domingo, 1 de março de 2026

MATEUS 5:25

[In: O gajo do pastor]

Era domingo. Segundo domingo do mês terceiro. O edifício de cultos, também conhecido como templo, pertencente à Igreja Pastor Murras – IPM – estava em reabilitação física. Era tempo de carências sociais. Faltava dinheiro às famílias para atender problemas de saúde, falta de empregos, pagamento ou construção de moradias, etc. Na IPM, onde as pessoas se entregavam a granel e levavam os poucos proventos, esperando pela repetição do milagre multiplicador ensaiado com os peixitos e pãezitos, era tempo propício para boas colheitas em oferendas. A alta hierarquia da IPM, à semelhança dos agentes comerciais, publicitava a sua crença nas rádios, nos jornais, em outdoors, e espalhavam-se fliers pelas artérias das grandes cidades, buscando a adesão máxima de pessoas. Os que estavam à rasca posicionavam-se nas filas dianteiras; os mais ou menos iam titubeantes; e os ricaços só iam se fosse para ajudar a lavar o dinheiro conseguido em negócios torpes.

Naquele domingo de chuva e sol, era no alto do seu púlpito que o eloquente pregador Kabwiza cantava como ninguém o fizera até à data, fazendo lembrar os textos sobre os anjos dos céus que louvavam o seu Criador com as suas arpas melodiosas.

— Cantemos então o “Madibesa kala nvula”. — Ordenou o pastor.

Na verdade, esse cântico “roubado” do livro de hinos de uma outra congregação religiosa já secular no país era a versão em kimbundu (uma língua bantu daquele território africano) do primeiro hino cantado na versão lusófona. Para os crentes da Centenária, a IPM era uma “roubadora de hinos alheios e quase sempre mal cantados ou usados apenas para direcionar o povo ao balaio”.

“Madibesa kala nvula” era um trunfo. Todos o cantavam, até os que não percebiam a letra ou que não o relacionavam ao “Tempos de colheita”, também gatunado à Centenária, que tinha grande parte dos seus crentes ambundu ou descendentes destes. Cantou-se “Twabingi nvula kokwe” e caíram dízimos, vinténs e outras partes emotivas.

No fim da cerimónia, o pregador e o tesoureiro iam pesados numa viatura que os rapazes apelidaram de “agarra esse bebé”, já roçada em todos os cantos por causa da imperícia inicial de quem ganhou o seu primeiro carro sem experiência de estrada. Faziam-se a caminho de casa suorentos, sedentos e apertados. Eram cinco no minúsculo “bebé”.

Na derradeira curva, antes da casa, lembraram-se de comprar água para minorar o calor e a sede que os apoquentava. Os homens da farda, que trabalhavam para manter a segurança e a regularidade do tráfego, tanto pensavam nas tarefas que lhes foram acometidas como também banzelavam nos dois feriados que se avizinhavam e que calhavam nos seus dias de folga. Entretanto, foram as mazelas no “bebezinho”, quase a perder a brancura da tinta inicial, que despertaram a atenção da patrulha.

— Quem vai à loja tem dinheiro. — Disse um dos homens de farda azul.

A quintilha esperou-os num largo de pouco movimento e passagem incontornável a quem trafegava naquela rodovia. E não tardou em mandá-los encostar o Suzuki Alto no espaço desocupado que se achava num antigo largo.

— Bom dia, senhores! — Saudou um dos homens, solicitando de imediato os documentos da viatura e os do condutor, que levou ao bolso sem os consultar.

— Cinco pessoas nesse carro é muita gente. De onde vêm e para aonde vão, mais velhos? — Indagou o fardado ao condutor.

— Vimos da igreja e vamos para casa, chefe. — Respondeu o pastor Kabwiza.

— Alguém é pastor entre os irmãos no carro? — Questionou o homem fardado que se achava mais afastado do carro interceptado e cuidando da viatura em que se faziam transportar os homens fardados.

— Sim, chefe. Eu mesmo sou o pastor. Por isso aproveito já para pedir ao chefe que leia os documentos e nos diga se podemos ir para casa. Há ameaça de chuva, como o chefe está a ver o céu escurecido, e com esse carro não dá jeito andar no bairro. — Informou, quase suplicante, Kabwiza.

— Esse saco aí, — apontava para o embrulho — tem lá o quê? Pode mostrar? — Inquiriu o terceiro agente que se fazia à direita da viatura abordada.

