ATURA-LITER-ATURA
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quinta-feira, 1 de janeiro de 2026
OS PASSARINHOS AZUIS E OS RECADOS PARA A LÚCIA
terça-feira, 2 de dezembro de 2025
BRUNEIROS: MITOS E MEMÓRIAS
[Um conto de feitiçaria e lembranças]
Na vila de Kalulu, onde o capim seco dançava ao sabor do vento e os tambores ecoavam nas noites de lua cheia, havia um nome que se murmurava com respeito e temor em todo o Lubolu: Kakwete. Os mais velhos falavam dele em voz baixa, como quem teme acordar forças poderosas e adormecidas. Os mais novos, curiosos e atrevidos, tentavam espreitar-lhe a casa de pau-a-pique e coberta de capim e segredos.
Kakwete não era apenas um homem. Era o temido e respeitado bruneiro. O feiticeiro de todos os tempos e com quem não se "torrava farinha". Não havia ninguém de sua igualha. Era o mestre das artes ocultas. Diziam que quem quisesse subir na vida, fosse por trabalho e mérito ou por sorte, acabava por bater à sua porta. E quem não o fizesse, ficava para trás, como folha seca levada pelo tempo.
Os jovens tímidos, incapazes de conquistar uma donzela, recorriam ao "migosta", uma mistura de ervas e encantamentos que prometia abrir corações e fechar resistências. Só Kakwete sabia preparar tal feitiço com eficácia. Era como se o amor, a fortuna e o destino estivessem guardados nas suas mãos rugosas e nos seus olhos que pareciam ver além da carne.
Em Ndombe Grande — ou Ndombe Inene, como os mais velhos ovimbundu e os conservadores preferem — vivia o mais velho Ciwiyawiya. Diziam que ele não era apenas um bruneiro, mas o bruneiro dos bruneiros. O maioral. O mestre dos mestres. E os seus feitos, soprados pelos ventos da memória, ainda hoje se escutam nas fogueiras e folguedos das noites longas.
Durante as décadas de 70, 80 e 90, quando as rusgas militares varriam as aldeias em busca de jovens para o serviço obrigatório, Ciwiyawiya fazia o impossível: transformava rapazes na flor da idade em velhos alquebrados, cabelos algodoados, costas curvadas e passos lentos. Os soldados passavam, olhavam, e seguiam adiante. Só levavam os que não haviam sido tocados pelo velho.
O director municipal da cultura de Dombe Grande, homem de saber e memória, não hesita:
“Muitos jovens daquela época, hoje já idosos, juram que é verdade. Quando os militares vinham, só escapava quem fora tratado pelo mais velho.”
Era como se Ciwiyawiya tivesse um pacto com o tempo. Como se pudesse dobrá-lo, moldá-lo, e usá-lo como escudo contra a guerra. E assim, muitos escaparam, não pela força, mas pela astúcia de um homem que dominava os mistérios do invisível.
E surge, então, como em todo bom conto, a pergunta que atravessa gerações: terá existido alguém capaz de “torrar farinha” com Ciwiyawiya? Em Benguela, pelo menos, dizem que não. O velho era imbatível. Um nome envolto em lenda, mas também em testemunhos vivos — daqueles que juram ter visto, sentido ou vivido os efeitos da sua bruxaria.
Entre o real e o imaginário, entre o medo e o fascínio, os bruneiros como Kakwete e Ciwiyawiya continuam a habitar o imaginário colectivo. São sombras que caminham ao lado dos vivos, moldando histórias, crenças e destinos. E enquanto houver quem conte, haverá quem creia. Menos eu!
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Publicado pelo J.A. aos 14.09.2025.
sábado, 8 de novembro de 2025
TAXI COLECTIVO, MEMÓRIA, LUTA E ASCENSÃO SOCIAL
Mesmo assim, posto na Vila, os aplicativos não funcionaram e, não querendo ser indelicado para com o motorista da oficina que fora orientado apenas a deixar-me na vila, pedi-lhe que me deixasse na praça de taxis colectivos. Assim, meti-me num dos que fazem o trajecto Vila de Cacuaco–Desvio do Zango.
