sexta-feira, 1 de novembro de 2019

BAZUCA PERDIDA (VIII)

A guerra civil estava no auge. As rusgas, os anúncios nas rádios sobre soldados tombados, capturados, velhas violadas, crianças mutiladas na fuga eram conversas do dia-a-dia e que nunca faltavam nas bichas nas lojas de qualquer coisa.
- Kalulu estava tomada pelo "inimigo". A vila tinha resistido durante setenta e duas horas, mas, sem apoio da aviação, nada mais havia por fazer. Era evacuar as mulheres, os velhos, os feridos, queimar o armamento que não dava para levar, desmontar as agulhas das armas e deixar os gajos entrar. - Era essa a conversa dos mais velhos.
Uns tinham sido já militares como o Sabalu Kambota, o Kiteta e o Kwanza e outros como o Pouca Sorte tinham conhecimento de guerra verdadeira vivida no terreno. Mas outros, guerra deles era só mesmo nos noticiários e nas conversas de kotas que voltavam de férias, feridos, evacuados ou que tinham fugido a tempo da vida militar.
Matoumorro era ainda kandenge e, embora apreciasse as estórias, compondo um filme imaginário, idade da tropa, para ele e Etelvino, ainda não tinha chegado.
- Depois de três dias nas mãos dos "inimigos", a vila de Kalulu seria finalmente recuperada. - Era o que a rádio e o jornal diziam.
Deixado o vilarejo de Munenga, quem sobe em direcção à Vila, ao descrever a Curva do Aníbal, a coluna descobriu que um grupo "inimigo"  preparava-se, junto de Lussussu, para ir reforçar os ocupantes de Kalulu que desconfiavam "poder ser regados pela aviação" ou ser atacados a partir da entrada da Ponte Filomena, à Kabuta.
- Ngandu!
- Chefe!
- Presta atenção e toma nota:  atirar há trinta quilómetros. Posição sul, latitude 14 graus e longitude 21 graus. Duas batatas. - Ordenou o comandante da Coluna de Libertação de Kalulu, saída de Luanda, o coronel Bonifácio.
Havia já cinco dias de movimento com paragens e avanços coordenados a partir do Estado-Maior General.
- Senhor coronel, só no dia D-1 se avistará com o comandante Kara Podre que está de momento a fazer pente na região à volta para impedir reagrupamentos de pequenas bolsas e reforço ao nosso alvo. O comandante Infeliz e a tropa que lhe sobrou dizem também que estão com moral elevada e prontos a integrar a CLK, no dia D-2. - A ordem do operador de rádio, às ordens do general Dilaji, indicava ainda uma paragem no campo da Eka e uma marcha de cinco quilómetros em direcção a Kazengu. Uma intromissão no sistema de comunicação inimiga seria feita apontando a progressão naquele sentido, ao que a coluna recuaria ao Alto Dondo e apanhar a EN 120 que conduz à Munenga e desta para o objectivo. A ordem dada ao coronel Boni rezava ainda:
- Efectuar paragem no horizonte C3/D-2 e integrar o efectivo recuado.
Ngandu, bússola à frente, mapa na mão, calculou a distância,  introduziu as coordenadas, soltou um curto  alarme e soltou um morteiro e mais outro. Apenas os soltou sem saber o que havia no destino.
- Bum! - Rebentou o primeiro no meio do aquartelamento precário.
- Bum! Rebentou outro com maior intensidade, pois calhou numa pedra plana que levou estilhaços de aço e de brita ao encontro da companhia de civis armados na aurora para irem "fazer barulho com disparos" ao lado dos homens do Man-Babas.
Ao segundo rebentamento, a  companhia ficou desfeita.
- Ai wé, ndifa! - Gritou o chefe atingido, provocando a dispersão  do povo-armado que voltaria às suas aldeias do makyakya e xilimina de todas as noites.
- Quando a morte te pode visitar a qualquer hora, todo o instante de vida deve ser festa. - Dizia-se pelas aldeias visitadas pela guerra e por isso, fosse em presença de forcas armadas do povo ou do inimigo, o povo comia o que conseguia, bebia se walende e fazia xilimina, folguedo com batuques e guitarras de fabrico artesanal.
Depois do lançamento das batatas, a Coluna de Libertação de Kalulu continuou a marcha. Infeliz,  Kara Podre e suas tropas, todos conhecedores da geografia e das aldeias com propensão para acolher e apoiar logisticamente a rebelião, já estavam integrados na CLK.
Enquanto os comandantes da região faziam o balanço e o ponto de situação no terreno, bem como confirmavam as cartas trazidas por Bonifácio, Ngandu apensava no que podia ser a consequência ou a perda material daquelas duas bazucas perdidas.
- Aonde foram? O que encontraram? E se uma tiver caído na kinda duma velhota a caminho da lavra? E se outra matar um boi, quem vai se aproveitar da carne? E se cair na lagoa de um rio, quem vai recolher o peixe? - Era a última paragem. Aproximava-se o Dia D.
...

terça-feira, 1 de outubro de 2019

BALAS CRUZADAS: E AGORA? (VII)

Quando chegou a febre do Hi5, Keci Mandumbu conheceu Fafá, sem que os nomes apontassem para alguma proximidade familiar. Kitumba Keci Mandumbu, como se apresentava na rede social substituída pelo facebook, nasceu e sempre viveu no Kwandu Kuvangu.
 
- Meu pai, andou por cá, nos tempos da guerra de Mavinga e Kwitu Kwanavale. Deixou-me, talvez, na barriga de minha mãe e com as confusões que se seguiram, eles nunca mais se encontraram. Nem telefone havia, naquele tempo e carta também não tinha destino certo nem portador. - Narrou, acrescentando acreditar que tenha perecido nas refregas do 23 de Março de 1987 ou nas guerras que vieram depois da mini-paz de Maio de noventa. - Minha mãe conta que ele era destemido. Nome dele era Sabalu e era infanteiro. Nada mais sei sobre ele e mesmo que apareça pouco ou nada acresceria à minha pobre vida, pois até sou mais conhecido por "Sem Família", que na nossa língua nativa é Keci Mandumbu.
- Meu pai também andou naquelas paragens como jornalista militar e conta várias cenas de combates que dizimaram muitas pessoas e desestruturam famílias.   
 
