonar o reino ou se refugiado voluntariamente na Enhãnla para escapar da espada vermelha do rei-deus do território maior de Acirfa que se preparava para liderar um único Estado-Continente de Júpiter.

Ainda na Kamunda, as artes haviam sido divididas entre maiores e menores, com primazia às vocais por serem as que melhor deificavam o rei-deus. Os desportos cantavam a sua glória e até o que restava das três mais antigas organizações sociais curvava-se aos pés de Ngan’Ebata, também cognominado de “O Senhor do Poder sem medida e sem fim“.

- Ao rei toda a glória. A mim todo o respeito! – Apregoava nas suas homilias, Ngan’Ebata, nos eventos que os súbditos organizavam em sua homenagem em seus sumptuosos castelos e palácios ou quando se fazia circular nas suas riquíssimas fortalezas automóveis.

- O poder me foi delegado pela divindade extraplanetária e só a ele o entregarei quando o tempo chegar. - Dizia outras vezes, mas sempre interrompido pelos súbditos da “escova mais lustrosas “ que não se cansavam nos elogios. E Eufóricos replicavam:

- Por que não a seus herdeiros, Sua Majestade Santíssima?

Assim ditas, as palavras rejubilavam a corte inteira que encontrava encostos almofadados num povo que, aos olhos dos seus vizinhos da Enhãnla, se parecia exausto, depauperado e com riquezas subjupterianas exauridas, depois de uma extracção massiva e concentrada nas mãos de Sua Majestade Santíssima. Foi assim que começou o êxodo para a República vizinha da savana húmida e arbórea onde tudo parecia ainda em estado virginal. As riquezas ocultas no subsolo; a vida política, embora começasse a ser influenciadas pelos maus ventos da Kamunda, e toda a organização social estavam ainda pintadas de rosa. Era, realmente, um mar rosado e esverdeado, encravado num manto plano que se mostrava a nordeste.

Primeiro os homens, depois as crianças e por último as mulheres fizeram-se além marco, seguindo caminhos vários há muito traçados, cujo destino era um só: Enhãnla onde confluíam novas crenças e certezas.

Uns creram em refundar suas vidas longe da Kamunda. Outros alimentaram esperanças caducas de verem sua Majestade Santíssima voltar aos tempos da sua regência jovial. Outros ainda esquadrinhavam o sonho de inundar a República de Enhãnla com metade da população de Kamunda para passarem à fusão dos territórios e encontrar um governo de centro que aglutinasse todas as vontades.

- Apenas a geografia nos diferencia entre montanhenses e pradianos. Todo o resto é igual. - Apregoavam os unionistas que eram compreendidos na terra de exílio, sendo dos mais respeitados e  tendo ganho a simpatia da autoridade republicana de Enhãnla que lhes concedia espaço para o desenvolvimento da actividade económica que ia da cultura de vegetais à pecuária e do comércio à prospecção mineira e indústria extractiva de recursos ocultos. Ngana Kyombo era o líder dos unionistas saídos da Kamunda e refugiados na Enhãnla.

Exilado há vinte e nove anos, os negócios de Ngana Kyombo tinham já tentáculos vários e exalava influências por onde quer que passasse. Com a ajuda de alguns notáveis da Enhãnla tinha conseguido algumas conceções mineiras em Ekaproville, região a leste do Estado, onde despontavam granadinas e relatos sobre ocorrências de carbono tenaz.

- Vamos fazer dinheiro com as brilhantinas carbónicas e restaurar a Kamunda. – Dizia Ngana Kyombo, aos seus mais próximos, com a mesma energia com que os impelia a se formar e aperfeiçoar na gestão de negócios e organizações empresariais. Tudo corria de vento em popa, como era comum dizer-se em Enhãnla, quando os negócios corressem de forma maravilhosa. Mas um dia, daqueles dias de sol ausente e frio presente, quando é a neblina friorenta e translúcida que se sobrepõe à luzidia bola amarela carregada de calor, um leão faminto fez-se presente entre os seus homens que realizavam a prospecção de moléculas de carbono compactado por pressão secular e calor subjupteriano. Instalou-se o pânico. A primeira ideia foi a de “fugir antes de tudo”. Depois viriam as ideias. Junta-las, seleccionar as melhores, mediante a exclusão das piores. A legislação ordinária, o direito consuetudinário e o costume seriam também postos na balança. Os gritos do planeta e mesmo a moda reinante na esfera inter-planetária apontavam para a busca da coabitação entre felinos e jupterianos. Os habitantes de Enhãnla não eram humanos. Apenas jupterianos, uns ET na análise racional de seus coetâneos do continente África do planeta Terra. Mas havia também felinos jupterianos, semelhantes aos leões de África.

