quinta-feira, 4 de Fevereiro de 2010

DOR DE VINGANÇA

Desde que conheceu o outro lado do muro caseiro Kezito tornou-se um homem de muitos lugares e discotecas chiques. É também homem de bons gostos quando se trate de companhias femininas. Dir-se-ia mesmo, um bom coleccionador de preciosidades. Mulatas, morenas, arménias, nepalesas, xindongas (1), aztecas entre outras que só ele mesmo conhece as origens. Altura acima da média feminina e busto não muito arredondado caem melhor no seu engodo. Homossexualidade é para ele uma depravação, por isso mesmo coisa desprezível. Para Kezito, donzelas, quanto mais difíceis mais apetecíveis.

Fruto das viagens que o serviço lhe vai dando, Jacinto Kakiezo ganhou outros gostos e outras projecções. É na primeira classe dos aviões que frequenta como taxi para os pobres onde se acomodam as madres, freiras, ministras, parlamentares e outras senhoras da primeira fila desta Res Publica. E como bom aluno de Sanjamba que foi Kezito aprendeu a arte de cortejar. O ar de bem-estar que respira, a altura e a barriga algo empinada para frente dão-lhe um charme ímpar que desbarata a resistência de qualquer quarentona. No estrangeiro costuma mesmo gabar-se de ser dono de uma enorme destilaria de petróleo num país africano ao sul do Sahara.

Num Sábado de Novembro, na discoteca Tamankos, Kezito acompanhado de duas musas de Chitembo (3), encontrou o que dizia ser o pior azar da sua vida. O recinto transbordava de gente que até ar para respirar rareava. Apenas o kaxeketela (4) se podia dançar para o anelo da muzangala (5) que desaprendera os toques do antigamente.

De repente, um ser com cara de homem e gestos femininos encostou-se-lhe ao ouvido em tons de cio. Kezito transitava entre o sono e o despertar. Custava-lhe acreditar no que via e ouvia. Foi então que o ousado lhe fez a proposta:

_ O Sr. importa-se ser meu pitchu? (6)

Aflito, Kezito retirou-se aos gritos, lançando intempéries de toda a sorte, deixando para trás, e às expensas de ninguém, as companheiras de ocasião que lhe faziam companhia na mesa de sempre daquele lugar.

Era numa daquelas noites em que saíra de casa de pianinho, sem o seu Patroll, portanto. Servira-se da boleia da Vany que entretanto o apanharia apenas às cinco da manhã para o muzongué (7) da Nova Era. Kezito banhado em fúria nem tempo teve para medir a distância tão menos o destino. Ao primeiro azul-e-branco (8) que se lhe apareceu não hesitou. Estava decidido, desta vez, em regressar a casa.

_ Isso só pode ser pemba (9) da Ia, vociferava prometendo explicações!

Vidrado na coabitação com o pecado, encontrou na sua viagem para Viana, mais uma oportunidade de pôr a arma em haste, numa demonstração de cana para toda pescaria. Kakiezo trocaria olhares íntimos com uma “noviça” perdida na algazarra da noite. Ima, de sua graça, era excepcionalmente linda e o artista não perdeu a oportunidade de desfiar o rosário.

_ A Senhorita pode dizer-me como se chama?

_ Irmã Ima, respondeu ela inquieta.

_ Se não se importa gostaria de ser teu amigo e poder mostrar-te o que há de bom fora dos véus, atirou em jeito de provocação o galanteador-mor.

A religiosa, surpresa, recusou o convite e rapidamente se desfez da incómoda companhia à primeira paragem da carrinha.

Kakiezo ainda não se tinha dado conta que o amigo da Tamankos o seguia a passos e com uma nova indumentária, até que o cobrador, homem a quem horas atrás rejeitara pedido de aproximaçào amorosa, ouviu o diálogo e disse ao caçador de beldades que tinha a receita de como levar a Freira à caçada. Kakiezo encheu-se de curiosidade e não se coibiu em solicitar a benigna receita.

_ Toda a quarta-feira, à noite, ela vai à capela do cemitério rezar. Como você tem barba e cabelo comprido, é só vestir uma túnica e cobrir um pouco o rosto. Ela vai pensar que é Jesus Cristo... e então ordene que ela transe consigo.

A táctica parecia boa demais para que Kezito a submetesse a exame racional. Tal qual a recebeu assim a digeriu não lhe cheirando a amargo. Não era ele uma espécie de cana para toda a pescaria?

Na quarta-feira seguinte, lá estava o caçador esperando a presa. Aparentemente viu Ima nas suas vestes de freira. Transpirou, mas rápido se conteve. Deixou que ela se aprumasse para a habitual romaria. A “mulher” escondia-se num véu que obrigava a respeitabilidade de qualquer crente apostólico, excepto o sedento Kezito que não tardou em fazer a sua anunciação à vítima.

_ Mulher, eu sou Jesus! Ouvi as tuas preces e elas serão logo logo atendidas desde que antes levantes o hábito.

A freira corta a respiração, mostra-se atónita, mas por fim concorda, virando-se e pedindo num murmúrio que a use apenas desse lado do canal das saídas pódridas, pois pretende manter o voto perpétuo de castidade.

_ Meu Senhor, a ordem é Vossa! Eis-me aqui Senhor!

Terminado, porém, o acto, o falso Cristo retira a túnica e, a gabar-se de mais uma das suas, solta uma estrondosa gargalhada.

_ Hahahaha! Eu sou o Kezito, o tal do candongueiro, lembras-te minha freira?

Nisso, a suposta religiosa descobre o rosto e responde:

_ Hahahaha! Meu docinho! E eu sou apenas o simples dançarino de boite e cobrador em horas esquivas. Sou aquela formosa que te pediu namoro na Tamankos e negaste com desdém. Viste que conseguiste com jeitinho?!

Até à morte, carregou Kezito este peso na alma.

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Glossário

1. xindongas: tribo que habita o sudeste de Agola

2. Chitembo: municipio do Bié, centro de Angola

3. kaxeketela: aperto

4. muzangala: juventude

5. pitchu: o mesmo que meu bem

6. muzongué: caldo

7. azul-e-branco: “candongueiro”, Táxi colectivo.

8. pemba: feitiço, praga


quarta-feira, 6 de Janeiro de 2010

SE A ILHA FALASSE

O ano já vai no seu penúltimo dia. Os desportistas afinam as chuteiras. As rádios e os jornais dias sim e semanas também que só falam da grande festa de pontapés que vai acontecer no país. Esmeram-se as ruas, os jardins da cidade e as moças afinam os decotes. Parece que o que está por vir é coisa que vai marcar para sempre este povo.

É no posto de guarda, seu emprego, onde Kakiezo afina as ideias. Kakiezo é homem sério, educado na missão de Kamundongo (1), no tempo em que os pais olhavam ainda para o caminho dos filhos e a moral pública era mais importante do que a dor do estômago vazio. Fruto dessa educação espartana complementada com o rigor da “vida militar”, Kakiezo mantém na vida uma rotina de casa/trabalho, trabalho/escola/casa. Ironia ou não, até a matrícula que atribuíram ao seu carrito coincide com o que faz: CT-06-18-EC o mesmo que sair às seis e voltar às dezoito.

Há muito, porém, que lhe sopram ao ouvido que na “nguimbi” (2) toda a sexta-feira é dia do homem. Homem ele sempre se sentiu, em casa ou na rua e nunca viu diferença, mas a insistência de vizinhos que se embriagam à porta da taberna do Manelito e das vizinha Maria que corre com o desempregado Andrade aguça-lhe a curiosidade. Kakiezo quer experimentar uma sexta-feira do homem e os botões apelam-lhe para inventar à mulher uma prova lixada e preparar-se na escola para além da hora habitual de chegada.

Entre as milientas ideias que Kakiezo tricota opta pela mais bizarra: Ir à Ilha, afamado centro de carnais prazeres ao léu. A noite já levava a sua nona hora. O espírito buscava inspiração sobrevoando filmes há muito vistos em locais restritos. O corpo transpirava e se incomodava com a mesmice da casa. _ Hoje é hoje. Exclamou no seu íntimo!

