sexta-feira, 1 de abril de 2016

CANÇÕES DE ESTRADA


No mercado espontâneo surgido à beira da estrada, no local em que os carros que se fazem às províncias, atestam os depósitos de combustível e o estomago, o pregão dele é único. Samy corre de carro em carro com um leitor de CD e uma caixa repleta de discos pirateados na mão.

- É cê-dê origon, kota. Música de qualidade que não te deixa mal durante toda a viagem. Quem "me" compra "vorta" sempre a me procurar na próxima viagem. – Apregoa Samy.

Cabelo comprido a fazer sair uma crista que lhe percorre o ngwimbu à testa, Samy vive desse negócio há já cinco anos e com os frutos sustenta a mulher e três filhos.

- Kota - voltou a chamar-me – já ouviste esse disco (apontava para um que tinha a inscrição "rir até mostrar o último molar"?!

- Não, puto. Ainda não tenho. Mas de quem é o disco?

- É teu, kota. Passa só duzentos paus. Com cento e noventa também bate. - Regateou.

Meti a mão na algibeira e de lá saquei os Kwanzas necessários. Porém, a contra gosto, tratando-se de produto aparentemente contra feito embora o disco estivesse forrado em plástico.

- Kota, experimenta a faixa quatro. - Ordenou Samy, sorridente, enquanto ajeitava o kitadi na carteira. Liguei o rádio e fui, aos pulos, conferindo as músicas inscritas na capa, para depois as ouvir na íntegra ao longo do percurso que me leva de Luanda a Menongue.

"Se vais na província tenha cuidado. Na via do Dondo tem lá buraco. Buraco bué", soltou o rádio.

- Epá, grand´a queta. Está mesmo a condizer com o estado "caprichado" da via. Será que o cantor tem circulado por aqui todos os dias? - Interrogou um dos meus dois passageiros, sem que obtivesse de minha parte uma pronta resposta.

Eu saboreava a alegria de ter acertado na escolha do disco e o ocupante do banco de trás conferia as últimas novidades do facebook. Apenas o mais velho colocava perguntas ao longo do percurso, ou para explicar algo que tenha vivenciado no seu tempo de juventude ou perguntando sobre coisas novas com que se vai deparando pela primeira vez.

E a letra da música, que parecia ter sido feita à medida, prosseguia nos apelos à prudência: via do Dondo tem la buraco; na do Libolo tem lá buraco; da kibala bue de buraco; no Bailundo vão já cavar; toda angola está um buraco; mas a taxa já está no pontoé! – Terminava de forma satírica a canção.

Até concluir os primeiros 750quilómetros que separam Luanda das terras planálticas do “olongombe Vye”, não se ouviu outra balada que não fosse essa, do grupo humorístico "Estamos a vir" que é um retrato fiel de muitos troços das nossas estradas aí aonde a incúria de "quem de direito" ainda se faz sentir.


Do Kuito a Menongue, viajo sozinho sobre as estradas largas, rectilíneas e bem conservadas do centro e sudeste de Angola, acomodado ao volante da minha Maria Canhanga (viatura em que me faço circular). Ela comporta-se como mãe que nunca deseja que o mal se acapare do filho. Aliás, vou acompanhado do Justino Handanga instalado no leitor do meu rádio, cantando os benefícios da paz. E diz, o bom do Handanga, no seu sempre bem pronunciado umbundu "a Suku lombembwa, ndapandula avoyo!
Ndakulihile ño o misäwu yo Ndondi. Vavayela vo Mbongo. Elende vo Cipeyo. Ndamosiwila vemi lyomunda vo Hanga" (Agradeço, Senhor, pela paz que me permitiu conhecer a missão de Dondi, Vavayela/Babaera no Mbongo, Elende no Cipeyo e a montanha do Hanga…).
Embora o administrador “Andonho Kotingo tenha chorado ao ver a missão destruída e os eucaliptos secos", canta ainda Handanga,  a paz permite ter esperança de que o quadro seja revertido. E observei que aquilo que se passa no oeste (reconstrução e construção) está também a acontecer no centro de Angola onde Cachingues é u exemplo do que é começar do zero uma vila completamente arrasada pelas inúmeras refregas militares.

Em relação à agricultura, fiquei sem saber se as casas tinham sido implantadas no meio de milheiro ou este fora semeado nos espaços entre casas.

Chegado ao sudeste, o mesmo cenário inovador. Também verifiquei que ou o velo, destruído pela guerra havia sido reabilitado ou entre os escombros e próximo deles nasceram novos edifícios que conferem alegria às circunscrições. Notei que as margens das estradas estavam literalmente agricultadas de mandioca, milho, massango e massambala. Sendo milhares de hectares lavrados, desafiando a tenacidade da floresta húmida e densa.

E fiquei a pensar nos machados, buldozers e outros meios empregues para derrubar tanta árvore e fazer do bosque campos produtores de alimentos. Bons exemplos desses povos, ovimbundu e ovingangela.
Com tanta floresta, fiquei também a pensar por que razão a guerra terá sido muito renhida no Sudeste angolano, não tardando a resposta que veio logo a seguir.

- Muita mata. Muito esconderijo, até da aviação. E como se não bastasse, muita comida produzida pelos coitados dos populares que eram assaltados dias sim, semanas também pelos insurrectos sem logística militar.
Ainda bem que os tempos são outros. As florestas que serviam para o esconderijo de malfeitores dão hoje sustento a gente que trabalha, proporcionando madeira, carne de caça e mel.

Estou no sudeste, em Menongue (ex-Serpa Pinto), Cuando-Cubango, faltando-me apenas conhecer a antiga Carmona. Já vi o rio Cuebe que trespassa a cidade construída sobre as terras do Mwene Vunonge e recebi o forte abraço do simpático Carlos Bequengue da Rádio KK.
De Luanda-Dondo- Huambo-Cuito e Cuito-Menongue, a EN 140, último trajecto, me pareceu ser das melhores estradas que há em termos de transitabilidade. Tive o mesmo gozo nos trajectos Alto Hama-Huambo ou ainda Alto Hama-Cachungo-Cuito. Fiz gosto ao pé e testei a Maria (nome da Hilux vermelha que me carrega) que correspondeu em velocidade, consumo e estabilidade, fazendo-me esquecer o António (Tucson marron) que é automático.

Tri-ti-ti (alusão à guerra, música cantada por Viñi Viñi), nunca mais, nem haverá mais gente a “partir londango por causa do lukangu”, como acrescenta Kapenda Salongue.

 

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