Fafá, a jovem, é de Luanda, entrou na casa dos dezoito e é filha de Pouca Sorte, o jornalista de mochila e arma.
Pouca Sorte e Sabalu eram primos. O Hi5 fê-los criar paixão um pelo outro, sem que soubessem do parentesco. Avançam ou param?

domingo, 1 de setembro de 2019

TIROS MADRUGADORES EM NHUNDU (VI)

Certo dia, a coluna militar de reabastecimento que progredia de Savate a Nhundu, na EN 140 paralela ao rio Kuvangu (Cubango na língua dos outros), teve de pernoitar. Andar com luzes acesas era dos maiores perigos, tendo em conta a vigilância dos "mirages" carcamanos. O comandante ordenou paragem, ocultação dos objectivos e dispersão. Fez as leitura das permissões e, sobretudo, das proibições.
- Não foguear, nem fumar. Não se movimentar de trás para frente. Atenção à senha e contra-senha. Atenção à voz de comando...
Os soldados que não conheciam a zona e os novos na coluna, como foi o caso de Pouca Sorte, foram aconselhados a sinalizarem o nascer e pôr-do-sol como possível orientação de posicionamento em caso de ataque.
É certo que "as FAPLA não dormiam" mas o inimigo atacou a coluna à madrugada e à distância, criando pânico na coluna motorizada da BTR.
- Bum, bum, bum. - Foram três bujardas apenas.
- Apenas? Você que nunca foi tropa de verdade diz apenas?
Toda a tropa acordou a dispara instintivamente a toa. As kalashenikov, sempre à mão, já estavam abastecidas e oleadas desde o momento da partida. O primeiro minuto foi de "fogo de presença e para medir força". Cada disparava aonde lhe pareciam terem saído aquelas "batatas". Depois surgiu o comandante a orientar o posicionamento táctico do fogo, em caso de necessidade de resposta ao inimigo.
Foram muitas balas disparadas. Muitas delas dispersas que poderão ter atingido alguém, um ser vivente com sangue ou simplesmente se enterrado na terra, numa árvore ou ainda na água abundante de rios caudalosos.
Pouca Sorte ficou a pensar noutras guerras mais prazerosas do que violentas que os soldados e jornalistas militares tiveram ao longo de uma vida inteira. Lembrou-se de seu primo Sabalu Kambota, militar da 108 brigada de infantaria e assalto. Contara-lhe, em carta, que tinha passado, mata-a-mata, pelo Lunge-Bungu, Longa, Luxazes, Kamanonge, Mavinga e Kwitu Kwanavale.
- Já depois de recebermos as medalhas dos cubanos pela defesa de Mavinga, e contençãodo inimigo e sua derrota no Kwitu Kwanavale começamos a sair do quartel para as bwalas disparar a arma encravada pela solidão nocturna de todos os dias. Foi assim que conheci uma pioneira filha de um criador de gado com a qual deixei um filho que dei nome do teu primo Kitumba. A vida de tropa tem dessas, meu primo. Uma dia, se a paz chegar e a estrada permitir, vamos lá recuperar a tua cunhada e o teu sobrinho. - Sabalu falava com nostalgia e decisão.
É pena que tenha morrido ingloriamente como civil desmobilizado e que a aldeia e o nome da mulher não tenham sido clarificados. Mas o Facebook ou outras técnicas que os homens gostam de parir ainda são esperança para recuperar Balas Perdidas..!

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

BALA PROVOCANTE (V)

Passaram-se trinta e picos anos. O último pingo tinha sido em 1983. De repente...
O quintal se transformou em cacimba. Água a vazar, a inundar...
Por que será?
Lembra-se daquela bala que se enterrou no chão? Encontrou alojamento na conduta que atravessa o quintal...

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segunda-feira, 1 de julho de 2019

"BALA PERDIDA" ESTÁ FORMADA (IV)

Bernardo Manuel, mão no touch screen do telefone, outra mão no queixo a travar a cabeça. De baixo do boné só pensamentos, a pensar com corrida pensamentos que lhe correm como água rápida do Longa caudaloso no Kabutu.
- Por que Avança avançou com minha descendência de grande parecência sem me avisar? Como lá chegar e como informar a dona Pancha? - Sozinho em casa, Pouca Sorte matutava. Na boca, ora cachimbo, ora katula mbinza para aliviar pensamentos.
Os da escola estavam quase a chegar. Menos a mulher, dona Pancha, que voltava às seis e meia da noite.
- Papá, aquela moça da foto, nome dela verdadeiro é Sputnika Tatiana Manuel. - Informou Faz Tudo, antes mesmo de jogar a mochila sobre o sofá.
- Como assim, Fafá? - Bernardo era único em casa que encontrara um diminutivo para Faz Tudo, um nome que tinha transposto o quintal e o convívio familiar. Era faz tudo p'ra cá e p'ra lá, até na escola. Fátima era só mesmo na hora da chamada escolar ou de viajar, no aeroporto.
- Sim papá. Teclei com ela. Mora mesmo em Luanda e é filha da coronel Avança, da Escola Superior de Guerra. Falei-lhe que quero ser militar como a mãe dela e ela mandou-me procurá-la se acompanhada do papá ou da mamã.
- Mas como é que chegaste a ela? Como? Como é que faço da minha vida?
O questionário de Pouca Sorte seria cortado pela chegada de Ricardo, o filho mais velho, acompanhado de Mendinho, o derradeiro.
- Comué, Bué de Sorte? Conseguiste nos dar uma irmã mais velha?! - Atirou Ricardo, troçando e abraçando o pai.
Faz Tudo tinha, como lhe era hábito, feito tudo. As buscas, o processamento de informações, a hierarquização e a distribuição à mãe e aos irmãos.
Pouca Sorte fingiu um sorriso desconfiado. Olhou para o relógio do telefone e recebeu a informação horária que apontava para a chegada iminente de dona Pancha. Foi à garrafeira e tomou um trago, mais um, mais outro. Katulambiza-das-ponteras, de Malanji, deslizava na garganta como água e coragem de enfrentar caralmente dona Pancha ou se acobardar na kapuka tardava.
Olho na porta, lho no telefone, olho na garrafa. Pouca Sorte, corpo na terra pensamento no ar. Era ao mesmo tempo homem e vento.
- Que direi à Pancha quando chegar? - Murmurou.
- Pum, pum, pum, pum. - Não tardou o bater à porta.
- Quenhê? - Indagou Pouca Sorte, desejoso de encontrar um buraco para se enterrar.
- Dona de casa. A senhora que manda aqui. - Era desse jeito que Pancha respondia quando o inquiridor fosse o marido ou o filho mais velho.
No abre-não-abre, Pouca Sorte ficou-se entre a saída da sala e o portão. Sem forças para caminhar, sentiu-se um papel sem peso.
- Ricardo?! Vai atender a mamã.
O jovem, 20 anos feitos, correu da cozinha à sala como bala.
- Esteja tranquilo, papá. Já preparámos a velha.
- Boa noite senhor Bernardo Manuel, "Muita Sorte". Sabes o que trouxe hoje para ti? Adivinha. - Saudou Pancha que não deu tempo para resposta, exibindo uma revista soviética dos anos oitenta. Era uma Sputnik, coincidentemente o nome da filha até então oculta involuntariamente.
- Lê a revista e prepara os teus filhos para receberem a irmã. Está registada com o teu sobrenome e já tem formação e lar. Sabes como é tratada em casa dela?
- Não, mulher!
Aié? Devias começar a investigar mais. É Bala, apesar de ser Sputnika Tatiana Manuel, no bilhete!