Sem hesitação expôs a ideia à mulher que a aprovou sem pestanejar e de repente, ergueu os ombros de contente, aquecendo o Starlet. _ Alguém tem de "pegar o maço" porque a cobra vai fumar. Desabafou longe da mulher.

Logo na esquina da Maria da Fonte encontrou fontes de expiação. As moças pareciam estar prontas para as pelejas do mês primeiro do ano que vem. Era bem na rua Direita de Luanda, ali mesmo, onde a SIDA e o sol se confundem. A grande fonte de prazer estava entregue à vadiagem, limpando armas encravadas. Homens de mbunda (3) sem carne fugida para a barriga da cerveja e mulheres de belezas fingidas no verniz e cabelos importados das índias miseráveis.

Sorte igual não teria o inexperiente Kakiezo que tão rápido se entregou à sedução duma loira lobitanga (4) de cor de côco.

_ Que grande sorte! Delirou.
_ Tio, aviso já. Só com camisa! Ordenou a executante do mais antigo ofício.
_ Qual camisa qual quê pá? Uma verdinha de cabeça grande (5) sai ou não sai carne fresca?

Cem duros (5) é valor para uma noitada de muitas “apanha moedas” de cada mil burros (6). Vacilar seria condenar as panelas à greve e o chulo do marido sem copo. Marieta não vacilou.

A loira estava em Luanda há anos, fugida da guerra no interior de Benguela. Mas tinha-se apresentado como lobitanga devido à sorte de ser filha bastarda dum mulato fazendeiro de Vava-a-Yela, na Nganda. A vida verdadeira duma cidade repleta de feras tinha-a ensinado o princípio da cooperação entre um marido “mata-kassumuna” (7) e a “mulher trabalhadora”. Mesmo sem a formação que a impedia o alcance do emprego dos sonhos que era ser aeromoça, Marieta tinha, afinal de contas, uma grande indústria natural. A vida tinha-lhe também ensinado a cooperação com os seus cliente ocasionais.

Marieta Fonte era uma verdadeira nascente de prazer. Exibia pernas longas e torneadas, seios amabocados pelo soutiên do tipo “engana-marido” e um batôn exageradamente avermelhado e convidativo. O seu indicador estava sempre apontado ao lábio. As montanhas traseiras, meio despidas, eram que nem o Môco dando à mbunda o ar de um camião de condução inegável. A moça de meia-idade tinha aprendido também a manobrar homens de bolso roto e a domar aqueles apegados aos dogmas cristãos. Era uma escola de vida mundana.

Com Yeta trabalhavam outras moças de várias procedências. Umas de idade mais avançada e outras mais recuadas. Estavam aí expostas ao frio e a doenças, exibindo a tonelagem que de graça haviam recebido e que a preço de banana distribuíam. Embora os moralistas reforçassem os apelos e os polícias prometessem castigos e deportações, os homens da ronda nocturna fechavam os olhos e delas se abasteciam na carne e nas roulottes.

Kakiezo estava num verdadeiro novo mundo. Num mundo de que dispunha apenas de parcos conhecimentos de ouvir dizer... Era a sua primeira aparição in situ. O homem cultivado de moral no distante Kangandala, em Malanje, estava num abrir e fechar de olhos em mãos quentes de Marieta que o levou de farfalho em farfalho ao defunto zoológico da Kianda onde nem pescadores nem corvos os rodeariam naquela hora. Apenas odores de orgasmos recentes e outros por conseguir em carros de vidros esfumados ou ao relento duma brisa empurrada por furiosas calemas. Não muito longe, outros farfalhos do vento contra as árvores que se inclinam pedindo paz para as folhas do orvalho matinal. Há muito que Kezito não recebia violenta quentura e delirava a cada sopro que recebia ao ouvido.

_ Canta filha, canta meu bem que o microfone é todo teu... Que doçura!

Sabulava atordoado pelo medo de ser descoberto por algum linguarudo conhecido e pela elevada dose de excitação. Kakiezo não sabia por onde pegar nem em que pensar. A Marieta, sua madrinha de vidas novas, era, de facto, uma máquina de grande cilindrada e mestrada na matéria. Conhecia os vultos dos xulos e dos ximbas que delas se abasteciam. Havia-os aos montes e aquela floresta, escolhida mais pelo prazer do que pela mente estava repleta deles e não tardou. Antes mesmo que a cobra fumasse e se engasgasse, à frente surgiu-lhes um homem empunhando uma Walter.

Um “maka kiá” (8) saído doutra viatura em semelhante embaraço anunciava o perigo em presença.
_ Jovem desce, é a minha vez! Ordenou o ximba vestido de caki azul.

Atrapalhado, entre o ligar o carro, puxar as calças ou baixar o vidro, Kakiezo e Yeta cruzaram olhares com alguém aparentemente ligado à ordem pública da orla marítima e que acabava de corrigir a sentença.

_ Jovem da trás não veste. Tu aí, abres a porta e vamos à esquadra. Tens que explicar o que estavam a fazer. Isso é atentado ao pudor!
_ À esquadra? Quê isso? Então um camarada já não pode mais namorar?

Kakiezo encheu o peito de coragem e bombardeou o suposto polícia de perguntas que lhe foram respondidas apenas com o cano da pistola em riste. No banco traseiro do Starlet Marieta banhava-se em lágrimas.

_ Mas, sô agente já não se conversa?
_ Sô agente não, chefe! Corrigiu com rudeza facial o ximba.
_ É que, sô chefe! Tenho aqui qualquer coisa que dá para um saldo. Quero resolver o assunto localmente...

Não sendo outro o objectivo perseguido pelo homem de arma, o assunto foi resolvido a contento do adúltero Kezito. Porém, para a eternidade permanece a vergonha e a pergunta que o persegue.

_ Ai se a Ilha falasse, quantos lares permaneceriam intactos, quantos pais morreriam de trombose… quantos? Se a Ilha falasse!

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Glossário


1. Kamundongo: Missão evangélica localizada no município do Kuito/Bié (Angola)
2. nguimbi: O mesmo que Luanda, a capital
3. mbunda: Nádegas
4. lobitanga: Natural do Lobito/Benguela (Angola)
5. Uma verdinha de cabeça grande: O mesmo que uma nota de Cem Dólares americanos
6. burros: Kuanzas (moeda Angolana)
7. mata-kassumuna: Desempregado
8. maka kiá: Problema à vista (do kimbundu)



sexta-feira, 25 de Dezembro de 2009

ENTRE AMIGOS

Kimbundu e Mbalundo são amigos de longa data. Viveram vários anos na fazenda Kazukuta, no Waku Kungo, onde seus pais eram trabalhadores agrícolas, tendo partilhado conhecimentos e vivências, desde a escola primária, o isolamento da circuncisão, à recruta na tropa do governo. Aos olhos de quem os vê juntos são mesmo irmãos de carne e sangue.

Depois dos mortais combates travados contra os sul-africanos karkamanos e seus amigos, Kimbundu que é de Cabuta e Mbalundu, de Boas Águas, no Huambo, voltaram a cruzar em Luanda onde a vida era outra. Apesar da decana irmandade e da vontade de sempre estarem juntos, os caminhos nem sempre tinham o mesmo zénite. Os encontros tornavam-se raros e contra vontade. Sorte é que meses depois da desmobilização tinham frequentado cursos de artes e ofícios, como também tinham afiado um pouco mais o lápis, daí estarem agora de bem com a vida.