— É de oferta na igreja, irmão. É dinheiro sagrado de Deus. — Respondeu o tesoureiro, que ocupava um assento no banco traseiro.

— Ora bem. Vocês são cinco e nós também somos cinco. — Atirou provocador o agente principal, o que tinha os documentos no bolso, olhando para o pastor Kabwiza. — O irmão pode ajudar-nos a tirar uma dúvida que vem na Bíblia? É somente isso e já lhe devolvo os seus documentos, pois tenho certeza de que fará a mais fiel interpretação do santo livro.

— Está bem, filho. Qual o capítulo? — Buscou Kabwiza, que procurava desfazer-se daquela situação ardilosa.

— É Mateus 5:25, irmão pastor. — Recitou o fardado expectante.

Kabwiza folheou rápido o sacro livro e foi ter com o texto: “Concilia-te depressa com o teu adversário, enquanto estás no caminho com ele; para que não aconteça que o adversário te entregue ao guarda, e sejas lançado na prisão. Em verdade te digo que de maneira nenhuma sairás dali enquanto não pagares o último ceitil.” Confirmou logo as intenções dos homens de farda, que tinham a lição estudada, e não precisou de interpretar-lhes o que lera em voz alta. Desceu do carro para poder enviar as mãos ao bolso e, num gesto inoculável para muitos, trocou os centis que lhe restavam na algibeira pelos documentos que aqueciam a mão despida do homem da farda de caqui. Afinal "cá se rouba e cá se paga!"

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

A MINHOCA LILA E O SÁBADO DE CHUVA

In "Contos para a Lúcia"


Era sábado do mês de Dezembro e começara a chover em Luanda.  

Na horta cresciam ervas daninhas que dificultavam o desenvolvimento das herbáceas, como a hortelã, o gengibre, os morangueiros e as couves.  

O senhor Luciano decidiu aproveitar a terra húmida para limpar o canteiro.

Ajoelhou-se, puxou uma erva daninha pela raiz e, para sua surpresa, veio agarrada a ela uma minhoca enrolada, muito atrapalhada.  

Assim que tocou o chão, tentou fugir, mas um grupo de formigas aproximou-se rapidamente.

— Ai, ai, ai! Socorro! — gritou a minhoca, contorcendo-se. — Eu não quero virar almoço de ninguém!

As formigas responderam em coro:

— Deixa-nos passar, senhor Luciano! Encontrámos o nosso lanche!

O senhor Luciano colocou a mão no chão, protegendo a minhoca.

— Calma, meninas — disse ele às formigas. — Hoje não há lanche aqui. Procurem noutra parte da horta.

As formigas resmungaram baixinho, mas acabaram por seguir caminho.

A minhoca, ainda a tremer, ergueu a cabeça pequenina e disse:

— Obrigada, senhor! Eu sou a Lila, a minhoca mais trabalhadora deste quintal. Não sabia que arrancar ervas daninhas era tão perigoso para mim.

O senhor Luciano sorriu.

— Desculpa, Lila. Não te vi ali. Mas diz-me: o que fazes tu de tão importante debaixo da terra?

A minhoca encheu-se de orgulho e explicou:

— Eu vivo no subsolo quase toda a minha vida. A minha missão é cavar túneis, misturar a terra, deixá-la fofinha e cheia de ar. Também transformo folhas velhas em alimento para o solo. Assim, as raízes das plantas crescem fortes e conseguem beber água com facilidade.

— Então és tu que ajudas a minha horta a ficar tão bonita? — perguntou o senhor Luciano.

— Eu e as minhas irmãs — respondeu Lila, abanando o corpo como quem faz uma vénia. — Sem minhocas, a terra fica dura e cansada. Com minhocas, ela fica viva e feliz.

O senhor Luciano colocou-a na palma da mão e disse:

— Obrigado pelo teu trabalho, Lila. Vou devolver-te ao teu lugar.

Com cuidado, abriu um pequeno espaço na terra húmida e pousou a minhoca lá dentro. Lila mergulhou no solo e despediu-se:

— Até logo, senhor Luciano! Vou continuar a trabalhar para que as suas plantas cresçam ainda mais bonitas!

O senhor Luciano levantou-se, limpou as mãos e continuou a arrancar as ervas daninhas.  

Lila, lá em baixo, retomou os seus túneis.  

E assim, cada um seguiu com as suas tarefas diárias, ajudando a horta a crescer com mais vigor.