A concessão de Kalimarc, no distrito centro de Enhãnla, carecia de injecção de dinheiro fresco dos accionistas. O dinheiro estava sendo dificultado pelos relatos dos prospectores que alertavam, dias sem fim, a presença dos felinos que colocavam as suas vidas em constante perigo. Apenas a teimosia dos carreiristas e o caloirismo dos jovens estagiários, que pretendiam dourar os curricula, permitiam pesquisas residuais naquela concessão mais à beira do fecho das operações do que da injecção de dinheiro fresco pretendido. Matar o animal e preservar os jupterianos ou deixar o espaço aos seus habitantes naturais? A pergunta ecoava de canto a canto da coutada de Kelimarc, concedida, contra natura,  para exploração mineral e um pouco por toda a Enhãnla.

Barbatana, um jupteriano com experiência de direcção em campanhas de pesquisas semelhantes no reino da Kamunda, enquanto chefe da equipa jupteriana, sabendo que “matar a razão do medo podia redundar em aposta na pesquisa”, decidiu premir o gatilho.

Bumm! Disparo certeiro no centro da encefalia. Jazia defunto o temido bicho jubento e com dentes há décadas cariados. Acto contínuo, Barbatana carente de dinheiro, mobilizou a media e mostrou a fraqueza do temível animal abraçando o máscula rocha superficial jupteriana. Choveram elogios. Barbatana de herói se fez e corou encomendou.

Não tinha entretanto sido contada toda a estória. O filme ainda desenrolava. Minutos depois, o telefone tocou.

- Aló! É o inspector Barbatanas? – Questionava o conselho transplanetário do ambiente.

- Sim, Vossa Excelência Generalíssima. – Respondeu arrítmico na vocalidade o “general Barbatana” como era conhecido entre os prospectores. Era ele o chefe das operações.

- Pois é, Senhor Barbatana, gostaríamos de saber de onde terá a sua equipa recebido a ordem para abater o animal felino. Foi da corte enhanlense ou da coordenação planetária? – Indagou o responsável supremo da preservação biosférica.

Ente medos e razões, a cobardia falou alto. Barbatana, apesar de longevo residente, era expatriado e sabia que as autoridades enhanlenses, se pressionadas pela coordenação planetária, não vacilariam em manda-lo de volta à terra de Sua Excelência, Majestade Santíssima, a Kamunda. Decidiu desfazer-se dos feitos heroicos e oferece-los ao autógene local.

- Excelência, nós apenas fomos chamados como testemunhas de um facto de que nos congratulamos por um quarto e condenamos por  três quartos. É que, apesar do enorme perigo que enfrentava a nossa equipa de prospecção, jamais nos passaria pela cabeça extirpar a vida de um pacato felino. O autógene local, sem o nosso conhecimento, teve a infeliz iniciativa de acabar com o felino que o surpreendeu na flora abundante, quando procurava resgatar um babuíno de estimação. Do confronto, narrou-nos o autógene, resultou a morte do felino que, até à consumação dos factos, era caracterizado por um pacifismo inaudito. - Relatou eufémico Barbatana, acrescentando ainda que o premir do gatilho da caçadeira “22 longos” só ocorreu depois de o autógene amedrontado pelo animal ter permanecido cinco horas no último ganlho de um arbusto de dois metros.

A estória ainda corre. Sabe-se que Barbatana está por responder se “entre a preservação da vida dos jupterianos em busca de riquezas e o abate do felino qual dos direitos se sobrepõe a outro“. Sabendo-se que descartou o feito que o levaria a herói da Enhanla, resta saber que passo dará quando for chamado a depor na audiência jupteriana.

sábado, 10 de dezembro de 2016

A HORA DA GOVERNAÇAO ELECTRÓNICA


Era hora de almoço. No serviço, uma repartição pública da cidade alta do Huambo, Job Katende e seu amigo Manuel Duas Horas, falavam sobre os avanços tecnológicos entre o cruzamento dos Séculos XX e XXI e as dificuldades e resistências que ainda se verificavam nas Organizações do Estado e também em algumas privadas.
- As máquinas de dactilografia fizeram o seu papel, tornando legíveis, padronizados e ágeis processos de elaboração de documentos institucionais. Depois vieram as máquinas electrónicas, programáveis, rápidas e com um output mais vistoso. Quem não se lembra de como eram tão lindos aqueles documentos processados numa máquina movida a impulsos electrónicos e que ficava a meio caminho entre a velha máquina mecânica de dactilografar e a moderno computador? – Atirou  Manuel Duas Horas, com o garfo entre a boca e o prato de pirão.
 