sábado, 1 de junho de 2019

DOIS PERDIDOS: E AGORA? (III)

Quando chegou a febre do Hi-5, Keci Mandumbu conheceu Fafá, sem que os nomes apontassem para alguma proximidade familiar. Kitumba Keci Mandumbu, como se apresentava na rede social substituída pelo facebook, nasceu e sempre viveu no Kwandu Kuvangu.
- Meu pai, andou por cá, nos tempos da guerra de Mavinga e Kwitu Kwanavale. Deixou-me, talvez, na barriga de minha mãe e com as confusões que se seguiram, eles nunca mais se encontraram. Nem telefone havia, naquele tempo e ...carta também não tinha destino certo nem portador. - Narrou, acrescentando acreditar que tenha perecido nas refregas do 23 de Março de 1987 ou nas guerras que vieram depois da mini-paz de Maio de noventa. - Minha mãe conta que ele era destemido. Nome dele era Sabalu e era infanteiro. Nada mais sei sobre ele e mesmo que apareça pouco ou nada acresceria à minha pobre vida, pois até sou mais conhecido por "Sem Família", que na nossa língua nativa é Keci Mandumbu.
- Meu pai também andou naquelas paragens como jornalista militar e conta várias cenas de combates que dizimaram muitas pessoas e desestruturam famílias.
Fafá, a jovem, é de Luanda, entrou na casa dos dezoito e é filha de Pouca Sorte, o jornalista de mochila e arma.
Pouca Sorte e Sabalu eram primos. O HI-5 fê-los criar paixão um pelo outro, sem que soubessem do parentesco. Avançam ou param?

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quarta-feira, 1 de maio de 2019

BALA ESCONDIDA (II)

- Xê, wi! Cuidado com a boca. Tu não sabes quem sou eu. Se abrires mais essa mandíbula, vô te bondar e vô te cumprir.
- Xê?! O quê? Te duvido. Achas que sou civil ou quê. Vamos se cumprir. Ou melhor, eu te bondo primeiro e te cumpro, sô meu cão de merda.
Já não era o inicio da briga. Era mesmo o meio da confrontação verbal, da troca de argumentos não muito convincentes, e, sobretudo, de músculos e adereços que se achavam à cintura....
Pouca Sorte estava ali ocasionalmente. De passagem para o culto nocturno em sua comunidade religiosa de proximidade que os metodistas designam Classe. Ao passar pelo beco, dois kangonyeros aqueciam os motores com fogo de artifício.
- Pá, pá, pá, pá. -Estoiravam as sementes submetidas a fogo, seguidas de um "passa o mambo" que Matengó, outro transeunte, entendeu ser ordem para desmonta.
- Porra! - Gritou Matengó. - Sou kwemba e já vi muito sangue, mô ndenge. Noutras vandas, já fatiguei muitos putos. Mas aqui, sei que são kandenges da banda.
- O quê, kota? Cuidado, vou te fatigá! - Atirou im dos muzangala, empunhando uma baioneta.
Matengó, mexicano puro, antigo craque no desmobta tia zaikô que se tornou pistoleiro na tropa em Kahama, Kwamato e Xangongo. So faltou-lhe entrar em Môngwa e Ndjiva. Matengó, mesmo desmobilizado da greguice e da tropa, não deixava créditos em mãos de estagiários.
- Porra, pá. Filho da puta! Vais me quê? Eu? Sacou da "sua esposa", a "Tt" que se achava já com a patilha desguarnecida e fez dois balázios a queima roupa.
- -Mãos no ar, filho da puta!
Um dos bandidos que lyambavam no beco pôs-se a fresco. Teve tempo de pular umas aduelas e correr sem norte. Parecia ter sido atingido, mas o disparo de Matengó foi só de controlo. O outro que tentou torrar farinha com o kota estava banhado de mijo.
- Me balaziaste, kota. Só brinquei contigo e me fatigaste já? Assim mesmo está bom, mô kota da banda.
Sem a argúcia que a liamba e a baioneta lhe conferiam inicialmente, Nguma teve de entregar o corpo ao deleite de Matengó que era considerado em todo o bairro do Mexico como "bom em porradar".
Pouca Sorte viu tudo aquilo. Parecia um filme. Desistiu do culto e foi a correr à casa. Felizmente, aquela bala disparada por Matengó se escondeu na terra húmida do Beco 3 do Kaputu. Não estava perdida e não daria a reclamação futura de um ser vivente, senão da conduta de água ausente em que ela se alojou.
Veremos no que dará quando o SMAE, empresa que cuida do abeberamento, reabrir as torneiras.
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segunda-feira, 1 de abril de 2019

BALA PERDIDA (I)