Na aldeia a carta era o principal meio de comunicação à distância e o hábito ainda fazia castelo entre eles. Na grande cidade dos ajuntamentos os costumes eram outros e os olhos das mulheres pareciam estarem também desvendados de crenças ritualistas e bairristas. Mbalundu, ou simplesmente Mbalu, estava cansado de comunicar-se por via de cartas que demoravam muito tempo a chegar aos destinatários. Pior ainda porque a sua holding gosta de vasculhar as imbambas e ler as missivas. Uma vez teve mesmo de escrever em inglês para despistar a curiosidade da Ngueve que decidira nunca desprezar um papel com letras. Em casa de Kimbundu, ou Kim, a sorte parecia-lhe igualmente madrasta. Kaculo tinha uma amiga que frequentava a escola de inglês e já decifrava os primeiros "I love you" das mukandas. Foi o que os levou à decisão de comprar telefones para facilitar a prevaricação, tornando-se também nos maiores clientes de recargas da operadora Afasta Só.

Aos fins-de-semana era comum sacarem do telemóvel e conversarem horas sem conta contando-se as voltas que o tempo dava em suas vidas.

_ Alô mô Mbalu,
_ Epá, Alô!... Como é Kim, ainda estás aonde? a vida está-te a cuiar?
_ Yá, fixe! Como é hoje? Sai ou não sai uma?
_ Não meu, estou fraco. Equilibras-me a balança de pagamentos?
_ Yá. Sem makas! Vamos. O teu carro está bala?
_ Está, mas falta gasolina. Vou fazer primeiro umas puxadas do Banco ao Porto e depois ligo-te... Comprei agora este Sonyericson para pôr as conversas em dia sem mais levantes.
_ Já sabes Mbalu, há gente que noite-e-dia na ilha. Não é que descobri ontem um monte de camisas?
_ Camisas?  De quê?
_ De vénus. Ali, bem na Vista Mar. Só desci...
_ Mas conta então bem, meu.
_ Yá. Letal, imortal e outras marcas. Umas estavam já secas, outras ainda com a kissângua dela dentro e outras ainda a cheirar prazer.
_ Epá, não será no sitio do Kamba Pato?
_ Hum, não. Esse não usa esses artigos. Prefere mesmo a judo... E hoje quem cai?
_ Meu, quem cai na rede é peixe... Canguei agora uma kitata que já dá para safar a onça. Na Holding, já sabes. Subir ao palco é à rasca. Fogo já não acende, compreendes. É vida de caracol. Mal sai entra logo.
_ Yá meu. Eu também estou nessa. Por isso é que zungo para desvanecer. E hoje onde será o cenário? Parece que no Maualtar já não se vai...
_ Ai é? Ainda bem que mo disseste. Mas olha, parece que na vilinha também se trabalha. É só chegar à porta do lado da falecida judiciária e expor a questão com duzentos na mão. O parqueamento é fácil e sem chatices. Disseram-me ontem num kamba... alô, alô, Mbau, olha, vou desligar para poupar os impulsos.
_ Ok. Como trabalhas na Mutamba, logo te apanho lá... É só perguntares ao Felito, aí junto ao jornal diario. Depois decidimos se bumbamos já naquela área ou se subimos para o quintalão da Deolinda.
_ Yá mô irmão, Vou ligar para a bombeira. Se estiver com truques de machado, já sabes...caio no consulado...

quinta-feira, 17 de Dezembro de 2009

MONÓLOGO

Já são altas as horas de insónia que Sanjamba carrega. O homem tem dificuldade em digerir aquela reacção da Ia no funeral do Kakiezo quando o padre elogiava o defunto dizendo que em vida fora bom homem, crente e fiel marido.

A Ia abandonou as lágrimas para pedir ao Kelson, filho mais velho de Kakiezo, para confirmar se era mesmo o pai dele ou outra pessoa que estava no caixão. Até as patas e patos de óbito não gostaram da reação da viúva porque se o homem morreu, morreu já. Não adianta mais dizer às pessoas que era um pecaminoso de primeira classe.

Só não joguei aquela pobre mulher no buraco por pena dos filhos, os muitos sobrinhos com que o compadre me brindou. Catorze no total, por causa das embaixadas que foi abrindo ao longo dos seus cinquenta e cinco anos de mandato. A Ia deveria ter tirado satisfações com o marido ainda vivo. Fazer o morto passar por vergonha é coisa que não se faz desde os tempos avoengos.

Os últimos dias do compadre eram de quem ganhou lotaria. Embaixadas mais embaixadas, copo mais copo, putos atrás de putos e disbunda ao longo dos sete dias. A depreciação da comadre holding era tão grande que não fazia nada mais senão rezar. Muxima, Kalumbo, Santo António do Kifangondo e outras igrejas onde se buscava um Deus especial, eram destinos da mulher que procurava a cura divina das ausências prolongadas do Kakiezo. Já lá iam dez anos que o seu homem tinha decidido juntar os trapos com uma viúva de Malanje, cujo marido tinha encontrado a morte numa boite de Benguela. Dizem que apanhou uma profissional que lhe chupou, chupou como rebocado, até que se estrebuchou na morte. A morte do irmão Malesso, filho ímpar da Damba como ele se alcunhava, foi um escândalo internacional. O homem era cristão das elites e, morrer numa situação vergonhosa daquelas, mereceu muitas páginas nos jornais.

Desde aquele ano em que eu era ainda um Casa/Trabalho e Escola/Casa que vou assistindo a tudo. Já andámos muito. Primeiro na ODP e depois nas FAPLA. Até na kamanga (1) fomos sempre juntos. Kakiezo e eu éramos irmãos de vida embora a sorte batesse sempre mais forte do lado dele do que do meu. A kamanga deu-lhe um Patrol, várias filiais que ele chamava por embaixadas, e agora essa doença de tossir e emagrecer que o levou para junto do senhor.

Quanto a mim, sempre vivi com a minha desgraça. Sempre estudei mais do que o Kakiezo, mas na ODP fui guarda e ele foi Oficial Dia. Nas FAPLA fui um raso e ele um sargento. Na kamanga ele saiu com um carro de rico e eu, graças ao troco dele, só cheguei ao Gira-bairro. Só não me aguentava mesmo era no papo. As moças daquele tempo diziam que eu era um poeta daqueles do Brasil. Ninguém me comparava aos portugueses que se enrolam no rasto das palavras só para dizer “TE AMO”. Os meus papos eram rajadas como chuva acompanhada de nzaji (2). Todos me pediam cadernos de papos e davam o meu nome ao primeiro filho que nascesse da relação. Maninho ou Maninha que abreviava o Man-Xaxo.


Hoje arreei. O papo já não resolve. É o saldo, a moda brazuca, a discoteca e sair voado. Vou continuar a gerir as minhas duas herdades. A holding, mãe dos meus filhos, e a sucursal que me alivia o stress há já bons anos.

Desde aquela primeira vez em que tentei sair na noite que me está a ser difícil deixar. Reconheço que já não tenho punho para muita pedalada. Um carro velho por cuidar, dois filhos no ensino médio e um na universidade, uma amante xuladora e um enteado comilão é carga pesada. Chegou a vez de racionalizar e fazer um calendário de atendimentos.

Daqui em diante a Quinta, Sábado e Domingo despacho na holding. À sexta-feira, que é sagrada, folga aqui para o boss. E à terça passo a despachar na sucursal. Cada uma com a sua vez. Ainda tenho que consolar a comadre Ia todas as segundas e visitar os sobrinhos que o Kakiezo me deixou espalhados pela cidade. Há sempre um em cada canto da cidade e com os seus problemas!

Nessa vida de distração com a rua muitos voltaram para o bairro e encontraram a casa noutro lugar. A mulher já é do vizinho, os filhos são da rua, as filhas já andam com o colega do pai a quem tratam por tio e a casa vendida. Manuel Adão acabou assim. Estar nesta idade obriga a uma fidelidade canina de um "Cão" já sem caninos. É preciso abrir o olho porque a emancipação está a vir com força e espírito de vingança.
E dormiu.
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GLOSSÁRIO
1- Kamanga: garimpo de diamantes
2- Nzaji: trovoada

domingo, 13 de Dezembro de 2009

A REGRA DA EXCEPÇÃO

Manhã de uma quinta-feira qualquer, dum mês que também pouco interessa. O ano sim. Dois mil e tal. Kakiezo acorda, já meio tarde, confuso e fala com os seus botões. Há muito que ouvia falar em filiais (1) e procura entender o que são. Esteve remetido, ao longo de vinte anos, à vida de dorme, ronca e acorda, um sacrifício que às vezes enfrentava com prazer. Mas a revolução feminina, recém-chegada, parece atrapalhar-lhe as ideias. Parece que estão a chegar, novamente, os tempos do queimaço de que apenas estórias idosas restam aos neófitos desta grande aldeia.