Éramos quinze passageiros. Uns foram ficando pelo caminho, outros entraram e preencheram as vagas deixadas. Aos quinze, juntavam-se o chauffeur e o cobrador. Fazia tempo que não me aventurava em deslocações como esta. Não sabia quanto se pagava pela corrida — curta ou longa — como a que estava a fazer. A viagem decorreu ao som de músicas de Socorro e Baló Januário, em volume aceitável para a minha idade — pós-cinquenta.
Os meus co-passageiros eram jovens: homens e mulheres. Uns, via-se, faziam negócios precários, mas lutam pela vida sem pôr mão em coisa alheia. Um é pintor. Tinha os cotovelos e o telefone pintados de branco. Outros, poucos, eram adventistas do sétimo dia, a caminho das confissões religiosas ou de regresso a casa. Eu era o mais velho e com trajes que, mesmo sendo calças de ganga, ténis e camisa normais, pareciam denunciar-me como “intruso” desabituado àquela vida.
A minha paragem foi na ponte do Km 25, ao preço de Kz 500.
Já no viaduto do Km 25 — que a criatividade popular baptizou por “Ponte do 25” — um dos aplicativos funcionou. Aleluia! Levei, porém, mais de vinte minutos para que o mui pretendido taxi particular chegasse. Primeiro, uma demora de oito minutos levou ao cancelamento. Quando voltei a solicitar, eis que o mais próximo era o anterior, obrigando-me a aguardar nada menos do que um terço de hora sob o sol escaldante que se aproximava do meio-dia.
Esta viagem serviu-me, maisnuma vez, de medida. Uma medida da distância dada na vida. De onde saí e onde estou socialmente. E tudo isso foi obra da formação académica, da formação profissional, do trabalho honesto e da lealdade. Haveria como sentir estranheza num taxi colectivo se, acaso, não me tivesse formado? Se, embora trabalhando por conta de outrem, não auferisse um salário que dá para comer trinta dias e fazer pequenas poupanças que levam a ter carro?
A resposta é redondamente não.
Daí o apelo renovado àqueles que ainda vegetam na ociosidade, na torpência e na falácia de que “não há crescimento possível no país”. Lutem. Não adormeçam debaixo da sombra plantada por outrem. A ascensão é possível. Mas exige acção, coragem e persistência.
Aos que governam, pede-se que tirem duas horas por mês ou trimestre e andem pelos subúrbios. Experimentem um taxi particular e depois um taxi colectivo. Sintam, em poucos instantes, o “dias sempre” dos governados. Se calhar isso crie maior empatia, pois cada um dos que o povo colocou em cima tem sempre um exército — directo ou indirecto — de plebeus que vivem a vida árdua e verdadeira dos governados.
quarta-feira, 1 de outubro de 2025
NO TEMPO DA LÚCIA

In "Contos para a Lúcia"
A peça tinha terminado há pouco. Lúcia ainda estava com os olhos marejados — não pela encenação em si, mas pelo jogo que encerrava o espetáculo. Um jogo simples, mas brutal. À porta, transformada em ponto de partida, o pai e os três filhos alinhavam-se. A mãe, com voz firme e olhar distante, fazia perguntas sobre a infância. Cada resposta afirmativa exigia um passo à frente.
sexta-feira, 12 de setembro de 2025
A CAÇADEIRA DE KAPAYO
O dia estava agitado, como o vento frio que soprava impiedoso, parido e empurrado pela corrente gélida de Benguela. No vasto espaço ao redor do Estádio de Ombaka, agora metamorfoseado em ruelas e vielas por construções temporárias de stands, homens e mulheres se acotovelavam para passar, levantar ou pousar imbambas de toda sorte. O recinto fervilhava com a azáfama de feirantes vindos de todos os cantos de Angola: lá estavam 21 províncias e 326 municípios que representavam o povo, suas identidades culturais e as idiossincrasias de mais de 378 comunas.
terça-feira, 5 de agosto de 2025
Entre chaladices e filosofias: A tessitura da trama em Chico, Bernardo e Mangodinho
A literatura de Soberano Kanyanga é marcada por uma oralidade vibrante, personagens profundamente humanos e uma crítica social que se entrelaça com humor, dor e sabedoria popular. Neste artigo, analisamos comparativamente três figuras centrais de suas crónicas: Chico "Pé de Muleta", Bernardo "Bebê" e Mangodinho, explorando a tessitura da trama em que cada um se inscreve.