Ainda hoje me fazem saudade. - Interrompeu Job Katende, regressando às memorias com já meio século de tamanho. O Governo Electrónico deve ser um caminho para ultrapassar os problemas que estamos com ele. Pode não ser longo, até porque hoje o maior inimigo do homem é o tempo e o melhor amigo é a tecnologia. – Reconheceu puxando o colega para mais dissensões a respeito do assunto em pauta. Era hábito entre os dois buscarem uma conversa inovadora e actual para regar os manjares.
Pois é, mano Manuel. ‘ Retomou Job Katende. A adopçao da Governação  Electrónica deve ser um plano institucional com etapas bem delineadas, com recursos, capacitação do capital humano em todas as frentes da pirâmide hierárquica, e sobretudo, exige mentalização do liderança da organização. Não pode ser chamada ou evocada apenas para fazer frente a falta de papel, tonel e tinteiros, quando as pessoas não têm computadores nem usam Outlook, quando algumas organizações correm para século XXII e umas ainda teimosas no século XX. Não se deve falar de Governo Electrónico quando na mesma organização uns navegam na internet e outros nem à velha máquina sabem dactilografar. É preciso saber que o governo electrónico das empresas requer uma mesa e uma cadeira por pessoa, uma máquina que se deprecia com o tempo, mesmo que aparentemente pareçam estar em condições. Essa crise que estamos com ela passa. A crise vamos combater com inteligência, chamando soluções adequadas a cada momento e circunstâncias. Porém, chamar soluções para as quais não se esteja estruturado pode ser paradoxal.
 

Mal Katende terminou o seu rosário, a sala viu entrar Nkosi Mwenaxi, especialista em tecnologias de informação a quem sempre se recorria quando o assunto fosse internet e conexos.

- Boa tarde Mano Nkosi, já sabe que andamos sempre a tertuliar para empurrar o pirão quando o almoço é em branco. Sinta-se convidado à nossa mesa e a água fica já sob nossa responsabilidade. ‘ Convidou Manuel Duas horas ávido de mais conhecimentos sobre Governo Electrónico que só há poucos dias começava a entender, deixando de o confundir com a estrutura política que rege a organização e gestão do Estado.

Atento e interessado no assunto, Nkosi Mwenaxi começou assim a sua preleção: numa era de carências, as mentes são chamadas à exercitação diária para afinar-se mecanismo e se encontrar vias expeditas que permitam o andamento da engrenagem administrativa. Sem recursos nalgumas organizações para a compra de insumos administrativos como papel, tonel, tinteiros, combustível e outros materiais de reposição permanente, a palavra Governação  Electrónica é evocada de hora a hora e sempre que os procedimentos tradicionais de elaboração e expedição de documentos se mostre impraticável.
O que é então governação electrónica e qual é a demanda da governação electrónica?
O bloguista moçambicano Viriato Caetano Dias, na sua pág: http://macua.blogs.com/moambique_para_todos, afirma que a Governação Electrónica não é mais do que o uso das novas Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) no sector público e não só... para a melhoria de vida (das organizações) dos cidadão e do país em geral.

Segundo o mesmo autor, a aposta na Governação Electrónica, entre os mais diversos objectivos realizáveis, visa:

» ”Proporcionar o acesso universal à informação a todos os cidadão e funcionários  para melhorar o seu nível e desempenho profissional (administração, educação, ciência e tecnologia, saúde, cultura, etc.).

» Criar uma rede electrónica do Governo que concorra para aumentar a eficácia e eficiência das instituições do Estado e contribua para a redução dos custos operacionais e melhoria da qualidade de serviços prestados ao publico”.

Remete-nos tambem à ideia de facilitar o cidadao na interaçao com as instituiçoes do Erstado e outras, proporcionando informaçao adequada e actualizada aos contribuintes, disposiçao de bens e serviços aos utentes, através de redes cibernéticas ou portais que facilitam a informaçao, acesso aos serviços, usufruto e prestaçao de deveres e obrigaçoes como o pagamento de coimas, escolha de representantes, constituiçao de orgabnizaçoes, etc.