Desde o seu casamento que a holding (2) deixou de fazer maravilhas. Já lá vão anos sem fim e o pior é que na rua a aceitação é pouca por causa da argola que carrega religiosamente no anelar. Mesmo entregue à fé libertadora, Kakiezo vive no lar o pão nosso da desconfiança. É o fardo da fidelidade rompida apenas há dias, nas peripécias da grande floresta.

Na Faculdade nocturna, o honesto Kakiezo aprendeu Ciência e outras “ciências” da vida. Era quem mais dava boleias sem retorno. Convites indecentes eram para ele em quantidades “megabáticas” para um simples mortal. Tinha experimentado as ilhas mais recônditas daquela cidade atlântica e os mais recônditos recantos ao escuro da floresta tropical. Mas não tinha ainda se entregue de corpo e alma aos prazeres terrenos. Deus ainda repousava nele.

Ia, a esposa, fora formosa e fogosa nos tempos do Colégio das Beiras onde trocaram o primeiro olhar. Era no tempo da partilha da estica-estica (3) e dos micates (4) da tia Ngonga. Ele franzino e ela mais avantajada, com pernas gordas, e traseiras em forma de pirâmide. Difícil era passar por Ia e não soltar um olhar discreto para qualquer que fosse a parte da sua intimidade resguardada em sedas e algodão orientais, trazidos de missões de serviço pelo seu pai, Costa campos, diplomata em tempos idos. Maria Campos, ou simplesmente Ia, tinha deixado volatilizar toda a sua graça com a ninhada de filhos e o desfilar dos anos. A prole masculina já formava uma equipa de basquetebol e a feminina podia manter a assistência à partida. A caseiridade e o desleixo da companheira pelos livros tinham tornado a vida intima numa mesmice. As inovações que Kakiezo trazia dos livros de Kama Sutra e dos filmes para homens da sua idade eram interpretados como rescaldos de ultrapassagens à direita. Ia entendia de tudo à volta, menos de renovação, um desleixo que atacava Kakiezo agora entregue a trajes multicolores e sapatos sempre incondizentes com o cinto.

De galão, Kakiezo tinha se tornado em sobra de si mesmo e no lar mergulhava-se em problemas dias sim, dias sempre, definhando por dentro. O seu andar de passos candentes se tinha tornado num conta-passos. Pesava-lhe o significado das juras trocadas perante o padre e os padrinhos. As desavenças caseiras tinham-no empurrado ao sabor da rua, onde já tinha experimentado uma aventura e algumas cervejas para abafar as mágoas, mas quase se deu mal com aquele ximba a apontar-lhe a pistla. Era outro o poiso que o seu pássaro precisava. Era preciso chegar à solução que até os filhos, às vezes, palpitavam nas conversas que se seguiam à interpretação da novela Maria Bonita, onde o enredo se parecia ao seu filme. A rua já se tinha tornado quente perante a Sibéria daquela casa familiar. A vida intra-muros era tensa e precisava descomprimi-la. Faltava o momento exacto para sair sem dar nas vistas. E a oportunidade de pôr a teoria em prática surgiu quando em vésperas de casamento da Prima a Ia desatou:

_ Kakiezo, amanhã é o casamento da Nagxi. Como a comida é feita em casa, vou lá dar um jeito e quero te pedir que me deixes sair agora... Deixo a comida já pronta para ti e para os miúdos. Depois é só pôr no micro-ondas...

Kakiezo esfregou as mãos de contente, mas a dar antes uma de marido desconfiante e enciumado: - E a que horas é que vens, com quem vais, quem lá estará? E olha, deixas-me com o teu carro para minha saída em caso de urgência… A masculinidade parecia ressuscitar nele. Os planos pareciam coincidir, mas Kakiezo não era homem de dar nas vistas. Nada melhor do que aproveitar a saída da esposa para a reentré na vida vivida, pensou.

Lembrou-se que na ponta da rua, uma ex-criança acabara de florescer o peito e a pintar os olhos que todos os dias se dirigiam para ele em tons provocantes.

_ Carne que não é para nossos dentes que se dê aos cães, falou com os botões e pegou o telefone cuja chamada caiu no sítio certo.

_ Alô, Vany, vamos chupar gelados?

_ Quê isso Sr. Kezito? O Sr. 'stá a convidar-me a sério?... Sabe que sempre estive à sua disposição…Quer saber mais?

_ Não! Diz apenas a que hora e onde te posso apanhar. Sabes… Vou andar com um carro que não é meu, o da Ia. Olha, ficas junto à agência, faz uma conta inicial na roulote que eu liquido depois.

_ E ficaremos apenas por aqui ou haverá mais? Sabes Sr. Kezito, preciso…

_ Oh! Kanuka, também preciso só que é de coisa diferente... tá?

***

Nos preparativos do casamento de Engrácia da Silva Campos, Maria, a Ia, comadres e primas punham as conversas em dia. É nesses encontros que as mulheres aproveitam falar do lar, dos filhos e, às vezes, dos companheiros. Umas trocando saberes e outras expondo as veleidades e fortalezas masculinas. Nas ocasiões em que o batuque e a dança se combinam, o pudor volatiliza-se e os homens são passados a pente fino.

_ Sabes Manuela, os homens de agora são que nem os aparelhos electrónicos. Ou são CD, ou são DVD, com ou sem R e há ainda os VHS. Se a pessoa fica em casa é só mesmo por causa do juramento sagrado e dos miúdos que têm de ser criados num lar com harmonia, porque quando a porta se fecha é só mesmo esperar o sol abrir outra vez para cada um ir à sua vida diária. O Rendimento que conheço é só mesmo o do salário. Quanto ao que Paulo aconselha aos Coríntios, ninguém liga a ninguém.

_ Pegaste num bom ponto, prima. Replicou a Marisa, Isa de seu nome íntimo. - Pensava que fosse apenas comigo. Os anos quarenta são de muito sacrifício para as mulheres. Já ninguém dá o que pedimos… e quando se lembram é para apenas uma gota. Até já não sei se são as gaiteiras (5) que sugam tudo ou se é a força que se perde na barriga. Também como bebem é de esperar qualquer desgraça!

- Mas Tininha o quê isso de DêVêDês, CêDês, Errês e Vê-Agá-Essês? Questionou Ia escondida no seu pudor de mais velha da turma.

Nela vira-se para o lado esquerdo fitando a irmã Maria que lançou a pergunta. Mas é para a prima Madó que direcciona os olhos. Uma pergunta dessas não era de esperar de uma pessoa com a idade de Ia. Madó ainda é criança, tem vinte e dois anos, pensou.

_ Não foi a Madó quem perguntou, foi a prima Ia. Tina endireitou a conversa na expectativa de obter as respostas que também lhe interessavam.

_ Olha: Marido DVD é aquele que se deita, vira e dorme. Acorda só no dia seguinte quando já não é hora de satisfazer as vontades. Agora o DVD-R é pior ainda. Esse, se alguém de vocês tem é melhor passar a dormir no quarto das miúdas, porque dorme e vira, você pensa já que chegou a hora, mas ele dorme mais ainda e por cima ronca. Mas há mais. O CD é aquele que aborrece pouco como o teu cunhado. Ele come e dorme quando se lembra que estive ao lado já saí para o serviço.

_ Mas falta um. Agá e Vê ou Vê Agá Essê, já nem sei, será que é aquele que tem SIDA?