“Vocês são burros. Vê lá se ainda não conhecem a cidade.”
A tessitura da trama é trágico-reflexiva, com forte ligação ao espaço comunitário e à memória colectiva. Chico é respeitado e temido, e sua voz carrega a autoridade da experiência vivida.
"Esses buracos estão a ser tratados como frangos: primeiro limpam, depois temperam com brita e só depois é que metem o óleo quente".
Ou quando ironiza a política local:
“Aqui, até os buracos têm plano de desenvolvimento. Só falta mesmo o orçamento” são exemplos de como o humor é usado para desmascarar o absurdo social. Bernardo representa a irreverência popular, e sua presença é marcada por leveza, mas também por crítica mordaz. A tessitura da trama é cômico-satírica, com ritmo oral e linguagem popular, aproximando o leitor da realidade angolana com riso e reflexão.
“Mangodinho é aquele que desafia a dor e ama a arte.”
A tessitura da trama em que Mangodinho se inscreve é densa, simbólica e introspectiva, com linguagem mais literária e menos episódica. Ele transcende o espaço físico e torna-se símbolo de transcendência.
Enquanto Chico actua em espaços comunitários rurais e Bernardo em ambientes urbanos populares, Mangodinho transcende o espaço físico, habitando uma dimensão simbólica. A linguagem de Chico e Bernardo é oral, rica em expressões locais, enquanto Mangodinho é tratado com linguagem mais introspectiva e literária.
Todos os três personagens partilham uma profunda humanidade e ligação visceral à realidade angolana, compondo uma tapeçaria literária rica, crítica e afectiva.
quarta-feira, 2 de julho de 2025
"HÁ DIAS ASSIM..."
A frase que dá título a esta postagem é do Armindo Laureano.
Quem me leva a recitá-la é a jovem escritora Unkulu D'Papel (Numélia Baptista Tchiteculo,
ou Tchite Unculo), natural do Huambo e contando apenas 20 anos.
Conheci a Numélia num das redes sociais. A princípio desconfiei:
_ Por que quer uma adolescente tornar-se minha amiga?
Explicou que lera o meu livro e o inspirou, dai ter procurado pelo autor de "O coleccionador de pirilampos". Passei a ler os escritos dela e a dar-lhe feedback. Apercebi-me pela comunicação social e redes sociais que já tinha feito a sua estreia como autora de um livro de ficção.
Em uma mensagem que me remeteu, Unkulu D'Papel disse que "me tinha como inspirador" e remeteu o seu livro com a dedicatória a mim dirigida.
Quatro Abraços-Os passos encantados que o vento soprou pelas palavras
Muito brigado, Numélia!
domingo, 1 de junho de 2025
Jornal Angola Económico | ESCRITOR SOBERANO KANYANGA
• O que o levou a escolher a temática da motivação no ambiente de trabalho, especificamente no contexto do então Ministério da Geologia e Minas?
que podiam advir da implementação de certas medidas como o transporte para os funcionários, o seguro de saúde, o maior controlo da pontualidade, a responsabilização, a clarificação das tarefas a atribuir ao colaborador, assim como estabelecer deadlines para a conclusão de tarefas, a melhoria da remuneração e da qualidade de vida no trabalho, a formação, entre outos aspectos.
• Quais foram as principais descobertas do seu estudo de caso em relação ao impacto da falta de motivação nos colaboradores?
= A gestão deve ser proactiva e transparente; a comunicação deve ser melhorada na verticalidade e horizontalidade; a política retribuitiva (remuneração) deve ser adequada e justa; os colaboradores devem conhecer os seus direitos e deveres e os materializarem; a capacitação deve ser contínua; deve haver mobilidade interna para que o colaborador execute as tarefas que saiba e goste; a organização deve responsabilizar os incumpridores; o ambiente laboral deve ser sadio e adequado; deve haver ferramentas e equipamentos de trabalho, etc. É preciso ler o livro.