Para a materialização dos pressupostos acima elencados torna-se necessário suprir quesitos como: equipamento, modernização, manutenção e capacitação do Capital Humano.

- O quesito equipamento remete-nos ao apetrechamento das instituições com tecnologia electrónica para dar vasão ou  fluidez aos processos. Computadores, impressoras, data shows, scanners, instalações para trafegar as informações, softwares, servidores, contas de e-mail corporativo (informação institucional não deve ser trafegada em caminhos alheios) entre outris, são imprescindíveis para que haja uma cultura de governação digital.

- A modernização tem a ver com a atualização dos equipamentos e programas cujo dinamismo de evolução não pode ser ignorado. Torna-se necessário que as organizações estejam a par da revolução tecnológica, não ficando distanciados dela, pois programas e máquinas em desuso podem complicar mais do que facilitar ao não corresponder com os exemplares modernos nem reagir no tempo e performances deles esperados.

- A manutenção é o pilar da durabilidade e fiabilidade: programas de combate às invasões virais, manutenção preventiva e reativa dos hardwares, testagens dos sistemas operativos, entre outros, devem ser permanentes para que não haja estrangulamento na recepção, processamento e saída de informações ou dados.

- Capacitação: para além da autossuperação, as pessoas e organizações a que o Capital Humano pertença têm de estar envolvidos em planos e programas de capacitação e refrescamento contínuos em TIC. Como conceber a Governação Electrónica numa organização em que haja pessoal administrativo sem conta de e-mail ou que ignore as vantagens da internet?

Podíamos elencar outros elementos, mas esses bem servem para uma reflexão preliminar. A todos eles se deve agregar o Capital Financeiro que é de extrema utilidade e condicionante.

Sendo que a necessidade nos impele a pensar fora do comum, uma vez aqui chegados, é tempo de despertar os assessores, consultores e orçamentistas para o exercício de uma magistratura de  influência positiva junto dos decisores de topo para um olhar mais atento e  agregador aos factores que podem ou não alavancar uma eficiente Governação Electrónica nas organizações públicas e privadas: é necessário investir em materiais informáticos, seguir a sua evolução, desmobilizar o  equipamento com vida útil vencida, investir em programas ou softwares de protecção, proceder as manutenções preventivas, actualizar os softwares, substituir os periféricos que se tenham avariado, etc. É desta forma que as organizações afectadas pela crise financeira ultrapassarão a crise de resultados laborais. Mesmo em agricultura, as boas safras muito dependem da forma como as campanhas agrícolas sao preparadas e como o plantio foi seguido ao longo do seu crescimento.

Boa reflexão e crítica.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

REENCONTROS E DESENCONTROS

Nascia o mês de junho de 2005. Luanda transitava entre o calor do meio-dia e o frio da meia-noite. Viana, Terraço, tinha sido o destino depois de uma semana repleta de trabalho e provaçoes. Três colegas de serviço, em companhia da irmã de uma das co-laboradoras voltavam a Luanda sonolentos e cansados, depois de pé de dança para os dotados nesta vertente lúdica e alguns tragos para outros. O Vemba tinha aproveitado fazer as suas, sempre oportunas, reportagens que alimentavam a sua página cultural nos noticiários nocturnos da estaçao radiofónica LAC. A viagem de ida, numa mini-coluna de duas viaturas e sete pessoas e o convívio até ai corriam à feição.

- Sigamos com calma (vagar)e os condutores, Vemba e Adilson, não devem ultrapar os cem quilómetros horários. - A voz Soberana fazia-se ouvir, apesar de meio turva, dada a madrugada. Reclamava caldo regado para às seis abrir a emissão da 995, também baptizada como Estaçao Azul.

Já a primeira das duas viaturas se tinha afundado no horizonte visual. A cidade sonhava ainda, antes de acordar.  Mal se fizeram anunciar as luzes da Avenida Deolinda Rodrigues, o Kia Avla, em que seguiam os tres mais uma, decidiu ziguezaguear, levando-os à assassina árvore engordava e se pintava de sangue nas barbas do que é hoje o Comando Provincial da Policia de Luanda.

Era ainda no tempo das vias estreitas, entremeadas por um largo e longo "chourição" arborizado que separava os veículos a caminho de Catete e aqueles que visitavam a capital. Do outro lado da via, qual Lucifer vestido de branco, com os braços abertos, aguardava-os a Snt'Ana sepulcral antro com seus lúgubres lençóis.