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Publicado pelo Jornal de Angola "Suplemento Kandengue", a 08.02.2026

domingo, 8 de fevereiro de 2026

A NINFA QUE AJUDAVA AS PLANTAS


In "Contos para a Lúcia"
O pai da Lúcia nasceu no Libolo. Desde pequeno aprendeu a plantar e a cuidar de árvores e hortas. Mesmo vivendo na cidade, criou um pomar cheio de vida, com jaqueiras, mangueiras, abacateiros, mamoeiros, goiabeiras, romanzeiras, amoreiras, videiras, oliveiras, cajueiros, bananeiras, limoeiros, laranjeiras, tangerineiras, nespereiras, mandioqueiras, quiabeiros e milheiros.
Havia também uma longaneira, árvore que ele gostava muito de ver crescer.
Um dia, enquanto fazia um sulco para plantar uma ameixeira, encontrou uma pequena criatura branca a mexer-se na terra. Era uma lagarta robusta, que tentou esconder-se, mas o meu pai apanhou-a com cuidado. Assustada, ela falou:
— Senhor, não me faça mal. Eu sou uma ninfa de cigarra. Vivo no subsolo durante dezassete anos, mudando de forma várias vezes, até me transformar numa cigarra adulta. Parecemos animais diferentes em cada fase da vida.
O pai da Lúcia, que em criança caçava cigarras, ficou admirado e perguntou:
— Como é que você vive debaixo da terra, se a cigarra é um insecto voador e canta alto quando chega o sol de Abril?
A ninfa, agora mais calma, explicou:
— Aqui no subsolo, enquanto cresço, o meu trabalho é abrir pequenos túneis na terra. Esses túneis deixam passar o ar e a água, ajudando as raízes das plantas a respirar e a beber. Assim, as árvores crescem fortes e dão frutos para alimentar as pessoas.
O pai da Lúcia ouviu tudo com atenção. Depois, devolveu a ninfa ao solo, cobriu-a com cuidado, regou a terra e plantou a ameixeira.
A árvore cresceu depressa e, em menos de um ano, já dava ameixas doces e brilhantes.

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sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

"CONTOS PARA LÚCIA" NA LENTE DE ANTÓNIO KUTEMA

Da alegoria à lição de moral nos Contos para Lúcia, de Soberano Kanyanga

Por: António Kutema

De "Desejo de Kaúia" a "Contos para Lúcia", Soberano Kanyanga pinta o universo com excelente mancha preta para ficcionar vivências e, nas suas obras, é possível identificar o imaginário angolano e delas extrair o encanto das belas artes.

Propusemo-nos em escrever sobre “Contos para Lúcia” para reorientar o leitor sobre o livro de fábulas, onde Videira e Eucalipto, Cágado e Caracol, Minhoca Lila e Ninfa são personagens. Entretanto, constituem corpo e alma do livro “Contos para Lúcia” a construção da narrativa em que os animais representam aspectos da sociedade humana e frases curtas que encerram a história.

Por se tratar de fábula, tal como nos sugere Oswaldo Portela, Contos para Lúcia apresenta duas partes inseparáveis: (i) uma narrativa alegórica e (ii) uma lição de moral. Assim sendo, a partir do livro Contos para Lúcia explora-se valores sociais, culturais, ideias, sentimentos, ao mesmo tempo em que estimula o pensamento cognitivo e a imaginação.

A maioria do enredo decorre no quintal do senhor Luciano, pai da menina Lúcia, tirando o conto “Mamã pequena da escola”, o que pressupõe a centralização do espaço familiar como parte basilar da educação das crianças – Lúcia e suas sobrinhas. Ou seja, para além da perspectiva lúdica que o texto oferece, há, sim, valores sociais e culturais a serem preservados:

À porta, transformada em ponto de partida, o pai e os três filhos alinhavam-se. A mãe, com voz firme e olhar distante, fazia perguntas sobre a infância. Cada resposta afirmativa exigia um passo à frente (Kanyanga, 2026).

A cultura de estar em casa com a família e aproveitar os momentos para conversar, sobretudo, acerca do passado e o presente não tem sido comum em muitas famílias angolanas, porque muitos pais justificam as ausências com trabalho para a melhoria das condições de vida da família. Contudo, o conto “No tempo da Lúcia” remete-nos ao diálogo entre o tempo da meninice do pai e o tempo da Lúcia – desde as dificuldades alimentares, privilégios ao vestuário, condições de vida enfim –, o que não apaga a empatia da Lúcia em se compadecer com os momentos difíceis que o pai viveu.