Pouca Sorte era um jornalista militar.
Naquele tempo de guerra apertada, a comer carne humana como porco no farelo, ir às frentes de combate para ver de perto o "ngongo-ya-mona-a-dyala" não era coisa para qualquer um.
Bernardo Manuel, seu nome de bilhete, já tinha sido das BPV e ODP, antes de se alistar nas FAPLA onde foi "transferido" para o periodismo pelos instrutores cubanos. A sua curiosidade aguçada em obter os porquês e a forma suave como arrumava as respostas que obtinha pela observação e fala dos "kwemba" levaram-no à tal "pouca sorte".
Para uns, ser desviado de tropa para jornalista era sorte grande. Porém, para ele e parentes, "jornalista dos tropas é tropa". Por isso, diziam "Bernardo é um pouca sorte", nome que lhe ficou colado ate hoje.
Numa dessas idas às zonas quentes de refregas animalescas, conheceu Avança, uma jovem militar bonita de meter os inimigos a se olharem sem disparar. É pena que não tenha sido fotografada no auge da sua beleza militar.
Conheceram-se numa noite de reabastecimento e de palavra e garfada farta. Com o passar do tempo, nas selvas de Savate, Avança e Pouca Sorte foram trocando uns olhares mais compenetrantes que não se ficaram por ali, até que um dia os seus corpos se tocaram até provocarem uma explosão.
Passou tempo. Muito tempo mesmo sem que Pouca Sorte soubesse das consequências daquele acto bom, de que não se lembra mais se houve ou não intermediação láctica.
As guerras mortíferas terminaram. Felizmente. Chegou o facebook a recordar guerras passadas e reencontrar caras do passado.
Nessas idas ao desconhecido, enquanto dedilhava, encontrou um rosto que lhe fez recordar os nove dias de Savate.
- Essa cara não é estranha. - Vozeirou alto, entre garfo e copo com amigos.
Vasculhou as fotos. Era uma jovem nos seus 30 anos. Avança? Não pode ser. Terá agora 50 anos como eu. Mas a cara é muito parecida. Aguçou a curiosidade e alcançou o ciclo de amizades e as fotos familiares.
Encontrou a imagem de uma mulher fardada, carnes fartas a congestionarem o verde-cinza-malhado que chamava de "coreana". Saltou -lhe o coração.
- É ela. Avança. Deve ser mãe da moça. Só pode ser.
Abandonou o amistoso em que se encontrava com os amigos e foi à casa contar aos filhos o achado.
- Sabem quem descobri hoje?
- Não. Conta, papá. - Pediram os filhos.
Mostrou a foto da mulher-militar, aquilo que ele aconselhava que a filha do meio, a "Faz Tudo", fosse.
Repararam nos detalhes da senhora que em 1984 travava valentemente ventos de morte ao lado de homens que choravam ao sopro de bala.
- Era dama corajosa, papá. - Atestou Faz Tudo.
Encorajado, Pouca Sorte mergulhou nas fotos baixadas no perfil de Avança. Avançou mostrando uma a uma até aparecer a da jovem aparente filha de Avança.
- E essa, quem é, papá?
- Deve ser filha dela. Repara nos traços. A tez, as maçãs do rosto quando ri. Conheci bem a Avança...
- O papá já reparou nos olhos e no nariz da moça? Deve ser nossa irmã. - Faz Tudo desse-lo de forma tão convicta e séria que o coração de Pouca Sorte se aproximou à boca.
- Vossa irmã? Como assim?
- Repara bem, papá. Repara. - Insistiu Faz Tudo, a "Tropa de Casa", como também é carinhosamente tratada.
Pouca Sorte recuou no tempo. Vieram-lhe à memoria os nove dias de Savate e os 12 dias em Nancova, sempre próximos ele e Avança. Cada dia mais próximos avançando-se com Avança. Baixou a cabeça e balbuciou qualquer coisa.
- Só pode ser consequência de Bala Perdida!

sexta-feira, 1 de março de 2019

VULAMA DE 5 ANOS

O frio de kasimbu (cacimbo) e o vento oeste-leste a quebrar o capim denso da savana e a recolher as folhas secas dos arbustos faziam, naquela manha de sol envergonhado, as pessoas se "amontoarem em grupinhos para se emprestarem calor. Alguns homens, sobretudo os fumadores, encontravam no cigarro autênticos elevadores térmicos. As mulheres sem samarras ou casacos elevavam acima das vestimentas os panos que, normalmente, usam como reserva facilitadora para manobras de satisfação de necessidades fisiológicas em terrenos sem os necessários lavabos.
Nas casas de "ciwnda", nos bairros da cidade e nas repartições publicas ou das poucas empresas privadas o ambiente friorento e de aproximação, quase que íntima, entre as pessoas, indistintamente do sexo, era o mesmo.
No aeroporto Deolinda Rodrigues, a conversa entre Lawa, Lamba e Walya, colegas de serviços distintos, era sobre pessoas que se instalavam na cidade fundada por Henrique Carvalho, sobre os emigrantes e sobre aqueles que, sendo "akwakwiza", findavam as suas missões de serviço àquela terra.
- Mwata Kamanga kaneza. - Disse Walya.
(O senhor Kamanga está a chegar)
- Sério? - Perguntou Lamba, quase admirada pelo que ouvira da amiga, pois o dito cujo era conhecido de ambas e se fazia ausente do seu convívio havia perto de cinco anos.
- Yá. Lhe vi mesmo com aquele chapéu dele que tem marca dele de fumar cachimbo.
- Mas veio, então pra voltar de novo e ficar ou veio só de visita?
A conversa entre Walya e Lamba ganhou o apimento de Lawa que entre elas fora a mais próxima do dito cujo com quem partilhava experiência profissional.
- Vocês sabiam que há "vulamisa" que actua de imediato, outro que faz um ano e ainda o que actua só depois de cinco? Há quanto tempo o mwata Kamanga deixou Sawlimbu? - Questionou Lamba às amigas.
- Quatro ou cinco anos. - Respondeu Lamba.
- Viram a kamala dele? Pessoa que viaja e que não tem mais casa aqui vem assim, só kamalita de mão? - Atirou novamente, provocadora, Walya.
- Também estou a achar um pouco estranho. Retorquiu Lamba Lyeza, acompanhada gestualmente por Walya.
- Pois é. Apontem só nos vossos corações. - Acresceu Lawa. - Assim mesmo que veio com essa kamalita é para ficar. Homem que lhe dão vulamisa de 5 anos, manda já comprar as coisas, e quando vem de volta ao sitio em que lhe amarraram o coração é tipo rapaz que sai de casa para ir jogar à bola. É só quedes nos pés e mais nada. Controlem agora em que casa vai entrar.
Lamba Lyeza e Walya Zoloka ficaram ainda a pensar no alcance da última tirada da amiga dos serviços de informação enquanto essa, cultora de conversas cabeludas, montou a sua mota-rápida, fazendo-se à cidade para seguir a viatura que transportava o tão famoso mwata. Pelo trajecto, Lawa ia anunciando às outras amigas, via sms, a notícia do dia.
- Mwata Kamanga kaneza. Lhe deram vulamisa de cinco anos. Lhe controlem onde vai entrar!
Notas:
- Vulama ou vulamisa é a expressão atribuída, no nordeste angolano, a supostos remédios que, uma vez administrados por uma concubina a um forasteiro, fazem-no esquecer a procedência e família.
- Ciwnda=aldeia rural; akwakwiza=forasteiros; mwata=senhor; kamala/kamalita=diminutivo de mala.
- Qualquer semelhança com facto ou nome real é, neste caso, mera coincidência.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

PESSOA MON'ADYALA Ô 'AMUHATU?

