sexta-feira, 1 de maio de 2026

O SEGREDO DOS CARACÓIS

In "Contos para a Lúcia"

Certa vez, o pai da Lúcia recebeu de oferta alguns morangueiros vindos do Bié, terra da mãe da menina. Eram plantas jovens, de folhas verdes e brilhantes, que traziam consigo o perfume fresco das chuvas do planalto. Para os plantar, o pai da Lúcia encheu um vaso alto com terra escura e fofa, recolhida da horta.

O que ele não sabia era que, misturados àquela terra fértil, vinham também pequenos ovos de caracol — tão minúsculos que pareciam pérolas de vidro escondidas entre os torrões.

Com o passar dos dias, enquanto os morangueiros se adaptavam ao novo lar, começaram a surgir pequenos caracóis. Primeiro eram quase invisíveis, do tamanho de uma unha. Depois foram crescendo, sempre tímidos, sempre silenciosos, até encontrarem abrigo perfeito debaixo das folhas largas e perfumadas dos morangueiros.

Ali, naquele pequeno mundo verde, os caracóis descobriram sombra fresca, gotas de orvalho, pedacinhos de folhas velhas e um sossego que parecia feito à medida deles.

O pai da Lúcia, intrigado, perguntava-se como aqueles seres simpáticos e medrosos tinham ido parar ali. Até que, certa manhã, enquanto regava as plantas, decidiu conversar com eles.

Abaixou-se devagar, para não os assustar, e disse:

— Bom dia, pequenos viajantes. Quem são vocês e como vieram parar ao meu vaso?

Um dos caracóis, o mais corajoso, ergueu as antenas devagarinho e respondeu com voz fina, quase sussurrada:

— Nós viemos escondidos na terra da horta. Os nossos ovos dormiam lá, muito quietos. Quando chegámos ao vaso, acordámos com o calor do sol.

O pai da Lúcia sorriu, curioso.

— E o que fazem durante o dia?

Outro caracol, mais pequenino e muito educado, explicou:

— De manhã, bebemos as gotinhas de água que ficam nas folhas dos morangueiros. Depois passeamos devagarinho, porque caracol não tem pressa. À tarde, descansamos à sombra. À noite, ouvimos o vento a passar pelas folhas. Ele conta histórias bonitas.

O pai da Lúcia achou graça.

— E não estragam as plantas?

O primeiro caracol abanou o corpo, sentindo-se ofendido, mas gentil:

— Nós só comemos folhas velhas ou pedacinhos que já caíram. Gostamos de viver em paz. As plantas dão-nos casa e nós ajudamos a limpar o chão delas.

O pai da Lúcia ficou surpreendido com aquela resposta tão sensata.

— Então vocês também são jardineiros...

O caracol mais velho, que até então estava calado, decidiu falar:

— Somos, sim. E gostamos muito deste lugar. Os morangueiros são bons vizinhos. Eles cheiram bem, dão sombra e nunca reclamam da nossa presença.

O pai da Lúcia levantou-se devagar, olhou para os morangueiros e para os pequenos caracóis, e percebeu que aquele vaso era mais do que um simples vaso: era um pequeno mundo em equilíbrio.

Desde aquele dia em diante, passou a regar com mais cuidado, para não molhar demasiado os caracóis, e ensinou a Lúcia e a sua sobrinha África a observarem aqueles habitantes discretos do jardim.

As meninas adoraram. Davam-lhes nomes, contavam-lhes histórias e até lhes diziam:

— Vocês são os guardiões dos morangueiros.

E os caracóis, orgulhosos, continuavam a sua vida tranquila, limpando o chão, bebendo gotas de orvalho e vivendo em paz debaixo das folhas perfumadas.

E assim, naquele vaso alto, com plantas oferecidas pelo tio Sabino Catumbela, nasceu uma pequena comunidade onde plantas, caracóis e pessoas aprenderam a viver juntas, devagar e felizes.