- Sono? Embriaguez? Imperícia? Outra coisa não verbalizada? - As perguntas gritantes e mudas permanecem. Quem as podia responder já cá não está. Porém, a embriaguez e outras coisas meditadas em surdina posso descartar.

- O rapaz que girava o volante e pedalava a velocidade nao era de trambiquices nem bebedices. Era rapaz de muito juízo na cabeça. Só podia ser sono. Embriaguez nao. Malandrice também nao. – Declararam as velhas e kotas do bairro que o viram nascer e crescer.

De repente, tão rápido quanto o acidente, curiosos, polícias, bombeiros e jornalistas fizeram-se ao local, qual maratona sabática em dias de campanha eleitoral. Choveram apelos na rádio Kyanda para que se mobilizassem meios e homens para salvar os infelizes.

- São jornalistas. Salvem os nossos colegas. - Verberou-se suplicante nos 999 de frequência e nas bocas atónitas dos presentes e ausentes preocupados.

Juntaram-se sinergias para o desencarceramento dos ocupantes do veículo encolhido e abraçado à árvore máscula. Três dos quatro corpos ensardinhados suplicavam socorro às vidas que rapidamente eram sugadas pelo abismo faminto.

Machados, serras, tudo que os bombeiros usam e o povo guarda no escuro para se defender na hora do "dá-me teu suor", pouco servia para cortar o volante, o tejadilho e desfazer as portas. O motor recuado no embate contra a árvore arrastou tudo para trás.

- Por favor, estiquem o carro porque temos os pés longe dos corpos. - A voz Soberana, ainda distante do seu estado físico real, fazia-se suplicante.

Ouvida, o  Avla seria esticado, deppois de amarrado de frente, à mesma árvore que também sangrava, e puxado pelo camião dos bombeiros.

Antes de terminar o desencarceramento, já um dos sinistrados, Vemba,  desfalecia no terreno. Não se ouvira dele sequer um ai.

Chegados ao Maria Pia, levados em duas viagens pela carrinha da patrulha policial, primeiro os ocupantes do lado esquerdo e depois os do lado direito, os companheiros de viagem e desgraça encontrariam Leonardo Inocêncio, jovem chegado das terras de Fidel, mãos afinadas e firmas no infalível bisturi. Sem ordenado ainda, mas com a mente casada com Hipócrates, mostrava aí a sua proeza altruística.

- Doutor será que ainda viverei? - Perguntou-o o Soba preocupado, depois de confirmar o finamento do colega e amigo Vemba.

- Vives, meu amigo. Vives, podes crer! - Respondeu convicto, o cirurgiao, no fim do seu trabalho.

Dez anos depois, sem que as imagens faciais pudessem ser revisitadas, ei-los juntos, a frequentar um mesmo curso destinado a administradores da Função Pública. Em "conversa puxa conversa", médico e paciente revivem o dia do acidente e de imediato se identificam.

- És tu que estavas naquele acidente de jornalistas? – Ingadou Leonardo.

- Sim. Sou eu doutor. Éramos quatro. Morreram duas pessoas e sobreviveram duas. - Explicou o sobrevivo Soba.

- Por favor, quero confirmar. Vamos sair e mostra a cicatriz. - Orientou o cirurgião com a mesma autoridade que usa no Hospital perante os pacientes.

Mostrada a cicatriz abdominal, o "kimbanda kya Putu" voltou a questionar: - E qual dos pés sofreu cirurgia?

- O esquerdo, Doutor  Inocêncio. - Confirmou o Soba, mostrando também a cicatriz na perna que tinha o tornozelo quebrado.

- Pois é. És tu mesmo. - Confirmou o médico. Abraçaram-se aí mesmo, no corredor longo e iluminado do edifício.

- É meu paciente. É verdade. - Disse Leonardo à vintena de colegas que aguardavam pela perícia. - "A ferida é minha". Conheço as minhas impressões. - Ironizou.

Abraçaram-se novamente perante o olhar pasmado da turma e do professor. Choveram agradecimentos e recomendações ao médico anestesista que com Leonardo trabalhou na madrugada daquele primeiro  de junho.

- Obrigado Dr. Leonardo Europeu Inocêncio, por ter, com sua perícia, impedido que o abismo me sugasse ao seu leito negro.