Conta-se, geralmente entre os mais velhos, iminentes bibliotecas vivas, que: Certa vez, ao tempo em que as autoridades tradicionais eram obrigadas a recrutar, entre os seus, pessoal activo (jovens e adolescentes de ambos sexos) para os levar ao posto colonial (administração), de onde os fazendeiros e serviços públicos iriam escolher "mão-de-obra" semi-escrava (pesudo-contratos) para as suas empreitadas, um soba, cumprindo a orientação que recebera do Posto levou os seus (filhos e sobrinhos incluídos) ao administrador comunal para evitar represálias. Chegado ao local, o administrador, um semi-analfabeto, barbudo e barrigundo, vira-se ao régulo e pergunta:
- Ove lá, ó preto! Quantas pessoas trouxeste?
Atónito, velho Kikundu, olhos apenas na palmatória com se se esborrachava as mãos dos sobas faltosos, nem mais atenção prestou á pergunta. Pensando ele que "Pessoa" fosse nome de alguém, e que se lhe tivessem perguntado onde estava o Pessoa, meteu-se aos prantos, temendo pela reprimenda.
- Pessoa nãe. Mona a dyala ô mona a muhatu? (Quem é Pessoa? É homem ou mulher?) - Indagou entre os seus, sem que resposta alguma lhe fosse também dada .
Bangão e maldoso, lá veio, de novo, o chefe de Posto.
- Ove lá ó preto! Não me consegues dizer quantos patrícios trouxeste sem que o verdugo do capataz te suba às costas?
E não se fez demorar o "grito" da palmatória para o choro inocente daquele homo angolensis.
Velho Kikundu foi devolvido à sua aldeia com as mãos inflamadas, enquanto os desafortunados aldeões levados à renda dos que já lá sofriam ano e meio seria recolhidos para uma "tonga" onde o chicote assobiava de hora em hora em costas nuas, onde a sede se escondia medrosa no suor do labor e onde o peixe e fuba podres eram luxo na hora da fome.
Noutro dia, já na tonga, a empreitada era escavar uma montanha para nela fazer passar o tractor. Homens "destratados" foram mobilizados. A fila chegava a meio quilômetro. Maior mobilização, para uma só tarefa não havia, registo. Sete dias era o tempo expectado pelo patrão-aldrabão. Fuba: um saco. Feijão, meio saco. Peixe seco do Tômbwa: Meia caixa.
Capataz recebeu sem reclamar. No terreno, dia e meio, racção minguou... Quem vai pedir reforço?
- Vai o capataz. - Disseram todos.
- Nem que me matem.- Retorquiu ele receoso da brutamontisse daquele colono branco.
Um jovem, dezanove anos na imaginação do narrador. Saiu do fundo e colocou-se a diante.
- Ki kapataji ketele, eme ngyako (se o capataz não quer eu vou falar com o branco)!
- Eye, wiñana iki (você, um simples macaco no entendimento do branco?)
- Ngyako.- Insistiu disposto.
Uns já afiavam catanas e flechas para suprir a carência com recolecção. Vida humana emprestada a meros viventes, abaixo de javali.
Katako, de sua graça, lá se meteu a caminho da residência senhoril.
- Ses(s)a, phatalá! Nzangi yeli eji njila ijikuka mas subha é pocu!
(Dê-me licença patrão. A malta mandou transmitir que o caminho será aberto mais a fuba é pouca).
O patrão, nem uma nem duas. ficou-se pelo "diga-lá/repita-lá".
Katako, letra a letra, a mesma mensagem com a mesma entoação e vigor.
- Ó criado?! - Chamou Costa Curta ao doméstico embrenhado em tarefas domiciliares para interpretar e traduzir no seu "Pretuguês".
- Faló assi: caminho estó abrir, mas fuba co pexi nú chegó.
Hora depois, voltava Katako acompanhado de um serviçal, carregando reforço alimentar. Foi alí mesmo, e sem mais anuência do patrão, elevado à categoria de capataz. O medrica teve de se entregar à fúria dos jacarés no rio Longa.

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

NGOMA E KISAKA

Nasceu Xoxombo. A escola nomeou-o António Silva. Sabe-se lá, por que carga d'água, na adolescência e toda juventude que não viveu completa, ficou mais conhecido pelo nome de nascença. Xoxombo na escola, na aldeia e até n’outras andança pouco conseguidas.

Desde pequeno se revelou inteligente, regatado e pouco dado a traquinices. Não era como o seu puto Sabalu-a-Soba, galão galanteador. Os atributos de XOXOMBO fizeram com que, a entrar para os "meses do acordo de Alvor", que se seguiu ao golpe militar na ‘metroia’, tivesse já a sua quarta classe, do tempo colonial e não doutro tempo qualquer, bem feitinha. Contava uns doze ou treze anos, algo incomum, naquele tempo, sobretudo para um filho de negro contratado, ainda mais filho de um simples tractorista que evoluiu para camionista de patrão alemão.

 Xoxombo estudou mais. Mas, mais e mais, a vida lhe foi agreste. Chegou a guerra pós-independência e teve de empregar-se como professor brigadista da "Comandante Dangereux", ‘combatente da linha de frente’, isento, por dois anos, do serviço militar obrigatório. Aos vinte anos, estava em Luanda, capital de sonho de todo jovem do interior. Era a forma de evitar a farda militar.

No ano em que não lhe foi renovada a licença professoral, teve de voltar à aldeia de Munenga, onde a ausência de "quadros" permitia o ingresso imediato na educação. Contava já uns anitos acima do vigésimo. Sempre jovem polido, trato fino, modos requintados e um português com sotaque saxônico, aprendido dos alemães em cuja casa o pai trabalhava e ele crescera. Xoxombo era, aos olhos das mocitas ardentes de desejos pecaminosos um ‘virgem por deflorar’.

- Mano Xoxombo num me paquera só por cá di quiê?- Questionavam-se sedentas e sedutoras aos olhos cegos de Xoxombo. Só livros. Só debates, só prosa. Xoxombo para as moças, um invisual.