- Hum! Qual lá SIDA? É aquele puramente quentaço. VHS é só “Várias Horas de Sexo” como nos tempos de namoro.

***

Às vinte e trinta, Kakiezo e Vany já “leitoavam” num Corolla.

_ Sr. Kezito, posso tratar-te por meu docinho? Onde é que está a tua mulher que te permitiu sair com o carro dela? Perguntou como que mostrando desinteresse pelo convite.

_ Está no Prenda, ali junto à antiga Praça do Banga Sumo. Minha mulher é da Kibala. Sabes fofa, lá é a capital da Kibala em Luanda e aqui a capital de Catete. Não vês a composição demográfica?

Ao lado da agência bancária, local do encontro, espreitavam-nos as famosas mansões Meia Curva e Reflexo da Terra Fofa, casas erguidas propositadamente para o sexo oculto e estadia cobrada à hora. Vany, embora apresente um rosto angelical, é baptizada nestas andanças e bem conhecida dos funcionários e frequentadores do recinto. Apenas Kakiezo não sabe em que mares navega. O mundo dele é apenas o mundo da friolenta Ia ameaçada agora no seu monopólio.

Vany, cursada na escola da vida, fazia no momento o melhor que podia para não mais perder o boss da rua. O seu rostinho gostoso e o peito imaculado contrastavam com as técnicas que utilizava e que faziam o quarentão Kakiezo perder a cabeça, espremendo-se como viúva no funeral do marido.

_ Grande piscina para mergulhos! Pensou mais tarde Kakiezo sem o dizer.

Atrasados no aquecimento preliminar viriam os mosquitos anteciparem-se no quarto encomendado ao telefone. E como a noite ainda era criança, decidiram rever o casamento da noite com a aurora na ponta do Cabo, terra de ninguém, àquela hora, onde matilhas e humanos se revezavam no cenário da procriação em campo aberto.

Desarrumados e gastos pela peleja amorosa, Kakiezo e Vany cruzariam com a Ia, na madrugada do dia seguinte, no mesmo caminho para casa. Preocupado, Kakiezo tentou acelerar para chegar primeiro e refazer a maquiagem, mas debalde. Um alerta secreto tinha tocado em Maria João Campos, deixando-a em pólvora. Avistado o colarinho de Kakiezo pintado de batom, Ia perdeu, por instantes, a visão. Tentou, atarantada, reconhecer o local em que se encontrava e as pessoas que a cercavam. Apenas vultos lhe apareceram em frente. Sentiu-se como uma cadela à procura do seu amo. De repente tudo o que era nefasto lhe visitava. Odiou o carro, a vizinhança, o Kakiezo e a si mesma. Mandou, inclusive, os filhos da sua própria barriga para o diabo! Recuperada, tentou encontrar no seu íntimo a explicação que Kakiezo nunca lhe daria. Ai se o carro falasse...

_______
GLOSSÁRIO
1- Filiais: o mesmo que relações extra-conjugais
2- Holding: a mulher casada
3- Estica-estica: doce feito de açucar derretido
4- Micates: o mesmo que bola de berlim
5- Gaiteiras: namoradas adúlteras

sábado, 5 de Dezembro de 2009

O PITTBIFE

Man-Xaxo virou guarda depois de desmobilizado do braço armado do povo, as FAPLA. Em casa do ministro Kambondondo onde estava colocado, posto muito cobiçado por todos os companheiros da nova trincheira, assistia dias sim, dias sempre, aos banquetes com que Kambondondo brindava os amigos, ex-companheiros de brigada, sócios empresariais, afilhados e até namoradas, sempre que a dona Kifunde se ausentasse para compras no estrangeiro.

Visionário e audaz, Man-Xaxo, é homem de porte físico que põe ordem na vizinhança. Precisa, igualmente, de exercícios físicos regulares para manutenção e de uma alimentação em qualidade e quantidade para repor as calorias que gasta. A casa de Kambondondo parecia-lhe, à partida, o ideal posto de trabalho para juntar ao útil o agradável: Proporcionar a efectiva sensação de segurança ao Ministro e ter, em contrapartida, comida boa. O andar dos dias mostrou-lhe, porém, que toda essa primária imaginação tinha redundado em ledo engano. Apenas de longe saboreava os manjares multi-culturais que lhe passavam à barba. O seu prato vezeiro era o do arroz com peixe frito e pão seco que vinham da empresa de segurança Njovoli(1).

Junto à cancela estava um pitbull carnívoro, animal de estimação de Kambondondo, cujas regalias se equiparavam às que oferecia aos filhos, ultrapassando mesmo as miseráveis vivências dos directores nacionais. O Xindandala tinha médico, dentista, adestrador e muito mais. As suas consultas eram seguidas ao pormenor e usava dos mais caros perfumes. Xindandala era, aos olhos de Man-Xaxo, um cão com direitos humanos.

Farto da vida humana do cão e a vida de cão que lhe era brindada naquele rancho ministerial, Man-Xaxo começou por dividir os bifes entre ele e o pitbull sem que os seus segurados o soubessem. Com o andar do tempo foi diminuindo a parte da carne destinada ao cão, mandando-a goela adentro, até que um dia pensou no que seria o seu golpe de artista: inverter os pratos. O peixe frito para o cão e o bife para si.

Mal pensou, pior fez. O engarrafamento daquele dia tinha atrasado a chegada da carrinha de distribuição da comida dos vigilantes em quase todos os postos. Aqueles que tinham bons "bosses"(2) quase dela nunca precisaram. Entretanto, com o Man-Xaxo a conversa era outra. O pitt Xindandala já tinha tomado o seu leitinho matinal, antes da principal refeição do dia. Porém, Man-Xaxo engolia ainda vento atrás de ventos e bocejava esfomeado. À hora do almoço, o bife tanto fazia verter fluídos da boca e das narinas do cão, como também criava água na boca do seu companheiro humano. O guarda da casa não pensou nem pestanejou. Tão logo chegou o apetitoso pitéu (3), tragou-o em dois tempos, aguardando pacientemente pelo arroz com peixe frito que o cão sequer tocaria. O guarda estava já de pança feita. O estómago estava em actividade e arrotava temperos que enciumaram o pitt, obrigando-o a brir-se em raivosos uivos que despertaram os proprietários da herdade e a vizinhança. António Kixindo, um vizinho brigadeiro sem guardas, já tinha afinado a kalashenikov para o pronto-a-matar ao primeiro sinal de intrusão na sua casa, à Vil'Armanda. Estava-se num tempo em que os gatunos não tinham horas para os assaltos e os militares sem paciência para esperar pela polícia ou coisa parecida. Os assuntos eram resolvidos na hora e com os meios ao alcance.

Mergulhados em estranhesa pelo latir enraivecido do animal, Kambondondo e Kifunde colocaram ponto e vírgula à saga romântica e transpuseram a porta para o quintal. Qual o espanto?
– Repousava intacta no canil a marmita com arroz e peixe frito.
Do bife? 
_ Nem cheiro. Man-Xaxo tinha-o deglutido!

GLOSSÁRIO
1- Njovoli: significa em umbundo libertador
2- Boss: o mesmo que patrão ou segurado
3- Pitéu: no calão de Luanda significa comida ou repasto

quinta-feira, 26 de Novembro de 2009

A KABUNGA DO KAÚIA

A aldeia de Cambau, na comuna do Kissongo é a terra natal de Kaúia. O dia de nascimento é incógnito. Ninguém se lembro de recorrer ao Comité da Aldeia ou ao comerciante para o registar num caderno de datas. O Soba Kixindo lembra-se ter sido num dia de caça. O milho estava nos celeiros e a terra recebia preparativos para novas sementeiras. O herdeiro negro do colono israelita da região diz que foi num mês de Agosto dum ano que também não sabe precisar. Estava-se no fim da luta entre os irmãos kambuta (1) e os mundeles (2). Deve ter sido em 1974 ou 1975.


