quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

TEMPOS DE PHAMBU DYA KALUNGA


Phambu dya kalunga é uma expressão kimbundu que quer dizer, literalmente, encruzilhada da morte. Também se costuma dizer "kanjila kajakata munzonge wa lulu" que significa, na Língua Luz-e-Tana, que o passarinho queimou e o molho amargou.
No tempo da mocidade dos meus tios e da minha meninice era comum ouvir os mais velhos a usarem o "phambu dya kalunga" para se referirem a alguém numa encruzilhada, com apenas dois caminhos.
Lembro-me de um kota que "encheu uma pinta[1]" e foi caçado pelos primos da mboa[2], já que ele esquivava sempre que o chamassem a sentar-se à mesa para falar com urbanidade. O manga[3] era refractário, outra expressão que saiu da moda linguística, e tanto temia assumir a munzúbya[4] quanto ser "kangado"[5] para a vida Kwemba[6].

No dia em que os primos da pura mboa[7] que estava pwã[8] o levaram à força para ir assumir o kizangu[9] da gravidez e fazer "os dever na moça", Tito Rafael estava a preparar-se, manhã cedo, para ir trabalhar na alfaiataria, no Golfe, vivendo ele no México do Rangel, na Ngwimbi, portanto.
O manga quando ouviu o "com licença" do Zezito pensou que fosse o seu colega de profissão e de caminhadas de beco em beco, fugindo dos ODP´s, CPPA´s, FAPLA´s kasimbados, ST's e PCU's[10]. Esses últimos eram os mais "fodidos", porque levavam tanto civis abrangidos para a vida militar, quanto os para-militares, os integrantes de milícias e os militares não dispensados dos quartéis. Eram mesmo quem mais rusgavam.
O kamba[11] do meu tiote, estudado minuciosamente pelos seus captores e enganado pela semelhança da voz anunciante, foi zangulado[12] e arrastado até ao quarteirão seguinte onde o aguardavam os makotas[13] da família da Ratinha, a wi[14] do cabelo longo, que andou a xaxatar de kaxexe[15] durante ano e meio, sem dizer "te quero de verdade ou de mentira". A expressão "namoro de ficar" não existia ainda no vocabulário do Português Luandense.

Tito Rafael, sozinho no meio de mais velhos de respeito, naquele tempo até os malandros eram "filhos de família", ensaiou dois caminhos: arrastar a conversa e não assumir o dikulu[16] antes que seus parentes fossem ao seu encontro, até porque casa, dinheiro e condições para sustentar a "filha alheia" e o mubinganu[17] por nascer eram coisas de que ainda não dispunha. A alternativa era pedir diligentemente licença para ir fazer necessidades menores e pôr-se a lume.
No bairro onde nasceu e cresceu, apesar das traquinices de uns e lyambices de outros, todos se conheciam e se davam ao respeito mútuo. Músculos nos problemas eram chamados somente quando alguém faltasse à palavra sadia e cortês. As galinhas e patos desapareciam de quintais, ainda feitos de tiras de chapas e pedaços de madeira descartada pelas serrações, mas era obra de mizangala[18] de outros bairros distantes. Os mexicanos não roubavam mexicanos. Era palavra de honra desde tempos avoengos.
Passados trinta minutos duma conversa que mais arrefecia do que aquecia e ante a ausência dos parentes e amigos mais chegados que àquela hora já não estariam no bairro, onde as rusgas aos "mata-kasumuna"[19] eram constantes, Rafael decidiu pôr em prática o plano b, o da evasão cobarde.

Pediu licença para se dirigir à latrina de chapas e aduelas que se encontrava a uns dez metros da figueira onde decorria o milonga[20]. A meio do caminho, entre os parentes de Ratinha sentados em círculo e a casota das necessidades, avistou a rua e trocou olhares com Ritinha, sua irmã kasula, escondida num canto e que lhe sinalizou o atraso do tio Joaquim “dos Mahezu”[21]. Rafael acelerou o passo e trocou os olhos e os caminhos.

Da porta do quintal à rua foi já a passo de lebre. Só que, igual a lebre, a sua berrida[22] foi sol de pouca dura. Acabou nas mãos dos PCU's que vasculhavam o bairro como quem procura agulha no palheiro.
Tinha passado o mês das apresentações voluntárias dos abrangidos pela Lei do Serviço Militar Obrigatório e todo civil abrangido, sem isenção ou adiamento, teria o KK como destino. A camioneta UNIMOG serviu de acolhimento durante dia e noite, até ser despachado para o Centro de Recrutamento e Mobilização Militar onde fez a a peritagem médica e despachado para Namakunde[23]. Entretanto foi mesmo no temido KK, área de Kayundu, onde fez os primeiros disparos de um militar e sentiu o assobio mortífero duma bala inimiga.

No Kwandu-Kuvangu, palco da Guerra Fria, onde se travavam encarniçados combates entre forças nacionais antagónicas, apoiadas por exércitos estrangeiros, também antagónicos, Rafael lutou corajoso e valente e teve várias distinções. Mesmo com o lápis desafiado, chegou a primeiro-tenente das FAPLA, antes da desmobilização que se seguiu à paz de Bicesse e, de volta ao kubiku, [24] recuperou Ratinha "Cabeluda", pinta[25] asseada na fala e no estar, com quem fez outros três filhos. Contam já cinco netos.


[1] Mulher; jovem (calão).
[2] Mulher; jovem (calão).
[3] O individuo (calão).
[4] Mulher (calão).
[5] Rusgado, capturado (calão).
[6] Também designada por vida militar ou cumprimento do serviço militar obrigatório; Kwemba representava um palco difícil para os militares (calão).
[7] Mulher (calão).
[8] Grávida (calão).
[9] Problema (calão kimbundu).
[10] Organização de Defesa Popular (milicia); Corpo de Polícia Popular de Angola; Serviço de Tropas (Policía Militar); Posto de Comando Unificado.
[11] Amigo (kimbundu).
[12] Levantado; segurado (calão).
[13] Mais velhos (kimbundu).
[14] A senhora (calão).
[15] Namorar de pianinho; de soslaio (Kimbundu).
[16] Problema (calão).
[17] Substituto; herdeiro (kimbundu).
[18] Jovens (kimbundu).
[19] Mata-formigas; alusão a jovens desempregados; sem ocupação (do kimbundu).
[20] Problemas (kimbundu).
[21] Mahezu é em kimbundu exposição de problema; aquí é o diplomata.
[22] Corrida (calão).
[23] Município do Kunene, Angola (calão).
[24] Casa  (calão).
[25] Mulher (calão).

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