quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

A MINHOCA LILA E O SÁBADO DE CHUVA

In "Contos para a Lúcia"


Era sábado do mês de Dezembro e começara a chover em Luanda.  

Na horta cresciam ervas daninhas que dificultavam o desenvolvimento das herbáceas, como a hortelã, o gengibre, os morangueiros e as couves.  

O senhor Luciano decidiu aproveitar a terra húmida para limpar o canteiro.

Ajoelhou-se, puxou uma erva daninha pela raiz e, para sua surpresa, veio agarrada a ela uma minhoca enrolada, muito atrapalhada.  

Assim que tocou o chão, tentou fugir, mas um grupo de formigas aproximou-se rapidamente.

— Ai, ai, ai! Socorro! — gritou a minhoca, contorcendo-se. — Eu não quero virar almoço de ninguém!

As formigas responderam em coro:

— Deixa-nos passar, senhor Luciano! Encontrámos o nosso lanche!

O senhor Luciano colocou a mão no chão, protegendo a minhoca.

— Calma, meninas — disse ele às formigas. — Hoje não há lanche aqui. Procurem noutra parte da horta.

As formigas resmungaram baixinho, mas acabaram por seguir caminho.

A minhoca, ainda a tremer, ergueu a cabeça pequenina e disse:

— Obrigada, senhor! Eu sou a Lila, a minhoca mais trabalhadora deste quintal. Não sabia que arrancar ervas daninhas era tão perigoso para mim.

O senhor Luciano sorriu.

— Desculpa, Lila. Não te vi ali. Mas diz-me: o que fazes tu de tão importante debaixo da terra?

A minhoca encheu-se de orgulho e explicou:

— Eu vivo no subsolo quase toda a minha vida. A minha missão é cavar túneis, misturar a terra, deixá-la fofinha e cheia de ar. Também transformo folhas velhas em alimento para o solo. Assim, as raízes das plantas crescem fortes e conseguem beber água com facilidade.

— Então és tu que ajudas a minha horta a ficar tão bonita? — perguntou o senhor Luciano.

— Eu e as minhas irmãs — respondeu Lila, abanando o corpo como quem faz uma vénia. — Sem minhocas, a terra fica dura e cansada. Com minhocas, ela fica viva e feliz.

O senhor Luciano colocou-a na palma da mão e disse:

— Obrigado pelo teu trabalho, Lila. Vou devolver-te ao teu lugar.

Com cuidado, abriu um pequeno espaço na terra húmida e pousou a minhoca lá dentro. Lila mergulhou no solo e despediu-se:

— Até logo, senhor Luciano! Vou continuar a trabalhar para que as suas plantas cresçam ainda mais bonitas!

O senhor Luciano levantou-se, limpou as mãos e continuou a arrancar as ervas daninhas.  

Lila, lá em baixo, retomou os seus túneis.  

E assim, cada um seguiu com as suas tarefas diárias, ajudando a horta a crescer com mais vigor.

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Publicado pelo Jornal de Angola "Suplemento Kandengue", a 08.02.2026

domingo, 8 de fevereiro de 2026

A NINFA QUE AJUDAVA AS PLANTAS


In "Contos para a Lúcia"
O pai da Lúcia nasceu no Libolo. Desde pequeno aprendeu a plantar e a cuidar de árvores e hortas. Mesmo vivendo na cidade, criou um pomar cheio de vida, com jaqueiras, mangueiras, abacateiros, mamoeiros, goiabeiras, romanzeiras, amoreiras, videiras, oliveiras, cajueiros, bananeiras, limoeiros, laranjeiras, tangerineiras, nespereiras, mandioqueiras, quiabeiros e milheiros.
Havia também uma longaneira, árvore que ele gostava muito de ver crescer.
Um dia, enquanto fazia um sulco para plantar uma ameixeira, encontrou uma pequena criatura branca a mexer-se na terra. Era uma lagarta robusta, que tentou esconder-se, mas o meu pai apanhou-a com cuidado. Assustada, ela falou:
— Senhor, não me faça mal. Eu sou uma ninfa de cigarra. Vivo no subsolo durante dezassete anos, mudando de forma várias vezes, até me transformar numa cigarra adulta. Parecemos animais diferentes em cada fase da vida.
O pai da Lúcia, que em criança caçava cigarras, ficou admirado e perguntou:
— Como é que você vive debaixo da terra, se a cigarra é um insecto voador e canta alto quando chega o sol de Abril?
A ninfa, agora mais calma, explicou:
— Aqui no subsolo, enquanto cresço, o meu trabalho é abrir pequenos túneis na terra. Esses túneis deixam passar o ar e a água, ajudando as raízes das plantas a respirar e a beber. Assim, as árvores crescem fortes e dão frutos para alimentar as pessoas.
O pai da Lúcia ouviu tudo com atenção. Depois, devolveu a ninfa ao solo, cobriu-a com cuidado, regou a terra e plantou a ameixeira.
A árvore cresceu depressa e, em menos de um ano, já dava ameixas doces e brilhantes.

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