Como um miúdo qualquer que tem pai e mãe que trabalham, com lavra grande e muita fruta, João Kaúia crescia em altura e nos conhecimentos. Ao contrário do que era hábito na aldeia de Cambau, onde os rapazes adquiriam o njine(3) na pre-adolescência, Kaúia fê-lo no enfermeiro, no mesmo mês em que recebeu a irmã Katumbo. O pai queria que o seu primogênito fosse no Putu ou em Cuba para estudar. Só não sabia como nem quando. Foi daí que mandou cedo o filho à circuncisão. Quem vai à terra do mundele não pode ir com kifutu(4), dizia Jorge Kakonda.

Em casa, na aldeia de Cambau e nas circundantes de Calombe, Cabeba, Cuassola ou mesmo no Calongo, Kaúia e os três irmãos recebiam a educação e a instrução comunitária. Os filhos eram de todos e a sua educação a todos cabia. Era assim no Cambau antes dos rapazes entrarem para a iniciação escolar. As meninas entravam mais tarde na escola. Outras, que eram muitas, nem iam. Os pais refilavam, mas as mães ganhavam sempre. Os nascimentos estavam em alta naqueles tempos que se seguiram à dipanda (5) e os mauitos recém-nascidos ficavam à guarda das manas negadas à escola.

Com os seus aparentes 4 anos, a vida de Kaúia parecia maravilhosa. Brincava com os amigos à cabra-cega ou confeccionavam trotinetas de munzaza (6). Vezes sem conta trepavam montanhas para espreitar a vida íntima de canta-pedras ou vasculhavam no bananal a vida diurna dos ngelus (7). Borboletas, cigarras, grilos e gafanhotos também faziam parte do seu dia-a-dia. Era nestes insectos que se ensaiavam na caça aos animais de porte maior. Os veados, corças e javalis entre outros, estavam, de momento, confiados aos dikotas da sanzala(8), mas o dia de Kaúia chegaria também, tarde ou cedo.

A primeira vez que João Kaúia pronunciou uma palavra perceptível devia ter nove ou dez meses. Lembra-se ainda a sua mãe, Kabezo, que Ximinha, a sua irmã mais nova, já estava na barriga. E Kaúia falou em Kimbundu, a língua da sua aldeia e dos seus pais e parentes. O português, língua dos mundele, tinha sido, até há bem pouco tempo, a língua usada apenas para responder a notificações no posto de Kissongo ou quando o soba fosse à vila de Calulo. Até o alemão Kindunga tinha aprendido a língua dos aldeões para poder contratar a mão-de-obra para a tonga (9) e os convencer a fazer vale (10) na sua loja de campo.

Com a idade escolar a chegar, havia a preocupação de saber o A-B-C-D e contar na língua do Putu, tarefa nada fácil para quem aprendeu a pensar como sempre pensou o seu povo.

***
A idade da pré-kabunga (11) coincide, na aldeia, com a da frequência ao njango (12). Kaúia tinha deixado de jantar na cozinha com a mãe Kabezo e com a avó paterna Kikumbo. No Jango tinha a educação masculina, a forja para a vida adulta que começava com estórias de pessoas valentes e animais ferozes que era preciso dominar.

Xica Yango, seu homónimo e avô, tocava kambanza (13) e intercalava os contos com as canções do seu tempo. Os jovens e adolescentes recontavam o que tinham ouvido do velho e os meninos o recitavam todos os dias no início do serão. Era como a recapitulação da matéria da escola oficial. Depois vinham as anedotas contadas por jovens e homens de meia-idade, também eles responsáveis pelas lenhas que alimentavam a fogueira do njango e pela continuidade do lume que nunca se devia apagar. O njango era a fonte de iluminação dos povos da aldeia e tornava-se dispensável, para muitos, a compra de caixas de fósforo ou mesmo isqueiros de corda alimentados a petróleo ou gasolina. No final da noite, como que passando a tarefa aos neófitos da turma, abria-se o espaço das adivinhas. Him, him, him, him... cantarolavam antes de formularem as perguntas livres à rapidez de quem tivesse a resposta na ponta da língua. Era o melhor momento.

Ao entrar para a escola de adobes, construída na aldeia, Kaúia encontrou novos amigos, antes desconhecidos, das aldeias de Sengo e Calongo, próximas da sua, mas tal como os colegas, encontrou também dificuldades. Não falavam o português exigido pelo professor Borracha e o kimbundu tornou-se proibido até no recreio. O professor castigava quem falasse, na escola ou fora dela, a língua da aldeia para forçar que os alunos aprendessem o português o mais rápido possível. Era a língua dos comícios do comissário, dos instrutores da OPA vindos da comuna, dos livros e da gramática do José Maria Relvas.

Em casa, a avó Kikumbu, sua protectora, não falava português e sempre que Kaúia estivesse com colegas não conseguia comunicar com ela, temendo que alguém o denunciasse ao professor Joaquim Borracha, aumentando as dificuldades de Kaúia. Não se alimentava em condições porque desconhecia a nomenclatura portuguesa dos mimos com que a avó o brindava e, pior ainda, entrou em rota de colisão com a velha Kikumbu que o chamava de calcinhas. Desde que entrou para a vida escolar que o neto já não respondia às perguntas da sexagenária e nem solicitava o seu doce regaço. Sempre que tentasse fazê-lo era num português arranhado que a avó não entendia. Era preciso encontrar a paz. E a paz seria selada num sábado, na lavra, onde o rapaz se pôde abrir, na sua língua de costume com avó e sem a presença de intrusos. Apenas pássaros e borboletas pulverizavam o ambiente ensolarado daquele dia de nuvens fugitivas.
- A Kuku, ki tuzuela imbundu prossor io mbeta. Muene uandala tuzuela ngó putu (14).

GLOSSÁRIO

1-Kambuta= baixo; de estatura baixa 2-MUNDELE= homem branco; 3-NJINE= condição de circuncidado; 4-KIFUTU= incircunciso, com prepúcio; 5-DIPANDA= independência; 6-MUNZAZA, árvore de caule brando ou pouco resistente, usado para o fabrico de trotinetas; 7-NGELUS= espécie de rato que tem vida activa diurna; 8-DIKOTAS DA SANZALA= os mais velhos da aldeia rural; 9-TONGA= empreitada; 10-VALE= caderneta de débito usada pelos comerciantes rurais e peri-urbanos; 11-PRÉ_KABUNGA= o mesmo que iniciação escolar; 12-NJANGO= local de reunião na aldeia, local de passagem de conhecimentos; 13-KAMBANZA= dicanza, instrumento musical; 14-A KUKU, KI TUZUELA IMBUNDU PROSSOR IO MBETA. MUENE UANDALA TU ZUELA NGÓ PUTU= o mersmo que: avó, sempre que nos expressamos em kimbundu o professor bate-nos. Ele quer que falemos apenas português.

quarta-feira, 18 de Novembro de 2009

O FARNEL DO KAÚIA

Em Calulo, na escola número três, ao Kassequel, Gonçalves da Silva era professor da primeira classe. Os alunos eram maioritariamente filhos de recuados (deslocados) da comuna de Kissongo e das redondezas, com domínio precário da língua que une o país, o português.

Gonçalves ensinava as ciências e a Língua da Nação. Estávamos no ano de 1988. A guerra apertava dia após dia. Os bens de consumo escasseavam e o lanche para os meninos, dias havia, semanas não, exceptuando-se aos filhos dos camaradas comissários e delegados municipais.

João Kaúia, de seu nome, aparentava oito anos e estava na primeira classe. Tinha um desafio duplo: aprender a língua que não sabia e enquadrar-se no seio dos demais colegas que o desdenhavam devido ao seu cantarolar que se parecia ao chilrear dos passarinhos. Parecia mesmo que imitava os pica-flores e os rabos-de-junco que cercavam a escola, naqueles tempos de voos fracassados do salalé. Porém, Kaúia era mais do que isso. Tinha saudades do amanhecer, das visitas às armadilhas e ratoeiras deixadas nas bermas das lavras e das pescas aos sábados e domingos, dias em que "não havia escola".