Convoca-se, então, Pierre Bourdieu para compreender as estratégias utilizadas por Cágado e Caracol, que estando no quintal da Lúcia, encasulados trocavam mimos, passando pelo meio algumas frutas cajá-manga que ambos disputavam.

O Cágado queria lamber o melaço de cajá-manga, por cima do Caracol e, se lhe fosse possível, comer o Caracol. (...)Esse, já avisado das intenções do vizinho (viviam no mesmo quintal e brincavam no mesmo jardim relvado), procurou esconder-se no mais recôndito espaço, onde a largura e inflexibilidade corporal do Cágado não permitia atingi-lo [sic]. (Kanyanga, 2026)

Pelo que se constata ao longo da disputa, cada agente do campo do poder serviu-se das suas artimanhas para atacar ou defender-se. Entretanto, ressalta-se duas características: astúcia e sabedoria. Cágado identifica-se como astuto e Caracol como um ser sábio, tal como o narrador nos apresenta:  

Hábil a confundir seus predadores, o caracol fingiu-se morto e encolheu-se o máximo que pôde na sua carapaça. O cágado bem tentou colocá-lo entre as mandíbulas e procurar engoli-lo, mas jamais o volume da carapaça do caracol passaria pela sua garganta. Cansando, o cágado teve de desistir, deixando o caracol ferido, mas vivo! (Kanyanga, 2026)

Aprende-se em Contos para Lúcia, não importando o tamanho da pessoa ou do ser, que todos são importantes para o engrandecimento da sociedade, basta olhar para simplicidade e sabedoria dos caracóis, das minhocas, das ninfas e dos pássaros.

Contudo, no conto “A videira e o Eucalipto” identifica-se a dimensão educativa sobre a importância de não invejar o próximo, porquanto tudo tem o seu tempo debaixo dos céus. Ou seja, cada um tem o seu tempo para brilhar e o brilho do outro não pode ofuscar o teu.

— Ao pé de mim ninguém cresce - dizia o Eucalipto ameaçador. (...) Com o tempo, a Videira alcançou o arame farpado que encimava o muro e, sem pressa, foi-se esticando até alcançar o Eucalipto por um braço encostado ao muro do quintal.

— Cá estou eu. Duvide mais que não chagaria a ti - disse a Videira entregando-se alegre ao sol. (Kanyanga, 2026)

Entretanto, a valorização e respeito pelos mais velhos encerra o livro. Isto é, se respeitarmos os mais velhos teremos mais tempo de vida, por um lado, o que não se verifica nos actos do mosquito Kito pela teimosia de não ouvir os mais velhos; por outro lado, quando se valoriza a mamã pequena ou a tia que tem a mesma idade do que a da sobrinha, há menos conflito na família e na sociedade.




quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

OS PASSARINHOS AZUIS E OS RECADOS PARA A LÚCIA


Sai dia, entra dia. Seguem‑se semanas e meses. Já vamos no sétimo ano, o mesmo número de anos que a Lúcia tem.

Todas as manhãs, por volta das cinco horas, o chilreio dos passarinhos azuis anuncia o começo do dia. O casal Azulão e Estrelinha vive numa pequena toca na parede da nossa casa, onde construiu um ninho aconchegante.
Atrás do muro do quintal ergue‑se um alto eucalipto. É lá que os dois costumam apanhar sol e brincar em voos curtos, do eucalipto ao ninho e do ninho à videira que se estende sobre o quintal.
— Piô, piô, piô! — canta Azulão, como quem diz:
“Lúcia, chegou a hora de acordar!”
Logo depois, Estrelinha voa até à janela do banheiro e chilreia ainda mais alto:


— Pium, pium, pium!
“Já lavaste a boca? Misturaste a água fria e morna? Tens o champô e o sabão? Vai, apressa‑te! O matabicho está na mesa e o motorista do colégio já vem a caminho.”

Agora, Azulão e Estrelinha têm dois filhotes: Luzinha e Rufino. Estão a aprender a piar e a voar. Luzinha observa tudo com olhos curiosos, enquanto Rufino abre o bico para receber o pequeno insecto que Estrelinha lhe traz.
E assim, todos os dias, o canto dos pássaros azuis acompanha a rotina da menina Lúcia, lembrando‑lhe que a vida começa com alegria, cuidado e amor.
Por: Soberano Kanyanga [in Contos para a Lúcia]