 À roda, no folclore do bairro, à sexta à noite ou noutro dia qualquer luarento, a música era vezeira:

 - Wombela, Wombela, Xoxombo wombela; Xoxombo nange, nange kate okyo wombela.
- Nange, nange, kate okyo wombela; Xoxombo nange, nange kate okyo Wombela!

 Felicidade alheia, tristeza sua. António Silva, o mais culto do vilarejo, afogava as mágoas em destilados etílicos que o levavam a fermentar força de rinoceronte na profundidade das águas do Longa, rio de sua natalidade umbilical. E Xoxombo, já sem o pudor da educação do berço, sem mais o comedimento urbano que muito cultivou, sem mais a paciência que aprendera com os missionários, saia em defesa de sua "dama desonrada". Chamava uns tantos impropérios aos que com gargantas ressequidas continuavam cantarolando. Até que que rouco, como as que o insultavam procurando por uma reacção mais erótica, se cansava e ao quarto, no silêncio da cama solitária, se escondia meio satisfeito e meio envergonhado, ouvindo aquele coro que com o tempo deixaria de ser chacota.

 - Nange, nange, Xoxombo wombela; Xoxombo nange, nange kate kyo wombela!

 (de tanto "secar", Xoxombo-nome masculino- teve de infiltrar-se de soslaio na "kandumba" ou caserna, onde os rapazes mais espevitados de sua idade costumam deleitar-se, à calada da noite, da quentura prazerosa de suas musas).

O terreiro em que se canta é um espaço mais largo, entre várias casotas que variam entre o adobe cru e pau-a-pique, cobertas umas de zinco já acastanhado pelas incontáveis chuvas e calor, outras com colmos de capim que fumegam as nascer e por do sol ofuscado pelo nevoeiro. O chão parece cimentado, de tanto rebatido que está o solo másculo. O folclore é de sempre e já vai na quinta geração. Apenas os executantes é que se revelam de década em década ou mesmo, nos dias que correm, de quinquénio em quinquénio.

Machos, de mostrar o punho e medricas de esconder a espada sempre houve na vida das comunidades. Canções que mantêm a melodia e inovam a letra também. Essa é apenas mais uma. E o sortudo(?) é António Silva, Xoxombo, o professor de feliz memória.

- Wombela, wombela, Xoxombo wombela; Xoxombo nange, nange kate okyo Wombela.
- Nange, nange, kate okyo wombela; Xoxombo nange, nange kate okyo wombela!

A roda progressiva em que dançavam tinha no centro o tocador de ngoma e, à cabeça, a tocadora de kisaka "chocalho". De tão exímios que eram, os maestros  pareciam apenas transmitir aos instrumentos, ngoma e kisaka, sinais recebidos do além. Dizia-se que “tocavam com a sabedoria de seus avoengos já há muito nos ‘malombe’”. Era ritmo e cadência nunca vistos antes.

De repente, o círculo pequeno, no início, abriu-se. Cinco metros de raio e dez de diâmetro a engolir a aldeia toda. Man-Kibyona, afamado trapaceiro, diferente do comedido Xoxombo, meteu-se na dança. Antes, tinha ficado encostado a uma parede a apreciar as dançantes, a comê-las com os olhos. Quando se meteu na roda, as mulheres mais avisadas endireitaram o pudor. A cada aproximação do Man-Kibyona as damas aceleravam o passo para deixar distância à recta-guarda ou davam passo à direita. Isso contribuía também para o alargamento do círculo e a entrada na roda de mais rapazes e raparigas, todos acordadas pelo roncar da ngoma, farfalhar íntimo da kisaka e vozes melodiosas espalhadas pelo vento.

Os passos eram cadenciados, curtos e rápidos, às vezes. Dois ou três à frente e menor número para trás. Não se atropelavam. Os pés estavam poeirentos mas não eram pisadelas. Era a participação do solo naquele convívio dançante e repleto de emoção. E, em solilóquio, Xoxombo tudo ouvia e tudo consentia. Os galanteios e os desvaneios.
 -Wombela, Wombela, Xoxombo wombele; Xoxombo nange, nange kate okyo wombela!

Um dia sentiu vontade. A coragem terá sido mais forte do que ele fora até à data. Imaginou um quimone apertado, desenhando a mamália. Uns panos riscados e lindos mal amarrados à mbunda que se desprendem do corpo no caminho da dança em que ele era o tocador único de ngoma e ela a tocadora e cantora única de kisaka. Fez do sonho verdade. Ao quinto mês, Kamone era já mulher feita. Nos folguedos com ngoma já o seu dançar era com requinte e discrição. E a chacota encontrou outro personagem.

Publicado pelo Jornal Cultura a 08 de Outubro de 2018

sábado, 1 de dezembro de 2018

ÓBITO NO EKOVONGO

- Mano André, "nó" serve "ansim". Todas as partes boas da galinha é p'ra ti e os outros, que até contribuíram no óbito, vão se lamber só nos dedos e partir ossos? Na hora da contribuição ainda o mano estava a se esconder entre as mulheres, a fingir lágrimas que não vimos. - Desabafou audível a prima Miquilina que fora avisada por uma sobrinha sobre o comportamento incivilizado de um tio.
Ekovongo é a aldeia mãe do Kwitu, capital do Vye (olongombe vye). Dizem que "o branco, quando veio do Putu, com Silva (do) Porto à cabeça, primeiro ficou no Ekovongo e depois é que foi para a urbanidade criada pelo Silva".
A embala estava em óbito. Pessoa grande, de respeito na aldeia, na "kacidade" de Kwitu e na "kicidade" de Loanda, onde quem lá brilha, na embala é tipo sol.

O finado Ekofika fez-se homem entre Ekovongo, missão de Kamundongo onde estudou bem, Kwitu onde trabalhou e Loanda onde se reformou a constituiu bens. Mas o óbito foi levado mesmo (pela menos na imaginação) à aldeia natal.
Partiu numa terça-feira de sol envergonhado, depois de muito bregar para adiar a morte. Filhos, sobrinhos, primos, amigos de todos os tempos, todos procuraram tê-lo mais tempo em vida e, por isso, ajudaram nas contribuições. Ekofika foi buscar saúde ao estrangeiro, à faca se submeteu, mas, em vão. Pariu mesmo.