Na escola, enquanto se ensaiava nos primeiros termos da língua lusa, passava os recreios a solo ou em companhia de conterrâneos que com ele "kimbundavam" ao intervalo. Recordavam os idos tempos no Kissongo, ainda sem guerra, nem recuas, com fartura de mandioca, carne de caça e peixe no rio Kixikumuna. Kaúia e amigos viajavam, no intervalo, para a era dos bons tempos, do café madrugador da avó Kixibo, do milho assado da tia Kifunde e das brigas de afirmação que deixava os rapazes com a pele enrijecida e cheia de pequenas cicatrizes. Cada sinal no corpo tinha uma história. Eram essas histórias que cobriam o tempo de recreio.

Um dia, daqueles dias de muita ocupação do professor Goncha, em que era preciso passar a "pente fino" os cadernos, Kaúia adiantou-se na apresentação dos deveres ao professor. Era a forma de ganhar tempo para a repetição dos exercícios errados. Os primeiros a entregar os cadernos eram sempre os primeiros a recebê-los. Era já hora de recreio. Ao regressar à carteira, Kaúia enfia a mão debaixo da mesa e, debalde, nota que o seu farnel, um pedaço de bombó com ginguba, já lá não estavam. Os colegas tinham todos abandonado a sala e alguém se tinha aboletado do seu farnel.

Kaúia, banhado em lágrimas, queria explicar, mas palavras não tinha. O seu raciocínio era em Kimbundu que traduzia para o "pretuguês" em que engatinhava. Pensou explanar na língua que dominava, mas era proibida naquele recinto oficial. A língua da sua gente era apenas para o intervalo com os amigos da buala e na informalidade da aldeia da Banza de Calulo. Aflito, quase a fazer-se em pedaços, Kaúia encostou a metros da secretária do professor que, de óculos inclinados para os cadernos, simplesmente não ligava ao que se passava ao seu redor.

_ Camá pressor! chamava Kaúia.
_ Diga! Respondia o mestre.
_ Camá pressor,
_ Diga!
_ Camá pressor,
_ Diga!

À medida que o tempo passava, Kaúia mais se chateava da desatenção que lhe era brindada pelo mestre. O professor, por sua vez, julgando serem daquelas queixas miúdas, próprias dos alunos primários em tempo de intervalo, redobrava a atenção à correcção dos exercícios, até que o aluno reclamou:

- Oh! io uamba hanji digó-digó, mbomba iama anhana!*

* o mesmo que: OH! estás aí a dizer, diga, diga, o meu bombó foi roubado!

domingo, 8 de Novembro de 2009

REENCONTRO

O destino tinha-os separado desde a juventude vivida no Sete e Meio, ali no Cazenga. Fernando, Felito e Fifas são os nomes por que mais eram conhecidos na juventude e nas nguendas(1) iniciadas em simultâneo. Nos bilhetes de identidade a apresentação é outra e leva apelidos.


Agora aos quarenta, quis o destino que este lugar fechado, onde mais de cem almas enlatadas repartem com esforço o pouco ar que respiram, fosse o do reencontro.

_ Epá! Cheira a xulé(2) nesta merda pá! Porra, com esta gripe estou tramado!

A voz era de alguém conhecido. Apenas o busto é que não encontrava enquadramento na memória carregada de muitas memórias. Felito levantou a cara, olho no olho, e reconheceu uma marca no rosto de Fifas.

_ Meu avilo(3), meu! Comué? Sou o Felito. Como estás?

_ Fifas. Sou o Fifas. ‘stás gordo meu... Família, mulher e putos(4), quantos?

_ Estão bem, Fifas. Estou já no quarto kanuco (5).

No fundo do autocarro que soluçava aos buracos, Fernado, ou apenas Nando Gato, ouvia com nostalgia os retalhos de uma vida vivida em comum. Ele fora figurante principal das aventuras indolentes do trio. Os gatos de energia(6) com fios de um milímetro e que desafiavam a perícia dos técnicos da ETIRA.

_ Fifas, tens visto aquela malta(7) do Sete e Meio? O Ambrosito, o Carlitos de Catete, o Kitembo da Quibala e o Nando Gato...

De repente uma voz irrompe entre o silêncio traseiro do machimbombo.

_ Olhem avilos, estou aqui! Nando Gato, presente! Filho da dona Eva do Golungo Alto... Sete e Meio número quatro, Zengá...

Espanto total. Era assim que Fernando se apresentava desde a infância. Era ele mesmo. Os três amigos, naquele mesmo lugar, vinte anos depois, era maravilha!

_ Issunji, returcou uma velhota encostada à cadeira do motorista.

Nando, Fifas e Felito repartem a alegria que contagia os demais companheiros de viagem Viana/1º de Maio, em Luanda.

_ Comué, onde vivem vocês?, perguntou o Fifas.

_ Eu? ‘stou na Estalagem, aqui mesmo ao lado da cabina queimada de luz e vou ver a velha. Estive na tropa e regressei há dois anos. Fui levado à força num GMC em 1992, naquela mini paz, respondeu o Nando. E tu, kamba Felito?

_ Fui pescador. Vivia na Boa Vista, agora estou no Zango, onde nos atiraram...

_ E lá é fixe(8)? Indagou Felito, expectante. Tem energia? Nós cá na Kamadeira a luz está a nduta (9).

No Zango ‘stá-se mal. Dizem que vai melhorar, mas estamos a ver só. Por enquanto são os fofa-ndó(10) que nos acodem. Só a gasolina e que é subiu...

Felito e Fifas monopolizavam, por enquanto, o diálogo, perante uma ávida assistência que os rodeava. Outros assuntos do dia tinham deixado de ter validade. Até mesmo as zungueiras(11) deixaram de contar a novela do dia anterior que era tema central nas viagens de machimbombo. Fernando, recém-chegado à civilização, aguardava pela palavra que não tinha e abanava a cabeça seguindo o diálogo. Queria intrometer-se e fazer o triálogo, como fazia no antigamente, no Sete e Meio. Suas vivências recentes eram, porém, outras. Eram combates travados nas matas, nas chanas, carne em pedaços e outros horrores que, se calhar, os amigos sequer tinham ouvido falar. O seu disco rígido estava repleto de outros filmes duma vida vivida à força.

_ Epá, dizem que os chineses é que vão colocar a luz no Zango quando terminarem no Golfe, no Zengá e noutras bandas(12)... Nando conseguiu, finalmente, cortar a dualidade.

_ Hum, quem disse? É pura mentira! Esses muadiés(13) sabulam(14). Dizem que já desviaram o kumbú(15) dos chinocas para novas bandas onde estão os militantes do EU.

_ Mas isso é verdade? Intrometeu-se um espectador na conversa. Era o Bernabé, também ele residente no Zango. E nós que também somos militantes, mas estamos em minoria nos bairros?

_ Olha, vou levar o assunto ao camarada coordenador do bairro. Isso não pode ser, respondeu com o rosto franzido Felito, perante a anuência silenciosa de Nando.

A conversa ganhava novos contornos e novas intromissões, não fosse um candongueiro(16) que na manobra perigosa perdeu os travões e foi embater num pilar erguido por uma construtora. Era o fim do tema.

***
NO COMITÉ DO BAIRRO
A reunião começou com minutos de atraso, quase uma hora. O chefe tinha recebido orientações superiores para tarefas de importância capital. Falariam naquele dia sobre eleições, bandidagem e outros diversos.

Fifas já tinha planificado meter o assunto da energia na hora do debate da bandidagem. _ Não anda ela casada com a escuridão? Questionou-se.

O secretário atirou o corpo contra a cadeira mais alta, puxou uma garrafa de água e começou a pôr ordem na sala.

_ Viva fulano

_ Viva!

_ Viva o nosso partido

_ Viva!

_ Vivam para sempre os ensinamentos do saudoso Baltazar

_ Viva!