• Como define a relação entre motivação e desempenho organizacional e que evidências apresentas em seu livro para apoiar essa conexão?
= A motivação é intrinseca. O empregador/gestor cria elementos potenciadores da motivação. Trabalhador que se reveja na organização e lute por ela, que esteja consciente de que as suas rendas provêm do seu trabalho, ou seja, que é reforço e não esforço, é um trabalhador motivado. Trabalhador motivado é produtivo e feliz no local de trabalho. Quem passe mais tempo no local de trabalho do que em casa deve sentir-se feliz e gostar de ir aonde presta labor. Motivação e produtividade estão relacionadas.
• Durante o processo de pesquisa, quais desafios encontrou ao abordar a questão da motivação no sector mineiro?
= Os desafios foram muitos e começam pela excessiva ideia de que "não se pode falar sobre o trabalho ou sobre o que se faz no trabalho" (cultura do secretismo), mesmo se tratando de um estudo sociológico e com fins académicos (serviu para Pós-graduação e Mestrado). Tivemos de iniciar por obter uma autorização do Ministro Francisco Queiroz, que gostou da iniciativa e autorizou de imediato. Todavia, levei mais de seis meses para recolher uma amostra de 70 inquiridos entre uma população total de 140 colaboradores. A falsa ideia do secretismo ou o desfoque total às questões que digam respeito à melhoria de determinadas práticas administrativas são males que ainda ensombram a administração pública. Em contra-senso, aquilo que se procura esconder aos colegas sai às redes sociais, uma prática que deve ser banida. Tivemos desafios, entretanto superados, pois a vontade de terminar o estudo, para compreender cientificamente a organização e propor melhorias, assim como terminar um desiderato académico, falaram alto. Devo ressaltar o empenho dos meus liderados do GRH, em especial a Helena Cuca, que ajudou bastante na mobilização e recolha do inquérito em que participaram todos os extratos da organização. Directores, chefes de departamento, chefes de secção, técnicos superiores de diferentes categorias, técnicos, técnicos médios, administrativos, operários, todos foram inquiridos.
• Como o lema das Jornadas do Mineiro, "Mineração Responsável, Futuro Brilhante", se relaciona com os temas abordados em seu livro?
= A apresentação pública do livro esteve enquadrada nos festejos do Dia do Mineiro que, para 2025, tem o lema "Mineração Responsável, Futuro Brilhante".
• Quais são suas expectativas em relação ao impacto que sua obra pode ter na maneira como as organizações pensam sobre a motivação de seus colaboradores?
= O livro/estudo é um despertador quer para os colaboradores, quanto para os líderes. Foram levantados aspectos que, às vezes, nos passam despercebidos. Foram feitas recomendações também. O livro é por si, um começo e não um fim. As abordagens devem ser continuadas em outros prismas. Sendo resultado de um trabalho científico-académico, também pode servir de consulta a estudantes e gestores de RH.
quinta-feira, 1 de maio de 2025
"A FALTA DE MOTIVAÇÃO E IMPACTO NOS COLABORADORES" AOS OLHOS DE LÍZIA HENRIQUE
DALAI LAMA UMA VEZ DISSE “TODA ACÇÃO HUMANA, QUER SE TORNE POSITIVA OU NEGATIVA, PRECISA DEPENDER DE MOTIVAÇÃO”
Boa tarde a todos,
É com
enorme prazer que vos dou as boas-vindas a esta sessão tão especial de
lançamento do livro A FALTA DE MOTIVAÇÃO E O IMPACTO NOS COLABORADORES-
UM ESTUDO DE CASO NO MINISTÉRIO DE GEOLOGIA E MINAS, uma obra que
promete marcar não só os leitores, mas também o panorama literário nacional.
Hoje, temos a honra de
contar com a presença do seu autor, Luciano Canhanga |Soberano Kanyanga|,
uma figura que se destaca pela sua sensibilidade, dedicação à escrita e pela
forma como consegue transformar palavras em emoções vivas.
Luciano Canyanga
tem vindo a construir um percurso notável, seja através da sua escrita
envolvente, bem como da sua capacidade de observação da realidade.