- Quando Jesus te chama, você pode mesmo ir "no" melhor professor dos médicos, os anjos não te largam. - Dizia-se eufemisticamente para aliviar a dor dos filhos e da família próxima.
- Mas o mano Ekofika combateu um bom combate. Assim, a oração "venha agora o teu reino e seja feita a tua vontade", que temos orando na IECA, foi mesmo cumprida. - Desabafou outro presente também condoído.
Mano André, do prato cheio, estava ainda calado, quando essas cenas todas começaram a ser narradas. Para ele, trabalho no óbito era apenas controlar a logística e encher a pança de boa cabidela e bom vinho.
- Comigo, é médico mesmo que me disse, vinho só tinto de garrafa. Pacote "nó" entra, nem "ngalinha" da loja. - Dizia, a mostrar os dentes todos na boca.

 Se cá fora eram tertúlias, contribuições para alimentar e dar de beber às visitas, lá dentro, com a coitada da viúva, também havia trabalho. As civendji (tchivendji), senhoras que fazem companhia à viúva, tinham a missão de a distrair e com ela chorarem à chegada de um familiar próximo ou amigo importante do de cujus. Imaginavam momentos passados com o falecido Ekofika, para puxar compaixão e lágrimas, e atiravam uma expressão de todos conhecida.
- E agora, mano fulano, o Ekofika nos deixou. Twasala ulika!
 
Outras civendji que não tinham convivido o suficiente com o finado recordavam seus entes partidos há muito e soltavam, à memória, choros acompanhados, às vezes, de lágrimas fartas. Ser civendji não é "fácii", diria a minha sogra Buenos Aires.
Ao sétimo dia, as civendji são libertadas, em parte. Confinadas ao quarto da viúva, durante aquele período, são finalmente alimentadas abundantemente. Servem-lhes, por isso, bebidas e carne (aquela que sobra dos comensais, não restos, não senhor!), dão-se-lhes passagem e se dispersam, ficando apenas duas ou três, as mais chegadas à viúva, para fazer-lhe companhia nos dias vindouros, até se colocar perante facto consumado e se reerguer para a nova vida sem o companheiro.
Segue-se a reunião familiar. Filhos de todas as "cavalarias" são chamados a participar. Quem não estiver, "ngongo yaye". Descreve-se aos participantes o ambiente que circunscreveu e levou à morte o finado, no caso o mano Ekofika. Contam-se os bens materiais e imateriais produzidos (com sua ndona) e deixados pelo de cujus. Enumeram-se as dívidas contraídas e por saldar. Os credores são chamados para se pronunciarem e reclamarem dos haveres. Uns preferem perdoar os valores ou bens por receber. Às vezes, até mesmo o adversário inveterado faz-se amigo. Acabou o campeonato! Apresentam-se as contribuições recebidas para os gastos durante o nojo, sobras, etc. É assim no Ekovongo. É assim entre os ovimbundu.

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

CORRIDA DE JANTE


Enquanto a idade de montar numa Belita ou Caloy 28 não chegava, o sonho circunscrevia-se a ver a "bina" decomposta e herdar uma ou senão mesmo as duas jantes. A jante personificava tudo: a bicicleta, a motorizada e até mesmo o tractor ou o carro. Por isso, enquanto corríamos atrás da jante verbalizávamos um som onomatopeico de equipamento a motor movido a combustível. E correr atrás de jante, com um caniço como volante que empurrava o meio, tanto podia dar alegria nos concursos realizados com os amigos da aldeia como podia custar dolorosas reprimendas das mães de mãos leves às queixas da vizinhança.
- Andar a correr pela estrada, com tantos carros, é perigoso. Você já não ouve por quê, kokolo dyami?
Seguia-se o puxão de orelhas e o choro só para pedir clemência e sair a correr na próxima oportunidade.
- Mana Maria, esse miúdo parece é borracha ou carne do mataku. Você fala não ouve. Pessoa com raiva bate e menino nem chora. Assim "lhe" faço ainda "comué"? mana me dá ideia.
- Joaninha, "lhe" deixa só assim. Um dia vais "lhe" matar por engano, na hora da porrada. Se não estás a "lhe" conseguir, "lhe" leva no pai dele.
- É, mana. Vou mesmo seguir teu conselho. Kimbito lhe "desconsegui". Vai só me trazer azar.
Enquanto as mamãs punham conversa em dia, para a garotada era corrida de jantes ou pneus e ir à caça de kiberra, uns gafanhotos verdes e compridos, que eram amarrados a linhas finas e longas, deleitando a criançada com os seus voos rápidos e curtos.
A jante, porém, tanto fazia sofrer como servia de mimo "na hora de filho querido", sobretudo naqueles dias em que se devia levar um recado urgente à tia próxima ou mesmo ir ao mercado comprar o emergencial em falta.
- Kimbito, meu filho de homem, vem cá kasule!
- Mamã!
- Vem. Vai "na" tia fulana, "lhe" fala mamã vai trançar o cabelo às cinco e meia da tarde. Vai, filho corre e não demora. Leva a jante.
- Mamã "num mi" bateu há pouco por causa da jante?
- Filho vai só. Quando a mamã te bate é para cresceres.
Será? Mas íamos empolgados. Correr autorizado atrás da jante sabia à dádiva.
Grande esperteza das mães daquele tempo. Para realizar tarefas urgentes davam a jante. Para brincar com os amigos era perigoso!
Mas lá estávamos nós. Uns com as suas jantes e outros com os pneus recuperados de recauchutagens.
Sempre correndo até que a puberdade rendeu os tempos de undenge. Para novas corridas, surgiram as ilumba.
- Moça, quero falar contigo uma coisa muito séria. Vou procurar-te às vinte e trinta, na hora em que o teu pai  assiste ao telejornal. Serás assim: tipo estou a passar, vou riscar no vosso portão e tu sais. Combinado?
- Sim, Manelito.
Na hora acordada, Manelito, caderno de improviso na mão. Se aparecer o pai ou a mãe da Kavunji apresenta o caderno.
- Boa note, Tio Martins. Desculpe, pedi o caderno para copiar a matéria de Biologia e vim já devolver.
Quando a Kavunji sai sem ser vista, o truque é uma perna no beco e outra perna no quintal. Para Manelito, os quedes devem estar sempre bem atados e pernas afinadas para a corrida e contornar o beco escuro.
- Manelito fala rápido, assim mesmo, a minha mãe já está a me procurar e pode sair.
Manelito sem jeito, bate uma mão sobre a outra cerrada. Puxa conversa de encher saco: aula de História, Química e Física. Nunca de Biologia e Anatomia que é seu engodo. E o tempo passa. Mais um dia sem a Kavunji que fica apenas para o sonho no escuro do quarto sem lâmpada ou com lâmpada sem energia. E sonha jurando amor a Kavunji.
Chega a juventude. Árdua e responsável com outras pressas. Com ela a vida Kwemba... Melhor foi o tempo da jante!