O secretário imprimia força e velocidade no discurso embora os vivas responsivos e o levantar dos braços denunciassem um aborrecimento.

Muenaxi, um cinquentão, ainda desafiou o secretário.
_ Fala só chefe. Vamos ao Bita ver se já há milho.

GLOSSÁRIO: 1- festa, convívio; 2- cheiro nauseabundo; 3- amigos; 4- filhos, menores; 5- o mesmo que filhos; 6- ligações anárquicas de energia eléctrica; 7- gente; 8- bom; 9- em fartura; 10- gerador de pequeno porte; 11- vendedeiras ambulantes; 12- paragens, localidades; 13- indivíduos; 14- falam à toa, mentem; 15- dinheiro; 16- taxista de Luanda

Autoria de Soberano Canhanga

quarta-feira, 4 de Novembro de 2009

CHAMAS E MARCHAS

A última grande caminhada de que se lembra foi há vinte anos, quando teve de, em três dias, percorrer mais de 150 quilómetros a pé. Desalojados pelos aliados angolanos dos carcamanos, pais e filhos, na altura ele menor, tiveram de refugiar-se na montanha da Quibuma e de lá partir para o "exílio". Calulo estava em chamas.

Sem água nem comida, sem roupas nem medicamentos para as feridas abertas por estilhaços duma granada, sem horizonte, apenas andar e afastar-se do ribombar de canhões e daquele cheiro cadavérico que os cercava. Apenas andar, caminhar, correr sem para atrás olhar, nem para o sangue que rompia as veias dos corpos torturados pelo susto e pelo sol do meio-dia.

− Será que ainda estou vivo, ou é um sonho? Me belisquem!, ordenou Manuel Kambuta.

Nos seus 14 anos, Kambuta era já um homem destemido. Travara muitas lutas com bandidos do México, em Luanda. E mesmo nas missões de militares adultos para o Kissongo e Luaty, estava sempre na primeira fila. Medo não era com ele, mas aquele dia, vigésimo sexto de Dezembro, era um caso ímpar. Kambuta cortava a mata cerrada com o mesmo ímpeto que os obuses lançados a partir do quartel das mangueirinhas, agora tomado de surpresa pela guerrilha. Andar no mato nunca fora problema para ele, não fosse aquele andar sem rumo, a fugir de quem não se sabia de onde vinha, nem por onde ainda podia estar escondido.

Depois de duas horas de convívio com canta-pedras, nas encostas da vila, Manuel Kambuta, o pai Kiala e a mãe Quiosa, puseram-se a caminho da Banza do Mussende. Entre palmares e cafezais foram revezando a picada com o asfalto serpenteante, evitando ao máximo o contacto visual, à distância, com pessoas de quem fugiam.

Dos irmãos mais velhos nada se sabia. O Sabino, que era sargento do LCB/FAPLA, tinha participado do combate perdido e escasseavam ainda dados sobre mortes e feridos. Os bandidos, de cujo aniquilamento se ocupava Sabino, tinham conseguido entrar, pilhar e incendiar a vila o máximo que puderam. Era o registo habitual das suas acções. O César, que era da ODP, terá tido a chance de fugir ou o azar de ter sido capturado durante o reconhecimento madrugador dos atacantes. O meu coração diz-me, entretanto, que o César fugiu porque, nos Kibides, ele era sempre o primeiro a escolher entre o mato e o morro, o que lhe custou a alcunha de Mato ou Morro. O André, coitado do kota André, era das BPV e naquele 24 de Dezembro como estar vigilante? Tinha tomado as suas canecas natalinas e o peso da kimanda (carabina) até lhe provocava incómodo. O caçula Bernabé foi atingido mortalmente e enterrado à pressa, a hora e meia. Uma bazuca se tinha apoderado da toca que repartia com o tio Chico e ambos estavam a ser chorados… apenas nos corações! Porque o vermelho do sangue ainda pintava as nossas mãos e forças não tínhamos para soltar a voz saudosa dos que partiram de forma inesperada.

As feridas expeliam ao máximo o sangue que podiam. Mussende estava à vista, pelo menos a elevação. Já se tinha remetido para trás o Km 5, o Kateculo, Kienha e outras aldeias que acompanham a negrura asfáltica que se desfaz em cursos de água, rumo à Munenga. Sem paixão, o sol rasgava os lábios. Riachos se tinham tornado em bocas de fogo. Apenas lagartos e outros rastejantes entre os rochosos leitos que um dia alimentaram vidas. Insectos voadores carregavam a lama para fabricar seus ninhos e dar vida a seus semelhantes. Aos gritos resmungavam os estômagos vazios. Nem bombó, nem coconote tínhamos podido apanhar. O destino era a Banza do Mussende, o lugar escolhido para parar e olhar o que se deixara na fuga. Era preciso lavar as mãos, chorar os mortos, contar quantos perfazia a coluna e traçar o rumo seguinte. Se o retorno ou o avanço para uma terra que os recebesse como mátria. Seria Luanda?

***
Todas as informações recebidas, transmitidas de boca em boca, com acréscimos e decréscimos de palavras e frases inteiras, apontavam para um caus em Calulo.

− Viram o mano Sabino? perguntou Manuel Kambuta a uma coluna que acabara de chegar ao Mussende.

− Epá! disseram-me que o sargento foi valente. Ainda conseguiu metralhar uns tantos fantoches, mas depois só teve mesmo é tempo de desmontar a agulha do ZG1 e meter-se a monte. Os filhos da puta vinham com muita força, reclamou Bala Icola, também ele um militar.

Na Banza fez-se um acampamento provisório. O comité, o soba e outros aldeões ofereciam o máximo de compaixão e meios de que dispunham. Ainda reinava a solidariedade, mas a vida pendia para o pior. Até os caroços de dendém escasseavam e as frutas silvestres eram disputadas entre homens e macacos. Era tanta gente e tanta necessidade. Procurava-se pelo que levar à boca, pelos desaparecidos, pelos sobreviventes e cura para os feridos, enquanto o choro para os que partiram aguardava melhor momento. Aliás, os mortos perante o cenário estavam num descanso menos pesaroso.

Foi nesse ambiente que Kambuta se alistou noutra coluna de jovens que decidiu chegar ao Dondo, pela marcha, percorrendo mais de cento e cinquenta quilómetros. Essa foi a última caminhada inesquecível de sua vida, pois até Luanda ainda teve tempo de apanhar o último comboio daquela era.

Vinte anos passados, Kambuta, já sem a mãe Quiosa, agora pedreiro, numa esferoviteira brasileira, rememora as grandes andanças. O patrão dá-lhe dinheiro para a passagem no táxi, sempre que o transporte para os empregados avaria, mas a chuva, as estradas por acabar e a nova lei contra a arruaça fazem com que se ande mais a pé do que de carros que nunca chegam a tempo.

Kambuta e Kakiezo, seu amigo de infância, levam cinco horas do Zango ao Benfica, em passo médio. Contornam curvas e charcos com mestria. Compensam curtas paragens com passos corridos. Conhecem o mapa do musseque melhor do que ninguém e nem mesmo a escuridão os engana. A lua, as estrelas e o sol fazem a vez do relógio. Numa mochila que carrega às costas, Kambuta coloca o desodorizante, os sapatos e uma camisa que vestirá a poucos metros da empresa, onde se vai juntar a outros colegas.

Na Obrasprimas ninguém pergunta a ninguém como chegou nem a que hora partiu de casa. O trabalho fala mais alto do que as condições de labor para um capataz de barriga cheia e farta calva.
− Cada um vira-se como pôde, desabafou o capataz Valdez.

É durante as pausas, entre um bloco e outro ou uma fiada e outra, que Kambuta vê perfilarem no pensamento as incontáveis pessoas que se fazem à estrada em busca do "pão burro" de cada dia. Apenas uma questão não entende e se calhar jamais entenderá.

- Por que há tantos carros e cada vez mais gente a caminhar?

E eu, o narrador, também nem resposta tenho!

Autoria de Soberano Canhanga