Este, sempre esteve ligado
ao jornalismo e comunicação institucional, mas foi nas vestes de Director de
Recursos Humanos que se viu digamos, "forçado” a imergir nos desafios que
encontrou no então Ministério de Geologia e Minas, quando convidado a dirigir o
GRH, após colaboração em uma empresa extractiva (a Sociedade Mineira de Catoca)
Eventualmente, você
pergunte: Que desafios encontrou?
Meus senhores e minhas Senhoras estes desafios
encontram-se no livro!
O livro em destaque, aborda um tema crucial para o desempenho organizacional, especialmente no contexto do funcionalismo público angolano.
Este livro representa não
apenas uma contribuição valiosa para o campo de Recursos Humanos, mas também um
testemunho do rigor, da dedicação e da paixão que o autor deposita no seu
trabalho. Ao longo das suas páginas, somos guiados por uma análise profunda,
sustentada em investigação atualizada, metodologias sólidas e um espírito
crítico exemplar.
A pesquisa realizada revela,
que a falta de motivação é um dos principais factores que impactam
negativamente o desempenho dos colaboradores, sendo um desafio significativo
para a gestão de actividades no setor público.
Na referida pesquisa o
autor utilizou métodos quantitativos e qualitativos, incluindo questionários
aplicados a setenta funcionários, a fim de explorar as causas e consequências
da desmotivação no então Ministério de Geologia e Minas.
O estudo, realizado no
Ministério de Geologia e Minas, identifica que a ausência de políticas e acções
voltadas à motivação, como o reconhecimento, a remuneração adequada e
incentivos como o seguro de saúde e a formação, contribui para a desmotivação
dos funcionários, cujos resultados negativos para a organização todos os
gestores conhecem.
Entre as conclusões,
destaca-se o facto de a motivação estar diretamente ligada à recompensa e ao
estilo de liderança, e que as variáveis sociodemográficas influenciam os
resultados. É ainda sugerido, que as lideranças devem repensar as suas práticas
para melhorar o ambiente organizacional e a valorização dos colaboradores.
Para além do rico
conteúdo, que é uma nítida fotografia dos desafios com que se debatem muitas
das instituições públicas, para não dizer todas, o autor procurou, igualmente,
preservar a história de um colectivo de colaboradores que cada um ao seu nível,
procuraram prestar um serviço público digno e humanizado.
Hoje, infelizmente, não podemos dizer à nova
geração que no Largo António Jacinto (conhecido como largo dos Ministérios)
existiu um edifício que atendeu os Serviços de Geologia e Minas e,
posteriormente, o Ministério de Geologia e Minas, pois este edifício (mostrar a
contracapa) já não existe.
Termino com um sincero
agradecimento a Luciano Canhanga, não só pela obra que hoje nos apresenta, mas
também pelo contributo inestimável que tem dado ao desenvolvimento do
conhecimento.
Convido agora o autor a
partilhar connosco um pouco do seu processo criativo, das motivações por detrás
deste livro e, claro, do que podemos esperar ao mergulhar nesta leitura.
Muito obrigado a todos pela
presença.
Lízia Henrique
Em Luanda, aos 24 de Abril
de 2025.
quarta-feira, 2 de abril de 2025
SERÁ QUE A MATOU?!
O sol, tímido, espreitava por entre nuvens pesadas. A tarde arrastava-se como um velho cansado. Veio o frio. Gélido. Correu com as crianças e os idosos aposentados de todas as lutas para dentro de suas casas. Os casais aconchegaram-se em suas mabata, de onde, minutos depois, se ouviam sussurros religiosos soltos aos ventos:
Na festa dos sobrados, a música gritava ao vento aberto. O álcool entorpecente cantava nas veias dos presentes. Vivia-se um comunismo primitivo. Todos eram de todos, até a Feiosa. Dançavam como loucos. Mediam-se olhares e toques. Légua a légua, percorriam distâncias enquanto tarrachavam ao ritmo da música.
Ela estava lá. A mulher de olhos de fogo e passos de felino. Agressiva como uma leoa ferida. Ele também. Calmo, tranquilo, mas desperto como um grilo estridente ao pé da toca. Os olhares cruzaram-se. Não houve palavras. Apenas o silêncio cúmplice dos que sabem o que querem.
