[Réquiem a Mangodinho]
Não podias, Mangodinho. Você não presta, morrer até podes — a carne é tua — mas, assim também, não.
Era Man Barras excessivamente inconsolável. Ele soube da notícia sobre a morte de Mangodinho no telejornal, pela voz penetrante do jornalista Ernesto Bartolomeu, filho do Sambla, o mesmo lugar de nascimento de Gelson Caio, o kudurista Nagrelha.
Em segundos, a notícia se replicou por todos os canais de comunicação pública e privada, assim como nas redes sociais, onde o falecido tinha uma presença de devoção.
“Mangodinho deu o cardete.”
Mangodinho era uma personalidade que contrastava entre a humildade do campo e a matreirice da cidade. Aquele corpo baixinho e cheio de energia era deveras electrizante. “Sem sintomas notoriamente preocupantes, vens bater as botas assim do nada!”
Lamentava Man Barras, sentado no cadeirão, enquanto mudava de canais sem se perceber do que realmente procurava. Via-se que estava com alguma carga de nervosismo, possuído de tensões hipertensivas próximas da explosão.
“Epa, isso até custa a acreditar. Numa altura em que estou a me candidatar para um cargo superior do partido no próximo congresso e, como prometido, contava com a tua incondicional ajuda… Você, meu camarada, morres assim do nada?! Já viram? Sinceramente, não foi isso que combinamos.”
No seu município, tanto o administrador e os seus adjuntos, o pessoal da secreta, os sobas, os padres e pastores religiosos, até os de gado, todos sabiam da sua ligação a figuras importantes de Angola. Falava com os próprios manda-chuva, gajos de xixi grosso.
No leque das amizades influentes de Mangodinho incluía-se o primeiro presidente do país e os seus colaboradores diretos. Isso, segundo ele.
Conseguiu manter próxima a relação com os coadjuvantes do atual chefe de Estado e circulava bem diante de algumas celebridades, principalmente as do sexo feminino. Diz-se que era o fornecedor da wanga para estas subirem na vida ou, em determinados casos, assegurarem a impossibilidade da perda dos maridos na relação.
Conta-se que ajudou na formação de muita gente: mandava os filhos dos irmãos, dos primos e até de vizinhos para bolsas de estudo em Cuba, na Jugoslávia ou na URSS. Ele era uma espécie de INAB num único corpo.
Como podemos ver, diante de tão célebre figura, com níveis de relações humanas ao mais alto padrão social, um pedido deste filho de Caculo era praticamente inegável. Conforme tinha sido acertado, era com essa influência toda de Mangodinho que o seu amigo Man Barras contava para atingir os altos escalões na cúpula do seu partido na próxima campanha eleitoral.
Eles conheceram-se na tropa, estiveram no mesmo centro de instrução e fizeram juntos a especialidade em artilharia terrestre. Desde então começou uma grande amizade, onde se incluía a partilha de coisas em comum.
Longe das suas terras de origem, quando Mangodinho “meteu barriga” numa menina que fazia parte da população que a tropa teve de trazer para as proximidades do posto de comando, com o propósito de protegê-las das ações do inimigo, foi Man Barras quem se apresentou como tio da parte de pai.
Mesmo sendo de províncias diferentes, o contexto político evocava a união entre os cidadãos da mesma pátria. Aliás, essa era uma palavra de ordem.
No entanto, passada esta fase, com o país já em paz, depois de desmobilizados das forças armadas, Mangodinho voltou para o seu Kalulu, enquanto Man Barras preferiu Luanda, por ter percebido que na capital as suas pretensões políticas teriam sucesso próximo dos órgãos de decisão.
Isso ajudou, de certa forma, a manter a ligação com o seu amigo, visto que sempre que o primeiro viesse à cidade, tinha como local de hospedagem a residência do seu amigo de tropa — casa de onde partia ou era apanhado para tratar de negócios, visitas, tratamentos e outros.
Ter ouvido que Mangodinho morreu foi o maior golpe que podia receber. E agora?!
Como ficam agora as influências para a minha promoção?
Como fica a minha nomeação a deputado ou a governador provincial?
Os carros de luxo e a secretária executiva de salto alto?
Como ficam os guarda-costas e o motorista protocolar e da residência?
Como fica o futuro cargo de embaixador, quando entrar para a reforma?
Como fica a possibilidade de ter um quarto privativo no melhor hotel do país?
As viagens em executiva e o passaporte diplomático, com acesso à sala VIP, é como?
“Oh meu Deus… me leva também, Mangodinho.” Chorava desamparado durante todo o velório, tendo mesmo desmaiado na altura da descida da urna à última morada.
Lauriano Tchoia
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