Publicado pelo Jornal Cultura de 24.Out. 2017

sábado, 1 de setembro de 2018

ANTIGAMENTE NO RANGEL

 
O tambor, uma lata de leite de qualquer marca, agredido por um ferro ou uma pedra, gritava ao máximo de sua força. Pá-pá-pá-pá.
Atrás do som, uma, duas ou três senhoras, lábios secos e pés empoeirados de tanto gritar e caminhar, soltavam um coro, alegre para a nossa inocência de tundenge e preocupante para as mamães que podiam estar naquela situação um dia, a contar com as nossas travessuras e o seguidismo ao Mam-Brás, ao cavalo-tica-tica, e, sobretudo no tempo de carnaval. Essas as mamães confirmavam antes a presença dos seus tumbonga é prestavam-se em passar informação e pedir detalhes sobre o garoto ou garota desaparecida.
- Pá-pá-pá... O gritar intrépido da lata já ampliada ia, deixando rasto na rua varrida manhã cedo pelas mamães. Cada uma atacava o seu lado. Lixo tinha lugar, o balde, no quintal, e depois o depósito com ou sem contentor.
Atrás do barulho da lata, ou quase em simultâneo, a manhã aflita e suas companheiras gritavam, quase já sem força. Apenas esperança em reencontrar o filho amado.
- Nanyi wa ngi bongela kambonga Ka dyaléééé? É a lata tambor continuava Batucando.
É esse o Rangel do meu tempo, século passado, quarenta anos.
E o som, as trambiquices, as magoelas na carroça do carro do vizinho ou dum visitante qualquer, as pescarias de "bagudas" na vala Senado da Câmara, junto ao Catetão, as cercanias da DTA para apanhar loiça descartável já descartada, os pinos na Chicala e ou na praia do Mbungu, as castanhas de caju que só o comboio permitia chegar ao quilómetro trinta de Viana, tudo isso ainda no ouvido e na memória.
- Vocês, estão a ouvir n'é? É melhor tomarem cuidado. Se calhar quem se perdeu é vosso amigo da bola ou de brincadeiras. Quando mamã fala não sai é mesmo para não sair.
Qualquer vizinha era tia. Era mamã no aconselhar, repreender se necessário e acarinhar quando injuriado. 
- Filho 'lheio tem 'mbora razão dele. Pra quê só fazer no filho da outra quando você também tem kambonga? - Acudiam.
Hoje, com escolas do povo, colégios privados, ATL e creches para todos os bolsos, media e redes sociais para todos, nem o pregão que procura o filho desaparecido, nem as brincadeiras são as mesmas. Tudo mudou. Até as razões das desaparições dos meninos. Hoje a atenção redobrada é com raptores de menores. Porque a TV os jogos, as escolas e os quintais murados feitos prisões já não as leva tanto a caçar gafas, apanhar peixinhos para guardar em aquário de garrafão cortado, nadar inocente no perigo da Chicala e Mbungu ou pendurar-se ao comboio para chegar à fonte de castanhas de caju. São outros os males e os remédios também!

Texto publicado pelo Jornal Cultura/2018

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

OS DESISTENTES, OS FALTOSOS E OS TRANCADORES

 Mangodinho, crente de sua igreja desde pequeno, dez anos acabados de fazer, naquele ano que precedeu o centenário do "nossa igreja come mbora cem anos cem parar", há bons meses que não pisava o pé no templo, embora se considere e se gabe a todos os ventos "crente confesso". Em andanças profissionais, cruzou com Adão Kalongo de quem recebeu crítica aberta e construtiva de um amigo e coetâneo, embora frequentando outra "paróquia", queixando-se de suas ausências prolongadas aos cultos. Para persuadir o amigo, Adão  exemplificou um caso de "alguém que trocou de confissão religiosa, já em fase avançada de idade, sendo que no funeral apareceram menos de vinte pessoas".
- Já viste, Mangodinho? - Prosseguiu Adão. - Os amigos, contemporâneos e tudo, na igreja, também contam. Se ele não tivesse desistido, teria recebido toda a graça no último dia. Pensa bem.
- Compadre, não sou desistente. Apenas faltoso. Tu que és professor, analisa bem a situação do desiste que pode ou não procurar "outra escola" e do faltoso que tem direito a exame especial ou recurso. Eu nunca saí e jamais sairei. - Defendeu-se prometendo que seria visto no domingo que vem.
Sete dias depois realizou a promessa. Prometido e feito. Mangodinho, para não dar nas vistas e evitar saudações com sabor a cobranças, preferiu o penúltimo banco. Penúltimo porque nem o antepenúltimo e nem o último estavam ocupados. Apenas seria visto na hora do ofertório e de saída.
- Se o indivíduo vem é destaque. Se não vem também é notícia. É preciso ficar na penumbra e executar a retirada estratégica, sem dar nas vistas. Eles vão comentar. Depois tudo se ajusta, naturalmente. Aqui é como nos óbitos, o indivíduo não anuncia que vai. Ao sair também não precisa despedir. - Monologou.
Mas quando fazia a última curva, já hora de saída, as atenções estavam voltadas para ele. Fora, em tempos ainda de juventude plena, um dos incontornáveis daquele templo.
- Irmão Mangodinho, boa tarde e bom regresso à sua casa. Por ventura, veio visitar-nos ou veio, desta vez, para ficar? - Indagou irónico um coetâneo de boa amizade mas poucos reencontros.
- Boa tarde irmão Noé. Nunca desisti. Pense nas quatro condições de estudantes que temos: o que frequenta assídua e pontualmente as aulas, o faltoso intermitente, o desistente que já não virá mais e aquele que trancou a matrícula. Eu, irmão Noé, nunca desisti. Tenho direito a recurso e exame especial!- Defendeu-se argucioso.
Noé, ainda a pensar no que acabara de ouvir, puxou os olhos para outro lugar, momento que o irmão Godinho aproveitou, com destreza, para pôr o ngimbu e o pé a fazerem parelha.

Texto publicado pelo jornal Nova Gazeta, Junho 2018