Ela pegou-lhe o martelo. Ele, sem hesitar, kibyonou-lhe o eréctil médio que percorreu aceso o córrego húmido e carente. Transbordante de desejos, puxou-o para um canto em meia luz. Prostrada, baixou a cortina e declamou doce e ciosa:
— Acaba de me matar!
Silêncio. O tempo parou. A música continuava lá fora, mas ali, naquele canto, o mundo havia suspendido a respiração. Teria ele obedecido? Teria ela sobrevivido à própria entrega?
A sexta-feira 13 não respondeu. Apenas seguiu, fria e misteriosa, como sempre.
domingo, 23 de março de 2025
AS CHALADICES DO "BEBÊ"
Nota prévia:
sexta-feira, 14 de fevereiro de 2025
Um "VIJU" NO DIA DOS NAMORADOS
(Extracto de "O relógio do Velho Trinta)
Ao chegar da viagem, no aeroporto internacional de Mwangope, uma inusitada conversa entre pai e filho atraiu a atenção de Satula que fazia contas para se desfazer, sem dinheiro, daquele recinto.
_ Pai! _ Chamou o rapaz, dez anos, mais ou menos. _ O papá não está a viajar à África do Sul por causa do seu cancro na próstata?
_ Sim filho. _ Respondeu Basílio de Melo. Sessenta anos, mais ou menos, e cabelo algodoado a embermar a pista encefálica.
_ E porquê que o papá disse ao senhor que nos saudou que tem sida, se o exame do médico diz cancro na próstata? _ Voltou a questionar o rapaz na sua inocência.
Encostado a uma parede, Satula magicava o futuro. A reflexão durante a viagem remeteu-o para um estreito desfiladeiro. “Um empresário sem urnas e, pior ainda, sem as galinhas de ovos de ouro que eram os clientes ricos da zona baixa de Mwangope”. Faminto e cansado, sentia o chão a fugir-lhe. Faltava-lhe energia para se reerguer e chegar à casa. Decidiu caminhar até se acoitar debaixo de uma árvore, das raras que enfeitavam as ruas da cidade. Fez as contas do troco no bolso e traçou o plano: “andar num azul-e-branco até à casa custa, até ao fim do percurso que separa o Aeroporto a Vila Nova, um total de $400.00, valor dividido por 4 trechos de igual valor”.
_ Tenho que me meter mesmo neste carro da kandonga, que me vejam e comentem. _ Afivelou em voz baixa.
Umas vendedeiras da zunga que o ouviram a desabafar tentaram pôr conversa fiada, apenas para entreter.
_ Como é que um tio desses, assim com barriga tipo boss, vai andar no “conta novela” [1]?
_ Hum! Deve ser só barriga de mentira. _ Disse outra para depois troçar: _ Tio compra já mebendazol e num fica só com barriga tipo és boss, afinal é ‘mbora bichas.
Satula não deu importância à falácia e seguiu o seu caminho, trocando prosas com um companheiro de desgraça até à paragem mais próxima dos machimbombos.
_ Epá! _ Disse ele para o homem ao seu lado esquerdo _ Isso agora parece que está mais p’ro inferno do que para a urbanidade!
_ Sim, meu camarada! É só ver como andam as pessoas nos carros. Todos ensardinhados e a engolir cada vez mais poeira levantada pelos veículos...
_ É mesmo! Isso anda maluco! E nós que estamos mais no interior do que na capital sofremos mais ainda.
_ Pois é. _ Replicou Kitomangombe, o seu interlocutor, que vivia ininterruptamente na capital. Porém, a semana de ausência no Nordeste, também lhe causava estranhezas.
_ E como é que vais à casa? _Perguntou ainda Kitomangombe.
_ Epá! Eu me desenrasco... De qualquer meio que aparecer. Kupapata[2] ou mesmo “avó chegou” [3], tudo serve. _ Respondeu Satula, sempre irónico.
Kitomangombe seguiu o caminho do Roda Ponteiro e Satula dirigiu-se a uma agência bancária que ladeava a estrada da Revolução Bolchevique. Estava decidido em alugar uma viatura particular caso conseguisse dinheiro. Pretendia chegar cedo à casa, onde os filhos e a amada o aguardavam esperançosos. Afinal era Dia dos Namorados.
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[1] Nome atribuído aos autocarros devido à lentidão e demora que levava os frequentadores a contarem a novela apresentada na Tv para evitar a fadiga.
[2] Motocicleta.
[3] Motorizada de três rodas; vulgarmente usada pelas idosas provenientes das lavras ou dos mercados, transportando mercadorias.
=
Publicado pelo Jornal de Angola a 16.02.2025
segunda-feira, 27 de janeiro de 2025
O "PROSTÍBULO" DO ANDRÉ
Durante os anos 90, no coração da regedoria de Kuteka, havia um gaveto discreto entre duas alas do edifício da Kuditemo Lda., o maior fornecedor de kuribotices da época. Nesse canto esquecido, funcionava um serviço público modesto, quase clandestino, onde reinava uma máquina Konica — a famigerada fotocopiadora que, com seus ruídos metálicos e cheiro de toner, parecia ter vida própria.
Ali trabalhava André Kitongo, jovem culturista de 25 anos, cuja presença era tão aguardada quanto o café da manhã. As secretárias e o pessoal do expediente dirigiam-se a ele com uma mistura de respeito e urgência. Na sua ausência, deixavam os documentos por fotocopiar sobre uma velha mesa de madeira, marcada pelo tempo e pelos cantos lascados, acompanhados de recados em post it de todas as formas e cores: corações, tiras estreitas, tons quentes e frios, verdes-alface e amarelos desbotados. Com o tempo, André desenvolveu uma habilidade quase mística de identificar o remetente e a urgência apenas pela cor e formato do papel.
Na sala, além da Konica e da mesa, havia um sofá gasto, de estofos cansados, que durante anos acolheu as horas de descanso de André. Era ali que ele repousava entre uma cópia e outra, sonhando talvez com músculos maiores ou com os mistérios por trás dos recados que recebia.
André não descartava os post it. Guardava-os com zelo numa caixinha de papelão, onde cada bilhete era uma peça de um puzzle que só ele parecia entender. Alguns eram memoráveis:
“André, quero frente e trás. Jéssica.”“Querido André, hoje quero só de trás.” – Bela.“Andrezinho, hoje tens de fazer rapidinho. Quero duas de trás.” – Rosa.“André, sem demora, estou sem muito tempo. Quero de frente. Rápido...” – Andresa.
Com o tempo, o serviço foi transferido para outro local, por conta de obras de restauro. O gaveto ficou para trás, esquecido, como um segredo mal enterrado. A caixinha permaneceu ali, entre o pó e o silêncio, testemunha muda de uma rotina que já não existia.
Vieram os tempos de abandono. O edifício, outrora funcional, tornou-se abrigo de mendigos, vagabundos e mulheres da vida. O sofá, antes trono de André, virou leito de passagem. Alguns recados, curiosamente, foram materializados — não por André, mas por outros que ali encontraram refúgio e sentido nas palavras soltas.
Anos depois, chegaram os homens da empresa restauradora. Vasculhando os escombros, encontraram a velha mesa, o sofá desbotado e, por fim, a caixa de post it. Ao lerem os bilhetes, sem qualquer contexto, imaginaram histórias que não existiam, fantasias que não eram reais. E assim, entre risos e especulações, apelidaram aquele cubículo de “prostíbulo do André”.
Mal sabiam eles que ali se escondia apenas um capítulo singelo da burocracia de outrora — um lugar onde a rotina se escrevia em cores e onde cada recado era apenas um pedido de cópia, envolto em afecto, pressa e papel adesivo.
terça-feira, 10 de dezembro de 2024
BEM-VINDO, CDA WELLCOME!
As lojas eram do povo. Os governantes também. Até os malucos tinham donos, os seus parentes que deles cuidavam e com eles se preocupavam. Havia malucos, mas não os víamos desnudados e famintos como agora. Para o acesso ao pão, faziam-se filas nos depósitos, mas os malucos também comiam.













